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sexta-feira, 3 de novembro de 2017

QUASE INVERNO OUTRA VEZ


Era quase inverno outra vez,
eu escrevia pequenas frases, sobre nada

pois nada havia que se pudesse dizer:

tudo te faria lembrar a vida ou a morte
— e era sempre a mesma pouca delicadeza

escrevia-te
pequenos bilhetes sem poder dizer
não te vejo mais, não te vejo nunca mais,
tu respondias sem nunca dizeres
já não importa

Nada que se pudesse dizer:
escrevia como se fosse possível,
respondias como se não fosse nada

Dizias — quando estivermos juntos outra vez,
e eu lia — nunca mais, não te vejo nunca mais

pequenas frases, feitas de nada

tudo parecia demasiado vivo
para não lembrar que a morte
ia apagando do mundo
tudo quanto se pudesse dizer

escrevia,
e em frente da janela
as árvores perdiam folhas de vidro,
de um vermelho nítido, definitivo

escrevia — não te vejo nunca mais, e
traduzia tudo em palavras inofensivas, banais
— nada que se pudesse dizer 

depois a morte levava as cartas


Rosa Maria Martelo (n. 1957), in Matéria (2014). «A poesia de Rosa Maria Martelo é abstracta, culta, algo irónica; há um sujeito poético que se dissolve num “nós”, que interpela um “tu” ou se transmuta no objecto. O universo antes e depois desse sujeito é irremediável e irreparavelmente disparatado, desunido. O eu retrai-se, recua, desinveste, elegantemente. Delicadeza, elegância, aparente leveza e voo constituem o húmus desta poesia que se depura, passo a passo, até ao osso, até à morte, essa presença antecipada. E não cessa de repetir o mesmo, a não-identidade perene de nenhuma impressão do mundo, nos múltiplos traços da sua diferença, desordem e impossível unidade» (Maria Conceição Caleiro, Público). «Tal como Adorno mostra com a noção de dialéctica negativa, ou Derrida com o conceito de différance, aquilo que está em causa é a impossibilidade de totalizar no discurso ou no mundo qualquer movimento da história ou do conhecimento: a relação com a língua e com o mundo é constitutivamente da ordem do desfasamento. É esta consciência do desfasamento como matriz da língua que encontramos em Rosa Maria Martelo. Não há na língua promessa de revelação, antes a consciência da penetração do dentro pelo fora, e do fora pelo dentro. Do mundo pela língua e da língua pelo mundo. Este é um movimento de reenvio e de subtracção da língua a si mesma, da razão à sensibilidade e da sensibilidade à razão» (H. G. Cancela, Contra Mundum).

domingo, 9 de abril de 2017

CALAR, CALAR COM FORÇA


No silvo do dia
inclina-se a cabeça para o pó.

Para além do sol, rente à vertigem,
os que ainda vivem buscam o contacto.
Tudo aqui está mudo,
na cacofonia onde a luz
martela.

É preciso dar pancadas no vazio
para se ser ouvido, desfazer
com a cabeça as portas todas.
A escuta é improvável,
o homem ressona alto
por dentro do progresso.

A geografia dispersa muito as vozes
que tentam não morrer de asfixia
na riqueza. Em
certos momentos,
no decorrer da guerra
em que veio a fixar-se a existência,
estas vozes irão vociferar
ante os olhos penosos,
bocas secas, inteiriçados
defuntos que agora
vão dormir.

Com base em seres sem peso,
escavados por esta iteração industrial,
o inexorável frio
encadeia-se na voz
e propaga um silêncio de metais.

Ao nosso cadáver pediremos desculpa
- depois - no raro lance
em que a ausência do som
nos vai acompanhar até à campa.
A inclinar-se então para a poeira
erguida pelo bafo do futuro,
a cabeça vê: este pó
que o temor vai produzindo,
a organizar o mundo,
é a peçonha humana
a abrir mais estradas.


Alice Corinde (n. 1953), in Modas & Bordados d' Alice Corinde (1995). Presumível pseudónimo de Júlio Henriques, tradutor de méritos reconhecidos, autor de narrativas diversas e, mais recentemente, editor da revista Flauta de Luz. Os poemas coligidos de Alice Corinde, representada na antologia Sião (1987), reflectem uma voz crítica e acusatória dos absurdos da paisagem humana neste tempo de sociedades de consumo acossadas pela revolução tecnológica. A destruição do mundo rural, o abandono da terra e o afastamento no homem de tudo quanto o ligue à Natureza, são temas centrais numa obra onde à sátira e à ironia podemos ligar uma prática heterodoxa da linguagem e do pensamento. Embora não estejam isentas de uma disfarçada nostalgia, as “modas” de Alice Corinde manifestam de um modo mais claro certo desdém pelas tendências emotivas de um lirismo que esvazia a poesia de causas filosóficas e sociais. Incisivos no tom, derisórios na linguagem, sublevam, sem compromissos que não sejam exclusivamente poéticos, os problemas de um mundo que é o nosso.

quinta-feira, 30 de março de 2017

[Voltemos um pouco atrás]



Voltemos um pouco atrás
Surpreende-me a precisão
Com que adivinhas
Os desastres do paraíso
O quando e o quanto
Ao escrever não posso
Ou não deva vens
Haurir o distúrbio
Ao grande livro dos reversos
Que não darei a ler


Rui Baião (n. 1953), in Separata (1994). Um primeiro livro publicado em 1982, com o título Quiasma, fixou-o entre os autores de uma geração de algum modo retratada com a publicação da antologia Sião (1987), de que foi co-organizador com Paulo da Costa Domingos e Al Berto. Mantém desde a primeira hora uma inquestionável coerência no modo como alcança os imperativos do tempo, manifestados numa poesia onde a ruína, o declínio, o abandono, os escombros, surgem representados enquanto sinais históricos modeladores de uma evidente decadência cultural. Mais do que se circunscrever à paisagem urbana, a poesia de Rui Baião transcende os ambientes geográficos penetrando o âmbito ontológico da figura humana à medida que a fotografa com extremo naturalismo. A relação corpo/sombra é um tema recorrente, sujeito a representações violentas da morte a partir dos seus indicadores materiais. Fotografia respigada aqui.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

DA TERRA OCA


9.

os barcos ficam amarrados aos paredões
número um, número dois, número três do cais
e o frio aquece, ao redor dos guindastes
as grossas camisolas de lã dos estivadres
parados entre as encomendas e a última escala.
enquanto as docas estão ancoradas
vão contando como e porquê
viram, diferentes, as auroras boreais. 
dizem: mais para cima é o gelo
ou a perfídia magnética do pólo...
no perigoso rebordo das lendas
o desconhecido não se relata
mas inventa-se, de ironia em ironia
pelos interstícios dos mapas. 
é insuportável o reflexo do sol
neste frio e o mundo pode ser
um discurso impaciente
no meio de um grande silêncio.
ícaro teria voado para lá
onde dizem nascer os pássaros
e os gelos, mais a norte, se derretem?
é preciso explicar o inverso sentido dos climas
na transgressão dos animais... aqui
sabe-se de tudo como quem espreita
os vizinhos chegando aos bordos pelas escadas.
alguns dizem — no entanto —
que certos exploradores
foram mesmo silenciados pela loucura:
outro sol no centro do mundo.


R. Lino (n. 1952), in Atlas Paralelo (1984). Estreada em 1984 com Palavras do imperador Hadriano: Primeira, Segunda e Terceira Séries (Coimbra, Centelha), R. Lino é uma das mais discretas poetas portuguesas contemporâneas. Além de moderadíssima em obra publicada, prima pela reserva num tempo em que o culto da imagem tantas vezes sobressai diante da obra feita. Ainda em 1984, publicou Atlas Paralelo na saudosa colecção Gota de Água, da INCM. Seguiram-se Paisagens de Além Tejo (Rolim, 1986) e Daquíra (Frenesi, 1988). Refira-se que Atlas Paralelo e Paisagens de Além Tejo constituiriam os dois primeiros volumes de uma trilogia a ser completada com Mapas, sobre o qual não temos qualquer notícia. Depois dos títulos vindos a lume durante a década de 1980, R. Lino regressou apenas em 2012 com : Predação: / Urânia, Nós e as Musas (edição da Autora). Em 2013 a Companhia das Ilhas publicou-lhe Baixo-Relevo, com poemas concebidos nos idos de 1984 e 1985. Enigmática, esta poesia furta-se a definições programáticas. Nela reconhecemos a relevância dos dados históricos e geográficos, deles surgindo uma linguagem sem preocupações retratistas ou testemunhais.  Climas, ambientes, paisagens, lugares, sítios povoados por fauna e flora mormente campestres, atravessam esta obra sem que nela os elementos rurais se sobreponham a uma criticidade ontológica sem fronteiras de qualquer espécie. Paralela à geografia física dos dias, surge a geografia do poema entendido não como representação, mas como realidade outra onde lugar e história são assimilados e dessa assimilação decorrem como expressões do ser.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

UMA ESPÉCIE DE PORTUGAL


Sou a terra do mar impune: a extirpação do negro cósmico
e o adormecimento mágico da lava nos seus estertores seculares.
Sou a extremidade fértil da imensidão plana do tempo, a genitalidade larvar
que faz o belo das flores e o canto surdo das filosofias do irracional.
Mais que o Ocidente sou a Terra do Oriente Distante,
          da luz aberta às viagens longínquas,
          a terra de passagem como o desejo de um porto,
          de um reduto intensamente íntimo e avesso à claridade.
Sou a ilusão do movimento ascensional do mundo
e o cérebro telúrico que pensa a complexidade das sombras,
a ordem da deriva dos solos
e todas as catastróficas violações de todas as ordens.
Sou a arquitectura dos jardins desfeitos. 
O amor à degradação depois do êxtase.
O pântano do retorno
          ao promíscuo incesto
                     violento e criador
                               entre a Ásia e o mar
                                          cujo aborto triunfa.

Fazem-se noites de uma extrema ductilidade
                       que desculpa a ignorância mais selvática.
As palavras então murmuradas são intensamente verdadeiras e reconciliadoras.
As tribos do norte chegaram
           como se as procurassem
                      e logo se descobriram encurraladas.
Combatiam à semelhança do mar,
bravamente fechadas numa loucura, circular e mansa
como o apagamento dos trilhos numa paisagem cercada
                                           de paraísos invisíveis.
É sempre inútil falar de identidade nacional - como se a noção da substância
se partilhasse, mero efeito de rugosidade no fim da Europa.
Em mim se concentraram os que se queriam esconder,
          os escorraçados de um mundo com pujança disputado,
          os amantes incomodados com a plana transparência do ar,
todos os que se infiltraram brandos para, num contágio renhido com as ondas,
          iniciarem umbilicais navegações em torno da esperança
                    de outra nação eternamente em levitação poética.

Gente imóvel para sempre submersa,
para sempre perplexa com a variedade do mundo:
           os trajectos inglórios,
           as incansáveis renúncias no auge das colheitas,
           a festa, o vinho,
           a orgia de vencedores por amor à derrota,
a obstinada memória das viagens de tantos antepassados sem nome,
           metafisicamente sós
           numa desenfreada correria ultramarina
           para alimentar as mercearias europeias.
Os guerreiros despiram as couraças.
Como os comerciantes, amaram generosamente
a terra indígena, e nus aprenderam tudo de novo.

Cristo era a deusa do ventre do mundo donde todo o comércio brota,
deusa do pragmatismo e da eficiência doméstica,
e o Virgem Negra o profeta das singulares demandas,
          dos modestos suplicantes,
          o pai dos poetas actuais.
Todos os descendentes ficaram cúmplices: os nomes que transportam,
hoje ainda, devaneios subtis que por negligência policial têm ficado,
são uma maneira própria de fazer as coisas prosaicas
           - e quase tudo teve que ser no mar reinventado.

A invenção do mar foi a glória do ódio
          ao confinamento
e a magnética repulsa libertária por um feudalismo impossível de traduzir.
Da vertigem do fundo
decorre a imaginação que cohabita esta conjurada mansidão anti-calvinista
como se fosse uma cultura perdulariamente negativa,
                                          isto é,
           onde o amor paralisa
                     e absorve metade do movimento primaveril da luz
                                 no contorno temível da serra.
Refiro-me a todas as perguntas insensatas,
            à magia que o sexo não explica,
            à ânsia que a entrega não cura.
Na volúpia da montanha a língua indiferencia-se,
           abarca todos os antónimos
           e nivela-os numa contemplação estupefacta já próxima da loucura.
Não se pode falar de filosofia neste país de desportistas de fundo: a poesia
é uma eminência parda e amoral que perverte as ideias restantes,
adormecidas na barriga de especialistas do hoje.

Terra de demasiados portugueses. Furiosos empreendedores de sonhos,
(no seu parco amor próprio tanta ignorância por lamentar,
as raízes carcomidas pelos miasmas da vergonha)
sempre dispostos a partir e, contudo,
           portugueses indeléveis
                     na mendicância de subjugados ou no grotesco despotismo
                               de quem, por curiosidade,
                                ocupa um poder doméstico
e o dilata sentenciosamente sem outro desígnio
           que a eternidade esgotante da utopia.

Leviana Lisboa, lúbricos fluxos
venéreos de velha senhora nunca convenientemente amada.
Velha parideira de logros, contorcidas ruas de tanta heroína
e vómitos cénicos em plena pilha funerária.
Em ti saboreia-se
          o apagamento da história
                     e, em vez da decadência cíclica de outra ideia,
                               uma saudade cantada,
                                         negação de memórias pertinentes,
                                                   e, depois, alguém,
sempre alguém a partir de quem a lisibilidade das coisas se organiza
como se um local centuplicasse o sexo do mundo: o ondulado das colinas,
lânguido no corrupio das gentes, das subterrâneas águas,
e a derrocada nocturna, clandestina e coreográfica.

As abóbadas de cada metrópole coalescem - desfiam uma ideia de perfeição
            que tecnocientificamente reconstitua o imobilismo clestial.
Acredito nessa irmandade cimentada em guerras de séculos: associação
de heterotéticos alquimistas, de senhores da matéria,
de náufragos da fé na opulência do seio triunfante.
Consomem todas as palavras no luxo de dissonantes solfejos:
muito presunto, poucas quimeras - julgam que tudo lhes é permitido.
Acredito na espionagem que mantém o nexo fiduciário do espectáculo:
adoradores de ouro coroam a virulência humana
            em toda a extensão do mundo
contaminando o solo planetário até ao interior de cada cérebro.

O real é interactivo, repito.
Atemoriza-me, a sul, o fanatismo e o deserto.
Conformam-se no horizonte as hordas que incendiarão a cidade.
Reconheço os profanadores, os irreconciliáveis guerreiros do despojamento.
Outrora, entre os trovadores, havia príncipes e homens aéreos.
Foi para esses que mais se alterou o mundo: pássaros mortos,
solo inundado, florestas incendiadas.
Perante a eternidade
estão cansados uns, outros ludibriados.
Ergue-se uma estatuária laudatória,
apontam-se heróis insignificantes
          - e é o retículo persuasivo de uma economia da loucura
          a tutelar a nação
apesar das negaças dos poetas mais afoitos
e dos fotógrafos na sua ânsia de verificação,
           de legitimação ingénua
                                dos desvios,
                                dos desviados,
                                dos desviantes
à falsa brandura das tradições.

Sou hoje uma terra cansada, céptica e incapaz
          senão para moda,
aparatoso e digestivo cimento do Estado.
Eu própria sou a reinvenção utilitária da história,
          a direcção das balas perdidas,
          o incógnito que, através do céu, mata sem discriminar
          o amanhecer visionário e os seus relâmpagos sonâmbulos,
          o ruidoso progresso e as reaccionárias canções
                                a branco e negro embandeiradas.
A atmosfera clara e a superfície das praias fertilizam a imaginação:
tornei-me a pátria sub-reptícia dos líderes apátridas da pirataria legalista.
Nunca satisfeita, a população porfia,
           sua e morre numa espuma de truísmos
           - e chama-me mãe, confiadamente.
Do interior do solo as engrenagens que movem as plataformas
transgridem as linhas de força que me unem ao sol
e às estrelas da adivinhação da vida:
agora ou séculos à frente,
planeia-se um apocalipse manso e mudo,
a rigidificação do mundo
donde eu estarei distante.


Nuno Félix da Costa (n. 1950), in Panfletarium (1996). Psiquiatra de profissão, divide desde cedo o seu ímpeto criativo entre a fotografia e a poesia. Publica poemas que revelam uma atenção aos problemas sociais, filosóficos, políticos, culturais do seu tempo, superando as delimitações da situação através de uma análise crítica dos pilares civilizacionais e da cultura ocidental. Em certo sentido, podemos dizer que é um poeta whitmaniano empenhado em subverter qualquer noção épica da poesia. Fá-lo através de uma forte tendência aforística e um claro descomprometimento estético que o levam a praticar uma poesia ora advinda de observações práticas sobre o real, ora adoptando uma postura mais reflexiva e se desenvolvendo no sentido de uma discursividade refractária ao lirismo cuja maior preocupação seja a musicalidade das palavras, o ritmo dos versos, a sugestibilidade imagética. 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

VIDA PRÓPRIA


Se não estiveres aí, é
como se estivesses, digo
na mesma o que tiver para dizer:
dormem as barcas nas enseadas,
rebenta a luz nas onze horas
da noite, um livro insignificante
chama do nada, como ao acender
de um cigarro distraído, adoeces
sem saber e a televisão ladra,
de madrugada, com um filme
abrasivo. Há pelo menos um
anormal que continua a pensar
em cenários. Deixá-lo a pensar.
Descanso em saberes
que te dispenso, te convoco
para a tarefa cruel de juntar
sentidos, como numa cerimónia
calculada para anéis e grinaldas,
com limusina e inimigo, camélias
onde largo, displicente, algum
desdém. Proponho
que sigas em frente, dobres
o teu enorme passo, vás
aos cafés onde se pode fumar,
não tenho nada a ver com isso.
Calo, na mesma, o que devo
dizer: tenho metade em ti,
sou todo teu. O que é certo
é que nunca mais te livras
de ir queimar ao sol, pelo menos,
alguma sombra de que precisas.
Vida imprópria.


Manuel Fernando Gonçalves (n. 1951), in A Realidade dos Factos (2008). Revelado em meados dos anos 1980, pratica, desde a primeira hora, uma poesia que desafia o leitor «a entrar no jogo de ficções que toda a poesia acaba por ser por mais confessional que se apresente» (Fernando J. B. Martinho, in Colóquio Letras). «Esta poesia é determinada pelas condições pragmáticas do discurso, pelo facto de haver sempre um interlocutor (...). O que há é uma espécie de jogo teatral, em que a vida se move entre as sombras e os fantasmas, entre o mundo e a casa, e o jogo do mundo é para ser observado com ironia. Uma ironia que nada tem de interrogação infantil e, pelo contrário, torna manifesto o carácter niilista da reflexividade» (António Guerreiro, Expresso). 

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

CONTAMINAÇÕES


Eu vi herberto uma actriz a incendiar palavras num palco quarto de hotel
as palavras dadas e as outras caladas num lugar saturado de vapor de água
e aquelas gravadas na calçada perdidas a tentar perceber como se escreve
um nome gritando um nome para a voz encurralada abandonar a cabeça

eu vi a cerzidura de cada palavra a resistir à dor à tristeza ao cansaço
de outras palavras arrancadas da sua pele na passagem dos dias
palavras que se contaminam e se perdem sem ela saber já de quem são
os rostos de mortos e vivos atropelados num caderno imaginário

eu vi um corpo curvado subitamente brilhar num campo de madressilvas
lá longe onde os amantes caminham sem rumo atrás de sombras amarelas
onde os amantes se perdem em dobras de esquinas e espelhos e olhares
os corpos traídos pela inesperada declinação da luz dos seus ombros

eu vi uns cabelos negros tornearem uma lágrima que escurece o dia
escurece a claridade de um gesto que vem de longe e se imobiliza
talvez uma borboleta negra como as que de dia nos dizem da noite
e nos fazem estancar o sangue que corre nas veias ávido de água e luz

eu vi resistir um corpo branco amarelecido por uma luz que não há
rodar na direcção da toscânia à procura da noite que nunca tem fim
porque há uma noite eterna para os que acreditam na noite sem fim
nos fios invisíveis que tecem palavras e pétalas de rosa e desejos

eu vi umas mãos delicadas a tomarem em cuidados uma menina perdida
a da memória emprestada daquele em quem as palavras são salvação
perdidos eu tu e ela em enredadas palavras demasiado frágeis para a verdade
num tempo em que já não florescem infinitos embrulhados em laços azuis

eu vi o horizonte recortado pela deusa magoada pelo amor que já não há
ou nunca houve e o silêncio a encher o quarto e a coarctar o sangue nas veias
subitamente substituído por um líquido verde que renova mitos e mundos
caminhos ladeados por anjos esquálidos e deuses de olhos vazados

eu vi a alegria quando se pensa que a tristeza são uns olhos castanhos
marejados de lágrimas ou apenas a aflorarem o lado mais difícil de dizer
do amor que já não virá das ilhas rodeadas por mar e por ilhas de ilhas
olhos castanhos a desafiarem deuses e os vazios oceânicos das distâncias

eu vi os teus olhos surpresos surpreenderem um homem sentado no sonho
das palavras que se misturam umas com as outras como contas coloridas
com imagens intermináveis semeadas de sonhos com plantas carnívoras
sonhos que invadem as noites e nos empurram para o sol que nos cega

eu vi nos teus olhos a ternura que submete os corações de touros selvagens
a frescura e a luz que inundam as terras devastadas e estéreis dos desamores
e resgatam da sombra das águas extenuadas as algas e os líquenes precisos
à renovação das palavras deslumbradas esmagadas por securas e tédios

eu vi a tua água límpida inundar os caminhos secos das nossas memórias
a seiva que limpa as veredas escuras do nosso sangue em vão derramado
o mel que suaviza as nossas gargantas secas e exaustas pelo inenarrável
o sangue rejuvenescendo que expulsa das nossas veias o lixo do passado

eu vi a tua boca proferir fórmulas mágicas "Obedece-me, meu coração. Eu
sou o teu senhor. Enquanto estiveres no meu corpo não me serás hostil."
e eu sentado no chão a mimar o canto mágico furtado ao livro dos mortos
com a esperança de acender na noite palavras e corpos e olhares novos

eu vi os teus olhos no chão à procura de sinais cifrados
de enigmas que iluminem um pensamento novo ainda que breve
uma luz que obscuramente possa desvendar as trevas do mundo
e eu atarefado a desenhar no ar criptogramas para te oferecer

eu vi aproximares-te de mim arrastando uma longa cauda de fogo frio
e as tuas mãos a trespassarem sem dor o meu corpo desabitado e dócil
os meus pensamentos desenhados pela mão esquerda de uma criança
a minha alma que teimosamente busca ainda na lama as pérolas puras

eu vi e não vi tudo o que vi ou imaginei ou não imaginei e vi-te e não te vi
sonhei-te talvez só no meu sonho vagabundo de inventar seres e sonhos
fechado no quarto de hotel palco onde tu és verdade isso é mesmo verdade
tu em estado de graça a incendiar palavras que estalam como sal queimado

eu vi uma actriz a incendiar palavras
em estado geral de graça
a ser feliz
eu vi.


Carlos Alberto Machado (n. 1954), in A Realidade Inclinada (2003). Com obras publicadas nos domínios do ensaio, teatro e ficção, reuniu a poesia, em 2009, num volume intitulado Registo civil. « A escrita de Carlos Alberto Machado é um  labor orquestral, onde baralha as fronteiras entre a poesia e a prosa, a linguagem de todos os dias e a literária. Tem um "piloto automático" que lhe desencadeia a escrita num jorro, quando é preciso, mas o trabalho no teatro ensinou-lhe que a grande liberdade e o rigor não são incompatíveis e se complementam. / Nele tudo está entrançado: os tempos mais recuados da sua vida, o amor, a morte e a escrita. O vivido em Carlos Alberto Machado é sempre um ponto de passagem para o seu direito de mentir, de construir campos de virtualidade e de possíveis. A tensão deste perpétuo jogo entre o verdadeiro e o virtual. A realidade inclinada. A ventilação da vida, a sua energia transbordante» (s/a, in Portugal, 0, 7).

terça-feira, 21 de abril de 2015

OS DIÁRIOS SÃO PRENÚNCIOS DE DOENÇA


incurável criatura sentada espera - sabendo de antemão
ser impossível o defunto aparecer     é de desmiolado
- mãos pousadas sobre o zinco da mesa obedecendo ao mando
dos ansiolíticos revestidos por asas veneno risca círculos
de loucura fundindo-se em moribunda trovoada de fúria cerrada
entre escombros da memória     pegadas sem atacadores
                                                                                    dentro do crânio
quatro paredes de tecidos carnais sem tecto

corvos debicando os miolos     mortos trancados em molduras
nas paredes assistem     vala comum de recordações
o soalho o isolamento     subúrbios de populaça moribunda
                                                                                        sarro
gargantas repletas de palavras agrestes escorrem pus de gritos
no desfocamento do alívio sofrido no fumo do cigarro fundindo-se
na lâmpada da neurose flamejando na deformação dos pesadelos
                                   a mioleira enferma de bichos desejosos
de novas geografias     de ave uma pena chamuscada

quando um homem eleva a mãe a deusa bofeteia o ausente pai
segurando na mão uma lanterna busca
                                                        o pingo sangrento de toda uma vida
engolir os caroços a cobardia a casca da laranja
                                                                       os gomos p'ró lixo
o corte dos pulsos as saudades de cortar à faca

bruta
        era a luz quando nasceu a terra do lugar os patrícios a fala
os modos sem caligrafia a arte de embrutecer em histórias avulsas
                                                                                                 clisteres
não limpam merdas passadas nem a ansiedade de se morrer depressa
ou a medonha cultura dócil de entreter abundante no facebook

um dono com chicote de lume     a humilhação: tojo a perder de vista
degola-se o tempo no sombrio sofrimento carnal
                                                                        olho-rolha no ânus
dum corpo s/ nome deambulando nas sombras do luar
pelos campos de tremoço seco     é lá que arde o cadáver da cantiga
entre a sucata dos hits no peito destroçado quando um desgosto passa
rente à saudade e os socorros chegam fora de tempo     o coração em cinzas
     é inútil a compressa que trazes sempre no bolso para a ferida
que irá chegar amanhã ferrugenta
                                                 meia-vida-meio-dia
transparente saco plástico enterrado na cabeça
apertado ao pescoço com fita adesiva     respiração sufocante ondula
o plástico num vai vem aos lábios até a morte rasgar
                                                                             o embuste do tempo
ir por aí rebolando pelo alcatrão como um traste sem reza nem garra
assistindo ao china esfomeado de genética na devoração duma perna humana
com soja     enquanto o sangue na Mongólia continua
                                                                              coalhado de tirania
os epilépticos e obscuros labirintos da solidão provocando queimaduras
nos lábios sem lábios
                                alienados no arame farpado nas gaiolas da terra
um tremor de saudade     o dia de amanhã morrerá aos pés do que virá
o drama depois do depois só restando do desespero os odores
dos tormentos repousando em macas como poeiras de leis de preconceito
injectando nos cérebros filmes esferovite     guiões desconexos
                                                                                             o alvo
em panóptica as setas alienadas médicos jogadores a assistência
vigilante tropa de choque promessas baixas     carbonatos de lítio
fluvoxaminas e rebuçados Dr Bayard na mesa de cabeceira     manipulações:
ferrolhos de culatra     as radiações do poder o controle um calendário
de azares     tatua labaredas flash dum homem atirando-se para a frente
do comboio a todo o gás     uma réplica doutro fim     os quartos
onde são despejados
                               os furiosos     matam
como injecções de insulina e fentanil
                                                      as latrinas e os escarradores
estão imundos como imundo está o continente europeu e os desgostos
incendeiam-se de enigmas     crimes mafiosos sem fronteiras veludo grená
     em tafetá uma plebe de abortos

fios eléctricos ligando o coração ao cérebro e ao sexo
criam curto-circuito     peitos devolutos nações de nódoas loucas
                                                                                                 hereditárias
o altifalante metralhando o recolher obrigatório   a apatia - bola de sebo
dilatando doenças rastilho - olhares perdidos gestos moribundos
pernas sem pés     onde estava o estupor quando nasceram?
jogando à batota com os discípulos? apedrejado chicoteado pregado
cuspido     e o povo... nada
                                              continua merdoso     o enjoo
contorcionista apalpando urnas de fruta podre no canibalesco baile
de máscaras da exploração capitalista     a democracia é a puta
de serviço no asilo dos alienados
                                                 a calamidade dos pobres
em condomínio fechado     as seringas furam os transtornos quadripolares
da teta da mãe sai leite corrosivo para os levar à morte     variante contrária
à camisa de forças e à razão do investimento financeiro feito pelos estados
nas cobaias     não digas para fugir do nada nem me leves o tempo
para a mentira     nem cries medos     tombo nos ponteiros dos dias
ao sentir o sangue nos olhares das crianças     e só me atraem
as que exibem o alinhavado sofrimento no olhar
                                                                      no quarto às escuras
mata as ratazanas à dentada que não param de sair ruidosas dos esgotos
dos meus ouvidos     e p'ráqui estou a 5 de Agosto de dois mil e 14
numa reles esplanada na Ponta da Piedade abandonando
na escuridão ao redor do farol     o Sonho
adivinhando que este mundo irá findar atómico
                                                                     dentro da madrugada
que se aproxima


Jorge Aguiar Oliveira (n. 1956), in Alma Sem Cura (2014). Uma vasta produção na década de 1980, distribuída, sobretudo, por edições de autor, foi reunida no volume Homens Sem Soutien (2002). Desde então, a poesia de Jorge Aguiar Oliveira tem continuado a crescer sem trair a corrosibilidade de um discurso visceralmente avesso às imposturas do normal e, já agora, do real tal como este parece ter sido entendido por grande parte dos poetas vindos a lume durante a década de 1990. Adoptando, a espaços, formas populares de versificação, fá-lo sempre num tom derisório que tem na sua essência uma vontade de denunciar as fraquezas de uma tradição poética avessa ao feio, ao desagradável, à ruína, ao declínio civilizacional que o século XX espoletou com os seus gulags e campos de concentração e que o século XXI tem sabido acolher com a estupidificação mediática das massas perante tragédias humanas reiteradamente elevadas à condição de espectáculo e, dessa forma, simplesmente ignoradas com cobarde indiferença. É, pois, uma poesia de forte cunho acusatório, sejam os seus temas a loucura, a homossexualidade, a morte, a repressão religiosa ou experiências pessoais que nos transportam para cenários decadentes, tugúrios, casas devolutas, latrinas, panoramas tingidos de abandono. De referir, igualmente, uma preocupação plástica que se reflecte no tratamento formal do poema, incorrendo amiúde em experimentalismos capazes de transformar mensagens gravadas num atendedor de chamadas ou escritos de WC em momentos poéticos de alto calibre provocador.