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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

MICENAS



MICENAS

As nuvens passam sombrias sobre a pedra
onde em vão se buscam rastos do sangue
que secou para sempre a terra
outrora rica em cavalos.

Por onde passaram os pertences
até ao mar e à guerra
agora um hálito como que de túmulo recém-aberto
sai ao encontro do viajante.

E desde o terraço, se se avista
a áspera e ocre planície,
também se escuta o bronze cintilante  
e o áureo rosto resplandece.

Pura ilusão, nostalgia dos homens
a quem a inteligência sossegou o coração
e já não sabem retesar o arco da vida.


Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 333. Nasceu em Ensenada, província de Buenos Aires, em 1934. Formou-se em Direito. Poeta, ensaísta e tradutor, sobretudo de grego, membro da Academia Argentina de Letras e correspondente da Real Academia Espanhola, estreou-se em 1971 com o livro “Descripción”. Mais tarde acabaria por renegar este primeiro livro, passando a considerar-se “Materia acre” (1974) a sua primeira obra. Recebeu ao longo da vida alguns prémios e distinções, reunindo por duas ocasiões a totalidade do seu trabalho poético. Fortemente marcado pelo imaginário clássico, muita da sua poesia tem como tema central a viagem. Traduziu Odysseas Elytis, Yannis Ritsos, entre outros poetas gregos. Na introdução a “La Casa del Ahorcado” (obra reunida), Pablo Anadón diz que a obra de Castillo combina o intelectualismo girriano com o surrealismo de Enrique Molina e outros, apostando num distanciamento entre o autor e o objecto poético. Dedicou a Alberto Girri um importante ensaio, publicado em 1983. Faleceu em La Plata a 5 de Julho de 2010.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

ORAÇÃO PELA LIBERTAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS


Dedicado a Marçal Tupã-y, cacique guarani nhandewa assassinado em 1983

Parem de podar as minhas folhas e tirar a minha enxada
Basta de afogar as minhas crenças e torar minha raiz
Cessem de arrancar os meus pulmões e sufocar minha razão
Chega de matar minhas cantigas e calar a minha voz.
Não se seca a raiz de quem tem sementes
Espalhadas pela terra pra brotar.
Não se apaga dos avós - rica memória
Veia ancestral: rituais pra se lembrar
Não se aparam largas asas
Que o céu é liberdade
E a fé é encontrá-la.
Rogai por nós, meu pai - Xamã
Pra que o espírito ruim da mata
Não provoque a fraqueza, a miséria e a morte.
Rogai por nós - terra nossa mãe
Pra que essas roupas rotas
E esses homens maus
Se acabem ao toque dos maracás.
Afastai-nos das desgraças, da cachaça e da discórdia,
Ajudai a unidade entre as nações.
Alumiai homens, mulheres e crianças,
Apagai entre os fortes a inveja e a ingratidão.
Dai-nos a luz, fé na vida, nas pajelanças,
Evitai, ó Tupã, a violência e a matança.
Num lugar sagrado junto ao igarapé
Nas noites de luas cheias, ó Marçal, chamai
Os espíritos das rochas pra dançarmos o Toré.
Trazei-nos nas festas da mandioca e pajés
Uma resistência de vida
Após bebermos nossa chicha com fé.
Rogai por nós, ave dos céus
Pra que venham onças, caititus, siriemas e capivaras
Cingir rios Juruena, São Francisco e Paraná.
Cingir até os mares do Atlântico
Porque pacíficos somos, no entanto.
Mostrai nosso caminho feito boto
Alumiai pro futuro nossa estrela
Ajudai a tocar as flautas mágicas
Pra vos cantar uma cantiga de oferenda
Ou dançar num ritual Iamaká.
Rogai por nós, Ave-Xamã
No Nordeste, no Sul toda a manhã
No Amazonas, agreste ou no coração da cunhã.
Rogai por nós, araras, pintados ou tatus
Vinde em nosso encontro
Meu Deus - Nhendiru!
Fazei feliz nossa mintã
Que de barrigas índias vão renascer.
Dai-nos cada dia a esperança
Porque só pedimos terra e paz
Pra nossas pobres - essas ricas crianças.


Eliane Potiguara, brasileira de ascendência indígena potiguara, foi indicada em 2005 para o Projecto Internacional «Mil mulheres para o Prémio Nobel da Paz». Escritora, poetisa e professora, é formada em Letras (Português-Literatura) e Educação. Fundadora do GRUMIN / Grupo Mulher-Educação Indígena, é membro de várias associações: Inbrapi, Nearin, Comité Intertribal, Ashoka (empreendedores sociais), Associação pela Paz, Cónsul de Poetas del Mundo. Trabalhou na ONU, em Genebra, em prol da Declaração Universal dos Direitos Indígenas. Publicou Metade cara, metade máscara (Global Editora) e O coco que guardava a noite. Foi-lhe atribuído o Prémio Pen Club de Inglaterra e do Fundo Livre de Expressão, dos Estados Unidos. In Flauta de Luz - Boletim de Topografia, n.º2, Março de 2014, pp. 71-72. Mais informações sobre Eliane Potiguara: aqui

domingo, 25 de agosto de 2019

QUANDO O AMOR PARECIA MORTO




Quando o amor parecia morto.
Paz na terra.
A morte está sempre a trabalhar.
O amor alimenta a morte?
A morte e o amor
trabalham juntos sem o saberem?

Quando parece haver dor
na morte que trabalha
ou há dor nos trabalhos do amor.
Não dormem o amor, a dor e a morte?

Quando parecia que.
Bestas da memória
farrapos.
A morte não tem farrapos, não morre.
Paz na terra.
O amor derrota a morte
todo o amor
todas as diferentes classes de amor
mas sobretudo o amor inocente.

Quando parecia que o amor
já não trabalhava
ou não alimentava
ou doía ou estava morto.
Subitamente
como daquela vez em que atravessava uma rua
aquela rua inocente
e de súbito soube que era ele
era ele
que era ele quem atravessava a rua.
E como daquela vez
nessa rua inocente
ela chega de súbito
e a dor e a morte
começam a tremer
a tremer
a tremer.

Quando parecia que o amor. Paz
paz na terra
às mulheres de boa vontade.

A luz de um fósforo
pode ocultar a noite
mas toda a noite não pode ocultar
a luz de um inocente fósforo.

Gianni Siccardi (n. Banfield, Buenos Aires, 27 de Setembro de 1933 – m. 29 de Novembro de 2002), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 322-323. Nasceu em Banfield, província de Buenos Aires, no dia 27 de Setembro de 1933. Entre as inúmeras ocupações que desenvolveu ao longo da vida, contam-se as de jornalista e tradutor. Fundou e dirigiu as revistas Juego Rabioso, Baires e Sunda. Com um sentido de humor enraizado no surrealismo, distanciou-se desde cedo do chamado “realismo crítico” praticado por muitos outros poetas da sua geração. No entanto, a ironia nos poemas de Siccardi disfarça o compromisso para com a realidade social através de uma lírica fortemente emotiva. Estreou-se em 1960 com a colectânea “Poesía junta”. Acerca de si mesmo disse: «realizei estudos tão breves como ligeiros, e igualmente proveitosos, quem sabe, de violino, italiano, inglês, alemão, arquitectura, piano, pintura, teatro. E estudos tão sérios e prolongados como ineficazes de canto. Morreu em Novembro de 2002.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

JUAN GELMAN E O EXÍLIO



CITAÇÃO VI (SANTA TERESA)

alma que resfolgas na metade
do pensamento / da vida / como
um cavalo que correu / onde está a ração
que detenha tuas patas loucas? / ânsia

de derramar grandíssimo o amor
para que durma abraçada ao esposo
que treme à aurora contra a sombra
da tua meditação? / flores que cheiras

na macieira do amor crescido
onde as minhas várias almas se perderam
para que almes meu desencarcerado rosto

com ela aberta na metade de si /
beleza de vós enquanto orações
onde madruga em pena o meu silêncio?



Poeta, jornalista, tradutor, Juan Gelman (Buenos Aires, 3 de Maio de 1930 – Cidade do México, 14 de Janeiro de 2014) foi um importante poeta argentino a quem atribuíram em 2007 o Prémio Cervantes. A participação em organizações de guerrilha contra a ditadura levou-o ao exílio, acabando por radicar-se no México. Publicou o primeiro poema com apenas 11 anos, vindo mais tarde a integrar a corrente da “nueva poesia” (1955-1967) fundando o grupo “El pan duro”. Neste grupo militavam jovens poetas comunistas que propunham uma poesia politicamente comprometida. Abandonou o Partido Comunista por volta de 1960, defendendo a luta armada à semelhança do que havia acontecido na Revolução Cubana. Formou então o grupo "Nueva Expresión", dedicando-se ao jornalismo revolucionário. Com Eduardo Galeano esteve na revista “Crisis”. Forçado ao exílio, viu serem sequestrados os seus filhos Eva e Marcelo, assim como a nora, grávida à época, María Claudia Irureta Goyena. Soube através da Igreja Católica que a nora havia dado à luz em cativeiro. Durante este período da ditadura, mais de 30000 pessoas foram dadas como desaparecidas na Argentina. Os restos mortais do filho foram posteriormente encontrados num rio de San Fernando, dentro de um contentor cheio de cimento. A autópsia revelou que tinha sido assassinado com um tiro na nuca. Juan Gelman conseguiu descobrir que a nora foi deslocada para o Uruguai durante o conhecido Plan Cóndor. Escritores como Günter Grass, Darío Fo, José Saramago, exerceram forte pressão internacional para o ajudarem a encontrar a neta, o que aconteceu em 2000. O poema acima transcrito, composto durante o exílio, faz parte de um conjunto de poemas que dialogam com o castelhano do séc. XVI através de citações dos místicos São João da Cruz e Santa Teresa. Gelman referiu-se a eles como uma necessidade de encontrar através da linguagem as raízes profundas de um exilado. Versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 308.

terça-feira, 18 de junho de 2019

ALFREDO VEIRAVÉ



MUITOS ESCRITORES TÊM QUE DEDICAR-SE AO ENSINO PARA SOBREVIVER

Muitos escritores do nosso tempo têm que dedicar-se ao ensino
nos claustros pontificais para sobreviver:
tiram todas as manhãs das gaiolas os grandes pássaros do amanhecer
sacodem-lhes a plumagem negra e põem-lhes grãos de ouro no bico
Queriam poder navegar na marina e entrar no Oceano
ou levar as notícias dos canibais sul-americanos à delicada Florença
mas a sua missão na catequização dos locais é mais
                                                                                           triste:
abrem
e
fecham
os evangelhos carcomidos pela atmosfera salgada
do Oceano e enquanto ensinam a palavra de Deus
«aquele que põe a alma em paz» (dizem), «aquele que organiza o caos»
                                                                                          (abjuram)
sonham com músicos ciganos com actores da Bretanha e para cúmulo
com as belas putas que vivem de rendas nos palácios
                                                                                           de Ayesha
e por cima das Epístolas de Paulo vêem belos cus redondos
(e)
castos que desejam beijar ou morder
nos dias de chuva.


Com uma infância e adolescência passadas na província, tornou-se professor de Literatura Latino Americana na Universidade Nacional do Nordeste. Foi Prémio Nacional de Poesia Leopoldo Lugones. Poeta, ensaísta, crítico literário, exerceu uma forte influência na década de 1950. Foi nessa época que a sua poesia revelou uma forte inflexão na direcção da chamada «antipoesia», tornando os seus poemas mais narrativos, irónicos, abertos a inúmeras e aparentemente contraditórias referências.  Alfredo Veiravé (n. Gualeguay, Entre Ríos, 29 de Março de 1928 – m. Resistencia, Chaco, 22 de Novembro de 1991), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 290-291.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

RAÚL GUSTAVO AGUIRRE



NO FUNDO DOS TEUS DIAS APENAS O AMOR FICARÁ

No fundo dos teus dias apenas o amor ficará.
Quando romperem as pedras, quando estalarem os vidros,
quando apartarem as lentas e piedosas cortinas,
não se verão teus ossos que nada foram,
não lerão teu nome borrado pelos ventos,
não encontrarão teu rosto nas arenas,
mas o amor estará onde tu estiveste,
poderão trazê-lo do fundo dos seus dias,
levantá-lo, pô-lo de pé, levá-lo em andores
por um tempo melhor, de beleza sem fome,
por um tempo de magia, sem penas nem justiça,
como um dia há-de ser o tempo para todos.



Celebrado tradutor de poesia, Raúl Gustavo Aguirre (n. Buenos Aires, Argentina, 2 de Janeiro de 1927 – m. 18 de Janeiro de 1983) fundou a revista Poesía Buenos Aires (30 números publicados entre 1950 e 1960). Revista influente, nela encontramos a colaboração de Edgar Bayley e Mario Trejo, entre muitos outros. Aguirre foi também um importante ensaísta, aproximando-se tanto das teses invencionistas como do criacionismo. Poeta da síntese, coloca em cada palavra um peso muito específico e nada enfático. Foi um aforista exímio que reuniu os seus pensamentos num volume com o título Asteroides. Versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 273.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

FRANCISCO MADARIAGA



CANÇÕES NUMA VIAGEM A CAVALO

1
Os cavalos nascem para amar secretamente como as madrugadas.

2
Os cavaleiros viajam com ponchos de pele de cervos celestes manchados de sangue.

3
Uma dor como o chilreio de um pássaro de água, perdido na imensidão.

4
O amor de um guerreiro cuja lança tem aço de água.

5
O terror de paisagens afundadas com os tesouros do Diabo.

6
Há uma certa água de ouro na imensidão:
apenas  Jesus Cristo e Rimbaud a conheceram.

7
Conservar sempre uma talha dessa água.



Francisco Madariaga nasceu a 9 de Setembro de 1917 na Provincia de Corrientes, vivendo até à adolescência rodeado da Natureza selvagem. Influenciado pelo idioma guarani, manteve forte atracção pelas raízes. Estudou em Buenos Aires, aproximando-se dos surrealistas que publicavam na revista Letra y Línea. Publicou o primeiro livro de poesia em 1954, com o título El pequeño patíbulo. Foi Premio Nacional de Poesía em 2005. A sua poesia é marcada por um forte contraste entre a paisagem selvagem da infância e a mundanidade urbana de Buenos Aires. Versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,  p. 265.

sábado, 27 de abril de 2019

OS PÁSSAROS PERDIDOS




Amo os pássaros perdidos
que retornam do além,
confundindo-se com um céu
que jamais poderei recuperar.

Retomam as memórias,
as jovens horas que ofereci,
e do mar chega um fantasma
feito de coisas que amei e perdi.

Foi tudo um sonho, um sonho que perdemos,
como perdemos os pássaros e o mar,
um sonho breve e antigo como o tempo
que os espelhos não podem espelhar.

Depois tentei perder-te em tantas outras
e todas e aqueloutra eram vós;
logrei por fim aceitar quando um adeus é adeus,
devorou-me a solidão e fomos dois.

Regressam os pássaros nocturnos
que voam cegos sobre o mar,
a noite inteira é um espelho
que me devolve a tua saudade.

Sou apenas um pássaro perdido
que retorna do além
confundindo-se com um céu
que jamais poderá recuperar.


Mario Trejo (n. 13 de Janeiro de 1926, Argentina – m. 14 de Maio de 2012, Buenos Aires, Argentina) , versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,  pp. 229-230. Desconhece-se o local de nascimento, informação que o poeta fazia questão de desprezar. Foi jornalista, argumentista, actor, letrista, participando em vários grupos reunidos em torno de revistas tais como Poesía Buenos Aires (de Edgar Bayley e Raúl Gustavo Aguirre), Contemporánea, Luz y sombra. Relacionou-se nos anos de 1950 com o Grupo de Arte Concreto-Invención. A sua poesia surge caracterizada como detentora de uma ironia que questiona as convenções sociais e políticas, comprometida com diversas causas sem se tornar panfletária. Pájaros Perdidos foi musicado por Astor Piazzolla.

domingo, 7 de abril de 2019

AMANTES NA NOITE




Amamo-nos e desligamos a televisão
como que negando a realidade. Mas o mundo
insiste nas suas convicções ou procura-as
por motivos que ignoramos ou talvez
porque o crime deva continuar seu percurso.
Chegadas de fora, suas insones figuras
pressionam as paredes onde nos refugiámos.
Encarnam no vento, uivos
de pneumáticos e, nas imediações
de todas as coisas, tiroteios
que não resolvem a discórdia universal.
Agora folhas secas acumulam-se
ao pé das janelas e uma carta
de origem desconhecida desliza
por debaixo da porta.
Mas nós florescemos nus a meio da noite
que o amor por sua própria vontade decide
e por ele sabemos como fazer da história
um clamoroso escândalo a que somos alheios.



Joaquín O. Giannuzzi estudou engenharia, mas dedicou-se desde cedo ao jornalismo. Dedicou-se à crítica literária e foi um dos colaboradores da relevante revista Sur, dirigida por Victoria Ocampo. Publicou o primeiro livro em 1958, Nuestros días mortalhes, ao qual foi atribuído o prémio da Sociedad Argentina de Escritores. Existem várias reuniões da sua poesia, a qual surge frequentemente descrita como retrato elíptico da sua época. Fluída, prosaica, próxima do linguajar comum, ocupa-se do quotidiano com extrema austeridade verbal e um certo humor de tonalidades negras. Versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 200.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A REALIDADE E O DESEJO



A Luis Cernuda

A realidade, sim, a realidade,
esse relâmpago do invisível
que em nós revela a solidão de Deus.

É este céu que foge.
É este território adornado pelas borbulhas da morte.
É esta mesa larga à deriva
em que os comensais perduram ataviados pelo prestígio de não estar.
A cada qual seu copo
para medir o vinho que acaba onde começa a sede.
A cada qual seu prato
para acabar com a fome que se extingue sem que jamais seja saciada.
E a divisão do pão aos pares:
o milagre ao contrário, a comunhão somente no impossível.
E no meio do amor,
a queda entre um e outro corpo,
algo semelhante ao batimento sombrio de umas asas que voltam da eternidade,
ao pulso da despedida debaixo da terra.

A realidade, sim, a realidade:
anúncio de encerrado em todas as portas do desejo.

Olga Orozco (n. 17 de Março de 1920, Toay, Argentina – m. 15 de Agosto de 1999, Buenos Aires), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 157.162-163. Estudou na Faculdade de Filosofia e Letras de Buenos Aires, integrando desde cedo o grupo surrealista Terceira Vanguarda. Esteve associada à revista Canto nos anos 40. Foi uma famosa actriz de teatro radiofónico, usando vários pseudónimos na imprensa escrita onde se dedicou à crítica teatral. Nos anos 70, elaborava horóscopos e respondia a consultas sentimentais praticando tarot. Amiga de Pizarnik, de Amelia Biagioni, de Alberto Girri e de Enrique Molina, dedicou-se também à crítica literária e à tradução. Desde lejos (1946) foi o seu primeiro livro.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

WHISKY AND SODA




Levado por circunferências de aço
que rodam sobre complacentes paralelas também de aço
chupo o cilindro, forrado com papel
que contém na ponta iluminadas folhas picadas tostadas
bebo da vasilha de quartzo translúcido
este líquido composto por álcool
misturado com água de onde o gás sobe em pequenas esferas
esgrimo este outro cilindro de madeira com eixo de grafite
aplico-o na plana celulose branca sumamente delgada
elevo finalmente o meu repugnante coração sobre as ondas
da técnica
e consigo dizer amo-te

César Fernández Moreno (n. Buenos Aires, 26 de Novembro de 1919 – m. Paris, 14 de Maio de 1985), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 140. Diplomata de profissão, era filho do poeta Baldomero Fernández Moreno. É um dos nomes mais destacados da chamada Geração de 40, tendo dirigido as revistas Contrapunto, Correspondencia, e integrado o grupo da revista Zona de la poesía americana. O primeiro livro foi Gallo ciego (1940), com prefácio do pai. Colaborou na imprensa escrita como crítico de cinema. A sua poesia revelará algumas inflexões na década de 50, optando por um registo irónico de cunho social. Uma das suas obras mais aclamadas é Argentino hasta la muerte (1963). Fundou e dirigiu a colecção Fontefriada.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

UM POEMA DE RAQUEL SALAS RIVERA


PENETRO

meu braço é o órgão potente da minha feminidade
posso chegar até ao fígado com o meu braço

quando aponto [estando dentro de mim] posso sangrar-me
posso criar um [crac] buraco na minha saúde
por onde sairão líquidos fermentadores
emprenharão o rio com seus
ajustes odoríficas suficiências

agarrajuste dor-madura

desgarrei teu sol de seu segundo centro sombra(terra)
e quando tanto pó-luz far-se-á do mundo
levar-nos-á ao túmulo predilecto e far-nos-á amor
após nos enfiar o dedo do meio como um sinal comum


Raquel Salas Rivera (n. Mayagüez, Porto Rico, 1985) publicou o primeiro livro em 2011: Caneca de anhelos turbios. Fixou-se nos EUA, onde estudou Literatura Comparada. Grande parte da sua obra tem surgido no país de acolhimento em edições bilingue. São disso exemplo os volumes oropel/tinsel (2016), lo terciário/the tertiary (2018), nomeado para o National Book Award, e x/ex/exis (poemas para la nación), vencedor do Ambroggio Prize da Academy of American Poets. É co-editora da revista The Wanderer e poeta laureada da cidade de Filadélfia. O poema acima reproduzido foi copiado do primeiro livro da autora publicado em Portugal: Desdomínios (Douda Correria, Julho de 2019). Sobre esta poesia, diz o tradutor Mariano Alejandro Ribeiro: «Na sua poética, o género deixa de ser uma definição para passar a ser uma questão, uma questão que se estende pelos meandros dos seus versos a temas que vão da política ao amor, em tons mais bucólicos ou em tons mais violentos, sem nunca deixar de estar latente, inclusive nas formas mais inusitadas, a representação do género nas experiências do quotidiano». 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

UM POEMA DE LUIS GARCÍA MONTERO


AS LIÇÕES DA INTIMIDADE

Sei agora que estarás num poema, 
num poema meu,
o último, os versos da neve,
banhados ainda pela luz
que decifra as coisas deste mundo
e pela obscuridade calada dos remos,
para que tu caminhes sobre a água
até chegar ao centro da terra,
nua e decisiva,
atravessando o horizonte
tal como os corredores da casa.

São as lições da intimidade.

O azul mais ferido de setembro,
os castanheiros avermelhados,
a solidão doméstica das fotografias,
a pele dourada
dos aniversários,
o esplendor do céu, dos montes
ao cair da tarde,
dispostos a confessar,
com a mão no ombro
repetem-me
essa verdade de amor que só conhecem
os amantes que foram atraiçoados.

E a vida impõe-se
pela debilidade das suas palavras.
É o que nos ensinam as leis naturais.

Estrangeiro na própria intimidade,
não conhecem o meu nome
nem as margens da plenitude,
nem o cadáver do tempo escondido nas ondas.
Mas entendem a forma dos meus passos
na areia que cai,
se confundo o relógio com o deserto
ou vigio a casa tal como ao horizonte,
e na minha taça de dúvidas cabe o mundo,
e no valor encontro cobardia,
nos olhos a noite com a sua luz
e o coração da criança
numa alma de antigas corrupções.
Porque ali as paisagens são sonhos meditados
para que o horizonte
adormeça no corredor de uma casa.

A intimidade diz-nos que há amores estranhos,
estranhos como um rio sem cidade,
como alongadas noites em que se adivinha
que se torna impossível a traição
uma vez que aprendamos
a perdoar traições e verdades.


Luis García Montero nasceu em Granada no dia 4 de Dezembro de 1958. O poema acima transcrito, incluído no livro A Intimidade da Serpente (2003), foi copiado da antologia As Lições da Intimidade (Abysmo, Maio de 2018), com selecção, apresentação e tradução de Nuno Júdice. Além desse volume, foram contemplados nesta antologia os livros Tristia (1982), O Jardim Estrangeiro (1983), As Flores do Frio (1991), Quartos Separados (1994), Completamente Sexta-Feira (1998), Vista Cansada (2008), Um Inverno Próprio (Considerações) (2011), À Porta Fechada (2017). Sobre esta poesia, diz Nuno Júdice:

   Na sua poesia, Luis García Montero dedica-se a uma procura de olhar o mundo a partir de uma poética que se pretende exacta, utilizando uma captura do real que se pode descrever como fotográfica, no duplo aspecto de imagens tão nítidas como as do híper-realismo norte-americano, ou por vezes esfumadas, no sentido impressionista, quando as contaminam a dor subjectiva de um tempo que passa e o sentimento do prazer ou do desgosto da vida em todos os seus aspectos. O domínio pleno da escrita, natural em quem é igualmente um grande leitor e crítico de poesia, sustenta a precisão dessa forma que, desde o início da sua obra, se converteu em modelo e inspiração para novos poetas em Espanha, e noutros países e continentes, na base desse conceito poético de «poesia da experiência». É sem dúvida um registo marcante dessa década de oitenta, mas seria redutor confiná-lo a essa proposta inovadora das primeiras décadas da Espanha democrática. O que hoje podemos confirmar é o modo coerente como Luis García Montero, a partir desse registo marcado pela sua proximidade ao facto detonador do poema, prosseguiu uma reflexão sobre o jogo de antinomia entre a memória e o presente

As Lições da Intimidade é um exemplo entre muitos do interesse dos editores portugueses pela poesia publicada em Espanha, ao qual podemos juntar este ano Coração Desabitado (Averno, Maio), de Amalia Bautista, Privilégio de Penumbra (Abysmo, Junho), de Felipe Benítez Reyes, ou A Vida em Chamas (Língua Morta, Abril), de Luis Alberto de Cuenca.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

UM POEMA DE EDGAR BAYLEY



É INFINITA ESTA RIQUEZA ABANDONADA

É infinita esta riqueza abandonada
esta mão não é a mão nem a pele da tua alegria
ao fundo das ruas encontras sempre outro céu
após o céu há sempre outra erva praias distintas
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
nunca julgues que a espuma da aurora se extinguiu
depois do rosto há outro rosto
após a marcha do teu amante há outra marcha
após o canto um novo toque se prolonga
e as madrugadas escondem abecedários inauditos ilhas remotas
sempre assim será
por vezes o sonho crê ter dito tudo
mas outro sonho se levanta e não é o mesmo
então voltas as mãos para os corações de todos
de qualquer um
não és o mesmo não são os mesmos
outros conhecem a palavra tu ignora-la
outros sabem esquecer os feitos desnecessários
e levantam o polegar esqueceram
tu hás-de regressar não importa teu fracasso
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
e cada gesto cada forma de amor ou de censura
entre o riso derradeiro a dor e os começos
encontrará o vento acre e as estrelas vencidas
uma máscara de bétula pressagia a visão
quiseste ver
no fundo do dia algumas vezes o conseguiste
o rio chega aos deuses
murmúrios distantes erguem-se à claridade do sol
ameaças
frio resplendor

nada esperas
a não ser a rota do sol e da pena
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada


Edgar Bayley (n. Buenos Aires, Argentina, 1919 - idem, 1990), in Antología - La poesía del siglo XX en Argentina, Edición de Marta Ferrari, La Estafeta del Viento, Colección Visor de Poesía, dirigida por Luis García Montero y Jesús García Sánchez, 2010, pp. 121-122. Versão de HMBF. 

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

UM POEMA DE ALBERTO GIRRI



O POEMA ENQUANTO IDEIA DE POESIA

   Que a finalidade
seja provocar o sentimento
das palavras,
      e alcançar
o desafio da expressão,
perseguir temas
que se ajustem ao sentimento,
afundar-se nos temas
até à emoção adequada,
       está provado,
e tanto, experimentado e testado,
como não está
que nesses trânsitos
a tendência mãe seja
por onde vai a inspiração,
       «se fria ou quente»,
e não está
que tenhamos de seguir Homero
entre as Musas, rogando que o ajudem,
        e Platão
saudando belos versos
mais que medíocres mas iluminados
sagazes e hábeis exclusivamente
para proveito de suas próprias forças,
        e Dante, reclamando
a intervenção de deuses
porventura sem neles acreditar:
         O buono Apollo, all’ultimo lavoro
fammi del tuo valor…
Mas também nenhuma
prova categórica garante o oposto,
          que o poema
seja conduzido na mente como uma
experiência das ciências naturais
          e que a aptidão
combinatória da mente seja
a única inspiração reconhecível.


Alberto Girri (n. Buenos Aires, Argentina, 27 de Novembro de 1919 - m. idem, 16 de Novembro de 1991), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,pp. 112-113.