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domingo, 10 de outubro de 2010

DOIS POEMAS DE NICANOR PARRA

XXIV

Quando os espanhóis chegaram ao Chile
mostraram-se surpreendidos
por não haver aqui ouro nem prata
neve e gravilha sim: gravilha e neve
nada que valesse a pena
os alimentos eram escassos
e dirão vocês que continuam a ser
é o que eu pretendia sublinhar
o povo chileno tem fome
sei que por pronunciar esta frase
posso ir parar a Pisagua (1)
mas o incorruptível Cristo de Elqui não pode ter
outra razão de ser senão a verdade
o general Ibáñez (2) que me perdoe
não se respeitam os direitos humanos no Chile
aqui não existe liberdade de imprensa
aqui mandam os multimilionários
o galinheiro está a cargo do raposo
claro que eu vou pedir-vos que me digam
em que país se respeitam os direitos humanos.

XXVI

Resumindo a coisa
ao tomar uma folha por uma folha
ao tomar um ramo por um ramo
ao confundir um bosque com um bosque
estamos a comportar-nos frivolamente
esta é a quintessência da minha doutrina
felizmente já começam a vislumbrar-se
os contornos exactos das coisas
e vê-se que as nuvens não são nuvens
e vê-se que os rios não são rios
e vê-se que as rochas não são rochas
são altares
……………..são cúpulas!
……………………………….são colunas!
e nós devemos dizer a missa.


Nicanor Parra, in Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1977)
Versão de HMBF


1. Localidade chilena convertida em centro de detenção pelos governos ditatoriais do séc. XX.
2. Carlos Ibáñez del Campo foi Presidente da República do Chile entre 1927 e 1931 e 1952 e 1958.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O CRISTO DE ELQUI


A poesia de Nicanor Parra foi sempre fortemente contaminada pela actualidade. Hoje em dia, tendemos a classificar uma poesia deste tipo como sendo uma poesia da realidade, mas essas classificações enfermam de um preconceito acerca da realidade. Real é tudo o que se experiencia, tudo o que possa ser provado. A linguagem é real, a imaginação é real, os sonhos são reais, o ar que respiramos é real, o silêncio, na sua natural impossibilidade, não deixa de ser real. Ora, um poema que pretenda reproduzir a realidade onírica corre o risco de ser interpretado como fantasioso, abstracto ou surrealista quando, em boa verdade, está sendo o mais fiel possível ao objecto da sua observação. Não deixa de ser realista, ainda que o seu objecto seja menos concreto do que a situação política actual (a qual se nos afigura amiudadamente feérica e absurda).

Os antipoemas de Parra encaram a realidade como algo monstruoso, uma construção do olhar, relativizam a observação, renegam estereótipos, transcendem catalogações conservadoras, desmontam velhas dicotomias. O sentido de humor que os sustenta é o de um homem em conflito com as instituições. Em 1973, Nicanor aceitou um cargo no Instituto Pedagógico que foi rapidamente abandonado devido a pressões políticas. Continuou a viver da docência, primeiro de Física, depois de Poesia na Universidad de Chile. Os dois campos acabam por se cruzar numa poesia que assume uma atitude relativista e questiona velhas fórmulas da arquitectura poética. news from nowhere, conjunto de poemas visuais publicados em 1975 na revista Manuscritos, são um óptimo exemplo desse diálogo mantido entre a Física e a Poesia (ver imagem ao alto).

Em 1976, Parra tornou-se membro da Academia Chilena de la Lengua. Por essa altura, começou a trabalhar em dois dos seus livros mais significativos: Sermones y prédicas del Cristo de Elqui (1977) e Nuevos sermones y prédicas del Cristo de Elqui (1979). São livros-sequência marcados pela presença de um pregador chileno chamado Domingo Zárate Veja, o qual havia percorrido o Chile dos anos 30 espalhando a palavra de Deus. Nicanor Parra interpreta a acção do pregador como a de um franco-atirador, actividade por excelência do antipoeta, mas também cria com ele pontos de contacto através de uma postura de «anacoreta purificado pela solidão e pela oração». Não é difícil encontrar ligações entre o pregador excêntrico e o poeta marginal.

M.ª Ángeles Pérez López caracteriza do Cristo de Elqui como «un loco inocente, un extravagante santo popular que carnavaliza la palabra sagrada, pues es “el doble local y profano de Dios”, y hace irrisión de los sermones bíblicos. Al mismo tiempo, este desheredado de la fortuna, convencido de que suyo será el reino de los cielos, es el único que puede acercarse a la verdade n tiempos de gran tribulación, el único que, por su cercania a los débiles y humildes puede sancionar las conductas en un mundo dominado por la ignorancia, la soberbia, la coerción, el escepticismo o los prejuicios nacionalistas o antihispánicos». Ambíguo, contraditório, ambivalente, paradoxal, é uma personagem que serve um dos princípios fundamentais da antipoesia de Nicanor Parra: a debilidade dos discursos ideológicos, políticos e religiosos. Fazendo-se passar por louco, o sujeito poético contorna a censura ditatorial para dizer o que não pode ser dito:

VII
Os maridos deviam fazer um curso por correspondência
se não se atrevem a fazê-lo pessoalmente
sobre os órgãos genitais da mulher
há uma grande ignorância a este respeito
quem poderá dizer-me por exemplo
qual a diferença entre vulva e vagina
não obstante consideram-se com direito a casar
como se fossem especialistas na matéria
resultado: problemas conjugais
adultério calúnias separação
e como ficam esses pobres filhos?

XIV


Mentes que apenas podem funcionar
a partir dos dados dos sentidos
idealizaram um céu zoomórfico
sem estrutura própria
simples transposição da fauna terrestre
onde pululam anjos e querubins
como se fossem aves de capoeira
inaceitável de todos os pontos de vista!
suspeito que o céu se parece mais
com um tratado de lógica simbólica
do que com uma exposição de animais.

XXIII

E estes são os desafios do Cristo de Elqui:
que levantem a mão os valentes:
em como ninguém se atreve
a beber um copo de água benta
em como ninguém é capaz
de comungar sem prévia confissão
em como ninguém se atreve
a fumar um cigarro de joelhos
galinhas poedeiras ─ galinhas poedeiras!
em como ninguém é capaz
de arrancar uma folha à Bíblia
se o papel higiénico se acabar
a ver vamos se alguém se atreve
a cuspir na bandeira chilena
teria que cuspir primeiro no meu cadáver
aposto a minha cabeça
em como ninguém se ri como eu
quando os filisteus o torturam.



Nicanor Parra, in Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1977)
Versão de HMBF

domingo, 3 de outubro de 2010

OS SETE PORQUINHOS (Hino Oficial do Movimento Ecologista)



1
Industrial e poeta capitalista
naturalmente:
………….PORCO COM COLETE

2
Agricultor sem inclinação ecológica
não há dúvida:
………….PORCO COM COLETE

3
Engenheiro
……………….ri-se da ecologia
protótipo do
………….PORCO COM COLETE

4
Comunista marxista leninista
maoísta castrista jochiminista
pinochetista refractário à informação ecológica
sinto muito:
………….PORCO COM COLETE

5
Sacerdote que fuma como morcego
sem a menor consideração pelo próximo
que me perdoe Sua Santidade
IMPERDOÁVEL
………….PORCO COM COLETE

6
Professor e conferencista
escritor
…………para mal dos seus pecados
auto-excluído da Frente Ecológica
não há volta a dar-lhe:
………….PORCO COM COLETE

7
AUTORIDADE CIVIL OU MILITAR
indiferente à realidade ecológica
deve ser desmascarada publicamente
boneco de neve
………….PORCO COM COLETE
nauseabundo porco com colete


Nicanor Parra, in Poesía Política (1983)
Versão de HMBF

Ao alto: postal de Nicanor ilustrado por Chantal de Rementeria, in Chistes Par(r)a Desorientar A La (Policía) Poesía.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

SETE

são os temas fundamentais da poesia lírica
em primeiro lugar o púbis da donzela
depois a lua cheia que é o púbis do céu
as florestas abarrotadas de pássaros
o crepúsculo que parece um cartão-postal
o instrumento músico chamado violino
e a absoluta maravilha que é um cacho de uvas.


Nicanor Parra, in Emergency Poems (1972)
Versão de HMBF

terça-feira, 14 de setembro de 2010

ABRO OUTRA GARRAFA





e continuo a dança do costume

estico uma perna
que podia perfeitamente ser braço
recolho um braço
que podia perfeitamente ser perna

dobro-me sem deixar de dançar
e desato os senhores sapatos
atiro um para lá do céu
afundo o outro debaixo da terra

agora começo a tirar a camisa

e nisto oiço o telefone a tocar
chamam-me do senhor escritório
respondo que continuarei a dançar
até que me aumentem o ordenado.



Nicanor Parra, in Emergency Poems (1972)Versão de HMBF

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

TEMPOS MODERNOS

Atravessamos tempos calamitosos
impossível falar sem incorrer em delito de contradição
impossível calar sem tornar-se cúmplice do Pentágono.
Sabe-se perfeitamente que não há alternativa possível
todos os caminhos vão dar a Cuba
mas o ar está sujo
e respirar é um acto falhado.
O inimigo diz
é o país que tem a culpa
como se os países fossem homens.
Nuvens malditas revoluteiam em torno de vulcões malditos
embarcações malditas empreendem expedições malditas
árvores malditas livram-se de pássaros malditos:
tudo contaminado de antemão.




Nicanor Parra, in Emergency Poems (1972)Versão de HMBF

terça-feira, 7 de setembro de 2010

EU NÃO SOU UM VELHO SENTIMENTAL



um bebé deixa-me totalmente frio
não tomaria nos braços um bebé
mesmo que o mundo estivesse a desabar
que cada qual se coce com as unhas que tem
aborreço-me nas festas de família
prefiro que me dêem uma bordoada na cabeça
a ter que brincar com um sobrinho
tão-pouco me impressionam os netos
quero dizer põem-me os nervos em franja
mal me vêem regressar do trabalho
atiram-se-me para cima com os braços abertos
como se eu fosse o Pai Natal
puta que os pariu!
quem terão pensado que eu sou?



Nicanor Parra, in Emergency Poems (1972)Versão de HMBF

domingo, 5 de setembro de 2010

MILITANTEMENTE ANTIMILITANTE


Em 1969, a poesia de Nicanor Parra foi reconhecida com o Prémio Nacional de Literatura. Obra gruesa, uma antologia da sua produção poética desde Poemas y antipoemas, foi publicado por essa ocasião. Aos poemas antigos juntaram-se novas secções, entre as quais La camisa de fuerza e Otros poemas. Nesses poemas encontraremos a personagem antipoética do energúmeno, «el hombre apartado o separado de la masa social por su vociferante, enajenada y agresiva actitud ante las “camisas de fuerza” que quieren imponerle las grandes construcciones ideológicas (el capitalismo, el marxismo, el cristianismo)». Um dos poemas mais representativos desta fase é A Batalha Campal. A postura política de Nicanor havia atingido um ponto de saturação crítica algo diferente da que encontramos nos poemas iniciais, tendendo agora para uma espécie de «militância antimilitante». Sem cartão partidário, o seu compromisso passa a ser contra a coerção, a corrupção da autoridade, os excessos do capitalismo. O seu dogma é antidogmático. O sarcasmo, uma ironia brutal, são os únicos ornamentos do poema. Curiosamente, será o Taller de Creación Teatral de la Universidad Católica do Chile a levar a palco uma encenação destes poemas. Posteriormente, Nicanor dedicar-se-á à arte postal. Os “artefactos” de 1972 são poemas visuais publicados sob a forma de postal. Neles se misturam vários elementos (palavra, desenho, fotografia, etc) que resultam num forte exercício epigramático. Em muitas ocasiões, o muro passará a ser a página do antipoeta e o graffiti a sua forma de expressão mais directa. Neste sentido, Nicanor Parra distancia-se, e muito, de toda a tradição poética chilena, nomeadamente do primeiro Vicente Huidobro, cuja teoria criacionista conferia à poesia e ao poeta um grau de excepcionalidade. Para Parra o poeta é um caçador de palavras, «não produz poesia, compõe poesia. Não é mais do que um ouvido atento que recolhe a sua poesia das bocas dos seus falantes. (…) Por isso o poeta viaja pelo mundo com um noticiário na mão, cheio de toda esta poesia produzida pelo colectivo». A fauna microbiana é a sua fonte, o olho microscópico o seu instrumento. Daí que Parra renegue, ou, pelo menos, desprestigie o conceito de autor. No mesmo ano em que surgem os artefactos, aparecem os Emergency poems, ou seja, 31 novos poemas a acrescentar a outros publicados na Obra gruesa. Um desses poemas, é este

NÃO ACREDITO NA VIA PACÍFICA

não acredito na via violenta
gostaria de acreditar
em algo ─mas não acredito
acreditar é crer em Deus
a única coisa que eu faço
é encolher os ombros
perdoem-me a franqueza
nem na Via Láctea eu acredito.


Ao alto: um dos artefactos do livro de 1972, que recupera um verso do poema Frases.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

ARTEFACTO



Nicanor Parra, Artefactos, 1972

A BATALHA CAMPAL


a coisa começa com um
DESFILE NOCTURNO DE ENERGÚMENOS
pelo centro da cidade:

morte sim!
funerais não!

morte sim!
funerais não!

morte sim!
funerais não!

OS ROBÔS OBSERVAM O DESFILE NOS SEUS
CARROS DE COMBATE

e continua no dia seguinte
À HORA DE PONTA
─entre a 1 e as 2 da tarde─
DEBAIXO DE UM SOL ABRASADOR
com uma
MANIFESTAÇÃO PACÍFICA DE ENERGÚMENOS
envoltos em lençóis ─com tochas e capuzes
FRENTE A UMA TENDA DE CERIMÓNIAS FÚNEBRES

Em teoria não molestam ninguém
e de facto não fazem outra coisa
senão cantar e dançar ao ritmo da cumbia
DUAS FRASES QUE REPETEM ATÉ AO INFINITO

morte sim!
funerais não!

morte sim!
funerais não!

morte sim!
funerais não!

MAS OS ROBÔS OBSERVAM ATENTAMENTE
OS ACONTECIMENTOS NOS SEUS CARROS
DE COMBATE

ao terceiro dia

OS ENERGÚMENOS
DIRIGEM-SE TRANQUILAMENTE PARA AS SUAS CASAS

após várias horas de baile desenfreado
FRENTE À MOEDA
quando aparecem em cena os robôs
e começa a batalha campal
E COMEÇA A BATALHA CAMPAL
E ..C O M E Ç A ..A ..B A T A L H A ..C A M P A L !



Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF


Duas notas: Cumbia é uma música típica da Colômbia. La Moneda é a sede da Presidência da República do Chile.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

RETRACTO-ME DE TUDO O QUE FOI DITO

Antes de me despedir
Tenho direito a um último desejo:
Generoso leitor
..........................Queima este livro
Não representa o que quis dizer
Apesar de ter sido escrito com sangue
Não representa o que quis dizer.

A minha situação não pode ser mais triste
Fui derrotado pela minha própria sombra:
As palavras vingaram-se de mim.

Perdoa-me leitor
Amistoso leitor
Que não possa despedir-me de ti
Com um abraço fiel:
Despeço-me de ti
Com um triste sorriso forçado.

Pode ser que eu não seja mais que isto
Mas escuta a minha última palavra:
Retracto-me de tudo o que foi dito.
Com a maior amargura do mundo
Retracto-me de tudo o que disse.

Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

UM HOMEM

A mãe de um homem está gravemente doente
Parte em busca do médico
Chora
Na rua vê a sua mulher acompanhada de outro homem
Vão de mão dada
Segue-os a curta distância
De árvore em árvore
Chora
Agora encontra-se com um amigo da juventude
Há anos que não nos víamos!
Vão a um bar
Conversam, riem
O homem sai para urinar no pátio
Vê uma jovem rapariga
É de noite
Ela lava os pratos
O homem aproxima-se da jovem
Agarra-a pela cintura
Dançam uma valsa
Saem juntos para a rua
Riem
Há um acidente
A rapariga perdeu os sentidos
O homem procura um telefone
Chora
Chega a uma casa com luzes
Pede o telefone
Alguém o reconhece
Senta-te a comer, homem
Não
Onde está o telefone
Come, homem, come
Vais depois
Senta-se a comer
Bebe como um condenado
Ri
Fazem-no recitar
Recita
Acaba adormecido debaixo de uma secretária.


Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]Versão de HMBF

terça-feira, 17 de agosto de 2010

CARTAS DO POETA QUE DORME NUMA CADEIRA



I
Digo as coisas tal como são
Ou sabemos tudo de antemão
Ou nunca saberemos absolutamente nada.

Só nos é permitido
Aprender a falar correctamente.

II
Sonho com mulheres a noite toda
Umas riem-se ostensivamente de mim
Outras dão-me o golpe de coelho.
Não me deixam em paz.
Estão em guerra permanente comigo.

Levanto-me com cara de trovão.

Do que se deduz que estou louco
Ou pelo menos que estou morto de susto.

III
Dá muito trabalho crer
Num deus que deixa as suas criaturas
Abandonadas à sua própria sorte
À mercê das ondas da velhice
E das doenças
Para não falar da morte.

IV
Sou dos que saúdam as carroças.

V
Jovens
...........escrevam o que quiserem
No estilo que vos pareça melhor
Correu demasiado sangue debaixo das pontes
Para continuar a crer ─ creio eu
Que só se pode seguir um caminho:
Em poesia tudo é permitido.

VI
Doença
...........Decrepitude
...............................e Morte
Dançam como donzelas inocentes
Ao redor do lago dos cisnes
Seminuas
...............ébrias
Com seus lascivos lábios de coral.

VII
Está provado
Que não há habitantes na lua

Que as cadeiras são mesas
Que as borboletas são flores em perpétuo movimento
Que a verdade é um erro colectivo
Que o espírito morre com o corpo

Está provado
Que as rugas não são cicatrizes.

VIII
De cada vez que por um ou outro motivo
Tive que descer
Da minha pequena torre de tábuas
Regressei tremendo de frio
De saudade
..................de medo
..............................de dor.

IX
Já desapareceram os eléctricos
Cortaram as árvores
O horizonte vê-se cheio de cruzamentos.

Marx foi negado sete vezes
Todavia nós continuamos por aqui.

X
Alimentar abelhas com fel
Inocular o sémen pela boca
Ajoelhar-se num charco de sangue
Espirrar na capela ardente
Ordenhar uma vaca
E deitar-lhe o seu próprio leite pela cabeça.

XI
Das nuvens carregadas do pequeno-almoço
Aos trovões da hora do almoço
E daí aos relâmpagos da comida.

XII
Não me ponho triste facilmente
Para ser sincero
Até as caveiras me fazem rir.
Saúda-as com lágrimas de sangue
O poeta que dorme numa cruz.

XIII
O dever do poeta
Consiste em superar a página em branco
Duvidando que tal seja possível.

XIV
Só me conformo com a beleza
A fealdade produz-me dor.

XV
Última vez que repito o mesmo
Os vermes são deuses
As borboletas são flores em perpétuo movimento
Dentes cariados
..........................dentes quebradiços
Sou da tempo do cinema mudo.

Fornicar é um acto literário.

XVI
Aforismos chilenos:
Todas as cores têm manchas
O telefone sabe o que diz
Nunca a tartaruga perdeu mais tempo
Do que quando teve lições da águia.
O automóvel é uma cadeira de rodas.

E o viajante que olha para trás
Corre o sério risco
De a sua sombra não querer segui-lo.

XVII
Analisar é renunciar a si mesmo
Só se pode debater em círculo
Só se vê o que se quer ver
Um nascimento nada resolve
Reconheço que me caem as lágrimas.

Um nascimento nada resolve
Só a morte diz a verdade
Mesmo a poesia não convence.
Se nos ensina que o espaço não existe.

Se nos ensina que o tempo não existe
Mas de qualquer modo
A velhice é um facto consumado.

Seja o que a ciência quiser.

Dá-me sono ler as minhas poesias
E todavia foram escritas com sangue.


Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF
(também na Di Versos n.º12, embora com algumas correcções)

sexta-feira, 30 de julho de 2010

MANIFESTO



Senhoras e senhores
Esta é a nossa última palavra
─ A nossa primeira e última palavra ─
Os poetas desceram do Olimpo.

Para os nossos maiores
A poesia foi um objecto de luxo
Mas para nós
É um artigo de primeira necessidade:
Não podemos viver sem poesia.

Ao contrário dos nossos maiores
─ E digo isto com todo o respeito ─
Nós sustentamos
Que o poeta não é um alquimista
O poeta é um homem como os outros
Um pedreiro que constrói o seu muro:
Um construtor de portas e janelas.

Nós conversamos
Com a linguagem de todos os dias
Não acreditamos em signos cabalísticos.

E mais uma coisa:
O poeta está aqui
Para que a árvore não cresça torta.

Esta é a nossa mensagem.
Nós denunciamos o poeta demiurgo
O poeta Barata
O poeta Rato de Biblioteca.
Todos estes senhores
─ E digo isto com muito respeito ─
Devem ser processados e julgados
Por construírem castelos no ar
Por desperdiçarem espaço e tempo
Redigindo sonetos à lua
Por juntarem palavras ao acaso
Conforme a última moda de Paris.
Para nós não:
O pensamento não nasce na boca
Nasce do coração no coração.

Nós repudiamos
A poesia de lentes obscuras
A poesia de capa e espada
A poesia de chapéu-de-sol.
Propomos ao contrário
A poesia a olho nu
A poesia a peito aberto
A poesia de cabeça destapada.

Não acreditamos em ninfas nem tritões.
A poesia tem de ser isto:
Uma rapariga rodeada de espigas
Ou não ser absolutamente nada.

Agora, bem, no plano político
Eles, os nossos avós imediatos,
Os nossos bons avós imediatos!,
Refractaram-se e dispersaram-se
Ao passarem pelo prisma de cristal.
Uns tantos tornaram-se comunistas.
E não sei se realmente o foram.
Suponhamos que foram comunistas,
O que sei é uma coisa:
Que não foram poetas populares,
Foram uns reverenciais poetas burgueses.

Há que dizer as coisas tal qual são:
Apenas um ou outro
Soube chegar ao coração do povo.
Sempre que puderam
Declararam-se de palavra e feito
Contra a poesia dirigida
Contra a poesia do presente
Contra a poesia proletária.

Aceitemos que foram comunistas
Mas a poesia foi um desastre:
Surrealismo em segunda mão
Decadentismo em terceira mão
Tábuas velhas devolvidas pelo mar.
Poesia adjectiva
Poesia nasal e gutural
Poesia arbitrária
Poesia copiada dos livros
Poesia baseada
Na revolução da palavra
Quando podia fundar-se
Na revolução das ideias.
Poesia de círculo vicioso
Para meia dúzia de eleitos:
«Liberdade absoluta de expressão».

Hoje benzemo-nos perguntando
Por que escreveram essas coisas
Para assustar o pequeno burguês?
Tempo miseravelmente perdido!
O pequeno burguês não reage
Senão quando se trata do estômago.

Querem assustá-lo com poesias?

A situação é esta:
Enquanto eles estavam
Por uma poesia do crepúsculo
Por uma poesia da noite
Nós propúnhamos
A poesia do amanhecer.
Esta é a nossa mensagem,
Os resplendores da poesia
Devem chegar a todos por igual
A poesia toca a todos.

Nada mais companheiros
Nós condenamos
─ E isto sim, digo-o com respeito ─
A poesia de pequenos deuses
A poesia da vaca sagrada
A poesia do touro enraivecido.

Contra a poesia das nuvens
Nós contrapomos
A poesia da terra firme
─ Cabeça fria, coração quente
Somos terrafirmistas decididos ─
Contra a poesia de café
A poesia da natureza
Contra a poesia de salão
A poesia da praça pública
A poesia de protesto social.

Os poetas desceram do Olimpo.



Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF

SIGMUND FREUD



Pássaro com as penas na boca
Já não se aguenta o psiquiatra:
Relaciona tudo com o sexo.

É das obras de Freud que vêm
As afirmações mais peregrinas.

Segundo este senhor
Os objectos de forma triangular
─ Esferográficas, pistolas, arcabuzes,
Lápis, canudos, bastões ─
Representam o sexo masculino;
Os objectos de forma circular
Representam o sexo feminino.

Mas o psiquiatra vai mais além:
Não só cilindros e cones
Quase todos os corpos geométricos
São para ele instrumentos sexuais
Até as Pirâmides do Egipto.

Mas a coisa não termina aqui
O nosso herói vai muito mais longe:
Onde nós vemos artefactos
Vemos, digamos, lâmpadas ou mesas
O psiquiatra vê pénis e vaginas.

Analisemos um caso concreto:
Um neurótico vai por uma rua
Subitamente volta a cabeça
Porque algo lhe chama a atenção
─ Uma bétula, umas calças às riscas
Um objecto que atravessa o ar ─
Na nomenclatura do psiquiatra
Isso quer dizer
Que a vida sexual do seu cliente
Anda pelas ruas da amargura.

Vemos um automóvel
Um automóvel é um símbolo fálico
Vemos um edifício em construção
Um edifício é um símbolo fálico
Convidam-nos para andar de bicicleta
A bicicleta é um símbolo fálico
Vamos acabar ao cemitério
O cemitério é um símbolo fálico
Vemos um mausoléu
O mausoléu é um símbolo fálico.

Vemos um deus cravado numa cruz
Um crucifixo é um símbolo fálico
Compramos um mapa da Argentina
Para estudar o problema das fronteiras
Toda a Argentina é um símbolo fálico
Convidam-nos para a China Popular
Mao Tse-tung é um símbolo fálico.
Para regularizar a situação
Há que dormir uma noite em Moscovo
O passaporte é um símbolo fálico
A Praça Vermelha é um símbolo fálico.

O avião deita fogo pela boca.
Comemos pão com manteiga
A manteiga é um símbolo fálico.
Descansamos um pouco num jardim
A borboleta é um símbolo fálico
O telescópio é um símbolo fálico
O biberão é um símbolo fálico.

Num capítulo diferente
Vêm as alusões à vulva.
Vamos omiti-las por decoro
Quando não a comparam a um mocho
Que representa a sabedoria
Comparam-na com sapos e com rãs.

No aeroporto de Pequim
Faz um calor infernal
Esperam-nos com flores e refrescos.
Nunca tinha visto flores tão bonitas
Desde que faço uso da razão
Nunca tinha visto gente tão amável
Desde que o mundo é mundo.
Nunca tinha visto gente tão alegre
Desde que os planetas são planetas.

Desde que fui lançado
Para fora do paraíso terrestre.

Mas voltemos ao nosso poema.

Ainda que pareça estranho
O psiquiatra tinha razão
No momento de atravessar um túnel
O artista começa a delirar.
Para começar levam-no a uma fábrica
É aí que a loucura começa.

Sintoma principal:
Relaciona tudo com o acto
Já não distingue a lua do sol
Relaciona tudo com o acto
Os pistões são órgãos sexuais
Os cilindros são órgãos sexuais
As máquinas órgãos sexuais
As manivelas órgãos sexuais,
Os altos fornos órgãos sexuais
Porcas e parafusos órgãos sexuais
Locomotivas órgãos sexuais
Embarcações órgãos sexuais.

O labirinto não tem saída.

O Ocidente é uma grande pirâmide
Que começa e termina num psiquiatra:
A pirâmide está por desmoronar.



Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF

sexta-feira, 23 de julho de 2010

MIL NOVECENTOS E TRINTA


Mil novecentos e trinta. Aqui começa uma época
Com o incêndio do dirigível R101 que caiu à terra
Envolto em negras lufadas de fumo
E em chamas que se vêem desde o outro lado do Canal
Eu não ofereço nada de especial, eu não formulo hipóteses
Eu sou apenas uma câmara fotográfica que passeia pelo deserto
Sou um tapete voador
Um registo de datas e de feitos dispersos
Uma máquina que produz uns quantos botões por minuto.

Primeiro mostro os cadáveres de Andrée e dos seus infortunados

companheiros
Que permaneceram ocultos na neve setentrional durante
meio século(1)
Para serem descobertos num dia do ano mil novecentos e trinta
Ano em que eu me situo e de certo modo sou situado
Assinalo o local preciso onde foram dominados pela tormenta
E nesse lugar o trenó que os conduziu aos braços da morte
E o bote cheio de documentos científicos
De instrumentos de observação
Cheio de víveres e de um sem-número de placas fotográficas.

De seguida remonto a um dos picos mais altos do Himalaya
Al Kanchetunga, e observo cepticamente a brigada internacional
Que tenta escalá-lo e decifrar os seus mistérios
Vejo como o vento lhes resiste várias vezes no ponto de partida
Até semear neles o desespero e a loucura
Vejo alguns deles resvalarem e caírem ao abismo
E vejo outros a lutarem entre si por umas latas de conserva.

Mas nem tudo o que vejo se reduz a forças expedicionárias:
Eu sou um museu ambulante
Uma enciclopédia que abre caminho através das ondas
Registo todos e cada um dos actos humanos
Basta que algo suceda em algum ponto do globo
Para que uma parte de mim mesmo se ponha em marcha
Nisso consiste o meu ofício
Concedo a um crime a mesma atenção que a um acto piedoso
Vibro da mesma maneira frente a uma paisagem idílica
Ou ante os raios espasmódicos de uma tempestade eléctrica
Eu não desvalorizo nem exalto nada
Limito-me a narrar o que vejo.

Vejo Mahatma Gandgi dirigir pessoalmente
As manifestações públicas contra a Lei do Sal
Vejo o Papa e os seus Cardeais afogueados de ira
Fora de si, como que possuídos por um espírito diabólico
A condenarem as perseguições religiosas da Rússia soviética
E vejo o príncipe Carol regressar a Bucareste num aeroplano
(2)
Milhares de terroristas croatas e eslovenos são executados
em massa na minha ausência
Eu deixo fazer, deixo passar
Deixo que sejam assassinados tranquilamente
E deixo que o general Carmona se agarre como uma lapa

ao trono de Portugal.

Este fui e estou é o que fui no ano de mil novecentos e trinta
Assim foram exterminados os kulaks da Sibéria
Deste modo o general Chang atravessou o rio Amarillo

e se apoderou de Pequim
Desta e não de outra maneira se cumprem as profecias
dos astrólogos
Ao ritmo da máquina de costurar da minha pobre e viúva mãe
E ao ritmo da chuva, ao ritmo dos meus próprios pés descalços
E dos meus irmãos que se coçam e falam em sonhos.

Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF



(1) Sobre a expedição árctica de S. A. Andrée, ver aqui.
(2) Carol II da Roménia. Ver aqui.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A SITUAÇÃO TORNA-SE DELICADA

Basta olhar o sol
Através de um vidro fumado
Para ver que a coisa vai mal;
Ou parece-vos que vai bem?

Eu proponho regressar
Aos coches puxados por cavalos
Ao avião a vapor
Às televisões de pedra.

Os antigos tinham razão:
Há que voltar a cozinhar a lenha.


Nicanor Parra, in La camisa de fuerza [1962-1968]
Versão de HMBF

quarta-feira, 21 de julho de 2010

TESTE



O que é um antipoeta:
Um comerciante de urnas e de ataúdes?
Um sacerdote que não crê em nada?
Um general que duvida de si mesmo?
Um vagabundo que se ri de tudo
Até da velhice e da morte?
Um interlocutor de mau carácter?
Um bailarino à beira do abismo?
Um narciso que ama todo o mundo?
Um trocista sangrento
Deliberadamente miserável?
Um poeta que dorme numa cadeira?
Um alquimista dos tempos modernos?
Um revolucionário de pacotilha?
Um pequeno burguês?
Um charlatão?
.......................Um deus?
......................................Um inocente?
Um aldeão de Santiago do Chile?
Sublinhe a frase que considere correcta.

O que é a antipoesia:
Um temporal numa chávena de chá?
Uma mancha de neve numa rocha?
Um açafate cheio de excrementos humanos
Como julga o padre Salvatierra?
Um espelho que diz a verdade?
Uma bofetada no rosto
Do Presidente da Sociedade de Escritores?
(Deus o tenha em seu santo reino)
Uma advertência aos poetas jovens?
Um ataúde a jacto?
Um ataúde a força centrífuga?
Um ataúde a gás de parafina?
Uma capela ardente sem defunto?

Marque com uma cruz
A definição que considere correcta.


Nicanor Parra, in La camisa de fuerza [1962-1968]
Versão de HMBF
(também na Di Versos n.º12, embora com ligeiras alterações)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

EU PECADOR



Eu galã imperfeito
Eu dançarino à beira do abismo,

Eu sacristão obsceno
Menino prodígio das lixeiras,

Eu sobrinho ─ eu neto
Eu fabulador dos sete instrumentos,

Eu senhor das moscas
Eu esquartejador de andorinhas,

Eu jogador de futebol
Eu nadador do Estero las Toscas, (1)

Eu profanador de tumbas
Eu Satanás enfermo de papeira,

Eu recruta remisso
Eu cidadão com direito a voto,

Eu ovelheiro do diabo
Eu pugilista vencido pela minha sombra,

Eu bebedor insigne
Eu sacerdote da boa mesa,

Eu campeão de cueca
Eu campeão absoluto de tango
De guaracha, de rumba, de valsa, (2)

Eu pastor protestante
Eu biscateiro, eu pai de família,

Eu pequeno burguês
Eu professor de ciências ocultas,

Eu comunista, eu conservador
Eu compilador de santos velhos,

(Eu turista de luxo)

Eu ladrão de galinhas
Eu dançarino imóvel no ar,

Eu verdugo sem máscara
Eu semideus egípcio com cabeça de pássaro,

Eu de pé numa rocha de cartão:
Façam-se trevas
Faça-se o caos,
..........................façam-se nuvens,

Eu delinquente nato
Apanhado em flagrante

A roubar flores à luz da lua
Peço perdão à esquerda e à direita
Mas não me declaro culpado.


Nicanor Parra, in La camisa de fuerza [1962-1968]
Versão de HMBF

(1) Principal evacuador de águas fluviais do município de Chillán.
(2) A cueca e a guaracha são danças populares sul-americanas.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

AGNUS DEI

Horizonte de terra
...............................astros de terra
Lágrimas e soluços reprimidos
Boca que cospe terra
....................................dentes moles
Corpo que não é mais do que um saco de terra
Terra com terra ─ terra com minhocas
Alma imortal ─ espírito de terra.

Cordeiro de deus que lavas os pecados do mundo
Diz-me quantas maçãs há no paraíso terrestre.

Cordeiro de deus que lavas os pecados do mundo
Se fizeres favor diz-me a hora.

Cordeiro de deus que lavas os pecados do mundo
Dá-me a tua lã para fazer uma camisola
Cordeiro de deus que lavas os pecados do mundo
Deixa-nos fornicar tranquilamente:
Não te imiscuas nesse momento sagrado.


Nicanor Parra, in La camisa de fuerza [1962-1968]
Versão de HMBF