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quarta-feira, 27 de novembro de 2019

A EVIDÊNCIA




Desejaria que nenhuma exaltação
acompanhasse esta frase meus filhos
sentavam-se a ver o mar.

Assim era sem dúvida.
A cada noite chegavam em silêncio
e sem qualquer esforço vinculavam o mar
com a contemplação do mar,
a emoção com os objectos.
E sem dificuldade aceitavam a harmonia
que une os corpos à matéria afectada.

Era fácil saber que do mar
lhes chegava uma prova que nos excluía.
Mas por aqui me fico:
não se trata de encher com vacuidades  
o conhecimento directo.
(Um romantismo antiquado, ou um pouco
de pudor caduco, ainda é tolerável.
A metafísica não.)

Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 362.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

BALADA DO HOMEM QUE SABE



Passam comboios, aviões, gente que leva no bolso
o seu conhecimento empírico.
O cenário, ainda que preso à terra com um tripé, muda rapidamente:
                vai da certeza à dúvida,
                da dúvida
                à dúvida explícita,
                e torna a começar.

Passam comboios, aviões, cidades que só de olhá-las se aceleram,
e o homem compõe o cachecol, sabe que o frio não se
contradiz, que a chuva não tem duas ideias:
                conhece a rua pela agitação,
                o rumo pelo empurrão da estratégia,
                o alimento pela necessidade.
Sabe que o cenário é o único argumento.

Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 370.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

«PALAVRAS PARA EXPLICAR PALAVRAS»




PALAVRAS

Vista daqui, a infância cabe na palavra anona.
A palavra Arminda também serve , além de nome
é o resumo de uma celebração.
A palavra juventude é demasiado eufórica,
mas continua, impetuosa e grave, a salvo de
qualquer caducidade.

Também o meu tio Santiago estava a salvo da caducidade:
          sensatamente a ignorava
          quando aos setenta anos fazia projectos que lhe
                          levariam outros setenta
          e sumariava, como quem ensina,
                          sou eterno, isso é tudo.

Não se trata tanto, então, de juntar palavras como
           significados: a persistência de alguém que por acaso
           seja eu.
Porque quem fará o trabalho, senão eu,
           sabendo que consiste, até à exaustão,
           em continuar a procurar o já procurado?

Mais uma vez
não é repetição:
            o que conta é o gotejar,
            o preço da aprendizagem;
surge então a palavra inconclusa: reclama
            a sua metade,
                           encrespa-se e não vem só.

Daí todo este ruído:
            este excesso de palavras
            para explicar palavras.


Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 368-369.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

UM POEMA DE SANTIAGO SYLVESTER



AS PALAVRAS QUOTIDIANAS

A questão é entender a intenção
das palavras que usamos obcecadamente:
as que o ardina grita,
as que o leiteiro murmura entre os vapores
do amanhecer,
as que rodopiam obsessivamente na cabeça do louco,
as que sem saber o carteiro leva no saco.

São poucas as palavras que sustentam a realidade
e que poderiam destruí-la apenas com a sua ausência;
são as que usamos para explicar a nossa parte do mundo,
as palavras de nossa convicção,
da nossa aposta íntima.

A questão é entender a intenção das palavras,
essa harmonia sem ênfase que se parece ao destino.

Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 361.