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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

EDUARDO LOURENÇO (1923-2020)

 


(...)

É humano sentir-se cansado ao fim duma obra. O nosso poeta cansou-se e adormeceu entre as patas poderosas da sua criatura. Durante a noite o vento do deserto (e todos os criadores serão conduzidos ao deserto em certas horas, como o Cristo) arrastou a areia e cobriu com ela as raízes da criatura e o seu criador. Quando veio a manhã foi assim, sem autor e desfigurada, que a obra apareceu aos outros que por acaso a encontraram no caminho. Então puseram-se a interrogá-la longamente pelo dia adiante. A interrogar o silêncio. Como admirarmo-nos se o silêncio não respondeu? Mas esses homens eram professores, críticos, gente imensamente sensata que não tem descanso enquanto não encontra um nome para se livrar de tudo quanto é grave e inquietante e para quem é grave e inquietante tudo quanto não tem um nome. Professores, no sentido de Kierkegaard. Desesperados do estranho animal silencioso, ao fim do dia concluíram estar na presença não dum enigma qualquer, mas da essência mesma do enigma. Era o mistério abrupto dum monstro sem sentido e sem autor. Seria excelente se tivessem ido embora em silêncio. Teriam respeitado o silêncio. Mas era necessário catalogar o fenómeno. Chamaram-lhe então «Esfinge» que significa «mistério». Como progresso era notável. Mas ficaram satisfeitos porque imaginaram com razão que o seu autor (se tinha autor) não encontrara um nome para a sua obra. Na verdade ninguém tem nome para si próprio. O resto é a história banal dum equívoco com excelente propaganda como é o dos professores. Eles desertaram o deserto para anunciar por toda a parte que surgira um enigma novo. Como poderiam imaginar (esses homens sem imaginação) que a resposta ao sorriso feminino da obra jazia sob eles, no poeta adormecido por uma só noite em que não pôde vigiar a sua criatura?

(...)

Eduardo Lourenço, in Tempo e Poesia, Relógio D'Água, 1987, pp. 29-30.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

UM POEMA DE ZETHO CUNHA GONÇALVES

 


OS LEÕES DA MESMA LEOA
[Tradição oral Sessouto]

Os leões da mesma leoa
conhecem-se.

Um homem cai
com a sua sombra.

Um leopardo morre
com as suas cores.

Cão sem orelhas,
mau caçador.

Zetho Cunha Gonçalves, in O Leopardo Morre Com as Suas Cores, Literaturas Afrikanas, 2018, s/p.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

UM POEMA DE RITA TABORDA DUARTE


 

AGRICULTURA

Sempre se estranha   a agricultura   na cidade

trabalho árduo   pertence às velhas           :
de um negro oculto   pelo cedo vizinho
                                                   da manhã.
semeiam milho
mais sementes esboroadas  ;
pão                      e               broa
pousam por terra
na herança estreita e última
entre as inférteis pedras do calcário.

na tarde regada a sombra e sol
nascem pombos   arvorados
roucos no bico
   ...penas nas asas.



Rita Taborda Duarte, in Poética Breve, Black Sun Editores, Julho de 1998, p. 24

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

ARTUR DO CRUZEIRO SEIXAS (1920-2020)


O Questionário de Proust

O principal atributo do seu carácter?
A ingenuidade, mantida a todo o custo.

Que qualidades mais aprecia no homem?
A inteligência e a sensibilidade, que o conduzirão à Liberdade.

Que qualidades prefere na mulher?
Que seja boa mãe, sendo inteligente, sensível e livre.

Que mais valoriza nos amigos?
Que sejam de facto amigos; entre amigos deve haver lealdade e não hipocrisia.

O seu principal defeito?
Não ser facilmente sociável.

A sua ocupação favorita?
Olhar; é pelos olhos que quasi tudo penetra em mim.

O seu sonho de felicidade?
Acabar com as guerras, como algumas a que tenho assistido, que afinal não justificam os sacrifícios humanos.

Qual seria a sua maior infelicidade?
Que o mundo não saísse rapidamente deste terrível impasse.

Quem gostaria de ter sido?
Não invejo ninguém, e vivo apaixonadamente.

Onde gostaria de viver?
Num sítio isolado junto ao mar.

Que cor prefere?
Todas, puras e impuras.

A sua flor preferida?
As flores do campo.

O seu pássaro preferido?
Todos.

Os seus prosadores favoritos?
No espaço deste questionário prefiro Dostoievski, e o nosso Camilo Castelo Branco.

Os seus poetas favoritos?
No espaço deste questionário apenas refiro Rimbaud, Lautréamont, Cesário Verde, Mário Cesariny, Herberto Helder...

Os seus heróis da ficção?

As suas heroínas da ficção?

Os seus compositores favoritos?
Bach.

Os pintores?
Muito resumidamente, Piero Della Francesca, Grunewald, Bosch, Patinir, Blake, Goya, Cesanne, Kandinsky, Simbolistas, Picasso, Miró, Amadeu de Souza Cardoso, António Quadros, Mário Eloy, etc.

Os heróis da vida real?
Os loucos que não sejam fingidos.

As heroínas da história?

Quais os seus nomes favoritos?
António, João, Victor, Manuel...

A sua aversão de estimação?
A cobardia perante a vida, o calculista, a ânsia do dinheiro.

Acontecimentos históricos que mais o desagradam?
As escravaturas que ainda existem.

O dom da natureza que mais gostaria de ter?
Voar, e ter a força suficiente para levar comigo mais alguém.

Como gostaria de morrer?
Diluído na atmosfera.

Qual o seu actual estado de espírito?
A desejar e temer a morte.

Que falhas lhe inspiram maior tolerância?
A ignorância, que pode ser uma forma de saber.

A sua divisa?
Liberdade para todos.


In Apeadeiro, revista de atitudes literárias, números 4 e 5, Inverno de 2004, direcção de valter hugo mãe e Jorge Reis-Sá, Quasi Edições, Janeiro de 2004, pp. 57-61. No mesmo dossier constam conteúdos diversos, entre os quais uma entrevista por Maria Augusta Silva. A dado momento, isto:

Enquanto artista, sente-se maltratado pelo seu país?
Imenso. Neste país é preciso andar atrás dos ministros e isso não faço; é preciso darmo-nos com gente importante e não me dou nem a procuro, e muito menos políticos. Ao longo da vida conheci pessoas importantes, algumas amáveis, com quem tive ou tenho uma relação civilizada.

Marginalizado?
De certo modo, mas nem será por mal. Um elefante põe a pata em cima de uma formiga e nem sabe que está a pisar a formiga.

É na página 26.


sábado, 7 de novembro de 2020

UM SONETO DE JOSÉ EMÍLIO-NELSON

 


SONETO VII

Da esquina das avenidas, nas tintas,
A escumalha e as raparigas esfumadas.
Os cães, dia de raça, empilham-se nas latas
E derrubam as tralhas enlameadas, indigentes.

Estrambólicos, cadáveres com saia curta, praguejam
Aos peões que cruzam a berma, fatigados,
E lhes deitam a vianda rosada, denteada.
E ainda assim os tilintam, moedeiros falsos.

Saúdo os que vigiam, à paisana, esfalfados,
E nos garantem a bonança, céu lilás, a forçá-los,
E os varrem para escoadouro das águas.

Infectam a cidade com as serapilheiras.
Por isso dêem-lhes, na doçura do clima,
Um chafariz camarário de creolina.


José Emílio-Nelson, in Sonetos Glaucos, Debout Sur l'Oeuf, Agosto de 2020, p. 11.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

ROMANCE INTERROMPIDO


 

Ao Manuel Ferreira
e ao Alexandre Cabral

Lá fora,
para além das grades que cerram os olhos dos sitiados,
a vida não pára de oferecer o amanhã dos dias futuros
e o progresso irrompe das próprias injustiças.
Pombas brancas, azuis, cinzentas, negras,
pombas de todas as cores,
constroem seus ninhos nos telhados
e transmitem aos homens mensagens de Paz,
num esvoaçar de esperanças...
Lá fora,
as tempestades agitam o Mundo;
o sangue dos mutilados mistura-se nas águas dos rios:
os corações despertam para a longa caminhada.
Eh!... vagabundos de todos os caminhos:
acordai!
A noite terminou. Desponta a madrugada.
Vinde!
Não fiqueis fechados
nos destroços disfarçados
da curva da estrada. 

Domingos Carvalho, in Charneca do Monte Agreste, capa e vinhetas de Figueiredo Sobral, Edição da Empresa de Publicidade «Seara Nova», Março de 1959, pp. 58-59.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

POETAS-VELHAS


 

A abjecção promovida por condições sócio-políticas será a única a explicar a vagabundagem do poeta? Sabemos que não. Artaud fugiu espavorido da democracia francesa dos anos trinta, Mayakovsky suicidou-se em plena gesta do comunismo russo. A estes dificilmente se poderá contar o conto do abjeccionismo nos termos em que, sempre ao contrário do surrealismo, faz ditosa carreira em Portugal. Precisamente: entre os «abjeccionistas» portugueses ninguém abandona o local de trabalho, ninguém descura mostrar ao vizinho o abjecto comum, ninguém mata, ninguém se mata, ninguém enlouquece entre os taraumaras. «São poetas-velhas, homens velhos dum mundo que se esfacela e se degrada».


Mário Cesariny, in Jornal do Gato - Contribuição ao saneamento do livro pacheco versus cesariny edição pirata da editorial estampa colecção direcções velhíssimas, Editado por Raul Vitorino Rodrigues, 1974, pp. 20-21.

domingo, 1 de novembro de 2020

HAMLET

 


HAMLET
Ser ou não ser, eis a questão. Qual será o partido mais nobre? Suportar as pedradas e as frechadas da fortuna cruel ou pegar em armas contra um mundo de dores e acabar com elas, resistindo? Morrer, dormir, nada mais; dizer que pelo sono poderemos curar um mal do coração e os mil acidentes naturais a que a nossa carne está sujeita é, na verdade, um desenlace que todos nós fervorosamente podemos desejar. Morrer! dormir; dormir, sonhar talvez? Sim, aqui está o ponto de interrogação; quais são os sonhos que teremos no sono da morte, quando escaparmos a esta tormenta da vida? Isto obriga-nos a reflectir. É tal reflexão que prolonga por tão largo tempo a vida do miserável; quem quereria suportar, na realidade, as chicotadas e os desprezos dos tempos que vão correndo, as injustiças do déspota, as afrontas do orgulhoso, as torturas do amor incompreendido, os vagares da justiça, a indolência dos poderosos, os pontapés que o mérito paciente recebe dos indignos, quando para si mesmo podia alcançar a paz com a simples ponta dum punhal? Quem quereria gemer, suar sob o peso duma vida de canseiras, sem receio de alguma coisa depois da morte, essa região desconhecida de onde nenhum viajante volta? Eis o que embaraça a vontade e nos decide a suportar os males de que sofremos, com medo de irmos encontrar outros que não conhecemos. É assim que a consciência faz cobardes de nós todos; é assim que as cores naturais da nossa resolução mais firme empalidecem perante o frouxo clarão do pensamento doentio e os projectos de grande alcance e de grande importância, graças a esta consideração, mudam de rumo e voltam ao nada da imaginação. Mas... silêncio! Ofélia! Bela Ofélia! Ninfa, lembra-te dos meus pecados nas tuas orações!

OFÉLIA
Meu bom senhor, como passa Vossa Honra? Há quanto tempo não vos vejo!


William Shakespeare, in Hamlet, trad. Dr. Domingos Ramos, MEL Editores, Junho de 2009, p. 120.

domingo, 25 de outubro de 2020

DIANE DI PRIMA (1934-2020)

 


  Nasceu em Brooklyn, Nova Iorque, no dia 6 de Agosto de 1934. A inclinação para a poesia revelou-se muito cedo, embora tenha publicado o primeiro livro apenas em 1958. This Kind of Bird Flies Backward, o tal que não podia ser edItado porque ninguém aceitaria o calão das ruas num poema, apareceu na Totem Press de Hetti e LeRoi Jones. Foi amante deste, tiveram um filho, pariram 21 números da revista The Floating Bear entre 1961 e 1963. Isto foi antes de LeRoi mudar o nome para Amiri Baraka na sequência do assassinato de Malcolm X. E foi antes de Diane se mudar para a Califórnia, juntando-se aos Diggers de Emmett Grogan e Peter Coyote (esse mesmo, o actor).
   Porém, Diane di Prima acabaria por ficar conhecida pelo envolvimento no movimento Beat, de que deu conta nas suas Memórias de uma Beatnik (1969), traduzidas para português por Maria Augusta Júdice e publicadas pela Editorial Teorema em Maio de 1999. Memórias ficcionadas, de fortíssimo cariz erótico, com uma casa na West Village a servir de cenário para todo o tipo de aventuras sexuais. Crendo no que relata num dos capítulos finais, foi a leitura de O Uivo que a levou ao grupo de Ginsberg. Dos primeiros tempos diz: «Tínhamos passado por uma grande variedade de brincadeiras estéticas: pequenas revistas que não tínhamos dinheiro para pagar, projectos de teatro em gigantescas águas-furtadas que nunca se concretizaram, uma visita minha e da Susan a Ezra Pound, que queria que mudássemos sozinhas a natureza da programação da televisão nacional» (p. 157).
   Uma frase sintetiza o sentimento geral da juventude norte-americana daquele período: «Naquela altura, parecia não haver saída» (p. 159). A saída encontrou-a Diane na leitura de O Uivo, seguida de um primeiro encontro com Ginsberg e Kerouac que acabou em orgia com muita erva e haxixe à mistura. Amor e liberdade são os princípios pelos quais se regem as memórias, testemunho imprescindível de uma geração e do papel que uma mulher pôde nela desempenhar. Tornou-se budista, como era suposto, e foi para as ruas protestar contra a guerra no Vietname. 
   Durante a década de 1980 dedicou-se ao estudo e ao ensino das relações entre poesia e esoterismo, investindo também desde então numa luta constante pelos direitos das minorias e contra o preconceito. Publicou mais de trinta livros ao longo da sua vida, muitos deles na City Lights de Lawrence Ferlinghetti. Que saibamos, não há muito dela em língua portuguesa. Manuel de Seabra incluiu-a na Antologia da Novíssima Poesia Norte-Americana (Editorial Futura, 1973) com dois poemas. Um deles está aqui, o outro é este:
 
O VISITANTE
 
Bem disse ele então és o Lee. Estava de pé à porta.
Sim disse eu. Não o conhecia. Sou o Lee.
Queria conhecer-te disse ele. A Jackie falou-me de ti.
Oh disse eu. Entra.
Ele entrou e sentou-se na cama.
A miúda lá em Rockland disse eu. Como está ela.
Bem disse ele. Sorriu. A sério está mesmo bem. Gosta daquilo por lá disse ele.
Bem disse eu. Ele metia-me medo. Oiça disse eu sobre o que é que me queria falar.
Foi lá que encontrei a Jackie disse ele. Em Rockland. Terapia ocupacional. Fizemos coisas.
Oh disse eu.
Tu escreves poesia disse ele. Olhou para mim.
Sim disse eu.
A Jackie mostrou-me alguma poesia que tu escreveste disse ele. Mandaste-lhe uma carta.
Sim? disse eu. Não me lembrava.
Ele disse sim mandaste-lhe. Depois ele disse porque é que escreves poesia.
Não disse nada. Tinha deixado de pensar nisso há muito tempo.
Eu costumava escrever poesia disse ele.
Sim? disse eu.
Sim disse ele. Costumava escrever dia e noite.
Porque paraste? disse eu. Não sabia que dizer mais.
Queimei tudo disse ele. Antes de ir para Rockland.
Oh disse eu.
A Jackie deu-me a tua morada disse ele. Estava no envelope.
Depois ele disse não consigo perceber porque é que alguém faz seja o que for.
Eu disse merda pá é preciso fazer qualquer coisa. Disse aquilo muito alto.
Ficou ali sentado um bocado. Estava a escurecer. Acendi todas as luzes da casa.
Depois disse ele comecei outra vez.
Sim? disse eu.
Sim disse ele. Às vezes tem que ser. Não posso evitar. Depois ele disse agora ainda não queimei nada.
Belo disse eu. Pensei que ainda falava de poesia. Gostava de ler alguma coisa.
Talvez para quando arranjar emprego disse ele. Achas que sim?
Não disse nada.
Espero que sim disse ele é tão estúpido escrever.
Gostava realmente de ver a tua poesia disse-lhe eu.
É muito amável disse ele. Eu gostei da tua. Jackie mostrou-ma.
Levantou-se e vestiu o casado. Ontem escrevi bastante disse ele. Catorze horas.
Foi até à porta. Penso que vou parar não tarda disse ele ou então queimo tudo outra vez. Como que riu.
Abri-lhe a porta.
Talvez queime tudo outra vez disse ele.
Traga-me alguma coisa qualquer dia disse eu. Gostava de ler.
Ele estava no patamar mas parou e olhou para mim.
Gostava mesmo de ler qualquer coisa disse-lhe eu.
Sim disse ele.
 
Outras referências a Diane di Prima neste weblog: aqui, sobre beijos; aqui, à laia de parabéns. 

sábado, 24 de outubro de 2020

E EU QUERO DORMIR AO TEU LADO E FAZER-TE AS COMPRAS E CARREGAR-TE OS SACOS E DIZER-TE QUANTO ADORO ESTAR CONTIGO MAS ELES QUEREM QUE EU FAÇA COISAS ESTÚPIDAS.


E eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer que gosto dos teus sapatos e sentar-me nos degraus enquanto tu tomas banho e massajar o teu pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me contigo no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas e carregar as tuas caixas e rir da tua paranóia e dar-te cassetes que tu não ouves e ver filmes óptimos, ver filmes horríveis e queixar-me da rádio e tirar-te fotografias a dormir e levantar-me para te ir buscar café e brioches e folhados e ir ao Florent beber café à meia-noite e tu a roubares-me os cigarros e a nunca conseguir achar sequer um fósforo e falar-te sobre o programa de televisão que vi na noite anterior e levar-te ao oftalmologista e não rir das tuas piadas e querer-te de manhã mas deixar-te dormir um bocado e beijar-te as costas e tocar na tua pele e dizer quanto gosto do teu cabelo dos teus olhos dos teus lábios do teu pescoço dos teus peitos do teu rabo do teu

e sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até tu chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasado e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpa quando estou errado e ficar feliz quando me desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssima e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegra-me quando te ris e não compreender por que é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar por que é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem eu sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum  do / esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti.


Sarah Kane, in Teatro Completo, da peça Falta, tradução de Pedro Marques, Campo das Letras, 3.ª edição, Novembro de 2007, pp. 239-241.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

UM POEMA DE SOUSA FERNANDO


 

MELÂNQUICO 1

tu não existência taciturna tu não
que nasceste tão cedo com o vento
tu não

netos que vindes
clamo-vos esta fúria de ser vivo
de ser só
ser ateu

CRU
como é mórbido aclimatar-te.


Sousa Fernando, Melânquico, Livros sem Editor (Orientação de José de Matos-Cruz), Coimbra, 1970, p. 7.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

UM POEMA DE JOÃO HABITUALMENTE

 


A QUEDA DO GOVERNO

isto está tão bom
que tanto faz

pois é
o governo anterior não fez
já não há que pôr no prato
já não há que pôr no prego
combater o desemprego?
mas se o anterior não fez
pelo menos é o que este diz

isto está tão mau
que tanto faz o que se diz
que tanto faz quem fez
o governo que aí vem
é o futuro em marcha atrás
é o passado outra vez
é o anda nem desanda
já não há que pôr no prego
vou virar o bico ao prato
está a subir o desemprego
e a estalar o desacato
bem vês
ninguém põe os pontos nos iis
tanto faz o que se diz
tanto faz o que se fez
o governo caiu ontem
perco a mulher outra vez
queremos medidas de fundo
e um prego
e um prato
um pensamento profundo
um ministro embalsamado
um chouriço, um presunto
um doido bem penteado
e um careca varrido.
o que se faz
o que se diz
que o governo não fez
nem hoje nem há um mês
oh!, mas não vás
olha-me ali pr'aqueles cus
o quê? Tanto te faz?
ai o governo quer bis?
ora bolas! Mas bem vês
não há mas nem meio mas
ainda perco o emprego
hei de comer-te no prato
hás de te espetar no prego
ora mostra lá o umbigo
para quê? Isso é comigo
espera-me ali no café
espera-me no lá-de-lá
não te esqueças vai votar
neste que diz que fez
naquele que diz que faz
no outro que faz que diz
agarra-te a uma voz
vai até ao infinito
agarra-te a um pau de giz
come chouriço e presunto
olha a queda do governo
olha o tombo do defunto
canta lá uma cantiga
grândolavilamorena

João Habitualmente, in Um dia tudo isto será meu [uma antologia], Porto Editora, Setembro de 2019, pp. 137-139.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #8


 

Entre as inúmeras peripécias que se contam acerca da estreia de “Fin de partie”, há a escolha dos intérpretes que fariam de Nagg e Nell. Os ensaios decorriam com Roger Blin e Jean Martin, mas sem actores dispostos a interpretar um casal confinado em caixotes do lixo. Vários actores abordados queixaram-se a Blin que o texto era bom e seria uma honra trabalharem juntos, mas podia ser o último papel que desempenhariam em palco. Ficar para a história dentro de um caixote do lixo não era risco que se corresse. Georges Adet não pensou assim, fez de Nagg tanto em Londres como em Paris. Conta James Knowlson, in “Damned to Fame - The Life of Samuel Beckett” (Bloomsbury, 1997, p. 434): «Adet era bastante velho e desempenhou o papel sem dentadura. Ensaiava com dentes, mas, no decorrer da actuação, uma vez colocado dentro do caixote do lixo, tirava a prótese e guardava-a num lenço. Com os dentes removidos, o rosto afundava dramaticamente para dentro e o lábio inferior curvava-se na boca de um modo senil. O público costumava perguntar, com admiração e espanto, como conseguia ele alcançar aquele efeito notável, já que, chamado ao palco no fim das actuações, ressurgia com os dentes no lugar, rasgando deliberadamente um enorme sorriso durante os aplausos» (tradução minha).

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #7

 

“Jogo do Fim” é a versão original de Isabel Lopes para “Fin de partie” (1957), peça que o Nobel da Literatura Samuel Beckett escreveu em francês antes da versão inglesa “Endgame”. Posterior a “À Espera de Godot”, era para Beckett a preferida das suas peças. Compreende-se a preferência pelo modo como se concentram em “Jogo do Fim” todos os grandes temas beckettianos: tempo, ser, existência, anormalidade.

   No xadrez da cena jogam o rei Hamm e o peão Clov, numa interdependência reconfiguradora das figuras de um Senhor caído em desgraça e de um Escravo incapaz de se libertar. Nagg e Nell são as peças tombadas para fora do tabuleiro. Sobras de um passado indefinido, espreitam do fundo de caixotes do lixo como a memória espreita do fundo do pensamento. Num tempo para lá do tempo, quatro personagens são o que sobra da humanidade numa espécie de bunker, refúgio, abrigo ou covil, em torno do qual um mar de cinzas tomou conta da natureza.

   Escrita na ressaca da Segunda Grande Guerra, sob a ameaça de um conflito nuclear, o “Jogo do Fim” é o retrato de um espaço e de um tempo possíveis após o apocalipse. A um cessar do tempo corresponde também a claudicação das utopias, a ausência de horizontes, a memória feita detrito, uma espera em que o presente se joga na ausência de qualquer perspectiva acerca do futuro.

   O universo especulativo de Samuel Beckett abre-se a inúmeras analogias com uma actualidade assaltada pela vertigem do apocalipse, seja pelos campos de concentração onde milhares de refugiados desesperam no vazio, seja pelos lares da nossa vergonha onde a velhice definha lentamente. Trágica, mas ao mesmo tempo cómica, de uma ironia subtil repleta de gagues em contexto de absoluta estranheza, é à personagem de Nell que cabe uma síntese eventual deste jogo:

 

«— Nada mais ridículo do que a infelicidade, concordo contigo. Mas…»

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #6

 


Parece que hoje é o Dia Mundial da Música. Beckett tinha uma relação especial com a música, havendo quem diga que escrevia peças como um compositor compõe partituras. Nos seus textos encontramos diversos jogos fonéticos, o ritmo é meticulosamente medido, as modulações das personagens são de extrema importância. Colin Duckworth diz que «conhecer uma peça de Beckett é saber ou intuir como soa». Analogias do teatro beckettiano com a música não são raras. O Autor, que tocava bem piano, terá revelado aos Actores da apresentação berlinense de “Jogo do Fim” que o nome da personagem Hamm correspondia a uma abreviatura da palavra alemã Hammer, estabelecendo uma relação com os martelos de um piano, assim como Clov proviria de clavis (termo latino para key, que no inglês corresponde à tecla do piano). Thomas Mansell estabelece um paralelo entre “Jogo do Fim” e a “Hammerklavier Sonata” de Beethoven, avançando com uma fascinante explicação para a complexa relação estabelecida entre as personagens Hamm e Clov: «O dedo de um pianista — em si mesmo uma espécie de miraculoso martelo musculado — bate na tecla, que por sua vez activa o martelo». Eis o princípio da acção.

DEREK MAHON (1941-2020)


 

Morreu Derek Mahon (23 November 1941 – 1 October 2020), extraordinário poeta irlandês, natural de Belfast. Estreou-se em 1965, recebendo vários prémios ao longo da vida. Já este ano foi galardoado com o Prémio Irish Times Poetry Now. Acabei de mudar para português um poema seu, à laia de homenagem, proveniente do livro "The Snow Party" (1975). Espero que o poeta me perdoe, lá onde estiver:

FESTA DA NEVE

para Louis Asekoff

Chegando à cidade
de Nagoya, Bashô é convidado
para uma Festa da Neve.

Há um tilintar de porcelana
e chá da China.
As apresentações são feitas.

Ajuntam-se então
todos à janela
para verem a neve cair.

A neve cai em Nagoya
e mais a sul
nos azulejos de Quioto.

A leste, para lá de Irago,
a neve cai
como folhas num mar de gelo.

Noutros lugares queimam
bruxas e hereges
em praças efervescentes,

milhares morreram desde o amanhecer
ao serviço
de reis bárbaros;

mas há silêncio
nas casas de Nagoya
e nas colinas de Ise.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #5

Um artigo de 2013 onde se especula sobre a influência do xadrez nas peças de Samuel Beckett, nomeadamente em "Endgame" ("Jogo do Fim", na tradução de Isabel Lopes para o Teatro da Rainha). A dado momento, a grande dúvida coloca-se nos seguintes termos:

"Endgame in particular is, as the title makes clear, infused with chess. "Me – to play," announces Hamm, the king on a battered throne, at the outset. In chess, the king is the key piece around which the game revolves, yet also the most restricted and impotent, able to move only a square at a time, just like Hamm, who is shuffled round the stage by Clov, the pawn who glimpses freedom. In chess, the feeble pawn, if it can progress to the eighth rank, becomes an all-conquering queen, the true monarch of the game. Who really holds power – Hamm or Clov?"

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #4


 

Hamm está no centro da cena, quer estar no centro. Cego, paralítico da cintura para baixo, quando é deslocado no seu trono com rodinhas pede a Clov que o recoloque no centro. São inúmeras as especulações acerca do nome desta personagem. Hamm de hammer (martelo), simbolizará a tirania e a força da intimidação. É uma hipótese. Neste caso, é uma tirania do nada, do vazio, arruinada. É dele a derradeira fala de “Jogo do Fim”, para nos dar poesia: «Um pouco de poesia. (“Um tempo.”)Tu gritavas — (“Um tempo. Corrige-se.”) Tu clamavas pela noite; ela vem — (“Um tempo. Corrige-se.”) ela cai: ei-la que chega. (“Recomeça, entoando.”) Tu clamavas pela noite, ela cai: ei-la que chega. (“Um tempo.”) Bonito isto.» Trata-se de uma citação do poema “Recueillement”, d’“As Flores do Mal” de Charles Baudelaire. Ei-lo, na tradução de Fernando Pinto do Amaral:

 

RECOLHIMENTO
 
Ó dor que te agitas, está calma em mim.
Esperavas pela noite; ela desceu; repara
Na atmosfera obscura que envolve a cidade
Distribuindo paz e angústia pelos homens.
 
Enquanto a turba fútil dos saudáveis,
Açoitada pelo corrupto impetuoso dos prazeres
Vai colher mais remorsos no mundano,
Dor minha, dá-me a tua mão, vem comigo
 
Noutra direcção. Vamos ver o tempo fora de moda
Debruçar-se sobre as varandas do céu
Para ver surgir das águas a mágoa já inocente,
 
E ver o sol findo adormecer seu tesouro luminoso.
Como um longo sudário que se estende do Oriente
Ouve a noite, minha dor, ouve como se avança doce.

 

Charles Baudelaire, in “As Flores do Mal”, trad. Fernando Pinto do Amaral, Relógio D’Água, 2003. Na imagem, Fernando Mora Ramos ensaia Hamm. Fábio A. Costa será Clov.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #3


 

Meu reino por um cavalo!

William Shakespeare, "Ricardo III"

 

O meu reino por um varredor!

Samuel Beckett, "Jogo do Fim"

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #2

 


“Jogo do Fim” coloca em cena quatro personagens, duas delas dentro de caixotes do lixo. Nell e Nagg são os progenitores de Hamm, o cego em trono decadente à volta do qual tudo gira. Alfred Simon, crítico de teatro, autor de vários livros sobre Molière e Samuel Beckett, assinou no n.º 372 da Magazine Littéraire um artigo sobre “Fin de partie”. A certa altura conta que o poeta Ezra Pound, depois de assistir em Paris a uma representação da peça de Beckett, terá dito ao apontar para um dos caixotes do lixo em cena: «Sou eu… no inferno». Comenta Simon: «Beckett vai ao fundo de um certo horror de viver, daí que o caixote do lixo onde Nell se encontra e o comentário envergonhado de Pound sejam o desfecho pesado de uma comédia carnavalesca. “Nada mais ridículo do que a infelicidade.” Beckett disse recorrentemente ser esta a fala mais importante da peça». Na imagem, os caixotes do lixo com Nell e Nagg - ainda com margem de progressão.