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sexta-feira, 28 de agosto de 2020

SCALINATELLA



 

8.
 
Desfez-se a coroa de geleia que rodeava
a cidade. Aqui nasci entre fuligens
e gente escrupulosamente perdida,
blues sangrado numa harmónica afiada,
e a minha boca não mais
beijou a pureza.
Alteraram-se-me os ossos quando vi
essa grande nuvem, funesto cavalo marinho,
abater-se sobre o porto incompetente,
sobre os estendais ataviados de suor,
sobre a fotografia da minha
família estafada.
Agora não havia história, era eu e o mar
misturado aos humores do céu,
novamente o blues e o seu esgar de nojo,
a sua esmola de amor.
Nunca pensei em estudar nada que me fosse útil.
Para isso haverá revólveres e pneus,
e nenhuma coisa que a essas se assemelhe
me poderia curar do que tenho.
Algodões infectos, balões de soro que flutuavam
pelos tectos fugidios e encardidos,
o meu médico soube de imediato que eu haveria
de levar outra vida: era o blues.
Quando me suceder parar a meio da praça,
onde já o subterrâneo freme nos carris de outra poesia,
penso na serena convulsão das cidades,
desmontando-se e montando-se como os dentes
de um louco que a minha insónia me oferece,
tantas vezes empoleirado no tamborete azul
onde a minha cozinha encontra repouso.
E o meu bairro é uma cadência dos campos de algodão,
esses sim puros, ternamente mastigados
pelo sol da existência,
e sempre um comboio bolçando enormes chifres
de carvão, para que no firmamento se escreva
a minha (?) luta intestina.
A morte vencerá, é claro, exceptuando talvez
se lhe adiantarmos tudo: celofanes, selos timbrados,
vasos de flores, cada porta
do nosso ódio.
A coroa de geleia escorre crepuscular,
partiu um táxi provavelmente destinado ao coração
do desemparo, raparigas saltitam pelo elástico
do meu silêncio, e eu, que tenho estado quieto,
acendo-me de relâmpagos, como a boca do vulcão,
e esfrangalho o ar com o meu
blues meridional.
 
 
Vasco Gato ( n. 1978), in Napule (2011). Em 2016 reuniu num só volume, intitulado “Contra Mim Falo” (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), toda a sua produção poética desde “Um Mover de Mão” (2000). Alterações ligeiras em alguns poemas demovem-nos de considerar ter havido nesse volume uma intenção de reorganizar, sendo mais exacto falar de um ligeiro apuramento que não alterou significativamente as características iniciais de cada um dos títulos coligidos (12 ao todo). A busca inicial de uma linguagem pura começa por aproximar da Natureza a poesia de Vasco Gato, num tom intimista onde o desamparo e a fragilidade do humano se revelam no confronto com a grandeza do universo. Não há-de ser por acaso o interesse pela expressão poética ameríndia, assim como a epígrafe pedida de empréstimo a Thoreau para um dos primeiros poemas. Na senda do que vislumbramos em Herberto Helder, uma das influências mais evidentes na poesia deste autor, o encontro com o mundo natural edifica uma voz em relação com um outro que ao segundo livro assume contornos algo místicos, misteriosos, esotéricos: «É possível a intimidade com o mistério». A poesia aparece enquanto experiência desta intimidade, enquadrada em paisagens enigmáticas, porventura oníricas, de recolhimento e de retiro interior. Muito dissemelhante na forma, a poesia de Vasco Gato começa porém a sofrer uma certa inflexão com o poema longo “Lúcifer” (2003). É aí que encontramos o gérmen de uma poesia mais sua, descolando-se das óbvias e naturais influências: «Há muito que desejo romper / este cordão umbilical, ampliar-me». Este poema é o pórtico para um lirismo altamente conseguido quando encena dramas amorosos, colocando no tabuleiro metafórico a identidade do sujeito poético — “A Prisão e Paixão de Egon Schiele” (2005) —, ou quando se apropria de referências culturais várias para indagar os princípios do poético —“Omertà” (2007) —, ou simplesmente quando assume a queda desamparada do sujeito num real que estilhaça com inteligente sentido crítico. O «país de amputados» em “Rusga” (2010), o mediterrâneo de “Napule” (2011), o «leito quotidiano» de “A Fábrica” (2012), resultam como que preâmbulos a uma carta de pai para filho, nesse extraordinário “Fera Oculta” (2014), onde os podres do mundo assomam ao poema fazendo deste, ao mesmo tempo e com a mesma intensidade, lugar de denúncia e de libertação. Sem cederem ao facilitismo de um registo meramente acusatório, de tipo confessional, politicamente interventivo, civicamente empenhado, quase sempre datado, estes poemas de Vasco Gato equilibram com mestria o que há do mundo no indivíduo e o que pode haver do indivíduo-sujeito-poético no mundo.

sábado, 16 de novembro de 2019

A HABITAÇÃO DE JONAS




Sei que esta grande tempestade
por causa de mim vem sobre as paredes
da casa, afastados já os móveis.

As paredes, ao se afastarem os móveis,
erguem-se, despidas, coradas até à raiz dos rodapés,
como paredes sem móveis: demasiado brancas,

branco casca de ovo, branco gelo, branco mate,
consoante a cor com que as paredes se pintaram
antes de se lhes colarem os móveis.

Foram três dias e três noites nas entranhas
das paredes na esperança de expiar a culpa,
o pecado: branco sujo até se afastarem os móveis.

Dentro da cabeça das paredes, sobretudo
da cabeça do coração, até se afastarem os móveis,
cobria-se de cal essa certa esperança

de esconder defeitos. Ao se afastarem os móveis,
as paredes deixaram cair pregos, abriram rachas,
mostraram, pudicas, as manchas. Espreitava-se

e via-se-lhes a olho nu o espaço íntimo,
o sangue inocente posto sobre nós
no que parecia ser a boca dentada de um peixe.

Paredes, estais hoje mais velhas do que nós.
O branco, demasiado aberto, não vos assenta bem.
Tentamos vestir-vos de quadros e desenhos;

já nada vos serve: o homem das obras ordenou
a demolição. Porque Tu, Senhor, fizeste como te agradou:
três dias e três noites em oração contra Ti.

A grande tempestade por causa de mim
expôs  como ferida em carne viva o esqueleto
da casa. Ossos feitos de material de construção.


Inês Fonseca Santos (n. 1979), in A Habitação de Jonas (Abysmo, 2013). Três livros de poesia publicados, dos quais As Coisas (2012) foi o primeiro. Seguiram-se A Habitação de Jonas e Suite sem vista (2018), poemas sequência nos quais se torna mais evidente a opção por uma dramatização do sujeito poético na sua relação com o mundo. Em A Habitação de Jonas a voz do sujeito encarna a do profeta que durante três dias e três noites se sentiu sepultado no estômago de um grande peixe, enquanto no livro Suite sem vista encontramos uma rapariga num quarto de hotel. O que sobressai em ambos os livros é a situação de clausura. Rodeado de paredes, o sujeito encontra-se isolado do mundo. Não necessariamente protegido, não necessariamente ameaçado. No fundo, a esta clausura corresponde um movimento para a interioridade do sujeito, daí ressaltando sentimentos de dúvida, medo, solidão, acentuados por um conflito entre memória e esquecimento. A relação amorosa aludida em ambos os poemas surge retratada, deste modo, num panorama de ruína à qual se associa o vazio interior da habitação enquanto expressão de um vazio existencial. A habitação desnudada é lugar de solidão, as paredes ouvem já apenas silêncio e os segredos que guardam são murmúrios de memórias passadas. Cativas no interior de si mesmas, as personagens destes poemas como que fazem o luto de uma relação. Com o mundo? Com o outro (desejado)? Certo é que entre o eu do sujeito e o outro com o qual se relaciona ergue-se uma anomalia comunicacional. Jonas roga ao Senhor para ser libertado de si mesmo, a rapariga escava as paredes da suite e encontra medo, o outro está preso dentro das palavras dela, as palavras são as paredes. Verbalmente contida, rigorosa na organização dos momentos narrativos, Inês Fonseca Santos inscreve a sua poesia numa tradição reflexiva que toma o domínio da linguagem enquanto tema primordial do poema. Os cenários de que se serve são hipóteses de dramatização dessa (auto)reflexão do poema que se questiona a si mesmo.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A IDADE DOS HOMENS




Vais fazer 36 anos sem ter ido ao Japão,
sem ter feito um nome,
como é uso nas novas gerações.

Tens escrito mais, é verdade,
agora até calções usas
e as personagens que vais representando
mantêm distância do chão que pisas
de segunda a domingo.

Diz a auto-ajuda
que amas com maior sabedoria,
embora essa irritação
que te explode nos genes
continue a não dar jeito nenhum.

(tanta gente a quem ligares
pessoas suspensas no calendário
como quem adia milagres,
surpresas que não nos acontecem sozinhos).

Vais fazer 36 anos,
a idade do profeta ficou bem mais longe
e só te resta a idade dos homens.


Nuno Costa Santos (n. 1974), in Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme (2012). Autor de uma obra dispersa por vários géneros, escreveu para cinema, televisão, rádio, teatro. Tem vários livros de crónicas publicados e um romance revelador da importância que atribui a uma busca incessante dos fundamentos, das raízes, do passado enquanto alicerce de uma existência não esgotável no quotidiano presente. Exímio coleccionador de aforismos, publicou também poesia: Os dias não estão para isso (Livramento, 2006) e Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme (Companhia das Ilhas, 2012). De carácter aforístico, a poesia de Nuno Costa Santos exibe um olhar atento ao mundo dos homens. As “pequenas coisas” sobrelevadas no segundo título surgem enquanto núcleo celular a partir do qual um corpo se desenvolve, sendo particularmente sensível o modo como se articulam estas pequenas coisas, supostamente irrelevantes, com uma noção de sentido para a vida emotiva e simplificadora. Poeta dos afectos, como também o foram O’Neill, Assis Pacheco ou mesmo Ruy Belo, Nuno Costa Santos denota uma segurança que lhe permite ser claro sem resvalar para o sentimentalismo ou para a gratuitidade emotiva. Mas ainda que essa clareza enuncie a busca de «uma luz própria e irrepetível», o lado sombrio da vida também tem lugar nestes versos sob a forma de uma nostalgia que relativiza toda e qualquer excessiva dramatização existencial.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

JOSEF SUDEK, THE WINDOW OF MY STUDIO [SERIES], 1940-1954


A janela do estúdio está aberta. Por um instante,
aqueles dois mundos desviam-se do reflexo
que um é do outro e conectam-se. Definem-se,
dissolvendo-se. Não há interior e exterior.
Um plano onde a chuva escorre e outro onde
o ar é condensação. Não há o homem e um duplo
que se contempla, essa árvore de torso retorcido,
defeituoso, que o tempo, só por milagre, cura
quando floresce a Primavera.

As vidraças nada separam, nada aproximam.
Dois mundos, as estações que se sucedem,
o dia e a noite afectados pela luz interior e exterior,
o que é inteiramente abstracto à superfície
e delicadamente lírico, emotivo, quase espiritual,
no olhar que se prolonga.

Por tudo isto, são pormenores o muro e as casas
para além do jardim ou a composição de natureza
morta no parapeito de madeira. O que importa
é a janela do estúdio, que está aberta, e como
a indeterminação, esse movimento que o
mundo respira, ali se revela.



Sandra Costa (n. 1971), in Untitled. A estreia em 2002, com Sob a Luz do Mar (Campo das Letras), revelou uma voz transparente, contida, depurada. Untitled (volta d’mar, Dezembro de 2017) persegue os caminhos da luz, desta feita em diálogo com fotografias a preto e branco de autores diversos (Elliott Erwitt, André Kertész, Vivian Maier, Dorothea Lange…) A écfrase processa-se a partir de uma complexa ralação de olhares, o do autor da fotografia e o da poeta que a contempla. O poema surge desta relação como uma imagem no decorrer do processo de revelação, da indefinição nublada e sombria das formas até à sua absoluta definição. O título do primeiro livro já havia assumido a relevância da luz nesta poesia, agora novamente sublinhada por uma noção do poema enquanto reflexo. Mantendo-se a natureza no lugar da paisagem preferencial, ela surge enquadrada por uma contemplação afectada pelo silêncio e pela solidão. Os jogos de luz permitem-nos ainda vislumbrar em alguns versos um tom nostálgico que resiste à melancolia, inclinando-se mais para uma noção de espera onde podemos adivinhar certa forma de fé na beleza: «Nesse instante, compreendes: o único caminho / possível até à madrugada insubmissa / também se faz de esperas, // ou de um detalhe que nos salva» (p. 18). Também por isto, podemos dizer que esta é uma poesia que aparece em contramão com as tendências dominantes do seu tempo.

domingo, 14 de outubro de 2018

DOIS POEMAS DE LUÍS FALCÃO




Ocupei o dia com pequenas tarefas
Para silenciar um pedido uma súplica
Pintei o velho alpendre consertei a cancela do jardim
Libertei o cão para que perseguisse os pássaros pelo bosque
Recusou-se a partir
Persiste onde não existe caminho
Ao meu lado
Esperando que um vento frio
Dispa de folhas todos os ramos.

In Pétalas Negras Ardem Nos Teus Olhos, Assírio & Alvim, Março de 2007, p. 9.

O táxi à espera
acendendo e desligando os faróis
depois das sebes de azevinho
o cão impondo-se num latido
impregnado de queixumes
a mala aberta, o nó da gravata
ainda por fazer
optas pela simetria perfeita
pelo equilíbrio elegante do hanôver
selando
numa indiferença discreta
a tua queda no esquecimento

In Bruma Luminosíssima, Artefacto, Maio de 2016, p. 23.

Luís Falcão (n. 1975 – m. 2015). Com uma estreia auspiciosa em 2007, acabaria por publicar apenas dois conjuntos de poemas. O desaparecimento precoce levou a que o segundo volume fosse já edição póstuma. Poemas curtos, marcados por uma linguagem depuradíssima onde sobressaem certo questionamento existencial e interpelações do sagrado. Os versos abrem janelas para panorâmicas onde as ideias de extinção, abandono, perda, destroço, falha, despedida, ausência, restos, apodrecimento, colocam em diálogo o «corpo arruinado» com um princípio de sagrado a desfazer-se. A antítese no título Bruma Luminosíssima é reveladora dos contrastes nesta poesia onde a consciência de finitude (passagem do tempo, morte) impele a uma ideia de infinito/eternidade («essência sagrada das coisas»). Elementos naturais, mormente a neve, surgem como signos decifráveis de um devir na direcção do silêncio e da obscuridade, mas de onde advêm instantes de clareza e de iluminação.

sábado, 29 de setembro de 2018

GRAÇA


do monte agudo ao da graça
espera-te uma lisboa emudecida

das asas guardas o desejo
és um anjo caído demasiadas vezes

sentas-te no banco onde já tantos
souberam nada aguardar da vida

quando cá chegares do telhado
desta bebedeira ofereço-te o funâmbulo

gato passeando-se ao de lá da vista
um outro cais e a onda nele aportando

o coração a ser partido quando o amor
parte do coração a quem se ofertou

não leves o tempo até à tua morte
a morte pode levar-te antes do tempo


Fernando Machado Silva (n. 1979), in O Coração Estendido Pela Cidade (Gato Bravo, 2017). Estreado em 2012, mantém desde o início em todos os seus livros uma relação forte com o conceito de viagem. A sua poesia, podemos dizê-lo, apropria-se da transitoriedade que define deslocações nos espaços geográfico e íntimo, fixando-a num “mapa afectivo” onde se elencam cidades, lugares, suas características e particularidades. A memória é ainda aqui a de haver passado por um lugar e dele ter guardado uma experiência, geralmente associada a disposições sentimentais que trazem na origem relações amorosas. Há uma dimensão ensaística nestes poemas que não pode ser negligenciada, até pelo percurso académico de um autor que junta no currículo estudos de teatro, literatura, poesia, filosofia. O movimento de quem se desloca no espaço marca o ritmo dos poemas, ora mais curtos, ora mais longos, sempre expurgados de pontuação, desafiando convenções sintácticas e oferecendo às palavras combinações ricas nas suas dimensões plástica e rítmica.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

DO INÍCIO, OUTRA VEZ


I

Foi esta portanto a furtiva impureza que herdámos
sem saber como, este espaço, este canto assim vago,
estes espasmos desmaiados, este tempo, este mundo,
estas arestas, estes pedaços de terra, estes dramas
de inércia e dentes pouco aguçados, os mesmos
rostos rasos ao chão, estes remorsos, estes cafés
onde nos recompomos das derrotas, este modo
de despejar os cinzeiros, estas tardes, este aclarar
da garganta para nada e os rebuçados amarelos
e doces para a tosse, a lucidez, os oscilantes sons
das campainhas, a satisfação ardente dos líquidos
raros, a gradação de intensidade das lâmpadas,
a acidez dos risos, os envelopes bem dobrados,
e os dias sempre os dias outra vez os dias.

II

Certas flores, as mais esfarrapadas.
O vento também. Ou já o disse?
E coisas que ainda não têm nome.
Aquela impressão quando os olhos fecham.
Arriscaria dizer que é de sempre
Este tumulto no pestanejar.

Um dia terei feito as contas à vida. 
Mas julgo que muito se passou atrás das costas.

III

Não nos lembramos bem das canções.
Mas fizemos nosso o seu sussurro obscuro

- será pouco mais que a nossa obrigação.

Em tempos a questão era desmurmurar
os sentimentos, enroscar bem a língua
para saborear todo o amargo e o dormente
e o lento e o cuspo e o abrasivo e o asco.
As gengivas em sangue de tanto remoer.
Chega de tanto.

IV

Tanto mais que nos coube
também a metrologia de coisas instáveis
e de utilidade discutível.

Por exemplo, as nesgas, a palidez granulada da alvorada,
os vários modos de encostar o rosto à almofada e assim
sobreviver ao exílio de vez em quando rindo,
os ímans - ou, mais exactamente, o ponto
indiscernível em que a atracção dos pólos
sossega, por instantes, ou melhor,
em que se fixa no equilíbrio dos contrários
- o recorte dos panos atravessados pela luz
ou as saídas necessariamente de emergência
de um certo quarto onde ouvimos os passos
e nos juntámos à multidão. Os gemidos.

Pois coube-nos a observação das multidões,
também a densidade das esponjas ou o chocalhar
luminoso da face enamorada. Outros elementos,
divisões, categorias.

O verbo que descreve
a antecipação do andamento
que se segue, esse

deslizante verbo

V

A nós coube-nos a desmesura, e as coisas
que nela aprenderemos a incomensurar.

Mais uma razão para termos nos dedos
pontas tão estreitas e tão pouco sábias,
e pálpebras assim, efervescentes.
E tudo isto está ainda por estudar.

VI

Este entrever, este antegosto,
este rosto assim
amachucado entre tantos,
risos até, súbitos
súbitos tambores e sustos,
estes estrondos extenuados
de tão pouco.

Que e fodam os densos mistérios
que a razão nos foi deixando
sobre inumeráveis secretárias.

Temos muito com que nos entreter,
outras penumbras.

VII

Ou nem isso.

Lá se escovam os triunfos anteriores,
meio desbotados, e se reviram os olhos
a custo. Lá se abrem as gavetas
e se colam as visões a cuspo.

Foram-se amontoando futuros.

O que se poderia talvez traduzir
da seguinte forma:

Há zonas de indistinção onde tudo
se joga em mecanismos
de rigor murmurado e eriçado ânimo.
Dobras, vincos.

VIII

Mas talvez nisto haja subtileza a mais.

E que tal assim:
Eis o mundo.
Eis-nos.
Não chegámos a dizer ao que vínhamos.

Somos muitos e por enquanto dispersos.

Antes de mais
e antes do resto.

IX

Coube-nos começar, mas não do princípio.
Coube-nos amarfanhar todos os mapas
(Ainda que os tenhamos desenhado
a canivete, ao de leve, na palma das mãos).

Pelo que o cicatrizar nem sempre ajuda.
Há nisto uma certa poesia, não muito subtil.
E sempre dá algum estremecimento aos apertos de mão.

É mais ranger de dentes que outra coisa,
lançamento de guitas, cordas, fitas
de toda a espécie e alguns ganchos em metal
(de que não se conhece bem o propósito)
para sítios um pouco escuros e adversos.

Quem é que se lembra ainda
para que servem por exemplo os ponteiros
desencontrados nesta armadura de latão?
E por aí fora.

X

Convirá acentuar o quanto é ainda o início.
Um início: a par do riso, a mais discreta,
a mais comum das utopias.


Miguel Cardoso (n. 1976), in Que Se Diga Que Vi Como A Faca Corta (Mariposa Azual, Junho de 2010). «O seu primeiro livro, Que se Diga que Vi como a Faca Corta, remete logo no título para a órbita de Herberto Helder. Todavia, os evidentes pontos de contacto com a escrita do autor de A Faca Não Corta o Fogo – poemas longos; imagens fortes; linguagem ao mesmo tempo obscura e exaltante, densa, visceral – nunca o reduzem à condição de epígono». (José Mário Silva, LER) «Os seus poemas – quase sempre longos, feitos de acumulações, derivas, apartes, coloquialismos, interrupções – são paredes verbais a ir de encontro ao leitor para o derrubar. São uma coisa física». (José Mário Silva, Expresso) «Esta é uma poesia política, que não negligencia o investimento formal, mas que disponibiliza nos seus versos um relatório fragmentário e eficaz de signos reconhecíveis. Estes, embora não sejam representações excessivamente denotativas de certo estado de coisas, formulam quadros de referência que situam os poemas de Miguel Cardoso numa certa forma de entender o seu próprio tempo». (Hugo Pinto Santos, Público)

domingo, 26 de agosto de 2018

LA MALICIOSA


A montanha acompanha-me
como um guia a um cego.
As águas correm num nível baixo
e nada se banha nelas.
A montanha, tal como eu,
aparece e desaparece,
provoca os meus sentidos
e prova a minha distracção.
O manto silvestre é cinzento
e verde de silêncio.
A natureza diz mais sobre mim
do que qualquer coisa que eu possa dizer.
A ausência de pessoas dignifica a paisagem,
vence a história sem medo.
Vim aqui para respirar
dou graças por ter sobrevivido.
A montanha abraça-me,
sem que eu pense que o tempo vai acabar
e começar noutro lugar
menos fértil para os meus sentimentos.
A minha vida casa com a paisagem
feita de pedra e vegetação.
Não preciso que nada mais me convença
do resto ser pura desilusão. 



Marta Chaves (n. 1978), in Varanda de Inverno (Assírio & Alvim, Abril de 2018). Poemas curtos, brevíssimos, por vezes monásticos, noutras ocasiões a lembrarem formas orientais tais como a do haiku, a poesia waka e kanshi. Amiudadamente dirigidos a uma segunda pessoa, nunca concretizam a índole do destinatário. Preferem os espaços em branco como pontuações da ausência, a qual encontra no silêncio seu parceiro ideal. Resvalando por vezes para o aforismo, os poemas de Marta Chaves são fragmentários, questionam a fé, ironizam a realidade, fazem tema da solidão e do absurdo existencial. Um bom exemplo desta capacidade de síntese é o poema intitulado Banquete: «Sento-me sozinha à mesa / e obrigo-me a pensar no absurdo. // Não faço perguntas. / Elas sentam-se a meu lado, / com um à-vontade cruel». O exercício declarado é de procura, a busca de uma iluminação que alivie o ser dos absurdos e dos vazios. Aliviar do vazio preenchendo o silêncio com palavras, eis uma arte poética que traz à superfície as contradições próprias da poesia. Da melancolia nunca escapamos.

terça-feira, 24 de julho de 2018

MEMÓRIA DE UM EXOESQUELETO




era uma cidade escura e infernal
onde a ansiedade existia horizontalmente
como um condomínio
impossível de fugir

de repente abria-se uma janela absoluta
como um sonho dentro do sonho
e tu aparecias no escuro dentro dela
avançavas como o último cigarro
de um condenado destronando
as ruínas da incerteza
até desaparecer

sonhei que escapava
na direcção da tua boca
mas a manhã fazia já uma âncora
dos meus pés

quando acordei tinhas deixado
um lugar vago dentro de mim
e a memória  tão esparsa  e perene  é agora
de uma amplitude inescapável  solidificada
durante o processo da tua evaporação
a melhor prisão que alguma vez construí
para não acordar completamente
(e assim te conseguir libertar)

se te perguntarem podes dizer agora
que sei como o fim se prolonga
antes e depois de acontecer
agora que o dia se desmorona
ninguém me há-de salvar tão cedo
nunca gostei de ser invadido
pelas manhãs e tarde será
sempre

um bom modo
de acabar


José Anjos (n. 1978), in Somos Contemporâneos do Impossível (Abysmo, Dezembro de 2017). Publicou Manual de Instruções Para Desaparecer (Abysmo, Abril de 2015) e Somos Contemporâneos do Impossível (Abysmo, Dezembro de 2017), tendo ficado clara neste último a filiação surrealista. As duas variações em Daniel Faria relevam um diálogo com a contemporaneidade que não passa pela reprodução de modelos consensuais, preferindo-se arriscar o poema num lugar de difícil acesso hermenêutico. Ainda que o sentido pareça esquivo, a organização dos livros indica alguma preocupação com aquilo a que podemos dar o nome de conjuntos temáticos correndo o sério risco de trair a “liberdade livre” de que estes poemas se reclamam herdeiros. A infância, a natureza do poema, o amor, a morte, são temas abordados invariavelmente de um modo conotativo, isto é, recorrendo a uma linguagem imagética povoada de memórias estilhaçadas, derivas imaginárias, observações fantasiosas. Poeta com uma forte ligação aos novos modos de dizer poesia, José Anjos talvez possa ser incluído num grupo algo restrito de poetas que escreve para ser dito. A provocação está em que neste dizer não se intenta a leitura, mantendo abertos os caminhos do sentido com sugestões rítmicas marcadas por disposições vocabulares inesperadas, espaçamentos singulares, rigorosas quebras de verso, uma multiplicidade de possibilidades sintácticas que apenas a respiração do leitor determinará.

domingo, 17 de junho de 2018

AUTO-RETRATO


I - Diário de navegação

Movo-me cintilante com bandarilhas solares entre arenas de pétalas mortas. Pressinto as canetas cravadas e adormecidas.

Arrasto o segredo mineral dos ventos e contemplo o verbo derramado pela raiz. Grito nas veias atrás do sangue para esculpir a cor.

Vou comigo, escapando à loucura, carregado de pólen no papel à sombra do gesto. Aprisiono os sentidos e as vigílias de quem espera a palavra surda.

Apaziguo o corpo numa ruína sedutora onde bebo a areia insone. Fecho as janelas atrás da espuma marítima.

Recordo-me sem saída.


II - Condenação do corpo

Para curar o corpo vibro no vício da memória.
Encosto a sombra no ombro com a certeza duma morte
febril na luminosidade do escrito.

Persigo os versos no desgaste extremo do verso.
No rosto abatem-se os objectos encontrados na maré.
Nunca abandonarei a infância na constelação da manhã.

Reaprendo diariamente o espírito do meu corpo.
Na decifração do dia amadureço a ferrugem no peito,
uma corrosão iridiscente no abandono vigiado da boca.

Pernoito na reclusão cardíaca dos momentos de embarque.
Pertenço a lugar nenhum do estremecimento.
Ao espelho abandono-me no limite das veias.

Meu corpo de rudezas estendidas nos degraus e no crepúsculo.
Meu corpo de icebergues esculpidos pelo sol no regresso inundado.

Na escrita comunico com aquele que ama e demora
na linguagem dos movimentos derramados pelo húmus.



Miguel de Carvalho (n. 1970), in Neste Estabelecimento Não Há Lugares Sentados (2016). Herdeiro da experimentação surrealista, tem composto diversas obras que destacam um encadeamento vitalista e provocatório entre palavra e imagem. São disso exemplo maior as colagens reproduzidas no livro «No princípio não era o verbo» (DSO, Abril de 2015) e o romance-collage, em homenagem a Max Ernst, intitulado «A cidade dos paleólogos e as viagens nocturnas do capitão Dodero» (DSO, Dezembro de 2017), onde coloca em diálogo textos respigados em romances populares do séc. XIX e colagens desafiadoras com imagens de proveniência diversa. O onírico adquire nesses trabalhos uma nova dimensão, trazido à realidade através de representações que lhe captam espantosas associações livres e inesperadas. Cultor do livro-objecto, acerca do qual escreveu o interessante ensaio «Atrás das pálpebras, o sonho abriu os olhos. Tudo estava lá…» (DSO, Novembro de 2014), Miguel de Carvalho levou a cabo várias experiências revelando bom gosto e a absoluta independência editorial através da opção por edições artesanais de circulação restrita. Em Abril de 2016, alguns dos seus poemas anteriormente publicados nessas edições reapareceram, junta a outros, na colectânea «Neste Estabelecimento Não Há Lugares Sentados» (Alambique), composta por duas partes onde, ora em prosa, ora em verso, o acaso e o acidente vislumbram possibilidades de fixação na palavra poética, entendida enquanto «mediação entre uma linguagem verbal e visual». Uma espécie de ode a uma mulher desconhecida introduz-nos num universo íntimo marcado pelo desejo e pela distância, colocando o sujeito poético no lugar do voyeur que se interroga acerca da essência da sua condição de observador. Poesia feita de reflexos, de erupções imagéticas invulgares, num tom por vezes enigmático, noutras ocasiões assaltado por um encantamento proveniente das múltiplas possibilidades de conexão do olhar à realidade.

quarta-feira, 14 de março de 2018

SE AO MENOS A CHUVA


Andava às voltas
no topo de si mesmo
e do monte.
Trepara a encosta
como em pequeno
trepava às árvores:
para ver melhor.

Vivia tão longe da água
que tinha a boca seca.

Agora andava às voltas
cheio de sede
a esgotar-se, a suar.

Porque não paras?,
perguntar-lhe-ia, se pudesse
entrar neste poema.

Não havia nada no cimo de si
nem do monte
— apenas o azul e algumas aves
que respiram mais alto.

A cidade ficava a meio caminho
entre o céu e a terra
(o céu lá para cima, ainda depois do monte,
a terra cá para baixo, um pouco antes da sede).

Ele andava às voltas com a vida:
atirava-lhe pedras, gritava
(se ao menos a chuva! se ao menos a chuva!)
como quem não encontra.

Só mais tarde entendi o que procurava:
um mar.



Filipa Leal (n. 1979), in A Cidade Líquida«Se tivermos em conta aquilo que aparece com a poesia portuguesa mais perto de nós (onde predominam as memórias esparsas, o lirismo difuso, uma certa vulnerabilidade), podemos afirmar sem hesitações que Filipa Leal tem uma personalidade fortemente demarcada. (…) Do ponto de vista do estilo, Filipa Leal utiliza os mais variados procedimentos: há uma sugestão insistente de oralidade (…), um jogo muito sóbrio de usos da metáfora (nenhuma dimensão decorativa ou expressiva, nenhum lirismo derramado), uma distorção permanente da forma habitual das frases (…), um sentido da redundância por vezes semântica (…). Inesperadas enumerações, uso dos parênteses. Ou ainda: castigos, tonturas, despedidas. E ainda frases que se autocorrigem, frases que se desmentem. A insistência no "não"» (Eduardo Prado Coelho, Público, 1 de Dezembro de 2006).