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domingo, 11 de novembro de 2018

GOSTARIA DE FAZER CONTIGO UM FILME SONORO




Escuta miúda, que falas pelo nariz e és sardenta
e tens vinte anos e uma grande ambição
e um noivo canalizador parecido com o Nils Asther
e uma tela verde sobre o olhar azul:
Gostaria de fazer contigo um filme sonoro

Cantam sobre as árvores os pássaros pintados.
Mulheres com canastras vêm dos mercados.
Aqui produzem, vejo os homens e as luzes,
prostitutas, esqueletos, mapas, vigas e cruzes.
Radiosos elevadores em edifícios alvejantes,
sobem novos rumores de porões flamantes.
Penso em ideias velozes que vão do coração
até ao cérebro tal e qual uma exalação.
Lojas dos 300. Cansados jogadores,
colunas de cores nas barbearias.
Casas em cujos largos e estreitos corredores
são da mesma cor as noites e os dias.

E um porto. Um porto é sempre querida paragem.
Nele estão a aventura, lembranças, uma miragem
e quem a ânsia de partir nunca terá sentido?
Um porto, as tabernas e todo o mar chovido.
Por isso te digo, digo, que a tua boina vermelha
bem que um dólar e cinquenta pode custar.
Gostaria de fazer contigo um filme sonoro.
E alguma coisa mais, que não posso contar.

Raúl González Tuñón, traduzido por HMBF a partir da versão coligida por Marta Ferrari, in Poesía Argentina - Antología esencial, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 41-42.

sábado, 10 de novembro de 2018

O OPTIMISMO HISTÓRICO



Eu sei que tudo muda,
que nada permanece,
nem uma árvore permanece
e até a pedra é viajante.

A solidão não existe,
o mundo é companhia.
Nem a morte está só.

Tudo quanto é, é luta.
Sou imortal, pois passo.
Apenas a estátua fica.
E até ela se move.

Em vão vos empenhais
em deter a história.
Sei que chegará o dia.
Também o sol o sabe.

Raúl González Tuñón, traduzido por HMBF a partir da versão coligida por Marta Ferrari, in Poesía Argentina - Antología esencial, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 47.

Na imagem: Raúl González Tuñon um mês antes de morrer. Respigado aqui.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

OS LADRÕES



Os ladrões usam gorro cinzento, cachecol escuro e camisa às riscas. Alguns levam uma lanterna de furta-fogo no bolso. Por outro lado, apaixonam-se por raparigas robustas, coleccionam postais e às vezes usam uma tatuagem no braço esquerdo, uma flor, um barco e um nome: Rosita. Todos os ladrões estão apaixonados por Rosita e eu também. Os ladrões sabem assobiar, sair dos carros em movimento e dançar valsa. Amam principalmente a mãe idosa e quando esta morre cantam um tango, choram desconsoladamente e dos objectos deixados pela morta, a repartir entre irmãos, elegem uma virgem de prata e o canário.

Raúl González Tuñón, traduzido por HMBF a partir da versão coligida por Marta Ferrari, in Poesía Argentina - Antología esencial, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 44.

RAÚL GONZÁLEZ TUÑÓN



O PAÍS DA CHUVA E DA DISTÂNCIA

Todo o esplendor termina, as grandes vozes emudecem,
o verde-mar das pradarias seca,
mas aquilo que mais profundo e íntimo foi
perdurará na memória inapelável,
ali de onde o poema impreciso vigia
esperando que regressem os deuses do desterro.

Pois também a memória tem suas avenidas
de luzes silenciosas e esquinas recolhidas,
sua margem passando pelo fio do sonho.
O esquecimento cansa-se de chamar à sua porta.

O saguão é quem vela enquanto a casa dorme.
Houve um na infância, a recordação
colocou certa vez ali sua magnólia figo.
E na cancela eu desenhei uma tarde
o país da chuva e da distância.


Raúl González Tuñón (n. 29 de Março de 1905, Buenos Aires, Argentina - m. 14 de Agosto de 1974, idem), traduzido por HMBF a partir da versão coligida por Marta Ferrari, in Poesía Argentina - Antología esencial, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 52. Poeta e jornalista, Raúl González Tuñón participou na vanguarda literária argentina da década de 1920. Viajou pela Argentina, cobrindo acontecimentos trágicos que o motivaram a desenvolver uma poesia de cariz social. Os seus poemas são habitados por ladrões, prostitutas, marginais, pelos excluídos dos bairros, dos mercados e das praças de Buenos Aires. Contactou em Espanha com poetas tais como Federico García Lorca e Pablo Neruda, tornando-se fervoroso militante antifascista. Filiado no Partido Comunista da Argentina, permaneceu fiel às suas convicções estéticas polemizando com outros membros do partido vinculados ao chamado “realismo socialista”. É hoje considerado o fundador de uma corrente moderna de poesia urbana, dando lugar ao testemunho e às temáticas sociais. Estreou-se em 1923 com Las puertas de fuego.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

UM POEMA DE RAÚL GONZÁLEZ TUÑÓN



O POETA MORREU AO AMANHECER

Sem um cêntimo, tal como veio ao mundo,
morreu por fim, na praça, diante da inquieta feira.
Velaram o cadáver do doce vagabundo
duas musas, a esperança e a miséria.

Foi um poeta cheio de vida e de obra.
Escreveu versos quase celestes, quase mágicos,
de invenção verdadeira,
e como homem que do seu tempo era,
também árias ardentes e poemas civis
de cantos e bandeiras.

Alguns, os mais velhos, repudiaram-no desde o início.
Alguns, os mais jovens, repudiaram-no depois.
Hoje irão ao seu enterro quatro bons amigos,
os paroquianos do café,
os artistas do circo ambulante,
uns quantos operários,
um antigo editor,
uma mulher bela,
e amanhã, amanhã,
florescerá a terra que sobre ele cair.

Deixa muito poucas coisas, livros, um Heine, um Whitman,
um Quevedo, um Darío, um Rimbaud, um Baudelaire,
um Schiller, um Bertrand, um Bécquer, um Machado,
versos de um ente querido que morreu antes dele,
muitas contas por pagar, um mapa, um cata-vento
e uma antiga fragata dentro de uma garrafa.

Os que o viram dizem que morreu como uma criança.
Para ele foi a morte como o espanto derradeiro.
Tinha uma estrela morta sobre o peito vencido,
e um pássaro no ombro.



Raúl González Tuñón (n. 29 de Março de 1905, Buenos Aires, Argentina - m. 14 de Agosto de 1974, idem), traduzido por HMBF a partir da versão coligida por Marta Ferrari, in Poesía Argentina - Antología esencial, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 45-46.