Aprecio o modo como a editora Objecto Cardíaco se atirou ao mercado literário nacional. O pano de fundo do sítio da editora, ilustrado por uma imagem de Luís Melo, deixa bem clara a intenção de alfinetar o que há muito cheira a podre de tão bonançoso. Saúde-se, então, a postura. Postura essa que, infelizmente, não afiança a mesma saudação quando se trata de avaliar a qualidade de algumas das obras editadas. Conselhos aos Jovens Literatos, de Charles Baudelaire (1821-1867), em tradução e anotação de Jorge Melícias, carece de um enquadramento histórico jamais reduzível a uma pobre sinopse biográfica e a uma nota cujos objectivos são todos e mais alguns excepto esclarecer a obra em causa. É pena que assim seja, pois o que poderia ser pretexto para debate e reflexão - práticas cada vez mais difíceis numa época dominada por mesquinhas ambições -, esgota-se na boca foleira e na inanidade do espalhafato. Se o estilo, pela obstinação, é engraçado, já o recheio parece inexistente. Vamos à obra. Sobre a tradução, nada a dizer. Apenas que tratando-se de uma edição bilingue, ficará ao critério de cada um averiguar dos méritos e dos deméritos que a mesma possa conter. Conselhos aos Jovens Literatos: IX aforismos, editados pela primeira vez em Abril de 1846, sobre temas relacionados, de forma mais ou menos evidente, com a vida literária: I – Da felicidade e do infortúnio nas estreias; II – Dos salários; III – Das simpatias e das antipatias; IV – Da crítica severa; V – Dos métodos de composição; VI – Do trabalho diário e da inspiração; VII – Da poesia; VIII – Dos credores; IX – Das amantes. À data, com 25 anos, Baudelaire tinha estourado metade da herança paterna em prostitutas e haxixe. Incompatibilizado com o padrasto, vê-se a braços com «uma acção judicial que o impede de movimentar o seu património» (Cf. cronologia elaborada por Fernando Pinto do Amaral na edição portuguesa de As Flores do Mal). A resenha biográfica na abertura da edição aqui em causa é completamente omissa quanto a estes aspectos, limitando-se a referir uma tentativa de suicídio «como forma de chamar a atenção de sua mãe e padrasto». Comovente! Conta a história, e não a psiquiatria, que na mesma altura em que procurava afirmar-se como crítico de arte e poeta, Baudelaire tenta suicidar-se. Por carências afectivas? Por desespero? Por falta de mimo? Sejam os factos à vontade do freguês. Excepto este: será na ressaca deste clima que o poeta publicará no Corsaire-Satan, um ano após a tentativa de suicídio, os Conselhos aos Jovens Literatos - textos eivados de um claro cinismo irónico tão em voga nessa época. Interpretá-los de forma literal, assim como abreviar a obra de Baudelaire a IX aforismos, parece-me tão patético quanto contraproducente. Que seria de nós se todos os autores que por aí pululam passassem a resumir-se às obras iniciais ou a aspectos particulares das suas vidas? Será minimamente prudente ignorarmos Os Paraísos Artificiais, As Flores do Mal, O Spleen de Paris, O Meu Coração a Nu, etc., por causa destes curiosos IX aforismos? Jorge de Sena, que não hesitou em apelidar Baudelaire de «escrevinhador», foi peremptório na afirmação de «uma nova era literário-cultural» após a publicação de Les Fleurs du Mal. Mas Jorge de Sena via a coisa como ela deve ser vista. Ou seja, o que estava em causa na obra de Baudelaire era a «autonomia das artes e das letras em relação à religião e à moral». Jorge Melícias fala de um Baudelaire «burguês usurário e sem escrúpulos». Era bom que isto fosse contextualizado. Porque não é, permito-me citar novamente Jorge de Sena: «A reacção contra o academismo, a rotina, e o conservadorismo estéticos das sociedades burguesas ou autocráticas do sistema político do século XIX, exigia uma alteração das estruturas políticas, mas estas teriam de, àquelas personalidades, garantir uma situação social em que, se o artista adquirisse a sua independência crítica e criadora em relação ao sistema de produção capitalista (porque este sistema usava ou podia usar da liberdade dele como dissipação económica marginal), esta não caísse sob o domínio de uma autoridade directamente estatal» (Sobre o Modernismo). Como garantir então o pão para a boca daqueles que se aventuravam a pôr em causa um sistema contra o qual dificilmente teriam «uma alimentação substancial, mas regular»? Quem não quiser ver o tal cinismo irónico na resposta que Baudelaire dá a esta questão, então não veja. A cegueira, como o suicídio, deverá ser um direito adquirido. Mais ridícula se torna a nota de Jorge Melícias quando este se põe a falar de uma das «correntes estéticas» que terá emergido nos «inícios dos anos 90 do século transacto», corrente essa que ter-se-á apropriado ingenuamente (o conceito é meu) de um imaginário baudelairiano. Essa corrente, que eu saiba, tem nome próprio (coisa pouca e rara para uma corrente): Manuel de Freitas (n. 1972). Trata-se do autor de Os Infernos Artificiais, cuja primeira colecção de poemas veio a lume em Setembro de 2000 (atrasada, então, relativamente aos primórdios dos anos 90). Sinceramente, não estou a ver a quem mais possa estar a referir-se o tradutor destes Conselhos... É na poesia de Manuel de Freitas, não de outro, que melhor se reflecte na actualidade a «perda de auréola» baudelairiana, fundadora de «uma nova era literário-cultural» (ver, a este propósito, um texto de Manuel de Freitas intitulado Acima de nada – Uma leitura caótica de «Perte d’ aureole», publicado no n.º 1 da revista Intervalo). Trata-se de uma era que já leva um século às costas, é certo, mas ainda assim mais esclarecida do que outras eras que, há pelo menos tanto tempo como esta, andam a autoproclamar-se de vanguardas. Quanto à política desta corrente, de forma literal e histórica, só pode ser uma: «Não tenho convicções, como o entendem as pessoas do meu século, porque não tenho ambição» (Baudelaire, in O Meu Coração a Nu). É precisamente esta palavra, ambição, o que motiva tanta algaraviada.sexta-feira, 28 de abril de 2006
CONSELHOS AOS JOVENS LITERATOS
Aprecio o modo como a editora Objecto Cardíaco se atirou ao mercado literário nacional. O pano de fundo do sítio da editora, ilustrado por uma imagem de Luís Melo, deixa bem clara a intenção de alfinetar o que há muito cheira a podre de tão bonançoso. Saúde-se, então, a postura. Postura essa que, infelizmente, não afiança a mesma saudação quando se trata de avaliar a qualidade de algumas das obras editadas. Conselhos aos Jovens Literatos, de Charles Baudelaire (1821-1867), em tradução e anotação de Jorge Melícias, carece de um enquadramento histórico jamais reduzível a uma pobre sinopse biográfica e a uma nota cujos objectivos são todos e mais alguns excepto esclarecer a obra em causa. É pena que assim seja, pois o que poderia ser pretexto para debate e reflexão - práticas cada vez mais difíceis numa época dominada por mesquinhas ambições -, esgota-se na boca foleira e na inanidade do espalhafato. Se o estilo, pela obstinação, é engraçado, já o recheio parece inexistente. Vamos à obra. Sobre a tradução, nada a dizer. Apenas que tratando-se de uma edição bilingue, ficará ao critério de cada um averiguar dos méritos e dos deméritos que a mesma possa conter. Conselhos aos Jovens Literatos: IX aforismos, editados pela primeira vez em Abril de 1846, sobre temas relacionados, de forma mais ou menos evidente, com a vida literária: I – Da felicidade e do infortúnio nas estreias; II – Dos salários; III – Das simpatias e das antipatias; IV – Da crítica severa; V – Dos métodos de composição; VI – Do trabalho diário e da inspiração; VII – Da poesia; VIII – Dos credores; IX – Das amantes. À data, com 25 anos, Baudelaire tinha estourado metade da herança paterna em prostitutas e haxixe. Incompatibilizado com o padrasto, vê-se a braços com «uma acção judicial que o impede de movimentar o seu património» (Cf. cronologia elaborada por Fernando Pinto do Amaral na edição portuguesa de As Flores do Mal). A resenha biográfica na abertura da edição aqui em causa é completamente omissa quanto a estes aspectos, limitando-se a referir uma tentativa de suicídio «como forma de chamar a atenção de sua mãe e padrasto». Comovente! Conta a história, e não a psiquiatria, que na mesma altura em que procurava afirmar-se como crítico de arte e poeta, Baudelaire tenta suicidar-se. Por carências afectivas? Por desespero? Por falta de mimo? Sejam os factos à vontade do freguês. Excepto este: será na ressaca deste clima que o poeta publicará no Corsaire-Satan, um ano após a tentativa de suicídio, os Conselhos aos Jovens Literatos - textos eivados de um claro cinismo irónico tão em voga nessa época. Interpretá-los de forma literal, assim como abreviar a obra de Baudelaire a IX aforismos, parece-me tão patético quanto contraproducente. Que seria de nós se todos os autores que por aí pululam passassem a resumir-se às obras iniciais ou a aspectos particulares das suas vidas? Será minimamente prudente ignorarmos Os Paraísos Artificiais, As Flores do Mal, O Spleen de Paris, O Meu Coração a Nu, etc., por causa destes curiosos IX aforismos? Jorge de Sena, que não hesitou em apelidar Baudelaire de «escrevinhador», foi peremptório na afirmação de «uma nova era literário-cultural» após a publicação de Les Fleurs du Mal. Mas Jorge de Sena via a coisa como ela deve ser vista. Ou seja, o que estava em causa na obra de Baudelaire era a «autonomia das artes e das letras em relação à religião e à moral». Jorge Melícias fala de um Baudelaire «burguês usurário e sem escrúpulos». Era bom que isto fosse contextualizado. Porque não é, permito-me citar novamente Jorge de Sena: «A reacção contra o academismo, a rotina, e o conservadorismo estéticos das sociedades burguesas ou autocráticas do sistema político do século XIX, exigia uma alteração das estruturas políticas, mas estas teriam de, àquelas personalidades, garantir uma situação social em que, se o artista adquirisse a sua independência crítica e criadora em relação ao sistema de produção capitalista (porque este sistema usava ou podia usar da liberdade dele como dissipação económica marginal), esta não caísse sob o domínio de uma autoridade directamente estatal» (Sobre o Modernismo). Como garantir então o pão para a boca daqueles que se aventuravam a pôr em causa um sistema contra o qual dificilmente teriam «uma alimentação substancial, mas regular»? Quem não quiser ver o tal cinismo irónico na resposta que Baudelaire dá a esta questão, então não veja. A cegueira, como o suicídio, deverá ser um direito adquirido. Mais ridícula se torna a nota de Jorge Melícias quando este se põe a falar de uma das «correntes estéticas» que terá emergido nos «inícios dos anos 90 do século transacto», corrente essa que ter-se-á apropriado ingenuamente (o conceito é meu) de um imaginário baudelairiano. Essa corrente, que eu saiba, tem nome próprio (coisa pouca e rara para uma corrente): Manuel de Freitas (n. 1972). Trata-se do autor de Os Infernos Artificiais, cuja primeira colecção de poemas veio a lume em Setembro de 2000 (atrasada, então, relativamente aos primórdios dos anos 90). Sinceramente, não estou a ver a quem mais possa estar a referir-se o tradutor destes Conselhos... É na poesia de Manuel de Freitas, não de outro, que melhor se reflecte na actualidade a «perda de auréola» baudelairiana, fundadora de «uma nova era literário-cultural» (ver, a este propósito, um texto de Manuel de Freitas intitulado Acima de nada – Uma leitura caótica de «Perte d’ aureole», publicado no n.º 1 da revista Intervalo). Trata-se de uma era que já leva um século às costas, é certo, mas ainda assim mais esclarecida do que outras eras que, há pelo menos tanto tempo como esta, andam a autoproclamar-se de vanguardas. Quanto à política desta corrente, de forma literal e histórica, só pode ser uma: «Não tenho convicções, como o entendem as pessoas do meu século, porque não tenho ambição» (Baudelaire, in O Meu Coração a Nu). É precisamente esta palavra, ambição, o que motiva tanta algaraviada.sexta-feira, 21 de abril de 2006
UMA CASA NA ESCURIDÃO
Sou um péssimo leitor de ficção. Prefiro o conto e a novela ao romance. Devo ter lido uma dúzia de romances que amei profundamente. Dito isto, os meus considerandos subsequentes, muito mais do que os outros, valerão nada de nada. Os outros valem apenas nada. Acontece também que leio mais ficção estrangeira do que nacional, sendo que as minhas predilecções vão sobretudo para os clássicos. Para começar a redimir-me de cenário tão pobre, peguei num romance de um jovem romancista português cuja poesia tinha lido e apreciado. Resultado: uma leitura penosa, fastidiosa, um tédio tremendo, um cansaço a degenerar numa irremediável desilusão. Refiro-me a Uma Casa Na Escuridão (Outubro de 2002), segundo romance de José Luís Peixoto (n. 1974) depois do aclamado Nenhum Olhar (2000). Dividida em sete partes (O Amor, O Amor É Tudo O Que Existe, As Invasões, O Amor É Impossível, A Peste, O Amor É A Solidão, A Morte), a história de Uma Casa Na Escuridão é-nos narrada pela personagem central: um escritor apaixonado pela imagem, surgida dentro de si, da mulher mais bonita do mundo. O leitor é constantemente remetido para o interior dessa personagem através da repetição exaustiva da expressão «dentro de mim». Esta é, justamente, uma prosa que joga ao cansaço com velhas técnicas de um discurso mais poético: anáforas, repetições e aquele tique de repetir uma palavra, uma frase ou uma expressão no final de uma frase, dando-lhe um efeito de eco ou sublinhando, com enfatuada eloquência, a importância do que está a ser dito: «O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda. O amor é o sentido de todas as palavras impossíveis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor é a paz fresca e a combustão de um incêndio dentro, dentro, dentro, dentro, dentro dos dias. Em cada instante de manhã, o céu a deslizar como um rio. À tarde, o sol como uma certeza. O amor é feito de claridade e da seiva das rochas. O amor é feito de mar, de ondas na distância do oceano e de areia eterna. O amor é feito de tantas coisas opostas e verdadeiras. Nascem lugares para o amor e, nesses jardins etéreos, a salvação é uma brisa que cai sobre o rosto suavemente» (p. 25). Este parágrafo, por exemplo, até daria um poema em prosa interessante. Num romance, cheira-me a lirismo supérfluo. Ainda mais quando o parágrafo seguinte repete exactamente as mesmas frases, acrescentando no início a voz do narrador dizendo que acreditava mesmo que o amor era aquilo tudo. Trata-se de um excerto meramente exemplificativo do que menos me agradou neste livro, a par do recurso a um velho dicionário composto de palavras como «angústia e dor e tristeza e sofrimento e mágoa» (p. 160), que não se livra dos lugares comuns mais enjoativos, façam-se eles de antíteses - «sombras de luz dentro da luz» (p. 17) ou «um tempo sem horas, entre as horas» (p. 83) - ou de referências como «o cheiro da terra molhada» (p. 26, 34, 51), «olhos a serem dois poços muito fundos de água límpida» (p. 28), árvores deixando cair folhas amarelas, «como se deixassem cair lágrimas» (p. 29). Mas o pior sucede quando esse arsenal resvala no lamechismo puro e duro: «A minha mãe fraca e bela, linda. A minha querida mãe que me pegava ao colo e que, naquele dia, já eu era homem, já fazia a barba, e achava por isso que era homem, já me apaixonava e padecia por mulheres, e achava por isso que era homem; a minha querida mãe, naquele dia, pousou a mão sobre a minha mão, e eu olhei os seus olhos lindos e castanhos, doces e tão belos de menina, e soube tão profundamente que o nosso amor era mais imutável do que as rochas, do que a montanha, do que o céu todos os dias, todos os dias, todos os dias até ao fim do último fim depois do fim da eternidade» (p. 84). Há nesta prosa de José Luís Peixoto uma confusão voluntária entre os domínios do sonho e da realidade, uma confusão que poderia ser estimulante não fosse o resvalar em lamechices entediantes do género da supracitada. O melhor que se retira de Uma Casa Na Escuridão é um imaginário «gótico», feito de gente mutilada e putrefacta, soldados com roupas de ferro e barba até à barriga, gatos lambendo poças de sangue… É neste contexto que surdem as personagens mais curiosas: o príncipe de calicatri, a quem arrancaram «os mistérios mais profundos da sua sabedoria» depois de «no lugar do coração» lhe terem deixado «um buraco de vermelho vivo» (p. 115); ou o visconde de dedodida, com um «buraco grande e circular que lhe atravessava a barriga», outrora «uma mulher que estava grávida quando as invasões chegaram à cidade» (p. 237); ou, por fim, o «homem que não tinha orelhas e que não tinha olhos e que não tinha nariz e que não tinha língua», sendo por isso chamado de ninguém. (p. 117) Aparte isto, Uma Casa Na Escuridão não me encorajou. Foi mais um romance que terminei após muito, muito, muito, muito tédio. Muito tédio. Muito. Tédio.terça-feira, 18 de abril de 2006
DICIONÁRIO DO DIABO
O primeiro grande livro do ano está encontrado. Pena que tenha aparecido, pela primeira vez, há precisamente um século. Refiro-me à edição portuguesa do Dicionário do Diabo. De Ambrose Bierce (1842-1914), havia lido anteriormente Esopo emendado & outras fábulas fantásticas (Antígona, 1996). O dicionário demoníaco do jornalista americano era há muito motivo de conversa, mas por contingências várias nunca passara disso. Passados dez anos sobre a edição desse Esopo emendado, a editora Tinta-da-China resolve propor-nos uma versão portuguesa condensada, traduzida por Rui Lopes, do mais cínico dos livros que há memória. Digo eu, fã que sou das Palavras Cínicas (1905), do nosso Albino Forjaz de Sampaio (1884-1949), versão, diria, epistolar do que Bierce nos oferece em forma de dicionário. Belíssima edição, em capa rija, com excelentes ilustrações de Ralph Steadman e prefácio esclarecedor de Pedro Mexia: «O que interessa a Bierce não é descrever o mundo tal como é. O mundo tal como é não passa de uma ilusão de óptica, de um engodo social. O mundo não deve ser analisado com frieza científica ou ideológica, deve ser confrontado com os seus vícios numa linguagem viciosa». E no entanto, quem não arriscará, sem cinismo de espécie alguma, ver o mundo através das ilusões ópticas deste dicionário? A questão que agora se coloca é a mesma que há séculos perturba o universo humorístico. Na escola ensinaram-me que o nosso Gil Vicente, lá nos idos de mil quatrocentos e tais, servia-se do humor, da paródia, da maledicência, para dizer umas tantas verdades. Mas essas tantas verdades não são a verdade, nem almejam sê-lo. São apenas uma perspectiva possível sobre a verdade. Uma perspectiva que incomoda, por certo, mas não mais que uma perspectiva. Talvez por isso mesmo, ainda hoje, umas tantas caricaturas apoquentem chusmas imensas de almas puritanas, tão civilizadas quão macambúzias. Não tanto por dizerem verdades, mas precisamente por confrontarem viciosamente os vícios do mundo. Esta é a história da comédia e dos comediantes, esses que, segundo Aristóteles, andavam de aldeia em aldeia, «por não serem tolerados na cidade». É que a cidade, porque mais adestrada, sempre tolerou menos os particulares da injúria. Lá/Cá do campo, a malta grita e ninguém ouve. Gritam da pinga e, muito provavelmente, da possessão. Mas na cidade pressupõe-se que a repugnância seja outra. E aqui caberia novamente Aristóteles, ou alguém por ele, atirando o satírico, o cómico, para o domínio da imitação dos homens inferiores. O riso é inferior porque é do demónio. Logo, só a rir o demónio poderia instruir-nos. Fala o diabo: «RISO, n. Uma convulsão interior, que produz uma distorção da expressão facial e que é acompanhada por sons desarticulados. É contagioso e, embora intermitente, incurável» (p. 144). Mora dentro de nós, e logo sem cura possível, o linguarejar de Satã. Baudelaire analisou o fenómeno com perspicácia, num ensaio intitulado Da Essência do Riso (Íman, 2001). Ambrose Bierce, que esteve ao serviço do exército da união durante quatro anos, há-de ter provado, como só provam os homens que experimentam os absurdos da guerra, o travo mais humano do satanismo. Escreveu muitas histórias, sketches, epigramas. É destes que se fazem as entradas do Dicionário do Diabo: cínicas, reaccionárias, misóginas, e com aquele travo permanente de desencanto e desilusão, aquela ausência de optimismo fatal, que atrai hoje tanto os da esquerda como os da direita. Por todas estas razões, mais algumas, este livro parece-me essencial. Quem ficar descontente, sempre pode exorcizar o diabo que traz dentro de si... mandando-o às favas. Palavra do senhor!quarta-feira, 5 de abril de 2006
ELUCIDÁRIO DE YOUKALI
Elucidário de Youkali seguido de Ordem Alfabética, publicado em Janeiro do ano corrente pela Editorial Caminho, junta dois conjuntos de poemas brevíssimos de um poeta portuense cuja obra se tem dividido entre livros para crianças e os outros. Supostamente para adultos, este deslumbrante elucidário de João Pedro Mésseder (n. 1957), assim como o subsequente Ordem Alfabética, mostra-nos um poeta transformado em criança, ou seja, no seu devido lugar de criador absoluto de mundos imaginários. Só nesse lugar pode o poeta, julgo eu, exercer a sua suprema função: a reinvenção da linguagem a partir da reconstrução da palavra. Nos dois conjuntos de poemas aqui trazidos, esse trabalho é exercido de uma forma lúdica onde impressionam a precisão, a meticulosidade, bem ao jeito de alguma poesia oriental, a capacidade de síntese (muitos poemas possuem um único verso), a imaginação e uma graciosidade discursiva que dificilmente deixará de encantar mesmo o leitor mais exigente. Será talvez importante referir que essa capacidade de síntese consegue não resvalar num hermetismo tão metafórico quão facundo, apenas acessível a hermeneutas de doutoramento feito e aprovado com distinção. A parada aqui é distinta, podendo por vezes uma palavra aparecer transposta numa outra com a qual passa a estabelecer uma relação sinonímica facilmente reconhecível: «Blasfémia - Bofetada» (p. 20). Youkali, tal como aparece no poema de Roger Fernay transcrito no verso da capa e da contracapa deste elucidário de João Pedro Mésseder, «c’est le respect de tous les voeus échangés». Aquilo que se procura cambiar neste livro é o significado das palavras, buscando-se para isso outros sentidos construídos através de um jogo semântico com regras diversas. São novos significados que surdem de associações directas ou indirectas com os fonemas da palavra (re)construída, de conexões fonéticas mais ou menos evidentes, de brincadeiras sérias onde o que se depreende é um esforço hábil na desconstrução da palavra enquanto representação das coisas do mundo. Às vezes, o que parece estar em causa é apenas a distensão da linguagem poética: «Amar - Encher de água do mar / um coração vazio» (p. 15). Outras vezes, vislumbramos um humor marcado pela ironia política: «Crédito – Doença terminal / dos pobres» (p. 29). Mas é em Ordem Alfabética, conjunto que abre com três epígrafes de Luiza Neto Jorge, Octávio Paz e Roland Barthes, que a intenção subjacente a estes micropoemas é obviada. A citação de Barthes remete-nos para um dos mais fascinantes diálogos platónicos: Crátilo – Diálogo sobre a justeza dos nomes. Nesse diálogo, mantido entre Sócrates, Hermógenes e Crátilo, procura-se discutir a origem das palavras, se estas foram estabelecidas em conformidade com a natureza dos objectos ou se, por outro lado, resultam apenas de convenções. Ainda na fase inicial da investigação, quando interpelado por Hermógenes sobre a justeza natural dos nomes, Sócrates aconselha o seu interlocutor a «consultar Homero e os outros poetas». É essa crença na propriedade das palavras, na relação dos nomes com aquilo que nomeiam, que aqui é posta em causa. O que estes poemas de João Pedro Mésseder logram é fazer-nos acreditar no poder criativo da poesia, forma suprema do fazer da palavra. Estes poemas são o exercício mesmo desse fazer da palavra. E assim a palavra deixa de ser um absoluto em si, cristalizado nas definições dos dicionários, para poder passar a ser o interlocutor com o qual cada um constrói o mundo à sua volta e joga uma partida de xadrez.sexta-feira, 31 de março de 2006
DOIS OBJECTOS
Ainda mal abriu os olhos, a Objecto Cardíaco, noviço projecto editorial do ex-Quasi valter hugo mãe, já aparece na fachada do mundo plumitivo nacional. As razões, como todas as razões de fachada, só não são as piores por serem de fachada. Ou seja, a publicidade necessária a qualquer negócio que se pretenda erigir nos dias de hoje está garantida. Ainda por cima, ao que tudo aponta, de borla. Outras razões havia, bem mais interessantes, que justificavam uma chamada da Objecto Cardíaco à frontaria (não fosse este um país de mexericos, agitado ao ritmo das plumas ofendidas). Por exemplo: os livros. A colecção de poesia, congruentemente intitulada «aorta», abre com dois títulos desiguais: Os Animais Antigos, de João Habitualmente, e Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro, de A. Pedro Ribeiro (n. 1968).
Sobre o primeiro, informa-nos a nota introdutória acerca duma juvenília «oscilando entre o confessional e o manifesto iconoclasta». Professor da Universidade do Porto, João Habitualmente publicou o primeiro livro em 1995, pela editora Pé-de-Cabra, ao qual se seguiram outros em género distinto (crónica, poesia, artigo científico). Também do Porto, supostamente mais novo, é A. Pedro Ribeiro, que após publicações caseiras de tipo panfletário estreia-se agora em livro. Da nota introdutória retemos toda uma postura programática: «o autor faz da palavra uma arma inesgotável e vê no capitalismo o inimigo público número um». Segue-se manifesto do próprio, com encosto aos «poetas malditos» e profissão de fé na forma «sub-versiva da poesia», nos «actos provocatórios», nas «agitações espontâneas», no «terrorismo poético». Dito isto, puxemos a conclusão à metade: se Os Animais Antigos me parece ser um dos mais agradáveis livros de poesia portuguesa dos últimos anos, já a Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro se me apresenta como um livro falhado. O livro de João Habitualmente remete-nos para um universo poético próximo do pícaro, onde o lindo pode equivaler ao irrisório e o ínfimo se apresenta como lugar da beleza que resta. Os poemas de João Habitualmente são leves sem serem ligeiros, colocam-nos na presença de mundos perdidos, sobretudo os da infância e os da ruralidade, ao mesmo tempo que procuram reconquistar, no seu seio, esses sítios de um tempo que é já pura imaginação. É disso excelente exemplo o poema O Sítio Inverso, cuja derradeira estrofe reza assim: «Inventar um sítio assim: / fazê-lo de tão sábios traços / que ao supores fugir de mim / me venhas cair nos braços» (p. 14). É precisamente esse sítio que estes poemas (re)inventam, sendo que o «tu» ao qual os versos se dirigem pode assumir múltiplas formas num jogo permanente entre a memória e a imaginação, entre o antes e o depois, entre as partidas e os regressos.
Bem distinto é o livro de A. Pedro Ribeiro, cujo interesse literário se esgota em três ou quatro poemas. Dividido em três partes, este livro procura reunir alguma da intervenção «cívica» do poeta: I. Manifestos do Partido Surrealista Situacionista Libertário (PSSL), II. Orçamento Geral do Estado, III. Está Tudo Bem, Opressão Capitalista à Parte. Trata-se de uma intervenção assumidamente iconoclasta, com clara matriz nos textos de combate dos surrealistas e dos situacionistas. À sua maneira, A. Pedro Ribeiro também tem o dom de nos colocar frente a frente com um tempo perdido: esse tempo em que a poesia ainda inquietava a canalha. Agora, tempo cínico o nosso, só a hortofloricultura logra alguma histeria. Quem já escutou alguns destes poemas-notícia ao vivo, ditos pela voz de quem os escreveu, não poderá deixar de sentir alguma decepção. Quem não teve esse privilégio, talvez se indague sobre a força do panfleto. Quanto a mim, ficam aquém da qualidade poética de um Jorge Aguiar Oliveira e longe da cultura refractária de um A. Dasilva O.. No entanto, vale a pena chamar a atenção para um certo gozo que se retira da (des)construção dos textos, intercalando títulos de imprensa com fogachos do quotidiano, citações libertárias com observações delirantes. Poesia política? Poema de intervenção? A mim parece-me mais um pretexto para combater o Tédio: «Ao espelho / no aquário / peixinhos vermelhos / e uma canção // Aparte isso / tudo é tédio / no café / da televisão» (p. 37). P.S.: cuidado com as gralhas. Não sendo eu leitor muito exigente no que ao problema concerne, parece-me haver por aí quem facilmente se indigne com um acento fora do lugar.
Sobre o primeiro, informa-nos a nota introdutória acerca duma juvenília «oscilando entre o confessional e o manifesto iconoclasta». Professor da Universidade do Porto, João Habitualmente publicou o primeiro livro em 1995, pela editora Pé-de-Cabra, ao qual se seguiram outros em género distinto (crónica, poesia, artigo científico). Também do Porto, supostamente mais novo, é A. Pedro Ribeiro, que após publicações caseiras de tipo panfletário estreia-se agora em livro. Da nota introdutória retemos toda uma postura programática: «o autor faz da palavra uma arma inesgotável e vê no capitalismo o inimigo público número um». Segue-se manifesto do próprio, com encosto aos «poetas malditos» e profissão de fé na forma «sub-versiva da poesia», nos «actos provocatórios», nas «agitações espontâneas», no «terrorismo poético». Dito isto, puxemos a conclusão à metade: se Os Animais Antigos me parece ser um dos mais agradáveis livros de poesia portuguesa dos últimos anos, já a Declaração de Amor ao Primeiro-Ministro se me apresenta como um livro falhado. O livro de João Habitualmente remete-nos para um universo poético próximo do pícaro, onde o lindo pode equivaler ao irrisório e o ínfimo se apresenta como lugar da beleza que resta. Os poemas de João Habitualmente são leves sem serem ligeiros, colocam-nos na presença de mundos perdidos, sobretudo os da infância e os da ruralidade, ao mesmo tempo que procuram reconquistar, no seu seio, esses sítios de um tempo que é já pura imaginação. É disso excelente exemplo o poema O Sítio Inverso, cuja derradeira estrofe reza assim: «Inventar um sítio assim: / fazê-lo de tão sábios traços / que ao supores fugir de mim / me venhas cair nos braços» (p. 14). É precisamente esse sítio que estes poemas (re)inventam, sendo que o «tu» ao qual os versos se dirigem pode assumir múltiplas formas num jogo permanente entre a memória e a imaginação, entre o antes e o depois, entre as partidas e os regressos.
Bem distinto é o livro de A. Pedro Ribeiro, cujo interesse literário se esgota em três ou quatro poemas. Dividido em três partes, este livro procura reunir alguma da intervenção «cívica» do poeta: I. Manifestos do Partido Surrealista Situacionista Libertário (PSSL), II. Orçamento Geral do Estado, III. Está Tudo Bem, Opressão Capitalista à Parte. Trata-se de uma intervenção assumidamente iconoclasta, com clara matriz nos textos de combate dos surrealistas e dos situacionistas. À sua maneira, A. Pedro Ribeiro também tem o dom de nos colocar frente a frente com um tempo perdido: esse tempo em que a poesia ainda inquietava a canalha. Agora, tempo cínico o nosso, só a hortofloricultura logra alguma histeria. Quem já escutou alguns destes poemas-notícia ao vivo, ditos pela voz de quem os escreveu, não poderá deixar de sentir alguma decepção. Quem não teve esse privilégio, talvez se indague sobre a força do panfleto. Quanto a mim, ficam aquém da qualidade poética de um Jorge Aguiar Oliveira e longe da cultura refractária de um A. Dasilva O.. No entanto, vale a pena chamar a atenção para um certo gozo que se retira da (des)construção dos textos, intercalando títulos de imprensa com fogachos do quotidiano, citações libertárias com observações delirantes. Poesia política? Poema de intervenção? A mim parece-me mais um pretexto para combater o Tédio: «Ao espelho / no aquário / peixinhos vermelhos / e uma canção // Aparte isso / tudo é tédio / no café / da televisão» (p. 37). P.S.: cuidado com as gralhas. Não sendo eu leitor muito exigente no que ao problema concerne, parece-me haver por aí quem facilmente se indigne com um acento fora do lugar.quarta-feira, 29 de março de 2006
POBRE E MAL AGRADECIDO
É bem possível que Pobre e Mal Agradecido, colectânea de textos de Rui Tavares (n. 1972) agora dada à estampa pela editora Tinta-da-China, seja a cauda do sucesso de O Pequeno Livro do Grande Terramoto. Não há mal nenhum em que uma editora faça render o peixe quando ele é de qualidade. Ficam todos a ganhar, embora quem menos sinta os efeitos do ganho seja, cá desconfio, o próprio autor. Pobre e Mal Agradecido reúne textos de ordem e interesse diversos. Parte considerável da matéria provém do extinto weblog Barnabé, do qual Rui Tavares foi um dos fundadores e mais eloquentes escribas. Além dos posts, há artigos anteriormente publicados em revistas – Vida Mundial, História, Relações Internacionais, suplemento 6.ª do Diário de Notícias – e dois inéditos. Destes, talvez os que mais importe aqui destacar, um é pertinentemente dedicado à obra de Haruki Murakami e o outro procura analisar alguns dos aspectos de personalidade, os mais vulgarmente citados, do agora Presidente da República Cavaco Silva. São dois textos que, de certa forma, condensam o estilo que atravessa as 200 e poucas páginas deste volume: um estilo com à-vontade na polémica, seja ela de ordem política, religiosa ou estética; um estilo com impressionante argúcia na argumentação, ou seja, no que de mais positivo encontramos na arte retórica; um estilo marcado pelo desejo de clareza e objectividade, mas sempre de um ponto de vista que não encerra a leitura e o debate na perspectiva única; e, aquilo que particularmente mais me agrada, a recusa duma linguagem grandiloquente, sempre mais perniciosa do que fecunda neste tipo de obras. A título de exemplo, note-se a preocupação permanente de um enquadramento biográfico dos autores analisados. Deste modo, quando aborda a obra, e não apenas obras, de George Orwell (Ter Algo Para Dizer e Dizê-lo), Haruki Murakami (O Senhor Murakami), W. G. Sebald (O Mundo sem W.G.), David Hume (De Hume à Espiritualidade Instantânea), Italo Calvino (Sobre o Começar e o Acabar), Rui Tavares tem o mérito de nos fornecer uma panorâmica onde a vida desses autores é indissociável do seu trabalho. Daqui resulta ficarmos com uma visão mais humanizada da obra, não diminuidora, antes pelo contrário, da sua dimensão especulativa. Um dos exemplos onde isso é mais evidente é precisamente no inédito O Senhor Murakami, no qual expõe a história da sua relação com os livros de Haruki Murakami. Já o segundo inédito, Anibalófis I, é revelador da veia retórica do autor de O Pequeno Livro do Grande Terramoto. Trata-se de um texto de cariz político marcado por um humor e por uma ironia bem à maneira dos antigos mestres na arte da retórica. Não por acaso, o elogio desta arte, também ela fundadora da democracia ateniense, aparece como contra-argumento a um suposto «desdém pela retórica que Cavaco professa»: «A retórica é, simplesmente, a primeira das virtudes cívicas» (p. 185). Antes, havia sido acusada a previsibilidade do actual Presidente da República, o seu «não pluralismo», os seus caprichosos silêncios, etc.: «Ao contrário das crianças que parecem ser pessoas diferentes quando não as vemos durante algum tempo, perdemos Cavaco de vista e, ao fim de dez anos, ele é exactamente aquilo que já era antes de lhe fecharem o sarcófago» (p. 182). Insolente com os pés assentes na terra, polémico quanto baste, delirante na exacta proporção da inteligência mais sóbria, este não é, como se afirma na contracapa, «um livro indispensável para compreender o nosso tempo». Nem por sombras! Mas é, certamente, um livro indispensável para acompanhar a promessa de um pensamento português cujo tempo ainda está por cumprir. Para mal da Tinta-da-China, este é peixe cujo preço ideal devia ser correr o risco de o roubar na lota (cf. p. 198).terça-feira, 28 de março de 2006
PÓS-MODERNO
O político pós-moderno passa a vida a dizer mal dos políticos. O professor pós-moderno passa as aulas a ferro. O poeta pós-moderno só escreve poemas para dizer mal dos poetas seus contemporâneos. O sapateiro pós-moderno passa a vida a queixar-se dos pés. O médico pós-moderno despede-se sempre dos pacientes com um «haja saúde». O cidadão pós-moderno acha que a cidadania se resume na frase «isto é tudo uma pouca-vergonha».
sábado, 25 de março de 2006
quinta-feira, 23 de março de 2006
MOVIMENTOS NO ESCURO
De José Miguel Silva (n. 1969) li: Ulisses Já Não Mora Aqui (2002) e Vista Para um Pátio seguido de Desordem (2003). Os restantes – O Sino de Areia (1999) e 24 de Março (2004) – escaparam-me, sobretudo porque nunca os encontrei, ou eles nunca me encontraram, onde é costume estes encontros terem lugar: nas livrarias. Movimentos no Escuro, publicado pela Relógio D’ Água em Novembro do ano transacto, é o quinto livro do autor. Incluído por Manuel de Freitas na famigerada antologia Poetas Sem Qualidades, José Miguel Silva pode ser considerado um desses autores a quem dificilmente escaparão os rótulos que fazem as graças de quem não logra ler poesia sem o "binóculo rotular". No que aos tiques do meio poético diz respeito, julgo particularmente irritantes a "paranóia da canonização" e a "esquizofrenia segregacionista". Sempre a arte se construiu, mormente a poesia, a partir do conflito entre a imaginação e a representação. Podemos falar de racionalistas e de empiristas, de surrealistas e de neo-realistas, de trágicos e de cómicos que isso não resolverá em nada aquilo a que o poema está, pela sua própria condição, limitado: ser a expressão de uma voz. A partir daqui importará somente entender a voz no contexto das suas motivações, entendê-la como perspectiva, procurar compreendê-la no imo dos seus intentos, evitando encontrar nela mais que a sua própria natureza. Não vale a pena misturar alhos com bugalhos. Um poema é o que é, tem o valor que tem, sempre no limite da sua circunstância. A avaliação que possamos fazer dele estará obviamente condicionada pelo gosto pessoal, mas não mais do que pela capacidade de nos deixarmos penetrar pelo universo do poema tanto quanto nos seja possível penetrá-lo. Note-se, a título de exemplo, na relação que os poemas de Movimentos no Escuro mantêm com a arte cinematográfica. Eles não são meras representações poéticas dos filmes visados, não procuram ser descritivos, mesmo quando parecem sê-lo, nem se deixam circunscrever por uma eventual perspectiva que o poeta tenha formulado a partir da experiência desses mesmos filmes. Estes poemas denotam, sublinhe-se o verbo, a relação do poeta com o seu mundo a partir duma espécie de fusão, mais do que apropriação, das imagens cinematográficas com as imagens poéticas. A minha vida dava um filme, dizemos por vezes. No caso presente, o filme alicerça já uma reflexão possível da nossa vida. É nesse sentido que o poeta arrisca a experiência de um filme como princípio de um universo imagético que lhe permitirá reflectir o seu presente. Veja-se como o poeta era «o rapaz de cabelo verde» do filme de Joseph Losey, ou como o seu pai podia ter sido o personagem central de Ladrões de Bicicletas, de Vittorio de Sica, ou como é possível ser-se um soldado em Gudalcanal quando se escreve em sintonia com A Barreira Invisível, de Terrence Malick. Comparáveis com um mundo que é o nosso, os filmes que servem de pretexto a estes poemas funcionam como o magma metafórico dos próprios poemas. O tom geral é pessimista, por vezes irónico, assumidamente desesperado, desencantado. A linguagem é simples, servindo-se amiúde de expressões comuns (entre a espada e a parede, engolir em seco, entregar o ouro ao bandido, etc.) como sustento de uma clara inclinação aforística: «Não saber é antegosto / dos estetas e ferrete dos pequenos» (p. 28). O ambiente é quase sempre de uma constrição profunda, sendo alguns poemas absolutamente desoladores. É o caso de NON, OU A VÃ GLÓRIA DE MANDAR – MANOEL DE OLIVEIRA (1990), que termina assim: «só quem aprendeu a amar a derrota, / a fazê-la sua, a lutar por ela, poderá desatrelar-se / do tandem de agonias que os antigos figuravam / sob o nome de temor e esperança» (p. 50). Outros são extraordinárias glosas do sentimento de culpa, da humanidade, do carreirismo político, do amor, da desesperança.quarta-feira, 22 de março de 2006
MANIFESTO
Se bem sei, as Edições Triunvirato são um projecto editorial neófito com sede em Matosinhos. Uma das primeiras propostas é este Manifesto Anti-Pitta, ou Uns e os Outros, Todos e Alguns & Etc., de Leopoldino Serrão. O objecto da farpa, está de ver, é o crítico literário Eduardo Pitta. O autor do manifesto tem o cuidado, entre outros, de deixar bem claro: «Bem entendido, senhor Pitta: nem eu sou Almada, nem Vosselência Dantas» (p. 35). Disso, digo eu, podemos todos ficar descansados. Ponham-se então de lado as comparações indesejáveis com o congénere do início do século XX, tão carinhosamente votado à pessoa de Júlio Dantas pelo punho acérrimo de mestre José de Almada-Negreiros. Devo dizer que sou fã de manifestos, de textos escritos como quem grita, senão como quem berra, textos com alvos claros e evidentes. Sou adepto do insulto, da denúncia, do escárnio e do mal dizer quando têm razão de ser. Já lá irei. No entanto, é bom lembrar que a maledicência não é para quem quer; é para quem sabe. É preciso talento para o insulto, talvez das artes do espírito mais nobres e exigentes. Na falta desse talento, fica o leitor com a sensação de ter experimentado uma sopinha sem sal. Quando o manifesto é impelido por razões que não sejam as de alguém manifestar alguma coisa, ele metamorfoseia-se rapidamente de lança em escudo. É o que aqui acontece. Passo a explicar, partindo das explicações fornecidas pelo autor nos textos agora coligidos numa secção intitulada Os outros. A Polémica. Leopoldino Serrão foi o organizador de Os Outros. Antologia de Poesia Portuguesa: Anos 80 e Depois. Em texto publicado no suplemento Mil Folhas, disponibilizado agora em anexo ao manifesto aqui em causa, Eduardo Pitta resumiu a coisa assim: «esta antologia reflecte o pior do caciquismo literário» (p. 44). Bem mais grave que esta acusação, extensível a tantas outras antologias, era a de alguns antologiados – «4, num total de 48!...», segundo Leopoldino Serrão – não terem sido contactados. Em resposta ao artigo de Eduardo Pitta, o autor da antologia terá procurado defender-se com um texto que acabaria por não ser publicado no Mil Folhas. Aparece esse texto agora neste volume. Assim como também aparecem um artigo publicado no suplemento Actual, acusando de fraudulenta a alegada autorização da editora Assírio & Alvim para a reprodução dos poemas dos seus representados, e subsequentes reacções do antologiador. Desta forma se explica, em traços gerais e breves, mais uma das polémicas do adorável meio literário português. Parece-me importante a reconstrução dos factos para a interpretação do manifesto, pois o que aqui está em causa é o que verdadeiramente o motiva. Um manifesto anti-qualquer coisa, dirija-se ele a uma pessoa no singular, a um grupo de pessoas ou a uma espécie de representante de um estado geral de coisas, deverá ser levado a sério quando tem por causa e motivo algo mais profundo do que o seu autor haver sido criticado, censurado, ostracizado, humilhado, o que quer que seja. Quando o manifesto é reacção em vez de acção, ele cheira a ressentimento. Como sabemos, o cheiro do ressentimento é como o cheiro da boca do Dantas. Este é pois um manifesto mais em forma de escudo do que em forma de lança. Até porque, como lança, ele perfurará pouco mais que manteiga. Não chega a ser cómico, dada a penúria no insulto. Além de demasiado extenso, peca pela repetição exaustiva da palavra gay e afins. Não entendo o alcance, mas seria bom lembrar que a homossexualidade não é defeito. Como já dizia a minha avó: no pior dos casos, é feitio. Eu estava a ler este manifesto e ansiava pelo momento em que Leopoldino Serrão me obsequiasse com qualquer coisa do género: «O Pitta é uma elipse d’ elle próprio!» Mas não, o mais que temos é algumas puerilidades como a velha história do «crítico-poeta, o poeta-crítico, o crítico literário, o literato da crítica, o poeta-só-poeta, o artista, o contista, o diarista e… tudo?» (p. 10) Somos homens da renascença, porra! Não há mal algum em se ser tanta coisa ao mesmo tempo. Também decepciona este manifesto por trocadilhar (o verbo é meu) os nomes de alguns dos visados: Guálter Lugo Pai, Borges Leis-Cá, Tadeu Flautista, José Atílio-Félson, Ruiz Taciano Carlos, o crítico e jornalista António Soldado… Mais do mesmo para os jornais: Excesso, Pretendente… Na verdade, não tem graça. Ponto final. Se calhar não era para ter, mas a mim apetecia-me antes um manifesto em caps lock, sem parêntesis, que não fosse tão de borracha.terça-feira, 21 de março de 2006
sexta-feira, 17 de março de 2006
quinta-feira, 16 de março de 2006
COLISÃO
Colisão, de Paul Haggis, granjeou o Óscar de melhor filme na edição deste ano dos prémios cinematográficos de Hollywood. Eu, que acabei de o ver, até consigo entender porquê: a academia gosta de premiar filmes sofríveis que vão ao encontro das expectativas comerciais. Tem sido quase sempre assim, mesmo quando assim não foi. A título de exemplo, vejamos o que temos nos últimos 10 anos: Braveheart, The English Patient, Titanic, Shakespeare in Love, American Beauty, Gladiator, A Beautiful Mind, Chicago, The Lord of the Rings: The Return of the King e Million Dollar Baby. Pensem bem e depois digam-me se algum destes mereceria entrar no vosso top 10 pessoal? Colisão é basicamente uma adaptação ardilosa do excelso Magnólia, de Paul Thomas Anderson. O problema é que o que este tem de arriscado, nomeadamente um remate tão épico quão desconcertante, Colisão limita-se a ter de… certinho e direitinho. Dizer que se trata de um filme polémico é passar um atestado de estupidez a qualquer cidadão menos adormecido. Não que seja um filme pacífico, mas está longe de ser polémico - no sentido de nos propor algo que nós não estejamos já fartos de saber. Há séries televisivas bem mais polémicas. Pode-se no entanto encontrar algo mais neste filme do que uma mera abordagem à complexidade dos problemas étnicos na sociedade americana. À primeira vista, a colisão que aqui se opera é uma colisão de cariz social. Mas há outra, também ela implícita em todas as personagens, que me parece bem mais interessante: trata-se da colisão do homem consigo mesmo. O que cada uma das personagens de Colisão nos oferece é uma representação do encontro do indivíduo com as suas contradições, sempre a partir do confronto com o outro, em situações diversas, onde o outro aparece ao mesmo tempo como anjo e demónio, princípio de erosão e de salvação. Deste modo, as relações que se operam em Colisão são sempre ambivalentes, marcadas tanto pelo ódio ao outro, esse ódio com raiz na diferença da cor da pele, como pelo amor, um amor que se erige na descoberta da humanidade que reside no íntimo de cada um. Politicamente correcto, pois então. Todas as personagens vivem este conflito, embora o polícia interpretado por Matt Dillon seja especialmente interessante. Até neste ponto a colagem a Magnólia é inevitável, dado que também nesse filme era um polícia quem mais nos atraía do princípio ao fim da película. Neste caso trata-se de um agente com comportamentos racistas, relacionados com frustrações ligadas ao passado familiar, que, às páginas tantas, se vê em mãos com a necessidade de auxiliar num acidente de viação uma das suas vítimas. Anteriormente provocada e humilhada pelo agente, esta mulher tem agora a sua vida nas mãos de alguém por quem ela não deseja sequer ser tocada. Essas cenas em que, mais ou menos acidentalmente, se processa a tal colisão íntima são recorrentes, pontuando a narrativa na direcção de um fim que, aqui ao contrário de Magnólia, nunca chega a suceder. Apenas neva. Convenhamos que neve em Los Angeles fica bastante aquém de uma monumental chuva de sapos. No entanto, a forma como essas cenas são filmadas, em câmara lenta e com banda sonora sentimental de fundo, esvazia-as por vezes de conteúdo. Em mim obtiveram o resultado de um enfado que fui procurando ultrapassar com a racionalização possível do que, de outra forma, merecer-me-ia apenas a complacência que uma novela mexicana me merece. quarta-feira, 15 de março de 2006
EQUAÇÕES E TEOREMAS
Se eu soubesse que era para ser assim, não te tinha escrito poemas. Tinha-te antes prendado com equações e teoremas.
terça-feira, 14 de março de 2006
COISA RUIM
Já toda a gente sabe a história deste Coisa Ruim, filme de Tiago Guedes e Frederico Serra que mereceu a honra de abrir a edição deste ano do Fantasporto. Também já toda a gente percebeu que parte do sucesso do filme está associado ao argumentista, o jornalista Rodrigo Guedes Carvalho. Não vou perder-me nos detalhes nem nas comparações com outros filmes do género. Na verdade, nem sei bem se é justo considerar-se este um filme de género. O que mais me agradou em Coisa Ruim foi precisamente essa indefinição. Há actores com excelentes desempenhos, óptimos cenários, uma banda sonora eficaz, um argumento… banal. A máquina promotora funciona com justeza: «não pretende ser um filme para provocar sustos, mas para abrir os olhos ao medo». Prendamo-nos a este último aspecto. O medo é hoje a sombra que o nosso quotidiano arrasta. O medo é o fantasma sempre presente - o fantasma do terrorismo, o fantasma da pandemia, o fantasma da catástrofe ambiental, etc. Não por acaso o cinema tem-nos presenteado com uma "panóplia" imensa de filmes onde o medo está no centro das atenções. O medo como ameaça oculta, o medo como princípio da manipulação dos povos, o medo como princípio da desintegração da harmonia social, o medo como fragmentação da verdade, o medo como motor de uma paranóia sempre ao serviço do consumo, o medo. Neste caso específico, o medo aparece numa das suas mais vetustas formas: o medo como objecto de prazer. Na verdade há toda um erotismo possível em torno do medo que passa pela atracção que sentimos pelo desconhecido, mas também por uma espécie de jogo de sedução com o inexplicável. Ou seja, em tempos niilistas, em tempos de uma razão onde o nada é a razão de tudo, a possibilidade de haver qualquer coisa para lá do nada alicerça um fascínio e uma paixão que podem tomar diversos caminhos. Notemos na proliferação de seitas, de sincretismos, eclectismos, na recorrência à mezinha e ao bruxedo quando nada mais nos ampara, notemos no gosto tantas vezes desinformado pelas artes dos astros e suas associadas (como se dos astros não se fizesse a ciência que se faz da terra). O que quero dizer é que o diabo está entre nós como nunca antes. Isto é: a morte declarada de deus, o declínio do religioso, tem vindo a moldar-se no culto do esotérico. O homem não consegue viver do nada no nada, o homem precisa de alguma coisa. Quem o afirma é um ateu convicto. As sessões espíritas são um sucesso, uma fonte de rendimentos extraordinária, os cultos do diabo, os rituais do demo, são bastante populares junto das camadas mais jovens, o satanismo, na sua forma mais desmaiada, faz as delícias de qualquer adolescente à procura de sensações fortes, ele é o metal satânico, o pop satânico, o flop satânico... Será por acaso que as estantes das nossas livrarias se enchem de livros esotéricos, livros sobre anjos caídos e alminhas perdidas? Códigos não sei das quantas, dragões não sei do quê, seitas das rosas e dos trevos e dos quatro ventos e o que lhes valha… Coisa Ruim vem em boa altura e cumpre: «abre os olhos ao medo». Tem pechas. Não responde, por exemplo, a isto: poderá um filme ser o que não é? Isto é, poderá Coisa Ruim ser Coisa Boa? O medo, o medo é coisa boa. Na verdade, também ele pode ajudar-nos a amar. Se eu não temer pelo outro, poderei eu dizer que o amo? Não é o medo que impede o amor, nem mesmo o medo que eventualmente sintamos de amar. Pois o medo de amar não é senão a confirmação do amor. Ter medo de algo é uma forma de afirmar esse algo que se teme. O que impede o amor é outra coisa que não o medo. Eu diria antes que o que impede o amor é o próprio amor. Mas isso é poesia que já nada tem que ver com as coisas do demo. Curiosidade: de medo se escreve demo, de demo se escreve odem, de odem se escreve doem e vice-versa.Adenda: média de estrelinhas que Coisa Ruim mereceu nos jornais Público, Diário de Notícias e Expresso - 2,4.
domingo, 12 de março de 2006
GRAMATICAR
Um cão desmanchado gritou dentro de mim, um cão agachado, submisso e obediente. Por ele desaprenderia o espanto para me concentrar apenas na arte de roer as unhas até ao sabugo. Tolerei durante anos, atrelado, a volta ao quarteirão, enquanto farejava a hora de fazer cocó e chichi. Um cão desmanchado espevitou para fora de mim, veio morrer-me aos pés com um sorriso embuchado. Que esse animal entorpecente que outrora me habitou, não mais volte a ganir os seus dentes. Com a boca bem gritada, hei-de ser o sonho dos seus pesadelos. Quiçá o antídoto dos seus venenos.
sexta-feira, 10 de março de 2006
INGENUISMO
Eu queria fazer uma pintura que fosse toda ela uma colagem de pinturas anteriores. Eu queria fazer uma colagem que fosse uma pintura. Eu queria pintar-me como quem se cola. Eu queria colar-me como quem se pinta.
quarta-feira, 8 de março de 2006
TEXTOS SOBRE HÖLDERLIN
Publicado com discrição, numa editora discreta mas irrepreensível, estes Textos sobre Hölderlin interessarão principalmente aos leitores mais exigentes do poeta alemão. Não sei se haverá muitos, mas sei que, talvez por isso mesmo, estes textos deveriam interessar não só aos leitores de Hölderlin como também aos leitores de filosofia. Isto porque a abordagem de Philippe Lacoue-Labarthe (n. 1940) está muito mais focalizada na dimensão filosófica do que na dimensão lírica da obra hölderliniana. Do mesmo autor, recordo, já as Edições Vendaval haviam publicado entre nós outro livro: Duas Paixões (Artaud, Pasolini). A paixão Hölderlin manifesta-se aqui na reunião de três conferências, aparentemente explícitas no objecto de análise, proferidas em épocas diferentes: Hölderlin e os Gregos (1979), A Cesura do Especulativo (1978) e A Coragem da Poesia (1993). O facto de não terem sido coligidas cronologicamente leva-me a crer numa tentativa de arrumação que favorecesse as interdependências temáticas entre cada uma das conferências. Deste modo, arrisco afirmar, com atrevida simplificação, que as três conferências correspondem respectivamente a abordagens que têm em vista uma relação entre eventuais teses sobre arte, filosofia e política no seio da obra de Hölderlin. Como é sabido, o romantismo e consequente idealismo alemães caracterizaram-se, entre outras coisas, por uma ambicionada revivência do ideal helénico. A obra de Friedrich Hölderlin (1770-1843), de maneira distinta da dos amigos Schelling e Hegel, testemunha precisamente essa demanda de reviver no espírito alemão o espírito da Antiguidade. Para tal era necessário demarcar uma oposição entre o Antigo (Naïf) e o Moderno (Sentimental). A interpretação que Lacoue-Labarthe leva a cabo na primeira das conferências vai no sentido de relevar o papel do idealista alemão num abalo a esta oposição. De facto, a experiência da tradução da Tragédia Grega levou Hölderlin bem mais longe do que os seus pares no que concerne ao pensamento sobre os Gregos. Este, ter-se-á deparado com a impossibilidade limite da tradução daquilo que era em si mesmo «inimitável», ou seja, a Grécia: «aquilo que conhecemos dela, que é talvez o que ela foi ou o que manifestou de si, não é o que ela era na realidade» (p. 19). Tal intuição abrirá as portas a uma singular filosofia que se originará, precisamente, na base de uma noção acerca da tragédia enquanto matriz do pensamento especulativo. Será esse o tema aprofundado na segunda e mais extensa das conferências. A pergunta que Lacoue-Labarthe coloca é: «o que tem a tragédia a ver com o nascimento do pensamento especulativo e da onto-lógica?» (p. 39) A resposta à pergunta está, de certa forma, incutida naquilo que a origina. Isto é: com a experiência da inimitabilidade da tragédia, Hölderlin apercebe-se que uma cultura não pode regressar a si (apropriar-se) «senão sob a condição de se ter inicialmente desapropriado» (p. 20). Deste modo, a tragédia é o lugar por excelência da tensão que define toda e qualquer cultura: «a tragédia expõe a (des)propriação» (p. 69). Restará então aferir o alcance político destas considerações. Para tal, Philippe Lacoue-Labarthe, na terceira e última conferência aqui traduzidas, socorre-se das leituras de Hölderlin realizadas por Heidegger e Benjamin. Em foco estão as versões do poema Coragem de Poeta (há pelo menos uma tradução, de Paulo Quintela, disponível em língua portuguesa). O que se reivindica é uma qualidade «arqui-ética» para a poesia, ou seja, a coragem, pressentida já no poema trágico. Para Heidegger, essa coragem manifesta-se na responsabilidade «de saber se os Alemães têm capacidade ou não para entrar na história (…), tal como os Gregos que, com coragem inaudita que a tragédia testemunha, se tornaram Gregos» (p. 86). O poeta seria, neste sentido, um héros, um «modelo». Já da leitura de Benjamin o que se releva são as noções de testemunho e de mártir, respectivamente pressupostos do poema e do poeta. O pressuposto do poema seria então a tarefa do poeta, ou seja, aquilo que o poema testemunha. A conclusão do filósofo francês é a seguinte: «o que foi testemunhado é a «falta de Deus», como dizia Hölderlin, ou – o que vai dar ao mesmo – da nossa condição a-teia (gr. Á-theos)» (p. 105). Resta dizer que coube a Bruno Duarte a tradução da primeira das três conferências e a Joaquim Afonso a tradução das restantes.domingo, 5 de março de 2006
LAVRA
Só a absurda superabundância de livros de poesia vindos a lume nos meses de Novembro e de Dezembro, tendo em vista a orgia consumista do Natal, pode explicar a desatenção a que são sujeitas certas obras. É o caso deste Lavra, reunião de 30 anos de trabalho poético pelo punho de Ruy Duarte de Carvalho (n. 1941). Nascido escalabitano, optou o poeta por naturalizar-se angolano decorria o ano de 1963. Da sua biografia importa reter a formação em Antropologia, claramente denunciada em vários momentos de uma poesia que começou a tomar forma em 1972 com o livro Chão de oferta. Ao corpo poético (des)conhecido, que vai do título inicial a Observação directa (2000), juntam-se mais dois conjuntos de poemas, compostos de versos datados entre 1971 e 1998, com os títulos singelos Diário (1993-1998) e Adenda. Não se tratando exclusivamente de uma obra reunida, esta é principalmente uma obra revisitada, pelo que alguns poemas, como indicado pelo próprio autor em nota de abertura, terão sido ligeiramente modificados. Termina Ruy Duarte de Carvalho essa nota chamando a este um «volume de memórias». Pois bem, ao leitor desprevenido parecerá este volume tudo menos um «volume de memórias». Bastará olhar para o aspecto gráfico de alguns poemas, para que o sentido corrente dado à expressão seja aqui tomado por mera provocação. Por outro lado, se tivermos em conta que um «volume de memórias» pode ser algo mais do que um confessionário ou um depósito de vivências, então justifica-se e adquire sentido designá-lo dessa maneira. O que extraímos desta lavoura são várias e diversificadas configurações da memória, desiguais, talvez, na sua qualidade poética, no que esta pode ter de imagético. A proveniência dessas imagens, das imagens que nos configuram a memória, não se reduz às experiências vividas. Elas virão tanto da experiência como dos mitos mais íntimos que ligam o homem à terra, que o unem às forças da natureza, numa interdependência acerca da qual se faz ciência mas também se pode fazer poesia. A meio desta Lavra há um livro de 1982 - ondula, savana branca - que pode ser interpretado como uma das chaves para a decifração desta poesia. Nesse livro o poeta procurou transformar «vários testemunhos da expressão oral africana» (oráculos, profecias, ritos, canções, ensinamentos, litanias, iniciações, etc.) em poemas na língua de Camões. A este trabalho de transformação corresponde uma atitude poética que consiste na captação de sinais através da confirmação dos mesmos «no encontro da memória com a matriz» (p. 229). É precisamente esta noção de sinal que encontramos na Arte Poética que abre o livro Hábito da Terra (1988), mas que percorre toda a obra desde o início, quer quando assume uma dimensão mais erótica (Exercícios de crueldade, 1978), quer quando envereda por uma dimensão mais irónica (Ordem de esquecimento, 1997). São estes sinais, sinais vindos da terra, sinais remotos que perduram ao longo de gerações, que ajudam a traçar as rotas e as coordenadas dos lugares de onde esta poesia emerge. Talvez por isso mesmo estes poemas não resistam a classificações tão relativas como as de herméticos, iniciáticos, etnográficos, o que quer que seja. O que lhes vislumbro de mais interessante é a forma como procuram superar uma teoria demiúrgica da representação, segundo a qual «a representação de uma coisa qualquer faz-se por meio do corpo, imitando o corpo aquilo que se quer representar» (Platão, Crátilo). Nestes poemas parece tentar-se uma fusão do corpo com a terra, ou seja, com o objecto da representação, estando sucessivas vezes patente essa equivalência entre os reinos animal e mineral. Como nesse poema soberbo intitulado justamente Sinal (p. 128), onde a glorificação da chuva nos aparece cantada desta forma: «E aquela chuva aproveitou aos fósseis e houve minerais / que se animaram e até pedras comuns a transmudar-se em carne» (p. 129). Esta é, deste modo, uma poesia onde a palavra é colocada na sua função original, isto é, na função de dar origem.
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