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terça-feira, 30 de março de 2021

LAB'BEL - 10 ANS (2010-2020)

 



A página (https://www.lab-bel.com/en/) informa que Lab’Bel é um laboratório artístico do Grupo Bel. O décimo aniversário foi comemorado com a publicação de um catálogo onde encontramos inventariadas as variadíssimas exposições e diversos eventos levados a cabo, pela Europa fora, mas com sede em França, no contexto da actividade do laboratório. Um dos projectos tem o nome de “Metaphoria” e esteve por cá quando Guimarães foi capital europeia da cultura. As palavras de dois amigos poetas, o Rui Costa e a Joana Serrado, eram parte integrante desse projecto, que entretanto também esteve em Atenas e Paris. Eu estive em Guimarães, e quis o acaso que me encontrasse por lá com o pai do Rui (António Costa, o bom). No regresso, escrevi umas coisas sobre o que vi. A Sílvia Guerra, Directora Artística do Lab’Bel desde 2010, pediu-me entretanto que voltasse ao tema. O resultado integra o dito catálogo. A versão rosa é em inglês, a amarela em francês. Chegou-me ontem, finalmente, com a permissão de uma pandemia que tudo atrasa. Deixo aqui o texto original, para o caso de terem interesse:

 

APARAS DE UMA VISITA A METAPHORIA

Guimarães, 22 de Outubro de 2012

 

 

1. Numa das entradas dos seus diários, Cesare Pavese escreve que A poesia começa quando um idiota diz, a respeito do mar: «Parece azeite.» Eis uma possível noção de poema, senão de toda a criação artística, enquanto discurso que se distancia do território da descrição para se arriscar no campo minado das semelhanças, das explosões de nexos, da teia de elos entre real e irreal. O poeta não estará tão interessado em comunicar como parece estar em desconstruir e subverter o processo comunicacional, fazendo incluir entre emissor e receptor um terceiro elemento, imaterial, invisível, mas sólido, ameaçador, dilacerante. A este terceiro elemento damos o nome de metáfora.

 

2. As metáforas têm vida própria. Os homens são meros veículos para a coisificação das metáforas. A relação que estabelecemos com a metáfora é inalienável da tentação para a submeter às leis do mundo, essa é a nossa fraqueza. Sempre que alguém diz “parece azeite” nós tentamos encontrar correspondência entre dois sujeitos no enunciado (um explícito, outro implícito), sendo difícil de aceitar a inexistência de uma correlação entre ambos. São estas as regras do jogo, como se o que parece não pudesse ser apenas e tão-somente uma aparência, uma sombra.

 

3. Além de poeta, Rui Costa foi romancista. No romance “A Resistência dos Materiais” (2008) ele subverteu a alegoria idealista de Platão para nos propor um universo onde entre verdade e sombras deixava de haver qualquer clivagem. “Nós é que somos a sombra do que as nossas sombras são”, diz. A esta subversão do sentido corresponde tanto uma desconfiança dos mecanismos racionais que levam à verdade como a necessidade de uma linguagem libertadora. O leitor de poesia sabe que a beleza, a força, a vivacidade das metáforas residem, precisamente, na capacidade que têm de oferecer uma outra dimensão, deslocando-nos de um campo semântico paradigmático, onde o leitor de poesia não faz questão de estar, para um campo semântico metafórico. Daí que as metáforas sejam libertadoras, desviam-nos da rota asfixiante do real, ampliam as coordenadas da lógica, libertando-nos das amarras do normal, levando-nos a saltar o muro que separa a ordem do caos.

 

4. O caos é ao mesmo tempo sedutor e ameaçador. Estamos sempre a tentar pôr ordem no caos. O mundo à nossa volta é caótico, o universo surge-nos caótico, o desconhecido é caótico, pelo que a grande tarefa humana tem sido descobrir leis que façam acreditar haver organização no caos. Esta dinâmica que leva do caos à ordem, até que a ordem se revele insuficiente para a explicação do caos, é um movimento incessante que só pela metáfora pode ser dito. Metáfora é movimento, é trânsito, é deslocação.

 

5. Desloquei-me a Guimarães, em Outubro de 2012, para ver a exposição com curadoria de Sílvia Guerra. Entreguei-me ao regaço de “Metaphoria” e deixei-me embalar pelos diferentes trabalhos onde pude reencontrar-me, também, com as metáforas de dois amigos poetas: o Rui Costa e a Joana Serrado. Partilho agora convosco o que então escrevi numa página dos meus diários (inéditos):

 

Hoje pinto largos contornos nas coisas que vejo, desenho-os como quem sente preguiça na elaboração de um pensamento delineado, de fronteiras quase invisíveis ou, pelo menos, indistintas. Rouault aflora ao pensamento, vá-se lá saber porquê, nos braços dos homens que trabalham nas obras, nas roupas tingidas de tinta e cimento, nas mulheres carregadas com sacos de plástico, nos rostos carregados das viúvas e nas crianças que transformam lixo em brinquedos, nos veículos freneticamente estacionados e nas lajes inscritas ao balcão dos cafés. Sempre que a temperatura muda, dá-me para isto. Regresso depois de mergulhar a cabeça num barril de metáforas. Debaixo de água ouviam-se vozes, música, poemas, viagem subaquática com pés na terra. Deve haver algo orgânico na linguagem das metáforas, nas sombras, deve haver algo de sublime neste corpo sem órgãos do pensamento. Invejo, por vezes, a subtileza dos acólitos da palavra para poder dizer, sem contornos nas palavras, o que penso e quanto vejo. Não sendo possível, limito-me a agarrar no que vejo com as mãos desajeitadas do discurso poético. Ainda bem que há pessoas de contornos finos, quase invisíveis, ainda bem que existem com mãos limpas e firmes, unhas exemplarmente arranjadas, dedos esguios, ainda bem que há pessoas sem calos nas mãos. Eu conspurco tudo aquilo em que toco. Se soubesse passar com as limas nas unhas dos dedos que vêem, se soubesse afastar o texto do pretexto e ficar a sós com os pés na terra, a cabeça debaixo de água a ouvir sombras, por certo não quedaria estático nesta incerteza. Vale a pena trazer à liça as palavras de Youcenar: “Nenhuma vista que não se apodera de todo o espírito é visão; nenhum pensamento, por válido que seja, é outra coisa que um fruto ou um subproduto passageiro, desprovido do sentido de eternidade no instante, de extensão ao interior de um ponto nem sequer fixo, que a intervalos muito longos a visão do espírito por vezes confere e se torna em alguns casos possível ressuscitar pela recordação.” Com que visão terão sido pintadas as coisas que vejo no regresso a casa? Com a visão do espírito, a visão dos olhos ou a visão total? Fixo a vista nas coisas para nelas encontrar o quê?

 

6. Passados estes anos, folheio o catálogo do que me foi dado ver reencontrando-me com o que então não vi. Se o mar parece azeite, talvez a lua possa ser uma lâmpada. Acesa na noite, a lâmpada-lua de Katie Paterson remete-me, na problematização que encena da luz, para a Visio intelectuallis referida por Yourcenar. Já não são apenas os olhos a participar da visão, a qual se nos apresenta tão limitada sempre que confrontamos o mesmo objecto a olho nu e a olho revestido por um qualquer instrumento que permita ver para lá do visível. Este instrumento não tem de ser físico, técnico. A metáfora é um instrumento que permite ver onde a vista não alcança, daí o arrebatamento que provoca. Podíamos citar o êxtase dos místicos e o delírio dos loucos, Margarida Maria Alacoque e Antonin Artaud.

 

7. Num belíssimo ensaio dedicado à poesia de Paul Celan, George Steiner refere a dificuldade sentida por mentes treinadas para a visão empírica quando colocadas perante a força de um discurso simbólico e metafórico. Não estranhamos tais dificuldades, ainda que julguemos estar a elas associado tanto de medo quanto de preguiça. Medo do desconhecido e preguiça para ir mais além. A metáfora desloca-nos, coloca-nos em trânsito, é, tal como os veículos pesados oportunamente fotografados por François Prodromidès, um meio de transporte entre dois pontos, sendo que apenas o ponto de partida surge óbvio e determinado. Desconhecemos o ponto de chegada.

 

8. Pascal Quignard dizia dos fragmentos que eram rasgões, interrupções na continuidade de um discurso, aparas, farrapos, um cancro que corrompe a unidade de um corpo, desagregando-o, exercendo sobre esse corpo uma violência que o transforma em “100 biliões de sóis”. Olhamos a noite estrelada e vemos em cada estrela um fragmento do mundo, contemplamos o deserto e aceitamos cada grão de areia como um fragmento do mundo. Partir, romper, despedaçar, deixar em pedaços, em pó, em migalhas, reduzir a nada, eis o significado etimológico de fragmen, fragmentum. “Em grego o fragmento é klasma, o apoklasma, o apospasma, o pedaço separado por fractura, o extracto, alguma coisa arrancada, violentamente puxada.” A metáfora tem esta função de fragmentar, interrompe o sentido, instaura a descontinuidade, para ampliar a linguagem estilhaçando-a. Num certo sentido, podemos dizer que toda a metáfora é fragmento.

 

9. Estas aparas sobre uma visita a Guimarães são metáforas de um pensamento em trânsito. A Terra move-se em torno de um sol que há-de um dia explodir, não tanto para morrer, como para interromper as fases da lua. O universo é uma imensa metáfora. Com o passar dos anos, uma mesma imagem inspira-nos sensações, reflexões, emoções diversos. Hoje em dia, os contentores e as nuvens de Prodromidès adquiririam uma simbólica porventura mais trágica e obscura do que a que tinham em 2012. Há toda uma metáfora da clandestinidade que está por fazer, para a qual contribuem com a própria vida refugiados e imigrantes deslocando-se sobre a terra como na metáfora se desloca o pensamento.

 

10. A História ainda não terminou.

 

Henrique Manuel Bento Fialho

29/05/2020

sábado, 26 de janeiro de 2019

COMO FOLHAS DE CAEIRO




Se o destino quisesse que eu me tivesse feito escritor,
teria posto a minha mão direita contemplando o impossível da
minha mão esquerda, e as duas servindo ao sonho de eu
não estar aqui, mas outro homem com caneta escrevendo
a vida desse deus que podia ter cabido em meu lugar
só para sonhar homens de mais serventia para o alto.
Se o destino escrevesse direito, como o crer dos crentes, nas
linhas vesgas que hoje me desfiguram as mãos com rios
imperfeitos ou erros da gramática, fingindo a cura das almas
renitentes e de todas as faltas de sentido com palavras como
sol, destino, deus, rios, palavras, então eu abriria as mãos
para te mostrar
como rouba a vida tudo quanto fica escrito.



Rui Costa

17/06/2008 (originalmente publicado: aqui)


quinta-feira, 19 de julho de 2018

TERÇA DE CELEBRAÇÃO



Na terça-feira foi diferente, como não podia deixar de ser. Pela primeira vez, desde que iniciámos o ciclo Diga 33, não contámos com a presença física do autor em foco. Daí a palavra homenagem, que não é das melhores. Mas simplifica.


Tivemos a Cláudia Souto, a quem o Rui Costa dedicou o livro de estreia, a falar dos primeiros tempos. Leu com pronúncia do norte a nuvem prateada, tal qual foi escrita.


E a mim pareceu-me ter sentido a presença do Rui naquela voz, como que numa evocação ameríndia aos que por terem passado são os mais presentes. 


O André Corrêa de Sá, acabado de chegar de Santa Bárbara (Califórnia), apontou pistolas às noitadas no Porto. Andámos pelo Pinguim, pelo Púcaros, lembrámos os Mana Calórica  e enviámos um abraço ao A. Pedro Ribeiro. 


E rimos com a Margarida Vale de Gato quando ela nos mostrou um pouco do que era trabalhar com o Rui Costa, neste caso numa peça de teatro a duas mãos. 


Mostraram-se livros.


Leram-se poemas.


Distribuíram-se sorrisos.


A Sílvia Guerra, surpresa fora de programa, visitou-nos vinda de Paris para mostrar como a poesia do Rui Costa tem andado de mão dada com a arte contemporânea no projecto Metaphoria. Primeiro em Guimarães, depois em Atenas, em breve na cidade luz. 


Foi mais ou menos isto, respeitável auditório. Sete meses cumpridos, cabe agradecer ao Nuno Moura e ao João Paulo Esteves da Silva, ao Paulo da Costa Domingos, ao manuel a. domingos, ao Carlos Alberto Machado, ao Miguel-Manso e ao Pedro Mexia, ao Miguel de Carvalho, à Cláudia Souto, à Margarida Vale de Gato, ao André Corrêa de Sá e à Sílvia Guerra. À equipa do Teatro da Rainha. Ao José Ricardo Nunes. Ao Fernando Mora Ramos e ao José Carlos Faria, que leram poemas e, queiram os indígenas da poesia, hão-de ler mais. A todos quantos têm aparecido nas sessões, reaparecendo ou desaparecendo. Em Agosto descansamos, voltaremos em Setembro com a Mariposa Azual. As fotografias são da Margarida Araújo.

terça-feira, 17 de julho de 2018

HOJE, NO TEATRO DA RAINHA, ÀS 21H30



A próxima terça será dedicada ao Rui. Acerca de Rui Costa, várias matérias: aqui. Por ora, recordemos um poema:



NÃO SÃO POEMAS

Não são poemas o que eu escrevo.
São casas onde os pássaros esperam.
Nas suas janelas coincide o mundo.
Nos seus esteios resvalam gigantes.
Algumas vezes ódio.
Algumas vezes amor.
Não são mortalhas incondicionais do medo.
O HÓSPEDE DA CASA NÃO
TEM O DEVER DE SER FELIZ!
Não são poemas que eu escrevo.
São espelhos onde os rostos principiam.

Rui Costa, in “A Nuvem Prateada das Pessoas Graves”, Prémio Daniel Faria 2005, Quasi Edições, Maio de 2005, p. 19.

quarta-feira, 21 de março de 2018

"Seis poetas escolhem seis poemas para quem não gosta de poesia (mas também para quem a ama)"

A ESCOLHA DE RAQUEL NOBRE GUERRA

Rui Costa, “Clássico nada original” (retirado de “Mike Tyson para Principiantes”, Assírio & Alvim, 2017)

 

A voz dos Joy Division no carro
que por azar é novo
saber que o mundo é a continuação
de Vila Nova de Gaia
há mulheres com pólvora entre os dentes
para lá das montanhas e montanhas
para lá das montanhas.
o sofá era atanómico.
o gato comi-o. foi a melhor maneira
que encontrei para o levar comigo.
alguma roupa, dois ou três objectos.
as recordações pões numa caixa de
madeira com desenhos de cavalos. Depois,
vais ao café por volta das onze horas
e contas o dia no escritório as
pernas da nova secretária. Ris muito e pensas
que quem ama a luz não pode ter medo
da escuridão

A JUSTIFICAÇÃO DE RAQUEL NOBRE GUERRA PARA A SUA ESCOLHA

Estas poucas linhas conservam a medida encantatória do que se quer de um poema: legitimar a intimidade entre autor e leitor, dizer no lugar de querer dizer. Rui Costa não presta contas à impossibilidade colocada diante da linguagem, maçando o leitor com oscilações de temperatura e febres maneiristas, antes atribui significado às coisas e ao quotidiano pelo modo como estes o afectam, elevando-os a uma respiração colectiva de sentido — “(…) saber que o mundo é a continuação de Vila Nova de Gaia”. O trabalho da linguagem não se fica pelo relato e representação de uma interioridade estetizada, mas pela mediação de um segredo partilhado no património comum dos afectos: subjugar a escuridão e suas assembleias de culto - “quem ama a luz não pode ter medo”. O canto do homem lúcido às sereias.


Jornal Expresso: aqui.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

MIKE TYSON ENTRE OS MELHORES

No jornal on-line Observador, Nuno Costa Santos elege Mike Tyson Para Principiantes, de Rui Costa, como um dos melhores livros do ano:

“Mike Tyson para Principiantes”, de Rui Costa (Assírio & Alvim)


Em entrevista a Fernando Esteves Pinto, Rui Costa (1972 – 2012) apresentou o seu programa: “Tratar a metáfora de uma forma metabólica, como se fosse um bicho, e as coisas mais concretas (como os limões e as pataniscas de bacalhau) como se fossem carburadores universais”. A intenção é encontrada, de um modo quase sempre surpreendente, numa antologia poética feita por uma comissão de amigos e cúmplices, apostada numa selecção a partir dos livros editados em vida do autor, de dispersos e de inéditos. Entre a metáfora e a ironia, entre o surrealismo e a reserva face ao sentimentalismo, um poeta que se desenhava assim no cartão do cidadão: “(…) Não são poemas o que eu escrevo/ São casas onde os pássaros esperam (…)”.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

LER, N.º147, OUTONO DE 2017


Clique na imagem para ver melhor.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

L-E-T-R-A-S PARA SIGUR RÓS

para J

é dágua
de-água
o meu vestido
o teu
soprado am-ar
líquido
um gás azul
o ponho aos pés
os teus pés e
os teus tornozelos
(teu-o fantasma
predilecto)

são sem
nada
não incomodam ar
não pressionam
(onde a cabeça
insiste, e então)
e respira
rente ao
ar
ao amor
de-o-ar a inspira-
te a expirar
e assim…- e
tu?


Rui Costa
(Insónia, 17 de Abril de 2006)

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

MIKE TYSON PARA PRINCIPIANTES

 (Primeiro Round)

   Sou amigo do Rui Costa. Quando, há cinco anos, o seu pai me telefonou perguntando se sabia dele, não temi o pior. Mas o pior acabou por se confirmar. São questões que agora não interessam, ainda que possa interessar a quem não tenha conhecido o Rui saber quão imprevisível ele conseguia ser. Foram circunstâncias imprevisíveis as que nos separaram, como foram as que nos aproximaram - já lá vão uns treze anos. Eu tinha um weblog exclusivamente dedicado à poesia, o Rui contactou-me por e-mail questionando-me sobre a possibilidade de divulgar nesse espaço alguns dos seus poemas. “O Pão” foi o primeiro poema que me fez chegar, sendo também, por mera coincidência, o primeiro poema desta antologia. Não posso garantir o que senti quando li esse poema pela primeira vez, mais sei o que sinto sempre que releio aqueles primeiros versos: «Há pessoas que amam / com os dedos todos sobre a mesa. / Aquecem o pão com o suor do rosto / e quando as perdemos estão sempre / ao nosso lado» (p. 33). Sinto que o Rui Costa é um grande poeta e que, não só por isso, mas também por isso, continua a meu lado.

   Ao reler esta antologia, como tantas vezes tenho relido muitos dos textos que deixou publicados e outros que me confiou, voltei a estar na presença de alguém que levava a sua arte a sério — não no sentido de a pretender empolar, antes no mais nobre sentido da seriedade que certas coisas merecem. É esse sentido o da exigência. Certas coisas na vida obrigam-nos a ser exigentes, aquilo que mais amamos reivindica tal exigência. E o Rui amava a poesia, gostava de falar sobre poesia, gostava de discuti-la, de pensá-la. Esse exercício do pensamento reflecte-se nos poemas que escreveu, nas estórias, nos romances. Não como provocação, mas sim como desafio. Talvez por isso os seus textos possam, por vezes, parecer-nos complexos e até mesmo impenetráveis.

   Uma das características que mais tenho encontrado atribuídas ao Rui Costa é a de ter sido um provocador. No nosso país, normalmente atribui-se tal característica a quem recusa pensar por cabeça alheia. O Rui não era um provocador, pelo menos na vulgar noção de pretender chamar sobre si atenções para as quais se estava nas tintas. Era, pelo contrário, um instigador da discussão, já que tinha cabeça para pensar e dava-lhe uso. Como a certa altura ironiza no poema “Espanha”, tinha uma grande cabeça: «Dizem que eu tenho a cabeça demasiado grande, o meu amigo Angel costumava dizer, um dia emprestaram-me um capacete para andar de mota e tive que levá-lo no braço» (p. 123). Pensar pela própria cabeça é um risco, sobretudo por quase sempre acabarmos isolados do resto do mundo. E é um risco por nos expor aos acidentes, por nos deixar desprotegidos, isto é, exclusivamente entregues à nossa capacidade de pensar livremente o mundo.

   Ora, é para o mundo que se concebem antologias de poemas como esta. Facilmente se imaginará como para cada um dos implicados na concepção deste livro estava uma necessidade. A necessidade é muito mais forte do que a vontade. Passados cinco anos sobre a trágica morte do Rui, impunha-se que as suas palavras voltassem a estar disponíveis, que, deste modo muito particular que é o dos “homens de palavras”, o próprio Rui voltasse a estar à nossa disposição.

   O André Corrêa de Sá, a quem coube coordenar os trabalhos, adverte para o «tom deliberadamente pessoal» da leitura aqui proposta. Seria desumano exigir outro tom. No entanto, convém esclarecer desde já que o título Mike Tyson Para Principiantes é o de uma antologia que o próprio Rui Costa deixou preparada. Diferente desta, é certo, mas com sugestões de algum modo acolhidas e respeitadas. Nesta se coligiram, em três partes distintas, poemas publicados em vida misturados com outros até agora inéditos. Aparecem sem qualquer ordem cronológica, o que está de acordo tanto com o que o Rui tinha deixado preparado como com o que levou a cabo numa outra antologia bilingue publicada em vida com o título O pequeno-almoço de Carla Bruni. A origem dos poemas é diversa, vem explicada no final do livro, e não vale a pena inventariá-la aqui, conquanto se torne claro para todos estarmos perante um livro que oferece uma parcela considerável do labor poético que o Rui deixou e se mantinha até hoje publicamente desconhecido.

   Nas três partes que compõem esta antologia podemos vislumbrar um movimento que obedece à alusão pugilística do título, sendo claro para o leitor que o ringue onde as palavras dançam é o da própria vida. Nesse ringue, a beleza da dança mistura-se com a violência, os corpos são objecto de contemplação, há um jogo cujas regras parecem definidas pelo caos e entre assaltos vários termina-se, tal como sempre sucede na vida, ou por inconsciência ou por desistência.

   Já nos clássicos encontramos o boxe como motivo poético. Píndaro, nas “Odes Olímpicas”, dedica a um vencedor de boxe os seguintes versos: «A nuvem do esquecimento não tem fronteiras / e paira sobre muitas coisas». Também sobre muitas coisas pairam as nuvens na poesia do Rui Costa, algo evidente logo no premiado livro de estreia A Nuvem Prateada das Pessoas Graves. No poema homónimo as pessoas graves são as que “caminham com o pescoço inclinado para baixo”, tocando primeiro com os olhos o caminho que os pés confirmarão. São, portanto, pessoas precavidas, cautelosas, são pessoas cuidadosas. Mas por vezes elas vêem o céu, um céu que fica no outro lado do mundo onde as pessoas graves caminham. E então arrastam sobre si uma nuvem prateada, uma espécie de sombra. Daí, talvez, que nos pareçam sombrias. Talvez caiba ao poeta a missão de iluminar-lhes o caminho desconcertando-lhes a gravidade.

   O primeiro verso do poema “A Construção da Luz” diz-nos: “Toda a luz é subterrânea” (p. 137). Esta luz está em conformidade com o céu das pessoas graves: “Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo / dos pés e por isso do outro lado do mundo” (p. 41). Este outro lado do mundo, subterrâneo, convoca uma das obsessões poéticas do Rui. Ela surge igualmente no romance A Resistência dos Materiais, cujo palco é uma cidade organizada em função dos poderosíssimos dados decorrentes de uma investigação científica acerca da propriedade das sombras. Somos levados a pensar na Alegoria da Caverna, embora neste caso as propriedades das sombras se confundam com a verdade que escapa aos agentes humanos. Mas podemos também pensar na morte enquanto luz subterrânea, enquanto princípio fundador de uma tomada de consciência acerca da existência humana.

   A luz é uma obsessão nesta poesia desde a primeira hora. O poema “Humano”, do primeiro livro, termina com o verso “deste momento onde parimos luz” (p. 35). O Breve Ensaio Sobre a Potência, último dos seus livros publicados, é um poema-sequência que começa assim: “a luz é a metáfora do verbo” (p. 171). Luz e sombra parecem colocar em confronto dois mundos, são a dança executada no ringue da vida com resultados inesperados.

   Evitemos, porém, leituras estritamente simbólicas ou exageradamente metafóricas desta relação da luz com a obscuridade numa poesia mais próxima da materialidade dos corpos do que por vezes aparenta. “Nem luz nem a treva. Às vezes, de madrugada, / visito as mulheres que lavam e que cantam” (p. 38), diz-se no poema “A Matéria do Ar”. Como sugere o último fragmento de Breve Ensaio Sobre a Potência, a treva e a luz são uma espécie de balizas entre as quais o poema emerge como um jogo de linguagem. Expressões como “parir luz” enviam-nos para outras como “dar à luz”, isto é, conceber, fazer nascer, criar, gerar. A luz enquanto metáfora de verbo ocupa aqui o lugar da acção, ou seja, da criação. E criar, no contexto poético que nos une, significa transformar. Talvez este seja o lado mais romântico de uma poesia onde a vontade de transformar surge invariavelmente traída pela noção de um conservadorismo idiossincrático que trava, obstaculiza, impede a transformação.

   A transformação é, em si mesma, um fenómeno violento. O acto de parir, dar à luz, é um acto violento, crescer, mudar, é estar sujeito à violência da transformação. No Breve Ensaio Sobre a Potência estas questões surgem expostas de um modo especialmente belo. Do ponto de vista aristotélico, como bem notou Rui Lage, a potência está associada à mudança. Isto é, os seres sujeitos ao devir são seres em potência, mutáveis, instáveis, contingentes como toda a matéria o é. O amor, outro dos temas centrais nesta poesia, revela-se também ele violento, na medida em que gera transformação no ser. Não estamos, portanto, no campo de um amor absoluto, transcendental, mas sim no campo de um amor, se quiserem, erótico, transformador, material. Pegando nas palavras da Margarida Vale de Gato: “Na poesia de Rui Costa, que se acomoda bem ao mote Mike Tyson para Principiantes, a violência é o que abala a distância dos corpos e não raro se abre à (re)percussão amorosa”.

   Note-se como no poema-sequência “Faca de Incêndio”, um dos que o Rui me dizia serem dos mais representativos da sua poesia, se associa um objecto cortante, transformador, a um fenómeno químico, também ele transformador, na circunstância do que aparenta ser uma história de amor entre um homem e uma mulher ameaçados tanto por forças externas como pela sua própria condição contingencial. Assim sendo, nem a luz é símbolo de vida nem as trevas simbolizam o mal nesta poesia. São ambas parte integrante de uma realidade orgânica, material, em contínua transformação.

   Podemos olhar para a poesia de Rui Costa como uma máquina de baralhar sentidos de que resultam metáforas vivas, numa linguagem poética que, parafraseando Paul Ricoeur, “enquanto inversão da linguagem comum, não se dirige para fora mas para dentro, em direcção a um interior que nada mais é do que o estado de espírito estruturado e expresso por um poema”. Tal a estância 7 do poema “Versos de Amor Pós-Modernos”, de onde saiu o título As Limitações do Amor são Infinitas: “digo o contrário / do que quero / para que no espelho / a imagem não surja / invertida” (p. 158). Já no poema intitulado “Narciso”, o mito grego surge subvertido na sua lógica: “No rio a tua imagem parece menos tua: / (…) Não te iludas. O que tu vês és mesmo tu:” (p. 152). A lógica invertida, as imagens absurdas, a sintaxe estropiada, as incongruências, a pontuação por vezes anómala, a inclinação para o incoerente, fazem parte de um jogo alquímico que torna a linguagem do poema ao mesmo tempo sedutora e agressiva. “Alquímica” é justamente o título de um dos poemas iniciais, onde percebemos haver nesta poesia um teste de resistência ao material por excelência do pensamento, isto é, a linguagem.

   As sombras e a ideia de reflexo enquanto verdade podem também ser entendidas como tomada de consciência das limitações humanas que, tal como as do amor, são infinitas. O conhecimento do mundo tem as suas limitações. Os limites do meu mundo são os da minha linguagem, ou vice-versa, como diria Wittgenstein. Gostava, neste sentido, e antes de terminar, de chamar a atenção para outra constante na poesia do Rui. Refiro-me à recorrência da cor azul, óbvia nos poemas “Elegia Azul” e “Homem Azul”, incluídos nesta antologia, no Homem Azul que surge enquanto personagem do romance A Resistência dos Materiais ou na micronarrativa “O rapaz que queria ser azul”.

   Encontramos ainda um “buraco azul” no poema "Kosher" ou as mãos que se azulam em “A Construção da Luz”. Num desafio dirigido aos leitores do weblog Insónia, que cumplicemente alimentámos, o Rui pedia, a 21 de Setembro de 2005, que lhe enviassem “realidade azul”. No inédito “L-E-T-R-A-S Para Sigur Rós”, publicado no mesmo weblog, refere-se a “um gás azul”. Ainda no Insónia, publicou a determinada altura algumas fotografias com os títulos “Buraco Azul” e “Corpo a Sair do Azul”. No poema “Cantilena” damos com “uma garganta toda azul a escorregar no céu”. “A flor é uma condensação aquática de semblante / azul” (p. 164), lê-se no poema “A Flor”. Em “A Música”, publicado numa antologia de homenagem a Fiama Hasse Pais Brandão, há uma estrofe que se destaca das demais: “Há poetas azuis que julgam que a / coerência é um pardal azul (da goela / até aos pés). Normalmente limpam os óculos / com coerência, em vez de com (enfim) / e depois vêem o mesmo pardal, a todas / as horas do dia e da noite, sentado azul- / mente sobre o seu nariz azul” (p. 85).

   O azul, explica-nos Jean Chevalier no “Dicionário dos Símbolos”, é a mais profunda das cores: nele o olhar penetra sem encontrar qualquer obstáculo e perde-se no infinito, como que perante uma perpétua fuga da cor”. Tenho pensado muito nesta relação do Rui com o azul. Questiono-me se não seria o azul para ele o que para outros assume a forma de transcendência, uma ideia de infinito onde o pensamento se liberta das leis e deixa de estar sujeito aos acidentes que testam essas mesmas leis. No azul desaparecem as limitações, desaparecem os constrangimentos, todo ele é a profundidade onde o nirvana acontece. O azul não seria uma espécie de libertação, mas seria a liberdade ela mesma, uma liberdade na qual os olhos se perdem quando mergulham na vastidão de um buraco azul ou no infinito celeste.

   O Homem Azul de A Resistência dos Materiais é-nos apresentado como alguém que “despercebia o mundo”, o que parece coincidir com o projecto de “descompreender o mundo” proposto pela sua poesia. O azul seria, assim, “o caminho do devaneio” que coloca o poeta numa zona de risco. Essa zona é a da dúvida, é a do confronto, é a de uma vontade que impele o olhar para lá das construções que lhe são impostas e irrompe pelo desconhecido, pelos territórios do impossível, desbravando terreno na direcção de uma outra ideia de verdade. A poesia do Rui coloca-nos no ringue da vida para nos desafiar a olhar para o mundo de um modo azul, com a profundidade de quem não tem muros nem paredes nem grades nem impedimentos a cercearem-lhe o pensamento.

   O azul, diz-se, é também a cor da verdade, na sua profundidade ele distancia-nos do óbvio oferecendo ao olhar outras perspectivas, porventura ficcionais, porventura metafóricas. Como se afirma no supracitado poema com o título “Espanha”, “A metáfora é o azimute de um escritor que não come tudo o que há para comer” (p. 122). Não estou certo de que assim seja este azul, mas quero acreditar haver nele uma qualquer forma de desprendimento que se confunde com a liberdade inerente à própria poesia.


   São poucas as coisas em que acredito. Acredito que amo as minhas filhas, acredito que vou morrer, acredito igualmente que as palavras deixadas pelo Rui Costa merecem estar à disposição dos leitores. Nem luz nem sombra, na profundidade de um azul libertador como sói ser o da melhor poesia. 

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

HOJE, EM LISBOA

(clique na imagem para ver melhor)

VEM NA ANTOLOGIA


A MINHA GERAÇÃO


Não é preciso fazerem nada.
As coisas fazem-se sozinhas, as pessoas falam e as construções
acontecem. O filho do político também é político. Trata-se de
mera coincidência: foi convidado enquanto esperava o pai junto
à máquina de fotocópias. Por certo levava consigo o documento
de identificação — preparava-se para tirar uma fotocópia da sua
certidão de doutoramento — e aproveitou para tirar uma fotocópia
de tudo o que tinha no bolso, incluindo do próprio bolso, vazio,
porque o filho de um político deve ser exemplo de pobreza.

Foi então que o sol veio, em raio, montado por coriscos sibelinos.
Todos viram nisto um sinal — uma anunciação — e uma lágrima aflorou
ao canto de um olho. Um discurso foi feito, e vegetais distribuídos — uma
cenoura por cada advérbio, duas beringelas por cada palavra correctamente
pronunciada — e no fim a música foi chamada a abrilhantar o prodígio.
Falou-se um pouco dos indicadores económicos — a situação do país
ainda não é perfeita, mas com esta nova geração de homens a coisa
vai lá. É importante que o filho do político tenha participado em 
vindimas, ainda adolescente, para saber o que custa a vida dos outros.

Falta falarmos das vacas, stressadas e com menos leite por causa
do barulho das auto-estradas a caminho da excelência. Afinal o milagre acima
referido foi contratado a uma empresa de eventos, e ligeiramente sobrefacturada,
o que em nada diminuiu o seu valor de fenómeno existencialista, como disse
o pai do filho do político, que leu Heidegger e tem dentes de rola. Vamos
dançar, como Nietzsche propôs, já não me lembro em que livro, porque
quando a gente lê muito depois não tem tempo para estas coisas (o céu
desce a sua brisa sobre a nossa fronte e as andorinhas espadanejam).

E se fôssemos todos convidar-nos uns aos outros para aquários com
écrã filho da puta e aumentássemos os nossos salários cem por cento,
como fazem os políticos brasileiros? Não seria boa ideia?

Na verdade, as montanhas e os vigilantes dos mares não sabem
que estamos aqui, esperando por eles e com vontade de fazer a
primeira revolução a sério da história. É preciso informá-los, para
que eles saibam, porque se não o fizermos alguém vai ter a mesma
ideia e convida os artistas todos primeiro. Usem os recursos com
inteligência, porra!

Conheço pessoas que trabalham muitas horas por dia.
Mais de oito, e mesmo mais de doze horas por dia.
São pessoas muito importantes para as economias de algumas
famílias, o que infelizmente não serve para evitar a chegada da crise
aos nossos fodidos corações agoniados. Há máquinas doces,
calma aí, nem todas são desesperadas. Abrem-se as torneiras e saem
estratégias musicais e pacientes malhas de conversas que podemos
despencar nas redes sociais. Se não for por mal não há problema.
Somos inocentes, ainda, porque é saboroso ser confrontado com
a desgraça de uma vez só e em dose moral. Vejamos o que quero dizer:
não, é melhor não. Ainda é muito cedo, e podemos lavar as cortinas
em vez de ficarmos a queixar-nos do cheiro das casas de banho nas
artérias mais movimentadas do nosso glamouroso corpo brilhante.

Um homem passa e nunca mais desaparece.


Rui Costa, in Mike Tyson Para Principiantes - antologia poética, org. André Corrêa de Sá (coordenador da edição), António Aguiar Costa, Cláudia Souto, Margarida Vale de Gato, Assírio & Alvim, Setembro de 2017, pp. 118-119.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

POEMA A TODOS OS SERES QUE USAM NICKS E ABREVIAGENS E SÃO ANÓNIMOS

Vão prá
p. q. v. p.
diriam
vocês,
aliás,
vocês não
dizem
nada
porque
não existem
são sombras
acabrunhadas
de flores
de papel
tristes
de embrulhar
medo
merda
por isso
vos digo
à minha maneira
encolham-se
ainda
um pouco mais
e voltem
ao sítio de onde
não deviam ter
saído
assim: a
puta
que vos
pariu


Rui Costa

24/10/2005 (aqui)

domingo, 22 de outubro de 2017

SONETO DO SONETO

Catorze versos o soneto este é o primeiro
e ainda não disse nada (este é o segundo)
Mas quem diz que em três versos cabe o mundo?
Em três não cabe, só no soneto inteiro...

E eis mais uma quadra começada
que ao fim deste verso chega ao meio
Daqui a pouco está o soneto cheio
e eu ainda não disse - quase nada?!

Mas felizmente chega um terceto
e neste estou eu bem inspirado
Pena é que já acabou. Ó que chatice!

Mas vou salvar as honras do soneto
num verso belo de final dourado
que diga tudo o que atrás não disse

Rui Costa


28/07/2005 (aqui)

sábado, 21 de outubro de 2017

PARÊNTESIS

(...) [— Claro que estes eram os políticos.
As suas bocas começaram a crescer e de cada vez que
as tentavam abrir uma parte do seu corpo desaparecia.
(Um dia o presidente convidou-os para jantar
e comeu-os a todos, acabando por asfixiar numa esmeralda
tépida.)] (...)



Rui Costa, in Mike Tyson Para Principiantes - antologia poética, org. André Corrêa de Sá (coordenador da edição), António Aguiar Costa, Cláudia Souto, Margarida Vale de Gato, Assírio & Alvim, Setembro de 2017, p. 145. Do poema Faca de Incêndio, que pode ser lido integralmente aqui.

HOJE, NO PORTO


UM SONETO DE RUI COSTA

EM QUE POEMA TE VI NÉVOA OU BRUMA

Em que poema te vi névoa ou bruma
anémona agonizante cama ausente?
Em que recanto de meu medo te pressente
o desejo de seres todas. Ou nenhuma.

Em que silêncio poisas uma a uma
as luzes que vestiste? De repente
lamber-te o sexo querer o aroma quente
das laranjas e dizer-te que alguma

vez acabarias de nascer. Nascer.
Moscas de fogo. Em ti eu me deponho.
No teu pescoço de terra calcinada.

Acalantos. Água. Saber ou não saber
que nos faróis da noite vem o sonho
e depois do sonho não vem nada


Rui Costa, in Mike Tyson Para Principiantes - antologia poética, org. André Corrêa de Sá (coordenador da edição), António Aguiar Costa, Cláudia Souto, Margarida Vale de Gato, Assírio & Alvim, Setembro de 2017, p. 89.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

SMSs DE LONDRES

O meu primeiro contacto com o Rui Costa ocorreu algures entre 2004 e 2005, antes da publicação de A Nuvem Prateada das Pessoas Graves (Quasi, 2005). Eu tinha um weblog intitulado Universos Desfeitos, assinava com o pseudónimo de Juraan Vink textos de que sobram alguns exemplos aqui, aqui ou aqui. O Rui encontrava-se então em Inglaterra, onde estudou e trabalhou. Pediu-me opinião sobre alguns dos seus poemas e questionou-me sobre a possibilidade de os divulgar no Universos Desfeitos. A empatia com os poemas que me apresentou foi imediata, tendo sido precisamente por aí que a nossa amizade se iniciou. Quando o livro de estreia foi premiado, eu já conhecia alguns daqueles poemas. À época, o Rui colaborava comigo num outro weblog. O Insónia surgiu da cessação do Universos Desfeitos e da minha vontade de então gerir algo colectivo, tendo sido o Rui Costa uma das primeiras pessoas que convidei para esse gozo conjunto. O primeiro post do Rui Costa no Insónia foi publicado a 25/Julho/2017, ainda não nos conhecíamos pessoalmente: «Só as loucas é que sonham com os príncipes encantados. Ou seja: altos, fortes, esbeltos, além de corajosos, gentis, amorosos, enfim, perfeitos. Isto é: chatos como a potassa posta em sossego no tubo de ensaio com uma boa meia-dose de pó de talco». Era assim o Rui, as suas palavras tinham uma força que tanto nos seduziam pela dança, como nos colocavam de atalaia pela provocação. Há um outro post dele no Insónia de que gosto muito. Não sei explicar porquê. É um post simples, que de algum modo antecipa a era Twitter e nos diz qualquer coisa sobre a distância entre o poder e as populações. Apetece-me partilhá-lo hoje aqui:

SMSs DE LONDRES

LONDRES I
Subitamente, pela primeira vez: as pessoas olhando umas para as outras.

LONDRES II
O senhor polícia veio tirar-me a lata de cerveja da mão: é proibido (disse) beber na rua em toda a área de Westminster.

LONDRES III
Dizia o António Aleixo (cito de memória mas acho que é assim), desconhecendo a cidade e os novos verbos:

Como um só não é bastante
nós vamos ter, certamente,
Um guarda por habitante
Pra que não roubem a gente.

Em muitos sítios públicos de Londres (pronto, reparei mais nos bares) pode ver-se um cartaz com o desenho de dois olhos e a frase: "A melhor arma contra o terrorismo".

LONDRES IV
Quando o blow job é ultrapassado pelo blow up job.

LONDRES V
O melhor presunto português comi-o em Londres (shame on me).

Rui Costa


30/Julho/2005

sábado, 30 de setembro de 2017

UM ORIGINAL

FACEBOOK LOVE

Meu amor: sempre que entro no Facebook
lembro-me de ti
e no entanto
eu sei
que digo coisas muito incompreensíveis
e não sou deste tempo.

Estou sozinho na frente deste écran onde alguém
comentou a tua última fotografia e não consigo
lembrar-me de uma frase normal e simpática
sozinho
apesar de fazer hoje um ano que nos conhecemos.
Não te culpo por não estarmos juntos neste momento
porque sei que a culpa não é tua, que vives noutra cidade
e que nem sequer o dinheiro sobra (apenas as saudades).

Escolhi um caminho errado para a minha vida,
porque todos os caminhos certos me pareceram
ainda mais errados. Assim, fiz tudo o que tinha a fazer,
ou seja, pensei e senti. Não preciso que compreendam as
minhas ideias mas do ser humano ocasional espero ainda
um pedaço de tempo para uma conversa sem pressa,
uma vez por mês, com um café ao alcance da mão.
À janela do estabelecimento, espreitando sempre,
há os pais dos outros e os filhos dos outros
e as casas
e contra ou a favor da história natural eu posso
nada.

Talvez viaje no próximo mês e a distância se
altere. Apetecia-me ir a pé de uma cidade a outra,
como dantes faziam os artistas e outras pessoas normais;
mas nas estradas grandes é proibido andar a pé e os
caminhos pequenos agora servem para amontoar
os habitantes da cidade que não encontraram ninguém
a quem entregar o seu amor. Enquanto decido,
a tua ausência sempre me vai fazendo alguma companhia.

Por favor cuida de ti,
tem cuidado a atravessar as ruas:

Deves saber que nunca tratei bem os mortos.


Rui Costa, in Mike Tyson Para Principiantes - antologia poética, Assírio & Alvim, Setembro de 2017, pp. 48-49.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

UM POEMA

Aqui.