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quarta-feira, 29 de maio de 2019

RAÚL GUSTAVO AGUIRRE



NO FUNDO DOS TEUS DIAS APENAS O AMOR FICARÁ

No fundo dos teus dias apenas o amor ficará.
Quando romperem as pedras, quando estalarem os vidros,
quando apartarem as lentas e piedosas cortinas,
não se verão teus ossos que nada foram,
não lerão teu nome borrado pelos ventos,
não encontrarão teu rosto nas arenas,
mas o amor estará onde tu estiveste,
poderão trazê-lo do fundo dos seus dias,
levantá-lo, pô-lo de pé, levá-lo em andores
por um tempo melhor, de beleza sem fome,
por um tempo de magia, sem penas nem justiça,
como um dia há-de ser o tempo para todos.



Celebrado tradutor de poesia, Raúl Gustavo Aguirre (n. Buenos Aires, Argentina, 2 de Janeiro de 1927 – m. 18 de Janeiro de 1983) fundou a revista Poesía Buenos Aires (30 números publicados entre 1950 e 1960). Revista influente, nela encontramos a colaboração de Edgar Bayley e Mario Trejo, entre muitos outros. Aguirre foi também um importante ensaísta, aproximando-se tanto das teses invencionistas como do criacionismo. Poeta da síntese, coloca em cada palavra um peso muito específico e nada enfático. Foi um aforista exímio que reuniu os seus pensamentos num volume com o título Asteroides. Versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 273.

terça-feira, 21 de maio de 2019

UMA PARÁBOLA DE RAÚL GUSTAVO AGUIRRE




PARÁBOLA

Um pássaro leva o sol no coração.
Quando começar a cantar
ainda muito silêncio haverá na sua música
será possível compreendê-la
mas depois muito lentamente
a música crescerá
e ao ardente meio-dia
no imenso e furioso meio-dia
o pássaro e quem o seguia terão desaparecido.

Raúl Gustavo Aguirre (n. 2 de Janeiro de 1927 – m. 18 de Janeiro de 1983), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 269.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

TRÊS POEMAS DE RAÚL GUSTAVO AGUIRRE




A CAVERNA

Está-se bem na minha caverna.
E lá tudo é possível.
Não há rei mais poderoso
do que este ser solitário.

O único inconveniente,
é certa sensação
de que algo essencial
ocorre noutro lugar.

*

BOAS RELAÇÕES

Os reclusos detestam-se
mas apesar do rancor
tratam-se com educação.

Os reclusos detestam-se
mas contudo, por dignidade,
jamais falam com o guarda.
Os reclusos detestam-se
mas à noite mantêm diálogos
fingindo que falam sozinhos.

*

AQUELE QUE NUNCA APRENDE

Aquele que nunca aprende toca o fogo,
aquele que nunca aprende dá uma mão,
aquele que nunca aprende volta a andar.

Aquele que nunca aprende magoa-se
contra uma parede e contra outra
e depois contra outra e contra outra
e continua a caminhar.


Raúl Gustavo Aguirre, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,  pp. 274, 270, 272.