sexta-feira, 28 de julho de 2006

VICIOSOS


Os Viciosos
de Abel Ferrara
Não podemos pedir muito à História. Não é justo. Porém, o muito que nos ensina pode resumir-se a um único objecto: elaborar as perguntas correctas. A questão hoje já não pode ser sobre a natureza do mal, nem mesmo sobre a sua origem. Debalde muito se perdeu e nada se conquistou nesse campo de batalha. Origem e natureza, no que à matéria diz respeito, sempre andaram de mãos dadas. A questão a colocar deverá ser outra: como lidar com o mal? E esta não é outra senão a questão que desde sempre andámos a colocar acerca de nós próprios: quem somos? Perguntarmo-nos sobre o mal é perguntarmo-nos acerca de nós próprios. A História ensinou-nos que o mal não tem outra origem, ele é a essência da humanidade. Só quem se coloca no centro das suas dúvidas pode saber o que é o mal, só a esse o mal interessa, pois só a esse ele atinge. O que atinge o mal? A consciência do mal ele mesmo. Daí que ao mal possamos associar a linguagem, pois, como diria Wittgenstein, «os limites da minha linguagem significa os limites do meu mundo». No entanto, no mesmo Tratado, o filósofo austríaco negará à vontade o papel de suporte de um juízo ético. The Addiction, filme que Abel Ferrara estreou em 1995, parece contradizer esta ideia. O mal existe de sermos fracos perante a sua presença. Isto é, uma vontade débil é o que permite a manifestação do mal nos nossos actos. A vontade pode pois ser o alicerce do único juízo ético que vale a pena tentar formular: não clames, age. Dito de outra forma: não te deixes dominar por aquilo que te domina. Ou ainda: procura na vontade o domínio certo da razão errada. É à razão que vamos buscar o mal, é nela que reside a consciência de todas as possibilidades que negamos no momento em que praticamos uma acção. Lili Taylor, a Kathleen Conklin do filme de Abel Ferrara, é uma estudante de filosofia atormentada por questões similares a estas. Ética, moral, justiça, desaguam sempre na forma de lidar com o mal. O filme começa com imagens de crimes de guerra, situações pavorosas perpetradas por soldados americanos. Em 1995 ainda não tínhamos os atentados terroristas ao World Trade Center, talvez o mais exemplar dos gestos maldosos. Que se compare, só mesmo a máquina de morte que foi a II Grande Guerra. Digo-o pelo que tiveram de puramente racional, matemático até. São esses os fantasmas que consomem a personagem central deste filme. Ferrara aproveita os mitos ancestrais do vampirismo, refaz a tradição, reconstrói a história do mal. O mal é o vírus que nos circula no sangue, transmitido por contaminação. A filosofia? Só mais uma máquina propagandística ao serviço dessa contaminação. Socorro-me de um Dicionário de Símbolos: «O vampiro simboliza o apetite de viver, que renasce cada vez que se julga estar saciado e que se esgota em satisfazer-se em vão, enquanto não for dominado». Não é outra a nossa história. O vampiro é a própria natureza do homem elevado ao nada que é, o homem negando-se a si próprio, o homem temendo-se, não querendo ver em si a morte que caminha. Estamos mortos e mais mortos estamos se o não sabemos. O medo de morrer é já a nossa morte. Poderá ser outro o nosso mal? Há muitas citações neste filme de Abel Ferrara: William Burroughs, Sartre, Heidegger, Feuerbach, Proust, Kierkegaard… Não sei se também por isso o não devamos considerar mais um tratado em imagens acerca do mal do que um mero filme de vampiros. A angústia existencial que o ameaça não lhe nega a intenção, isto na exacta medida em que o torna intemporal. Mesmo tendo em conta que existem épocas mais sem tempo do que outras. A que agora vivemos, quanto a mim, já tem tempo a mais.

terça-feira, 25 de julho de 2006

JERUSALÉM

Achei que tinha chegado a altura certa para ler Jerusalém, romance de Gonaçlo M. Tavares (n. 1970) galardoado com o Prémio Ler/Millenium-BCP. Não vou entrar em pormenores técnicos sobre a natureza do romance, nem sobre a forma circular que serviu à construção da narrativa. Também não me interessam as evocações, os diálogos mais ou menos declarados com outras obras. Prefiro ir direitinho à história de Theodor e Mylia Busbeck. Ele, médico e investigador de saúde mental, a braços com uma tese sobre a «distribuição do horror ao longo dos séculos»; ela, esquizofrénica, ex-paciente de Theodor, «saudável a nível físico e a nível espiritual», anormal «nas vontades». Divorciam-se depois de Mylia haver traído Theodor com Ernst Spengler, paciente do Hospício Georg Rosenberg, «à frente de outros doentes». Do adultério nasce «Kaas Busbeck, filho de Mylia e Ernst Spengler, mas formalmente registado como tendo por pai o doutor Theodor Busbeck» com quem vive. Percebemos estar implícito nesta trama um ímpeto alegórico que não compete aqui desconstruir, mas esse mesmo ímpeto acaba explicitado quando a única frase onde aparece o nome da cidade que dá título ao livro - «Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seque a minha mão direita» (p. 170). – surge refeita 30 páginas depois: «Se eu me esquecer de ti, Georg Rosenberg, que seque a minha mão direita» (p. 200). Este paralelo traçado entre a cidade e o hospício pode não querer dizer nada, mas pode também querer dizer muito. A dimensão alegórica do romance de Gonaçlo M. Tavares é, quanto a mim, a sua evidente mais-valia, não tanto pelo que a mensagem acarrete de político como pelo que deixa supor de filosófico. O hospício, como a cidade santa, é o local onde se busca tratamento para a “alma”, não deixando de ser, pelas suas mais ou menos perceptíveis contrariedades, um local onde a “alma”, obrigada a uma normalidade que não é sua, ainda mais se afasta da sua natureza. Note-se como o director do Hospício Georg Rosenberg coloca o problema da loucura: «O doutor Gomperz possuía, assim, da loucura – embora não se atrevesse a expressá-lo – uma imagem associada à imoralidade: louco é o que age imoralmente e louco ainda é o que agindo moralmente pensa de modo imoral. A loucura seria, assim, uma pura falta de ética, momentânea, porventura, e portanto curável, ou definitiva, eterna, e portanto: incurável» (p. 107). À disciplina moral corresponderia, portanto, a normalidade. Deslocadas nos parecem as palavras do doutor Gomperz quando constatamos serem as mais inexplicáveis imoralidades praticadas em nome dessa normalidade, da mesma maneira que em nome dessa normalidade parecem querer justificar-se, tantas vezes, os gestos mais amorais. Vêm-nos à memória as teses de Arno Gruen, quando em A Loucura da Normalidade concluía ser o esforço por agradar aos que nos negam como pessoas «a força propulsora na vida». Mylia, aparentemente «desligada do seu interior», é ainda quem, pela dor, mais a ele está conectada: «Estar doente era uma forma de exercitar a resistência à dor ou a apetência para se aproximar de um deus qualquer» (p. 7). O medo diário, o terror ininterrupto, o horror, o perigo, que são já causa e consequência da doença não podem ser tratados senão pela resistência à total e absoluta desconexão com o Eu. Daí que para o final duas dores apareçam bem distinguidas: a dor má (do espírito), porque castiga a vontade de viver; a dor boa (do apetite), porque reforça a vontade de viver. Estou em crer que outro dilema não será o de Jerusalém. Do livro e da cidade.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

DOIS LIVROS DA AVERNO


Após a edição de uma antologia de José Ángel Cilleruelo (n. 1960), a Averno propõe-nos agora um poema de José Mateos (n. 1963). Ambos traduzidos para português por Joaquim Manuel Magalhães, estes livros são, de certo modo, a confirmação de que alguma da poesia espanhola actual tem lugar nos escaparates das livrarias portuguesas. Ainda bem que assim é, pois de outro modo não nos seria possível um acesso tão facilitado a esta extraordinária névoa. Organizado em oito momentos, o longo poema de José Mateos é um notável exercício reflexivo sobre a vida. Não se julgue, precipitadamente, estarmos perante mais um compêndio de experiências quotidianas atravessadas pelo sentimento de ausência de sentido. Mais do que o sentido da vida, o que aqui se questiona é a vida ela mesma. A dúvida, como elemento essencial na dissecação desse mistério, é o fio condutor destes versos. O questionamento que ocorre ao longo do poema é, antes de mais, o magma da própria vida feita poema: «Quem sabe que mistério é uma vida / vertida num papel, letra por letra?» (p. 11) A dúvida não tem aqui o lugar de princípio ou método a partir do qual se acede à verdade, pois ela é a própria verdade. Uma verdade que é sempre névoa, mistério, sinal, indício. A segunda pessoa que se intromete na meditação é o sujeito poético interpelando-se, ao mesmo tempo que, dando ao leitor a possibilidade de assistir a essa interpelação, o interpela, criando um efeito de identificação através das questões profundamente humanas que levanta: «Sempre que algo finda, que alguém morre / e no silêncio te invade a fadiga, / teu ai rebelde reza a um Deus sem nome» (41). Mas este não é um Deus que se pense, inventado pela razão, este não é o Deus dos cartesianos, o Deus descrito nos livros. Este «é o Deus da fé, o Deus obscuro» (p. 43). É um Deus sempre misterioso e indecifrável, provavelmente o restante sinal que provém da debilidade limite do ser humano: a finitude. Poesia angustiada, esta não é uma poesia que negue radicalmente a esperança. Aponta a alegria e a vida, sem negar a amargura e a morte. No posfácio, Joaquim Manuel Magalhães fala de uma «elegia do humano que tem a morte como finalidade de saber» e de um «pressentimento do divino, pela dúvida do divino». Nem mais. O resto consubstancia-se numa das mais belas “definições” de poesia que li nos últimos anos: «Poesia é mostrar com a luz ténue / de poucas palavras, com o archote / de uma língua, pesem-nos as palavras, / a fundura que nos põe sem palavras» (p. 57). Bem diferentes são os trinta poemas, de Vítor Nogueira, que compõem o conjunto que dá pelo nome de Senhor Gouveia. Director do Teatro Municipal de Vila Real, casa de cultura que tem vindo a editar alguns livros de poesia de autores afectos à Averno, Vítor Nogueira narra-nos em verso as aventuras de um tal Senhor Gouveia nos idos da década de cinquenta. Aparecidos pela primeira vez na desapreciada Periférica, alguns destes poemas podem ser lidos como uma espécie de parábola, em registo irónico, de uma certa forma de se estar na vida – mormente, mas não só - literária. O tom procura ser castiço, aproximando-se ligeira e contidamente do picaresco. O retrato traçado do Senhor Gouveia, escrevinhador de sonetos e alugador de quartos, tipifica o lado mais provinciano de um Portugal demasiadamente entregue à compostura e à respeitabilidade, assim como parvamente burguês e arrivista. Passeando «o seu spleen provinciano» pelas «ruas desertas», este escrevinhador de versos desconforta apenas pela apavorante actualidade das preces: «Deus proteja / a língua de Camões de poetas sem qualidades» (p. 36). Enfim, não será de mais dizê-lo: Deus nos proteja a nós dos gouveias deste mundo.

sexta-feira, 14 de julho de 2006

UNFORGIVEN

Unforgiven 1992
Unforgiven
de Clint Eastwood
O «western» foi das melhores invenções do cinema norte-americano. Curiosamente, alguns dos meus filmes preferidos no género foram assinados por um realizador italiano de seu nome Sergio Leone. Lembro A Fistful of Dollars (1964), For a Few Dollars More (1965) e The Good, the Bad and the Ugly (1966). Apelidados de «spaghetti westerns», têm os três em comum Clint Eastwood como protagonista. O quanto estes filmes ajudaram a catapultar Eastwood como actor é hoje parte da história do cinema, assim como o forte contributo que terão dado à formação de um dos mais interessantes realizadores de sempre. Na filmografia de Clint Eastwood encontramos três «westerns» muito bons: The Outlaw Josey Wales (1976), Pale Rider (1985) e Unforgiven (1992). Aspecto comum aos três, poucas vezes referido, é a quase ausência de índios. Podia tratar-se de um pormenor de somenos importância, não fosse o caso de em todos eles os índios aparecerem em breves momentos aparentemente irrelevantes. Contudo, os índios estão lá. À excepção de The Outlaw Josey Wales, onde um antigo chefe Cherokee intervém na narrativa com alguma consistência, sabemos que os índios que aparecem fugazmente são índios porque nos é permitido identificá-los através de meros pormenores físicos. A verdade é que todos os nativos estão representados nestes filmes em personagens aculturadas. Em Unforgiven vemos um índio vestido de «cowboy» numa carruagem de comboio, sentado ao lado de outros «cowboys» dos quais apenas se distingue pelas tranças, e a mulher de um dos personagens fundamentais – o negro Ned Logan, soberbamente interpretado por Morgan Freeman – é índia. Assim se retrata, de forma subtilmente magistral, um território estigmatizado pela extirpação da sua identidade. Não se trata já de interrogar os efeitos da chegada dos europeus à América do Norte, as guerras, os genocídios, as deslocações forçadas, as epidemias que levaram, em 400 anos, a um declínio na ordem dos 6 milhões de população índia naquele território. Trata-se antes de reflectir os alicerces desapiedados de uma nação e um certo senso de justiça, tão particular por aquelas bandas. Unforgiven é, a esse título, um filme de génio. Com um elenco de luxo, entre os quais se destacam o acima referido Morgan Freeman, Gene Hackman (lembram-se dele em The Hunting Party, «western» dirigido por Don Medford em 1971?) e Richard Harris, o que Clint Eastwood nos propõe neste filme é uma jornada pelos dilemas morais da humanidade. William ‘Bill’ Munny encarna a natureza do mal (adormecida) na alma de um homem que, havendo cometido as maiores atrocidades, se entregou à paz da vida doméstica convertido pelo amor da sua falecida mulher. Basta um motivo para que esse mal adormecido desperte, algo imperdoável que justifique o pecado. O desconforto é inevitável, já que no final torna-se-nos impossível não estar do lado da vingança. De certa forma, é quase um alívio ver Little Bill Daggett, representação de uma justiça podre e hipócrita, ser assassinado de forma brutal no termo do filme. Porque aquele exercício de vingança não é um gesto desprovido de sentido. A justiça ali baleada é a mesma que a troco de meia dúzia de cavalos justificou o rosto esfaqueado de uma prostituta, é a mesma cuja impiedade rimava com a vaidade e a soberba dos que a impunham. De certa forma, é a mesma justiça que no séc. XVIII distribuiu aos índios mantas contaminadas com sarampo provocando, dessa maneira, a morte de milhares de nativos. Com Unforgiven não só o «western» sai homenageado, como também a justiça acaba relativizada. Pode o mal ser adormecido, pode a consciência moral de cada um ser narcotizada pelos desígnios do senhor. Não pode a natureza de um homem, como uma cicatriz, apagar-se enquanto ele for vivo, não pode a justiça confundir-se com o bem ou com a moral.

quinta-feira, 13 de julho de 2006

NEGRUME

O mais recente livro de poemas de Amadeu Baptista (n. 1953) intitula-se Negrume e chega-nos com a mais que credível chancela da & etc. Autor de uma vasta obra, iniciada na década de 1980, cuja desatenção a que tem sido sujeita só se justifica pela incúria e pela preguiça de quem a podia divulgar, Amadeu Baptista é autor de uma poesia, segundo António Cabrita, que «vive da tensão entre aquilo que descreve e o que a linguagem exuma» (Expresso, 10 de Janeiro de 2004). Do mesmo António Cabrita é a epígrafe que abre a segunda de três sequências deste livro, aquela que deu nome à recolha. Diz o seguinte: «Onde se lê coração ler errata». Vem pois desse erro o negrume que tudo tinge nestes poemas feitos de desencanto e de melancolia. Em cada uma das sequências, o que a treva permite vislumbrar é a espessura da amargura e o tormento de quem se sente afectado pelos «efeitos colaterais do mundo» (p. 49). Por intermédio do sujeito poético, acaba por ser esse mundo o que mais se evidencia no imo dos versos. Não se trata, portanto, de uma poesia confessional, nem mesmo descritiva quando assim possa parecer, esta onde o poeta e as vivências do poeta, as suas memórias, as angústias e a solidão, se transformam numa espécie de médium do mal-estar contemporâneo. Na primeira sequência, As Danações, a palavra doença sobrepõe-se a tudo. Partindo de uma citação de Rilke, Amadeu Baptista escreve 29 poemas, em forma de soneto, que podem ser lidos como um só a um ritmo avassalador. Ao mote acopla-se uma adjectivação torrencial, imprimindo à sequência uma dinâmica de leitura raramente conseguida. O efeito produzido é o de uma espécie de frenética catarse discursiva, onde a doença vai sendo descrita nas suas múltiplas formas. É a doença do mal, diabolicamente metamorfoseada, tomando, como diz a epígrafe de Rilke, «as particularidades daqueles que ataca». O poeta chama-lhe danação, fala em «coma profundo», «afasia», «convalescença», «recaídas várias», «derrames cerebrais», «peste», «revoltadas células», etc. Mas esta não é uma doença do corpo, se ao corpo insistirmos apor a alma. Esta é uma doença total, absoluta, «uma nova dimensão do real» (p. 17) que se pega a esse corpo integral e não cessa. É também uma doença reveladora: «afinal, / o mal não é a morte, mas sentir» (p. 19). No fundo, é deste sentir que se trata. A danação do poeta é sentir, é estar condenado a sentir, é não lhe ser possível esse grau de abstracção que tudo torna indiferente. A danação do poeta é estar no epicentro do mundo, asfixiado pela implacabilidade do mal que lhe penetra os poros sem pedir licença: «uma doença infecta, provocada / por balas tracejantes e episódios / retirados do acaso» (p. 20). A segunda sequência traz o medo à liça, as aflições e as dores pessoais. A linguagem sofre aqui uma espécie de descompressão, recorrendo o poeta por vezes a "termos mais vulgares": cona, fodido, caralho, puta. Mantém-se o tom destroçado, a tristeza em posto de comando, as aparentes contradições que inflamam a poesia: «tudo lamento, sem que lamente nada» (p. 44). Quer nesta quer na derradeira sequências, As Recriminações, a palavra morte assombra os poemas. Por vezes, em sentido dúbio; outras vezes, através dos fantasmas do suicídio, da viuvez, da perda. Surgem as memórias, a infância como tema, o pai, a mãe, os irmãos, Miragaia, o Rio Douro, mas sempre num tom que recusa o óbvio e logra equilibrar de forma primorosa o dentro e o fora de quem escreve: «Deus não está em toda a parte como meu pai,/ se Deus houvesse // explicar-se-ia a sucata,/ o esgoto a céu aberto,/ a imperfeição fidedigna de quem/ // dorme na rua por não ter milagre a que acolher-se» (p. 93). Para mim, o melhor livro de poesia portuguesa deste primeiro semestre de 2006. Não há o que desculpe passar-se ao lado de um livro destes.

sexta-feira, 7 de julho de 2006

LADRÕES DE BICICLETAS

Vittorio de Sica, Ladrões de Bicicletas
Ladrões de Bicicletas
de Vittorio de Sica

Na história do cinema mundial, o neo-realismo italiano apareceu como uma das correntes mais lancinantes do pós-guerra. Este tipo de classificações, como sabemos, pode prejudicar o olhar sobre uma obra. Não sendo especial adepto de ismos, prefiro esforçar-me por uma perspectiva atenta ao que num produto artístico haja de mais singular. A verdade é que existem certas obras que, para o bem e para o mal, acabam por se constituir como alicerces a partir dos quais atribuímos significado a um conceito. Ladrões de Bicicletas, estreado em 1948, é um desses exemplos que contribuiu, com o passar dos anos, para que o conceito de neo-realismo tivesse alguma consistência. Diz-se hoje ter sido essa uma escola datada, marcada pelo comprometimento político, resistindo à mediocridade das obras mais comerciais e, por consequência dessa postura, recorrendo a meios que tivessem sobretudo em atenção a mensagem que se pretendia fazer passar. Optava-se pela força da mensagem em detrimento do adereço. Não se julgue porém que este cinema prescindia dos seus ornamentos estéticos, podendo mesmo a sua ausência ser considerada uma mais valia ao serviço da tal mensagem. Assim, tanto a ausência de caracterização como um aparente desleixo na fotografia, podem hoje ser interpretados como ornamentos outros com propósitos muito específicos. Em Ladrões de Bicicletas tudo isso é primorosamente trabalhado em torno de uma história onde paira o fantasma do desemprego. Chegamos ao universal, ao sem tempo, ao intemporal. Em nada pode este filme ser considerado datado, se nos atentarmos ao que nele se vislumbra de mais trágico: a solidão dos homens num mundo onde a política é a do «salve-se quem puder». O problema do desemprego surge como excelente pretexto para se pensar essa condição última de: ser homem numa sociedade moderna. Mais que a pobreza física, o que ressalta neste filme é o desespero e a humilhação que advêm dessa mesma pobreza. Neste sentido, os desempregados de ontem não serão diferentes dos desempregados de hoje. Talvez já não necessitem de uma bicicleta para manterem um emprego, mas esse é apenas um pormenor narrativo que não esgota o alcance do filme. Um dos aspectos que sempre me impressiona neste filme é a frieza com que o italiano Vittorio de Sica aborda a questão. Os ladrões de bicicletas são pobres que roubam pobres, gente que em desespero se desune, se trai, se nega. Neste filme, o maior inimigo do pobre só é a pobreza na medida em que coloca os homens uns contra os outros. Ou seja, a verdadeira pobreza é a ausência de solidariedade, a solidão e o isolamento a que fica condenado aquele que já não pode esperar nada de ninguém. Como se a pobreza transformasse a confiança num inimigo. Num tempo de arrivismos insidiosos, faz todo o sentido continuar a rever uma obra assim. O problema hoje, mormente num dos mais pequenos e pobres países da Europa, não é outro senão o da desunião entre os que nada têm. Essa desunião que parte amiúde da perversidade com que os fortes metem os fracos a enxotarem-se uns aos outros. A mais intragável miséria de todas, creio, é essa. Pois só essa nos condena a sermos um nada absoluto.

quinta-feira, 6 de julho de 2006

ZONA DE PERDA

zona de perda - livro de albas é o sexto livro de poesia de Pedro Sena-Lino (n. 1977) e o primeiro para a Objecto Cardíaco, cuja colecção «aorta» conta já com três transferências de peso do catálogo das Quasi Edições: valter hugo mãe, ex-editor das Quasi e actual editor da Objecto Cardíaco, Jorge Melícias e o próprio Pedro Sena-Lino. Nas Quasi, tinha o crítico do suplemento Mil Folhas publicado biofagia (2003) e deste lado da morte ninguém responde (2005). Este último, quanto a mim, o melhor dos seus livros. O que havia de bom nesse livro, tenta o poeta manter no presente volume. Mas se em deste lado da morte ninguém responde os poemas transpiravam o desassossego da morte com impressionante transparência, o mesmo apenas acontece a espaços em zona de perda – livro de albas. Ambos os livros são feitos da mesma matéria, um modo muito íntimo de "vivenciar" a morte, a perda, o fim. O complexo lexical mantém-se inalterado, conferindo a estes livros um carácter de obra raramente observado com tanta consistência na poesia portuguesa mais actual. Palavras como «morte», «corpo», «noite», «Deus», «janela», «árvore», são recorrentes nestes versos. Assim como o envio para uma interioridade que pode ocorrer em modos diversos: «chegaste tão de dentro de mim mesmo» (p. 12), «sabia como dói a água / que se nasce dentro» (p. 15), «espero-te dentro de mim» (p. 19), «ninguém se levanta dentro do seu próprio coração» (p. 20) ou «da minha janela não se vê mais nada / ouve-se o silêncio contra mim / e chove a morte contra os vidros / por dentro como soa o fim» (p. 32). Acontece que esta vocação lírica, quanto a mim tão legítima quanto outra qualquer, é por vezes prejudicada por formatos já gastos e, por isso, algo entediantes. Se o livro anterior de Pedro Sena-Lino ganhava com uma clara e obsessiva concentração do discurso numa imagem poética – a da morte crescendo sobre o corpo -, este tomo mais recente perde-se em imagens que se sobrepõem umas às outras. Resulta o facto num exercício competente da linguagem, mas numa poesia demasiado afectada pelos ornamentos discursivos. Digamos que algumas destas estrofes são como peças de fruta luzidias mas de qualidade duvidosa: «não havia fim as sombras intercalavam sombras / os abismos circulavam em sangue pelas árvores / estrelas choviam a terra / eu era como Deus / quando vê nascer de si o amor que o recria / tão feridamente omnipotente» (p. 16). Um pouco mais à frente, no mesmo poema: «ardiam cidades no meu sono / enquanto o teu corpo inundava catedrais esmagadas / uma mentira atravessou o meu corpo / do ventre de minha mãe à ardida poeira da terra / o mar queimou o mar / e nada passou a ser tudo» (p. 17). Não está aqui em causa a beleza destes versos, muito menos a competência de quem os escreveu. Interrogo-me apenas sobre os mecanismos que estiveram na origem dos mesmos. Sendo o corpo lugar de inscrição por excelência, estes poemas pecam por serem apenas de um lado do corpo: o lado de dentro. As inquietações que denotam são constantemente aquietadas pela procura do efeito estético, do verso perfeito, da beleza delico-doce: «queria morrer contigo / não queria morrer de ti» (p. 26). Há, sem dúvida, uma dimensão metafórica nesta poesia que a coloca entre as melhores do género na sua geração. O que a torna menos cativante neste livro não é tanto a criatividade com que o poeta a impõe, mas antes a tonalidade que a mesma adquire na forma como é conduzida.

terça-feira, 4 de julho de 2006

LER 68

Decepcionante é o que merece ser dito sobre o primeiro número anual da revista LER. Assinante da mesma há quase dez anos, não deixa de ser com pesar que o afirmo. A LER desapareceu, não há mais LER. Não faz sentido manter o mesmo formato com intenções bem mais exigentes: balancete de um ano de actividade literária. Os balanços não se fazem assim. Pelo menos, enquanto leitor, não me interessam balanços destes. Sobre o essencial, já outros disseram o que eu poderia dizer. Atenho-me à poesia. Eduardo Pitta, a quem devo, por culpa de O Som & O Sentido, fortes estímulos à leitura de poesia, esforça-se por disfarçar o incómodo lembrando o óbvio: «Qualquer balanço que se preze traduz uma escolha». No entanto, ainda que traduzindo uma escolha, não é um balanço que se preze aquele levado a cabo no n.º 68 da LER. O facto de nenhum dos títulos referidos ter sido comentado anteriormente no mesmo espaço, também não desculpa a pobreza da selecção e as lacunas imperdoáveis. Dos dez livros escolhidos, cinco são antologias ou reuniões de obra: Os Pré-Rafaelitas (trad. Helena Barbas), Os Poemas, de Konstandinos Kavafis (trad. Joaquim Manuel Magalhães), Antologia, de Wallace Stevens (trad. Maria Andresen de Sousa), Cântico Negro, de José Régio (orgs. Luís Adriano Carlos e valter hugo mãe), Poesia Reunida 1990-2005, de Ana Luísa Amaral. Quanto à qualidade dos mesmos, nada a dizer. Acresce que as restantes opções acabam por negligenciar sobremaneira os originais de 2005, deixando no ar a ideia de que em 2005 nada de novo aconteceu. Senão veja-se: Sete Livros Iluminados, de William Blake (trad. Manuel Portela), O Homem da Viola Azul, de Wallace Stevens (trad. Maria Adelaide Ramos), Laoconte, Rimas Várias, Andamentos Graves, de Vasco Graça Moura, A Cidade e os Livros, de António Cícero, Mútuo Consentimento, de Helder Moura Pereira. Sem querer menosprezar a qualidade das traduções, das obras reunidas, das antologias, até mesmo das inclinações idiossincráticas do crítico, inquieta-me que seja esta a imagem a passar de "um 2005 poético". Há muitos outros livros de qualidade indubitável que, sendo mais ou menos do nosso agrado, não podem ser negligenciados em prol de uma poesia que já tem o seu lugar reservado na história. Seria assim tão arriscado mencionar Os Fantasmas Inquilinos, de Daniel Jonas, Falsa Partida, de Fernando Luís Sampaio, Logros Consentidos, de Inês Lourenço, Lacrimatória, de Jaime Rocha, Requiem, de Jorge Gomes Miranda, Movimentos no Escuro, de José Miguel Silva, A Ordem do Mundo, de Rui Coias, ou mesmo A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, do Rui Costa? Estes são apenas alguns exemplos de livros de 2005 que convinha não esquecer, ao lado de outros cuja memória é já uma garantia. E porque estou com a mão na massa, deixem-me confessar-vos que julgo mesmo inadmissível o ostracismo a que tem sido condenado o livro do Rui Costa. Aquando da emissão do programa Livro Aberto dedicado aos melhores livros de 2005, segundo lista resultante de votação online, senti que algo não estava bem. Sinto-me à-vontade para dizê-lo, dado não ter votado na tal lista, prevendo até resultados risíveis que teriam na sua origem os “particularismos das relações online”. Seja como for, e a ideia não foi minha, o livro do Rui lá estava entre os três mais votados. Pedro Mexia brincou com a situação, fazendo chalaça sobre o assunto. Qualquer coisa do género: Eliot e Costa, a mesma selecção. Pitta limitou-se a dizer que não sabia quem era o senhor Costa. Ninguém esperava, ninguém espera, que se saiba quem é o senhor Costa. Apenas se exigia alguma curiosidade acerca do livro, para mais vencedor da primeira edição de um prémio atribuído por uma editora que ninguém naquela mesa desconhecia. A verdade é que passaram seis meses, os balanços estão feitos e para a história de 2005 nem esse nem outros livros contarão. Pelo menos para a história de hoje. Que a história do amanhã, só o tempo dirá.

sexta-feira, 30 de junho de 2006

CÃO

O cão é o país das pulgas.
Matilde (3 anos)

quarta-feira, 28 de junho de 2006

DESTINO

O Destino

O Destino
de Youssef Chahine

«Por ordem da Santa Igreja do Languedoc, o Tribunal da Santa Inquisição sentencia o herege Gérard Breuil a ser queimado na fogueira junto a todos os seus excritos, por se ter afastado das vias do Senhor Jesus ao traduzir a obra do herético Averróis». Estamos no século XII. A filosofia de Averróis, nascido em Córdoba no ano de 1126, era à época uma das dores de cabeça da Santa Igreja. Sobretudo os comentários a Aristóteles. Contudo, Averróis não era uma dor de cabeça só para a Santa Igreja. Mais a sul, na Andaluzia, o Califa acusava-o de traição. O resultado foi o que se viu: «Por terem caído no oceano de ilusão e obscurecido o juízo do povo, o Califa proíbe os seguintes de ensinarem em escolas e mesquitas. Ordena também que os seus livros sejam queimados em público e que eles sejam banidos». Banido em todas as direcções, restava ao filósofo confiar ao destino as suas ideias. Entre uma e a outra fogueira, acontece uma história, decorre um filme. Não sendo especificamente sobre Averróis, este é um filme construído em torno da sua filosofia e da forma como a mesma foi resistindo ao tempo. Servindo-se disso, o egípcio Youssef Chaine (n. 1926) propõe-nos uma obra onde vários elementos se conjugam sobre uma ideia fundamental: «as ideias têm asas, nada pode impedi-las de voar». Resta saber quais são as ideias que aqui ganham asas. Visto à distância de nove anos, este é um filme actualíssimo onde já pairava o fantasma do fundamentalismo religioso. Um Califa consumido pela vaidade, manipulado pelos interesses obscuros – que é o mesmo que dizer pela ambição de poder - de uma seita religiosa, personifica bem o que tem sido grande parte do poder político no mundo islâmico. Já a seita, nos seus métodos de persuasão, nos seus intentos purificadores, na promoção da obediência cega ao Emir, na condenação de excessos tais como cantar e dizer poemas, é-nos em tudo insuportavelmente familiar. Onde entra a filosofia de Averróis? No elogio da razão e dos prazeres deste mundo, no elogio da vida e do amor à vida, na luta contra qualquer tipo de substituição da palavra e do jugo divinos pelas sentenças dos homens… Cinematograficamente, Youssef Chaine pratica o mesmo tipo de raciocínio. Os momentos musicais e as coreografias atestam-no, para não falar num erotismo disfarçado que vem à tona em diversas cenas. O final esperançoso e algo ingénuo remete-nos para um plano ideal que é bom não esquecer. E, de certa forma, é bom não negar logo à partida. É essa ingenuidade – chamar-lhe boa vontade também não ficaria mal -, o que mais aprecio neste filme. Youssef Chaine tinha 70 anos quando o levou à cena. Pergunto-me se daqui a 40 anos terei coragem suficiente para pensar também que «as ideias têm asas, nada pode impedi-las de voar». Digo coragem e, infelizmente, não o digo por equívoco. É que mesmo tendo asas, nos tempos que correm, tudo parece concorrer para que as ideias não voem. Ou, pelo menos, para que fiquem arrumadinhas na gaiola das conveniências do mercado.

terça-feira, 20 de junho de 2006

POESIA GREGA

No passado sábado, dia 17, o Mil Folhas publicou um belo texto de Hélia Correia, intitulado Do esplendor, supostamente sobre o livro Poesia Grega de Álcman a Teócrito, organizado e traduzido por Frederico Lourenço. Digo supostamente porque na realidade tratava-se do «texto lido na sessão de apresentação da obra» (como informava nota de rodapé final), onde eram referidos vários autores não contemplados nesta amostra da poesia cultivada na Grécia antiga. Não obstante, gostava de chamar a atenção para uma dúvida pertinentemente colocada pela autora do referido artigo: «Que terra, que época era aquela, perguntamos, em que os mortais se armavam contra o medo com uma narrativa e um espectáculo, estabelecendo uma mecânica do alívio; em que ao desespero do absurdo era dada beleza e, através dela, a plena justificação de uma existência?» A resposta a esta dúvida dependerá muito da perspectiva que se tiver da Grécia antiga, perspectiva essa que apenas sairá a ganhar com um conhecimento mais aprofundado da poesia que então se fazia. Isto porque, como sabemos, o papel da poesia e o estatuto do poeta, passados mais de 2500 anos de História, sofreu evoluções que dificilmente nos permitem reconstituir uma noção verdadeira do lugar que a poesia ocupava no pensamento e na prática quotidiana dos gregos antigos. Estranho se torna pois vislumbrarmos nestes poemas a matriz absoluta da mais hodierna poesia, seja quando já ecoavam uma «forte carga metafórica», satirizavam os costumes ou denotavam um pendor elegíaco «fortemente negativo, amargurado e desiludido». Todas essas inclinações encontramos já nos versos de Álcman, Semónides, Mimnermo, Safo, Íbico, Anacreonte, Teógnis, Baquílides, Píndaro e Teócrito. À excepção das vozes de Teógnis e Píndaro, todas as outras nos chegaram fragmentadas pelo desenrolar da História. Sobre o último, em nota mais desenvolvida que as restantes, Frederico Lourenço é esclarecedor: «o poeta mais interessante de toda a literatura grega». Prefiro chamar a atenção para a Sátira contra as Mulheres e A condição humana de Semónides, fragmentos desconcertantes e bem mais profundos do que à partida possam parecer: «Não há inteligência nos homens, mas vivemos / efémeros como gado, sem sabermos / como o deus terminará cada coisa. / Porém a esperança e a credulidade / alimentam-nos a vontade do impossível» (p. 26). De entre as metáforas de Álcman, as elegias de Mimnermo, o erotismo de Safo, a ironia de Anacreonte, as odes de Baquílides e Píndaro ou o bucolismo de Teócrito, sobressai também "o poema contínuo" de Teógnis. Dos seus 1389 versos originais, oferece a presente tradução os primeiros 250. O tradutor cita Yourcenar a propósito: «versos tão desarmantes na sua banalidade como são as coisas básicas que dão sentido à própria vida humana». Não descuro a hipótese de a muitos agradar, à partida, a descrição. O tom, apesar de coloquial, é subtilmente reflexivo, próximo da máxima. São versos que o poeta dedica ao seu amado, aconselhando-o sobre as virtudes e os vícios humanos, sobre os governantes da cidade, «uns vira-casacas», sobre as difíceis relações entre os homens, sobre «a via do meio». De um impudor atroz, os conselhos de Teógnis prefiguram um descrédito absoluto e incómodo sobre a vida na cidade. Deixo um exemplo: «Quem julga que seu vizinho nada sabe, / mas só ele é capaz de planos manhosos, / é tolo e desprovido de bom senso. / Pois todos temos pensamentos manhosos: / mas ao passo que um não quer seguir o mau proveito, / a outro agradam mais as congeminações enganosas» (p. 72). Retomando a questão inicial, tendo a crer, ai de mim, que aquele foi um tempo que ainda hoje ecoa nos gestos de cada dia. Aquele terá sido também um tempo depois de outro tempo, algures perdido ou arrumado, um eco desse outro tempo que é hoje, da mesma forma, o tempo de todos nós. Só isso justifica que cada um dos versos presentes nesta antologia permaneça - fazendo sentido e dando sentido ao mundo. Não sei se daqui a 2500 anos alguém se colocará as mesmas questões relativamente a nós. Não sei sequer se daqui a 2500 anos alguém se questionará sobre o que quer que seja. Mas acredito que hoje aquela época ainda vive, fragmentada mas viva.

sexta-feira, 16 de junho de 2006

SÉTIMO SELO

O Sétimo Selo
de Ingmar Bergman
Era uma vez um cavaleiro, Antonius Block de seu nome, que se encontrou com a morte ao regressar das Cruzadas. Desprevenido para o desfecho da vida, o cavaleiro propôs à morte um jogo de xadrez com a seguinte condição: viver enquanto o jogo durasse e continuar vivo caso saísse vencedor. À morte, bem sabemos, ninguém ganha. Quando muito, alguns a fintam. Disso sabia o cavaleiro, cuja intenção seria «obter o conhecimento» no compasso de espera que o jogo lhe proporcionasse. Estranhamente actual é a dúvida que assalta os rostos amedrontados das personagens deste filme, todas elas confluindo com o vazio que povoa o coração do cavaleiro Antonius Block: por onde anda Deus? No desenrolar da partida de xadrez entre a morte e o cavaleiro, o que Bergman nos propõe é uma das mais expressivas reflexões cinematográficas de sempre sobre a condição humana. Estreado em 1957, o filme decorre num tempo medieval marcado pela peste, pelas execuções, pelo medo da morte. O tom alegórico, raramente visível nos filmes do cineasta sueco, pode ser entendido como pretexto para uma expiação de carácter intimista, visando a demarcação dessa linha ténue que separa o medo humano da existência divina. Filho de um pastor luterano, Bergman pode aqui ser entendido como o cavaleiro que se interroga. Esse tom de interrogação permanente é apenas suspenso numa espécie de elogio à vida simples, representada no amor feliz de uma família de saltimbancos. A alegria dessa família contrasta com todo o resto: cadáveres putrefactos abandonados pelo chão, execuções de jovens raparigas na fogueira, procissões da palavra de Deus em regime de auto-flagelação, presbíteros corruptos. A Igreja não sai bem do quadro final, tracejada que foi com os marcadores da hipocrisia e da manipulação. Mas mais que o papel da Igreja nesta história, o que convém sublinhar é o lugar da morte na vida das personagens. É curioso que no final do filme só a família de saltimbancos escape à morte. Todos os outros, «o ferreiro e a Lisa, o cavaleiro e o Raval, Jöns e Skat», terminam dançando com a morte. Que pretenderá dizer-nos Bergman ao poupar os artistas? O contraste é evidente: mais do que os que procuram, são aqueles que criam quem encontra a sua paz. Não importa perguntar por Deus, importa praticá-lo, trazê-lo nos gestos de cada dia, representá-lo na alegria de viver. Religião e arte como que se interrelacionam nesta derradeira cruzada. Deixem-me puxar a brasa à minha sardinha ateísta, sublinhando o aspecto que mais me impressionou neste filme a primeira vez que o vi: ninguém precisa de Deus para ser feliz, se divinos considerar aqueles que mais ama. Divinos é só uma forma simplificada de dizer imprescindíveis. Que é Deus ao pé da nossa família? Por vezes, um obstáculo ao amor, a esse amor que nos sai mais das vísceras do que da razão. Esse amor que não se explica por acreditar, esse amor que não se explica pela fé, esse amor que pura e simplesmente se explica a si próprio no momento de se fazer sentir. Faça-se ele sentir numa manhã soalheira, no sorriso da mulher amada, num acto de criação, na companhia dos amigos, no colo dos filhos, na ingenuidade da esperança, na dança dos mortos. Foi esse o mistério da vida que encontrei neste primeiro filme de um realizador que nunca me decepcionou. Da sua obra, imprescindíveis têm sido para mim tantos outros momentos: Saraband, Lágrimas e Suspiros, Persona, Morangos Silvestres, Mónica e o Desejo

quarta-feira, 14 de junho de 2006

AMOR

O amor é viver dentro de um coração.
Matilde (3 anos)

sexta-feira, 9 de junho de 2006

OLHAR DE ULISSES

O Olhar de Ulisses (1994)

O Olhar de Ulisses
de Theo Angelopoulos

Em 1994, data da realização de O Olhar de Ulisses, Sarajevo entrava pelas nossas casas adentro como mais um exemplo de até onde pode chegar a depravação humana. Da capital da Bósnia-Herzegovina chegavam-nos imagens que voltavam a dar sentido à ideia de que a história nunca termina, ao mesmo tempo que actualizavam, com inquietante analogia, as memórias de uma chacina perpetrada havia 50 anos. Era impossível, à época, justificar o alheamento. Este filme, que não se cinge especificamente ao problema político dos Balcãs, acaba por reflectir essa mesma impossibilidade, questionando o sentido da arte num mundo onde tudo parece desmoronar. Harvey Keitel interpreta o papel de um realizador de cinema grego, tal como Angelopoulos, empenhado na recuperação de três rolos de filme dos irmãos Manakis (os primeiros filmes feitos na Grécia e nos Balcãs). Mais que um filme, o que se pretende recuperar é um olhar cativo, aparentemente perdido, mas que o cinema pode finalmente libertar. A viagem pessoal deste realizador vai servir para mostrar-nos uma região do mundo envolta em situações do mais abjecto miserabilismo. Da Grécia a Sarajevo, passando pela Albânia, Macedónia, etc., o que esta viagem nos ensina é a ruína em que se transformou o quotidiano da humanidade. Tudo mudou. Será possível, de alguma forma, recuperar as raízes? Recuperar o olhar original? Será possível, de alguma forma, retornar a essa casa de onde um dia partimos? A resposta está na epígrafe de Platão que inaugura o filme: «Também a alma, se quer reconhecer-se, deve olhar para outra alma». Por esta razão este filme espelha-nos, pois reflecte a mais essencial das tragédias humanas: tudo muda, nada é recuperável senão pelo artifício da arte. Uma arte que ainda é possível, embora sob um manto de nevoeiro a disfarçar a nossa presença. Parte do argumento de O Olhar de Ulisses deve-se a Tonino Guerra, o mesmo que escreveu para Tarkovsky o argumento de Nostalgia. No princípio deus criou a viagem, depois a dúvida e, por fim, a nostalgia. Se é difícil acreditar em deus num tempo assim, fácil é reconhecer essa mesma ordem no (re)conhecimento que alguém possa fazer de si mesmo. Porque o tempo exprime-se nos actos do homem. E a verdade dessa expressão vive no silêncio revelador daquilo que perdura, ainda que não seja a perenidade resultante de múltiplas formas de tratamento do passado o que poderá levantar da morte aquilo que se perdeu. O cinema é uma dessas formas. E é uma forma que obriga a um exame permanente da nossa condição. Esse exame consiste em olharmo-nos no passado, pondo em questão o presente. Harvey Keitel, neste filme, personifica esse tipo de retorno a si próprio que qualquer homem, mais tarde ou mais cedo, se obriga realizar. Buscando nas imagens originárias dos filmes dos irmãos Manakis um primeiro olhar, um olhar desaparecido, a inocência arruinada, ele vai redefinindo a sua existência. Logo no início da viagem, afirma: «No meu fim está o meu começo». É precisamente no encalço desse começo que ele se põe a caminho, em direcção a um fim que será, porventura, outra forma de começar.

quinta-feira, 8 de junho de 2006

IMITAÇÃO DE OVÍDIO

Alberto Pimenta (n. 1937) é um dos mais notáveis poetas portugueses. Professor universitário, ensaísta, autor de alguns dos textos mais provocatórios alguma vez editados em Portugal – basta lembrar Discurso Sobre o Filho-da-Puta -, costuma ser encaixado na prateleira dos poetas experimentais. Como se todo o poeta, pelo menos o bom, não fosse experimental à sua maneira, esta será apenas mais uma configuração histórica cujos intentos acabam sempre por estigmatizar obras que vão muito além de quaisquer rotulagens possíveis. Há, sem dúvida, uma “componente vanguardista” na poesia de Alberto Pimenta, mas essa componente sempre se revelou mais nas opções formais, com consequências óbvias ao nível da expressividade poética, do que nas temáticas abordadas. Essas, talvez nos seja legítimo dizê-lo, assumem uma clara inclinação ao mesmo tempo política e reflexiva. Ao contrário de outros poetas ditos “vanguardistas” ou, se quiserem, “experimentais”, Alberto Pimenta nunca impediu que a sua poesia fosse também a expressão do seu tempo. Essa é, de certo modo, a sua grandeza, na medida em que logra uma consistência que escapa a grande parte dos poetas mais fascinados pela exploração lúdica da palavra e da linguagem poéticas. Imitação de Ovídio, o seu mais recente livro de poesia, manifesta inequivocamente esse lugar de encontro entre o concreto e o abstracto, esse lugar de «pura ressonância» (p. 28) que, ao fim e ao cabo, é a própria vida. Em quatro poemas de recorte excepcional, encontramos neste livro, principalmente, um olhar sábio e sem contemplações sobre um tempo que é o nosso. O tom, por vezes, aproxima-se do cáustico. Vale a pena a citação: «77% destas damas / do tempo presente / sabem o quê? / e que é que não sabem? / que julgas? // fazem terapia / por causa / dum trauma infantil, / com um senhor de gabardine. / e vão regularmente / ao ginecologista / e ocasionalmente / à vidente e ao astrólogo / pela mesma razão. // pensam em deus / especialmente / à noite /pedem-lhe sempre / a cura dos males, / que lhes acalme as feridas / como um penso, / mas não adianta pedir / os bens transcurados / ao sol e à lua / da vida. // conhecem / a cabana da praia / com o mar a as 3 estrelas incluídas: / é pouco. // vão / aos desfiles de cães / a todos / e nada. // vão / às pastelarias / a todas / e nada. // vão / aos cabeleireiros / a todos / e nada. // suportam / isto / porque / julgam / que há-de passar. // e é verdade. // vão / às farmácias / a todas / e nada. // vão aos supermercados / a todos / a aí é pior ainda / porque / esses centros de ócio e comércio / encontram-se numa estagnação / que faz / os cogumelos / crescer nas paredes. // vão aos cinemas / naturalmente. // nada nada. // suportam / isto / porque julgam / que há-de passar. // e o mesmo / parece / que sucede com o resto // nem Júpiter em órbita / nem a trindade do sol / nada lhes vale» (pp 37-40). O que mais fascina nesta “poesia da saturação”, permitam-me o termo, é a força que dela se retira, uma velocidade atroz onde todas as palavras estão no sítio certo, onde nada está a mais, onde nada é desperdício. Só um grande poeta consegue escrever assim, sendo superabundante no básico (necessário), extraindo o essencial do aparente, libertando as palavras, «dispositivos / apenas sanitários» (p. 52), na dominação que sobre elas exerce. E se há uma segunda pessoa nestes poemas, essa segunda pessoa, esse amor a quem se fala, pode bem ser o que resta da poesia num tempo que cada vez mais dela prescinde: «poesia / propriamente dita / não há meio de acontecer, / é como matar um pássaro / ontem / com uma pedra / atirada hoje» (p. 59). Em suma: um grande livro de poesia, para ajudar a (des)organizar dentro de quem o leia o caos que nele se instala.

quarta-feira, 7 de junho de 2006

NOCTURNOS

I
Um manjerico com a orelha toda furada, bêbedo que parecia um cacho, berrava que nem vaca tresmalhada. O dono do bar indicou-lhe a saída. O manjerico deu com o vaso. E com os cornos de um boi qualquer.
II
O segurança da discoteca discutia com a namorada enquanto me segurava a goela com os dois punhos. Pedi-lhe um cigarro e dancei do filme armado em herói.
III
Um pastor alemão entrou no bar. O DJ exibia-se à mesa do bilhar. Os fregueses pararam de dançar. Rosa pediu a conta e pôs-se a andar. O cão farejou o motard. Faltou-lhe o ar.
IV
O motard meteu-se com a mulher-desespero. Serviço feito, o motard confessou: «na tênh’ d’ nhêro». O motard, em fuga, espalhou-se na estrada.
V
A menina-ingénua abocanhou o Zé Tó, isto no entrementes de um banhista se lhe trocar de olhares. O Zé topou. Depois, vingou-se dos mares banhando o banhista com meio cibo de pó.
VI
O chibo, para provar que não amava a pedido, esbofeteou a namorada na presença da mãe. Ela não suportou a humilhação. Sacou-lhe as chaves e pô-lo a andar.
VII
O peixe esparóide mirou-o à desconfiança. Virou-lhe as costas e seguiu na direcção do sol nascente. De mastodonte ao léu, pendura de fia-te 600, gritou línguas do leste na direcção dum velho goraz. O anzol morreu de tédio.
VIII
O país sardinha assada afogou-se em água-pé, honrou o jet set com honoris causa e foi de carrinho para Espanha vender figos.
IX
A classe engravatenhada, de telemóvel abrincalhado, optou por sinalizar chamadas com um ring ring aflito. As mulheres andam numa aflição, os filhos andam numa aflição. À hora de jantar, famílias inteiras comparecem aflitas nos sítios do costume.
X
Dois ucranianos, de cajado em riste, caceteavam um colchão moloflex. Enxotavam percevejos e vingavam insónias.

sexta-feira, 2 de junho de 2006

LUZ ÚLTIMA

Há Violinos na Tribo, publicado em edição de autor decorria o ano de 1989, foi o primeiro livro de João Luís Barreto Guimarães (3 de Junho de 1967). Seguiram-se dois livros, todos posteriormente reeditados (e rasurados) em conjunto sob o título 3 (Gótica, Maio de 2001), onde se propunha, entre outras coisas, uma (des)construção lúdica do soneto. Essa inclinação para o jogo, marcada nos primeiros livros por uma componente formal mais precisa, nunca se perdeu na poesia de João Luís Barreto Guimarães. Ainda assim, desde o excelente Lugares Comuns (2000) que têm sido operadas algumas transformações (plásticas) nesta poesia. Eu diria que o essencial permanece, embora assumindo soluções formais diversas. O essencial, neste caso, resulta daquilo que quotidianamente se vai arrancando ao mundo e se pode constituir sob a forma de poesia: «a poesia está nas coisas / (pão quente) / destapa-a» (p. 27). É esse trabalho de ver, o que consubstancia o labor poético. Não de ver para além do que está, mas de conseguir ver no que está algo mais do que aquilo que nos permite um olhar distraído. Neste sentido, esta é uma poesia de olhos bem abertos. É uma poesia que busca no comezinho a luz que a insensibilidade apaga, a mesma insensibilidade que lança sobre as coisas de todos os dias uma indiferente banalidade. Epígrafes de Luís Quintais - Diz o que vês. - e de Jorge Gomes Miranda - Vê. Atenta. Anota. -, logo a abrir, indicam-nos o caminho. Outros autores aparecem citados (O’Neill, Luiza Neto Jorge, Philip Larkin, António Nobre), evocados (William Carlos Williams, Al-Mu’ tamid), brindados (Pedro Mexia, Adilia Lopes, João Miguel Fernandes Jorge). Há ainda Pollock, Gracinda Candeias, Dvorák, Marc Tardue, numa confluência amena de vivências culturais com outras mais domésticas. Esse tom culto e, por vezes, desnecessariamente adornado é, talvez, o aspecto menos interessante destes poemas. Mas tudo se salva por uma ironia bem condimentada e por uma invejável habilidade formal, onde o biográfico serve de contorno aos quadros do olhar. Note-se, a título de exemplo, como o poema que dá nome à primeira parte – A pura verdade -, subintitulado óleo sobre cimento, 534 x 261 cm, pode ser entendido como uma autêntica lição acerca da grandiloquência do trivial: «O motor do automóvel anda a trabalhar / num óleo no / seu lugar de garagem. Expressionista abstracto. / Sobre bagos de óleo escuro (de / mais uma noite em claro) dobro / os pneus do carro ao sair pela manhã apondo / ao seu Pollock gestos de um / Gracinda Candeias. Nessa tela abstracta / (que é o concreto do chão) os / olhos teimam em crer um archote um / fuzil / unindo as manchas mais cruas. Também assim / esta poesia» (p. 17). Uma arte poética a lembrar-nos Agnès Varda, no magnífico Os Respigadores e a Respigadora (2000), vendo telas de Antoni Tàpies nas manchas de humidade das paredes da sua casa. Luz Última, que o poeta dedica a seu pai falecido, não é mais um livro de lamentações marcadas pela perda. É, como bem notou Pedro Mexia, um livro sobre «a grande lição da morte». E essa lição é a lição do olhar, de passarmos a olhar as coisas de uma outra maneira, talvez mais simplificadora ou, como queria O’Neill, desinchada de importanticidade. Buscando em tudo estes «versos da vida doméstica» (p. 49). Mesmo que o tudo sejam cheiros a fuel, óleos de automóvel, moedas esquecidas sobre um cacifo, «um pneu descasado / um assento / meia matrícula» «no caule da torrente» (p. 43). Ser poeta é isto mesmo: estar atento às coisas do mundo, não nos deixarmos distrair. Já que a única lição que podemos esperar da morte (dos outros) se resume à constatação de quão doloroso pode ser sentirmos a perda dos gestos que nos escaparam.

segunda-feira, 29 de maio de 2006

CRESCER

Crescer é mais ou menos isto: o grito de um índio dando lugar ao olhar concentrado e criminoso de uma certa noção de justiça.

domingo, 28 de maio de 2006

DOIS PEQUENOS LIVROS

É costume ouvir-se dizer que a poesia é a arte (literária) da concisão. Mais ou menos breve, o poema resulta, de facto, da capacidade de condensar o que, noutras condições, seria apenas exprimível com o recurso a formatos narrativos mais extensos. Em termos editoriais, há poetas que optam por coligir os seus poemas em colectâneas mais volumosas. Outros optam pela edição de menor fôlego, com resultados díspares e, por vezes, inquietantes. Manuel de Freitas (n. 1972), por exemplo, tem alternado algumas das suas edições mais avantajadas com outras onde, sob um determinado signo temático, procura abreviar a obra ao que poderia ser entendido como um conjunto, um capítulo, uma parte, de um livro mais abundante. Servem de exemplo títulos como Büchlein Für Johann Sebastian Bach (Maio de 2003), O Coração de Sábado à Noite (Outubro de 2004), Vai e Vem (com ilustrações de Filipe Abranches, Maio de 2005) e, mais recentemente, Cretcheu Futebol Clube (Abril de 2006), todos com o selo da editora Assírio & Alvim. Reproduzindo na capa uma fotografia lindíssima de João Freire Oliveira, Cretcheu Futebol Clube lê-se como um requiem à memória do músico cabo-verdiano Ildo Lobo. Trata-se de um pequeno livro, de uma beleza avassaladora, que mantém as coordenadas fundamentais de uma poesia desde sempre alicerçada no domínio da elegia. Este universo de Manuel de Freitas, onde a música «é a única razão que nos sobra», coloca-nos permanentemente, como nenhuma outra poesia portuguesa actual o logra, na presença da morte, da nossa inevitável finitude e colossal insignificância. Acrescenta-se ao álcool, às referências da deambulação nocturna (B. Leza, Cachupa), aos sítios de passagem (Largo do Conde Barão, Praça do Rossio, Caetano Palha), aos espaços culturais da capital (CCB, Coliseu dos Recreios), aos nomes dos companheiros de guerra (Jorge, Inês, Rui), aos utilitários quotidianos (Taki-Talá, Correio da Manhã), às canções, aos artistas, a utilização de vocábulos e expressões crioulas: manhã ká tem dia, sodade, estrela d’nada, bo dispidida, tchoro, morabeza, daki a nada. O ritmo, é mais de morna do que de funaná: «Abrem-se devagar os túmulos / - e entramos neles. / É o nosso ofício, talvez o único. /Esperámos, anos fartos, o vazio. / Não há engano possível, / não há regresso. Todas / as ilhas devagar nos mentem. // Dançava perto de ti, / talvez demasiado só, uma / estrela d’nada, bo dispidida. // Não me digas que não ouviste» (p. 17). Em formato literário similar (chamemos-lhe plaquete, pequeno livro, folheto, panfleto, tanto faz), este Tríptico do Narciso. Sendo Vítor Vicente (n. 1983) responsável pela editora Canto Escuro, onde já havia publicado em Abril de 2005 o livro Esses Dias – HenryKiller.Blog, trata-se de uma auto-edição. As epígrafes de Teixeira de Pascoaes, a abrir, e Nick Cave, a fechar, permitem-nos pensar num autor para o qual todos os diálogos são legitimados única e exclusivamente por aquilo que é enunciado. No miolo, três pequenos poemas onde o registo narcísico é adulterado por um saudável tom de auto-ironia. Mais autocrítico do que auto-complacente, este narciso «rimbaldiano atracado aos balcões de tascas e bares» é uma remistura de ovelha negra, com patinho feio e gato maltês. A vertente experimental dos três poemas adensa a ideia de um autor empenhado apenas nos «louvores ao escárnio» e «aos maldizentes». Faz muito bem, se dessa apregoada má relação com a civilização puder surgir o que de mais raro vai sendo nas letras portuguesas: o (des)compromisso com um mundo onde o eu resulta frequentemente de conivências pouco credíveis com os outros. Este narciso é o de Stirner, empenhado apenas na sua causa… puramente egoísta: «Eu nó cego de contradições. / Eu com um globo debaixo do braço / a estilhaçá-lo de encontro a uma parede».

sexta-feira, 26 de maio de 2006

EXORCISMOS


De acordo com critérios pessoais, tudo o que é contrastante agrada-me.
A minha moral: dispenso lições de moral.
Não é por a mulher ser a negação do homem que vou deixar de gostar de mulheres.
O desconforto, por si só, não justifica uma boa avaliação. Os erros ortográficos, por exemplo, causam-me um tremendo desconforto. São para penalizar.
Mais que a complacência, o que há de detestável no ser português é a preguiça da generalização.
O que vem de fora só é realmente genial até nós irmos lá fora.
P.S.: Bebo o café sem açúcar. Mas nunca engulo as porras.