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quarta-feira, 17 de abril de 2013

ALGUMAS PESSOAS




Algumas pessoas
saem da nossa vida, algumas pessoas
entram sem convite
na nossa vida e sentam-se,
algumas pessoas nela
caminham calmamente, algumas pessoas
oferecem-te uma rosa
ou compram-te um carro novo,
algumas pessoas
ficam muito próximas de ti, algumas pessoas
que esqueceste por completo,
algumas pessoas, algumas pessoas
são tu próprio,
algumas pessoas
nunca viste de todo, algumas pessoas
comem espargos, algumas pessoas
são crianças,
algumas pessoas sobem ao telhado,
sentam-se à mesa,
descansam nas redes, passeiam com guarda-chuvas
vermelhos,
algumas pessoas observam-te,
algumas pessoas nunca notaram em ti, algumas pessoas
querem dar-te a mão, algumas pessoas
morrem durante a noite,
algumas pessoas são outras pessoas, algumas são tu mesmo, outras
não são,
algumas são.


Rolf Jacobsen (1907-1994)


Versão de HMBF.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

ENFIM O SILÊNCIO




Tenta acabar de imediato
com os gestos deliberadamente provocatórios e as estatísticas de vendas,
almoços de domingo e fornos a gás,
acabar com os desfiles de moda e os horóscopos,
paradas militares, concursos de arquitectura
e o tumulto das luzes dos semáforos.
Liberta-te de tudo isso e prepara-te
para terminar com as festas e a remota possibilidade
de ganhares na lotaria,
índices do custo de vida e análises da bolsa de valores,
porque é muito tarde,
é demasiado tarde,
acaba com isso e vem para casa
para o silêncio que enfim
te encontrará como sangue quente a pulsar na testa
e como um trovão pelo caminho
e o bater das horas em relógios enormes
que fazem os tímpanos vibrar,
porque as palavras já não existem,
não há mais palavras,
de agora em diante toda a conversa terá lugar
com as vozes das pedras e das árvores.

O silêncio que vive na erva,
na raiz de cada lâmina
e no espaço azul entre as pedras.
O silêncio
que se segue aos tiros e ao canto dos pássaros.
O silêncio
que cobre o cadáver como um cobertor
e aguarda na escada até que todos se vão.
O silêncio
que pousa como um pequeno pássaro entre as tuas mãos,
o teu único amigo. 


Rolf Jacobsen (1907-1994) 


Versão de HMBF.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

CARACOL




Pequeno, pacífico vagabundo das lâminas d’erva
de trompete às costas e longos chifres
como antenas a este e oeste
de um cantor cego que,
respeitosamente,
beija a terra. 
Ele aparta, cuidadosamente,
cada lâmina, escuta com prudência
cada perigo iminente. E então toca
a canção jovial da erva
com a sua trompete. 
Sem abrigo, pequeno
eterno amigo na erva, esse que vagabundeia
num beijo.


Rolf Jacobsen (1907-1994)

Versão de HMBF.

domingo, 31 de março de 2013

− QUANDO DORMEM




Todas as pessoas são crianças quando dormem.
Nenhuma guerra as assola então.
Abrem as mãos e respiram
naquele ritmo sossegado que o paraíso lhes concedeu.

Vincam os lábios como pequenas crianças
e abrem ligeiramente as mãos,
soldados e estadistas, senhores e escravos.
As estrelas ficam de guarda
e uma neblina cobre o céu,
breves horas em que ninguém fará mal a ninguém.


Se ao menos pudéssemos falar uns com os outros então,
quando os nossos corações são flores semiabertas.
As palavras seriam espalhadas
pelo vento como pólen.
- Deus, ensina-me a linguagem do sono.


Rolf Jacobsen (1907-1994)

Versão de HMBF.

sábado, 30 de março de 2013

DIES ILLAE




O grande enxame de estrelas no céu torneará teus pés como joias,
                Senhor,
e as montanhas ficarão diante de ti como soleiras,
no dia em que todas as coisas se libertarem das suas leis,
quando os pássaros forem só uma canção, e a cascata uma luz branca
e a floresta e o oceano e o sono uma só coisa: música profunda.
No dia em que as aves migratórias – corações humanos –
regressarem  ao seu Maio esquecido.
 

Que me dirás então, Deus Sabaote:
Sê um bocado de barro na estrada
ou, Sê uma flor na minha floresta?


Rolf Jacobsen (1907-1994)


Versão de HMBF.