sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

O SOM ATINGE O CIMO DAS MONTANHAS

Muito provavelmente, terminarei hoje o meu 2006 de leituras. Pelo menos no que a livros de poesia diz respeito. Fecho, como se costuma dizer, com chave de ouro. Primeiro porque se trata de um livro de uma nova editora, a OVNI, cuja existência, como já deu para perceber, muito me apraz saudar; depois porque o faço com a mais recente recolha de João Camilo (n. 1943), autor de uma obra considerável, com ramificações pela ficção, teatro, ensaio e poesia. O seu primeiro livro de poesia, Os Filmes Coloridos, apareceu em 1978, embora do mesmo autor prefira destacar um extenso volume editado, fez dez anos no ano que ora finda, pelas Edições Fenda. Refiro-me a Nunca Mais se Apagam as Imagens. Importa também referir que já este ano João Camilo havia reeditado Retrato Breve de J.B. (Fenda), ficção originalmente publicada em 1975, e um outro volume de poemas, Elogio do Silêncio, com a chancela da Casa do Sul. As coordenadas da poesia de João Camilo há muito foram traçadas. Quem nunca se tiver perdido no seu universo não deixará de se espantar, desde logo, com um natural convívio entre prosa e verso que dá forma aos seus textos, ligados por um impulso narrativo cuja matriz dificilmente poderá ser determinada. Quer em prosa, quer em verso, estes textos colocam o leitor numa espécie de limbo onde a realidade se cruza com a ficção, originando momentos poéticos que são também reflexões filosóficas, instantâneos da vida, retratos do quotidiano, reminiscências da infância, mapas sentimentais, testemunhos situacionistas de um tempo confuso. Num dos últimos textos deste O Som Atinge O Cimo das Montanhas, o poeta questiona-se sobre o que possa ser uma filosofia de vida, para, logo de seguida, nos colocar uma questão que, de certa forma, define o seu labor poético: «Poeta do instante, aparentemente, mas será a poesia uma vocação ou uma carreira política?» (pp. 98-99) São estas as dúvidas que alicerçam a escrita de João Camilo, como se a mesma fosse um impulso irresistível, inexplicável, que, absurdamente, procura algum sentido para o que, à partida, já é sabido não ter sentido algum. O mesmo texto terminará deste modo: «Que tédio. Que confusão. Que tempo inútil» (p. 99). Seja qual for a temática, é esse tédio, essa confusão, essa sensação de inutilidade o que atravessa a poesia deste autor. As interrogações sucedem-se umas às outras, sobretudo quando o tema é a própria poesia. Mas também quando vêm à tona «a materialidade insuportável / do real: violência, luta pelo poder e pela fama, escravidão» (p. 23), «a condição humana» (p. 29), «os / fantasmas dos desaparecidos» (p. 43), «a nostalgia da infância na aldeia» (p. 77), etc. Solidão, melancolia e tédio como que infectam as palavras, estendendo-se pelos textos onde o autor busca um certo repouso, uma pausa, uma suspensão da dor, ainda que à poesia não se reconheçam poderes curativos, pois: «A poesia é apenas uma forma de respiração e de sobrevivência» (p. 95). A questão é: nada mais existirá para lá dessa respiração, dessa necessidade de sobrevivência? A quem busque um sentido para a vida, pode a poesia desbravar caminho. No denso mato das nossas dúvidas, a poesia pode surdir como uma espécie de logradouro onde montamos a tenda, descansamos os músculos, recuperamos forças. No entanto, nenhuma verdade a poesia encerra. Há aqueles a quem basta respirar e sobreviver, aquietam-se no mato desbravado, traçam as suas fronteiras, ali ficam para o resto da vida. Mas há os outros, mais inquietos, porventura desesperados, nómadas, que não descansam enquanto não atingirem o fio do horizonte, tal como «o som atinge o cimo das montanhas». Não sei de que estirpe será o poeta João Camilo, mas desconfio que, no íntimo, não seja dos primeiros. Pois ele sabe e no-lo revela: «A poesia não fará brilhar / como oiro as cinzas que se acumularam / no túmulo da nossa biografia» (p. 58).

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

INTROUDÇÃO À FILOSOFIA POLÍTICA

- Olha filha, o pior português de sempre.
- Quem é, papá?
- É o Salazar, filha. A esse podes chamar todos os nomes que tu quiseres.
- Mas gaja não...

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

ROMANCE DA TRAIÇÃO

I
Um homem caminha na companhia do seu cão-mais-fiel. O cão vê um osso. O cão é atropelado junto à Praia do Osso. Fica com os ossos à mostra e rói-se todo.

II
O homem enterra o seu cão-mais-fiel. Volta para a mulher. Quando chega ao pé da mulher, o homem constata que ela o trocou por um cão-mais-fiel do que o homem. O homem rói-se de inveja. A inveja é o osso preferido do homem-cão.

III
O homem-cão, à procura de algum consolo, ladra um poema de O’Neill. O’Neill julga isso muito estranho e escreve a «Poesia-Cão». A mulher do homem-cão apaixona-se por O’Neill e trai o seu cão-mais-fiel.

IV
O cão-mais-fiel da mulher atira-se, por ciúmes e vingança, ao homem-cão. Mantêm uma relação gay. A mulher do homem-cão tem com O’Neill um filho que ronca. O cão-mais-fiel diz que esse filho é um porcão.

V
O’Neill, desesperado, escreve poemas sobre a vida. Liga-se tanto à poesia que acaba por negligenciar a mulher. A mulher-negligenciada separa-se de O’Neill, volta para a casa dos pais e entrega o filho porcão aos cuidados da Pocilga Pia.

SONO

O sono levantou-se da cama.
Matilde (3 anos)

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

JUVENTUDE EM MARCHA

Juventude em Marcha
de Pedro Costa

Esperei até hoje pelo meu filme do ano, ou lá o que isso seja, mas também por um desses filmes que fará parte do inventário essencial de uma vida. Tudo o que eu diga deve ser considerado suspeito, convencido que estou, desde O Sangue (1989), da genialidade de Pedro Costa (n. 1958). Juventude em Marcha é uma obra única, com uma ligação estética e ética a obras precedentes do mesmo autor: Ossos (1997), No Quarto de Vanda (2000). O personagem central, desta feita, é o pai de Vanda, um tal de Ventura a quem querem roubar a identidade que resta, atirando-o para uma casa nova onde terá que pagar água, luz e gás. Por onde quer que passe, Ventura verá sempre os vestígios da sua presença apagados. Dos pés ao rosto, apagam-lhe as impressões, a vida, os lugares. Restam as memórias de amigos perdidos, cartas nunca enviadas, fantasmas na memória de um homem velho, as nódoas. Restam as histórias para contar aos filhos e aos netos. Restam os dramas de uma vida na companhia dos mortos. Todas as personagens têm as suas histórias, mais ou menos caricatas, mais ou menos trágicas. Vanda conta como correu o parto da sua filha. A plateia ri. Vanda remata qualquer coisa do género: «Coitadinha, nunca mais me hei-de esquecer de ela a ressacar, como a mãe, ali aos saltos no berço». A plateia ajeita-se nos lugares, pressente-se algum desconforto na sala. Durante a projecção paira sempre esta percepção de um certo desconforto, de ora quem ri para, logo de seguida, estancar num cruel retrato da miséria. E como é bela esta forma de filmar a miséria! Uma miséria a rebentar de poesia, humana, com as Fontainhas em contraponto ao novo bairro social. Não sei se quem olhe o contraste sentirá o mesmo que eu: o bairro social parece-me sempre mais inóspito e sujo do que as Fontainhas, porque aqui ainda resta um pouco da identidade comunitária que no bairro novo parece desaparecer por completo. No bairro novo Ventura parece desapiedado, desintegrado, já só uma sombra de si próprio, ainda que para lá vá arrastando os seus fantasmas. Mas o que mais me impressionou em Juventude em Marcha foi o enquadramento das personagens, a forma como se nos apresentam em retratos de uma intimidade que transpira, ao mesmo tempo e na mesma medida, tristeza, melancolia, solidão e absurdo. Há uma nuvem de absurdo a pairar sobre todas as histórias contadas durante o filme, sobre todas as cenas, um absurdo existencial que nos coloca perante um olhar trágico, no sentido que os gregos lhe davam. Não vislumbro nesse olhar qualquer romantismo, sendo-me ali mais evidentes as marcas de um destino desgraçado, de uma fatalidade identitária punida com o exílio social. São as marcas de uma condenação cultural que me deixa resignado, porque sem grande esperança na nova vida que se avizinha. Tenho lido por aí ser este um filme de confidências. Soa-me bem. Sobretudo se alargarmos as confidências ao estranho, misterioso e fantasmagórico campo da reinvenção de uma vida. Porque o que este filme faz, quanto a mim, é reinventar um desventurado Ventura, restituindo a poesia onde, porventura, poucos dariam por ela. Só um olhar como o de Pedro Costa para no-la oferecer deste modo tão convincente.

domingo, 24 de dezembro de 2006

REVÓLVER

Se bem sei, Revólver é o terceiro livro de poemas de Rui Lage (n. 1975), depois de Antigo e Primeiro (2002) e Berçário (2004), todos publicados na colecção Uma Existência de Papel, das Quasi Edições. Não li o primeiro, mas lembro-me de ter escrito sobre o segundo: «estamos num campo afectivo que seduz pela forma como arrisca na irredutibilidade da memória a uma mera descrição do passado». Devo começar por dizer que se tinha apreciado o livro anterior, muito mais me impressionou o volume agora publicado. Não sei se é justo falarmos numa inflexão de discurso, pois aquele campo afectivo e um modo muito próprio de tratar a memória, feitos notar a propósito de Berçário, permanecem nos poemas deste Revólver. O que sucede é que nos quatro conjuntos que compõem esta colectânea encontramos uma boa dúzia de poemas com uma força, uma soltura e uma dinâmica argumentativa que escapava completamente aos poemas anteriores. Logo na primeira parte, intitulada Licença de porte de arma, a temática religiosa é abordada com um desassombro inquietante. Poemas como I.N.R.I., O fantasma de Nietzsche aparece no meu quarto e fala, Subsídios para uma Poética da Ciência e Deus na oficina, são, quanto a mim, do melhor que se publicou recentemente na poesia portuguesa. Rui Lage dinamita todos os preconceitos e estereótipos religiosos, sem negar uma muito íntima vivência da religiosidade, ao mesmo tempo que nos confronta com aquilo a que Paul K. Feyerabend chamou, noutro contexto, a ditadura fascista da ciência, uma ditadura que impõe modelos de observação e de explicação do mundo auto-proclamados de verdade mas que, no fundo, não passam muitas vezes de um rol de futilidades a disfarçarem o único facto evidente da vida: não temos solução senão conformarmo-nos com a insolubilidade das nossas dúvidas, amanharmo-nos nas coisas boas de vivermos, no que ainda nos reste de belo, natural e salvífico, aprendendo a viver com a inquietação e o desassossego das horas. Apetecia citar todos esses poemas, de tão coerentes me parecerem no seu conjunto. Opto pela parte final de Deus na oficina: «Resta-nos, irmãos, / esperar que a biotecnologia / nos possa salvar a alma, / essa coisa fora de moda, / quem sabe se feita / de proteínas / ou de informação alojada / no córtex parietal superior, // ou que num obscuro laboratório, / algum obscuro sábio, / com mulher, filhos / e contas para pagar, / comunique ao mundo / que decifrou enfim o pensamento de deus, / e assevere que não é assim tão complicado / ou transcendente, / mais valendo por isso irmos todos dormir / sobre o assunto // (porque amanhã é dia de trabalho)» (p. 32). É este cruzamento da ironia com o fulgor da reflexão o que faltava, ou pelo menos estava muito mais disfarçado, nos poemas anteriores do autor. Aqui deparamo-nos com todos os fantasmas do quotidiano, da vida citadina – no caso a cidade do Porto -, do absurdo existencial e da incapacidade perante a deterioração do país, fulgurantemente expressados sob a luz desse cruzamento, como se os poemas fossem balas disparadas contra o mal de vivre. Por vezes, em momentos menos felizes – como no poema O País à porta – cede-se a um ou outro lugar-comum: «país que secretamente não vota / para não se maçar», «país com mais que fazer / (futebol para ver / e mato para queimar)»… Mas que dizer do lugar-comum quando ele nos bate com a evidência de uma verdade insofismável? Com este livro, Rui Lage inclina-se para um exame do mundo e do país onde vive, contribuindo, com um senso irónico e uma preocupação política sincera, para um dos melhores momentos da poesia portuguesa contemporânea.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

O CARTEIRO

O Carteiro de Pablo Neruda
de Michael Radford

Andava há muito tempo para escrever qualquer coisa sobre O Carteiro de Pablo Neruda, talvez desde que aqui cheguei. Fui adiando, adiando, adiando, até que soube do desaparecimento de Philippe Noiret, o actor que interpreta o Neruda do filme. Talvez não passe de mera coincidência, alinhavar agora, pouco depois da notícia da morte de Noiret, algumas palavras sobre um filme que comemorou 12 anos neste 2006 que ora finda. A verdade é que há coincidências embaraçosas, porque nos lembram ser a morte, essa porta aberta ao esquecimento, quase sempre a maior motivação da memória. E depois, ocupamos tanto do nosso tempo a pensar nos filmes que nos inquietam e nos intrigam que, por vezes, esquecemo-nos daqueles que muito simplesmente nos comovem. Il Postino é uma dessas raras experiências cinematográficas cuja magia reside no dom de nos comover, independentemente das circunstâncias íntimas que nos façam companhia nos momentos de revisitiação. Vi-o no cinema, como milhares de portugueses, já uns meses depois de se ter tornado num inexplicável e surpreendente fenómeno de bilheteira. Lembro-me de ter saído da sala com uma sensação de leveza apenas explicável pela noção de que havia aprendido algo, de que havia crescido mais um pouco por dentro e que isso só fora possível porque o que acabara de presenciar tocara-me nesse lugar mais íntimo da sensibilidade, nesse lugar sem marcação de onde vem toda a poesia, esse lugar a que gosto de chamar respiração. Há obras que nos ajudam, sem dúvida, a respirar melhor. O Carteiro de Pablo Neruda é uma delas. Realizado por Michael Radford, adapta a novela Ardiente Paciência de Antonio Skarmeta. O argumento desenvolve-se em torno da relação entre um humilde carteiro de uma ilha siciliana e o poeta Pablo Neruda que para aí vai viver, quando se encontrava no exílio por razões políticas. Essa relação despoletará no carteiro o gosto pela poesia, pelas metáforas, sobretudo por se convencer do poder encantatório das metáforas junto das mulheres. Pablo Neruda, poeta do amor, poeta do povo, poeta. Poeta do povo, demasiado ocupado consigo próprio e com a sua poesia; poeta do amor, especialmente apreciado pelas mulheres. É à sua poesia, às suas metáforas, que Mario, o carteiro, recorre quando pretende enfeitiçar a sua amada Beatriz. E consegue. Casam, honrados pela presença do poeta chileno como testemunha do matrimónio. Entretanto Neruda regressa ao Chile e Mario fica enclausurado na ilha de onde nunca saíra, fica e aguarda pacientemente notícias do seu grande amigo Pablo Neruda, notícias que tardam em chegar, notícias que se esvaem no esquecimento. Fiel ao poeta, mais que o poeta o fora a si, Mario converte-se ao comunismo, acabando por morrer numa manifestação onde leria, assim tivesse sido possível, um poema em honra do seu amigo ausente. É esse poema, esse poema do carteiro Mario, aquele que nunca chegamos a escutar, é esse o poema que mais importa neste filme. Ao pé desse poema silenciado pela morte toda a poesia de Neruda é mero adereço, porque esse poema é o poema da simplicidade, é o poema da fidelidade, é o poema da amizade, é o poema da ausência. É, talvez, o poema das coisas belas que Mario aprendeu a ver no ostracismo da sua ilha, as ondas do mar, o vento nas escarpas, as moitas, o silêncio de um imenso céu estrelado, as redes tristes de seu pai, pescador, e Beatriz. Sobretudo Beatriz, metáfora feita carne, feita corpo que não se explica, beleza inexplicável, como a poesia que explicá-la seria uma traição. Ao descobrir a poesia, Mario descobre também a beleza do mundo que o circunda, descobre-o com o espanto de quem vê pela primeira vez o mundo à sua volta. Massimo Troisi, o actor italiano que interpreta o carteiro, faleceu antes do filme estrear. Foi este o seu último fôlego, sereno, calmo, paciente, misteriosamente belo. Noiret junta-se-lhe agora, passados 12 anos. Que o esquecimento lhes seja tão leve quanto a poesia que nos proporcionaram neste filme.

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

DIÁRIO ÍNTIMO

Duvido que existam muitos leitores de poesia da minha geração interessados neste Diário Íntimo, de Luís Amaro (n. 1923). Provavelmente estarão mais inclinados para o neo-realismo depurado de Carlos de Oliveira (n. 1921 – m. 1981), para o surrealismo de Mário Cesariny (n. 1923 – m. 2006), para a ironia certeira de Alexandre O’Neill (n. 1924 – m. 1986) ou para a interminável ontologia de António Ramos Rosa (n. 1924), isto só para mencionar quatro autores contemporâneos de Luís Amaro, aqui muito cindidos aos chavões que lhes são normalmente associados. Na verdade, se quisermos entender esta poesia teremos de pensar em outros nomes com a qual ela mantém uma clara e assumida continuidade: de António Nobre (n. 1867 – m. 1900) a Fernando Pessoa (n. 1888 – m. 1935), passando, inevitavelmente, por Teixeira de Pascoaes (n. 1877 – m. 1952). Nos poemas deste Diário Íntimo encontramos a mesma inquietação que enforma os versos dessa tríade poética, a mesma preocupação com o sentido da vida, o mesmo carácter intimista, a mesma fidelidade ao ritmo e à musicalidade das palavras. Não admira que, em carta reproduzida na marginália final, Teixeira de Pascoaes declare: «É da melhor Poesia moderna! E, sendo moderna, não ofende certas leis imutáveis da Poesia, isto é, o que nela é música. E poesia sem música o diabo que a leia! Poesia ruidosa é uma horrenda caricatura dessa Deusa!» (p. 137) Nunca uma marginália fez tanto sentido numa obra antológica, sabida e reconhecida que é a dedicação do autor de Dádiva (1949) – seu único livro de poemas – ao estudo da literatura portuguesa do século XX. Essa dedicação é comprovada pela gratidão manifesta nos testemunhos epistolares agora revelados. Casos, entre outros, de Sebastião da Gama, Jorge de Sena, Júlio Dantas, Jacinto do Prado Coelho, Irene Lisboa, Natércia Freire, Miguel Torga, Agostinho da Silva, Vitorino Nemésio. Diga-se, aliás, que todo este livro é uma mostra de gratidão, pois trata-se de uma excepcionalíssima reedição levada a cabo pela &etc, editora avessa a reedições e homenagens. Albano Nogueira, num prefácio breve mas esclarecedor, fala-nos, a propósito desta poesia, «num desbobinar sóbrio, discreto, quase linear, (…) concreto mas envolvente, caloroso e persuasivo.» Do livro Dádiva, recolha de poemas escritos entre 1941-49, salientarei um lirismo melancólico, como disse inquietado pela busca de um sentido da vida, onde sonhos descambam em desilusões, à esperança se sobrepõe a dúvida desencantada, a luz das estrelas é ameaçada por uma sombra que vem de longe. No entanto, a poesia de Luís Amaro não é de excessos. Com uma sobriedade que, por vezes, pode desmoralizar o leitor menos precavido, ela propõe-nos todo um Programa: «Quando vier a tristeza, / faz que ela tenha uma grandeza. // Quando vier a dor, / faz que ela seja bela como o amor. // Quando vier a rara alegria, / faz que ela seja pura como a luz do dia. // Quando vier a noite, / mansa, a envolver teu coração, / faz que ela traga ao erro o seu perdão» (p. 54). Esta simplicidade, este mesmo cuidado formal, não desaparece nos Outros Poemas (1940-75). Porém, nos poemas finais há uma maturidade que, em certa medida, suplanta a amargura inicial e a fragilidade das soluções programáticas, porque, entretanto, a melancolia tornou-se doce e a dor e a tristeza não são já só apenas o termo da dúvida mas também o princípio de uma esperança renovada: «A dor, amordaçando, purifica: / que ela te dê no sangue o novo alento / para outros voos de que sairás vencido / (mas entretanto vives…)…» (p. 116) Quase todos os poemas deste livro trazem dedicatórias, sendo alguns deles um oferecimento aos mestres: Raul Brandão, Teixeira de Pascoaes, Augusto Frederico Schmidt, Sebastião da Gama, José Régio. Poesia assim afectuosa e de afectos, não pode passar despercebida.

JOELHO

O joelho também tem cotovelo.
Matilde (3 anos)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

PREFLORAÇÃO

Dado à estampa pelas Quasi Edições em Maio passado, Prefloração foi distinguido na segunda edição do Prémio Daniel Faria. Julgo ser este o primeiro livro de Catarina Nunes de Almeida (n. 1982). Pelo menos nada nos informa do contrário na nota biográfica incluída numa das badanas da obra em causa, isto apesar de ser mencionado um outro prémio obtido pela autora, o Prémio Internacional de Poesia Castello di Duino, assim como a participação em revistas literárias. Acerca de Catarina Nunes de Almeida sei apenas o que foi aparecendo na imprensa: licenciada em Língua e Cultura Portuguesa, amiga de Casimiro de Brito, fascinada pela poesia oriental. Este fascínio está patente, desde logo, nas epígrafes de Issa Kobayashi, Matsuo Bashô e Shiki que abrem cada um dos quatro breves conjuntos de poemas de Prefloração. Não sendo um livro de haikus, nota-se nestes poemas um esforço de transparência e de simplicidade que os aproxima do género. Mas essa aproximação é operada, sobretudo, numa relação mulher-natureza sempre mais evocada do que contemplada, até porque muitas vezes a simplicidade não fica senão aquém de mero esforço ou intenção. De certa forma, não é sequer justo falar numa relação mulher-natureza, já que o ponto a partir do qual se percepciona a realidade é um ponto de fusão entre o homem, em sentido lato, e o mundo natural. Esse ponto, lugar de encontro e de emergência de uma cosmogonia muito específica, resulta, no haiku, de um processo de abnegação, ao passo que nos poemas de Prefloração ele é ainda o Eu da autora sobrepondo-se ao resto. Não podemos falar na poesia oriental de uma cisão entre o sujeito poético e o seu objecto, já que ambos se unem numa mesma realidade e dessa união resulta o poema enquanto testemunho depurado de uma certa forma de observar o mundo, uma certa forma de o contemplar. O que importa aí é a luminosidade das palavras e não a sua sombra. Pretendo com isto afirmar que aquilo que fascina no haiku, ou seja, o registo da sensibilidade de uma contemplação sem pretensões reflexivas, acaba por ser atraiçoado nos poemas de Catarina Nunes de Almeida, pois esta não resiste à tentação de sobrecarregar o mundo com imagens e metáforas que vêm de dentro, apenas de dentro, do sujeito. Assim, mar e terra, animais e sementes, são apenas pretextos para a exposição de um Eu, de um Mim, omnipresente: «Quando me dispo dorme em mim / o odor dos frutos mastigados» (p. 35). O que temos aqui, então, é uma forma ocidental de olhar as mistificadas tradições poéticas do oriente. Se o que disso resulta é bom ou mau, parece-me sempre muito discutível. Prefiro chamar a atenção para alguns versos que me parecem mais conseguidos, versos que, sozinhos, resultariam, talvez, em melhores poemas: «…os campos que germinam nas entranhas das sementes / e a terra que não morre de parto / ainda que as flores nasçam siamesas» (p.16); «há um pessegueiro dentro do fruto / um pomar de pessegueiros neste abrigo / rasgado pelas luzes da cidade» (p. 32); «A erva onde todos se deitam e se deita em todos /o chão que nenhuma mão nenhuma primavera lava» (p. 56). É nestes instantâneos que a poesia de Catarina Nunes de Almeida se revela mais atraente e luminosa. Pena que na maioria dos poemas ressalte alguma ausência de sobriedade e de discrição, talvez por culpa de um ímpeto a ser superado com a maturidade, que acaba por nos deixar aquele sentimento de ainda haver muito a rasurar.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

QUARENTA ROMANCES DE CAVALARIA

Tentar decifrar um livro de poesia é quase sempre uma tarefa ingrata, dado o carácter indefinível do próprio discurso poético. O confronto com um livro de poemas exige, deste modo, uma vigilância que não tenha na sua origem a intenção de vigiar, ou seja, uma abertura e um desprendimento que permita ser a palavra poética a criar, por si só, os sentidos e os significados que tiver de criar no momento da leitura. Nunca se lê um livro de poesia da mesma maneira, assim como duas pessoas jamais repetirão a mesma leitura. Julgo, aliás, que é assim com todo o género literário, mas mais ainda com o poético. Acontece existirem livros cuja organização nos sugere uma ordem formal que escapa ao conteúdo, sobretudo se o conteúdo induzir impulsos, manifestar liberdades, ostentar, até, um certo descomprometimento com o leitor. Quarenta Romances de Cavalaria e Outros Poemas, de Frederico Mira George (n. 1962?), é um desses livros. Abre com uma dedicatória, seguida de epígrafe, a Herberto Helder, o que não admira, pois a este poeta vai Frederico Mira George buscar aquele fluxo de escrita que a tantos abespinha e a outros cativa. Muito distante, porém, do mestre em termos de sensibilidade poética, o autor de Quarenta Romances de Cavalaria prefere um registo mais provocador e irónico, por vezes tétrico e mesmo grotesco, diria que muito menos místico e muito mais surrealizante. Logo no primeiro de quatro livros, todos compostos por quarenta poemas, deparamos com duas noivas sentadas nos bancos de um jardim onde olham um revólver: «marta e ana amam o revólver / são noivas num jardim entrecruzando as pernas / como cinzentos brincos-de-princesa na praia» (p. 11). Seguem-se «agulhas que sabem a chouriço» (p. 12), «miríades de deuses que precisam das suas sotainas engomadas pa / ra celebrar orgias no olimpo» (p. 13), pernas ásperas, pés doridos, sangue, vómito e febre, «a cabeça a estalar / de agulhas» (p. 18), «nuvens em forma de ovo transbordando de pólen e azeite» (p. 26), chuvas de pregos e de martelos, a degradação do amor, é óbvio, o cansaço a tomar conta da paixão, o costume e a existência doméstica a derrearem o amor. As imagens irrompem dos versos de Frederico Mira George como uma encruzilhada de sentidos, criando um ambiente onde a força da respiração se pontua a si própria, uma encruzilhada avessa às convenções que armadilham, tantas vezes, a poesia. O que aqui temos é a experiência de um acto terrorista, por isso mesmo poético, onde as palavras saem estropiadas, partidas a meio, acopladas, soletradas, com a pontuação por vezes invertida, outras vezes ausente, em regime de ruptura com qualquer tipo de tratado acerca da arte de bem escrever. Atentemo-nos ao título: Quarenta Romances de Cavalaria e Outros Poemas. Uma breve pesquisa sobre o romance de cavalaria informa-nos que este surgiu na Idade Média, tendo como principais características a complexidade do enredo, por vezes próximo do fantástico, e o carácter simbólico. É esse simbolismo o que se retoma nestes poemas, poemas que também são romances, enredos, situações que emergem na palavra com a figura de uma teia. Em Metrónomo, o Livro Segundo, o poeta (con)centra-se no eu e lança-nos pistas: «por dentro do sangue as veias correm álgidas levando ao coração / uma leveza inteira / e é nesse percurso gélido / intrasanguíneo / que reside o sentido último do verso» (p. 62). Surgem, aqui e acolá, referências várias aos rituais católicos, misturadas com evocações da vida quotidiana, familiar, reflexos próximos de um erotismo insólito, muito ao jeito do que acontecia na poesia e nos filmes de Luis Buñuel. Há evocações várias, diálogos, referências: Évora, Godard, Verdes Anos, Hans Hesse, Satie, Bach, Cervantes, Fiama, Al Berto, etc. O que quer tudo isto dizer? Puzzle sempre por terminar é o poema, enquanto repositório das complexas redes de associações que nos enformam a memória. Os Quarenta Romances de Cavalaria propriamente ditos são o Livro Quarto deste puzzle, quarenta poemas em prosa, sem qualquer tipo de pontuação, para ler de um só fôlego: «…vivo num pequeno apartamento de duas assoalhadas mais casa de banho e cozinha nos arredores de lisboa tenho uma razoável colecção de selos e bilhetes de autocarro com números capicua e gostava que a minha vida pudesse terminar sem grandes sobressaltos pelo menos que não voltasse tudo para trás que não tivesse que me confrontar de novo com a peste dos romances de cavalaria…» (p. 186).

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

BOCA DO INFERNO

Boca do Inferno é a expressão pela qual ficou conhecido o poeta Gregório de Matos e Guerra, nascido na Baía de Todos os Santos em 1633. Ironia das ironias, de santo não tinha nada este descendente de portugueses que a determinada altura da vida resolveu entregar-se a todos os vícios possíveis de imaginar. Antes de viajar para Portugal com a intenção de estudar leis, frequentou um colégio de jesuítas. Já na pátria lusa, matricula-se na Universidade de Coimbra. Forma-se em Cânones no ano de 1661, o mesmo do casamento com D. Michaela de Andrade. Inicia uma auspiciosa carreira jurídica que o prenderá a Portugal durante trinta e dois anos. Entre os seus amigos destaca-se o portuense Tomás Pinto Brandão (n. 1664 – m. 1743), autor de um volume de versos em estilo satírico intitulado Pinto Renascido (1732). A vida dos dois amigos confundir-se-á de tal forma que ainda hoje permanece um mistério a verdadeira autoria da sátira Este é o Bom Governo de Portugal: «Os Ministros de Justiça / que nunca a fizeram direita, / porque a valia respeita / pela puta, ou por cobiça, / o Demónio assim lhe atiça / este fogo em seus ardores, / juiz e corregedores, / letrados e escrivães, / alcaides e tabeliães, / todos vestem de um saial. / Este é o bom governo de Portugal». Precisamente na companhia de Tomás Pinto Brandão, Gregório de Matos regressa ao Brasil, já depois de ter enviuvado, nomeado tesoureiro-mor da Sé baiana. Será rapidamente destituído de todos os cargos por recusar ordens superiores e o uso da batina. Inicia-se assim a outra carreira de Gregório de Matos, uma carreira que eu diria em tudo oposta à de magistrado. A falta de tento na pena e o confronto com os podres da sociedade em que vivia, podres esses bem seus conhecidos de perto, como que o impelem à denúncia, em estilo corrosivo e pornográfico, da vilania e cretinice, da mediocridade e pedantice da canalha de sua terra: «Brás, pastor inda donzelo / Querendo descabaçar-se, / Viu Betica a recrear-se, / Vinda ao prado de amarelo; / E tendo duro o pinguelo / Foi-lho metendo, já nu, / Fossando como um tatu. / Gritou Brites: inda bem, / que tudo sofre quem tem / Rachadura junto ao cu». Todas as frontarias saem arruinadas nos versos atiçados deste Gregório, sejam freiras ingénuas, sejam damas mui altas, sejam conselheiros hipócritas, governantes facínoras. A veia erótica das suas décimas – mais correcto seria dizer o músculo erótico – extravasará todas as fronteiras daquilo a que hoje se apelidaria de politicamente correcto: «Eu, na minha opinião, / Segundo o meu parecer, / Digo que não há foder / Senão cono de enchemão: / Porque um homem com sezão, / Inda sendo caralhudo, / Meterá colhões, e tudo, / E assim mostra a experiência / Que, do cono a excelência, / É ser bem grande e papudo». Novamente casado, com uma tal Maria dos Povos, entrega-se com gosto e afinco à boémia, à vagabundagem, à embriaguez. Recita os seus poemas na rua e nas tabernas, e, talvez seguindo o exemplo de Tomás Pinto Brandão, vende-os pela cidade a troco de polémicas várias. Denunciado à Inquisição em Lisboa, ameaçado de morte, vai deportado para Angola no ano de 1694. Morrerá um ano depois, já regressado ao Brasil, vítima de febres contraídas em África, no dia 26 de Novembro. Recordo hoje Gregório de Matos como se o tempo não tivesse passado, como se a mesmo falso puritanismo continuasse a reger, sob moldes diversos, a nossa vida de todos os dias. A propósito de quê esta onda censória que nos assola, porque assola, vinda de quem, lá do alto da sua sabedoria instalada, julga poder refrear a expressão, a liberdade, como se esta fosse coisa de hoje em dia? O medo, creio, é o da visibilidade, é o de estar mais próximo e disponível o eco da denúncia. Não podendo já deportar para Angola aquele que ousa apontar o dedo à ferida, não podendo esconjurar aquele que se arrisca na denúncia dos podres instalados, denigre-se e ameaça-se a voz até que ela recue ao silêncio. E é curioso, tão curioso, que sejam precisamente alguns dos que mais lutaram para que fosse possível dizer basta, quem agora vem brandir proibições, à luz de um temor que é o de se ver atingido pela ausência de rosto e, por isso, de controlo que esta rede para a qual saltámos implica. A esses a última décima de um Gregório, passados tantos séculos, 'inda à espera de ser expelido: «Fodamo-nos, minha vida, / Que estes são os meus intentos, / E deixemos cumprimentos / Que arto tendes, de comprida. / Eu sou da vossa medida / E, com proporção tão pouca, / Se este membro vos emboca / Creio que a ambos nos fica, / Por baixo crica com crica, / Por cima boca com boca».

- Gregório de Matos, Boca do Inferno, colecção Contramargem 15, & etc., 1982;
- Tomás Pinto Brandão, Vida e Morte de Tomás Pinto Brandão Escrita Por Ele Mesmo Semivivo – Este é o Bom Governo de Portugal, Publicações Europa-América, 1976.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

CONCETTI SPAZIALLI

As telas monocromáticas rasgadas, que Lucio Fontana produziu com a intenção de «aprofundar criticamente a própria noção de pintura», produzem em mim uma certa ambivalência: não sei se me revejo mais no monocromático ou no rasgão. Sei que o mundo não deve andar muito distante disto, de uma tela monocromática rasgada.

Estas coisas têm o dom de me deixar a mioleira em frangalhos. Era assim nos tempos do espanto provocado por um urinol, parece continuar a sê-lo. Interrogo-me sobre isto: o mundo não deve andar muito distante de uma tela monocromática rasgada. Se calhar sou eu a ver coisas, mas noto uma certa abnegação no acto de rasgar a cor. Gosto disso e convém-me muito, apesar das minhas tenras, ingénuas e inexperientes 32 primaveras. É curioso que a propósito destas provocações muita tinta tenha corrido, uma mais negra que outra. Esforço-me por pintar a minha passagem pelo mundo, tanto quanto me é possível, com as cores primárias de quem passa o tempo e brinca e respira. Verdade seja dita que não tenho outras cores à disposição, nem me esforço por tê-las. E mesmo que as quisesse, reconheço que as não mereceria. A minha mãezinha chama-me simplório, eu digo-lhe que a culpa é do pai, a mana concorda, a mulher dá-me carinhos. Apercebi-me cedo que isto do desassossego tem as suas compensações, mesmo saindo caro ao conforto. Resta-me o gosto pelo copo, de política e de catarro estou cheio, inclino-me para a pesca e para passeios pela serra. Reparo agora que estou para aqui num esforço tremendo a armar-me em engraçadinho e que não tem graça alguma pôr graça nas verdades: o mundo é definitivamente uma tela monocromática rasgada.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

ESTÓRIAS DOMÉSTICAS & OUTROS PROBLEMAS


Estórias Domésticas & Outros Problemas
OVNI
Dezembro de 2006

não tenho nada contra a poesia
mas é mais útil a limpeza a seco
Fernando Assis Pacheco

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

OS DISTANTES ACENOS

António Salvado (n. 1936) é autor de uma vasta obra, iniciada em 1955, cuja parte mais considerável se encontra reunida em três volumes editados pela A Mar Arte. Os Distantes Acenos, uma das suas colectâneas mais recentes, é uma Edição Estudos de Castelo Branco e mostra-nos o poeta no pleno da sua maturidade. Contemporâneo de autores como António Osório (n. 1933), Pedro Tamen (n. 1934), Maria Teresa Horta (n. 1937), entre muitos outros, Salvado nunca atraiu o reconhecimento e a popularidade que ajudam a colocar alguns dos seus pares entre os mais importantes do Séc. XX. Poucos leitores de poesia portuguesa do século passado terão ouvido falar do seu nome, ofuscado que foi pela sombra de obras colossais, de Herberto Helder (n. 1930) a Ruy Belo (n. 1933 – m. 1978), de Rui Knopfli (n. 1932 – m. 1997) a Fernando Assis Pacheco (n. 1937 – m. 1995), de E. M. de Melo e Castro (n. 1932) a Alberto Pimenta (n. 1937). Poucos serão também os leitores que terão tido acesso à sua poesia, cuja circulação e divulgação nunca mereceu a mesma vigilância crítica e promocional de outras vozes, cada qual com os seus particularismos. Não penso que se trate de um poeta da mesma dimensão da maioria dos acima referidos, mas é, por certo, um poeta que mereceria outra atenção - não fosse o caso de vivermos num país onde "a importância dos poetas" é medida em função das cátedras que os fomentam ao estilo de modas efémeras mas tão rentáveis quanto possível. Talvez precisamente por isso, por ser um poeta avesso a modas, me apeteça chamar a atenção para um certo classicismo que vislumbro na obra de António Salvado. Em poucos poetas da sua geração, mais ainda nos actuais, encontramos uma riqueza lexical e, por consequência, uma densidade linguística como aquela que nos propõe a sua poesia. Resulta isso numa noção de ritmo fiel às formas clássicas, não porém conservadora, que acaba por ser hoje, depois de todos os modernismos, cada vez mais um desafio tremendo à leitura: «Escrevo como quem sem viço colhe / d’um qualquer seco arbusto / exíguas cascas de pequenos brotos / que ali ficaram para quê e mortos / mas que sonharam o sabor de frutos» (p. 37). Os Distantes Acenos é um livro que nos chama permanentemente a atenção para a riqueza da língua portuguesa, respeitando-a na sua forma mais lírica e contribuindo, assim, para uma diversidade que julgo ser o aspecto mais rico da nossa poesia do século passado. Os seus poemas são breves registos, em tom afectuoso, da ambivalência com que o sujeito poético vivencia a realidade. Se os olhos logram comover-se com a pureza, fragilidade, puerilidade, candura, de uma flor abrindo, já o coração parece não conseguir libertar-se da dúvida, do súbito pesadelo da dúvida, da procura inquieta de uma plenitude que a toda a hora escapa. De certa forma há um desconforto, um ruído que exila o coração e que o leva ao pranto, que o adormenta, há, enfim, um mal-estar que teima sobrepor-se à ternura da paisagem. Num belo poema intitulado Largamente Nevara…, são, no final, os restos mortais de um lobo morto o que acaba por sobressair dentro dos vales, das encostas, das ravinas, da brancura, da calma, do silêncio da floresta. No fundo, Os Distantes Acenos são fragmentos de beleza que não apagam a melancolia que a(tinge) o coração: «Os acenos distantes / não chegam a quebrar melancolias / à cor desvanecida do meu sangue… / E uma nesga de fé não criaria / um novo anelo à minha confiança» (p. 40). Talvez este livro, talvez os poemas deste livro, possam eles mesmos ser um desses acenos distantes, estejamos nós para aí voltados e de coração aberto para a poesia, sem preconceitos a toldarem-nos as opções de leitura.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

PEREGRINAÇÃO

Peregrinação Exemplar
Peregrinação Exemplar
de Robert Bresson
Au hasard Balthazar (1966), filme de Robert Bresson (1901-1999), levou o título português de Peregrinação Exemplar. O título brasileiro, se bem sei, foi A grande testemunha. Quer o título português, quer o brasileiro, induzem-nos em interpretações da história que escapam ao título original. O título original remete-nos apenas para a personagem principal, o burro Balthazar. De facto, o que o filme de Bresson nos mostra não é mais do que o percurso de vida de um burro. Do nascimento à morte, o destino do burro cumpre-se debaixo do carinho das crianças, do chicote dos adultos, dos maus-tratos, do trabalho, do medo. Morre velho e cansado, entre um rebanho de ovelhas, carregado de contrabando. Mas até esse momento derradeiro de uma peregrinação que quereríamos tudo menos exemplar, o burro Balthazar testemunha múltiplas situações, conhece as faces opostas da humanidade, participa dos males da vida como se fosse um entre nós. Não é um burro qualquer. No circo descobrem-lhe qualidades extraordinárias, como uma inteligência rara que lhe permite resolver difíceis operações de multiplicar. É um burro com sentimentos e vontade própria. Sente medo e foge, sente comiseração e regressa. Paralela à vida do burro, Bresson mostra-nos a de Marie. As duas vidas são inseparáveis. Balthazar, assim literalmente baptizado por Marie, foi-lhe oferecido na infância. Mas a infância perdeu-se, com ela a inocência, o carinho, o afecto, os elos que ligavam ambas as personagens. Caídos nas mãos do embusteiro Gerard, Marie e Balthazar tornam-se ambos vítimas da maldade humana. De arrasto, a ignomínia, tão pesada nos meios rurais, o sofrimento, o terror, a violência, a condenação a uma vida miserável de sujeições e vergonha. De exemplar, as peregrinações do burro Balthazar e de Marie apenas têm a crueza com que nos aclaram uma parte de se estar vivo. Balthazar, um burro, é testemunha do mal, um mal humano, não mais que humano, porque dificilmente poderemos falar de mal para lá dessa ténue linha que nos distingue dos quadrúpedes. Esse mal, no caso, torna-se tão mais indigesto quanto nos chega pela vida de quem nos quis bem, a quem queremos bem. Esse mal, no caso, é aquela dor insuportável de vermos quem amamos arrastar-se nos braços da violência e da crueldade. Robert Bresson era católico, particularidade, de resto, patente neste filme. No entanto, não era um católico comum. Se há algum Cristo em Au hasard Balthazar, esse Cristo é o burro cuja vida é sacrificada em prol dos seres humanos. A imagem perpassada da humanidade não é positiva, não escapa ninguém, nem pela ingenuidade nem pela devoção, ao negrume do quadro ali pintado. Todas as fraquezas humanas, todas as debilidades dos homens, são-nos apresentadas sem qualquer possibilidade de contestação. Não haverá ateu que hesite concordar, ainda que parcialmente, com a perspectiva de Bresson, mesmo partindo de um ponto de vista mais humanístico. É que a questão não é saber se não haverá pessoas boazinhas, pelo menos não tão-somente cínicas, fracas, imorais, calculistas, estupidamente moralistas como as que nos são apresentadas. A questão é antes: se as há, onde estão? Estão escondidas, ofuscadas por um mal que é de tal forma manifesto que nos oprime a esperança. Só a morte paradisíaca do burro Balthazar nos deixa algum amargo de boca. Ninguém morre daquela forma. Passe a ironia, Cristo morreu na cruz, Gandhi foi assassinado, nenhum deles recebeu o Prémio Nobel da Paz. Se a ideia é fazer acreditar que aos burros caberá uma paz que outros não almejam, desenganem-se. Neste mundo de amestrados, nem os burros se safam.

terça-feira, 21 de novembro de 2006

FIALHO NEGRO

Há coisa de uns 10 anos ficava eu noite dentro cativo da TV para assistir ao Conversas Secretas, programa de Baptista-Bastos, transmitido na SIC, que se celebrizou depois de Herman José o ter caricaturado numa rábula que consistia na repetição exaustiva da pergunta: «Onde estava no 25 de Abril?» Num desses programas, Baptista-Bastos saiu-se com esta: «Qualquer candidato a escritor português devia ser obrigado a ler Os Gatos, de Fialho de Almeida». Ora eu, à época contaminado por lúgubres ambições, não quis perder tempo e, no dia seguinte, fui à cata da imprescindível obra que faria de mim, mais que não fosse, um esforçado candidato a escritor. Encontrei um pequeno volume da Ulisseia que compilava alguns textos do que vim a saber tratar-se de seis volumes de fascículos editados semanalmente entre 1889 e 1894. Serviu o pequeno volume para abrir o apetite para a mais corrosiva obra de autor português que algum dia me foi dado ler. José Valentim Fialho de Almeida, nascido alentejano em 1857, era de origens humildes, tendo nutrido, desde muito cedo, um ódio, a que alguns chamariam ressaibo, por tudo o que cheirasse a burguesia rica e aristocracia do «pé fresco». Após ter concluído a instrução primária, foi internado num colégio em Lisboa. A experiência durou cinco anos, tendo o escritor que se fazer à vida como praticante numa farmácia. Foi por essa altura, aos dezassete anos, ainda antes de completar o curso de Medicina, que começaram a surgir as suas primeiras crónicas num jornal de Leiria. Escrevia sobre teatro, circo, sobre a sociedade lisboeta, arte, literatura, sobre gente humilde. Aluno avesso à disciplina, era descrito como um hipocondríaco que alternava dias de exuberância com outros de depressão, ou seja, «neurasténico, deprimido e ensimesmado». A propensão panfletária, difamatória, satírica e maledicente, foi sendo aguçada nesses tempos, por vezes sob os pseudónimos de Valentim Demónio e, mais tarde, de Irkan. A política de Fialho era apenas uma, bem sintetizada nesta breve asserção de Suicide-House: «A vida é uma peça, e quem a acha má tem dois recursos: pateá-la, é o meu caso; ou ir-se embora, o que é o caso dos suicidas». Daí que o próprio não tenha feito cerimónia em magicar uma «instituição humanitária» ao serviço do suicídio, cuja divisa «Mata-te antes que te matem» nos parece suficientemente clarificadora do espírito desprendido deste bravo lusitano. No ano da graça de 1881, o reconhecimento chegou-lhe por via de um volume de Contos dedicado a Camilo Castelo Branco. Terminado o curso de Medicina, casou, aos trinta e seis anos, com Emília Ausgusta Garcia Pego, órfã de famílias abastadas do Alentejo, o que daria azo a várias intrigas sob o móbil do casamento. Certo é que a coincidência da morte de sua querida esposa, vítima de tuberculose, granjeou Fialho com uma fortuna que lhe permitiu uma dedicação às letras de outra forma insustentável. Este pequeno folheto da colecção contramargem da & etc, intitulado Fialho Negro (1981), reúne cinco exemplos da faceta mais negra de um autor que, por estes dias, me leva a crer ter sido detentor de um estatuto que muitos hoje almejariam mas poucos, quase nenhuns, logram equiparar. Maledicentes de língua manca são o que para aí não falta, assim como almas reptilárias de veneno açucarado. Tagarelas, palradores, gente absolutamente certa de certezas nenhumas, arrivistas e indigentes, anónimos-convictos-anónimos, artilheiros obscuros, há tantos quantos chapéus e carapuças. Mas poucos, como Fialho, lograriam assinar uma Carta a Sua Majestade, sugerindo-lhe um regicídio em nome do prestígio da coroa, proponde-se mesmo espatifar o rei que, desavergonhadamente, ainda se mantinha vivo. Termino dando luz da vida literária no tempo de Guilherme D’ Azevedo, autor de uma poesia «gorjeada de superficialidades sem arranco, ajanotada e romanesca», sequência de «banalidades doces, ditas a namoradas, a invocações à musa em tom grandíloquo, a desalentos sem causa e cepticismo sem filosofia»: «A vida literária no tempo de Guilherme, era pouco mais ou menos o que é hoje; misantropias azedas sem vintém, acessos de mau humor com pretensões paradoxais, ceias baratas, espanholas, redacções, Martinho, Grémio, casa Havanesa, e os camarins d’ algumas cómicas mais puxadas». Mudem-se os nomes aos lugares, qualquer semelhança com os dias de hoje é pura… história para comentaristas.

LOUCURA

É uma louvação à vida que nos cura da normalidade.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

UM MÊS

Que faríamos se nos revelassem termos apenas um mês de vida pela frente? Talvez antecipássemos a morte, talvez procurássemos prepará-la, preparando-nos a nós e aos outros para o facto, talvez desatássemos a correr até cairmos para o lado, talvez nos enchêssemos de ódio e déssemos cabo de tudo o que se nos deparasse pela frente, talvez preferíssemos mergulhar nos sinuosos prazeres da luxúria até que o coração dissesse pára. Talvez fizéssemos como Romain, personagem central do filme O Tempo que Resta, de François Ozon, que perante a inadiabilidade da morte procurou reconquistar alguma paz interior revisitando os lugares da infância, fotografando o tempo que lhe restava. Geralmente as fotografias são registos de um tempo passado, no caso surgem quase como apreensões de um tempo que ainda está para acontecer. Alguém que regista os seus últimos momentos, sabendo que vai morrer, é, de certa maneira, alguém que se antecipa ao futuro. Ou então é alguém que procura ver o mundo por uns olhos que até então lhe escaparam. Por que outra razão registaria assim o mundo alguém que soubesse ir morrer daí a nada?

sábado, 18 de novembro de 2006

PROJECTO IMEDIATO

Aderir ao eterno instante.