Mostrar mensagens com a etiqueta Séc. XX - 40. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Séc. XX - 40. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 11 de abril de 2019

A VIDA QUOTIDIANA EM TABLÓIDE


[À porta do meu Banco no patamar, acocorados]

À porta do meu Banco no patamar, acocorados,
um e uma, vendem a pele
de uns pratos encardidos
mesmo no traço que já lhes deu flores garridas.
Eles escorriam chuva, que chovia, para a louça.
Eles nem devem ter sangue pela tez lustrosa
da porcelana dos seus olhos de caveira.
(Até faz rir, leitor, coisa tão triste.)


[Nos corredores das lojas a passear, lá em cima]

Nos corredores das lojas a passear, lá em cima,
arrasta um calçado encharcado,
um saco plástico que verte.
Quando lhe tocam, sujam-se,
mais rápidos caminham fazendo um esgar doentio.
Não tardará que o homem de farda lhe indique a
saída.


[Uma mania, a de andar de olhos no chão]

Uma mania, a de andar de olhos no chão,
Deus esta noite resultado.
Entre baldes do lixo, pequeno como um rato, a minha filha
encontrou o que diz ser
uma gatinha.
Velho de alguns anos, o nosso gato,
que eu penso que ela julga solitário, recebeu-a mal.
(Disse a toda a família que o castramos
e que somos agora a sua fêmea.)


[Vestindo tão de luto como quando o enterraram]

Vestindo tão de luto como quando o enterraram,
a Senhora que o conheceu dava generosa tristeza aos Cristos
alinhados como velas em bolo.
(Cristo de
noiva, a tradição.)
Imperfeitos uns, outros polidos, alguns mais corroídos.
Régio comprou por devoção, à dúzia, e vendeu-os bem.

Deus está atento, já
voltaram para ele,
para o seu nome.


[Lanço o homem à minha frente para a vala]

Lanço o homem à minha frente para a vala?
Que hei-de dizer? Que é da doença.
A cabeça um cacho, a uva grossa já mosto, mas
terá uma forma de cérebro?
(Até a noz a tem.)
Boas maneiras, bilhete de identidade, contribuinte, gravata.
E pouco mais terá de humano, no manual
que dizem? (dlim, dlão).


[Durante toda a noite e dia]

Durante toda a noite e dia
as pancadas penosas do vizinho
nas paredes acolchoadas que o envelheceram. Queixava-se.
Agora espreito-o desta maneira. Mais tarde eu,
(Sob a penugem negra do receio, sonâmbulo,
com estranheza de me ver, mais tarde,
em qualquer espelho.)
em qualquer espelho que nos rodeia, no tédio.


[Primeiro passa a mulher empinando de grávida, com toucado]

Primeiro passa a mulher empinando de grávida, com toucado.
Depois uma criança rosa, que é da melhor carne da perna.
Por fim, muito estafado, franzino e roxo de ferrugem,
um homem que se senta e pede um copo de café e leite.
Desejo-os a todos.
À mulher prazenteira pelos filhinhos, a ele
como a um brinquedo.


[Um fio de mar, parece-me, inclinava a terra]

Um fio de mar, parece-me, inclinava a terra
num poço de luz silenciosa.
O vulto que chegou de motorizada pela mão
esconde as dunas, a vaguear com a madeira torcida
que encontrou. Esconde-se de si, todos o vêem.
Ouvimos rádio, o guiador colado ao jornal,
os joelhos afastados; ali uns outros num carro sem ruído.
Com a boca ranhosa diz palavrões,
mostra-se e afasta-se.


José Emílio-Nelson (n. 1948), do livro O Anjo Relicário (1999), in A Alegria do Mal (2004). «Nada melhor do que a poesia de José Emílio-Nelson para sujeitarmos às mais duras provas a boa ou má consciência do gosto literário. Poesia do feio e do mal, ela tem sido, desde Polifonia e Penis, Penis, livros de 1979 e 1980, um atentado constante às normas do bom senso e do bom gosto, só ilusoriamente banidas da República literária com a iconoclastia dos modernistas. Os seus poemas atormentados e contorcidos são a prova flagrante de que o gosto, bom ou mau, é uma hidra de mil cabeças com a aparência do diabo nos seus mil e um disfarces. (...) O que agride nesta poesia é a extrema paixão da sensibilidade, nas notações do monstruoso quotidiano, sem os espelhos correctivos que tornam invisíveis as partes malditas do real. Toda a visão da fealdade é uma fidelidade da visão: quando o feio está invisível, encontra-se algures escondido atrás de uma aparência de beleza. Ver o feio é ver a nudez em toda a sua pureza, por mais impura que aparente ser» (Luís Adriano Carlos, in Fisiologia do Gosto Literário, introdução a A Alegria do Mal).

terça-feira, 26 de março de 2019

[Ainda se lembrava dos seus tempos de rapaz.]


Ainda se lembrava dos seus tempos de rapaz.
Quando era tudo de perfil. Nem podia ser
de outro modo: de perfil e em diorite
como nos retratos do Império Antigo. Muitos

iriam acolher depois os ritos do primitivo
estigma. Nos parques, na penumbra dos relvados,
ficou dessa queimadura uma legenda. Alguns
resistem. Paralisa-os a vertigem de uma estreita

afeição. No limite do conhecimento, a tremer
de alegria, encontram aquilo que
tinha sido esquecido. A cabeça entre as pernas
nem sempre se distingue de um sussurro

de lâminas. A música de tal desígnio percute
nas sílabas todas do inominado canto. Às vezes
por um punhado de lágrimas, equívoco maior.
É claro que a iniquidade continua impune.


Eduardo Pitta (n. 1949), in Arbítrio (1991), copiado de Desobediência.Poemas Escolhidos (2011). De Poesia Escolhida (Círculo de Leitores, Julho de 2004) para Desobediência. Poemas Escolhidos (Dom Quixote, Fevereiro de 2011) são várias as cisões, alguns poemas desaparecem por completo, de outros resta uma curta percentagem de versos, há deles que foram ligeiramente mudados, observam-se alterações ao nível da pontuação, num processo rigoroso de revisão e depuração que acompanha de há muito o labor poético de Eduardo Pitta. Mas a segunda recolha também acrescenta dois poemas em prosa a uma poesia fixada entre 1971 e 1996, podendo estes parecer estranhos no contexto de uma poesia que se distingue pela forte contenção narrativa. Ainda que no livro de estreia, intitulado Sílaba a Sílaba (1974), ressoem vivências moçambicanas, elas surgem invariavelmente tolhidas por um fulgor imagético regulado pela elipse e por uma economia vocabular que coloca no tabuleiro da leitura as regras do enigma. Por entre as sombras de uma história marcada pelo exílio, pelo sentimento apátrida, pela ausência, por «muros de silêncio», pela distância, vislumbramos o desejo como motor de uma escrita que pretende preservar um amor desobediente, um «amar desordenadamente». Escrita do corpo, intensa nos domínios do erótico, suficientemente clara para que a julguemos erigida contra a hipocrisia reinante, esta poesia exprime as feridas de uma história pessoal sem dessangrar a intimidade. 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

TELEGRAMA PARA D. JOÃO V


Eis, real senhor, Amérika;
Refúgio e amparo dos desesperados de europa,
Igreja dos inconfessos, santo e senha dos homicidas,
Capa e coberta dos jogadores,
Azáfama geral das mulheres livres,
Engano universal de todos e remédio particular de alguns;
Aqui maramos onde amarámos
Com âncoras, amarras e ânsias
Doutras enseadas, excelente rei;
Aqui maramos onde amáramos,
Aqui somos: bandeirantes, bandoleiros,
Moradores, mestiços, missionários;
Com a língua, os olhos, o medo, amargos,
Soletramos a selva, a seiva, a cachaça,
Os gritos dos animais, os seus tactos,
A anaconda, a onça, a boa, a barracuda, a tarântula,
Aqui soletramos Maranhão, Minas, Manaus,
Aqui mergulhamos o mar no ânus,
Aqui mergulhamos em vorazes rios de piranhas, mosquitos e suor,
Excelente rei, esta é Amérika;
Aqui maramos onde filtramos
Um pouco de metal, um niagara de sangue, cemitérios de Ameríndios,
Pobres escravos reduzidos;
Aqui onde maramos, praticamos o irremediável ofício de Caronte
Somos apenas aqui seus fuzis pragmáticos, remos de suas barcas,
Aqui maramos onde exercemos todo o duro, brutal e curto
Ofício da imperiosa Europa;
Aqui picamos as baronas dos impérios, excelente rei.
Aqui somos apenas vossos criados, ó hipocondríacos imperadores,
No entanto aqui lavramos o vosso testamento de ferro e sangue:
Por essa geografia de tronos passará um trovão de Átila,
Florescerá na Europa uma fauna de guilhotinas,
Palcos de catafalcos, todo o espectáculo do poder destituído
E, depois, Napoleão varrerá as vossas guerras de Hollywood,
A urina pestilenta da casta militar
               (Gigantescas bastilhas nos arquivos,
               Cigarros americanos no Século XX)
Voltareis, talvez, mas já não sereis vós
E tu, real senhor,
Os teus descendentes comerão os ratos dos esgotos,
Excelente rei;
Não construíste as pirâmides;
Não cozinhaste a comida das legiões de César
Não varreste os corredores dos partidos;
Não escreveste Espinosa;
Não pensaste Aristóteles nem sequer Maquiavel;
Não foste três vezes santo, três mil vezes sábio;
Foste apenas o senhor destes criados burlões, egoístas, ladros; gangsters sequiosos.


Manuel Resende (n. 1948), in Natureza Morta Com Desodorizante (1983). «Se algo define a poesia de Manuel Resende é a forma como não evita as solicitações da História, que tende, aliás, a grafar com maiúscula, num gesto que se foi tornando raro no panorama da poesia portuguesa recente. (...) O que permite que esta poesia da História não ceda ao elenco de boas intenções da poesia política é uma série de práticas herdadas quer da tradição moderna, quer da alta tradição literária que se manifesta em Resende quando menos se espera. (...) Numa linha paralela a esta poderia ainda referir-se a forma como a poesia de Manuel Resende acusa, nos momentos em que se entusiasma com a desarticulação morfológica e fonológica da palavra, ou com a produção de efeitos de paronomásia lúdica, o impacto de formas de experimentalismo literário próximos, no limite, da poesia concreta. (...) Em todo o caso, é claro que em Resende a vanguarda é um princípio de perturbação não apenas do artístico mas sobretudo da vida enquanto quotidiano (...)» (Osvaldo M. Silvestre, in A R(e)alidade e as Cerejas, posfácio a Poesia Reunida, Cotovia, Abril de 2018). Fotografia de Marcos Borga, respigada aqui.

quinta-feira, 23 de março de 2017

ANTI-ELEGIA PARA O MEU FINAL


Há-de surgir o dia em que a memória
será um salão vago de onde levaram
os móveis, os espelhos, o riso que ecoava,

e os rios deixarão de correr só um momento
e um veleiro arderá suspenso em suas rotas
com uma chama fria, foto de um instante

congelado no tempo em que os rostos são
uma pira, onde o lume de neve os queimará
sem ruído e sem pena, porque tudo se gasta,

e as palavras, que deram nome a seres e a coisas,
serão a nulidade mais cansada
e, por tanto as saber, as escusava,

e nada ser verdade senão a hora breve,
mesmo essa sem mais importância,
que é de imagens que os olhos sobrevivem

e fugazes se tenham ido a correr,
a ninguém pertencendo, nem mesmo a elas,
porque o passado então será

inútil o futuro, e o presente arderá,
e rio-me com esta subversão, este fósforo,
esta chama de tempo confuso

diante de um antigo deus que usava
lítico em seus altares
o tempo como um ceptro poderoso.


Nuno Dempster (n. 1944), in Dispersão - Poesia Reunida (2008). Estreia tardia, porém ousada, com um extenso volume de poemas reunidos intitulado Dispersão. Seguiram-se diversas recolhas, mais breves, mas invariavelmente competentes nos domínios temático e formal: Londres (2010) – poema longo marcado pela confluência de tempos distintos num só espaço -, K3 (2011) – extraordinária evocação da guerra colonial portuguesa -, Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo (2011) – depurada desconstrução do mito amoroso -, Elegias de Cronos (2012) – desmistificação do presente à luz de um passado heróico -, Na Luz Inclinada (2014) – o tempo, sempre o tempo, pautado por uma saturada passagem das estações. A publicação tardia confere a esta poesia uma espécie de exílio geracional, potenciado pelo distanciamento crítico da actualidade que se empenha em reflectir o mundo sem resvalar para os abismos decadentistas de muita da produção poética corrente. Irónica quanto baste, não prescinde de uma lente clássica que oferece os contrastes da História, exercendo desse modo uma espécie de recuperação/conservação do belo que é outra forma de resistência no interior do caos. Memórias pessoais dialogam com obras alheias, numa proficiente “polemização” interior da qual sai sempre a ganhar o leitor.  

terça-feira, 25 de outubro de 2016

HORA DA MORTE


Isto está pela hora da morte
espero permanecer até ao meu próximo aniversário
não peço nem mais.
Depois
com um pouco de insistência
virei a ter certas regalias
um desconto nos comboios suburbanos
(oh, que não me minta a memória
tudo começou com o foguete Porto-Lisboa
roçaram-se nos corredores os peitos
nem sempre da mesma altura
ainda sou daquela idade)

Espero qualquer túnel
que resgate a esperança
de sustos da escuridão
nos faça falar por todos.
De noite,
tudo se apanha em voo, vai-se aos sentidos mais aguçados
aqueles que encontramos nos nossos desenhos de criança
quando não sabíamos do que se tratava:
Se não se trata de perigo
de que temos medo na hora da morte?
Do escuro da morte?

Da morte? Só se define a morte por ela ir ser indefinível
não se define o que estará,
o nosso passo será de gigante
comparado com a timidez da vida
(a nitidez da vida)

Agora directos à morte
sem preparação específica
atlas, conselhos
ou um vislumbre de estratégia que nos faça largar de uma para outra frase
assim, sem transição:
A vida é bela. A morte.
Qual é o perigo?

Eis as duas frases que referia, aliás três.


Sérgio Godinho (n. 1945), in O Sangue Por Um Fio (2009). Celebrizado enquanto escritor de canções, Sérgio Godinho assinou igualmente livros de ficção, histórias infantis, um volume de poemas. Ainda que entre as suas canções e a sua poesia possamos encontrar variadíssimos nexos, nos poemas as palavra libertam-se dos espartilhos métricos e da coerência narrativa. Voluntariamente elípticos, por isso mesmo algo enigmáticos, os poemas de Sérgio Godinho propõem uma revisitação do vivido guiada pela perspectiva da morte. A tensão entre as duas dimensões da existência impele a uma interrogação crítica, uma espécie de exame a partir de uma inquietante desfiguração de medos, receios, memórias, ilusões.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O OLEIRO


o barro crescia da inflexão dos polegares
do oleiro e da leve pressão deles contra
os outros dedos que
amparavam a matéria, fazendo-a
elevar-se em vibração esbelta.

o ar, no interior do barro, era como um pião vertiginoso
em espiral ascendente e o oleiro molhava as mãos
de vez em quando numa escudela. depois
voltava a accionar a roda de baixo com o pé
e retomava o jeito firme das mãos, entre

o afago e a segurança dos seus gestos humedecidos,
e as velozes paredes da vasilha iam ganhando
a forma do cântaro ou da infusa, da bilha ou do
alguidar, por vezes
agilmente decorados, desde o rebordo, por acção

de uma pequena espátula, aplicada contra a rotação
das paredes. eu tinha treze anos.
antónio, o oleiro de freamunde, contava coisas porcas.
tinha comido todas as mulheres e ria de dentes brancos
como se ainda estivesse à dentada nelas. às vezes,

depois de passar as mãos por água, enxugava-as na blusa
que o barro manchava como se pusesse
borrões de entretela crua à vista. e acendia um cigarro,
contemplando o barro húmido crescido das suas mãos
para uma bela utilidade. quando eu tentava aprender, 

a roda não girava tão depressa
e o barro desfazia-se desajeitadamente num montículo informe.
lá fora, no terreiro da oficina, as vasilhas secavam ao sol a prumo,
à espera da sua vez no forno. e ele dizia dos vidrados, da maneira
como as cores eram e ficavam, e havia vasos com gerânios de cor viva

e árvores mais atrás, enquanto os velhos
batiam a bisca lambida numa tasca vizinha
e as galinhas e os pintos andavam por ali. não sei se ele ia à feira
vender a produção (decerto ia), nem me interessava então
que houvesse alguém comprando aquelas peças. só que,

postas as mãos no barro, girando a roda, a curvatura certa
lhe saísse dos gestos, como quando
deus tirava da greda a forma humana.
crescia no íntimo da forma a sombra,
coração rotativo a adensar-se,

imponderável e poroso.
ali se guardava o silêncio, ali ressoava
a digna serenidade, crescendo em círculos
sob as mãos do oleiro.
com palavras tentei, artesanal, o que não fiz na roda

da olaria: usá-las, modelá-las, prendê-las
na sua rotação, e guardar nelas vinho, azeite, pão e água,
pô-las ao lume aceso e misturar paladares,
matar a fome e a sede, fazê-las ressumar
da agreste consistência do mundo

com a sua argila imaterial, aquela sua
sonora precariedade.


Vasco Graça Moura (n. 1942 - m. 2014), in Laocoonte, rimas várias, andamentos graves (2005). «Caso típico do poeta de larga informação cultural activa é Vasco Graça Moura (n. 1942-01-03). Desde os seus primeiros livros avulta, além das conhecidas estratégias pós-surrealistas, uma fusão transgressiva de múltiplos códigos comunicativos, que vão das gírias à fraseologia de diversos registos de fala corrente, a inserções de variada terminologia técnico-científica, incluindo distorções paronímicas, etimológicas e morfológicas, junções poliglóticas, etc., produzindo uma larga paleta de humor. Em O Mês de Dezembro e outros poemas, 1977, e nos poemas depois incluídos em Instrumentos para a Melancolia, 1980, a politonalidade humoral restringe-se a favor de uma espécie de neoclassicismo, num campo de paráfrases reinterpretativas ou parodísticas de clássicos (greco-romanas, (pré-)renascentistas ou outros e de idiomas diversos), conjugando toda a vasta combinatória da sintaxe poética hoje admissível com uma difícil disciplina de estruturas ou diapasões antigos, como o soneto, a oitava, a sextina e a elegia, e tópoi, ou motivos, que tanto podem ser helénicos como trecentistas ou seiscentistas, hoelderlinianos como rilkianos, etc. Na assunção de tão informada e explícita intertextualidade há uma larga margem de exercício lúdico e até erudito, mas dela emerge uma cada vez mais sensível e gratificante emoção, ligada a efemérides e experiências actuais» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa).

terça-feira, 27 de outubro de 2015

«E AGORA, VAMOS AO QUE MAIS IMPORTA»


«E agora, vamos ao que mais importa»:
saber, na escrita, devolver
aos outros a força perdida
neste tempo sujo. Recuperar até
o som das tempestades, algum cheiro
a serra, campainhas, guizos.
E agora, vamos recomeçar as histórias
das fantasias todas no lameiro ou
na nespereira. Se não há bosque, já,
nem milho alto, perto da ribeira,
importa voltar a sentir
a força da isolada aldeia.
Subir ao monte e raspar a mica.
«E agora, vamos ao que mais importa».

*

«Vamos jogar de propósito destinado»
e recuperar o forte jogo da bilharda.
Ajudem-nos então a escancarar portões
de gonzos ferrugentos. Vamos voltar a encher
a loja de estrume fumegante. Abrir
as tulhas e caiar paredes. Reconstruir
canastro e pôr as telhas novas. Trazer
os gatos para fugirem ratos. Abrir
o forno para cozer o pão. Levar os potes
para o fogo da lareira. Ferrar cavalos,
ensinar os cães. Plantar árvores,
semear os campos. E sobre a casa,
como em tempos outros, erguer o ramo
de nova construção.

*

«E assim prosseguimos o volteio»,
no sábio ensinamento doutros mestres.
Franciscanos dizem que já somos,
quando apenas queremos dar as mãos.
E as mãos se juntam, ainda não
em prece, mas em trabalho. No reconstruir
a pedra da linguagem, o desejo
de um altar feito de pão que ainda
temos que amassar. A oferta somos
nós — assim nos damos. Bom começo
para quem muito quer andar. Peregrinos
seremos, mas mais tarde. Nómadas, errantes,
profetas se o quiserem. Mas agora,
com o mestre, prosseguimos o volteio.

*

«Cada mensagem é uma abertura
para o Ser». Obscuros são certos dizeres
mas a fria claridade também cega.
Não há cavernas, nem oiro, nem o raio
que ilumine de súbito a multidão.
Cada mensagem nossa é curta, mas é nossa,
mesmo no tremor com que dizemos certos
versos. Melhor assim: melhor a abertura
para o Ser. O outro ainda não sabe,
nem conhece. Está longe, na bruma
do riacho, ou nas torres medonhas
das cidades. Façamos lume com as
pedras, para aprendermos a incendiar
também nossas palavras novas.

O título desta série de poemas, assim como as frases que aparecem entre comas, foram retirados do livro de Eudoro de Souza, «Mitologia». Trata-se, portanto, de uma homenagem. 

Eduardo Guerra Carneiro (n. 1942 - m. 2004), in Contra a Corrente (1988). Os anos vão passando, e a voz de Eduardo Guerra Carneiro teima em não se fazer escutar. Poeta deixado na penumbra sem perdão, estreou-se na segunda metade da década de 1960. Foi um excelente cronista, como atesta o volume O Revólver do Repórter (1994). De resto, a sua poesia transporta igualmente o olho do repórter. Sem ocultar «a liberdade das imagens e das evocações naturais e espontâneas» (Cristina Cordeiro Oliveira), desenvolve em cada um dos seus livros um “fio narrativo” onde pressentimos a nostalgia do mundo rural num sujeito poético acossado pela agressividade da paisagem urbana. Inúmeras evocações afectivas surgem num contexto sugestivo, raramente declarativo, nos seus versos, os quais denunciam uma emotividade que por vezes se camufla por detrás da cortina rústica que subsidia parte da sua poesia. Sobre ele, em texto de contracapa, escreveu Manuel João Gomes: «Poesia em prosa, prosa de poeta incorrigível, melancólico, irónico, um tudo-nada romântico. Poesia às vezes jornalística, quotidiana e quotinocturna, em cima do acontecimento. Antes, durante e depois da ressaca. Confissões, recordações da terra natal, paisagens, retratos.»

domingo, 19 de julho de 2015

[A TERCEIRA MISÉRIA]


1.

Para quê, perguntou ele, para que servem
Os poetas em tempo de indigência?
Dois séculos corridos sobre a hora
Em que foi escrita esta meia linha,
Não a hora do anjo, não: a hora
Em que o luar, no monte emudecido,
Fulgurou tão desesperadamente
Que uma antiga substância, essa beleza
Que podia tocar-se num recesso
Da poeirenta estrada, no terror
Das cadelas nocturnas, na contínua
Perturbação, morada da alegria;

2.

Essa beleza que era também espanto
Pelo dom da palavra e pelo seu uso
Que erguia e abatia, levantava
E abatia outra vez, deixando sempre
Um rasto extraordinário. Sim, a hora,
Dois século atrás, em que uma ausência
E o seu grande silêncio cintilaram
Sobre a mão do poeta, em despedida.

(...)


Hélia Correia (n. 1949), in A Terceira Miséria (2012). Recentemente distinguida com o Prémio Camões, Hélia Correia estreou-se com o livro O Separador das Águas (1981). «Consagrada com a novela Montedemo, 1983, (…) em que se baseou uma peça de teatro e que funde sugestivamente um caso de maternidade mal vista com um ambiente rural e uma aura de prodígio, Hélia Correia, depois de outras obras intrigantes, publica, em 1991, A Casa Eterna, em que a reconstituição quase detectivesca de uma estranha morte dá ensejo a curiosas mini-histórias e flagrantes cracterizações conotativas dos narradores» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «No seu regresso à poesia, com A Terceira Miséria, (…) parte da famosa e devastadora pergunta de Friedrich Hölderlin: «para que servem os poetas em tempo de indigência?» Uma questão que faz tanto sentido hoje como fazia há dois séculos, porque mesmo «sem deuses» ou o «sentimento / sequer da sua falta», mesmo reduzidos agora à condição de «pobres confortáveis», sofremos de «idêntica indigência». Ameaçada por Persas que desta vez chegam do Norte, é na Grécia que se volta a jogar o nosso futuro enquanto civilização. (…) Há nestes versos muita melancolia, uma tristeza face às ruínas (hoje mais simbólicas do que literais), um sentido agudo do que ficou perdido talvez para sempre, mas também uma vontade de escapar ao abismo da resignação» (José Mário Silva, in Expresso).

segunda-feira, 20 de abril de 2015

DO EXTERMÍNIO

1.

A cidade encontra um pássaro dentro do
espelho. E nessa visão o homem descobre um nervo,
um sentido. Debaixo de uma fonte apodrece
a estátua. A sua alma debate-se contra os muros.
Desfaz-se numa linha obscura entre rosas.
Também outras flores que o mundo cria
ao amanhecer, escondidas, de costas para uma
grande tela de plástico. E nesse abismo, na cratera
luminosa nasce outra vez o crime desse pássaro.

2.

É de noite que ele dança, fulgurante
e ébrio, como uma espada de sangue
no deserto. A cidade esvazia-se nas casas,
inventa uma árvore morta, um sonho circular
que se escoa num novelo, entre os dedos.
E quando a noite finda e os homens ressuscitam,
ele transporta uma tábua dentro do peito
como um vírus roendo o seu próprio ninho.

3.

Um cântico surge então do crepúsculo.
Um livro cai no meio de um jardim e a ameaça
começa de novo, dentro do espaço doente
do olhar. Há uma planta que sai da terra e nos
enlaça. A sua marca é a de uma vertigem,
como se as veias abrissem os caminhos
que delimitam os ângulos da cidade.

4.

Existir nesse pássaro, nesse espelho
que reflecte os rios, deixar que os seus
crimes se instalem como um risco
cruzado numa folha de papel. E suportar
o choro gravado junto a uma janela, tremer,
sabendo que não é possível voar sem ter
conhecido a água que corre dentro da alma.

(...)


Jaime Rocha (n. 1949), in Do Extermínio (1995). «A obra de Jaime Rocha vem de uma filiação que tem muito pouco a ver com a poesia portuguesa, e parece-nos estranha e estrangeira. Sublinhemos um primeiro aspecto: este lirismo não passa pela enunciação do "eu", que aparece rasurado em paisagens e lugares insólitos, distantes, que se assemelham a fragmentos de uma ficção dominada pelo fantástico. Contudo, há um aspecto, que é uma dor agudissimamente subjectiva, que impregna tudo. Poderíamos talvez dizer, numa fórmula excessiva: a subjectividade não existe do lado da vida, mas do lado da morte. É uma subjectividade que envolve todos aqueles que vão morrer (fórmula ambiguamente particularizante e universal).  (...) A poesia define-se pelo "enjambement", dirá Jacques Roubaud. Neste caso, as ligações de verso para verso, ou transportes, são entre artigos definidos ou indefinidos, ou mais genericamente, entre elementos determinantes e elementos determinados na frase, que aparecem separados das palavras a que estão associados. Isto faz que de certo modo estes versos sejam fragmentações de um discurso que poderia ser em prosa, e que não se define nem pela rima, nem pela melodia verbal. E, no entanto, nós sabemos que se trata de poesia, e que esta poesia nos envolve de uma maneira obsessiva» (Eduardo Prado Coelho, Público, 6 de Maio de 2006).

quarta-feira, 18 de março de 2015

PARA QUÊ?


Para quê todo este pranto que deixas cair
sobre os meus lenços de cambraia?
De onde vens?

Do reino do Senhor,
dos jardins fechados na bruma,
onde não rasgamos as nuvens com os arados da
nossa dor.

Por quem dobram os sinos nos templos desta
vida,
entoando a sua música de pesado timbre que
ecoa na alma,

porquê esta chuva que bate nos vidros,
nas janelas de uma cidade que não posso ver,
que não quero lembrar,

porquê o ofício de quem implora às tardes que
não se afastem,

para quê os sonhos que sonhámos em camas
desfeitas onde deixámos à deriva,
sem leme, sem âncora,
o corpo que não tem fulgor,
e nos viram partir depois,
preparados para a ausência e para a morte,

para quê estes gladíolos sobre a mesa onde
escrevemos todas as palavras dos condenados,
todas as formas de pedir perdão,
de dizer adeus,

para quê um último pensamento de
madrugadas frias,

de deslumbrantes cristais,
de estradas que sobrem para a exaltação dos
astros,

para quê esta canção de cinzas que alguém
atirou ao mar,
com o nome dos amigos por dentro,
com o seu lamento que nos traz o vento,

para quê o verso que fulmina o coração com a
febre dos seus raios,
dos seus relâmpagos mortais,
com o tumulto das terríveis paisagens do
ar,

para quê este ar que respiramos ao abrir as
portas dos salões de fumo e jasmim,

para quê o incenso,
o ópio,
as coisas que ardem como ardem os archotes nas
escarpas da nossa idade,

para quê o tesouro oculto,
a muralha cercada,
as celas com grades de aço temperado nas forjas da
saudade,
o sorriso da primeira infância, devastada pelos
vendavais,

para quê os lírios quebrados,
a mágoa das mães paradas no silêncio dos
quintais,

para quê tudo o que digo como se pedisse perdão?


José Agostinho Baptista (n. 1948), in Esta Voz é Quase o Vento (2004). «Com raízes fundas na poesia anglo-saxónica, uma reflexão imagética próxima da poesia das tradições índias, a vaga sugestão de tom orientalizante, Agostinho Baptista é uma das poucas vozes na poesia portuguesa actual que entendem a poesia como convocação, liturgia recriadora da memória, diálogo com o centro essencial e invisível do homem. Que a entendem como religação a uma natureza primacial e adormecida, mistério, sangue e inquietação» (Pedro Sena-Lino, Público, 8 de Outubro de 2005). «Numa poesia que se gera no movimento e na rejeição do real "os lugares são lugares de passagem e as figuras são figuras de passagem". As figuras femininas "que têm surgido ao longo dos livros são seres ambíguos, até porque são pouco definidos enquanto sexo". Surgem "da mesma forma que surgem os lugares: nunca têm contornos muito definidos". / Novo movimento (aparentemente) contraditório: a poesia oculta, mas isso não implica na sua feitura a vitória da (perdoem-nos a expressão) "cerebralidade": ao contrário, a poesia "aconteceu sempre dessa forma muito torrencial", é algo "que brota e brota sem qualquer programa prévio"» (João Bonifácio, Público, 1 de Julho de 2006).

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

LAREIRAS


Estendi o braço, apaguei a luz,
senti os seus lábios cercados de rendição.

Do meio de uma tristeza que não podia findar
abraçámo-nos e, no centro mais cego do pavor,
de novo nos encontrávamos. Mais perdidos,
mais perto, tão perto que chorávamos as mesmas lágrimas.

Vivia na rede de ruas ao alto da vila
sobre o porto. Numa casa de tinta nova
com a entrada confusa, nunca
soubemos lá ir dar.
Certas vezes tinha o rosto coberto de sangue.
Nós e a noite cortávamos de beijos a sua dor.

Primeiro o lume salta, bate nos tijolos,
destrói o fumo que sobe na chaminé.
Depois os toros estalam, abre-se o calor
para dentro da sala, a nossa pele
encontra a tua pele, esquece
a realidade: o teu pequeno emprego, o tempo
que não tens, o dédalo
sexual da situação de classe.
Por fim as chamas começam a tombar
em brasas, em cordões de cinza.

O seu rosto cintilava nos fins de tarde
em que seguíamos para nossa casa.
Mas quando tirava a samarra e abria,
um por um, os fechos do blusão,
ninguém se lembrava desse rosto, o acetilene
dos dedos corria-nos sobre o peito,
o mundo inteiro parecia incendiar-se.

Estavam envolvidos num manto,
sentados no chão de pedra, as labaredas
roubavam sombras nos seus corpos.
Nas horas de depois dos bares,
um pouco antes do amanhecer.

Um rapaz nos últimos anos da juventude.
Confirmava do amor a rápida colheita,
o cansaço tardio, a maldição
de me ter dado e ter perdido. E voltar a perder-te
quando for a tua vez de achares quem te receba,
quem te faça pagar-me, faca por faca,
o preço das trocas tão desertas dos outros amores.

Outras vezes, ao beijares os seus olhos
verás como se fecham a fugir. Dantes
temiam reabrir-se e encontrar os teus
fixos na parede, em busca doutro corpo
que não sabias quem viria a ser.

A testa de altura moderada,
o nariz rectilíneo, os olhos
cor dos ouriços vivos, o lábio inferior
tenso e sem sorrir e os cabelos
iluminados, abertos à solidão.

Vai crescendo com o dia a dia a saudade.
Os dois príncipes melancólicos
aguardam o mensageiro.
O trovador, o mar, cobre-se da segura tempestade,
canta de encontro às rochas uma exaltação.
Aprendo a viver o sofrimento da espera,
a despedida, a chegada do temível triunfo.

Duas braçadas de lenha dão para uma noite
de repouso e ouvimos um do outro
o silêncio de muitos anos de conflito.
Outras vezes a triaga do ciúme agita-se
ao vento peregrino das dunas. As jóinas
não tardam a reabrir e os cardos roxos,
ouve, os cães a ladrar enquanto chove
nesta primavera que não devia voltar.

Posso sentar-me junto de ti?
Pegar na tua mão?


Joaquim Manuel Magalhães (n. 1945), in Segredos, Sebes, Aluviões (1981). «O mais importante crítico da poesia consagrada nos anos 70-90 (...), Joaquim Manuel Magalhães (...) é, desde 1974, autor e co-autor de cerca de uma quinzena de obras de poesia (...). A orientação que nele prevalece contrasta com poetas do seu grupo de idade e colaboração por um realismo flagrante, a certo nível, de percepções urbanas, suburbanas ou de à beira-mar, e que em pormenores evocativos de certa experiência rural nortenha vai até à minúcia de um léxico regional. Este realismo fragmentário de J. M. Magalhães surpreende pela elipse, pelo microrrigor referencial nas suas relações de complexa ou conflitual coincidência, ou de focagem-desfocagem com o motivo mais plausivelmente condutor: o de breves, precários encontros-desencontros eróticos. É sensível o contraste entre a agressividade quase feroz com que estigmatiza circunstâncias mais ou menos citadinas de degradação (e o ridículo de notoriedades poéticas ou literárias) e a densa bucólica, mais ou menos erotizada e em geral erguida sobre incidências de memória infantil, que fazem de Segredos, Sebes, Aluviões um dos melhores livros da poesia actual» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa).