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terça-feira, 9 de dezembro de 2014
quarta-feira, 16 de julho de 2014
«Porque é que, diz Aristóteles nos seus Problemas, não é propício ao acto sexual ter os pés frios?»
Av. Marechal Gomes da Costa, Lisboa. 2012.
Caída a máscara, afigurou-se de uma absoluta evidência ao Supermacho que, embora possuísse, desde há dois dias, Ellen, totalmente nua, jamais a vira antes, mesmo sem a máscara.
Jamais a teria visto, se ela não tivesse morrido. Os pródigos tornam-se geralmente avaros no preciso momento em que se apercebem de que o seu tesouro se acha delapidado.
O Supermacho não tornaria a ver Ellen, cuja forma regressaria, pelas contracções musculares que precedem a decomposição, àquilo que foi anterior à forma. Nunca se interrogara a si próprio sobre se a amara ou se ela seria bela.
A frase que dera origem a essa prodigiosa aventura representou-se ao seu espírito tal como, personagem voluntariamente boçal e estúpida, ele por capricho a havia proferido:
- O amor é um acto sem importância, uma vez que pode ser feito indefinidamente.
Indefinidamente...
Sim. Havia um fim.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Alfred Jarry.
quarta-feira, 9 de julho de 2014
«Mas porquê esta canção / Tarada e quase bucólica?»
Calçada da Glória, Lisboa. 2012.
O XERIFE
Trouxeram um esquife
E meteram-no dentro
Com ordem do xerife
P'ra bom isolamento.
Antes ali xerife
Do que em cidades foscas
No género de Lisboa:
Pasmo, calor e moscas.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Cristovam Pavia.
segunda-feira, 19 de maio de 2014
«Diga: está arrependido dos seus maus pensamentos?»
Torel, Lisboa. 2012.
Entrei na primeira igreja e confessei-me ao primeiro padre que encontrei.
«Padre. Além do que lhe disse, apareceu-me o diabo.»
«Meu filho, deixe-se disso. (...)»
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Ruy Cinatti
sexta-feira, 9 de maio de 2014
«Como é que eu podia achar que pertencia a uma coisa onde a podridão e a desesperança absoluta sufocavam a alma, matavam o cérebro?»
Av. Marechal Gomes da Costa, Lisboa. 2012.
Provavelmente, deixar-me cair fora simplesmente mais fácil para mim do que revoltar-me, ser contra, a verdade é assim tão simples. Muitas vezes abdicamos, desistimos muitas vezes, só por comodidade. Mas pelo preço da vida, de toda a existência, da qual eu não podia saber qual era, no fundo, o valor e qual virá talvez ainda a ser uma vez mais, conquanto eu saiba que é absurdo congeminar nisso, porque no fim dessa congeminação é o absurdo que triunfa, a absoluta inutilidade, que daí se conclui.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Thomas Bernhard
terça-feira, 4 de março de 2014
«HÁ MEDOS QUE AMAMOS PORQUE SACODEM NOSSO PÓ DE MORTAIS»
Av. Marechal Gomes da Costa, Lisboa. 2012.
(...)
Sentimos os receios chegar com os anos,
a velhice pede um preço à sinceridade
(de soro vivo, de moeda dura e carne tosca,
como se conhecêssemos o desassossego que amiúde
nos assusta e nos perde),
a analogia instala-se tal musgo triste em nossos pasmos
e, sobretudo, sobretudo,
o corpo não aceita os nossos dez dedos
senão para lembrar
o seu direito ao pecado e à ambiguidade.
(...)
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: João Vário
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
«ESSA ARANHA GEOMETRIFICA SEUS CAPRICHOS NA IDEIA DESSA TEIA: EMARANHA A MÁQUINA DE LINHAS E ESTÁ ESPERANDO QUE LHE CAIA ÀS CEGAS UM BICHO DENTRO: AÍ TRABALHA, AÍ CEIA, AÍ FOLGA.»
Calçada da Glória, Lisboa. 2012.
Não sou máquina, não sou bicho, sou René Descartes, com a graça de Deus. Ao inteirar-me disso, estarei inteiro. Fui eu que fiz esse mato: saiam dele, pontes, fontes e melhoramentos, périplos bugres e povoados batavos. Eu expendo Pensamentos e eu extendo a Extensão! Pretendo a Extensão pura, sem a escória de vossos corações, sem o mênstruo desses monstros, sem as fezes dessas reses, sem a besteira dessas teses, sem as bostas dessas bestas. Abaixo as metamorfoses desses bichos, - camaleões roubando a cor da pedra! Polvos no seco: no ovo, quem deu antes no outro, uma asa na linha do galho ou um pulo em busca de agasalho? Não sabem o que fazer de si, insetos pegam a forma da folha; mimeses. E a forma? Coisas da vida! Vinde a mim, geometrias, figuras perfeitas, - Platão, abri o curral de arquétipos e protótipos; Formas geométricas, investi com vossas arestas únicas, ângulos impossíveis, fios invisíveis a olho nu, contra a besteira dessas bestas, seus queixos barbados, corpos retorcidos, bicos embaraçosos de explicar, chifres atrapalhados por mutações, olhos em rodela de cebola! Vinde círculos contra tamanduás, quadrados por tucanos, losangos versos tatus, bem-vindos! Meu engenho contra esses engenhos! A sede que some fede que fome! Falta-me realidade.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Paulo Leminski
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
OBITUÁRIO
Torel, Lisboa. 2012.
Para o Jorge Aguiar Oliveira
Os meus grafitis só farão sentido enquanto houver quem os
pretenda extinguir. São esculturas de areia, afirmam-se pela efemeridade contra o
universo da cultura nobre. Preservar um grafiti é contraproducente, chega a ser
insultuoso para quem lhe dedicou o nervo da sua irreverência. Imaginem o que
seria um museu de grafitis, com curadores e zeladores e restauradores. Um cemitério
de gritos. Entrego aos caçadores do tempo a missão de me censurarem, enquanto
me entretenho a imaginar obituários cautelosamente elaborados antes da morte
dos artistas. Herberto terá já o dele guardado numa gaveta. Espera a oportunidade
que a morte confirmará. A morte abre muitas portas. Manoel de Oliveira, Fidel,
Mandela devem deixar muita gente ansiosa, muita gente aguardando a oportunidade
de ver publicada as suas sábias e precavidas reflexões. Não quero que os meus
grafitis sejam como estes obituários, eles são a antítese da precaução,
sobrevivem de serem odiados e terem quem os odeie. Que os julguem sujidade é o
melhor elogio que lhes pode ser feito.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Testamento: HMBF
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
«Não nos iludamos. Ou nos salvamos nós, ou ninguém nos salva.»
Ponta Delgada, Açores. 2012.
O nosso pessimismo quer dizer apenas isto: que em Portugal existe um povo, em que há, devoradas por uma polilha parasitária e dirigente, uma maioria que sofre porque a não educam e uma minoria que sofre porque a maioria não é educada.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Manuel Laranjeira
sexta-feira, 14 de junho de 2013
«forçado a uma existência de miséria e reduzido ao presídio e às grilhetas»
Fábrica de Braço de Prata, 2012. Lisboa.
AQUELE HOMEM desejou-me longa vida...
De que serve ao prisioneiro vida prolongada?
Não é a morte melhor p'ra quem padece
E sente sem fim a vida atormentada?
E se outros esperam descobrir o amor
Meu único fito é encontrar a morte...
Deverei viver p'ra minhas filhas ver
Rotas, famintas, no vaivém da sorte?
Serviçais daquele cuja maior missão
Seria, tão-somente, anunciar-me
Afastar gente que me embaraçasse
Ou cavalgar, para, preparar-me
Tropas alinhadas, quando o pendão se levantasse,
Exausto de correr à frente e atrás
Se a desordem na fila se mostrasse?
O voto que alguém sinceramente faz
É feito p'ra valer, se de alma pura:
Possa aquele homem bom ser premiado
Que a vida lhe dê maior doçura.
Minh'alma achou conforto no que lhe foi dado
E na certeza de que nada dura.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Al-Mu'tamid.
Texto: Al-Mu'tamid.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
«Si uccise mediante barbiturici in una sera di dicembre del 1938, nel prato antistante l'abbazia di Chiaravalle. La famiglia negò la circostanza «scandalosa» del suicidio, attribuendo la morte a polmonite...»
Calçada do Ferragial, Lisboa. 2012.
(...)
Solitudine e pianto -
solitudine e pianto
dei làrici.
solitudine e pianto
dei làrici.
(...)
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Antonia Pozzi.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
" regressou a Ponta Delgada, suicidando-se no dia 11 de setembro de 1891, com um ou dois tiros, num banco de jardim junto ao Convento da Esperança"
Santos, Lisboa. 2012.
DESESPERANÇA
Vai-te na asa negra da desgraça,
Pensamento de amor, sombra duma hora,
Que abracei com delírio, vai-te, embora,
Como nuvem que o vento impele... e passa.
Que arrojemos de nós quem mais se abraça,
Com mais ânsia, à nossa alma! e quem devora
Dessa alma o sangue, com que mais vigora,
Como amigo comungue à mesma taça!
Que seja sonho apenas a esperança,
Enquanto a dor eternamente assiste,
E só engane nunca a desventura!
Se em silêncio sofrer fora vingança!...
Envolve-te em ti mesma, ó alma triste,
Talvez sem esperança haja ventura!
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Antero de Quental.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
DESEJO DE SE TORNAR ÍNDIO
Alcântara, Lisboa. 2011.
Oh, se fôssemos índios, já preparados e, em cima de um cavalo que corre, inclinados contra o vento, estremecêssemos repetidamente sobre o solo que treme até largarmos as esporas porque nunca houve esporas, até deitarmos fora as rédeas porque nunca houve rédeas e quase não víssemos a terra à nossa frente revelar um prado ceifado e liso, agora que o cavalo perdeu o pescoço e a cabeça.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Franz Kafka.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
WHY IS BLINDNESS HOLY?
Parede, Cascais. 2010.
Realize that the eyes actually are two soft globes floating in bone.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: James Douglas Morrison.
sexta-feira, 26 de abril de 2013
"On returning home she put on her mother's old fur coat, removed all her rings, poured herself a glass of vodka, locked herself in her garage, and started the engine of her car, committing suicide by carbon monoxide poisoning".
Monte Abraão, Queluz. 2010.
THE BALLAD OF THE LONELY MASTURBATOR
The end of the affair is always death.
She’s my workshop. Slippery eye,
out of the tribe of myself my breath
finds you gone. I horrify
those who stand by. I am fed.
At night, alone, I marry the bed.
She’s my workshop. Slippery eye,
out of the tribe of myself my breath
finds you gone. I horrify
those who stand by. I am fed.
At night, alone, I marry the bed.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Anne Sexton.
domingo, 14 de abril de 2013
FRENTE FRÍO
Av. Marechal Gomes da Costa, Lisboa. 2012.
Tengo eczema en el alma.
La regaría con ácido muriático,
con un poco de seconal o de paciencia.
No quiero que sea de nailon,
ni que me la pongan a bailar
entre un billar y otro. No que se me escurra.
Así podrida la quiero.
Que se me pegue al cuerpo.
Quizá yo pueda ver un paisaje, un día.
Lloro despacio; pero una lluvia de enero
añoro: sí, sí, que borre mi tristeza -
un manto, un paño para taparme el rostro.
No tengo megáfono ni coturnos;
no puedo ser una máscara.
Se me sacude el cuerpo; tiemblo,
me mortifico. Qué es esto que viene por mí -
me anega en lágrimas pardas cual el fango
que dice: «Todavía, todavía». Soy
acaso un mono trágico -
eso es: soy sólo un mono trágico
que no tendría que ver con la gramática.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Ángel Escobar Varela.
terça-feira, 9 de abril de 2013
« she committed suicide by hanging herself by her shoelaces in a bathroom at London's King's College Hospital»
Ponta Delgada, Açores. 2012.
A
não me digas não, não me podes dizer não, é um alívio amar outra vez e deitar-me na cama e ser abraçado e beijado e adorado e o teu coração saltará quando ouvir a minha voz vir o meu sorriso sentir a minha respiração no teu pescoço e o teu coração baterá quando eu te quiser ver e minto-te desde o primeiro dia e uso-te e fodo-te e despedaço-te o coração porque antes tu despedaçaste o meu e amas-me cada vez mais e a tua vida é minha e morrerás sozinha porque eu ficarei com o que quiser e depois vou-me embora sem te ficar a dever nada está sempre ali esteve sempre ali e tu não podes negar a vida que sentes que se foda essa vida que se foda essa vida que se foda essa vida agora perdi-te
B
TENS-ME
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Sarah Kane
segunda-feira, 11 de março de 2013
«...apartamento dos pais, no oitavo andar de um edifício da rua Tonelero, em Copacabana...»
Ponta Delgada, Açores. 2012.
PRIMEIRA LIÇÃO
Os gêneros de poesia são: lírico, satírico, didático, épico,
ligeiro.
O gênero lírico compreende o lirismo.
Lirismo é a tradução de um sentimento subjetivo, sincero e
pessoal.
É a linguagem do coração, do amor.
O lirismo é assim denominado porque em outros tempos os
versos sentimentais eram declamados ao som da lira.
O lirismo pode ser:
a) Elegíaco, quando trata de assuntos tristes, quase sempre a
morte.
b) Bucólico, quando versa sobre assuntos campestres.
c) Erótico, quando versa sobre o amor.
O lirismo elegíaco compreende a elegia, a nênia, a endecha, o
epitáfio e o epicédio.
Elegia é uma poesia que trata de assuntos tristes.
Nênia é uma poesia em homenagem a uma pessoa morta.
Era declamada junto à fogueira onde o cadáver era incinerado.
Endecha é uma poesia que revela as dores do coração.
Epitáfio é um pequeno verso gravado em pedras tumulares.
Epicédio é uma poesia onde o poeta relata a vida de uma
pessoa morta.
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Ana Cristina César
domingo, 10 de março de 2013
"Cincuenta pastillas de Seconal sódico le interesan como un símbolo..."
Ponta Delgada, Açores. 2012.
entrar entrando adentro de una música al suicidio al nacimiento
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Alejandra Pizarnik
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