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terça-feira, 10 de março de 2020

NO PAVILHÃO DO CHÁ


Num vaso, precioso, uma peónia.
   Em trajes de cer'mónia
Alguns velhos, letrados, reunidos,
   Conversando entretidos.
   A perfumar o ambiente,
Sobre pequenas mesas de charão,
Em taças, de Cantão,
Folhas de chá abrindo lentamente...


Maria Anna Acciaioli Tamagnini (n. 1900 - m. 1933). Natural de Torres Vedras, foi casada com o governador de Macau Artur Tamagnini Barbosa. «É autora de uma só obra publicada em vida, Lin-Tchi-Fa (1925), que vários apontam como o primeiro livro de poemas de temática extremo-oriental escrito por uma mulher portuguesa. Ele é, na verdade, uma contínua exotização de uma China antiga, contando assim como uma manifestação intensa desse tipo de investimento estético. Há por vezes, neste âmbito, um registo que é puramente decorativo, em si mesmo interessante, como ressalta no poema em amostra» (Duarte Drumond Braga, in Nau-Sombra - Os Orientes da Poesia Portuguesa do Século XX, com Catarina Nunes de Almeida, Nova Vega, 2013, pp. 83-85). 

terça-feira, 30 de maio de 2017

REMINISCENTE


(Poema anti-saudosista)

1

Apagou-se o candil duma antiga saudade
Que me acenderam numa sala da memória,
Onde sozinho me deixaram
À espera que chegasse o médico da casa.

Eu padecia de lembranças sucessivas,
Incongruentes, interseccionadas,
Como a sombra das árvores quando as luzes
São móveis e de vária intensidade.

(Mordomo, por exemplo, do castelo
Onde já fui morgado,
Agora ia sofrendo a mágoa de o não ser
E após sentia a dor de me saber sonhando
sem poder acordar).

2

Irado porque o espelho onde pousei a fronte,
Liquefeito ao calor da minha febre
Me entrou pelos olhos dentro,
Bati com toda a força numa esquina do fogão
Até partir o crânio e despejá-lo a rir
De ter posto lá fora o espelho impertinente.

Depois fui assentar-me numa nuvem
De tabaco holandês que roubei a meu pai,
À espera que chegasse o médico da casa.
Mas, ai! a dor já era doutro lado,
Oriunda, talvez, do tanque onde eu brincava
E um dia me afoguei sinceramente
E fui comido pelas rãs e pelos sapos.

3

O relógio de pinho, a fingir de borracha,
Caía da parede ao chão e vice-versa;
E o cuco, sem tirar os olhos da cadeira
Onde eu me fui sentar,
Surripiava as horas lá de dentro
E atirava com elas à vidraça
A fingir que era o tempo.

Eu não sei se dormia ou se estava a pensar
Que tudo isto me podia acontecer,
No reino felizmente ainda ignoto
Da Quarta Dimensão:
— Mas a verdade é que senti outra pontada
Por causa da sirene que silvava
Dentro dum frasco de remédio,
Onde vi naufragar o titanic.

4

Ai, que tristeza a minha! Ai, que tristeza!
Tão jovem, tão sportivo,
E o peito, assim, tão cheio de Passado,
Arfando molemente
Como debaixo d'água!

(Embaciadas, lúgubres lembranças
Da minha meninice...)

Ali cheirava tanto a coisas esquecidas
Em gavetas fechadas e sem chave
Por serem recordações!

Ali doía tanto a glória de ser novo
E ter nascido português e ser
Romântico hereditário!

"Tenham pena de mim, vamos! Lamentem
Que eu não seja do Norte!
Ensinem-me a sorrir nos lábios tendo
O claro frio dos fjords!
Digam todos em coro que sou esbelto
E penso escandinavo!"

(Isto sonhando, assim, como dizendo,
O cabelo rasgava por não ser
Do louro natural das novas raças.)

5

Mais densa do que o ar a nuvem desce
Comigo e pousa sobre a secretária;
Espalha-se o tabaco pela sala...
— E agora, com o pai quase a chegar,
Amanhã já não vou ao cinema.

Se eu tivesse uma irmã era ela
que dizia que foi o vento:
Mas eu não tenho olhos de donzela
Para mentir com talento...

6

A febre que me vem das penas de pavão
Em jarras, — porque a avó não tem superstições, —
Sobe tão alto que o mercúrio
Rebenta no termómetro.

(E o médico sem vir
Curar a minha dor destas coisas antigas
Que me entraram nos olhos como espigas
E não podem sair, e não podem sair!)

7

Mas o pior não é isto: o pior
É que Morfeu não tarda aí
De dentro daquele armário,
Com um abismo — pérfido! — nos braços,
Coberto com papel e um sorriso,
— Como um açafate de flôres.

Tem muita graça, não tem?
Vir assim abusar de um espírito indefeso
Que na terra surgiu num sem-querer de cardos,
Como criança maltratando
Um pássaro engaiolado!

8

Se batessem à porta e me acordassem!
Se alguém se debruçasse sobre mim
E levemente pelo nome me chamasse,
— Era o bastante, como antigamente,
Para ir p'rá escola...

Sim, porque embora tudo isto seja sonho,
Metade d'alma está desperta e atenta
Sofrendo pela outra,
Como um burguês numa janela sofre
Ao ver um ébrio passar na rua.

9

Ah! o passado, o passado!
Que ventoinha, que remoinho,
Que sorvedouro inexorável!
— Todas as bolas se perdiam agora para sempre
No encantado canteiro do jardim,
Que era em frente da nossa casa
O meu recreio predilecto:
Mesmo quando a fingir ao destino sem querer
(Heróica experiência que recorda
O papagaio de Franklin),
Ao ar as atirava no sentido
De lá irem cair — o saudoso canteiro! —
Onde as últimas horas dessas tardes
Em vão perdia a procurá-las...

E o doce mistério do profundo
Escuro poço esvaziado,
Quando os ramos a arder que eu lá cair
Deixava, a meio sempre se apagavam?!

E o som das pedras atiradas
P'ra dentro da cisterna?
— Que tardes esquecidas a escutá-lo,
Sozinho, na herdade! que Infinito
As vibrações sonoras da água me eram
No quase-espasmo de senti-las!

10

Ah! o passado, o passado!
Não conhecem aí nenhum dentista
Que me arranque este dente cariado?

Para que quero eu isto? (esta saudade?)
Eu, que não sou filatelista,
Nem numismata, nem bibliófilo,
Nem arqueólogo, nem nada
Disso, que vai além de ser sif'lítico?!

11

Aquela vez? aquel' passeio?
Aquela menina que me disse
"Pois sim, quando quiser"?
Aquela criada velha que me queria
Como se eu fosse seu filho?
O colégio? o avô? as férias grandes?
Os meus brinquedos? o meu fato de marujo?

Tudo isso passou, tudo isso morreu!
Com isso já não posso fazer nada
E cheira mal, — mesmo se cheira a flores, —
E sabe mal, — mesmo se sabe a frutos! —

A memória devia
ser uma espécie de cabelo
que a gente cortasse quando quisesse...

(Mas finalmente, finalmente
Vêm bater à porta! Vem aí,
Com certeza, o café! Já ouço mesmo
Chamar por mim: MENINO...)
E eu volto a ser igual a toda a gente.

Lisboa, 1925.

Carlos Queirós (n. 1907 - m. 1949), in Presença, n.º 23. O desaparecimento precoce não o impediu, apesar da obra curta, de se tornar num dos mais representativos poetas presencistas. A primeira edição de Desaparecido data de 1935, tendo merecido à época rasgados elogios do colega Fernando Pessoa que viria a falecer nesse mesmo ano. Na História da Literatura Portuguesa, A. J. Saraiva e Óscar Lopes dedicam-lhe uma linha lacónica: «verte em formas mais flexíveis mas cantantes a temática lírica tradicional». Adolfo Casais Monteiro coloca-o como discípulo directo de Fernando Pessoa, ou seja, em sintonia com um "segundo modernismo" que ao combinar melancolia com ironia busca «nas luzes da cidade uma ilusão de presença impossível, perseguindo pelas sombras da noite dos bares e nas miragens da vida nocturna, na agitação "mundana", um sonho impossível, e o adormecimento duma insatisfação que é angústia de eterno adolescente perante a vida». 

terça-feira, 7 de março de 2017

CLIMAS


Toda a tarde choveu e anoiteceu...

A vontade que tive de sair
pelo mundo fora... a passear... devagar...
ao sol, com força e alegria,
toda, tudo se amoleceu e se afundou...

Quando, em volta,
a sombra começou a esconder-me e a disfarçar,
fui só fechar a janela
para adormecer
ao som da chuva na vidraça...


Branquinho da Fonseca (n. 1905 - m. 1974), in Presença, n.º 22, 1929. Ao lado de José Régio, Gaspar Simões, Edmundo de Bettencourt, Fausto José e António de Navarro, foi um dos fundadores da revista Presença, vindo a revelar «(...) o seu virtuosismo de expressão verbal em Poemas (1926) e Mar Coalhado (1932) e o de efabulação em diversas tentativas dramáticas, mas a sua melhor obra reside nas colecções de contos, onde inicialmente se sentia o magistério de Raul Brandão» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa). «Romancista, contista, dramaturgo, poeta, Branquinho da Fonseca (durante algum tempo conhecido pelo pseudónimo de António Madeira) tem-se afirmado nesta última qualidade como lírico do mar e da serra, cheio de imaginação que não lhe ofusca a lucidez do espírito» (Cabral do Nascimento, Líricas Portuguesas).

terça-feira, 29 de março de 2016

VAMOS ANTES A PARIS


Quem me dera ser simples e vulgar,
Pensar como o vizinho merceeiro...
Juntar no Montepio algum dinheiro
E fazer-me por todos respeitar.

Normal no porte, feio e regular,
Ter casa própria já, com jardineiro...
Vazio de ilusões, e bom caixeiro,
Ensinar o meu filho a continuar...

Assim envelhecer devagarinho,
Perfeitamente parvo, mas feliz,
E certo de seguir por bom caminho.

Dirás, leitor: "a quem você o diz!
Beber também eu queria desse vinho..."
— Não bebas... vamos antes a Paris!

Julho de 1938.


Olavo d'Eça Leal (n. 1908 - m. 1976), in Presença, n.º 53, 1938. Caído no esquecimento, publicou poesia e ficção, fez teatro e cinema, foi artista plástico. Colaborou na revista Contemporânea, tendo o seu nome ficado associado ao movimento presencista por na revista desse grupo ter publicado alguns dos seus versos. Poeta de leitura agradável, praticou versos simples de refinada ironia.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

EXPERIÊNCIA


Nas noites negras para roubos, chuvas, ventos,
E nas noites quentes em que o luar abafava estrelas,
À hora de os sonhos baixarem vagarosos do céu,
Alguém dobrava com uma ordem doce os meus joelhos,
Juntava as minhas mãos inocentes e fracas,
E eu rezava como se repetisse uma canção.
E o meu sono era sempre sob a guarda de estrelas...

É a vida, agora, quem dobra os meus joelhos cansados
Que guardam a marca das pedras mais rugosas.
É a angústia da vida quem junta as minhas mãos,
As minhas mãos mais fracas e incertas.
Soltam-se da minha alma orações desesperadas,
Orações que as tristezas e os dias compõem.
Se no céu há estrelas, estão lá em cima e só brilham....


Alberto de Serpa (n. 1906 - m. 1992), in Presença, II s., n.º 2, 1940. «Alberto de Serpa é sobretudo o poeta dos momentos de recolhimento reagindo à mediania burguesa "numa cidade provinciana e triste"» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa).

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

ROMANCE POLICIAL


Acabei o romance policial,
E sinto a amargura indefinível
Daquela personagem principal.

(Lá fora há silêncio na modorna
Que o sol lança sobre as coisas).

Pobre mulher loira que matou por amor!

Afinal, isto é banal;
Mas hoje, não sei porquê,
Sinto bem fundo o drama
Daquela personagem principal.

(Zumbe sobre a minha mesa uma mosca cansada...
Lá fora anda o calor do sol; não há mais nada).

Só eu estou cheio do sonho
Da mulher loira que matou por amor...
E, não sei bem porquê, também componho
Um drama em que entro, e é desolador.

Sinto-me simplesmente comovido
Como um colegial,
Com esta história simples, sem sentido,
E superficial.

Há dias assim,
E eu bem estou vendo como é falso
O caso do romance policial.
Mas...
Queria poder salvar
Aquela mulher dócil e franzina
Que matou por amor,
E cuja morte
Fez surgir esta dor
Que me domina.

É enternecedor
O fim do tal romance policial!
E é de mau gosto, frágil e banal!

(Lá fora, que calor!...)


Francisco Bugalho (n. 1905 - m. 1949), in Canções de Entre Céu e Terra (1940). «Entre os poetas mais directamente ligados à presença, mencionemos Francisco Bugalho, cuja nota lírica principal vibra numa ansiedade insatisfeita de identificação com nesgas de paisagem, sobretudo de bucólica alentejana» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «Principiou o seu curso de Direito na Universidade de Coimbra e concluiu-o na de Lisboa. Viveu no Alentejo, dedicando-se à lavoura e exercendo as funções de Conservador do Registo Predial de Castelo de Vide. Colaborou em diversas publicações literárias, como Presença, Revista de Portugal, Cadernos de Poesia. Os seus versos ferem uma nota discreta e neles transparece a alma das cidades - sem excluir, contudo, certos temas inesperados que o fazem irmanar com os poetas de mais moderna índole» (Cabral do Nascimento, in Líricas Portuguesas). Pai do poeta Cristovam Pavia, pseudónimo de Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

ALJUBE, 1938


Inerte e vã, cai a penumbra,
indiferentemente,
por sobre os movimentos nítidos, ou indecisos,
as palavras
com segurança proferidas,
ou hesitantes, de timidez ou espanto,
os risos arejados e salubres,
ou as lágrimas sem remédio
das grandes desolações,
ou dos grandes dramas.
Inerte e vã, cai a penumbra,
impassível e inelutável,
ao mesmo tempo que, por isso mesmo, justiceira,
pois tudo, afinal, se equivale e se anula,
na sucessão voraz
dos sentimentos e das circunstâncias.
Inerte e vã, cai a penumbra.
Mas eu, decidido, fito-a,
ou, antes, fito o que ela envolve e adoça,
em lugar de também me abandonar a ela,
com a sua sedução de imponderável sono.
Inerte e vã, cai a penumbra.
É o fim da tarde no horizonte manso,
que no rio acende um último lampejo,
que só adivinho,
e em mim reata uma pungente saudade,
nem percebo de quê,
nem percebo de quando,
à força de ser com certeza de mim,
de antes de eu ter saudades de nada.
Inerte e vã, cai a penumbra.
Este ruído que oiço é o de um cão a ladrar,
ou o de portas fechando-se,
ou, mais simplesmente,
o do meu coração a querer evadir-se?
Agora, os cais devem estar apinhados,
o rio magoado lentamente desliza,
e a brisa que sopra as arestas morde
dos edifícios em monte
que as colinas cavalgam.
Há incêndios finais de dolorosas chagas
nalgumas vidraças que os derradeiros raios
do sol tange ainda.
Um surdo clamor cresce das ruas cheias
de uma gente agitada, que à pressa caminha,
e em tropel assalta os carros eléctricos
que telintam aflitos.
É a hora do enorme desafio
da alegria do cansaço vencido,
da proximidade do jantar fumegante,
da preguiça, do ócio, da intimidade.
Os automóveis cruzam-se,
ultrapassam-se, velozes,
de buzinas febris ferindo os ouvidos.
Nos parapeitos das janelas amargas,
com grades e redes poeirentas e vis,
alguns pombos descuidados debicam
as migalhas de pão que nós lhes deitamos
com os dedos crispados de amor e de angústia.
Inerte e vã, cai a penumbra.
E em cada um de nós, que um pudor emudece,
chora, mais negro, mais cruel, mais duro,
mais um dia inútil, perdido para a vida. 


Armindo Rodrigues (n. 1904 - m. 1993), de O Tempo Suspenso, in Obra Poética XIII (1978). Médico de profissão, é autor de uma extensa Obra Poética reunida em 16 volumes entre 1970 e 1980. Voz Arremessada ao Caminho, livro de estreia, data de 1943. Ligado desde a primeira hora ao movimento neo-realista, é autor de uma poesia «directa, afirmativa, «arremessada ao caminho», particularmente nua e crua» (Cabral do Nascimento). Por vezes panfletário, ecoam nos seus versos as concepções marxistas que alimentaram muita da poesia portuguesa com inclinações sociais. Foi colaborador da revista Seara Nova e dirigiu a colecção Cancioneiro Geral, ganhando notoriedade como «actualizador de velhas tradições, sobretudo lírico-epigramáticas e sentenciárias» (A.J. Saraiva, Óscar Lopes).

quinta-feira, 9 de abril de 2015

[Ópera humana...]


Ópera humana...
Onde o cantor é um operário
A construir e a destruir:
Cria ruínas e, a seu lado,
Ergue um castelo ao imaginário,
Erguido no presente com a sombra do passado
E para a luz sombria do futuro.
E, enfim, lá canta a sua música
Feita de carne ou lama,
De pus ou chaga, de sorriso ou lágrima...

O instrumento e o palco
Somos nós
E o pensamento da obra nós julgamos
O nosso pensamento.
Mas ele,
Só ele sabe de cor o seu papel.

...Os ramos
Duma árvore partida
Parecem perguntar ao vento:
Aonde vamos,
Aonde foi a nossa vida?!

Pergunto ao pensamento: aonde vou?
Responde, idealizando um novo plano
Topográfico: fica à tua espera;
Diz o silêncio: tu és só o teu inesperado!...

Parecem perguntar: aonde vamos,
Aonde foi a nossa vida?!
...Os ramos
Da árvore partida!

António de Navarro (n. 1902 - m. 1980), in Ave de Silêncio (1942). «Entre os poetas mais directamente ligados à presença, mencionemos (...) António de Navarro (...), cujo ritmo e metaforismo, muito livres e cortados de suspensões ou descontinuidades, procuram forçar os limites entre a consciência e a natureza (Poemas de África, 1941; Ave de Silêncio, 1942; Poema do Mar, 1957; Metal Translúcido, antologia, 1968)» (A. J. Saraiva e Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

BALADA ÍNTIMA


Dês as voltas que lhe deres:
Dentro do teu coração,
As coisas são o que são,
Não aquilo que tu queres...

A fantasia modela,
Modela as formas e os seres,
Como um Deus, à feição dela!...

Tudo quanto em nós anime
A fria realidade,
Só em verdade se exprime
À luz da nossa saudade!...

Coisa, ou ser, ou criatura,
Que a vida a meus olhos traga,
Se há-de erguer àquela altura
Em que o meu sonho divaga!...


Fausto José (n. 1903 - m. 1975), in Solstício (1940). «(...) como acontecera frequentemente desde o séc. XVI, um grupo de jovens intelectuais a sair da universidade é que vai ser o veículo de consagração do modernismo. / A revista coimbrã presença (54 números, 1927-40), fundada por José Régio, Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, Edmundo de Bettencourt, Fausto José e António de Navarro e de cuja direcção depois participam Casais Monteiro e Miguel Torga, é o centro desse grupo» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «Quando estudante, acompanhou o grupo da Presença, se bem que a sua poesia não tenha grande afinidade com as tendências manifestadas pela maioria dos colaboradores dessa revista. Os seus temas preferidos são de circunstância, mas depurados pela altura do voo lírico: assuntos de história caros à sua sensibilidade poética, certo regionalismo e, por último, o culto do lar e da família» (Cabral do Nascimento, in Líricas Portuguesas).

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

CRIANÇAS

 
Dia e noite
as notícias estão chegando
telegráficas e sensacionais
dos confins do mundo.
 
     — Sobre destroços de casas e de árvores
     crianças chinesas boiando à deriva
     na corrente do rio Amarelo transbordado!
 
    — Poliomielite grassando
     nas províncias argentinas!
 
     — Socorro tratamento urgente
     para o menino das montanhas dos Abruzos
     perdendo a vista pouco a pouco!
 
     — Agasalhos abrigos alimentos
     para as crianças húngaras foragidas
     do esmagamento e das labaredas soviéticas!
 
Dia e noite
as agências dos jornais estão telegrafando
a rádio espalhando o alarme.
 
Organização Mundial da Saúde
Cruz Vermelha
Cáritas
Exército de Salvação
estão providenciando
estão salvando as crianças.
 
Quermesses
rifas
leilões
tômbolas
a favor das crianças
     chinesas
     argentinas
     italianas
     húngaras
sob o patrocínio de damas importantes
louvadas depois nas revistas ilustradas
com fotografias em ectacrome evidenciando
colares e cruzes
fulgindo nos decotes.
 
Há também as crianças pobres
do povo das nossas Ilhas
mas é um caso apenas
sem importância nenhuma
e ninguém sabe
ninguém dá por isso.
 
Temos também aqui
crianças sem roupa
sem lar e sem pão
crianças tuberculosas
     sifilíticas
     aleijadas
     paralíticas
     cegas
     leprosas
sem remédios
sem escolas
sem brinquedos
levando cargas à cabeça
por caminhos longos e ásperos
que o rastro do povo deixou marcados
na terra endurecida e no basalto
dos descampados e dos montes
ignoradas crianças
dos bairros promíscuos
dos cais e das praias
da gafaria do Barbasco
crianças nuas rurais
     (ficam olhando dos areais para o mar
     e nas minúsculas manchas ao largo
     sabem distinguir um por um
     os botes familiares).
 
Temos também as crianças
pobres das Ilhas
mas é um caso apenas
sem importância nenhuma
gota de água caída
no oceano vasto das crianças
     chinesas
     argentinas
     italianas
     húngaras
 
Ninguém sabe
ninguém dá por isso
a rádio não fala
os jornais não dizem
ninguém telegrafa.
 
Jorge Barbosa (n. 1902 - m. 1971), in Claridade, n.º 8, 1958. Natural da cidade da Praia, quando Cabo Verde era colónia portuguesa, Jorge Barbosa estreou-se em 1935 com o livro Arquipélago. Foi um dos membros mais importantes do movimento Claridade, reunido em torno da revista literária e cultural com o mesmo nome. O primeiro número de Claridade data de 1936, tendo sido responsáveis pela publicação os escritores Manuel Lopes, Baltasar Lopes da Silva e Jorge Barbosa (ver aqui). Segundo Jorge de Sena, o grupo veio a ser «uma das primeiras manifestações vitoriosas de uma atenção à realidade social que o «neo-realismo» preconizaria, é certo que com outros pressupostos. A poesia de Jorge Barbosa, menos culturalmente activa do que a obra de Baltasar Lopes, é todavia a de um lírico simples, que evoluiu para um verismo comovido, através do qual fixou, com invulgar contenção de tom e directa expressão desataviada, a tragédia humana das populações cabo-verdianas».

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

UMA FONTE, UMA ASA...


Os anos passam... Já vai sendo tempo
De pensar na Viagem.
Irei bem ou enganei-me? Este caminho
É verdade ou miragem?

Procuro em vão sinais. Em vão persigo
As horas silenciosas.
De olhos abertos, cega, vou andando
Sobre espinhos e rosas.

Errada ou certa é longa a caminhada,
Longo o deserto em brasa.
Ah, não fora, Senhor, esta esperança
De uma fonte, uma asa!

Fonte, Senhor, que mate a longa sede
Desta longa subida.
Asa que ampare o derradeiro passo
No limite da vida.

As, Senhor, que mesquinhas as palavras!
Vida ou morte, que importa?
Para entrar e sair a porta é a mesma:
Senhor, abre-me a porta!

Fernanda de Castro (n. 1900 - m. 1994), in Asa no Espaço (1955). «É viúva do escritor António Ferro. A sua poesia patenteia-se fremente, banhada da claridade do sol e álacre pela vida que nela estua. Noutras vezes, porém, a sua alma espreita, compadecida, os infortúnios humanos e deles recebe o tom da sua canção» (Cabral do Nascimento, in Líricas Portuguesas, Segunda série). Sugere-se vivamente o visionamento do documentário disponibilizado aqui.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

ESCREVER UM LIVRO, CRIAR UM FILHO, PLANTAR UMA ÁRVORE


Escrevi um livro.
Quantos anos a sonhá-lo,
a rascunhá-lo nas mesas dos cafés,
a escrevê-lo nos intervalos do emprego,
a vivê-lo,
a sofrê-lo,
na província, nas cidades...!

Criei um filho.
Tanta alegria no meu coração!

Só ainda não plantei uma árvore.
O frágil caule como protegê-lo?
Como não deixar que os bichos
maculem as pequeninas folhas?
E como dialogar com uma árvore-menina?

Agora vai sendo tempo.
Os anos pesam.
Amanhã vou plantar uma árvore.

Saúl Dias (n. 1902 - m. 1983), in Líricas Portuguesas. «A poesia de Saúl Dias, uma das mais notáveis de entre as que apareceram sob a égide daquele grupo [presença], caracteriza-se por uma delicadeza e uma pureza de expressão que levam a uma depuração excepcional uma linha poética que vem directamente de Camilo Pessanha. Sobretudo os seus desenhos reflectem esta mais relevante característica da obra poética; mas uns e outra contêm uma subterrânea crueza que às vezes explode numa brutalidade de traço, que é inseparável, e como que o suporte, de uma quase complacência cínica, de uma melancólica e sonhadora malícia sarcástica, patentes na subtileza de uma personalidade rara pela contenção discreta, pela suspensa alusividade dos seus veros» (Jorge de Sena, idem).

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A PALAVRA IMPOSSÍVEL


Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.


Adolfo Casais Monteiro (n. 1908 - m. 1972), in Noite Aberta aos Quatro Ventos (1943). «Se a tonalidade mais constante nesta poesia é traduzida por palavras como bruma, destroços, incertos, vão, gelado, etc., se o prato da balança, afinal, parece pender decididamente para esse lado negativo, a verdade é que o apelo à luz, à vida, às madrugadas, ao sol, surge a espaços em toda a sua obra como um contraponto, ou antes como a outra fase da mesma condição humana incerta e problemática. Também não se encontra em Casais o grau de transposição e reelaboração que permite considerar grande parte da poesia moderna como uma criação absoluta da linguagem, de que serão paradigmas Mallarmé, grande parte da obra de Rimbaud e de que em Portugal só poderemos encontrar fragmentàriamente alguns exemplos nas obras de Sá-Carneiro e de Fernando Pessoa. Em tais poetas, a visão transfiguradora ou o poder visionário eleva-os muito acima das contradições inerentes à realidade humana na sua dimensão temporal. Em oposição a este tipo de poesia, Casais Monteiro é totalmente fiel ao espaço existencial; por outras palavras, a sua poesia é expressão ao nível da sensibilidade e das vivências autênticas, do fluxo da sua consciência. A sua criação nunca transpõe a realidade imanente, respeitando integralmente a virtualidade desse não sei quê, essa totalidade indefinível e sempre futura (ou dilacerantemente passada) que a sua poesia desvenda como indeterminação essencial. É esta redução à existência sentida como fluxo contraditório, vazio, ansiedade, inquietação, incerteza, o que caracteriza mais fundamente a sua poesia» (António Ramos Rosa, in Poesia, Liberdade Livre). 

terça-feira, 1 de julho de 2014

PROTOPOEMA DA SERRA D'ARGA


Sonhei ou bem alguém me contou
Que um dia
Em San Lourenço de Montaria
Uma rã pediu a Deus para ser grande como um boi
A rã foi
Deus é que rebentou

E ficaram pedras e pedras nos montes à conta da fábula
Ficou aquele ar de coisa sossegada nas ruínas sensíveis
Ficou o desejo que se pega de deixar os dedos pelas arestas das fragas
Ficou a respiração ligeira do alívio do peso de cima
Ficou um admirável vazio azul para crescerem castanheiros
E ficou a capela como um inútil côncavo de virgem
Para dançar à roda o estrapassado e o vira
Na volta do San João d'Arga

Não sei se é bem assim em San Lourenço da Montaria
Sei que isto é mesmo assim em San Lourenço da Montaria
O resto não tem importância
O resto é que tem importância em San Lourenço da Montaria
O resto é a Deolinda
A Deolinda dança a goita é leve
E feia a Deolinda
Dança os amores que não teve
Tem o fôlego do hálito alheio que lhe faltou a amolecer a carne
Seca como a da penedia

O resto é o verde que sangra nos beiços grossos de apetecerem ortigas
O resto são os machos as fêmeas e a paisagem é claro
Como não podia deixar de ser
As raízes das árvores à procura de merda na terra ressequida
Os bichos à procura dos bichos para fazerem mais bichos
Ou para comerem outros bichos
Os tira-olhos as moscas as ovelhas de não pintar
E o milho nos intervalos

Todas estas informações são muito mais poema do que parecem
Porque a poesia não está naquilo que se diz
Mas naquilo que fica depois de se dizer
Ora a poesia da Serra d'Arga não tem nada com as palavras
Nem com os montes nem com o lirismo fácil
De toda a poesia que por lá há

A poesia da Serra d'Arga está no desejo de poesia
Que fica depois da gente lá ter ido
Ver dançar a Deolinda
Depois da gente lá ter caçado rãs no rio
Depois da gente ter sacudido as varejeiras dos mendigos
Que também foram à romaria

As varejeiras põem as larvas nos buracos da pele dos mendigos
E da fermentação
Nascem odores azedos padre-nossos e membros mutilados

É assim na Serra d'Arga
Quando canta a Deolinda
E vem gente de longe só para a ouvir cantar

Nesses dias
As larvas vêem-se menos
Pois o trabalho que têm é andar por baixo das peles
A prepararem-se para voar

Quanto aos mendigos é diferente
A sua maneira de aparecer
Uns nascem já mendigos com aleijões e com as rezas sabidas
Do ventre mendigo materno
Outros é quando chupam o seio sujo das mães
Que apanham aquela voz rouca e as feridas
Outros então é em consequência das moscas e das chagas
Que vão à mendicidade

Não mo contou a Deolinda
Que só conta de amores
E só dança de cores
E só fala de flores
A Deolinda

Mas sabe-se na serra que há uma tribo especial de mendigos
Que para os criar bem
Lhes põem desde pequenos os pés na lama dos pauis
Regando-os com o esterco dos outros

Enquanto ali estão a criar as membranas que valem a pena
Vão os mais velhos ensinando-lhes as orações do agradecimento
Eles aprendem
Ao saberem tudo
Nasce de propósito um enxame de moscas para cada um

Todas as moscas que há no Minho
Se geraram nos mendigos ou para eles
E é por isso que têm as patinhas frias ou peganhosas
Quando pousam em nós
E é por isso que aquele zumbido de vaivém
Das moscas da Serra d'Arga
Ainda lembra a mastigação de lamúrias pelas alminhas do Purgatório
Em San Lourenço da Montaria

Este poema não tem nada que ver com os outros poemas
Nem eu quero tirar conclusões como os poetas nos artigos de fundo
Nem eu quero dizer que sofri muito ou gozei
Ou simplesmente achei uma maçada
Ou sim mas não talvez quem dera
Viva Deus-Nosso-Senhor

Este poema é como as moscas e a Deolinda
De San Lourenço da Montaria
E nem sequer lá foi escrito

Foi escrito conscienciosamente na minha secretária
Antes de eu o passar à máquina
Etc., que não tenho tempo para mais explicações

É que eu estava a falar dos mendigos e das moscas
E não disse
Contagiado pelo ar fino de San Lourenço da Montaria
Que tudo é assim em todos os dias do ano
Mas aos sábados e nos dias de romaria
Os mendigos e as moscas deles repartem-se melhor
São sempre mais
E creio de propósito
Ser na sexta-feira à noite
Que as mendigas parem aquela quantidade de mendigozinhos
Com que se apresentam sempre no dia da caridade

Elas parem-nos pelo corpo todo
Pois a cerne
De tão amolecida pelos vermes
Não tem exigências especiais
E porque assim acontece
Todos os meninos nascidos deste modo têm aquele ar de coisa mole
Que nunca foi apertada

Os mendigos fazem parte de todas as paisagens verdadeiras
Em San Lourenço da Montaria
Além deles há a bosta dos bois
Os padres
O ar que é lindo
Os pássaros que comem as formigas
Algumas casas às vezes
Os homens e as mulheres

Por isso tudo ali parece ter sido feito de propósito
Exactamente de propósito
Exactamente para estar ali
E é por isso que se tiram as fotografias
Por isso tudo ali é naturalmente
Duma grande crueldade natural
Os meninos apertam os olhos das trutas
Que vêm da água do rio
Para elas estrebucharem com as dores e mostrarem que ainda estão vivas
Os homens beliscam o cu das mulheres para que elas se doam
E percebam assim que lhes agradam
Os animais comem-se uns aos outros
As pessoas comem muito devagar os animais e o pão
E as árvores essas
Sorvem monstruosamente pelas raízes tudo o que possam apanhar

Assim acaba este poema da Serra d'Arga
Onde ontem vi rachar uma árvore e me deu um certo gozo aquilo
Parecia a queda de um regímen
Tudo muito assim mesmo lá em cima
E cá em baixo dois suados à machadada

Ao cair o barulho parecia o de uma coisa muito dolorosa
Mas no buraco do sítio da árvore
Na mata de pinheiral
O azul do céu emoldurado ainda era mais bonito
Em San Lourenço da Montaria

António Pedro (n. 1909 - m. 1966), in Protopoema da Serra d'Arga (1948). «O primeiro português distintivamente surrealista, António Pedro contactara com o Grupo Surrealista Inglês quando locutor da BBC durante a guerra e tornou-se o mentor do primeiro Grupo Surrealista de Lisboa. Num efémero período de dois ou três anos, 1947-50, através da grande instabilidade desse grupo e da, ainda maior, de outro grupo dissidente (1949-51), editaram-se quatro cadernos, realizaram-se exposições e conferências, além de outros actos, cuja maior notoriedade foi, em 1949, atingida por uma série de debates públicos, a certa altura tumultuosamente boicotados, no Jardim Universitário de Belas-Artes» (A. J. Saraiva e Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «A sua versatilidade - também como ceramista iniciou uma renovação formal - e o seu multímodo talento têm, aos olhos de muitos, desvirtuado a unidade essencial de uma notabilíssima personalidade, entusiástica e original, com um extraordinário sentido do sabor das palavras, e que escreveu uma obra-prima do "romance surrealista": Apenas Uma Narrativa (1942), em que a imaginação, tantas vezes abstraccionante, do surrealismo adquire, como na sua pintura, um peso de regionalismo, de truculência campestre, de visão poética de uma realidade que transborda de símbolos verbais ou plásticos que são constantes da sua expressão. O mesmo sucede com a sua poesia, que foi evoluindo de uma lírica simplicidade à Guilherme de Faria, seu companheiro de juventude lisboeta, através dos aspectos fantasiosos e graciosos de certo modernismo, até um barroquismo cheio de gosto pelo concreto, que as experiências "dimensionistas" do poeta (...) preparavam para a libertação surrealista» (Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas).