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sábado, 14 de dezembro de 2019

ÁGUA DE LIMA


o pousio dos campos que foram verdes
verdes ao longo de gerações
milho regado ao pé
pela levada da aldeia
o murmúrio da água de lima
a correr pelos pastos.
do minho dessa imagem do minho
que te persegue como um
vício absurdo quase nada resta.
falam-te de chegas de bois
nos campos da lama
na festa de s. brás
e tu vês a mina dos escuros
onde a mãe lavava a roupa
também ela ultrajada de secura.


Francisco Duarte Mangas (n. 1960), in A Fome Apátrida das Aves (2013). Fortemente vinculada à terra e ao mundo rural, a poesia de Francisco Duarte Mangas aproxima-se, a espaços, de um bucolismo que não enjeita perspectivas de tipo elegíaco sobre esse mesmo mundo. Invocando Carlos de Oliveira, Manuel Gusmão diz que Duarte Mangas guarda da poesia daquele «a sobriedade e a brevidade, o desenho minucioso da imagem, os valores de proximidade com os acidentes morfológicos e a respiração da terra; a ligação apaixonada com a imaginação material, a paixão do concreto, do pequeno vivo e dos ciclos naturais».

segunda-feira, 2 de abril de 2018

SEMENTES


É claro que me lembro. Havia dois atalhos
pelo meio do pinhal, direcções espantosamente
precisas, animais que não voltei a ver.

Enquanto as colheitas amadureciam nos campos,
havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio
para tratar certas lesões, uma peça vital
do equipamento. Havia girassóis à volta da casa
e as palavras imortais dos espantalhos, uma forma
de evitar que endoidecêssemos. E havia um muro
que era preciso saltar, a manhã gloriosa
da escalada, a ciência das grandes migrações.

Mas não vale a pena entrar em mais detalhes.
Este é o meu corpo. Esta é a minha mente.
Conhecem-se desde a infância e cumpriram pena juntos.

Do futuro nada sei. Apenas que vem aí.



Vítor Nogueira (n. 1966), in Cantochão (2017). Publicou o primeiro livro de poesia, A Volta ao Mundo em 50 Poemas, em 1999. Praticante de uma linguagem sóbria, sem resquícios de exaltação emocional, opta amiúde por um registo narrativo focado na derrocada da província e do que poderia sobreviver de certa vivência rural em contextos urbanos. Fazendo uso de alguma ironia, tende em diversos momentos para um olhar nostálgico desconfortável, ou seja, inquieto perante o papel da memória na preservação do passado. «A poesia de Vítor Nogueira é do lado da hiponímia, isto é, faz-se porção a porção, já que nenhuma coisa visível se vê toda juntamente. Além de que o que não se vê, residual, não cessa de se perseguir, por isso não se destapa a cortina» (Maria Conceição Caleiro, Público, 28 de Dezembro de 2011).

domingo, 5 de fevereiro de 2017

[Levamos os cigarros à boca da medula]


Levamos os cigarros à boca da medula
e é por ela que fumamos o ruído das nossas
vidas de cinza digo agora que também eu
recomecei a fumar.

E é falso dizeres
que esse silêncio que teces é o mesmo
dos teus dezanove anos parece-me a mim
que arranho o meu até à ferida.

Encostas o corpo à matemática do mundo
eu encosto o corpo ao nada que me assiste
e procuramos na noite qualquer coisa
que já nem nos pertence é provável

delapidações pedras mansas
esta forma tão doente de viver.

Ainda que sustemos a escuridão apenas
com cafés e ginger ale's e cigarros
que se apagam de um minuto para o outro
tão barato e mau é o tabaco

e ainda que acabemos por desistir
do último cigarro que nunca fumaremos

esse que nos traria a explicação da noite
da luz das palavras do silêncio do ardor do desejo
com a certeza de que o dia seguinte começará 
muito próximo do fim.


António Amaral Tavares (n. 1964), in Movimento de Terras (2016). Reuniu os primeiros livros e alguns inéditos ulteriores em Movimento de Terras (Língua Morta). A doença e a morte são obsessões temáticas que percorrem o volume, num registo que tanto entra em diálogo com obra alheia (pintura, música, cinema) como parece denotar elementos biográficos dispersos. De um complexo lexical recorrente sobressaem vocábulos tais como vidro, cão, domingo, em relações sinonímicas bastante abertas, oferecendo aos poemas uma inegável consistência imagética ao mesmo tempo que indicam universos íntimos de difícil interpretação. Raramente linear, a poesia de António Amaral Tavares surge de um lugar onde a realidade se perspectiva entre sombras. Solidão e medo, enquanto núcleos emocionais determinantes, surgem assim acompanhados de substâncias capazes de solidificar a dimensão mental dos conceitos. Já não importa o sentido das palavras, mas sim a expressão do modo como elas são sentidas num corpo castigado pela desordem. 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

VIAGEM DE COMBOIO COM POEMAS DO ZÉ PETINGA


os poemas escritos com tinta rosa sabem mais a ti
ao longo de todo este caminho pressinto-o

os cigarros são fumados com a promessa
de que o fumo não acabe
e as palavras surgem quando o mar se levanta

consigo perceber muito bem
as tardes no café do tónho do casino
eu habitei as duas casas dessa rua
o imóvel e o habitat natural dos versos escritos com
maresia

de longe vem o vento que bate na janela
continuamente chegam pessoas ávidas pela viagem
outra nem tanto

(acendo um cigarro)
arrastado pela sombra que foge
absolvo a tua perdição
foste um menino celeste que agora transportas
as ruas de bruxelas de paris de amesterdão
a praia do norte
absolvo-te
os outros gesticulam-te primaveras mortas

(a cinza cai em cima do papel)
leio o primeiro poema que ainda é rosa
(o cobrador pede-me o bilhete
pica nervosamente o pedaço de papel vermelho
sem saber que esse pedaço de papel serve de marcador
no livro: confissões de verlaine)

de s. martinho a óbidos
tomo o poema um café com natas
lá fora as árvores chegam ao céu
(já chegámos ao bombarral
no banco da frente dormem duas miúdas estrangeiras)
porque é que o diálogo sustém sempre o sonho
e o pólen eleva no ar o fluido do mundo?

penso à velocidade desta máquina
como se houvesse energia fora do corpo
e produzisse luz de papel
(o cobrador ralha com três putos
diz que gosta de dar educação aos mais novos
apanharam o comboio atrasado na tabela
não têm bilhete
o velho pede dez contos de multa a cada um
o mais novo de rabicho
ri de frente para a janela)
vou escrevendo em linhas tortas
(o velho limpa a testa suada com as mãos
condescende
o puto das notas ajeita o cabelo
enfia na cabeça um boné de pala
paga os bilhetes
suspira)

ainda bem que rebentámos da nossa precoce virilidade
afinal somos da praia
apenas mais um lugar no mundo

penso de novo no livro
antecipo-lhe a capa
as folhas seguem aqui neste comboio
(acendo só mais um cigarro)
as canções que escreves
podiam ser artérias que ligassem todos os livros
de todas as bibliotecas
o debate pela caverna
onde as raízes são astros
apenas isso

consigo imaginar a alegria
dos cabelos compridos
(olha acabámos de passar o apeadeiro do ramalhal)
eles ficam inertes
com o tempo que passa

sabias que nós adquirimos
tempestades de todas as cores?
(leio agora a canção de van horst)
percebo nos poemas
o desfio de borboletas rosa
(em torres vedras entrou um bando de mulheres
muito faladoras e a comer bolachas)
são minúsculas as flores
sim
minúsculas e devoradoras

acredito em ti pela vida fora
não quando pararmos

havemos de ter resposta
quando não conseguirmos mais falar
(o comboio parou a meio do caminho
julgo não ser nada de especial)


m. parissy (n. 1969), in cafurnas (2002). «m. parissy procura nas suas publicações (opúsculos de autor ou livros editados em editoras marginais) criar um ambiente marcado por uma grande amizade pelos outros e uma alegria de viver, fundindo estas emoções com um pensamento interior de solidão e, por vezes, nostalgia de um tempo que se esvai e cuja memória se obriga em fazer perdurar nos seus poemas. / Lugares míticos como Lisboa, Paris ou Bruxelas, autores de culto como Ginsberg, Éluard ou Ferlinghetti, vivem ao lado de personagens de carne e osso (o mizé, o grilo, o pássar'da névoa, o silvino, o petinga) nascidos na geografia do poeta, e de locais que ajudaram a construir o seu edifício poético» (Jaime Rocha, in nota introdutória a cafurnas).

sábado, 27 de fevereiro de 2016

[PUTAS]



Caem nelas como buracos no dia,

arregaçam o pêlo, chegam-lhes fodidos
mamam-lhes as tetas, gritam de bestas

o caralho teso espetado nelas, e se riem
coram de pavor, e depois sentem desgosto

vão-lhes ao cu, fodem de arremesso
a memória delas no fedor dos camaradas,

a pele nua esmagada de chumbo

e vomitam curtos, esporram delas
como água das mães,

vozeados no corpo, tristonhos
ficam de narinas consumidas, os dedos afilados

a carcela aberta no cheiro das conas.

Existem deles com o osso preso à roupa
a prega aflita na blusa, a boca escanzelada

elas rasas deitadas nos colchões

roubam-nos aos pares, se os abraçam
deixam-nos morrer, eles calmos nos lençóis

depois soltos, abrem-lhes as fuças,
ficam nelas a chorar, pedem-lhes colo
enrolados como filhos findos

as mamas inchadas de sangue
encostadas ao corpo deles,

as mãos desmazeladas nos pulsos
onde desmancham os cabelos.

Deitam o odor contra a parede,
iminentes delas em raiva que perdessem

os corpos vão por elas como golpes
a cama desmedida à cor do sémen,

o colo em sangue, o véu desfeito

têm os dias sobre a profusão do corpo
são vestidas magras a fio e eito,

trazem o nome deles no ventre
porcas, desinfestadas às esquinas

os cabelos desgrenhados de doença
raiva que as vem esperar às camas,

preparam o parto ligeiras na praga,
escorrem miudezas de mulher

fracturam o corpo nas águas,
caídas como ramos nos rios.



Alexandre Nave (n. 1969), in Vão Cães Acesos pela Noite (2006)Dois livros publicados no início deste século, Columbários & Sangradouros (2003), Vão Cães Acesos pela Noite (2006), permitiram a Alexandre Nave afirmar-se como uma das vozes mais promissoras da poesia portuguesa contemporânea. Pelos impulsos expressivos, pelo culto de imagens eminentemente carnais, pela índole metafórica de uma linguagem visceral, Luís Miguel Nava seria talvez o poeta com o qual melhor dialogaria esta poesia. Mas se neste havia uma discursividade narrativa, nos poemas de Nave essa discursividade é desconstruída por uma sintaxe onde cada verso insinua rajadas violentas e impetuosas de um complexo lexical despudoradamente hostil. Certas imagens remetem para um homoerotismo que facilmente associaríamos a autores como Pasolini ou Genet, embora o eco de Céline se faça ouvir amiúde por entre paisagens que exprimem uma dimensão sombria e vertiginosa da existência do indivíduo violado pela comunidade que o marginaliza.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

DA DIFICULDADE DA BELEZA


A beleza é difícil.

Queria ensaiar uma magia menor
com a consciência de que cada homem tem a sua porção de paraíso
mesmo nos lugares mais adversos.

Mas a minha adversidade é uma paisagem
povoada de medos e de cinzas.
Vejo morte e sofrimento lá longe
e o que me comove está mais perto e é inapreensível.

Penso naquele pátio medieval de uma aldeia da Beira Interior
onde ontem assisti ao prelúdio de uma noite de verão.
O poço negro dos céus. A hera baloiçando ao vento. O cortejo das estrelas.
Um rumor de insectos roendo os interstícios do silêncio.

Poderia enumerar todas as coisas que então preencheram os meus sentidos
e reduzir essa expressão de coisas que desfilam, recebem nomes,
a um falhanço sem limites.

Retomo a pedra fria em que estive sentado naquela noite.
Toco-a com o pensamento até à falaz eloquência da realidade.

Falhar é seguir, novamente, a estrada da atrocidade quotidiana.

Penso em Ungaretti nas trincheiras
recordando os seus rios: o Isonzo, o Nilo, etc.
Há uma fuga nesta indiferença.
São nobres os exemplos
e exemplar a responsabilidade do alheamento.

Vejo um campo devastado dentro de mim,
a torre da Canção erguendo-se sobre as ruínas da tranquilidade
que me cerca.

A beleza é difícil.

Procuro a noite e a solidão num pátio medieval.
Procuro na minha memória esta noite e essa solidão.
É preciso salvar o momento, penso.
E distante no tempo, um outro o salva:
um poeta nomeia os seus rios
numa frente de combate.
A morte envolve-o. Porém, ele assume a ventura da beleza.
Assina o seu rosto junto ao sofrimento.

Com o início desse conhecimento
escrevo: «A beleza é difícil. Pode derrubar-nos, entretanto.»


Luís Quintais (n. 1968), in A Imprecisa Melancolia (1995). «O crítico António Guerreiro considera ser possível reconhecer facilmente a poesia de Luís Quintais, logo a partir dos títulos, "por um tom, um estado de espírito, uma atmosfera susceptível de transitar de livro para livro", assumindo a sua poesia um "evidente carácter elegíaco". E talvez seja importante começar pelo título do primeiro dos volumes referenciados, com o objectivo de captar o sentido dessa melancolia, imprecisa, e de definir o contexto em que a podemos integrar. Num ensaio onde relaciona literatura e melancolia, Fernando Pinto do Amaral considera que esta se trata de "um estado de alma de vaga tristeza sem motivo a que podemos ligar o termo passividade". De entre os vários aspectos abordados nesse ensaio, destacaria a funda afinidade que, segundo Pinto do Amaral, liga melancolia e literatura. Na verdade, se "é fundamental a presença de uma imagem fantasmática para a criação do estado que leva à melancolia", deve também sublinhar-se que "ambas (escrita e melancolia) trabalham com imagens, insistindo em desejar o impossível"» (José Ricardo Nunes, in 9 Poetas para o Século XXI).

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

DECEPÇÃO À REGRA


Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?


João Luís Barreto Guimarães (n. 1967), in Luz Última (2006). «João Luís Barreto Guimarães, quiçá o mais barroco dos poetas que desdenham da novidade pela novidade e das babugens meta-qualquer-coisa, (...) tem revelado um gosto particular pelo carácter lúdico dos versos e pela recriação das formas poéticas, sendo sobremaneira sensível aos jogos de palavras, às elisões, aos parêntesis e à focalização no detalhe, em situações e em objectos correntes. Processos que, juntamente com o modo breve, elíptico e metonímico com que o autor procede à enunciação de um quadro familiar, doméstico ou outro (...), contribuem para toda uma arquitectura de estranheza, mostrando que o mais insólito continua a provir da trivialidade» (Carlos Bessa, Expresso). «João Luís Barreto Guimarães escreveu muitos poemas lúdicos de tão formalistas. O volume 3 (Poesia 1987-1994), publicado em 2001 na Gótica, inclui nomeadamente sonetos experimentais (mas acessíveis) com diversos jogos de palavras e de disposição em página. Nada disso escondia o cunho essencialmente emocional dos poemas (que evocavam os amigos, as despedidas, a idade adulta), que em livros posteriores se prolongou em anotações algo melancólicas sobre a domesticidade e o quotidiano. Talvez a inquietude formal de alguns desses poemas escondesse o seu pathos, sempre cuidadosamente sabotado» (Pedro Mexia, in DN).

quarta-feira, 22 de abril de 2015

NA DROGARIA


Raticidas, anilinas, alicates, soluções.
Por isso e outros bens abordava-nos o mundo,
rostos disputados por domésticos saberes,
amáveis ilusões. Enrolávamos em sombra de jornal
uma barra de sabão, um frasco de veneno,
novas dobradiças para uma porta velha.

A viva clientela feminina perguntava
por perfumes invisíveis, achava tudo caro,
cobiçava o novo creme para as mãos.
Acabava por comprar meio litro de lixívia.

Por outro canivete, óleo de linhaça,
chegavam os maridos, os pequenos aprendizes.
Pedreiros, picheleiros, algum estucador,
pediam diluentes, ferragens luminosas,
petróleos, parafusos, o amor. Amigos de beber,
falavam-nos de pedras e areia, da vida
nos andaimes, das botas no cimento,
e do tempo sem retorno
em que um prego na parede tinha a sua utilidade.

Uns e outros
mediam com os risos o talento de sofrer.
Na malícia do abraço se cruzavam as histórias
de terreiro e carne viva.
Despediam-se, depois, deixando-nos entregues
ao betume do silêncio,
os olhos mergulhados em cadernos, em pó de gesso-cré.
Desde o fim do mundo até ao fim do mundo.


José Miguel Silva (n. 1969), in O Sino de Areia (1999). «O aparecimento de O Sino de Areia foi um dos momentos que mais me surpreendeu entre a mais recente poesia portuguesa, pela intensidade do tratamento do familiar, pelo romper da surda fonte que faz o nosso dia-a-dia tornar-se versos em alguns. Independentemente do que eu agora sei o autor ter escrito depois, era um livro profundamente significativo de um registo novo da fixação a um quotidiano e a uma memória pessoal que nunca se deixavam afastar da triunfante trivialidade para conseguir uma escrita de grande força e sedução. (...) Até aqui, fulcralmente, o autor manifestara a acidez de um olhar sobre um mundo de certo modo desolado e em que sempre ocorriam palavras amargas sobre si mesmo. Como se um mal fizesse parte de outro mal. E nesse jogo do olhar para fora com o que tem dentro se tecia o padrão que buscava falar de uma aridez, mas o tinha de fazer no centro de uma florescência de palavras articuladas com uma sensível desenvoltura.» (Joaquim Manuel Magalhães, Expresso, 28 de Agosto de 2004).

sexta-feira, 27 de março de 2015

A FUNÇÃO DO GEÓGRAFO


14.

Cubro toda a terra daqui.
Dizem que é efeito das ilhas, já o pressinto.
As nuvens enegrecem no canal enquanto te digo isto.
Há também algo de nocivo nisso, eu sei. Tu sabes.
Talvez venha a tornar-se a voz numa sombra - é o
que dizem, ao chegar a estação das beladonas.
Foi após embarcares que senti tudo isto,
que comecei a confundir a noção dos dias,
o tempo que trazemos nos relógios.
Chego a tremer com o silêncio no planalto,
com o cheiro a cânhamo das furnas e
da neblina limosa formando-se em torno delas.
Acontece-me ter perdido alguns nomes,
outros lugares parecem-me vagos,
ausentes noutro corpo talvez esquecido, em extinção.
Mas descansa não é por vontade, é mesmo assim, já tinha dito.
É talvez porque o que fomos se apagasse e
só pudéssemos esperar
e uma sombra nos cresça na voz, cada vez mais.
Tu dirás isso por aí à tua maneira, se
quiseres - já agora não o esqueças.
Vou ficando semanas seguidas cá em mim,
sem descer à costa.
Aqui aguardo me tragam as cartas, as tuas,
e não julgues que não dei conta dessa angústia.
Se soubesses como me parecem sempre um eco, o
presságio de um mal que está para acontecer.
Mas não são sempre elas isso mesmo,
uma voz sustendo-nos, um
medo na parte mais desconhecida da memória?
Agora enquanto te digo isto as nuvens enegrecem no canal,
a tarde ficou mais bela, como só aqui pode ficar
com o vento que sopra do norte, da graciosa.
Tu sabes como sempre estas coisas me impressionaram:
a ressonância do ar cá em cima, o mar
escuro longe da costa, além de todo o possível,
a rebentação das ondas nos baixios para depois invadir as praias.
Mas além de tudo este silêncio oferecido no caule das hortênsias,
esse silêncio impedindo a aproximação do
mar a toda a volta.
Já te disse como aprendi a desconfiar do mar.
Da sua deriva invisível de um ao outro lado da ilha
como um perigo,
e fosse preciso agarrarmo-nos ao cais para não cairmos.
Já te disse que não há outro lugar para se saber isso,
outro lugar de onde se cubra assim
toda a terra.
Tenho cuidado do viveiro, tal e qual ensinaste,
lá vou escrevendo uma ou outra coisa devagar, se a isso leva.
O lúcio passa de quando em vez de
caminho para o norte grande.
Vai ficando por um ou dois dias, quando insisto.
Fala-me muito das ilhas e das pequenas histórias,
das araucárias que chegaste a ver, da
urzelina e da vila que ficou submersa com a lava, menos a torre,
das pequenas baleias que se passeiam ao longo da costa
como no belíssimo livro do tabucchi, que te contei.
Tudo está aqui ligado, no fundo - mas isso já nós sabemos.
Por isso cubro toda a terra daqui.
Olha,
um barco vem descrevendo agora a sua rota no canal.
Conheço-o daqui tão bem no seu silêncio.
Foi nele que chegámos.
Foi nele que partiste.
E sabes, no que mais tenho pensado é nisso,
no significado das rotas,
no que elas têm a ver com tudo isto que te conto,
com o que nos conduz na vida e não sabemos.
Há um mistério nisso. Tu também sabes.
É o maior mistério e não podemos persegui-lo.
Como se nos afastássemos e só pudéssemos esperar
e fosse mesmo isso o que está certo.
Sim, cubro toda a terra daqui.
Outro dia abri a semente vermelha do café raro
e percebi que não quero sair nunca mais.
Talvez te custe saber isto, não sei. Se
calhar custa-me mais a mim.
Por isso quero dizer-te que não posso partir.
Acho que a vida encontrou-me na tranquilidade certa,
a verdadeira, a que nos cerca como um nevoeiro.
E podia contar-te mais, se quisesses.
Agora entendo como devíamos contar a nossa vida
sabias?
Contar o que ela tem a ver com tudo isto,
deambular por toda a nossa vida até aportarmos aqui,
vigiados pelas hortênsias,
cobrindo toda a terra.
Agora eu amo este planalto como não te amo a ti.
Porque amo-te apenas quando partiste.
Quando me deixaste na mão a certeza de te
esperar
e o dom de vigiar os navios e os cagarros.
Agora o vento cresce do mar pelo lado norte
e espero-te.
as nuvens enegrecem no canal, já tinha dito.
Assim ficarei até que chegues.
Até reconhecer o teu silêncio na inquietação das rotas.
Disseste que vinhas quando não esperasse a
tua carta.
E crê mais não ires pressentir do que a minha
sombra
lá pelo tempo das beladonas.

Rui Coias (n. 1966), in A Função do Geógrafo (2000). «Um dos pendores dos seus livros é a configuração memoriosa do que entende dar-nos do seu passado, sobretudo viagens a lugares que podem ter ficado entretecidos de sentimento ou de registo de anotações paisagísticas ou de um tempo perdido ainda que ganho em ralação à fundura da interioridade. (...) Afectos e atenção à superfície do mundo relatam-nos tanto as situações sentimentais (sempre revestidas de uma contenção expressiva muito notória) quanto as variações de lugares habitados, seguidos de registos de faunas e de flores e de acidentes peculiares dos terrenos por que passa, bem como algumas vezes nos traz alguma espécie de espírito local, de fantasia subtilmente captadas que criam uma aura que contribui para a dinamização do processo descritivo. (...) A lógica discursiva, mesmo nos momentos de ritmo mais marcado, conduz sempre, todavia, a sintaxe; a qual nunca se suspeita que não possa serenamente elaborar o declarado - as frases nunca se constroem em qualquer hermetismo (apesar do desapego à confessionalidade directa); tudo é envolvido em imagens e conceitos como que surpreendidos da própria sabedoria (o que é um processo conseguido da expressão)» (Joaquim Manuel Magalhães, Expresso, 4 de Março de 2006).

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

SEGUNDO PLANO


Tudo em segundo plano,
pudesse ficar
um poema no adro como
se alguém varresse as folhas
para um canto
e o vento voltasse a soprar
e dispusesse tudo da mesma forma,
o orgânico e o inorgânico,
inertes, imateriais,
visíveis e invisíveis,
coisas reais, imaginadas,
a dupla fieira de cedros e pessoas
que aguardam à porta pela saída
e despejam sacos de arroz, denso
como depósito no fundo de garrafas.

De longe assistem a tudo,
ansiando por maior folga para os pés,
defendendo o traje e a recordação.
Ainda não voam os papéis do registo
até aos ladrilhos das casas de banho
que cheiram a suor e a urina.
Pudessem ficar em segundo plano.
Estivessem no âmago do acontecimento,
onde a luz do sol bate na pedra
e devora a construção,
mas ao mesmo tempo vagueassem
pelas redondezas, laterais,
como se as sombras fossem independentes
das opacas matérias que lhes correspondem.

Alguém surge para anunciar
mais um pequeno atraso,
previsto desde sempre, e todos dissociam
arroz na mão, arroz lançado,
o tempo que há-de vir oscila na memória
e dá razão aos distraídos e aos retardatários.

Pudesse ficar tudo por dentro
de uma imagem, alheio, em segundo plano.
Se eu desse os parabéns correctamente
poderia por trás aplaudir, incentivar,
ou teria espaço para uns insultos
caso a pequena actuação corresse mal. 

As coisas ficam em segundo plano,
atrás duma cortina, paradas.
A água não fractura o rosto
do rapaz retorcido por um mal congénito.
A cotovia não se atravessa entre nós e o céu
e quem se mantiver atento vê o céu
através das asas e do movimento,
pois a gravidade perde primazia e força de lei.
Vence quem dispuser do melhor exemplo. 

Não vou eu, em segundo plano,
cumprimentar o tio desengomado
que se protege do sol
e troca os nomes como um vulgar poeta.

E quando me abeiro da mão mole,
multiplicada pela distância, o eco
das vozes torna mesmo difícil saber
a que pergunta é devida resposta.
Quando afasto insectos
e a presença que nos ameaça
se torna por fim refém da transparência,
livre do comando de voz mais obscura
que não sou capaz de repelir,
fecho os olhos, inteiramente
em segundo plano, e deixo-me cair
na voragem que adultera
o tempo e as fotografias.

Nunca sentiste, ao pegares num cinzeiro,
que repetes um gesto? E quando o levantas,
espreitando para dentro dos teus pulmões
fumadores, vês as coisas de facto
como dizes que são? Deixaste há muito de ser
moderno, demasiadamente moderno,
e desenrolas o papel higiénico das ficções
com absoluto terror do deserto?

Desdobras imagens tecidas por luminosos fios,
unidos àquela consciência que dissolve
numa treva os convidados
quando se debruçam para o bolo de noiva
ou escolhem carnes frias
ou provam os doces em segmentos.
Deixaste que a vida te enganasse?

Pudesse ter dimensão, dignidade
de exemplo e caber na moldura
que alguém arrasta atrás,
um semelhante, um igual.
Em segundo plano. Juntam-se
automóveis, pessoas vão saindo,
iminente a chegada da noiva -
o tempo não defrauda as expectativas.

O Convento de Cristo sobrepõe-se à pedra
amontoada. Confirma-se um rosto.
Já os Templários descem a cavalo
quando alguém fecha uma janela.

José Ricardo Nunes (n. 1964), in Apócrifo (2007). Autor de algumas narrativas curtas (Alfabeto Adiado, Confissões) e ensaísta com obra publicada no domínio da crítica de poesia, José Ricardo Nunes é um poeta onde a contenção discursiva surge primeiramente como marca de uma dialéctica entre a experiência do real e a vontade de superar essa experiência com incisões imagéticas invulgares. Contaminados pelo quotidiano e por memórias diversas, os seus poemas raramente se circunscrevem às circunstâncias que os motivam. Evoluem quase invariavelmente no sentido de um mundo onde a linguagem está consciente da sua infidelidade ao real. Deste modo, a sua poesia está intimamente ligada ao corpo. Mas está ligada ao corpo na medida em que é neste que os dados da experiência são filtrados pela linguagem, a qual nos transporta amiúde para situações onde da treva, da dor, da perda, da monotonia, surde uma emotividade que já não é meramente cerebral e literária. É a emotividade que reclama para o poema o estatuto de coisa orgânica, coisa essa que sabemos jamais poder ser um poema embora desse horizonte não pretenda o poeta perder a vista.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

LUZ E MESINHA DE CABECEIRA


Só pedia um cobertor e que deixassem a luz acesa.
Mas tudo se recusa em nome do poder
Do caminho contra o caminho que sonhamos
Percorrer. Mais uma hora de sono
Correspondia a uma carícia, pois a manhã
Logo ficava ocupada com a ourivesaria do emprego
Do que salva tantos do tédio ou do suicídio.
Estava na hora e o trânsito podia em fila.
Chegaram depressa os dias sem sono
Nem emprego nem outra desculpa aceitável
Mas o poder, a liturgia do dever permaneceram.
Para que serve o remédio, o comprimido?
Regressa-se sempre ao que se queria esconder
Com renovada violência. Regressa-se à recusa
Anterior. Sempre com a quimera de um dia
Ser diferente, de a ternura vir com
Data de validade e pronta a servir.


Carlos [Luís] Bessa (n. 1967), in Lançam-se os músculos em brutal oficina  - o conhecimento das coisas (2000). «(...) as mais importantes características processuais do autor: uma escrita elíptica, um vigor surpreendente na criação de imagens e no poder sugestivo dos subtítulos e uma extrema atenção a um «real» que escorre pelos dias e pelas páginas com um indisfarçável sabor de recusa» (Manuel de Freitas, Expresso). «Ao contrário de outros poetas, Bessa não afasta totalmente a domesticidade. De facto, nesta poesia o vazio não é sinónimo de niilismo. O vazio é uma constatação lúcida mas não exige uma filosofia (ou uma pose) de existencialismo negro. Bessa nunca deixa de nomear certos aspectos da domesticidade (o casal, os filhos), como uma circunstância que atenua a extrema penúria existencial» (Pedro Mexia, DN). «A vida é a exclusiva matéria da poesia de Carlos Bessa. Não a vida política e socialmente representável, nem a vida que se torna escrita nas biografias. Trata-se, antes, da vida anónima e impessoal, no seu fluir fragmentário e centrífugo, completamente absorvida por mecanismos alienantes. A vida, em suma, que habita a banalidade do quotidiano e expropria o indivíduo de biografia e de experiência» (António Guerreiro, Expresso). «Encontramos o humor, algo disfórico, a ironia, mas mais ambígua, numa intenção de transparência, a pisar o risco às vezes do literal, da banalidade, da pura referencialidade, indecidível. (...) Estilisticamente, o autor mantém, porém em menor grau, tendência para transformar, ou interromper, o enunciado em curso através de construções sintácticas que por vezes surpreendem, são no seu fluxo inesperadas, uma ruptura qualquer, ou uma frase que se deixa à solta, uma ou outra vez a elipse ainda» (Maria da Conceição Caleiro, Público). 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

CONTO DE INVERNO


permanecendo no inverno
e mais do que no inverno, no passado
andando um tanto ao acaso
dão connosco pela frente
os bosques da América do Norte

em todo este desenlace
o inverno, como tendo em conta o nosso esforço
não se nos apresenta rigoroso
por aí se vê que a natureza
apesar de bastante fria
continua acessível a um europeu do sul

dir-vos-ei apenas que cheguei era já noite
e dispenso-vos as minudências
as atitudes mais ou menos adivinháveis -
apresentações, questões, pequenas curiosidades
- até porque não as houve em demasia
e avançava já para a esplêndida sensação
proporcionada pela iminência do alce

não querendo carregar nas teclas
das imediações do fantástico
sublinharia porém a luciluzência do acampamento
- sua fogueira - a disposição das personagens
a musicalidade de ralos e de mochos

a noite era imensa entre o arvoredo
como nunca mais o veio a ser
e a lua reflectir-se-ia por certo
em algum charco que eu haveria de ver
uns determinados dias depois

o acampamento era irreal
de tão perfeito em suas premissas
e alguém que se afastasse
ainda que imperceptivelmente
dava a quem o visse
a inexplicável certeza
de toda uma razão de existir

um qualquer arfante perigo encantatório
passeava-se atávico
na escuridão do bosque de coníferas

adormeci ao som das brasas
derretendo a gordura dos ossos do corço
e sonhei com o meu tempo
que estaria, sem que bem me apercebesse
para advir em tempos de máquinas
e de capacidades intelectuais proveitosas

Daniel Maia-Pinto Rodrigues (n. 1960), in O Valete do Sétimo Naipe (1994). «Com altos e baixos, mais notoriamente ou menos notoriamente, este estilo e este ritmo constituem, na poesia do Daniel, uma verdadeira identidade, e atravessam o todo disperso dos seus poemas como uma distinta e pessoalíssima marca. (...) / Sinais exteriores dessa identidade são a desconcertante "naiveté" coloquial (perigosíssima, aliás, pois força frequentemente os limites do literário, confrontando-se com o banal em fintas às vezes de inseguro resultado, como as daqueles jogadores de futebol que costumam ser acusados de "não jogar para a equipa"...); a ciência da palavra subitamente inusitada, da relação tensa do adjectivo e do substantivo, do arcaísmo ou do neologismo de construção; o humor distante e enternecido, a estudada candura, às vezes amável até à perversão; a constante ruptura dos níveis do discurso, a crueza do corriqueiro irrompendo na expressão quando ela parece ir tornar-se eloquente; o uso radical do "cliché" e da literalidade; a espaços, a absoluta ausência de vigilância literária ou a desmesura retórica; uma arte da composição que joga sabiamente com a ingenuidade e a fabricação formal; e, sobretudo, o prazer físico das palavras, do seu sabor, dos seus aromas, uma dicção voluptuosa capaz de se inebriar até ao deslumbramento com certas inesperadas sonoridades e, por outro lado, propensa a súbitas e vertiginosas mudanças de curso, precipitações de sentido, pueris enternecimentos» (Manuel António Pina, posfácio a Malva 62).