terça-feira, 1 de dezembro de 2020
EDUARDO LOURENÇO (1923-2020)
quinta-feira, 19 de novembro de 2020
UM POEMA DE ZETHO CUNHA GONÇALVES
quarta-feira, 11 de novembro de 2020
UM POEMA DE RITA TABORDA DUARTE
segunda-feira, 9 de novembro de 2020
ARTUR DO CRUZEIRO SEIXAS (1920-2020)
sábado, 7 de novembro de 2020
UM SONETO DE JOSÉ EMÍLIO-NELSON
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
ROMANCE INTERROMPIDO
terça-feira, 3 de novembro de 2020
POETAS-VELHAS
A abjecção promovida por condições sócio-políticas será a única a explicar a vagabundagem do poeta? Sabemos que não. Artaud fugiu espavorido da democracia francesa dos anos trinta, Mayakovsky suicidou-se em plena gesta do comunismo russo. A estes dificilmente se poderá contar o conto do abjeccionismo nos termos em que, sempre ao contrário do surrealismo, faz ditosa carreira em Portugal. Precisamente: entre os «abjeccionistas» portugueses ninguém abandona o local de trabalho, ninguém descura mostrar ao vizinho o abjecto comum, ninguém mata, ninguém se mata, ninguém enlouquece entre os taraumaras. «São poetas-velhas, homens velhos dum mundo que se esfacela e se degrada».
Mário Cesariny, in Jornal do Gato - Contribuição ao saneamento do livro pacheco versus cesariny edição pirata da editorial estampa colecção direcções velhíssimas, Editado por Raul Vitorino Rodrigues, 1974, pp. 20-21.
domingo, 1 de novembro de 2020
HAMLET
domingo, 25 de outubro de 2020
DIANE DI PRIMA (1934-2020)
sábado, 24 de outubro de 2020
E EU QUERO DORMIR AO TEU LADO E FAZER-TE AS COMPRAS E CARREGAR-TE OS SACOS E DIZER-TE QUANTO ADORO ESTAR CONTIGO MAS ELES QUEREM QUE EU FAÇA COISAS ESTÚPIDAS.
e sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até tu chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasado e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpa quando estou errado e ficar feliz quando me desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssima e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegra-me quando te ris e não compreender por que é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar por que é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem eu sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum do / esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti.
Sarah Kane, in Teatro Completo, da peça Falta, tradução de Pedro Marques, Campo das Letras, 3.ª edição, Novembro de 2007, pp. 239-241.
sexta-feira, 23 de outubro de 2020
UM POEMA DE SOUSA FERNANDO
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
UM POEMA DE JOÃO HABITUALMENTE
segunda-feira, 12 de outubro de 2020
APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #8
Entre as inúmeras peripécias que se contam acerca da estreia de “Fin de partie”, há a escolha dos intérpretes que fariam de Nagg e Nell. Os ensaios decorriam com Roger Blin e Jean Martin, mas sem actores dispostos a interpretar um casal confinado em caixotes do lixo. Vários actores abordados queixaram-se a Blin que o texto era bom e seria uma honra trabalharem juntos, mas podia ser o último papel que desempenhariam em palco. Ficar para a história dentro de um caixote do lixo não era risco que se corresse. Georges Adet não pensou assim, fez de Nagg tanto em Londres como em Paris. Conta James Knowlson, in “Damned to Fame - The Life of Samuel Beckett” (Bloomsbury, 1997, p. 434): «Adet era bastante velho e desempenhou o papel sem dentadura. Ensaiava com dentes, mas, no decorrer da actuação, uma vez colocado dentro do caixote do lixo, tirava a prótese e guardava-a num lenço. Com os dentes removidos, o rosto afundava dramaticamente para dentro e o lábio inferior curvava-se na boca de um modo senil. O público costumava perguntar, com admiração e espanto, como conseguia ele alcançar aquele efeito notável, já que, chamado ao palco no fim das actuações, ressurgia com os dentes no lugar, rasgando deliberadamente um enorme sorriso durante os aplausos» (tradução minha).
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #7
“Jogo do Fim” é a versão original de Isabel Lopes para
“Fin de partie” (1957), peça que o Nobel da Literatura Samuel Beckett escreveu
em francês antes da versão inglesa “Endgame”. Posterior a “À Espera de Godot”,
era para Beckett a preferida das suas peças. Compreende-se a preferência pelo
modo como se concentram em “Jogo do Fim” todos os grandes temas beckettianos:
tempo, ser, existência, anormalidade.
No xadrez da cena jogam o rei Hamm e o peão
Clov, numa interdependência reconfiguradora das figuras de um Senhor caído em
desgraça e de um Escravo incapaz de se libertar. Nagg e Nell são as peças
tombadas para fora do tabuleiro. Sobras de um passado indefinido, espreitam do
fundo de caixotes do lixo como a memória espreita do fundo do pensamento. Num
tempo para lá do tempo, quatro personagens são o que sobra da humanidade numa
espécie de bunker, refúgio, abrigo ou covil, em torno do qual um mar de cinzas
tomou conta da natureza.
Escrita na ressaca da Segunda Grande Guerra,
sob a ameaça de um conflito nuclear, o “Jogo do Fim” é o retrato de um espaço e
de um tempo possíveis após o apocalipse. A um cessar do tempo corresponde
também a claudicação das utopias, a ausência de horizontes, a memória feita
detrito, uma espera em que o presente se joga na ausência de qualquer
perspectiva acerca do futuro.
O universo especulativo de Samuel Beckett
abre-se a inúmeras analogias com uma actualidade assaltada pela vertigem do
apocalipse, seja pelos campos de concentração onde milhares de refugiados
desesperam no vazio, seja pelos lares da nossa vergonha onde a velhice definha
lentamente. Trágica, mas ao mesmo tempo cómica, de uma ironia subtil repleta de
gagues em contexto de absoluta estranheza, é à personagem de Nell que cabe uma
síntese eventual deste jogo:
«— Nada mais ridículo do que a infelicidade, concordo contigo. Mas…»
quinta-feira, 1 de outubro de 2020
APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #6
Parece que hoje é o Dia Mundial da Música. Beckett tinha uma relação especial com a música, havendo quem diga que escrevia peças como um compositor compõe partituras. Nos seus textos encontramos diversos jogos fonéticos, o ritmo é meticulosamente medido, as modulações das personagens são de extrema importância. Colin Duckworth diz que «conhecer uma peça de Beckett é saber ou intuir como soa». Analogias do teatro beckettiano com a música não são raras. O Autor, que tocava bem piano, terá revelado aos Actores da apresentação berlinense de “Jogo do Fim” que o nome da personagem Hamm correspondia a uma abreviatura da palavra alemã Hammer, estabelecendo uma relação com os martelos de um piano, assim como Clov proviria de clavis (termo latino para key, que no inglês corresponde à tecla do piano). Thomas Mansell estabelece um paralelo entre “Jogo do Fim” e a “Hammerklavier Sonata” de Beethoven, avançando com uma fascinante explicação para a complexa relação estabelecida entre as personagens Hamm e Clov: «O dedo de um pianista — em si mesmo uma espécie de miraculoso martelo musculado — bate na tecla, que por sua vez activa o martelo». Eis o princípio da acção.
DEREK MAHON (1941-2020)
terça-feira, 29 de setembro de 2020
APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #5
Um artigo de 2013 onde se especula sobre a influência do xadrez nas peças de Samuel Beckett, nomeadamente em "Endgame" ("Jogo do Fim", na tradução de Isabel Lopes para o Teatro da Rainha). A dado momento, a grande dúvida coloca-se nos seguintes termos:
"Endgame in particular is, as the title makes clear, infused with chess. "Me – to play," announces Hamm, the king on a battered throne, at the outset. In chess, the king is the key piece around which the game revolves, yet also the most restricted and impotent, able to move only a square at a time, just like Hamm, who is shuffled round the stage by Clov, the pawn who glimpses freedom. In chess, the feeble pawn, if it can progress to the eighth rank, becomes an all-conquering queen, the true monarch of the game. Who really holds power – Hamm or Clov?"
segunda-feira, 28 de setembro de 2020
APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #4
Hamm está no centro da cena, quer estar no centro. Cego, paralítico
da cintura para baixo, quando é deslocado no seu trono com rodinhas pede a Clov
que o recoloque no centro. São inúmeras as especulações acerca do nome desta
personagem. Hamm de hammer (martelo), simbolizará a tirania e a força da
intimidação. É uma hipótese. Neste caso, é uma tirania do nada, do vazio,
arruinada. É dele a derradeira fala de “Jogo do Fim”, para nos dar poesia: «Um
pouco de poesia. (“Um tempo.”)Tu gritavas — (“Um tempo. Corrige-se.”) Tu clamavas
pela noite; ela vem — (“Um tempo. Corrige-se.”) ela cai: ei-la que chega. (“Recomeça,
entoando.”) Tu clamavas pela noite, ela cai: ei-la que chega. (“Um tempo.”) Bonito
isto.» Trata-se de uma citação do poema “Recueillement”, d’“As Flores do Mal”
de Charles Baudelaire. Ei-lo, na tradução de Fernando Pinto do Amaral:
Esperavas pela noite; ela desceu; repara
Na atmosfera obscura que envolve a cidade
Distribuindo paz e angústia pelos homens.
Açoitada pelo corrupto impetuoso dos prazeres
Vai colher mais remorsos no mundano,
Dor minha, dá-me a tua mão, vem comigo
Debruçar-se sobre as varandas do céu
Para ver surgir das águas a mágoa já inocente,
Como um longo sudário que se estende do Oriente
Ouve a noite, minha dor, ouve como se avança doce.
Charles Baudelaire, in “As Flores do Mal”, trad. Fernando Pinto do Amaral, Relógio D’Água, 2003. Na imagem, Fernando Mora Ramos ensaia Hamm. Fábio A. Costa será Clov.
quinta-feira, 24 de setembro de 2020
APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #3
Meu reino por um cavalo!
William Shakespeare, "Ricardo III"
O meu reino por um varredor!
Samuel Beckett, "Jogo do Fim"
quarta-feira, 23 de setembro de 2020
APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #2
“Jogo do Fim” coloca em cena quatro personagens, duas delas dentro de caixotes do lixo. Nell e Nagg são os progenitores de Hamm, o cego em trono decadente à volta do qual tudo gira. Alfred Simon, crítico de teatro, autor de vários livros sobre Molière e Samuel Beckett, assinou no n.º 372 da Magazine Littéraire um artigo sobre “Fin de partie”. A certa altura conta que o poeta Ezra Pound, depois de assistir em Paris a uma representação da peça de Beckett, terá dito ao apontar para um dos caixotes do lixo em cena: «Sou eu… no inferno». Comenta Simon: «Beckett vai ao fundo de um certo horror de viver, daí que o caixote do lixo onde Nell se encontra e o comentário envergonhado de Pound sejam o desfecho pesado de uma comédia carnavalesca. “Nada mais ridículo do que a infelicidade.” Beckett disse recorrentemente ser esta a fala mais importante da peça». Na imagem, os caixotes do lixo com Nell e Nagg - ainda com margem de progressão.

















