terça-feira, 17 de fevereiro de 2004

PERCURSOS

A: Os percursos fazem-se de mão dada. Antes de atravessares a estrada, não te esqueças de olhar para um lado e, depois, para o outro. Lembra-te: há estradas que são tão fundas quanto os rios. B: Vínhamos do açude, onde era costume tomarmos banho em dias de calor. Pelo caminho, roubávamos maçãs das macieiras que ladeavam os carreiros. Brincávamos aos pais e às mães no milheiral. Fumávamos barba de milho calcada em carrinhos de linha. Íamos para a escola, se bem me lembro. Uma pancada de um lado, uma pancada do outro e uma terceira... definitiva. O cão ainda se arrastou até aos meus pés. Sangrava pelos cantos da boca, tinha um olhar de morte. Foi a primeira vez que vi a morte. O tempo parou, caiu num silêncio branco. Mas foi nesse parar que a consciência do fim pariu uma forma de ver o mundo. Esta forma. Há um frémito de futuro nestas imagens do passado, o saber que na morte nasceu uma maneira de ver a vida que à morte há-de um dia regressar. C: Aquilo em que acreditamos basta para que possamos construir a nossa verdade do mundo. A minha verdade é esta: a matéria é tudo. O pensamento é tão matéria quanto a rocha. Ser é ter uma espécie de vida, seja ela qual for. Porque a vida é o tempo de, rasgada a pele, chegar o sangue. E chegado o sangue, fazer-se pústula. E debaixo da pústula surdir a pele renovada. A ser alguma coisa, a morte é apenas um artifício de Deus, o Deus-ideia que, tal como poetizava Ruy Belo, serve para pouco mais do que dar o nome de divinas a algumas coisas como o mar. A morte é um chamamento para cima, o fantasma que se mostra às crianças para que elas evitem tocar no açúcar. O açúcar da vida. Por isso a matéria vive e, na podridão, borbulha a vida e vive a própria podridão. Por isso tudo sobrevive a uma vida: o tempo de, rasgada a pele, o sangue chegar.

sexta-feira, 1 de agosto de 2003

SÃO MARTINHO DO PORTO


Em São Martinho do Porto comecei a nascer pela segunda vez. Já nessa altura a Casa das Palmeiras fora destinada a transformar-se num bloco de apartamentos; os elogios à baía predilecta de Rei D. Carlos haviam sido substituídos pelas críticas amarguradas de Eduardo Prado Coelho; os banhos termais das Caldas da Rainha tinham dado lugar a discussões políticas intermináveis; e o gosto pela enseada das famílias nobres e ilustres - como, por exemplo, os marqueses de Rio Maior (onde nasci) - há muito fora traído pelas piscinas algarvias.



Só o nevoeiro, o microclima, permanece como elo inexpugnável de uma terra com a sua história. Porque São Martinho do Porto, como a maioria dos lugares, não resistiu à fome dos homens e, com o tempo, perdeu o que de mais importante o tempo nos come: a alma. Seja como for, foi por ali que eu comecei a nascer... pela segunda vez.



Subo a duna de Salir e sigo, por carreiros facilmente rastreados, até à quebrada de São Romeu. Ainda logro algum silêncio, a paz marítima do outro lado da cimentada civilização. Espero que o sol caia e a respiração se recomponha. Depois regresso a casa, bebo uma cerveja, articulo umas palavras. Escrevo sobre o assunto:

SÃO MARTINHO DO PORTOINCOMPLETO

as constelações emanam estranhos perfumes
contemplo a luz magoada da lua

evado-me na ciranda do álcool
compareço ao âmago de faca na mão

perscruto o elixir das lágrimas indistintas
feéricas sombras acasalam nas barcas

fico prisioneiro de uma prosa de poeta
se a deus desse o corpo ao diabo roubaria a alma

in antologia do esquecimento, 2003

quinta-feira, 1 de maio de 2003

ANTOLOGIA DO ESQUECIMENTO


Antologia do Esquecimento
Desenhos do autor e de Joaquim Rocha
Edição de Autor
Maio de 2003

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Herberto Helder

sábado, 1 de julho de 2000

ENTRE O DIA E A NOITE HÁ SEMPRE UM SOL QUE SE PÕE


Entre o Dia e a Noite Há Sempre um Sol que se Põe
Desenhos de capa e interior do autor
Edição de Autor
Julho de 2000

Nada mais existe, nada mais tem importância,
para quem viu a treva nos intervalos das coisas.
Jorge de Sena

segunda-feira, 1 de setembro de 1997

NEOMÉNIA seguido de OUTROS EXORCISMOS


Neoménia seguido de Outros Exorcismos
Associação Cultura Jovem
Setembro de 1997

Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
e até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.
Álvaro de Campos

sábado, 18 de março de 1995

DA POESIA


Da Poesia
Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea
Volume I
Coordenação de Ângelo Rodrigues
Editorial Minerva
Março de 1995

Elegia do Momento (devido a erro de impressão, deve ler-se da p. 94 para a p. 93)