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quarta-feira, 8 de março de 2017

BALADA TRISTE


Timidamente o sonho espreita.
Esqueço o meu corpo
e a dimensão de me encontrar
na terra estreita.

Estradas abertas, onde vão dar?
De madressilvas e rosas bravas
o cheiro ardente
são histórias verdes
que se entrelaçam
e sobrevoam
o sol poído de recordar.

Inverno, estio,
nova passagem outonal?
Já não importa.
Estradas, estradas
a algum lado hão-de levar
o meu cansaço.
Nem a dormir claro se mostra
o sonho.
Não me possui. Timidamente
é só aragem onde me deito.
Timidamente. Não há mais nada.


Maria da Graça Freire (n. 1911 - m. 1993), in Inventário (1980). «Uma poesia de anotações, sobretudo de durações de longos espaços interiores (entre a memória, a sensação do passado, a visão de um futuro). / Há, todavia, que salientar o tratamento de alguns temas ou vectores, porém timidamente explorados: é o caso de um desejo de aniquilamento pessoal (caro à poesia de Camilo Pessanha e de Natércia), presente em poemas como "Balada Triste", ou a procura de uma portugalidade universal, bem como a habitual intrusão do sobrenatural, o fascínio do distante, para citar talvez os mais conseguidos (Pedro Sena-Lino, in Só a Viagem Responde). «A leitura de "Inventário", onde reúne a sua obra poética, revela-se paradigma de uma escrita ao serviço de uma ideologia. (...) A ideologia que a motiva é uma ética que se apresenta intrinsecamente ligada à espiritualidade. Assim, encontramos nestes poemas uma linha retórica muito oscilante, não poucas vezes incoerente no ritmo pela presença aleatória da rima, no (des)esquilíbrio entre versos, frases e estrofes. O trabalho da palavra não foi desenvolvido com a intenção de dar vida ao texto e sim de consubstanciar um ideal, de exemplificar sem limite a sua esperança cosmológica» (Andreia Brites, ibidem).

sábado, 16 de abril de 2016

MAR VIVO


A Jorge Amado

Sou de todos os mares, de todos os profundos oceanos do mundo.
Sou de todos os portos, do barulho das suas docas,
de todos os enormes navios fundeados nos cais
e dos que estão encalhados nos bancos de areia
e daqueles que repousam nos areais dourados
do fundo, sangrento de corais, dos oceanos.
Sou de todas as grandes rotas de navegação
que abrem rasgões de brancura à flor das águas verdes
e que são os caminhos que levam os homens do mar
para lá e para cá, nos seus destinos de nascerem e morrerem nas águas.
Sou de todos os faróis que há nas noites das costas
indicando, nos segundos cronometrados da sua luz,
a traição dos continentes, das ilhas e dos bancos de areia,
desses faróis que são como foguetes de poeira de luz
e tão breves como os gloriosos sonhos dos homens...
Sou de todos os pequenos barcos que partem com confiança,
tão frágeis como mãos de meninos e esperanças de adultos,
para expedições puramente aventurosas e românticas,
com saudades de terra e uma esperança infinita
pintada nas proas audazes e firmes...
Sou de toda a extraordinária força da gente marítima
que se entrega aos abismos do mar com a sinceridade
de quem se dá ao único destino possível da terra
e que geme há séculos o poder dessa tentação irresistível
que os empurra e os faz rolar por cima das ondas.
Sou de todos os voos de gaivotas e das suas travessias
quase incompreensíveis aos homens da terra tão lentos
e tão distantes do entendimento das asas duma gaivota.
Sou de todas as nuvens do mar que mergulham nas águas
e lhe dão a cor da sua cor na mais absoluta e total das posses.

Ah! como eu sou de todas as tempestades e de todas as tragédias do mar!

Esta identidade é sincera e não foi arranjada
para compor com originalidade este poema
que nem sei se algum dia será lido.
Vem-me ansiosamente à flor da alma,
tão deplorável e fatalmente perdida
em todas estas mil e uma coisas que cheiram
tão terrivelmente a terra calcinada e pobre.
Sim, o meu grande destino — era o mar:
ir com os pescadores à terra nova
lutar com as tempestades e com as brumas do norte,
conhecer todas as enseadas, todas as baías, todos os portos,
e tratar todos os mares como velhos camaradas do café.
Usar uma camisola aos quadrados pretos e brancos,
um grande chapéu de oleado e uma fala arrastada e lenta
como o marulho das águas quebradas nos diques,
e, nos intervalos das viagens,
embebedar-me nas tabernas dos portos
cantando as velhas canções marítimas.
Há lá nada mais belo do que ser marinheiro!
E então ser o homem do leme?
Isto de abrir uma rota com as curvas que apetecer,
criar os desvios que a imaginação for inventando,
sentir profundamente as distâncias vencidas com a ajuda dos ventos,
traçar os próprios caminhos sem os limites impostos
pelas fronteiras e pelos guardas das fronteiras
e pelos direitos internacionais dos códigos e das teorias!
Que coisa tão bela para quem encontra na terra
sempre os caminhos abertos — mas só esses —
com os letreiros escritos só numa língua
e que indicam todos a mesma eterna cidade
com o seu meridiano estabelecido e irrevogável!
Há lá nada mais belo do que ser marinheiro!
Contar aos filhos as peripécias das viagens de anos,
dizer-lhes as claridades desses luares atlânticos
insuflando-se na água e iluminando os mundos
dos peixes, dos corais, das sereias e os palácios
dos milionários reis dos oceanos,
as histórias das suas dinastias e as tragédias
das suas eternas lutas com a flor das águas!
Evocar-se a sinfonia dos naufrágios
e as últimas palavras dos mortos,
e os seus corpos inchados cobertos de algas cor de garrafa
entregues a todo o delírio animal
dos milhares de peixes de escamas prateadas.
Há lá nada mais belo do que ser marinheiro!

Por isso a minha pátria é o mar
e tudo o que ficou dito neste poema, 
e tudo o que não sei dizer mas que me canta no sangue
e me impele cada vez mais para junto do cais,
como o vento arrasta os barcos para o largo
entoando nas suas velas triangulares
o mundo da sua milenária ânsia de espaço.


João Menéres de Campos (n. 1912 - m. 1988), in Mar Vivo (1939). Nasceu no Rio de Janeiro, onde o pai exercia actividade comercial. Mudou-se para Vila Real com apenas um ano, aí se fixando para o resto da vida. Estudou Direito em Coimbra e Lisboa, colaborando com a Presença nos últimos números da primeira série (ano de 1938). 

domingo, 24 de janeiro de 2016

CARTA


Por mais que me asfixies de sombra
não impedirás que eu encontre a custódia
onde o meu amor entesourou divindades
nem que tuas impressões digitais
dancem no meu ar como poeira de abelhas
Por mais que te aumentes de silêncio
não conseguirás calar a tua voz
que ceifa num clarão a seara dos meus desejos

Podes entrançar cordas de distância no rumo decidido
que as nossas vidas terão as mesmas fronteiras
e registado na eternidade ficará o nosso abraço incomum

Se foste meu mestre
eu ensinei-te uma linguagem sem símbolos e sem intérpretes
Se foste meu deus
eu criei-te um universo e um infinito que te batem no pulso

Se teu riso com espadas de carne
punha meu corpo tenso em volutas de êxtase
o meu riso com sirenes de sangue
cobria-te de polpas frescas e saciava-te de dia

Podes multiplicar teus sonhos como hipóteses
que a realidade é eu ser gémea da tua realidade
E se não venço a dor de me saber póstuma em ti
lanço lavas astrais na minha caravela
que sulcará para sempre a tua água inaugural!


Leonor de Almeida (n. 1915 - ? ), in Terceira Asa (1960). Não é fácil encontrar informação sobre Leonor de Almeida, misteriosa poeta, nascida no Porto, representada na Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa (M. Alberta Menéres, E. M. de Melo e Castro) e na Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (Natália Correia). Publicou Caminhos Frios (1947), Luz do Fim (1950), Rapto (1953), Terceira Asa (1960)... Colaborou com vários jornais (Diário de Lisboa, O Primeiro de Janeiro, Diário do Minho, Jornal de Notícias...). O que dela se conhece sugere, pelo menos, uma vontade de conhecer mais.  «Leonor de Almeida, que António de Serpa classificou de nossa primeira poetisa, é, de facto, diferente de todas. Uma vocação, onde há, por vezes, laivos de genialidade; uma sensibilidade que dir-se-ia captar os inaudíveis ultra-sons do mistério, do amor, do sofrimento, uma dádiva plena, não, apenas, à vida, mas ao universo cujos elementos percorrem e cantam neste seu belo livro «Caminhos Frios» (aqui)». 

domingo, 11 de outubro de 2015

«NESTA PAZ DESCONFORME»


Nesta paz desconforme
de negação e aborrecimento
o heroísmo é desertar,
ter a coragem de um encolher de ombros.

Saber opor ao menos
ao silêncio cúmplice dos outros
a solidão radical
do emigrante interior.


João José Cochofel (n. 1919 - m. 1982), in 46.º Aniversário (Emigrante Clandestino). «(...) é, fundamentalmente, um lírico de amor cujos registos incluem as vicissitudes e a «dor da esperança» no negrume de muitos anos» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «Foi um dos membros mais representativos do movimento neo-realista coimbrão, concretizado no Novo Cancioneiro, e tem cultivado a crítica literária em diversas revistas. (...) A sua poesia é das raras, de entre a tendência estética que foi a sua e dos seus amigos, que, consciente dos próprios limites, se não perdeu no polemismo fácil de uma extroversão de fachada. Lirismo intimista e delicado, atento todavia à situação peculiar que condiciona tràgicamente toda a expressão nacional, eis o que o distingue, com uma firmeza que a simplicidade e a segurança de uma expressão discreta quase pareciam diluir numa continuidade do Pessoa «ele mesmo», de Afonso Duarte e dos poetas menores da presença, e que é todavia muito pessoal, e de uma refinada sofisticação que a crítica literária habitualmente não associa com o neo-realismo» (Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas).

sexta-feira, 12 de junho de 2015

FICHA QUOTIDIANA


Um dente nada é no teu corpo laborioso
mas na semana em que fores ao dentista
esqueces a criação do mundo
Marx   Aristóteles e Von Braun.
O terramoto de Lisboa pode ser uma cárie
e a subida ao Evereste
um pé torcido.
Excedemo-nos de frases   ideias   inventos
sistemas   equações   galáxias
mas das coisas grandes   do resplendor dos mitos
restam ao fim do dia papéis de embrulhos
e a electricidade nas ruas ensonadas.
Pensando bem   objectivamente com o ovo da costura
entre os dedos picados
sabes os anos-luz que nos separam da Andrómeda
e ao cabo de vinte séculos descobres
que talvez Cristo seja cósmico ou apenas um berço de palha
mas recomeças invariàvelmente o teu dia às oito
com um bocejo de forçado ignorado
e comes torradas prevendo que ao bater das doze
te darão migas de coentros.
A tua contagem lunar de funcionário
tem por alvo a casa de banho
onde fumas cigarros ilícitos
e mesmo que Frank Borman chegue à Lua
e a tua espécie se extinga dentro de um milhão de anos
não deixarás de seguir pela direita   apesar da teimosia dos Ingleses
e de abotoares o sobretudo pensando na gripe asiática.
Tens o nariz perfeito e para isso adoptaste figurinos de beleza
o teu engenho refundiu a terra e gerou alegorias
e nelas incluíste a Revolução de Maio e as marcas de automóveis
fabricas lacas para o cabelo polvilhadas de metafísica
mas basta um dente para te desfigurar
e lá se vão as teorias.
És belo porque belo te quiseste
belo   magnífico   feiticeiro
o mundo saiu-te das mãos como uma órbita corrigida
mas se o dente está fora do sítio
ninguém te vê a flora azul dos olhos
ou o bailado do gesto tendo por debaixo
as montanhas que dominas.
A Cassiopeia é longe quando a broca te perfura
ter sono é uma verdade como a fome e o dicionário
e os visons continuam a justificar adultérios.
Neste quotidiano das oito às onze
podes ser tudo ou   apenas um dente
que de desfeia.


Fernando Namora (n. 1919 - m. 1989), in Marketing (1969). «O seu terceiro livro de poesia, em 1941, teve a importância histórica de iniciar a colecção Novo Cancioneiro. Durante quase vinte anos, até 1959, a sua actividade confinou-se à ficção, em que granjeou enorme prestígio, através de romances e narrativas que o colocaram na primeira fila do neo-realismo, de que evoluiu ulteriormente para uma mais ampla temática. O longo silêncio poético fez injustamente esquecer quanto sobretudo o livro de 1941 [Terra] contribuíra decisivamente para fixar certas linhas rurais e humanitárias do neo-realismo na poesia, que, nos primeiros livros, estavam ainda muito identificadas com o tom melancólico e sonhador de alguma poesia menor da presença» (Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas). «Fernando Namora, cuja poesia desde 1937 se reuniu em As Frias Madrugadas, 1961, 6.ª edição 1978, e que principiou, em prosa, pela ficção sobre a adolescência em moldes presencistas (...), notabilizou-se pelo que, em refundição, viria a ser o único romance neo-realista da mocidade universitária (Fogo na Noite Escura, 1943, 14.ª edição ref. 1988» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura).  

sexta-feira, 10 de abril de 2015

CAMINHEMOS SERENOS


Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
                   caminhemos serenos.

De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniquidade
                   caminhemos serenos.

Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
dos que nem com a morte podem vencer-nos
                   caminhemos serenos.

O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia connosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
                 caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas
                  caminhemos serenos.


Papiniano Carlos (n. 1918 - m. 2012), in Caminhemos Serenos (1957). «Integrando-se no movimento neo-realista, a sua poesia representou nele uma expressão mais francamente protestativa e retórica do que a de outros poetas como Mário Dionísio, Cochofel, Carlos de Oliveira ou Manuel da Fonseca. Exclamativa, anafórica, repetitivamente cheia de imagens e metáforas de escola ou, mais exactamente, do estilo de protesto cifrado, que ela for forçada a desenvolver, escapou no entanto à atmosfera de Afonso Duarte, presença e Miguel Torga (que algo pesou no grupo inicialmente coimbrão), e correspondeu aos aspectos de libertarismo apaixonado que o movimento sobretudo assumiu nas suas manifestações portuenses durante os anos 40» (Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas). 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

OS DOIS SONETOS DE AMOR DA HORA TRISTE


I

Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro
do que tu - não deixes fechar-me os olhos
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
e ver-te-ás de corpo inteiro

como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
fecha-me os olhos com um beijo.
                                                        Eu, Marco Pólo,

farei a nebulosa travessia
e o rastro da minha barca 
segui-lo-ás em pensamento. Abarca

nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

II

Não um adeus distante
ou um adeus de quem não torna cá,
nem espera tornar. Um adeus de até já,
como a alguém que se espera a cada instante.

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar
de novo para ti, no mesmo barco
sem remos e sem velas, pelo charco
azul do céu, cansado de lá estar.

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora

assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.


Álvaro Feijó (n. 1916 - m. 1941), in Corsário (1940). «O Novo Cancioneiro acolheu o espólio literário de dois poetas que a morte não deixou realizar quanto prometiam: Os Poemas (...), de Álvaro Feijó, cuja combatividade linear e límpida, desentranhando-se de uma anterior formação individualista tingida de erotismo juvenil, se vaza num imaginário de aventura marítima característico do neo-realismo inicial, e em símbolos de antigas vivências religiosas e infantis, às quais atribui um novo sentido revolucionário» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). « O seu primeiro livro e único publicado em via, Corsário, dava já, embora mesclado um pouco de sobrevivências literárias e de um sarcasmo algo superficial, o tom do seu lirismo tão peculiar, que nos poemas póstumos tem já uma voz inteiramente própria. A elegância de sentimentos e a segurança tradicional da expressão aliam-se a um sentido muito lúcido e ao mesmo tempo apaixonado dos contrastes do mundo real, para criar uma poesia áspera e fluente, que deu alguns dos melhores poemas da sua época, e em que o pormenor concreto se engasta admirávelmente numa visão directa que só transfigura metafóricamente o estritamente necessário à acção que o poema pressupõe» (Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas). 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

[DEITEI AGORA MESMO]

 
Deitei agora mesmo o açúcar no cinzeiro
Caiu-me a cinza no café
Onde pensei azul vejo vermelho
E a linha como tonta alheia e brusca se desprende
e furta à intenção da mão que a traça
 
O que o dia todo desenhei
eu próprio olho espantado e espantado não sei
em verdade o que é
 
Rigoroso analista que nos outros tudo entende
que se passa?
 
 
 
Mário Dionísio (n. 1916 - m. 1993), in Memória dum Pintor Desconhecido (1965). «Entre os poetas editados pelo Novo Cancioneiro, Mário Dionísio, também mais ligado aos agrupamentos lisboetas, atinge em Riso Dissonante (1950) os melhores momentos de uma aliança entre as vibrações líricas e combativas, entre o desespero e a esperança, o senso do irrecuperável e o do futuro a criar, vencendo o esquematismo dos livros anteriores (...)» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «Se a sua ficção e os seus poemas não possuem o mesmo significado que deve hoje reconhecer-se à sua actividade crítica, não menos aqueles últimos marcaram, dentro do neo-realismo, uma posição muitas vezes encarada com injustiça por demasiado próxima dos mestres franceses (...)» (Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas). «O Novo Cancioneiro reuniu, nos anos 40 (em plena II Guerra Mundial) um conjunto de jovens inspirados pelos princípios do neo-realismo: aliavam uma poesia com marcadas preocupações sociais a uma atitude política de oposição ao salazarismo. Na colecção couberam títulos tão diferentes (e desiguais) como Terra, de Fernando Namora, Poemas, de Mário Dionísio, Sol de Agosto, de João José Cochofel, Aviso à Navegação, de Joaquim Namorado, Os poemas de Álvaro Feijó, Planície, de Manuel da Fonseca, Turismo, de Carlos de Oliveira, Passagem de Nível, de Sidónio Muralha, Ilha de Nome Santo, de Francisco José Tenreiro e Voz que Escuta, de Políbio Gomes dos Santos. Apesar da matriz neo-realista, as diferenças significativas entre os autores fizeram com que o Novo Cancioneiro não tenha sido um movimento literário, ao contrário dos grupos criados em redor das revistas Orpheu (Pessoa, Sá Carneiro, Almada) ou Presença (José Régio, Miguel Torga, João Gaspar Simões). Por isso, muitos críticos e historiadores consideram que o Novo Cancioneiro falhou como grupo, apesar de nele se terem revelado grandes poetas (e depois prosadores) como Carlos de Oliveira ou Manuel da Fonseca)» (aqui).
 

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

ACRE E DURA CARNE


Pátria onde nasci   Desespera
vê-la tão seca na matriz
Acre e dura carne (austera)
no coração do meu país

Flor de saibro  O rosto mole
vem da névoa cega e fria
Rastros do carro do sol
carregando o corpo do dia

Ondas de pedra — a fúria nos arcos
da voz: Morda   aguente   e fique!
E os pinhais — cascos de barcos
que navegaram a pique

Mentira o Fado que se toca:
Na pedra mais pedra   mais secreta
abre-se e rasga-se uma boca
onde um pássaro canta e dejecta

Lá   a cabra   o vento   o poeta
naturais de alma e corpo ao léu
trazem nos ventres o demo
e à flor dos cornos o céu


Luís Veiga Leitão (n. 1915 - m. 1987), in Ciclo de Pedras (1964). «Entre os poetas que nos anos 50 se tornaram conhecidos pela opção do realismo social popular e pela combatividade democrática nenhum se manteve mais firme do que Luís Veiga Leitão (...). Caracteriza-se pela recuperação de uma certa ingenuidade directa, muito afectiva, sob uma pretensão de dureza rochosa, numa poesia de resistência ou em textos de testemunho e sonho» (A. J. Sariava, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa).

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

EUROPA A FERROS


Sol, pássaros voando, seara madura...
Este, o poema interrompido.

Só os dias a fio que o não são:
Tempo retido
Como água podre no charco;
Gritos e sangue escorrendo
Como linha de formigueiro
No chão encardido,
Amassando
pontas de cigarro, vómitos, dentes partidos.

Nem dia nem noite:
Apenas a janela entaipada
(Lá fora a promessa das quatro estações),
E a porta que de súbito se abre,
Guinchando como pássaro agoirento.

O resto, como ressaca distante ou búzio,
São as pancadas surdas, sábias, sádicas,
Como passos de patrulha a horas mortas,
Como tiquetaque de relógio
Marcando não sei que hora...

Ou se a hora!

Tomaz Kim (n. 1915 - m. 1967), in Flora & Fauna (1958). «Um poeta de resignadas insatisfações, por vezes contíguo ao neo-realismo, que da poesia anglo-saxónica sua contemporânea assimilou certo eliptismo prosaico» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa). «A poesia de Tomaz Kim, de uma simplicidade formal um tanto rebuscada, em cuja originalidade se quis ver o reflexo de certa poesia inglesa moderna (reflexo que é, na verdade, apenas uma identidade de cultura e de formação) é, no seu pessimismo brando e meditativo, extremamente significativa de uma humanidade que perdeu o convívio com tudo e até consigo própria. De um dramatismo pacifista que a fez roçar por certos aspectos - os negativos - do neo-realismo, de que foi aliás um dos iniciadores, esta poesia discreta e comovida, muito lúcida de si mesma, fere uma admirável nota puramente pessoal, ainda que restrita, pelo seu tom de aceitação resignada que se não ilude, pela sua amargura agnóstica, pela ironia que envolve um singelo desespero retraído. Poesia elíptica e oblíqua, dada todavia numa expressão muito directa que não ignora nenhum recurso estilístico, eis o que talvez melhor a defina» (Jorge de Sena, Líricas Portuguesas).

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

SONAMBULISMO


Tombam os dias inúteis:
amanhece, é tarde, anoitece.
Mas a nós que nos importa
ser manhã, meio-dia ou noite?!...
Sonâmbula a vida decorre
— nas ruas, a paz larvar dos grandes cemitérios;
dentro de nós, cada um
apodrece.
Enchem-se de títulos vibrantes os jornais
— mas tudo é tão longe...
Passam homens por homens e não se conhecem:
Boa tarde! Bom dia!
Cada um fechado nas suas fronteiras,
os gestos vazios,
a vida sem sentido
— sonambulismo apenas.

Acorda!
Ainda que seja só para o sobressalto,
que as ilusões do sonho se desfaçam
e as esperanças morram todas nessa hora!

Acorda!
ainda que o caminho a percorrer te espante
e o peso da obra a realizar te esmague!

Ainda que acordar seja
morrer depois aos poucos, em cada momento,
dolorosamente.

Joaquim Namorado (n. 1914 - m. 1986), in Incomodidade (1945). «Joaquim Namorado (...) tende todo à exaltação da energia, do desengano que abre horizontes, ao epigrama satírico; é um dos mais activos organizadores e impulsionadores do neo-realismo» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «Os seus poemas polémicos, deliberadamente sarcásticos e sem cuidados de forma, exerceram uma grande influência, nem sempre exactamente a de consciencialização que o autor pretendia, mas são uma parte muito significativa da época em que surgiram. No entanto, sob o sarcasmo optimista e a pretensa brutalidade da expressão, escondia-se um lírico desesperado, cujo silêncio só momentâneamente tem sido quebrado» (Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas).

terça-feira, 2 de setembro de 2014

PROSAICA


Se um dia vier a ser
- Tudo é bem possível,
Ou, melhor, o que é provável
Muito mais do que possível,
Entendamo-nos noèticamente - 
Se um dia vier a ser - ia dizendo -
A besta apropriada para ter assento
Em um (ou mais) Conselhos de Administração,
Faço o propósito solene de assinar 
Toda e qualquer lista de subscrição
Mesmo que caridosamente apenas
Político-literárias, de candidaturas...

O intuito óbvio podia ser;
Mas não é:
Quererei mostrar apenas que, por cá,
Ser uma besta é menos que insultuoso:
Taxonomiza apenas, cientìficamente,
O que ainda não é só mineral,
O calhau, do qual e aliás,
Se aproxima insensìvelmente.

(Que possua real vida ou não
É objecto de outra dissertação
Mas, para a besta, que isso seja vida
É a consabida incerta sensação.)


José Blanc de Portugal (n. 1914 - m. 2000), in Odes Pedestres (1965). «José Blanc de Portugal surge em 1940 na poesia portuguesa. É um dos poetas de maior relevo entre os que no nosso meio lançaram os Cadernos de Poesia, publicação que vinha superar e reparar o esteticismo da Presença e retomar uma linha original inovadora, perdida com os homens do Orpheu» (Ruy Belo). «Também ensaísta e crítico musical, cuja poesia intencionalmente pedestre se entrecruza com uma larga informação cultural muito originalmente meditada e versificada em termos de consciência religiosa» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes). «A sua poesia, que é a de um espírito dramàticamente católico e de uma vastíssima cultura em todos os campos do conhecimento, caracteriza-se por uma dignidade de tom, uma severidade austera da expressão, um fôlego contido, os quais, do fundo de uma humildade angustiada, através de um humor quase negro ou de uma ternura discretíssima, repercutem, como em raros outros poetas contemporâneos, uma áspera consciência trágica das contradições do mundo moderno» (Jorge de Sena). 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

VEM, DENTRE AS MULHERES



Vem para sob a telha vã do meu telhado.
Vem, mas se puderes,
Não como os anjos mensageiros que descem aos vales
Num rastro iluminado,
Mas vinda humanamente e só, dentre as mulheres,
Sujeita aos impiedosos golpes do granizo
E à chuva dos males
E ao transe de gerar se for preciso.

Serve-me se vires
Que servindo-me serves o teu coração
Angustiado.
Vela-me sempre
Se velando-me velas o teu coração
Alarmado.
Cobre o meu peito
Se cobrindo-me cobres o teu coração
Desolado.

Ah, vem! Se tu não trazes a missão de quem
Nasceu piedoso e santo.
Porque, em verdade, se tu queres distrair a dor
Ou lá que seja que peleja em mim,
Vai, noiva de mundos, vai fria, buscar
Saber maior.
Vai serenamente,
Serenamente mas inquieta vai, ó vesperal
De perenal sabedoria.
Vai silente, discente, não pia
E dilui-te, evolui-te na cósmica amplidão
Como traidora ou ladra, ou como espia.

Vai!

Quando souberes traçar linhas sem fim
(Os contorcidos e medonhos traços
Dos passos humanos)
Vem desenhar comigo o sofrimento
Nos últimos poemas consentidos.
Quando tarde meu sono tardar
E tu saibas cantar a harmonia
Das coisas transcendentes que os meninos decoram mamando,
Vem, ah, vem cantar-me a loucura d'Aquele
Que se esconde e me prende
Chamando.
E quando livre e falsa e fria,
Alcançares fazer justiça plena
Sem que os homens te queimem por vil sacrilégio
De fazê-la...
Tala, tala,
Tala os siderais espaços do Senhor.
Guia os teus passos para a cova dos ladrões celestes
E prende o ladrão-mor
Que roubou minha seara de estrelas!

Entretanto o meu corpo há-de ruir.
E embora a ideia custe,
Inútil serás
Que deixarás nele cumprir-se a lei de Proust.

Políbio Gomes dos Santos (n. 1911 - m. 1939), in Voz Que Escuta (1944). «Políbio Gomes dos Santos relacionou-se com o grupo que viria a constituir o Novo Cancioneiro. A sua poesia, porém, apesar de vigorosa e prometedora, não chegou a libertar-se, quer na forma, quer na intenção, dos moldes «presencistas» então ainda muito prestigiosos, que no entanto transforma para um lirismo impessoal e mais directo» (Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas). «Traz à sátira social uma arte poética de estranha qualidade, um temperamento rico e doloridamente original, capaz de unir certos motivos num mesmo fio: o do sangue de muitas vidas corrente em direcção à morte e o da bacia hidrográfica a escoar-se para o mar; o do próprio corpo doente e o da pobre cidade burguesa febril e visionariamente radiografada, numa impressionante identificação da doença fisiológica com a social que transfigura o narcisismo de António Nobre, ponto de partida da sua estética» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa).

terça-feira, 3 de junho de 2014

A HISTÓRIA DO MEU TRICOT


Eu também quero aprender
a fazer o meu tricot.
Pareceu-me que seria
a maneira mais difícil
- sem lã passada ao pescoço
e agulhas sem farpela.

Êstes anos que eu já tenho
estão-se quási a acabar
e os meus vinte e seis anos
já são quási uns vinte e sete.

Já é tempo que eu aprenda
a fazer o meu tricot.

Já é tempo que aprenda,
a ser tal como vós outras
(mexem ligeiras os dedos
estão horas sem pensar!)

Já é tempo que eu aprenda
a fazer o meu tricot.
E perca conjuntamente
com a minha ansiedade,
tôdas as curiosidades.
Que nada queira saber
do Mistério dêste Mundo,
do Mistério doutros Mundos
do Mistério daquêle Homem
e do daquela Mulher,
e do Mistério das almas
e do Mistério dos corpos
e do meu próprio Mistério.
E esta minha paixão
por tudo que é Infinito
e o desejo dum amor
grande em tudo como o meu
- que se vão de mim também!

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Já é tempo que eu aprenda
a fazer o meu tricot.

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Vou comprar um tailleur novo
e pôr uma flor na lapela
assim que eu saiba fazer
muito certo o meu tricot.
Hei-de aprender a «matar»...
fazer iguais as ourelas...

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É tira de sete malhas
o tricot que estou fazendo.
Embora não tenham rimas
têm todos sete sílabas
os versos dêste poema,
- para quem lendo o entenda
é bem um poema trsite,
para quem apenas leia,
é a história dum tricot
senão... um triste poema.

Não acabo o meu tricot...
...Já está pronto o meu poema.


Merícia de Lemos (n. 1913 - m. 1996?), in Mar Interior (1942). «Merícia Eugénia Vital de Lemos nasceu a 24 de Abril de 1913, na Beira, África Oriental Portuguesa. Tem viajado muito pela Europa, Ásia e África, e vive actualmente, há já bastantes anos, entre Lisboa e Paris, dedicada às antiguidades e ao jornalismo. Colaborou em diversas revistas e jornais (Panorama, Ocidente, Diário Popular, Litoral, O Mundo Português, onde foram publicadas poesias suas de inspiração africana, Cadernos de Poesia, etc.). A sua poesia caracteriza-se por um tom directo muito lúcido e subtil, em que uma feminilidade franca e desenvolta sabe encontrar uma intensidade nada romântica, ora graciosa, ora melancólica, ora profundamente comovente, para dizer numa linguagem que provém dos poetas de Orpheu e de uma cultura poética que pouco deverá ao lirismo exclusivamente masculino da presença, com elegante fantasia e sóbria segurança, as suas emoções e as suas mágoas de mulher, por uma forma que foi das primeiras, depois de Irene Lisboa, a evitar o convencionalismo socio-sentimental da poesia "feminina" a que nem a grande Florbela pudera escapar» (Jorge de Sena, in Líricas Poertuguesas). A imagem ao alto foi respigada na Internet, não sendo certo tratar-se, de facto, de Merícia de Lemos.