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quinta-feira, 13 de julho de 2017

[QUANTOS NAVIOS]


62

Quantos navios
vejo eu passar
estendido nos bancos dos jardins

É feriado

Jogam as crianças correndo
atrás das
sombras
de pássaros

O sol
bate na água
nas folhas
e nos meus olhos

seduzidos

E eu adormeço
deixando
que os navios
passem
lentos

sobre mim


António Reis (n. 1927 - m. 1991), in Poemas Quotidianos (1967). «Em António Reis, toda a poesia emerge do silêncio – processo difícil, lento, convulsivo. Porque se trata dum silêncio tenebroso, feito de cegueira e rouquidão, feito de dias alucinadamente repetidos, feito de esgares apenas – esse silêncio de pedra que é o quotidiano de muitos» (Eduardo Prado Coelho, in Estudo-prefácio). «A poesia de António Reis, nascido, residindo e trabalhando na área do Grande Porto, é, como a de grande parte dos seus contemporâneos, uma poesia urbana. A sua relação com a cidade é, no entanto, uma relação ambivalente. Ama-a, não pela  sua dimensão, mas pelo seu carácter, pela sua naturalidade e ausência de qualquer nimbo de mistério, embora não deixem de o desgostar as «imperfeições e mágoas» que nela sofre. Gosta de lhe percorrer as ruas, perto dos outros. Prefere andar a voar, contradizendo assim a imagem do poeta nefelibata que paira acima da realidade imediata e comezinha» (Fernando J.B. Martinho, in Prefácio a Poemas Quotidianos).

sexta-feira, 10 de março de 2017

INSTANTÂNEO NA CIDADE TRANQUILA


   Com vento favorável, mesmo junto aos edifícios dos bancos e do grande escritório, pode sentir-se o cheiro do mar.
   Vem do cais, não é absoluto nem abafa as buzinas dos carros. Não leva o perdão aos sonhos dos homens curvados nos arquivos, nem é mesmo vigoroso como pensar de repente na morte, pensar na morte e trincar uma laranja.
   Mas com vento favorável boa vontade e raiva pode sentir-se, chega a sentir-se, o cheiro do mar


Jaime Salazar Sampaio (n. 1925 - m. 2010), in Poemas Propostos (1954). Embora tenha consolidado a sua produção literária essencialmente enquanto dramaturgo, começou por publicar poesia. O fascínio pelas vanguardas reflecte-se nas aproximações tanto à poesia experimental como ao teatro do absurdo. Autor de poemas breves, explorou com rigor as tensões entre o homem e a sociedade do seu tempo. Conseguiu com extrema simplicidade expressar a angústia e frustração do ser exilado em si mesmo, embora consciente da absurdez matricial da existência. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

HIERONYMUS BOSCH




Uma esfera de cristal não guarda o amor, e as aves crescem desmesuradamente.
Invade a luz um silêncio grande como a ausência de rosas, um silêncio onde tremeluzem olhos espiados.
Crateras invisíveis jazem sob as mãos. São ácidos os lábios,
E onde encontrar para o adeus a loucura lilás do anoitecer?
Quem gera e quem destrói? O Mago de Manto Vermelho sabe como é breve o caminho para a danação:
A Árvore, o ovo quebrado, a pantera azul, a pedra da loucura, o Livro da Verdade eternamente cerrado.
E as cidades consomem-se uma a uma entre chamas,
E um rato avança lentamente sobre o vidro,
E o homem oferece-lhe o rosto branco e baço.
Longe, o Vagabundo vai só.


Maria Amélia Neto (n. 1928), in A Capital (1968). «Publicou um primeiro livro de versos em 1960, O Vento e a Sombra. (…) Contudo, terão sido as traduções de dois dos maiores poemas de T. S. Eliot, Four Quartets e The Waste Land, que lhe terão dado uma notoriedade outra (pesando igualmente numa parte da sua poesia). / O brilho e os resíduos epocais são um dado muito próprio: livre, sabida ou quase inocentemente usados (…). É a releitura uma das suas estratégias mais cuidadosas, já que um fio ligeiro e vibrante alcança sempre um que outro verso — no poema — dos seus livros (…). O que parece ser também relevante — ao ler-se pela primeira vez o conjunto da obra — é ver no arranjo límpido e mundano de Maria Amélia Neto uma deslocação; que se liberta um pouco de vozes maiores (mas quantas são?) e algo menores que se publicam entre nós a partir de 60. Usando-as mas largando-as de mão, talvez um ponto resultante de uma tensão não-continental na sua poesia? Talvez também esta exiba (…), por vezes em negativo, a enumeração e o inconjunto de várias outras, que vai mostrar no brilho da sua cartilagem culta, e também modesta. Por outro lado, poderá haver aqui um influxo de outras paragens. Poesia em inglês da Ásia e do subcontinente indiano, poesia denominada indo-portuguesa, e mesmo vária poesia oriental que vê a ocidental como um esgotamento, também físico-espiritual, no momento da sua maior pujança (que será uma fraqueza) moderna, histórica e, possivelmente, pós-moderna. (…) / Acresce haver em Maria Amélia Neto uma coda que é dos anos 50 — um intervalo e uma colagem —, de visibilidade e enigmatismo ou ambiguidade no poema, na qual um sentido de perspectiva longa (duração) se vem conjugar com o tal arranjo próximo, biológico, de materiais justapostos ou flutuantes, tudo mesclado de compaixão e algum apocaliptismo cristão — e coisas budistas? Por aqui, parece escapar a um curioso tom doutrinário (de dogma, ideal e não pragmático) que avassala duas grandes zonas da poesia portuguesa deste século: neo-realista e formalista, por um lado, surrealista e romântica, por outro» (Gil de Carvalho, in Colóquio/Letras, Janeiro de 2000).

sábado, 30 de janeiro de 2016

PALAVRAS NOCTURNAS


1

Palavras nocturnas
murmuradas
palavras como borboletas
ofuscadas
palavras de amor
afogadas
na madrugada nascente

2

Angústia clara
de cinzas dispersas
esta mesa taças copos
e o teu rosto do outro lado
longe longe

As tuas mãos
peixes opacos
perdidos no fumo do cigarro
do outro lado

longe longe

do outro lado

3

Em águas profundas
o silêncio do teu rosto
afunda palavras
flores perdidas
na calma parada
Docemente o sol
nasce nas minhas mãos

4

Se alguém hoje te beijar
esse alguém tem a minha boca
eu serei todos os rostos
de olhos ávidos
serei a própria noite
que te apertará a garganta
como um assassino
até que a manhã te leve e te adormeça
longe de mim

5  

Encontros que não marcaste
em ruas que desconheces
eu esperarei
até que as noites deslizem
sobre mim
e eu fique transformada
em árvore

6

Eu hei-de ser um dia
para ti
espuma e vento
e talvez uns olhos fechados.
Mais tarde
apenas uma curva indecisa
na noite

7

Mais uma vez
o tempo estilhaça-se
nas minhas mãos
mais uma vez
tu serás o silêncio
à minha volta

8

Esquecer
o rumor de pinheiro
do teu cabelo
e os teus olhos
de pedras negras
Esquecer
estes dias petrificados
longe de ti

9

Eu serei água
água verde
parada
opaca
e estagnada
Eu serei água
onde só tu poderás
reflectir-te
mais nada


Isabel Meyrelles (n. 1929), in Palavras Nocturnas (1954). Escultora por vocação, Isabel Meyrelles foi a figura feminina por excelência do movimento surrealista português. A obra poética, reunida pelas Quasi Edições em 2004, resume-se a 4 livros publicados entre 1951 e 1976, o primeiro dos quais intitulado Em Voz Baixa (1951). Ainda na década de 1950 fixou-se em Paris, não sem antes escandalizar os cafés lisboetas enquanto fumava o seu cachimbo. Adoptando a língua francesa, alguns dos seus poemas foram posteriormente traduzidos para português por Natália Correia. «Embora Isabel Meyrelles não use da escrita automática nem inunde os poemas de livres associações, há sobre a sua poesia uma pele surrealista. Símbolos e figuras, cores. Um certo tipo de humor e um certo tipo de amor. Um certo tipo de desconstrução. / No movimento, de ida e volta contínuo como quem está no mar, para lá de qualquer coisa - das nuvens, do sonho, do espelho -, o poeta entre num mundo que junta sonho e realidade, ou melhor, num mundo em que não faz diferença se está ou não em vigília, ou melhor ainda, num mundo que cria» (Susana Moreira Marques, Público, 30 de Julho de 2005). 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

MEDIA VITA


I

A morte na morte se termina.
E amamos na esperança que a alimenta
não a transparente ferramenta
mas a alma que passa e se ilumina.

Porque estarmos na morte nos designa.
E a própria virtude que a sustenta
nela se afirma e nos ensina
a iluminar também a ferramenta

por onde a alma se ilumina e passa.
E estar na morte segue o seu destino
de saber que por esta morte baça

ir à morte é lermo-nos num signo
que se acende somente, repentino,
quando lermos é lido em obra e graça.


Fernando Echevarría (n. 1929), in Media Vita (1979). «(...) exprime-se, de início, por imagens obsessivas: a da pedra, da massa, do peso férreo e inerte, e do seu contrapólo, a força pura, um terramoto, a água, o mar, uma lágrima divina de diluvial intensidade emotiva que lhe rompa os limites: em suma, a bruteza mais opaca oposta (ou intensificada?) a uma Suma Consciência que a digira, isto é, que absorva a matéria por dentro, sem a elidir. Echeverría (sic) comunica-nos, até nas asperezas cacofónicas e nos castelhanismos ainda não reabsorvidos do seu primeiro livro, Entre Dois Anjos, 1956, a sua ansiedade fundamental pela desproporção com que mede a sua humanidade e o respectivo objecto, metafisicamente ideado, o que leva a desequilíbrios maneiristas: expressão castelhana, grandiloquente do amor divino («bomba», «monstro de ternura»), a coincidência ainda abstracta dos opostos, nomeadamente a do «frio de arder», o excesso de uma tensão metafórica que aposta em exceder os limites das significações correntes (...). Em poemas posteriores, certa disciplina classicista, nomeadamente sonetista, e certa tradição mística, em que avulta o Camões de Sobre os rios, o Pascoaes das sombras, o Pessoa esotérico, o Nemésio heideggeriano e o Sena mais discursivo, dão-lhe o suporte expansivo de uma espiritualidade que nunca abandona a obsessão de certas sobredeterminações barrocas, imagens e analogias certeiras (...)» (A. J. Saraiva e Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). 

sábado, 13 de junho de 2015

DOMINGO


a Carlos Parreira

A distância entre mim e o que me circunda,
sempre a repercutir-se nos meus gestos,
aflige-me e dói-me.

Olho para aquela rua vagamente,
olho em volta de mim neste café longínquo,
e todas as coisas não significam coisa alguma
e toda a gente tem escrita no rosto
quanta traição da vida!

Ah, que não consigo ser fraterno e integrar-me
e ser despreocupado e ignorante
do meu, do nosso drama...

Bem quisera esquecer-me e enlear-me
nas coisas fúteis, ingenuamente vis,
que alimentam o destino desta gente.
Mas olho para mim e sinto-me diferente,
amachucado pela lucidez duma intuição
que todas as tentativas para imiscuir-me 
não conseguem mais do que exacerbar.

Consola-me a certeza de que tudo isto é fictício,
e não me custa a renúncia, em troca deste contemplar
calado, discreto mas tumultuoso...
Lá fora há agitação e há bulício.
Paira sobre as coisas a inutilidade,
o frágil, o efémero...

(Chego às vezes a pensar que tudo não seja mais que representação.)

Cansado do espectáculo,
abandono esta mesa de café
e vou passear ilusões impossíveis,
até que a noite venha e eu recolha
à solidão do meu quarto
— mãos vazias e coração intranquilo.


Luís Amaro (n. 1923), in Dádiva (1949). «Em traços gerais, digamos que a poética de Amaro se aproxima de alguns autores presencistas, num lirismo muitíssimo subjectivista e não especialmente modernista. Régio influenciou esse registo de confessionalismo umas vezes melancólico e outras quase agónico, mas encontramos também afinidades com a musicalidade minimalista de António Botto ou Saul Dias, com alguma ingenuidade humanista de Sebastião da Gama ou com o queixume musicalmente tecido de António Nobre. O vocabulário e o imaginário de Amaro é muito simples e reincidente: existe "a vida", quase sempre decepcionante e fugaz; a solidão, sofrida em segredo, embora um segredo anunciado em versos; a lassidão face à agitação e futilidade das multidões; a "alma", que é uma forma de ânsia, de vaga religiosidade, de rectidão ética; há a noite, que encerra todas as ilusões; há uma tristeza que às vezes é quase angústia adolescente; há um "caminho" difícil e contrariado nas suas intenções iniciais; há um "sonho", que é a vontade de um voo livre e sem horizontes; há uma aceitação estóica da vida toda, dos instantes todos; há uma camaradagem de acentos vagamente sociais; há uma esperança que nasce da inquietude; e há uma crença na poesia que tudo sustenta» (Pedro Mexia, in DN, 6.ª, 14 de Julho de 2006). 

segunda-feira, 13 de abril de 2015

A MATÉRIA DAS PALAVRAS


Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma perfeição
especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.

Ana Hatherly (n. 1929 - m. 2015), in O Pavão Negro (2003). «As experiências matemático-combinatórias de Max Bense e sua escola de Estugarda, as reflexões de Mallarmé e outros precursores sobre a importância do espaço gráfico, as tentativas de Ezra Pound e outros no sentido de assimilar os recursos da escrita ideográfica chinesa à já milenar escrita fonética ocidental, a teoria de W. Empson sobre a ambiguidade poética e a de Umberto Eco sobre a obra aberta, que contava com o aleatório de cada execução ou interpretação - tudo isto, aliás, assimilado pelo concretismo e pelo praxismo brasileiros de Haroldo de Campos e Mário Chamie, respectivamente, converge nos actuais teorizadores e críticos portugueses da poesia experimental: Ernesto Manuel de Melo e Castro, Ana Hatherly, M. S. Lourenço, Gastão Cruz, Herberto Helder e António Ramos Rosa, estes três tangencialmente. (...) Ana Hatherly, polifacética e muito produtiva, tem os seus primeiros volumes de poesia reunidos em Poesia (1958-1978), a que se seguiram O Cisne Intacto, 1983; Anacrusa (narrativas de sonhos, comentados por outras pessoas), 1983; e As Palavras, 1988, além de ficção (...), ensaios, volumes de autoria conjunta, e mais recentemente estudos sobre a estética barroca e neobarroca» (A. J. Saraiva e Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa).

segunda-feira, 2 de março de 2015

ADEUS


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade (n. 1923 - m. 2005), in Os Amantes Sem Dinheiro (1950). «Na linha dos homens da geração castelhana de 27, particularmente de Cernuda, cujo transbordamento metafórico diligentemente evitou; fugido aos maneirismos vanguardistas que atingiram os escritores portugueses europeus do nosso pós-guerra; empenhado numa densidade ideológica nunca imediata e, por isso, mais vasta do que essa com que dos neo-realistas, salvo Soeiro Pereira Gomes, quiseram impor-nos por espelho a anti-ordem de Santa Comba antes de se tornarem rentáveis mercenários do ideológico - Eugénio de Andrade confirma a nossa poesia nesse espaço absurdo de se ruma das de alto significado do mundo contemporâneo e por ele quase completamente desconhecido. (...) A sua poesia foi excessivamente referida como solar. A ênfase das leituras que tentaram abordá-la na qualidade despojada (e contudo artificiosa) da sua linguagem levou a insistir-se no seu desejo de luminosidade como conseguimento de plenitude. Esqueceu-se, desse modo, quanto essa claridade era, por vezes, mais desejo que conseguimento. Quanto a plenitude do corpo era aí cantada como desafio à real repressão sobre o corpo. Quanto a luz era um ofício de busca no centro de uma labiríntica realidade de trevas. O equilíbrio irrompe como demanda, a plenitude cresce como peregrinação vinda dos abismos, o azul dos seus versos é da mesma cor do cianeto (a cor mais terrível do azul)» (Joaquim Manuel Magalhães, in Os Dois Crepúsculos).

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

CANTO E LAMENTAÇÃO NA CIDADE OCUPADA


1.

Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma
em praças ruas becos boîtes e monumentos

Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz

Ei-la resplendente de amor   teoria
e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo

Ei-la a cidade prometida
esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor


Daniel Filipe (n. 1925 - m. 1964), in A Invenção do Amor e Outros Poemas  (1960). Nascido em Cabo Verde, Ilha da Boavista, mudou-se novo para a metrópole. Jornalista, reuniu algumas das suas crónicas no muito recomendável Discurso Sobre a Cidade (1961). Foi co-director dos cadernos Notícias do Bloqueio - fascículos de poesia publicados no Porto entre 1957 e 1961 -, colaborador da revista Távola Redonda, perseguido pela polícia do antigo regime e, ao que consta, preso e torturado. O primeiro livro, Missiva, data de 1949. Em 1956, a Agência Geral do Ultramar atribuiu-lhe o Prémio Camilo Pessanha pelo livro A Ilha e a Solidão (1957). Ficou conhecido, sobretudo, pelo longo poema A Invenção do Amor. «Bom testemunho de uma emotividade e combatividade revolucionária é, nos anos 60, a [poesia] do malogrado Daniel Filipe» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa).

terça-feira, 4 de novembro de 2014

SAUDADES DO QUE NÃO FUI


Para Manuel de Freitas

Saudades da boémia que não sei:
O excesso de bebida. O charro.
(Eu sempre fui respeitador da lei,
Mas de barro.)

Saudades do balcão com a amizade
E o copo de cerveja.
(À noite, despe-se a cidade:
Único corpo nu que me deseja.)

Saudades do carinho
No ombro, na coxa, no cabelo.
(A mão da morte entorna o vinho
À sede de bebê-lo.)

Saudades desse alguém
Que não sei onde mora.
(E não sei de onde vem
Quando demora.)

Saudades do amor
Que nunca foi o meu.
(E de que sou acusador
E réu.)

Saudades da exigir ao velho
A vertigem da fuga.
(Mas não se pode destruir, no espelho,
A ruga.)

(2004)

António Manuel Couto Viana (n. 1923 - m. 2010), in Restos de Quase Nada e Outras Poesias (2006). «Na primeira das publicações não periódicas de poesia dos anos 50, Távola Redonda, 20 números 1950-54 (...), podem distinguir-se duas formas de reacção contra a tendência de realismo social. / Uma dessas formas estéticas é a de um verismo céptico, quase cínico por vezes, e de qualquer modo propenso aos matizes nauseados, sartrianos ou camusianos, do existencialismo. António Manuel Couto Viana (...) preludia essa forma de sensibilidade, desde O Avestruz Lírico, 1948, com uma recusa algo envergonhada do «social», um enorme pudor de afirmar qualquer ternura ou sentimento intenso, com a sua obsessiva consciência do vazio e cansaço de menino amimado de «papas e carinho», depois bom rapaz das amizades de café. É um «soluço de fim de raça», em ritmos estróficos muitas vezes tradicionais e sensivelmente rimados, que, para se manterem «castos», procuram ser breves, mas são ainda mais discursivos que imagistas (...)» (A. J. Saraiva e Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa) «Atravessa estes poemas o trauma do fim absoluto de um Portugal mais vasto do que o das fronteiras europeias em que Couto Viana acreditou, por que lutou, em cuja derrota se sentiu perder. A este modo ideológico de ver as chamadas marcas, presenças, glórias portuguesas, a visitação de algum lugar onde elas se manifestam desencadeia a nostalgia da contemplação do vazio e, quem sabe, da inutilidade do sentimento político que fora desejado como condutor de uma colectividade. / Vazio; mas também plenitude. Pelo que de persistente sinal, ainda que sem um visível projecto de continuidade na história sem ser a do imaginário, pode ainda erguer noutro sonho além do sonho» (Joaquim Manuel Magalhães, in Rima Pobre).

sábado, 20 de setembro de 2014

DOIS POEMAS DA TRANQUILIDADE


I

Deve haver uma maneira tranquila
uma tranquilidade
uma certeza.
Deve haver uma febre
uma febre que seja, quando menos,
que nos dê olhos para ler tudo.
Depois dizem que há uma salvação...

Da minha infância
não guardo agora senão o chão que piso
e esse não chega.
Talvez a minha face
o meu vulto
a sombra
possam servir de algo.
Mas não.

Assim sem alegria
arrefecido, antigo
como posso comover-me
arder exausto
ou beijar o ar
o ar simplesmente
enleado!

II

Porque não posso senão trazer esta humildade
como posso dar-me ou pedir-me
se me pedem e me dão
dizendo fazê-lo por uma esperança.
Mas eu vejo
o que a morte me tem sido para que veja
e não respondo ao que imagino
porque sei que só posso desejar o que desejo.


Fernando Alves dos Santos (n. 1928 - m. 1992), in Textos Poéticos (1957). «No primeiro livro, o Diário Flagrante (1954), destaca a presença do amor que dá sentido a uma existência marcada pela experiência da solidão e do silêncio na atmosfera muitas vezes asfixiante duma paisagem carregada de signos de negatividade, nocturnidade, vaguedade, deserto e exílio — a noite, o outono, a neblina, a charneca (com Florbela invocada qualificando o substantivo: «charneca florbela») —, um sentido traduzido em termos românticos de convulsão na presença do sublime na natureza, nas ideias ou nas sensações (...). E, na esteira do estado de tensão romântica entre a realidade e o desejo, o sonho como espaço ideal de liberação frente ao espaço quotidiano e real e simbólico da cidade e como caminho para o voo do poeta à procura dum além luminoso que pode ser simples miragem no deserto ou armadilha que o sol prepara ao novo Ícaro. / Voar, fugir, sonhar, procurar uma realidade poética onde respirar e viver: a viagem, essa obsessão do poeta moderno, que sempre esteve presente no imaginário do autor (...), percorre como tema recorrente (às vezes através das alusões a um emblemático comboio) os poemas do seu segundo livro, Textos Poéticos (...)» (Perfecto E. Cuadrado, in Diário Flagrante [Poesia], 2005). 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

BASTA!


Todos nós já aprendemos
como se trituram homens

para isso
nos obrigam a ser testemunhas
oculares
do retalhar
curiosamente precioso e exacto
no esquartejamento organizado

encostados à parede esburacada
dos fuzilamentos seriais
que nos querem preparar
esperamos
a bala a chegar lenta
num rigor praticante de eficácia

o carro presidencial a deslizar pela avenida o cão-polícia cão a arreganhar o dente amestrado de metralhadora o banco do comércio a traficar-nos os dedos arrancados e o estilhaço constante do rufo televisivo e a venda supermercado em saldo de eleição da miss-presidente e a pátria que conta com o nosso estrume

lembras-te meu amor
o encontro feroz
que tivemos um dia
numa cama de passagem
rodeada
de portas concentracionárias?

as praias podres fedendo a uniformes com ordem de marcha o mar com o horizonte obstruído por papel de jornal usado nas latrinas e a amputação e a prótese e a condecoração legalmente decretadas

propositadamente
ensinam-nos
o manejar do gatilho
o curso liceal
o uso
do cozido à portuguesa
a lepra
enquanto nos apontam
o buraco da retrete

o papel químico matraqueado na repetição da máquina já experiente o dedo a esmagar-se contra a tecla antecipadamente designada na escrita regulamentar quotidiana e os requerimentos avulsos e a assinatura reconhecida no notário falecido com cancro asmático

o muro
asfixiando as janelas celulares
talvez
apenas na espera paciente
do impacto
dado pela bala

somos testemunhas
visuais
obrigatórias
mas só isso?

o avião jardineiro a regar napalm para que os homens não cresçam tão depressa no metro superlotado a orelha amputada a aumentar a colecção de selos do armador de petroleiros o futebol na cabeça da criança que não rebola bem porque tem nariz

e o aparelho ortopédico um dois esquerdo direito chega atrasado ao emprego vai ter que fazer horas extraordinárias

foram rigorosas
as nossas noites de amor
obsessivamente tensas
e solitárias
lâmina cortante
na memória
recordas-te menina?

os autocarros atulhados ida-e-volta os passos os cabelos enormes ipiando entre a maconha e o amanhecer as pequenas grades envelhecidas e os pães poeirentos sem certificado de pureza e as certidões de honestidade capitalista dentro do estômago com garantia oficial

martelados criteriosamente
na cabeça
depois
entre os olhos e o sexo
preparam-nos para a matança
com o dedo nosso
no gatilho deles
testemunhas somos
das mortes gloriosas em vómito
de heróis com óbito convincente
encostados ainda
à parede esburacada
na espera da bala
demorada
testemunhamos

o cortejo nupcial da filha do almirante com jeito pró negócio o navio pirata carregado de recrutas analfabetos da vida a prancha estreita entre a jaula e o governo o sono obrigatório da pílula própria para o aborto e o cartão da identidade única e o respeito ao clero pois sim e a pia baptismal entupida.

amor
o teu sorriso
e o teu corpo
o teu sexo
como reencontro
proposto pelo tempo
a realidade carcerária
de nós dois
nunca te esqueças

o ministério inteiro com diarreia gasosa purulenta o trust multinacional a jogar gulosamente à cabra-cega a fruta apodrecendo no cais de guindastes esquartejados e a cantora de ópera premiada na tourada-bufa e o carro de esqueletos perfilados a caminho do congresso AS MÃES AGRADECIDAS e a família a família a família petrificada em sentido

e o balão de oxigénio direita volver continência ao presidente não vai chegar a tempo

testemunhas
oculares
somos
mas só isso?
matadores
atentos
à espera


Mário-Henrique Leiria (n. 1922 - m. 1980), in Novos Contos do Gin seguidos de algumas Fábulas do Próximo Futuro (1978). «Entre as mais tardias mas qualificadas repercussões do surrealismo, salientaremos as da obra de Mário-Henrique Leiria, ligado ao grupo dissidente de 1949 mas ausente do país por muitos anos (Contos do Gin-Tonic, 1973; Novos Contos do Gin-Tonic, 1978)» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes). Parcas linhas para tamanho poeta. Contos que são poemas, poemas que são contos, os textos de Mário-Henrique inscrevem-se numa linha de pensamento libertário onde vislumbramos sobressaltos sociais numa consciência criativa que não podia passar indiferente ao ambiente sórdido da sua época. Um ambiente que, apesar das transformações do tempo, teima em repetir-se na actualidade no que tem de politicamente sujo, culturalmente medíocre, religiosamente hipócrita. Sem afastar o riso, o lúdico, ou mesmo a anedota do seu universo, logra sátiras incisivas onde a realidade se fixa a partir da nuvem absurda que estende sobre o mundo e a vida colectiva. 

terça-feira, 22 de julho de 2014

A BORLA...


São migalhas enormes, apodrecidamente dispostas ao contrário.
O sumo dos limões sabe a coisas sem nexo
- toda a casa se transforma em escuridão
e a escrita é quase imperceptível:
percebo que os pensamentos navegam, não se fixam,
e, nos sonhos, os objectos estão dispostos
precisamente noutro sítio, onde os não vejo, não existem:
estão a mais, ou a menos; não são iguais, são-me estranhos, aparecem, desaparecem, e, muitas vezes não sei onde estou: acordo (não acordo) com um estranho sentimento de não saber onde estou.
Finalmente decido: é aqui; reconheço; reconheço-me.
E a mágoa é confessa, vai do princípio ao fim, vai começar o dia.
Precipito-me, sempre aleijado, no começo do dia.
Sei, bem sei, que ando aos tropeções, que não me alegro por nada deste mundo.
E tenho um medo dos diabos pelo que me venha a acontecer.
Sei que - começado o dia - não impedirá que as conversas cumulem
prazeres díspares
E que as ruas se estreitem
E que os sentimentos se concentrem
num só sentimento: de angústia. Depois passa.
Passa sempre depois e por cima de mim.
Deixa-me, é certo, de pé. De pé, neste mundo de borco. Neste charco. Nesta bruma sem nada que não seja brumoso, chuvoso, incógnito, presentemente erecto e ameaçador - sempre que julgo, que me julgo livre.
Há em mim uma predestinação para o desastre, é o que julgo.
Há em mim demasiadas coisas lúgubres.
Há em mim um passeio celeste entre ciprestes prefigurando a morte.
Há em mim uma clausura empobrecida pelas paredes fixas de uma vida fechada - nunca viajei! nunca viajarei! mantenho-me fechado, dentro de mim fechado, - esse o pecado e o erro, essa a agonia.
Nunca fiz mal, é certo; adivinhei - tão simples! - a idiota forma
de transformar a palavra em alimento, em música, em reflexo irresistível do meu coração!
Mas isso que adianta? que companheiro tem? que espaço e que alegria perfaz e proporciona? que céus deixam, por isso, de estar contra nós, os acrobatas da beleza, os imbecis cicerones da virtude, os bárbaros escravos da justiça, os senhores celerados do Futuro Indeciso. 

- Cuspam! cuspam em nós e amaldiçoem-nos.
As garras estão famintas.
E os homens - esses - ainda não nasceram.
Pelo menos ainda não viram o sol que nós vimos.

E isso os desgosta, e com toda a razão.
E isso lhes dá
Direito a que nos façam
PRISIONEIROS.

Damos as mãos, de graça!
Demos - de borla! - os pulsos...

Lisboa, 9 de Setembro de 1971.


Raul de Carvalho (n. 1920 - m. 1984), in Um e o Mesmo Livro (1984). «Apesar do seu atraso e das limitações apontadas, o surrealismo marca quase toda a poesia posterior a 1950 que referimos, pelos seus exercícios de automatismo subconsciente, humor negro, técnicas de utilização do acaso objectivo ou das interferências de associação verbal. Isso é já muito sensível num poeta de ritmo inestancável, pouco selectivo, mas borbulhante de fugas imaginativas e seguro em certas evocações da sua infância alentejana, Raul de Carvalho» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «É, pelo fôlego torrencial e pela intensidade vibrante da expressão que tudo carreia, desde os entusiasmos fugazes às emoções mais profundas, desde as atitudes formais à dolorosa consciência da dignidade humana, um dos maiores líricos deste período» (Jorge de Sena, Líricas Portuguesas).

sexta-feira, 4 de julho de 2014

PROJECTO DE SUCESSÃO


Para o Mário Henrique

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
por-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.

António Maria Lisboa (n. 1928 - m. 1953), in Ossóptico e Outros Poemas. «A sua produção conhecida contém alguns dos mais surpreendentes textos do surrealismo português, mas que, na maioria, talvez por morte prematura do autor, ou pela destruição de quase todo o espólio inédito, nos deixa sobretudo intrigados» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes in História da Literatura Portuguesa). «As preocupações fundamentais surrealistas portam-se como pilares da obra poética de António Maria Lisboa. Sua via principal segue rumo à liberdade do homem. Elementos como o amor, o sonho, o humor, o exótico e o esoterismo surgem na sua poesia como meios de atingir a libertação total, levando-o, pela transcendência de uma noção rasa de realidade, a atingir uma vida plena, da qual se encontra exilado» (Virgínia Boechat, in Do Amor em Vidro: António Maria Lisboa).