Confesso ter sido este o meu primeiro contacto com a poesia de Manuel Afonso Costa (n. 1949), que, segundo me foi possível saber, publicou apenas um outro livro de poesia, intitulado Os Limites da Obscuridade (Caminho, 1991). Note-se que, a serem verdadeiros os dados disponíveis, do primeiro para o segundo livro vai um hiato de treze anos. Não sabemos quais as razões que motivaram tal suposto silêncio nem nos interessa especular sobre o assunto, mas não deixa de ser um facto curioso de assinalar. Os Últimos Lugares está organizado em três secções que permitem adivinhar um nexo sequencial, ainda que, arriscamos, esse nexo possa ser mais uma consequência duma possível construção de sentido para o leitor do que uma elaboração previamente definida. Assim, na primeira secção encontramos uma espécie de introdução àquele que nos parece ser o problema essencialmente versificado neste livro: a construção de um lugar fora do território das coisas físicas, um lugar para os mortos e para aquilo que aparentemente se perde no «irremediável devir». Onde situar, então, esse derradeiro lugar? Talvez nessa linha dúbia que separa a memória do esquecimento, porque «através do esquecimento / os mortos são sombra iluminada» (p. 20). Assim como «as folhas agitadas pelo vento / procuram um lugar» (p. 25), também nós, no confronto com a morte, o procuramos, para nós e para os outros que por nós vão passando. Observemos «o tempo a passar como um réptil nesses lugares / onde confluem passos e memórias e cigarros» (p. 24) e apercebamo-nos de que o lugar que nos espera é um lugar mobilado pelo passado e por escassas memórias. (Cf. p. 29) Traçam-se, desta forma, as fronteiras desses «últimos lugares», lugares íntimos, lugares de memória, lugares que não deixam morrer. Na segunda secção deste livro, parece consolidar-se essa ideia da memória como lugar de conservação da vida, porque há uma outra morte que não «esta morte terrestre» e «há uma outra terra que é na terra das tuas / veias a promessa de uma luz inteira.» (p. 36) Torna-se-nos assim claro que o esquecimento pode ter vários caminhos, pode transformar-se numa espécie de esquecimento lembrado se o seu lugar for, por exemplo, um poema. Os poemas da última secção deste livro, intitulada Os trabalhos e os dias, são, por isso mesmo, poemas repletos de memória, poemas «com pessoas lá dentro». Essas pessoas podem ser a mãe, o pai, a avó materna do poeta, ou uma mulher que vendia peixe. Mas eles são também poemas polvilhados de imagens passadas, como a imagem de dois corpos à beira do desejo. São, enfim, poemas que lançam «com paixão as sementes para a terra», para essa terra que há pouco mencionávamos, tal como «o pai lançava com paixão as sementes para a terra». (p. 58) Porque há uma espécie de "fatalidade" na memória.
terça-feira, 26 de outubro de 2004
PIPA CLUB
Ninguém consegue controlar o que os outros pensam de si. Nem vale a pena o esforço. É impossível determinarmos a forma como os outros nos olham. Ponto final, parágrafo.Há pessoas para as quais a nossa indiferença se transforma numa prova espantosa de amizade. Por outro lado, muitas vezes trabalhamos os nossos comportamentos tendo em vista a estima de alguém que admiramos e o retorno que recebemos do nosso esforço é a mais cruel das antipatias. É a mais inviolável das leis da vida: não podemos controlar aquilo que os outros pensam e nós. Podemos ser o mais autênticos possível, podemos ser espontâneos, podemos ser nós próprios - mesmo não sabendo aquilo que somos (uma pessoa só é ela própria se não souber aquilo que é) -, e, no entanto, aquilo que os outros pensam de nós pode ficar a milhas do que somos na realidade. Por mais que matutasse, nunca consegui perceber por que inextricável razão o porteiro do Pipa Club não ia com a minha cara. Remoinhei a mioleira vezes sem conta, à procura de razões que justificassem a sua clara falta de afeição. Perscrutei afincadamente as causas daquele rancor. Digo rancor, porque assim me parecia. Mas nem sei se era rancor. Como pode alguém saber o que está por detrás do carácter manifestado por um indivíduo? Talvez ele soubesse de alguma coisa sobre mim que eu próprio desconhecia. A verdade é esta: nunca fui capaz de o interrogar sobre isso. Há pessoas que se curvam e recurvam pela consideração dos outros. Eu sou demasiado orgulhoso. Não consigo ter esse tipo e comportamentos. Só sei que somos um repertório infindável de apetrechadas conjecturas. Julgamos os outros permanentemente na base de presunções sem qualquer tipo de fundamento. Ou porque ouvimos dizer que, ou porque nos disseram que, ou porque alguém disse a alguém que, ou porque isto, aquilo, assim, aqueloutro. Resolvi não mais pensar no assunto. Nem valia a pena o esforço. Era impossível. Até que ontem regressei ao Pipa Club e verifiquei que o porteiro era outro. Mandava a lógica das probabilidades que este agora me deixasse entrar e fosse muito simpático e me cumprimentasse com maior ou menor parcimónia. Falso. Manda a lógica que em assuntos de benquerença não haja lógica alguma. O meu amigo M. diz que é da Química. Por mim até pode ser da Física. Mas é lei: o que os outros pensam/sentem de nós é uma coisa, e isso nós não podemos controlar; o que nós somos nem sempre concorda com o que alguns-outros possam pensar a nosso respeito e, a bem da coerência, jamais deverá ser trabalhado em função disso. Isto se o que nós somos pode ser trabalhado. Pois foi dado ao homem o poder de trabalhar ao espelho os rostos de cada dia, mas ainda não lhe foi possibilitado trabalhar a sua natureza por dentro.
sexta-feira, 22 de outubro de 2004
Migrações do Fogo
Apesar de ter publicado o primeiro livro apenas em 1990 (Dois Sóis, A Rosa – a arquitectura do mundo), Manuel Gusmão (n. 1945) é hoje por muitos considerado uma das vozes mais importantes da poesia portuguesa contemporânea. Não que isso importe, mas o facto é que a maturidade da sua poesia tem muito mais a ver com os poetas da sua geração (António Franco Alexandre ou Joaquim Manuel Magalhães, só para dar dois exemplos) do que com as diversas vozes poéticas que vieram à tona na década de 90 do século passado. Para o caso, esta discussão é ainda mais irrelevante porque a poesia de Manuel Gusmão caracteriza-se, desde logo, por uma “intemporalidade” que a coloca acima de qualquer classificação canónica que toda a grande poesia dispensa. Olhando para o título deste seu mais recente livro, Migrações do Fogo, vêm-nos inicialmente à ideia a noção de um movimento cíclico. Talvez não seja de todo descabido pensarmos no conceito nietzscheniano de eterno Retorno: um ciclo onde tudo volta, onde o Mesmo volta; e que volta ao mesmo. «Tudo parece ter outra vez começado. (...) // Recomeçou: retrocedendo, internou-se outra vez / no poema (...).» (p. 11) Assim escreve Manuel Gusmão no primeiro poema - Como Coisas Caindo -, da primeira parte - Alguém Perdendo-se – das três que compõem Migrações do Fogo. As restantes partes, intitulou-as o poeta de Na Noite Das Imagens e Canção Última. Importa saber então a que se refere o poeta quando fala de um fogo que migra: à poesia, à memória, ao amor, à vida, ao próprio tempo? Provavelmente refere-se à «incessante migração das formas do mundo» (p. 34). Por «formas do mundo» entende-se, principalmente, as imagens que povoam os poemas - «estranhas esculturas do tempo» (p. 39). Temos assim que o tempo é o movimento das imagens, o «ritmo cego que não enlaça já ninguém» (p. 26) mas guia aquele que escreve. Daí a recorrência às metáforas do cinema e da música, das imagens em movimento, mas também à noção de labirinto: «O migrante: é ele o labirinto.» (p. 33) Talvez o labirinto possa ser encarado como a história do mundo, sendo que aí o homem ocuparia o papel de «migrante de si mesmo: aquele que perdendo-se continua. / aquele que continua a construir o labirinto // das grandes migrações; o antiquíssimo livro do exílio // em que de si e dos seus se vai perdendo.» (p. 87) Desta forma, os poemas serão como que pequenos filmes que recolhem as imagens, as vivênicas, a experiência, a história do mundo que somos nós. Voltamos ao conceito de eterno Retorno, no sentido em que Deleuze o interpretou: o voltar é a forma original do Mesmo, que apenas se diz do diverso, do múltiplo, do devir. O Mesmo não volta, é o voltar apenas que é o Mesmo daquilo que devém. Ou seja, a essência da história é esse «retorno» sem origem, entendido como movimento perpétuo, contínuo, das coisas do mundo, do poema. «Eu defendo que a poesia é também uma forma de pensamento.» - declarou Manuel Gusmão numa entrevista à revista LER (n.º 54, 2002). De facto, encontramos nesta poesia uma atitude reflexiva que nos impele para um trabalho hermenêutico de índole filosófica. Temos aqui, talvez, uma espécie de fenomenologia do tempo. Porém, mais do que reflectirem o tempo, estes poemas – e, podemos arriscar, toda a poesia deste poeta – são um reflexo da essência do tempo, captando os seus movimentos e racionalizando-os numa pluralidade de perspectivas. Por detrás de uma estética, esta poesia de Manuel Gusmão esconde também uma ética, uma espécie de último folgo humanista que nos remete de novo para a ideia de apenas ao homem caber a sua própria salvação: «Finita e imortal, tu sabes: é a imperfeita perfeição dos corpos / a matéria imemorial que inventou a música ou o amor. / Paga o preço ao espírito, inventa um deus se te perdeste / no mercado e chegaste atrasado ao encontro, // mas não esqueças longa e leve a dança da luz nos corpos / graves. Só eles caindo conhecem a queda que voa. (...) // Paga, paga a morte que vem, para que venha / e não se atrase.» (p. 32) Fica, então, entre outras, uma ideia final: a de que enquanto vamos caindo na direcção da morte, há imagens que passam, partem e tornam a passar por nós, imagens que vão pasando, como num filme, tornando a vida apenas inteligível a partir de uma noção de movimento, noção essa fundadora da própria essência do mundo. Origem sem origem, nascimento e destruição, assim nos é apresentado o mundo na poesia de Manuel Gusmão. Porque tudo o que é, não é estático, vai sendo. A complexidade desta poesia exige, de facto, uma predisposição que nem todo o leitor terá. Porém, não será difícil encontrar, aqui e acolá, poemas cuja força plástica e metafórica poderão cativar mesmo o leitor mais carente de “coisas simples”.
segunda-feira, 11 de outubro de 2004
Sobretudo as vozes
No N.º I da revista Telhados de Vidro (Averno, Novembro de 2003), Silvina Rodrigues Lopes (1950) publicou um pequeno ensaio intitulado A Anomalia Poética. Nele podia ler-se o seguinte: «A poesia lê-se sem ajuda de “especialistas”, e isso em nada contradiz o facto de haver nela uma memória antiquíssima e um pensamento da poiesis e da linguagem, os quais, dada a continuidade linguagem-mundo, ou linguagem-formas-de-vida, não só não podem ser circunscritos, como implicam em simultâneo o desdobrar do pensamento (de muitas maneiras e em muitas direcções), as sensações, percepções e afectos, conscientes e inconscientes.» É precisamente esse desdobramento, entendido como um desafio, que a poesia de Silvina Rodrigues Lopes nos propõe. O conjunto de textos que compõem Sobretudo as vozes, começa por ser inclassificável logo na forma. Dizemo-lo de poemas, por vir «até nós, obscuro e transparente, como o espírito, a inquietação.» (p. 15) Podíamos também falar de aforismos ou pequenos poemas em prosa. Mas não me parece que qualquer tipo de classificação possa delimitar, com maior ou menor pertinência, o campo de acção desta escrita que vale, principalmente, pela força com que procura «negar evidências» (p. 40). O acto de escrever começa por explicar-se a si próprio como um chamamento do desconhecido: «é não sei de onde que agora ouço erguer-se esta voz.» (p. 7) No seu desenvolvimento, ele aparece como construção de um lugar habitável: «Ouço e escavo as palavras até serem casas.» (p. 13) Recordemos, então, a supracitada perspectiva continuista, da relação entre linguagem e mundo, que a autora tem defendido. Repare-se que por continuidade não se deve entender identificação ou uniformaidade: «Em cada palavra, em cada troca, a garra da desigualdade crava-se fundo. Altera a circulação. A vida é morte.» (p. 20) Essa desigualdade inexorável entre linguagem e mundo, acarreta riscos: «É grande o perigo de auscultar as palavras.» (p. 59) E talvez o maior risco seja mesmo o de entender, finalmente, que «as palavras que se recusam a ser como eu. Partem-se. E avisam: não colar os bocados, dão choque.» (p. 62) Dito isto, torna-se claro que a experiência poética só pode ser uma experiência do incerto, uma experiência-limite que terá por sobreviventes as vozes que daí advêm, quais rostos que assinam o ser em todos os seus meandros possíveis. Sobretudo as vozes é um livro que contagia, precisamente, por nele se erigir uma voz livre que se aplica em nos lembrar que «há o selo da eternidade em cada instante.» (p. 31) Nele se encontra uma espécie de ontologia, onde o ser das coisas respira no ser da palavra, ou seja, no ser daquilo que nomeia as coisas. Talvez seja nesse lugar de encontro entre a coisa e o nome que a nomeia, talvez seja nesse lugar irreconhecível e indizível, longe «do estar aqui, que é o nosso viver» (p. 34), talvez seja nesse lugar “ilógico”, poético, diverso, talvez seja aí que morem as vozes de cada um de nós.
terça-feira, 5 de outubro de 2004
Berçário
A colecção Uma Existência de Papel, das Quasi Edições, tem vindo a crescer na rota de uma das mais importantes colecções de poesia portuguesa. Essa importância advém não apenas do facto de ali encontrarem morada novos poetas portugueses (Vasco Gato, Rui Lage, Pedro Sena-Lino, José Rui Teixeira), ombro a ombro com alguns consagrados (José Régio, António Ramos Rosa, Fiama Hasse Pais Brandão, Ana Hatherly), mas também da criteriosa selecção editorial que deixa perceber uma forte inclinação por vozes mais nostálgicas e metafóricas. Se as tendências que uma colecção denota não determinam, por si só, a topografia sentimental de um livro que dessa colecção faça parte, elas servem, mais que não seja, como princípio de um possível enquadramento territorial desse livro, ainda que sob risco de uma tipificação redutora e preconceituosa. Berçário, o segundo livro de Rui Lage (1975), parece-me um óptimo exemplar dessa poesia mais permeável à fulguração de corpulentas imagens do ponto de vista metafórico: «A pele é um passeio breve / sob a lã do firmamento / desde o rio subindo / desde o prado descendo.» (p. 24) Mas o que realmente espanta nestes poemas é o domínio rítmico, cuja natureza deve-se, provavelmente, quer a um depurado trabalho da linguagem, quer à espontaneidade de uma respiração que logra transfigurar os significantes mais comuns intensificando-lhes o sentido: «Numa mão a enxada / na outra o violino. / Ao fim do dia o violino pesa / tremendamente, / a enxada repousa magoada de terra, / guardada pelos ninhos debruçados / sobre a luz da manhã.» (p. 37) Refira-se, então, que estamos num campo afectivo que seduz pela forma como arrisca na irredutibilidade da memória a uma mera descrição do passado. Tal como o título deste conjunto de poemas indica, retoma-se aqui o tempo perdido, as origens, a primeira infância, num conjunto de imagens que rejeitam totalmente uma cristalização do tempo: «Oxalá se perdesse, a memória, / atrás de alguma colina, mas ei-la / de novo, servil como um pequeno cão de rua, / roçando-se de encontro / aos meus joelhos.» (p. 60). Podemos assim concluir que Berçário tem para nos oferecer um conjunto de poemas que nos situam naquele lugar onde o ritmo, a respiração, assenta numa musicalidade que revela a verdade de um sentir, de uma certa forma de sentir. Essa certa forma de sentir exige do leitor uma certa predisposição, sem a qual, parece-me, torna-se difícil captar-lhe «o peso incerto do coração».
terça-feira, 21 de setembro de 2004
Longe do Mundo
Alguns dos momentos mais ricos da poesia portuguesa devem-se, a meu ver, a autores cuja singularidade desfaz, pela raiz, todos os cânones construídos. É claro que uma identidade mais individual exige um preço a pagar. Há quem lhe chame marginalidade, outros falam de ostracismo. Dependerá dos pontos de vista com que se abordem estas questões. Pessoalmente, agrada-me o termo liberdade. Repare-se no caso do poeta Fallorca: nascido em 1949, viria a publicar o primeiro livro – Imitação da Morte dos Outros – no ano da graça de 1976; seguiram-se-lhe outros títulos, poucos, e praticamente toda uma década de 90 sem publicar; em 2001, a editora Frenesi recolheu-lhe a obra, em «versão (quase) original», no volume Fruta da Época; desde então, tem dado à estampa novos títulos todos os anos, entre os quais Longe do Mundo (Maio de 2004). Percurso especial, pois então, “quase” tão inaudito quanto me parece ser a sua poesia. Longe do Mundo está organizado em três partes - Memória Descritiva, A Cegueira do Levante e Sueste -, sendo que a segunda parte subdivide-se noutra tantas três secções - Longe do mundo, Conferência do vento e Antes da chuva. É importante referi-lo pela heterogeneidade que cada uma das partes confere ao todo e, também, pelo facto do livro levar o título de uma das secções da segunda parte. Memória Descritiva é um conjunto de poemas escritos em registo íntimo, que não direi confessional apenas por o poeta “confessar” que «gostaria que o tom fosse considerado como um desabafo, e / não confessional.» (p. 16) Nestes poemas, alguns bastante curiosos, até pela ruptura com um colorido algo hermético que se lhe conhece de outros livros, tudo se torna explícito, numa atitude de exame de consciência que tem na autocrítica e na ironia as suas características mais evidentes: «O meu olhar ocupou-se sempre muito mais com a linha do / horizonte, e não me lembro de levantar ou baixar os olhos. / Desconheço e, francamente, não me interessa o destino do / pai. / Como nunca me preocupou a origem de Deus. / Este autismo – ou ignorância, que me tem oposto a con- / ceituadas arrogâncias – alimenta-me a vagabundice intelectual. / Liberdade que nunca consentiria trocar por qualquer espe- / cialização. / Ou insónia.» (p. 15) São poemas apaixonados e sobre paixões que, em primeira instância, permitem um enquadramento mais fidedigno da matéria que se segue. As segunda e terceira partes de Longe do Mundo, são substancialmente diferentes, na forma e no conteúdo, da primeira. Nota-se-lhes o pendor imagético, traçado nos limites da vivência dos lugares - «ilhas da memória» - e das paisagens: «Nenhuma paria é suficientemente grande para me devolver / o mar.» (p. 65); assim como o carácter íntimo da escrita e as suas condicionantes: «Os melhores textos foram os que me ocorreram / durante o sono, e não me levantei para os escrever. Porque o / tempo é como as plantas: quanto mais atenção lhes damos, / mais depressa crescem e devoram o espaço de quem as trata.» (p. 91) De referir, por fim, uma espécie de crença no poder da memória sobre o esquecimento que, a bem dizer, nunca é propriamente assumida, mas saboreia-se em alguns tragos finais: «Ninguém nasce ou morre à hora da sesta, / só a memória vigia os trilhos por onde um dia a morte virá como um vagabundo sequioso, / enquanto puxamos o balde cabisbaixos e a corda nos sulca as mãos envelhecidas.» (p. 109) Longe do Mundo é, em minha opinião, o mais belo livro de Jorge Fallorca – poeta de grande valor, estranhamente ou talvez não, pouco reconhecido – e é também, sem dúvida, um dos livros de poesia portuguesa indispensáveis deste ano.
sexta-feira, 18 de junho de 2004
CEREJAS
Cerejas
poemas de amor de autores portugueses contemporâneos
Selecção e organização de Gonçalo Salvado e Maria João Fernandes
Abertura de Eduardo Lourenço
Posfácio de António Ramos Rosa
Editorial Tágide / Câmara Municipal do Fundão
Junho de 2004
Os samurais, p. 203; Cais, p. 204.
O VAGABUNDO DO DHARMA
Han-Shan chega a Portugal numa belíssima edição da Cavalo de Ferro, com tradução de Ana Hatherly. É importante começar por realçar o extremo e inquestionável gosto estético desta edição que faz acompanhar o original de cada poema, à semelhança do que acontecia na edição francesa, por uma versão em caracteres modernos, uma tradução literal e uma versão poética. Dado o carácter aberto e subjectivo da tradução, torna-se quase irresistível ao leitor arriscar a sua própria construção do poema como se de um lego se tratasse. Ana Hatherly, no prefácio, fala justamente do acto de traduzir estes poemas como uma "re-invenção" ou uma "reciclagem". Estamos, portanto, não apenas perante um mero livro, no sentido convencional, mas também perante a possibilidade de transformar a leitura numa espécie de jogo poético. Não se sabem ao certo muitos dados biográficos acerca deste poeta chinês, cuja vida inspirou ao longo dos séculos imensas histórias tão lendárias quão verosímeis. No prefácio à edição francesa dos "25 poemas de Han-Shan" (1974), da responsabilidade de Jacques Pimpaneau, refere-se a probabilidade de ter vivido no século VII, mas há quem o situe entre os anos de 630 e 830. Poeta eremita da dinastia Tang, foi ganhando com o tempo a fama de indivíduo excêntrico, louco asceta, espírito rebelde. Em suma, um espírito livre. E é precisamente esse espírito independente o que mais se reflecte na sua poesia: "Não desejo o caminho do mundo / Sua paixão não me atrai". Porém, talvez não seja má ideia começarmos por enquadrar a sua poesia no significado que terá tido no ocidente. O século passado foi profícuo em vanguardas literárias e artísticas que se estruturaram a partir de alicerces legados pelas mitologias ancestrais. Estou em crer que uma compreensão mais profunda de certas correntes literárias não pode deixar na penumbra tais aspectos, estejam eles mais ou menos evidenciados nas obras dos autores que constituíram esses mesmos movimentos. Tome-se, a título de exemplo, o surrealismo. Será possível compreendê-lo nas suas profundezas sem pensar o quão impregnado está dos mais diversos misticismos, hermetismos e mitologias? Julgo que não. Vejam-se as obras de Artaud, António Maria Lisboa, no caso português, ou, noutro contexto expressivo, Max Ernst. Está nelas presente todo um universo simbólico, linguístico e metafísico que remete directamente para um passado longínquo, repleto de imagens e conceitos mitológicos. Outro exemplo paradigmático é o da "beat generation", fulgurante em meados do século passado nos Estados Unidos da América do Norte, de onde saíram escritores como Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Neal Cassady. Encontramos nessa geração de escritores toda uma atitude Zen que virá a desembocar na subcultura "hippy", no culto da liberdade e do despojamento material. Se foi o tradutor inglês Arthur Waley quem introduziu no ocidente o poeta chinês Han-Shan, terá sido Gary Snyder, um outro "beatnick" famoso, quem mais se deixou por ele impressionar, levando-o à letra na sua própria vida. Tal como não me parece possível compreender com profundidade o surrealismo sem o perspectivar na reforma de uma herança mitológica, também me parece difícil penetrar nos verdadeiros motivos da "beat generation" omitindo o papel fulcral que o Budismo Zen aí terá representado. Será precisamente neste universo criativo que a voz de Han-Shan mais ecoará a ocidente. Se ontologicamente não anda muito distante dos princípios confucionistas, esteticamente terá sido assaz revolucionário para a época. Percebe-se na sua poesia, obviamente por via da tradução aqui levada a cabo, uma linguagem descomplexada e livre: "Meu coração lua de Outono / Verde lago brilhante imaculado puro". Porém, o que mais impressiona é como todo um conjunto de imagens, por vezes quotidianas, se interpenetra com uma reflexão sobre a essencialidade das coisas vividas: "Hoje meditei numa distante falésia / Depois de muito tempo bruma e nuvens retiram-se // Um só caminho: o curso da fria água clara / Ao longe o cimo dos montes verdejantes // Calma a sombra matinal das nuvens brancas / A luz do luar brilhante flutua // No meu corpo não há pó nem sujidade / Porque está meu coração inquieto?" A contemplação do "tempo que passa docemente" aparece, assim, na poesia de Han-Shan, como o fundamento de uma proposta de libertação da materialidade para uma "vida humana" mais espiritual em comunhão com a natureza. E a questão fundamental ficará em aberto: "Quem consegue desligar-se do mundo / E sentar-se comigo no meio de nuvens brancas?"
Escrito para o Canal de Livros.
Escrito para o Canal de Livros.
segunda-feira, 17 de maio de 2004
SOB A LUZ DO MAR
Quando cheguei à denominada blogoesfera, um dos weblogs com que mais facilmente me identifiquei foi o Tempo Dual, mantido por Sandra Costa e Cláudia Caetano. Por mero acaso, soube, muito recentemente, que Sandra Costa era igualmente autora de um livro editado pela Campo das Letras. Procurei-o, encontrei-o e adquiri-o. Dou-vos agora conta do mesmo, apesar de a 1ª edição datar já de Outubro de 2002. Duvido, somente pelas contingências do mercado literário português, que entretanto tenha sido efectuada uma segunda edição. Digo somente porque, pela qualidade da poesia ali reunida, não me espantaria nada que tal facto extraordinário pudesse ter sucedido. A poesia de Sandra Costa, pelo menos a poesia contida em Sob a luz do mar, é de uma transparência atroz. A contenção e mestria na depuração do verso afastam-na de qualquer tipo de excesso lírico, bastas vezes presente numa poesia mais luminosa e diáfana como é o caso presente. Confesso que, por mera questão de gosto, identifico-me mais, enquanto leitor, com uma poesia não tão desnudada. Talvez por isso me sinta mais à vontade para sublinhar o estranho prazer que me deu ler este livro. A opção pelo poema curto, por vezes epigramático, ajuda a uma respiração serena, assim como a obsessão clara por um certo conteúdo lexical (a palavra “maresia”, por exemplo, repete-se à exaustão) torna a leitura de Sob a luz do mar bastante aprazível, dada a leveza com que o universo da autora se vai impondo, progressivamente, ao leitor. Encontram-se afinidades claras com as poéticas de alguns mestres mais ou menos óbvios, mas Sandra Costa consegue ser suficientemente singular para que não se justifique uma qualquer conotação de tipo mais redutor. Em jeito de conclusão, diria apenas que há neste volume uma intimidade poética que se revela com a leveza de um “movimento invisível” e as palavras acabam por deslizar como «o silêncio / suspenso / dos sonhos».terça-feira, 20 de abril de 2004
MELANCOLIA
Levarei para o meu túmulo todas as cores que povoaram o meu olhar. Por me haverem lido em meia dúzia de frases, julgarão saber-me de cor e salteado. Mas num homem encerra-se algo mais que um mero cacho de versos rarefeitos. Um homem não é só o que mostra, o que se mostra é muito pouco do que se é e o que se é não se vê. Por vezes, convém-nos esquecer que por dentro dos contornos há universos indecifráveis. O homem é um universo indecifrável. Um silêncio calado por trás do ruído, um matiz explosivo por dentro do branco. Nada do que importa se diz, por isso tudo pode ser dito. Nada será revelado, nada do que importa. O que importa fica sempre para lá daquilo que pode ser revelado.
quarta-feira, 14 de abril de 2004
DUAS EDIÇÕES DE AUTOR
Não faço a mínima ideia de quem sejam Jorge Roque e Catarina Herdeiro, mas isso não tem qualquer importância. Suponho que não haja nada de comum entre os dois, a não ser o facto de terem publicado estes dois livros de poesia, duas edições de autor, e de eu os ter adquirido na mesma livraria: a Assírio & Alvim dos cinemas King. O de Jorge Roque custou-me 50 cêntimos. Há mais de onde ele veio, numa banca com saldos junto à prateleira dos filmes. Intitula-se O chão serviu-lhe de céu e foi publicado em 1999. São 22 poemas em prosa, alguns bastante curtos, povoados por uma espécie de necessidade catártica: «Choro, mas nenhum sentido ilumina o meu choro», «...deitar fora o teu nome como o cigarro que esmago no cinzeiro». Há uma terapêutica do abandono que, ficando por cumprir nas palavras, encontram no poema a sua morte: «O tiro atingiu o pássaro em pleno voo. O chão serviu-lhe de céu». Já o livro de Catarina Herdeiro é bem diferente. Curtas Metragens Poéticas. 19 (2003), do qual se fizeram apenas 76 exemplares, serviu de base a uma instalação co-criada com André Sier na última Bienal de Cerveira.
Daqui se depreende uma forte componente imagética nos poemas que compõe este livro, muitos deles com dedicatórias que assumem as vozes que aí ecoam: António Ramos Rosa, Herberto Helder, Jorge Luís Borges, entre outros. Acompanhados de algumas imagens, os poemas são, por si só, bastante visuais, mesmo quando resvalam para uma torrente mais reflexiva: «a fé desculpem meus senhores / só tem existência concreta depois da pancada seca / (...) depois da morte a horas tardias acontecemos para as coisas / apresentamo-nos à vida com o ticket que já foi chamado / (...) o poema é então oralidade do universo / (...) o poema é um funcionário de imagens e raízes / sem muita burocracia coisa própria de bibliotecas (...)» (in uma criança sentada entre palavras de uma arte poética) Porém, aquilo que há de mais forte nestes textos parece-me ser a verbalização do sujeito em múltiplas formas: lapisam-me, arbusto-me, violetar-me, alarajam-se, poemo-me. Cada um destes actos contém um programa de “analfabetização da intuição” que remete para uma liberdade extrema, onde o poema se alicerça e constrói um sentido único e irredimível.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2004
PERCURSOS
A: Os percursos fazem-se de mão dada. Antes de atravessares a estrada, não te esqueças de olhar para um lado e, depois, para o outro. Lembra-te: há estradas que são tão fundas quanto os rios. B: Vínhamos do açude, onde era costume tomarmos banho em dias de calor. Pelo caminho, roubávamos maçãs das macieiras que ladeavam os carreiros. Brincávamos aos pais e às mães no milheiral. Fumávamos barba de milho calcada em carrinhos de linha. Íamos para a escola, se bem me lembro. Uma pancada de um lado, uma pancada do outro e uma terceira... definitiva. O cão ainda se arrastou até aos meus pés. Sangrava pelos cantos da boca, tinha um olhar de morte. Foi a primeira vez que vi a morte. O tempo parou, caiu num silêncio branco. Mas foi nesse parar que a consciência do fim pariu uma forma de ver o mundo. Esta forma. Há um frémito de futuro nestas imagens do passado, o saber que na morte nasceu uma maneira de ver a vida que à morte há-de um dia regressar. C: Aquilo em que acreditamos basta para que possamos construir a nossa verdade do mundo. A minha verdade é esta: a matéria é tudo. O pensamento é tão matéria quanto a rocha. Ser é ter uma espécie de vida, seja ela qual for. Porque a vida é o tempo de, rasgada a pele, chegar o sangue. E chegado o sangue, fazer-se pústula. E debaixo da pústula surdir a pele renovada. A ser alguma coisa, a morte é apenas um artifício de Deus, o Deus-ideia que, tal como poetizava Ruy Belo, serve para pouco mais do que dar o nome de divinas a algumas coisas como o mar. A morte é um chamamento para cima, o fantasma que se mostra às crianças para que elas evitem tocar no açúcar. O açúcar da vida. Por isso a matéria vive e, na podridão, borbulha a vida e vive a própria podridão. Por isso tudo sobrevive a uma vida: o tempo de, rasgada a pele, o sangue chegar.sexta-feira, 1 de agosto de 2003
SÃO MARTINHO DO PORTO

Em São Martinho do Porto comecei a nascer pela segunda vez. Já nessa altura a Casa das Palmeiras fora destinada a transformar-se num bloco de apartamentos; os elogios à baía predilecta de Rei D. Carlos haviam sido substituídos pelas críticas amarguradas de Eduardo Prado Coelho; os banhos termais das Caldas da Rainha tinham dado lugar a discussões políticas intermináveis; e o gosto pela enseada das famílias nobres e ilustres - como, por exemplo, os marqueses de Rio Maior (onde nasci) - há muito fora traído pelas piscinas algarvias.

Só o nevoeiro, o microclima, permanece como elo inexpugnável de uma terra com a sua história. Porque São Martinho do Porto, como a maioria dos lugares, não resistiu à fome dos homens e, com o tempo, perdeu o que de mais importante o tempo nos come: a alma. Seja como for, foi por ali que eu comecei a nascer... pela segunda vez.

Subo a duna de Salir e sigo, por carreiros facilmente rastreados, até à quebrada de São Romeu. Ainda logro algum silêncio, a paz marítima do outro lado da cimentada civilização. Espero que o sol caia e a respiração se recomponha. Depois regresso a casa, bebo uma cerveja, articulo umas palavras. Escrevo sobre o assunto:
SÃO MARTINHO DO PORTOINCOMPLETO
as constelações emanam estranhos perfumes
contemplo a luz magoada da lua
evado-me na ciranda do álcool
compareço ao âmago de faca na mão
perscruto o elixir das lágrimas indistintas
feéricas sombras acasalam nas barcas
fico prisioneiro de uma prosa de poeta
se a deus desse o corpo ao diabo roubaria a alma
in antologia do esquecimento, 2003
quinta-feira, 1 de maio de 2003
ANTOLOGIA DO ESQUECIMENTO
Antologia do Esquecimento
Desenhos do autor e de Joaquim Rocha
Edição de Autor
Maio de 2003
Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Herberto Helder
sábado, 1 de julho de 2000
ENTRE O DIA E A NOITE HÁ SEMPRE UM SOL QUE SE PÕE
Entre o Dia e a Noite Há Sempre um Sol que se Põe
Desenhos de capa e interior do autor
Edição de Autor
Julho de 2000
Nada mais existe, nada mais tem importância,
para quem viu a treva nos intervalos das coisas.
Jorge de Sena
segunda-feira, 1 de setembro de 1997
NEOMÉNIA seguido de OUTROS EXORCISMOS
Neoménia seguido de Outros Exorcismos
Associação Cultura Jovem
Setembro de 1997
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
e até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.
Álvaro de Campos
sábado, 18 de março de 1995
DA POESIA
Da Poesia
Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea
Volume I
Coordenação de Ângelo Rodrigues
Editorial Minerva
Março de 1995
Elegia do Momento (devido a erro de impressão, deve ler-se da p. 94 para a p. 93)
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