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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

ERA IDIOTA MOSTRAR-ME TODO INFLAMADO DIANTE DE ULRIC, QUE SE APRESENTAVA SEMPRE FRIO E SERENO.

Santos, Lisboa. 2012.


Como podemos fazer com que outra pessoa compreenda o que está, realmente, a acontecer dentro de nós? Se partisse uma perna, ele largaria tudo, mas como o meu coração rebentava de júbilo... Bem, é um bocado chato, não acham? As lágrimas suportam-se mais facilmente do que o júbilo. O júbilo é destrutivo, causa desconforto aos outros. «Chora e chorarás sozinho» - que mentira! Chora e encontrarás um milhão de crocodilos dispostos a chorar contigo. O mundo passa a vida a chorar, o mundo está encharcado em lágrimas. O riso... o riso é diferente. O riso é momentâneo, passa. Mas o júbilo... o júbilo é como que uma hemorragia extática, uma vergonhosa espécie de supercontentamento que trasborda de todos os poros do nosso ser. Não podemos tornar os outros jubilosos só pelo facto de nos sentirmos jubilosos. O júbilo tem de ser gerado por cada um, existe ou não existe. O júbilo baseia-se em algo tão profundo que não pode ser compreendido nem transmitido. Sentir júbilo é ser um louco num mundo de fantasmas tristes.

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Henry Miller.

domingo, 27 de janeiro de 2013

I WAS BORN TO SAIL AWAY INTO A LAND OF FOREVER

Praça D. Luís I, Lisboa. 2012.

I was born to love no one.
No one to love me.
Only the wind in the long green grass,
The frost in a broken tree.
I was made to love magic.
All its wonder to know,
But you all lost that magic,
Many many years ago.

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Nick Drake.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

QUAL DE VOCÊS É CAPAZ DE LHES FALAR DOS SEUS DEMÓNIOS?

Ponta Delgada, Açores. 2012.

O mal só existe na imaginação, pequena redundância que eu escrevo como se fora assim tão espantosa de sentido. Ah! É evidente que o mal existe sem ser em imaginação, mas, um momento! Um momento, porque se fosse só em imaginação que existisse, que diferença faria? Quem me diz a mim que esses demónios que passam pela minha alma e pelo meu coração não sou eu próprio que lhes dou realidade? Olhem aqui! Olhem além! Vejam Ihuene a observar o pénis ao espelho. Como é que lhe podem falar do mal? Senta-se a uns centímetros de mim e muitas vezes segura o espelho junto à minha cara e olha para a imagem do meu perfil, comparando-a com o real. Depois retira-se a observar o seu pénis. Reindude e Michii têm andado à caça e voltaram com dois macacos pequenos e riem-se quando eles se penduram um no outro para trás e para a frente. Awaipe e Pendiari andam a fazer uma segunda jangada, servindo-se dos seus machetes para cortar as árvores de balsa ao longo do rio. Estão a preparar-se para o regresso. Qual de vocês é capaz de lhes falar dos seus demónios?

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Tobias Schneebaum.

domingo, 6 de janeiro de 2013

UMA BARRAGEM CONTRA A ETERNIDADE.

Ponta Delgada, Açores. 2012.

VELHOS / 5

Aceita as suas próprias mãos
sobre os seus próprios joelhos.

Donde vieram elas até ali?
De que fundotempo se apuraram as ossudas?

Armas - da guerra por travar.
Instrumentos - do trabalho saqueado.
Signos - placidamente expostos.

As que foram blandiciosas ou rudes
repousam, caligráficas, nas dobradiças
dumas pernas tão alheias a ele, o velho,
que o velho começa e acaba nessas mãos pousadas,
dentro da visão que dele tenho
(lugar-comum a outro sobreposto,
a outro que é o velho no jardim?).


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Alexandre O'Neill.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

CERTO DA MINHA VIDA E DA MINHA MORTE, OLHO OS AMBICIOSOS E QUERIA ENTENDÊ-LOS.

R. Maria da Fonte, Lisboa. 2012.


(...)
O seu dia é ávido como o laço no ar.
A sua noite é a trégua da ira no ferro, rápido ao atacar.
Falam de humanidade.
A minha humanidade está em sentir que somos vozes da mesma penúria.
Falam de pátria.
A minha pátria é um ganido de guitarra, alguns retratos e uma velha espada,
a clara prece do salgueiral nos entardeceres.
O tempo está a viver-me.

(...)

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Jorge Luis Borges.

domingo, 23 de dezembro de 2012

O CANIL DOS CÃES ZAROLHOS

para o António Cabrita

 

 

desgraçadamente ladram mas não mordem

buscam nas urnas os donos
e estes passando a mão pelo pêlo
roubam-lhes a ração da boca
logo à boca das urnas

sempre fiéis e de beiços arreganhados
basta um açoite no traseiro
para ficarem mais obedientes e servis

os cães afiam os dentes
temendo as garras e os bicos dos abutres
numa ilusão - rasante às ciladas
da vida - gretada de palavras febris

uns ousam ladrar mais acirrados
correndo o risco de serem encarcerados
enquanto outros saltam a cerca
antes da manhã derramelar as hienas

e há os que se atiram contra o arame
farpado
             esfarrapando-se em massa
num mimetismo desesperante

subalimentados ladram docinho
roçando as pernas dos donos
para ganhar um osso
na praia dos trompetes em chamas
à beira-mar da noite espezinhada
pelo terror das hienas
enquanto anónimos suicidam-se
no sussurro da infâmia
defronte aos que mastigam bolores
para sobreviverem

a caridade vai derramando asfixiante
misturando-se a um crude solidário
                                                        legal
e é legal ladrarem um poucochinho
manifestando a ira de açaime sindical

cães velhos corroídos de crostas infecciosas
e respiração barbitúrica
rosnam aos espelhos do requiem
sabendo serem um enfarte de trabalhos
aos tratadores do canil

os veterinários vão ministrando remédios
contra-indicados corroborando
na deterioração lenta das carnes
embebidas em minutos sem sangue
cozinhando a ração para ser distribuída
aos da lista de espera que teimosamente restam
entre restos de lixo e lixos da fé

colocam açaimes controlando a informação
e uma coleira de mecânicas palavras escolhidas
repetidas até à exaustão

a imprensa tornou-se parasita e
os jornalistas uns piolhos de salão
alimentando-se de noticias tosquiadas
                                                              ocultam
a incómoda realidade para as hienas

os comentadores do regime viraram coveiros

e dentro das valas vão-se babando
as carraças que gravitam ao seu redor
vendendo-se para se sentarem à mesa
dum ficcionado banquete do real

com pedigree romano/nazi
tem o canil uma nova dona que vem
descaracterizando os sinais únicos
do âmago duma pátria
 
aos peixes saquearam as espinhas
aos frutos os caroços
e um temporal não se levantou

caminhantes dos atalhos moribundos
lançam ao passar pelos dias de esgoto
sementes bolorentas sabendo de antemão
ser o seu gesto inútil
                                  ser e nada brotar

rosnam trovões sob a morte das searas

lembranças do purgatório ateiam fogo
às papoilas
                   ao redor jovens cachorros
arregaçam os caninos aos escaravelhos
que esperneiam nos subúrbios do planeta
                                                                    em agonia
entrançando de nuances uma existência aziaga

nocturnos eram os rostos
diurnos os sonhos improváveis

improvável era encontrar os teus dizeres
guardados numa gaveta de nuvens
prenhas de anjinhos com açaimes  
percorrendo lentamente o vazio
onde ao centro um fedelho agrafa
penas de toutinegra nas asas do vento
a raspar a saudade
                                apunhalando os rostos
no enterro do pensar porque
                                               pensar é um veneno
e os retratos ardem nos lugares alertando
ser o amor um tumor de pó e cinza

perseguem estrada fora os da paz
                                                        uma antiguidade

mão de fogo outra de água espelhando o vulcão
cuspindo cadáveres enforcados
depositando a lava para os olhos
dos tempos que hão-de vir
                                            cegando de pavor

pela estrada paralela caminham os da guerra
seguindo por agora no contrário dos outros
reacendendo um sangue no peito

ao fundo a encruzilhada

assim chegámos assim chegaremos
à roda a um fim de mínimos de tudo
onde o todo é um nada

aos cães bastaria
alimentarem-se bem na infância

daí para a frente o cagado seria o alimento
continuado num circulo rotineiro
até a morte aparecer para se alimentar da luz
e cuspir a carcaça

o mundo
               mal cheiroso
confluindo merdas de vendáveis ilusões

como não é meu designo governar
fazer curriculum perpetuar a espécie
nem mesmo proferir oratórias
com estandartes bordados de lambidelas
a um qualquer regime
uso por hora as letras
                                    para dinamitar
o covil das hienas eleitas
com um cante ao desafio

é escusado irem ver a barca bela 
pois já não se faz ao mar 
a treta nunca foi nela
e os escravos é que iam a remar

santa Merkel é o piloto 
o FMI o general 
que nojento trapo levam
o fado de Portugal

as palavras sempre pertenceram à morte

um dia um cachorro das últimas ninhadas
ladrará bem alto pela libertação do canil
ferrando os dentes nas contorções das hienas
até o veneno fritar-lhes o cérebro no parapeito
da janela defronte à estrada muralhada
de cadáveres em vinagre e nadas

nesse tempo de nova rotina doméstica
eu já não andarei por estas bandas

nesse tempo os homens voltarão
por algum tempo de novo a ler
nos remoinhos do saber mais além
enquanto lá longe vou minguando
em busca dos meus olhos laminados
por gente vil que conseguiu tornar-me
na dor que lhes convém

cego seguirei para voltar ao sofrimento da terra
onde todos os trajectos de
                                           todos
os lugares vão sempre dar à morte

por hora
por hora volto
                       ao aconchego dos braços

o pouco que me resta


 

Jorge Aguiar Oliveira
Inédito. Cacilhas, Dezembro de 2012

sábado, 22 de dezembro de 2012

QUERES SABER O QUE EU PENSO?


R. Angelina Vidal, Lisboa. 2012.


Que ela queria apenas viajar. Penso que não tinha a menor ideia de encontrar fosse onde fosse aquele que dizia andar à procura. Nunca teve essa ilusão. Mas nunca o tinha dito a ninguém. Na minha opinião, era a primeira vez na sua vida que se encontrava tão longe de casa que não podia lá chegar antes do sol posto. E chegara até este ponto sem dificuldades, com toda a gente a ter muitos cuidados com ela. Creio que foi só por isso que ela decidiu ir sempre andando um pouco para mais longe, ver o maior número de terras possível, porque, cá no meu entender, ela bem sabia que uma vez fixada em qualquer lugar, ali ficaria, com certeza, até ao final da sua vida. Isto é o que eu penso.

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: William Faulkner.

sábado, 15 de dezembro de 2012

PARA PREPARAR PASTÉIS GOSKY

Ponta Delgada, Açores. 2012.

Arranje um porco de três ou quatro anos de idade, e prenda-lhe uma pata traseira a um poste. Coloque 5 libras de passas, 3 de açúcar, 2 celamins de ervilhas, 18 castanhas assadas, uma vela e sei alqueires de nabos ao seu alcance; se ele comer isto, forneça-lhe mais, cosntantemente.
Depois arranje um pouco de natas, algumas fatias de queijo Cheshire, quatro cadernos de papel almaço e um pacote de alfinetes pretos. Molde tudo numa pasta e estenda-a a secar sobre um lençol lavado de linho castanho impermeável.
Quando a pasta estiver completamente seca, mas não antes, comece a bater violentamente no porco com o cabo de uma vassoura grande. Se ele guinchar, volte a bater-lhe.
Vá ver a pasta e bata no porco alternadamente durante alguns dias, e verifique se no fim desse período tudo começa a transformar-se em pastéis Gosky.
Se até então não se transformar, nunca se transformará; nesse caso pode soltar o porco, e deverá considerar todo o processo terminado.

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Edward Lear.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

QUEM NÃO QUER SABER?

Ponta Delgada, Açores. 2012.

Porque a política foi assim: quando as pessoas se cansaram muito de acreditar e deixaram de votar, foi inventada uma maneira de retomar o hábito que consistia em possibilitar o voto através da Rede e de lhe associar um benefício, normalmente um benefício fiscal. Desta forma havia um incentivo para que o voto continuasse a ser exercido, sendo que este incentivo foi revisto em alta duas ou três vezes até se confirmar que o desinteresse era já o princípio de outra coisa. Passados  alguns anos, e visto o fenómeno ser generalizado às mais diversas partes do mundo, a preocupação dos políticos foi maior. E o poder, que inclui também a política, estava à beira de uma nova mutação. Que mutação? Claro, para mais ainda virtual. Vejamos Foucault: no tempo da monarquia absoluta o Estado era o rei. O poder entrava de cabeça naquela pessoa e ficava lá a morar até desaparecer. Se lhe cortasses o pescoço ou o furasses, ele caía e o Estado também. O dono da faca ou da bala mais certeira reinaria um novo reino. Poder vulnerável: um tiro ou uma facada e ele não resite mais que a força  de todos os seus braços. Impunha-se forma mais sofisticada, que acabou por ser também mais invisível: na democracia do século vinte tu tens uma posição que não acaba quando o sujeito que a preenche desaparece: o deputado é substituído por outro, o ministro, o primeiro-ministro, todos, assim, sem que a falta de qualquer um deles - embora possa fazer diferença e efectivamente o faça - cause a queda do, como lhe chamam, sistema. De maneira que quem tem mais recursos de circulação pode circular pelos canais do sistema de forma mais liberta de atritos. Quem tem amigos e dinheiro, ou dinheiro e amigos, porque atrás daquele vêm estes, ainda que falsos, e ocupa tais posições, irradia para o lado dos vizinhos de forma a encher com o seu poder esta que é uma Rede também. Contaminando, saberá sempre por onde continuar a circular pois basta seguir o próprio cheiro nas rotas que a sua demasia foi pingando de gordura. E todos o ampararão na queda quando escorregar, porque em todos pendurou uma cópia do lixo com que o foram servindo: truques, muitos truques mas muito eficazes e com apresentações a condizer com a estação.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Rui Costa.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

ENTRE OS SEUS PLANOS ESTAVA PARTIR PARA O SUL

Santos, Lisboa. 2012.

Durante muitos anos, na casa de Archimboldi as suas únicas posses foram a sua mala, que continha roupa e quinhentas folhas em branco e os dois ou três livros que estivesse a ler naquele momento e a máquina de escrever que Bubis lhe oferecera. A mala carregava-a com a mão direita. A máquina carregava-a com a mão esquerda. Quando a roupa começava a ficar usada, deitava-a fora. Quando acabava de ler um livro, oferecia-o ou abandonava-o numa mesa qualquer. Durante muito tempo recusou-se a comprar um computador. Às vezes aproximava-se das lojas que vendiam computadores e perguntava aos vendedores como funcionavam. Mas sempre, no último minuto, recuava, como um camponês receoso com as suas poupanças. Até que apareceram os computadores portáteis. Então sim, comprou um e ao fim de pouco tempo já o manejava com destreza. Quando o modem foi incorporado nos computadores portáteis, Archimboldi trocou o seu computador velho por um novo e às vezes passava horas ligado à Internet, à procura de notícias estranhas, nomes que já ninguém recordava, acontecimentos esquecidos. O que fez ele com a máquina de escrever que Bubis lhe ofereceu? Aproximou-se de um desfiladeiro e atirou-a para o meio das rochas!

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Roberto Bolaño. 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

SE ESTIVESSES A ORGANIZAR, Ó SÓCRATES, UMA CIDADE DE PORCOS, NÃO PRECISAVAS DE OUTRA FORRAGEM PARA ELES.

Areeiro, Lisboa. 2011.

Não estamos apenas a examinar, ao que parece, a origem de uma cidade, mas uma cidade de luxo. Talvez não seja mau. Efectivamente, ao estudarmos uma cidade dessas, depressa podemos descobrir de onde surgem nas cidades a justiça e a injustiça. A verdadeira cidade parece-me ser aquela que descrevemos como uma coisa sã, mas, se quiserdes, observaremos também a que está inchada de humores. Nada o impede. Bem, estas determinações não bastam, ao que parece, a certas pessoas, nem este passadio, mas acrescentar-lhes-ão leitos, mesas e outros objectos, e ainda iguarias, perfumes e incenso, cortesãs e guloseimas, e cada uma destas coisas em toda a sua variedade. Em especial, não mais se colocará entre as coisas necessárias o que dissemos primeiro, - habitações, vestuário e calçado -; ir-se-á buscar a pintura e o colorido, e entender-se-á que se deve possuir ouro, marfim e preciosidades dessa espécie. (...) Portanto, temos de tornar a cidade maior. A que era sã não é bastante, mas temos de a encher de uma multidão de pessoas, que já não se encontra na cidade por ser necessára, como os caçadores de toda a espécie e imitadores, muitos dos quais são os que se ocupam de desenho e cores, muitos outros da arte das Musas, ou seja, os poetas e seus servidores - rapsodos, actores, coreutas, empresários -, artífices que fabriquem toda a espécie de utensílios, sobretudo adereços femininos. E, em especial, precisaremos de mais servidores. Ou não te parece que careceremos de pedagogos, amas, governantes, açafatas, cabeleireiros, e ainda cozinheiros e marchantes? E vamos precisar ainda de porqueiros. Isto era coisa que na nossa primeira cidade não existia - pois não era precisa para nada - mas nesta, também necessitamos deles. E ainda careceremos de todas as outras espécies de gado, não vá alguém querer comer delas.

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Platão.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

PORQUE NÃO HÁ-DE SER O NORTE O SUL?

Cruz Quebrada, Oeiras. 2011.

É preciso destruir o propósito de todas as pontes,
Vestir de alheamento as paisagens de todas as terras,
Endireitar à força a curva dos horizontes,
E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras...

Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!...
Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã - como nos desalegra!...
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra...


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Fernando Pessoa.

domingo, 11 de novembro de 2012

UMA CAMA PARA CINCO

 
Alcântara, Lisboa. 2012.
 
Cá em casa a nossa cama é a nossa liberdade imediata. Tem os nomes que quiserem. É a cama do pai de família, austero e mandão, ou do dorminhoco pesado quando regressa embriagado para casa. É a cama do libertino. É o leito (suponhamos!) Luís-Qualquer-Coisa, XV ou XVI, do milionário, porque nela somos reis e milionários de ternura e de abraços, de palavras ciciadas; e é o catre sem lençóis, fracas mantas, e mau cheiro, do maltês que não sabe para onde o destino o manda (e somos isto, e que de longes terras viemos! quantos naufrágios! quanta coisa fomos largando para facilitar a marcha até aqui), a enxerga do pedinte (e nós o somos também: porque temos falta de tudo e porque acordamos de manhã sem uma bucha de pão para dar às crianças e sem saber ainda onde o ir buscar). Podia ser (dava para) um bom título de uma comédia picante, bulevardesca: UMA CAMA PARA CINCO; idem para um filme neo-realista, onde nem cama houvesse, só umas palhas podres e mijadas, com gaibéus ensonados, embrutecidos do calor e do vinho, fedor de pés, talvez um harmónio desafiando as cigarras e os grilos na cálida noite da planície alentejana. Uma cama para cinco, em herança, constituía um demorado caso de partilhas. Nós dormimos. Às vezes, muitas vezes, beijos e abraços.
 
 
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Luiz Pacheco.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

CONTUDO HOUVE UMA VEZ QUE ESTIVEMOS QUASE A DISCUTIR.

Telheiras, Lisboa. 2011.
Ele disse que a melhor maneira de passar um dia quente de Julho era ficar deitado de manhã à noite num montículo de urzes no meio da charneca, com as abelhas a zunir no meio das flores, as cotovias a cantarem sobre a cabeça, e o céu azul sem nuvens com o sol quente a brilhar. Esta é a sua grande ideia de felicidade celestial; a minha era baloiçar-me numa velha árvore com ovento a soprar do oeste e nuvens brancas e brilhantes a passarem rapidamente lá em cima; e ouvir não só as cotovias mas também os tordos, melros, pintarrochos e cucos que ficam a cantar por toda a parte, enquanto a charneca se vê à distância, cortada pelos vales frescos e profundos; mais perto a relva comprida ondula com a brisa; os bosques, os riachos e o mundo todo vibra numa plenitude de felicidade. Ele queria ficar deitado num êxtase de paz; eu queria vibrar e dançar num jubileu de glória.
Disse-lhe que o seu paraíso seria uma coisa semimorta, e respondeu-me que o meu seria uma coisa de loucos; afirmei-lhe que adormeceria no dele, e retorquiu-me que não conseguiria respirar no meu, e a discussão começou a azedar. Finalmente concordámos em experimentar os dois assim que vier o bom tempo, beijámo-nos e ficamos outra vez amigos.

Imagem: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Emily Brontë.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

QUAL O PERIGO DE REFLECTIRES E DE TENTARES? PODES DIZER-ME?

Rêgo, Lisboa. 2011.

Não julgueis que me calo por indiferença ou orgulho. Tenho, antes, o coração dilacerado quando me vejo transformado num objecto de escárnio. Todavia, quem mais do que eu terá oferecido dignidade aos novos deuses? Silencio, porém, aquilo que sabeis. Mas escutai as misérias dos homens; escutai como, no começo, eram eles ignorantes e os tornei cientes e senhores da sua inteligência. Digo isto sem qualquer censura aos humanos, mas só para vos mostrar que nasceram do coração das minhas dádivas. No começo, eles olhavam e não viam, escutavam e não ouviam, passavam a vida alongada e néscia como sombra de fantasias. Não conheciam as casas soalheiras e feitas de tijolos, nem a madeira trabalhada. Viviam em cavernas, nas eternas trevas dos profundos antros, como formigueiros fervilhando. Não possuíam signos para o Inverno, nem para a florida Primavera, nem para o fecundo Verão. Faziam tudo sem entendimento, até eu lhes ensinar o nascimento e o acaso das estrelas mais difíceis de avistar. Para eles inventei o número, suprema sabedoria, e a arte de juntar as letras, memória de todas as coisas e infatigável mãe das Musas. Fui o primeiro a submeter ao jugo e ao carrego os cavalos selvagens para que ajudassem os homens nos trabalhos mais fatigantes; fui o primeiro a atrelar a carruagem, ornamento de magnífica riqueza, os cavalos submissos ao freio. Primeiro e sozinho, eu congeminei os velívolos carros dos marinheiros que vagueiam pelo mar. Tudo isto inventei em favor dos homens, mas - ai, mísero de mim! - vejo-me incapaz de inventar um meio de libertar-me agora dos meus tormentos.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Ésquilo.

domingo, 28 de outubro de 2012

A MAIOR PARTE DA GENTE, NASCE, MORRE SEM TER OLHADO A VIDA CARA A CARA.

Cacilhas, Almada. 2011.


Quer queiram quer não queiram aí estão na minha frente, ridículos, maníacos, pueris, nesta marcha desordenada para o sonho; tenho-os na minha frente, e com eles a hipocrisia, as explicações confusas, as leis, as regras, os hábitos fétidos, e tudo o que lhes serve para encobrir as duas ou três realidades de que se não podem libertar, com a sua filosofia, os seus livros, as suas teorias - e no fundo instinto! instinto! instinto!; tenho-os aqui só bichos em frente da necessidade fatal, da verdade iniludível, com olhos abertos de espanto, com bocas murchas de mentir, a suar grotesco e a gritar de desespero. Tenho-os aqui ridículos, só ridículos, só enfim ridículos, mas já prontos para todas as infâmias. A vida espalmou-os, secou-os, deformou-os a todos. Andou por aqui a mão da desgraça, a mão do vício, a grande mãozada de ferro que deprime e esmaga. Um alimentou-se de lascívia, outro de sonho, outro de avareza, outro de fel. Todos diante da nova visão do universo se sentem grotescos e inúteis de corpo e alma, com lepras que nunca mais se limpam, com nódoas que nunca mais de lavam, com ideias e palavras entranhadas, com ímpetos de gozo e monstruosos apetites. Os anos passaram, os anos marcaram-nos. E ei-los nus, uns em frente dos outros, nus e reles, nus e grotescos, com o esplendor cada vez maior, cada vez mais doirado, cada vez mais sôfrego diante de si. Nus e obscenos, nus, com doenças e infâmias secretas. Aqui está a embófia e o orgulho, aqui está o que come e digere, mas, no fundo deste estômago que esmói, há ainda um resto de sonho; aqui está a velha que envelheceu ridícula, mas este ridículo é atroz. Tudo isto contém ânsia, ressuma dor até nas plumas, até nos trapos. Todos os sonhos absurdos, os sonhos que ninguém se atrevia a declarar, os produtos fétidos de noites sobre noites de relento e insónia, os ridículos sonhos de almas embrionárias, transformarem-se em realidade e resolvem-se em gritos, em dor e em grotesco. A puerilidade que constitui o fundo do nosso ser, as pequenas misérias que formam montanha, e as grandes tragédias desgrenhadas afundam-se em grotesco. A todo o drama se mistura grotesco, a toda a dor rictos, e toda a convulsão emerge a escorrer grotesco.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Raul Brandão.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O QUE É A VIDA? O QUE É O PRAZER, SEM A DOURADA AFRODITE?

Praça D. Luis, Lisboa. 2011.

Que eu morra, quando estas coisas já não me interessarem:
o amor secreto, as suaves ofertas e a cama,
que são flores da juventude sedutoras
para homens e mulheres. Mas quando chega a dolorosa
velhice, que faz do homem belo um homem repulsivo,
tristes preocupações sempre lhe moem os pensamentos
e já não sente prazer em contemplar a luz do sol,
mas é odiado pelos rapazes e desonrado pelas mulheres.
Assim áspera foi a velhice que o deus impôs.

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Mimnermo.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

TU QUE EXPLORAS TUDO À TUA VOLTA E VÊS OS SIGNOS, SABERÁS DIZER-ME PARA QUAL DESTES FUTUROS NOS IMPELEM OS VENTOS PROPÍCIOS?

Damaia, Amadora. 2011.

O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Italo Calvino.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

OH VÓS QUE VOS DIZEIS LIVRES-PENSADORES, FILÓSOFOS DE MEIA TIGELA, PORQUE NÃO SEGUIS O VOSSO CAMINHO ATÉ AO DESTINO?


São João do Estoril, Cascais. 2011.


Raskolnikoff passou no hospital quase toda a Quaresma e a semana da Páscoa. Depois de restabelecido, lembrou-se dos sonhos que tivera durante a doença. Pareceu-lhe, então, ver o mundo inteiro assolado por um flagelo terrível e sem precedentes que, vindo do fundo da Ásia, caíra sobre a Europa. Todos deviam morrer, salvo um pequeníssimo número de eleitos. Vermes microscópicos, de uma espécie até então desconhecida, introduziam-se no organismo humano. Esses corpúsculos, porém, eram dotados de inteligência e vontade. Os indivíduos infectados ficavam no mesmo instante doidos furiosos. Todavia – coisa singular! – nunca os homens se tinham julgado tão sábios, tão seguros da posse da verdade, tão confiantes na infalibilidade dos seus julgamentos, das suas teorias científicas, dos seus princípios morais, como pensavam estar esses infelizes. Aldeias, cidades, povos inteiros eram atacados daquela moléstia e perdiam a razão, não se compreendendo uns aos outros.
Cada um julgava saber, ele só, a inteira verdade e, contemplando os seus semelhantes, afligia-se, batia no peito, chorava e torcia as mãos. Ninguém se entendia sobre o bem e o mal, nem sabia quem condenar ou absolver. Matavam-se uns aos outros, movidos por uma cólera absurda. Reuniam-se formando grandes exércitos, mas, começada a campanha, as tropas dividiam-se bruscamente, as fileiras rompiam-se, os guerreiros lutavam entre si, assassinavam-se e devoravam-se. Nas cidades tocava-se a rebate de manhã à noite, eram todos chamados a pegar em armas. Mas, porquê, e a que propósito? Ninguém o sabia e toda a gente andava inquieta. Cada um dava a sua opinião, propunha as suas reformas, e nunca chegavam a acordo; a agricultura tinha falta de braços. Aqui e além reuniam-se grupos, assentavam um plano de acção comum, protestavam jamais se desunirem. Mas não demorava que se esquecessem do juramento feito e começassem a acusar-se mutuamente, a bater-se, a matar-se. Este quadro desolador era completado pelos incêndios e pela fome. Tudo perecia, homens e coisas. O flagelo cada vez assumia proporções mais assustadoras. No mundo inteiro só conseguiriam salvar-se alguns homens predestinados a propagar o género humano, a renovar o mundo. Esses, contudo, ninguém os vira em parte alguma, ninguém ouvira as suas palavras, nem o som das suas vozes!

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: F. M. Dostoievski.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

DO JORNAL TOPEKA WEEKLY DAILY, 1869

Lagos, Faro. 2012.

Os índios Sioux são os PATIFES mais miseráveis, sujos, piolhosos, ladrões, mentirosos, cínicos, cruéis e sem-vergonha que o Senhor permitiu que contaminassem a terra e todos os HOMENS, excepto os agentes para os assuntos índios e os comerciantes, deviam rezar pelo seu extermínio imediato e definitivo.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: citado por Bruce Chatwin.