sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

CARAMELO

O caramelo é um rebuçado pegajoso que se cola muito aos dentes. É esse um dos seus principais inconvenientes. Se não lavarmos bem a boca depois de o mastigarmos, corremos o risco de produzir cáries e doenças gengivais irreversíveis.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

O MUNDO DO SILÊNCIO


Rever Le Monde du Silence, de Jacques-Yves Cousteau e Louis Malle, a esta distância de 50 e qualquer coisa anos, pode ser uma experiência fascinante. Curiosamente, uma das minhas cenas preferidas não se passa debaixo do mar nem é particularmente silenciosa. Trata-se daquele momento em que a tripulação do Calypso descansa, sob um calor tórrido, enquanto espera por terra à vista. Alguns dormem, outros banham-se em água fresca, um fuma cachimbo, outro lê, deitado numa espreguiçadeira, e há até um elemento da tripulação que toca violoncelo. Aquele momento de mero lazer é extraordinário, pois mostra-nos o que se pode fazer quando nada há para ser feito. Ontem, em conversa com um amigo, falávamos precisamente da televisão enquanto elemento aglutinador dos tempos livres. Recordávamos com nostalgia as nossas brincadeiras no rio, nos pomares, a jogar à bola, a brincar aos tropas, a caçar pardais, a experimentar o mundo. Depois lembrámo-nos de um episódio dos Simpsons, com uma cena bastante elucidativa de qualquer coisa que ainda não está tão bem explicada como possa parecer. A dada altura desse episódio há uma quebra no serviço televisivo e a população de Springfield sai toda para a rua, divertindo-se com as mais diversificadas ocupações; quando o serviço televisivo é reposto, as ruas ficam desertas, a população regressa em massa para os seus lares e senta-se a ver televisão. A televisão aqui deve ser considerada como símbolo da parafernália tecnológica que a maior parte das famílias do mundo dito desenvolvido tem hoje ao seu dispor dentro das suas casas. Bem sei que a noção de "qualidade de uma sociedade" é um pouco espúria, mas não resisto a aplicá-la neste sentido: creio que "a qualidade de uma sociedade" se reflecte muito na forma como as pessoas ocupam os seus tempos livres. Refiro-me à qualidade num sentido de maturidade, sociabilidade, civilidade, etc. Ora, não me parece que passar os tempos livres especado frente a uma televisão ou a um computador, a praticar a arte do zapping ou da navegação sem naufrágios, seja um caminho muito promissor. Esta questão preocupa-me por três razões especiais: sou pai de duas filhas, formador de muitos jovens, viciado em weblogs. Em qualquer um dos casos, o que me assusta é a forma como tantas e tantas vezes a realidade se subtrai ao que as tecnologias da informação, sejam elas quais forem, nos mostram. Passando as pessoas cada vez mais tempo dos seus tempos livres em ameno transe tecnológico, muita da tal qualidade de vida é colocada em cheque. Há alguns dados preocupantes sobre o tema: menor capacidade de concentração, maior conformismo, apaziguamento da curiosidade – provocada pela ideia de que se sabe tudo pelo simples facto de tudo ser dado a ver com a maior das facilidades -, indiferença, entre outros que podem resumir-se numa palavra: estupidificação. Por tudo isto vos digo, caros leitores-irmãos, larguem desde já os computadores, saiam de casa, vão ao café, falem com os vossos vizinhos, procurem um jardim, dêem um passeio na praia, vão brincar para junto de um rio, vão à pesca, libertem-se quanto antes deste inferno tecnológico se não querem ficar como eu. E longe de querer parecer o Padre António Vieira do Sermão de Santo António aos Peixes, permitam-me que vos lembre o essencial antes de virem com conversas para a caixa dos comentários: «Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam.» Por isso mesmo agora vos deixo, com o Jojo no coração, pois bem melhor faria se fosse pregar às criaturas do Monde du Silence.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

UM HOMEM, UM GUARDA-CHUVA, UMA CABEÇA

A OVNI aterrou nas livrarias portuguesas, tanto quanto possível, com esta colectânea de contos do argentino Fernando Sorrentino (n. 1942). Apresentado na nota biográfica introdutória como «mestre do conto», de Sorrentino conhecia-se na língua portuguesa, que eu saiba, apenas o conto que dá título à colectânea agora publicada, outrora aparecido na excelente revista Ficções, com tradução de Fernando Venâncio. Os dezoito contos que compõem Existe Um Homem Que Tem O Costume De Me Dar Com Um Guarda-Chuva Na Cabeça provêm de quatro livros do autor. Assim, para uma relação mais minuciosa temos quatro contos de Impérios y servidumbres (1972), mais quatro de El mejor de los mundos posibles (1976), nove de En defensa própria (1982) e um de El remédio para el rey ciego (1984). Estando já anunciada uma segunda colectânea a ser posteriormente editada pela mesma casa editorial, podemos dizer que, apesar de ser vasta a obra de Sorrentino, perspectiva-se um panorama simpático, em língua portuguesa, de uma produção iniciada em 1969 com o livro La regresión zoológica. As histórias deste autor possuem, desde logo, uma vantagem relativamente a muitas outras: são inocentes até prova em contrário. Cometem algumas transgressões, sobretudo quando traem a lei das probabilidades, optando por um registo tão absurdo quão inverosímil. Mas esse registo absurdo, que pode verificar-se por exemplo na ideia de um homem que persegue alguém para todo o lado, a toda a hora e a todo o instante, batendo-lhe com um chapéu-de-chuva na cabeça, não se pode dizer gratuito. Por isso lhe chamo vantagem, já que muitas vezes a short story resvala com facilidade numa certa gratuitidade estilística. Isso acontece quando a narrativa se torna escrava do remate, da moral, da punchline extraordinária, grotesca, surpreendente. No caso dos contos de Sorrentino, as situações absurdas, normalmente caracterizas pela introdução de um elemento anormal em situações normalíssimas, nunca chegam a ser desfeitas nem solucionadas. Elas dão antes azo a uma estranha conexão com aspectos particulares da normalidade, aqui entendida no sentido de lei, regra social, hábito, costume, justiça, valores. É essa conexão à normalidade, por via de um absurdo em tom de «e se», que leva a personagem do conto que dá título à colectânea a habituar-se de tal maneira à presença do homem que lhe bate na cabeça com o guarda-chuva que chega a angustiar-se «de pensar que, porventura quando mais necessitar dele, este homem se irá embora» (p. 13). Os melhores contos desta colectânea – acrescento ao já referido os contos O Espírito de Emulação, Fábula Edificante, o brevíssimo Mera Sugestão, Uma Cruzada Psicológica, Essência e Atributo, Em Legítima Defesa – vivem destas conexões. Aliás, em Uma Cruzada Psicológica é o próprio autor quem nos incita a levar à prática o que ele sabiamente joga com o leitor, ou seja, «colocar o examinando frente a situações inéditas e observar as suas reacções» (p. 103). É este jogo entre a situação inédita e a construção de uma plausibilidade o que se desfruta através da leitura dos contos de Sorrentino, escritos com um sentido de humor extraordinário e um préstimo lúdico que não dispensa a inquietação: «A cruzada psicológica obriga a certos desvelos (como todas as cruzadas), exige duros sacrifícios (como todas as cruzadas), implica ver-se envolvido em sérias dificuldades (como todas as cruzadas). Mas, que significam estes inconvenientes, comparados com a deleitosa observação das reacções que a cruzada psicológica suscita?» (p. 106)

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

AO REMETENTE

Um aluno a dormir em plena aula.
Um professor a morrer de inveja.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

A CIRCUNSTÂNCIA DA ÉTICA DA CIRCUNSTÂNCIA



Uma das vantagens das imagens de satélite e da fotografia aérea é permitir-nos uma perspectiva mais global de um certo fragmento da realidade. No entanto, esse fragmento, como bem sabemos, não se esgota na perspectiva global que dele tenhamos. Para o entendermos é fundamental chegarmos os olhos às suas particularidades. Teremos que recorrer, em última instância, a um microscópio – isto se pretendermos entender esse fragmento em toda a sua complexidade. O problema é tanto mais difícil quanto mais extenso for o objecto da nossa observação. No limite, para termos uma visão global da realidade teríamos que recorrer a engenhos ainda por inventar. A filosofia, que desde sempre procura ser uma tentativa de compreensão do mundo na sua totalidade, depara-se muitas vezes com este problema. Daí que a grande maioria dos filósofos faça sempre questão de sobrevalorizar a função crítica e problematizante da filosofia, relegando para segundo plano as eventuais respostas que esta ofereça em consequência das suas reflexões. Diversos filósofos escreveram obras imensas para concluírem a impossibilidade de uma resposta universal aos problemas que colocam, mostrando assim que a filosofia é sempre mais um esforço de compreensão do que de explicação. Tive um professor que falava também dos autores cujo discurso nos exigia permanentemente o recurso a um satélite para a compreensão das suas ideias. Entre esses autores, destacava-se, por exemplo, o alemão Karl-Otto Apel, autor de uns Estudos de Moral Moderna que começam logo assim: «A rigor, o título do presente trabalho deveria ser: “O jogo de linguagem transcendental da ilimitada comunidade de comunicação como condição de possibilidade das ciências sociais”.» Seria, está de ver, um título bem mais interessante e provocador. Mas Apel resolveu simplificar no título o que não simplificou na obra. Questionando-se sobre «a carência de uma ética universal, isto é, vinculadora para toda a sociedade humana», o filósofo procede a uma distinção que não pode deixar de nos inquietar: «Se, em vista das consequências, hoje possíveis, de acções humanas, distinguirmos entre uma microesfera (família, matrimónio, vizinhança), uma mesoesfera (patamar da política nacional) e uma macroesfera (destino da humanidade), então será facilmente demonstrável que as normas morais, actualmente eficazes entre todos os povos, ainda estão sempre predominantemente concentradas na esfera íntima (sobretudo na regulamentação das relações sexuais); já na mesoesfera da política nacional elas estão, em larga escala, reduzidas ao impulso arcaico do egoísmo grupal e da identificação grupal, enquanto as decisões propriamente políticas valem como “razão de estado” moralmente neutra. Mas, quando é atingida a macroesfera dos interesses humanos vitais, o cuidado por elas ainda parece estar confiado, primariamente, a relativamente poucos iniciados». Mas quem serão estes poucos iniciados? Como poderemos determiná-los na vastíssima manta da humanidade? Julgo que a parte mais considerável dos preceitos éticos e morais – termos que podem ser usados, como faz Peter Singer, indiferentemente – tem a sua origem numa necessidade básica: a da organização da convivência social. É na relação com o outro que o homem descobre o que é ou não moralmente aceitável, o que é ou não ético. Quando concluímos que não devemos matar o nosso semelhante, essa conclusão tem em vista a preservação de uma ordem social. Mas essa preservação aceita excepções: é moralmente aceitável matar alguém, por exemplo, em legítima defesa. O facto de aceitarmos esta excepção como moralmente aceitável torna, automaticamente, a ética dependente da circunstância. O mesmo se pode afirmar acerca de outros situações muito actuais: como vão os países desenvolvidos convencer os que estão em vias de desenvolvimento a não cometerem as mesmas asneiras ambientais que os primeiros cometeram podendo, assim, chegar ao nível económico a que chegaram? Não se torna algo imoral dizer a alguém que está a morrer de fome que não deve matar um animal e comê-lo porque esse animal tem direito à vida? Há circunstâncias que alteram, de facto, a nossa relação com as certezas éticas às quais chegamos através de uma panorâmica via satélite. Quando descemos à microesfera a nossa percepção sobre a tal macroesfera pode e deve-se transformar, sob pena de nos tornarmos fanáticos de uma luz que é sempre a dos poucos iniciados que ainda podem brincar com imagens de satélite e fotografias aéreas.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

A LÁGRIMA

É um clima agreste.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

ANSELMO

Anselm Kiefer

Quando era criança brincava muito com exércitos de plástico e a minha história favorita era a d’O Soldadinho de Chumbo, um conto que, vim a saber mais tarde, foi escrito pelo dinamarquês Hans Christian Andersen. Hoje estava a folhear um livro sobre a obra de Kiefer, não o Sutherland, mas o Anselm, e, tocado por uma forte nostalgia desses tempos, parei algum tempo a olhar um trabalho intitulado Bilderstreit. Trata-se, basicamente, de uma fotografia de dois blindados a apontarem para uma fortificação em forma de paleta. A fotografia tem também algumas inscrições em alemão, escritas a gouache e caneta. É um trabalho, na linha de outros de Anselm Kiefer, eivado de ironia, onde se mistura a iconografia da Segunda Guerra Mundial com formas associadas à criação artística, gerando, assim, uma metáfora representativa da sua própria atitude enquanto artista. Penso nisto a propósito de uma afirmação de Daniel Inneraritu: «ou os artistas compreendem a sua função social e a sua necessidade de serem compreendidos eles mesmos ou nada feito». Isto é muito polémico nos tempos que correm, pois, apesar de desde sempre os artistas questionarem a sua função no mundo e a própria arte nas suas obras, não lhes cabe compreenderem a sua função social como se fossem políticos, padres, médicos, fiscais das finanças, banqueiros ou taxistas. Não nego aos artistas uma função social qualquer, embora não esteja certo de qual, mas duvido que lhes caiba o esforço de compreensão dessa função. Quanto a mim, a função social dos artistas é produzirem arte. Não perspectivo outra função social mais compreensível, legítima e, por que não dizê-lo, louvável que essa.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

A VIRGEM VIOLADA

Sempre me intrigou a aversão dos filósofos ao dinheiro, como se dinheiro e filosofia fossem realidades incompatíveis. Desde muito cedo que a questão se colocou desta maneira: a filosofia é amor ao saber; logo, tirar lucro da mesma reduz o filósofo à condição de prostituta; isto porque só as prostitutas retiram lucro do amor. Penso não existir raciocínio mais anti-filosófico que este, dado o preconceito que revela - e a filosofia só faz sentido quando traz na mira todo o tipo de preconceitos. Na verdade, as prostitutas não retiram lucro senão do sexo. O amor é uma coisa completamente diferente. O que eu penso é que temos cada vez mais gente para quem o saber se apresenta como algo desnecessário, sendo muito poucos os que verdadeiramente o amam. Isto cria-nos um paradoxo, pois à legalização da “prostituição” dever-se-ia seguir a sua quase extinção. Porém, não consta que o negócio vá correndo assim tão mal. Se no mundo em que vivemos até os filhos se decidem pela despesa, o que pensar do saber? Tende a ser visto como um luxo, digamos assim, para prostitutas finas. É deste modo que as pessoas se relacionam com o saber. Duvido que, além dos filósofos e mais meia dúzia de tontos, a relação dos homens com o saber tenha alguma vez sido diferente. Sempre foi uma relação muito semelhante à de quem vai às putas. Quem tem dinheiro, frequenta as finas; quem não o tem, fica-se pela estrada. O resto é missa. Chego aqui depois de voltar a folhear o Discurso Sobre a Dignidade do Homem, de Giovanni Pico Della Mirandola, de onde relembro, evocando Pitágoras, «duas coisas que acima de tudo devemos evitar: urinarmos voltados para o sol e cortarmos as unhas durante o sacrifício». Ora digam se não andamos quase todos a fazer exactamente o contrário?

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

O MEU CINZEIRO AZUL


O Meu Cinzeiro Azul
Ilustrações de Cristóvão Crespo
Canto Escuro
2007

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

O SOM ATINGE O CIMO DAS MONTANHAS

Muito provavelmente, terminarei hoje o meu 2006 de leituras. Pelo menos no que a livros de poesia diz respeito. Fecho, como se costuma dizer, com chave de ouro. Primeiro porque se trata de um livro de uma nova editora, a OVNI, cuja existência, como já deu para perceber, muito me apraz saudar; depois porque o faço com a mais recente recolha de João Camilo (n. 1943), autor de uma obra considerável, com ramificações pela ficção, teatro, ensaio e poesia. O seu primeiro livro de poesia, Os Filmes Coloridos, apareceu em 1978, embora do mesmo autor prefira destacar um extenso volume editado, fez dez anos no ano que ora finda, pelas Edições Fenda. Refiro-me a Nunca Mais se Apagam as Imagens. Importa também referir que já este ano João Camilo havia reeditado Retrato Breve de J.B. (Fenda), ficção originalmente publicada em 1975, e um outro volume de poemas, Elogio do Silêncio, com a chancela da Casa do Sul. As coordenadas da poesia de João Camilo há muito foram traçadas. Quem nunca se tiver perdido no seu universo não deixará de se espantar, desde logo, com um natural convívio entre prosa e verso que dá forma aos seus textos, ligados por um impulso narrativo cuja matriz dificilmente poderá ser determinada. Quer em prosa, quer em verso, estes textos colocam o leitor numa espécie de limbo onde a realidade se cruza com a ficção, originando momentos poéticos que são também reflexões filosóficas, instantâneos da vida, retratos do quotidiano, reminiscências da infância, mapas sentimentais, testemunhos situacionistas de um tempo confuso. Num dos últimos textos deste O Som Atinge O Cimo das Montanhas, o poeta questiona-se sobre o que possa ser uma filosofia de vida, para, logo de seguida, nos colocar uma questão que, de certa forma, define o seu labor poético: «Poeta do instante, aparentemente, mas será a poesia uma vocação ou uma carreira política?» (pp. 98-99) São estas as dúvidas que alicerçam a escrita de João Camilo, como se a mesma fosse um impulso irresistível, inexplicável, que, absurdamente, procura algum sentido para o que, à partida, já é sabido não ter sentido algum. O mesmo texto terminará deste modo: «Que tédio. Que confusão. Que tempo inútil» (p. 99). Seja qual for a temática, é esse tédio, essa confusão, essa sensação de inutilidade o que atravessa a poesia deste autor. As interrogações sucedem-se umas às outras, sobretudo quando o tema é a própria poesia. Mas também quando vêm à tona «a materialidade insuportável / do real: violência, luta pelo poder e pela fama, escravidão» (p. 23), «a condição humana» (p. 29), «os / fantasmas dos desaparecidos» (p. 43), «a nostalgia da infância na aldeia» (p. 77), etc. Solidão, melancolia e tédio como que infectam as palavras, estendendo-se pelos textos onde o autor busca um certo repouso, uma pausa, uma suspensão da dor, ainda que à poesia não se reconheçam poderes curativos, pois: «A poesia é apenas uma forma de respiração e de sobrevivência» (p. 95). A questão é: nada mais existirá para lá dessa respiração, dessa necessidade de sobrevivência? A quem busque um sentido para a vida, pode a poesia desbravar caminho. No denso mato das nossas dúvidas, a poesia pode surdir como uma espécie de logradouro onde montamos a tenda, descansamos os músculos, recuperamos forças. No entanto, nenhuma verdade a poesia encerra. Há aqueles a quem basta respirar e sobreviver, aquietam-se no mato desbravado, traçam as suas fronteiras, ali ficam para o resto da vida. Mas há os outros, mais inquietos, porventura desesperados, nómadas, que não descansam enquanto não atingirem o fio do horizonte, tal como «o som atinge o cimo das montanhas». Não sei de que estirpe será o poeta João Camilo, mas desconfio que, no íntimo, não seja dos primeiros. Pois ele sabe e no-lo revela: «A poesia não fará brilhar / como oiro as cinzas que se acumularam / no túmulo da nossa biografia» (p. 58).

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

INTROUDÇÃO À FILOSOFIA POLÍTICA

- Olha filha, o pior português de sempre.
- Quem é, papá?
- É o Salazar, filha. A esse podes chamar todos os nomes que tu quiseres.
- Mas gaja não...

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

ROMANCE DA TRAIÇÃO

I
Um homem caminha na companhia do seu cão-mais-fiel. O cão vê um osso. O cão é atropelado junto à Praia do Osso. Fica com os ossos à mostra e rói-se todo.

II
O homem enterra o seu cão-mais-fiel. Volta para a mulher. Quando chega ao pé da mulher, o homem constata que ela o trocou por um cão-mais-fiel do que o homem. O homem rói-se de inveja. A inveja é o osso preferido do homem-cão.

III
O homem-cão, à procura de algum consolo, ladra um poema de O’Neill. O’Neill julga isso muito estranho e escreve a «Poesia-Cão». A mulher do homem-cão apaixona-se por O’Neill e trai o seu cão-mais-fiel.

IV
O cão-mais-fiel da mulher atira-se, por ciúmes e vingança, ao homem-cão. Mantêm uma relação gay. A mulher do homem-cão tem com O’Neill um filho que ronca. O cão-mais-fiel diz que esse filho é um porcão.

V
O’Neill, desesperado, escreve poemas sobre a vida. Liga-se tanto à poesia que acaba por negligenciar a mulher. A mulher-negligenciada separa-se de O’Neill, volta para a casa dos pais e entrega o filho porcão aos cuidados da Pocilga Pia.

SONO

O sono levantou-se da cama.
Matilde (3 anos)

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

JUVENTUDE EM MARCHA

Juventude em Marcha
de Pedro Costa

Esperei até hoje pelo meu filme do ano, ou lá o que isso seja, mas também por um desses filmes que fará parte do inventário essencial de uma vida. Tudo o que eu diga deve ser considerado suspeito, convencido que estou, desde O Sangue (1989), da genialidade de Pedro Costa (n. 1958). Juventude em Marcha é uma obra única, com uma ligação estética e ética a obras precedentes do mesmo autor: Ossos (1997), No Quarto de Vanda (2000). O personagem central, desta feita, é o pai de Vanda, um tal de Ventura a quem querem roubar a identidade que resta, atirando-o para uma casa nova onde terá que pagar água, luz e gás. Por onde quer que passe, Ventura verá sempre os vestígios da sua presença apagados. Dos pés ao rosto, apagam-lhe as impressões, a vida, os lugares. Restam as memórias de amigos perdidos, cartas nunca enviadas, fantasmas na memória de um homem velho, as nódoas. Restam as histórias para contar aos filhos e aos netos. Restam os dramas de uma vida na companhia dos mortos. Todas as personagens têm as suas histórias, mais ou menos caricatas, mais ou menos trágicas. Vanda conta como correu o parto da sua filha. A plateia ri. Vanda remata qualquer coisa do género: «Coitadinha, nunca mais me hei-de esquecer de ela a ressacar, como a mãe, ali aos saltos no berço». A plateia ajeita-se nos lugares, pressente-se algum desconforto na sala. Durante a projecção paira sempre esta percepção de um certo desconforto, de ora quem ri para, logo de seguida, estancar num cruel retrato da miséria. E como é bela esta forma de filmar a miséria! Uma miséria a rebentar de poesia, humana, com as Fontainhas em contraponto ao novo bairro social. Não sei se quem olhe o contraste sentirá o mesmo que eu: o bairro social parece-me sempre mais inóspito e sujo do que as Fontainhas, porque aqui ainda resta um pouco da identidade comunitária que no bairro novo parece desaparecer por completo. No bairro novo Ventura parece desapiedado, desintegrado, já só uma sombra de si próprio, ainda que para lá vá arrastando os seus fantasmas. Mas o que mais me impressionou em Juventude em Marcha foi o enquadramento das personagens, a forma como se nos apresentam em retratos de uma intimidade que transpira, ao mesmo tempo e na mesma medida, tristeza, melancolia, solidão e absurdo. Há uma nuvem de absurdo a pairar sobre todas as histórias contadas durante o filme, sobre todas as cenas, um absurdo existencial que nos coloca perante um olhar trágico, no sentido que os gregos lhe davam. Não vislumbro nesse olhar qualquer romantismo, sendo-me ali mais evidentes as marcas de um destino desgraçado, de uma fatalidade identitária punida com o exílio social. São as marcas de uma condenação cultural que me deixa resignado, porque sem grande esperança na nova vida que se avizinha. Tenho lido por aí ser este um filme de confidências. Soa-me bem. Sobretudo se alargarmos as confidências ao estranho, misterioso e fantasmagórico campo da reinvenção de uma vida. Porque o que este filme faz, quanto a mim, é reinventar um desventurado Ventura, restituindo a poesia onde, porventura, poucos dariam por ela. Só um olhar como o de Pedro Costa para no-la oferecer deste modo tão convincente.

domingo, 24 de dezembro de 2006

REVÓLVER

Se bem sei, Revólver é o terceiro livro de poemas de Rui Lage (n. 1975), depois de Antigo e Primeiro (2002) e Berçário (2004), todos publicados na colecção Uma Existência de Papel, das Quasi Edições. Não li o primeiro, mas lembro-me de ter escrito sobre o segundo: «estamos num campo afectivo que seduz pela forma como arrisca na irredutibilidade da memória a uma mera descrição do passado». Devo começar por dizer que se tinha apreciado o livro anterior, muito mais me impressionou o volume agora publicado. Não sei se é justo falarmos numa inflexão de discurso, pois aquele campo afectivo e um modo muito próprio de tratar a memória, feitos notar a propósito de Berçário, permanecem nos poemas deste Revólver. O que sucede é que nos quatro conjuntos que compõem esta colectânea encontramos uma boa dúzia de poemas com uma força, uma soltura e uma dinâmica argumentativa que escapava completamente aos poemas anteriores. Logo na primeira parte, intitulada Licença de porte de arma, a temática religiosa é abordada com um desassombro inquietante. Poemas como I.N.R.I., O fantasma de Nietzsche aparece no meu quarto e fala, Subsídios para uma Poética da Ciência e Deus na oficina, são, quanto a mim, do melhor que se publicou recentemente na poesia portuguesa. Rui Lage dinamita todos os preconceitos e estereótipos religiosos, sem negar uma muito íntima vivência da religiosidade, ao mesmo tempo que nos confronta com aquilo a que Paul K. Feyerabend chamou, noutro contexto, a ditadura fascista da ciência, uma ditadura que impõe modelos de observação e de explicação do mundo auto-proclamados de verdade mas que, no fundo, não passam muitas vezes de um rol de futilidades a disfarçarem o único facto evidente da vida: não temos solução senão conformarmo-nos com a insolubilidade das nossas dúvidas, amanharmo-nos nas coisas boas de vivermos, no que ainda nos reste de belo, natural e salvífico, aprendendo a viver com a inquietação e o desassossego das horas. Apetecia citar todos esses poemas, de tão coerentes me parecerem no seu conjunto. Opto pela parte final de Deus na oficina: «Resta-nos, irmãos, / esperar que a biotecnologia / nos possa salvar a alma, / essa coisa fora de moda, / quem sabe se feita / de proteínas / ou de informação alojada / no córtex parietal superior, // ou que num obscuro laboratório, / algum obscuro sábio, / com mulher, filhos / e contas para pagar, / comunique ao mundo / que decifrou enfim o pensamento de deus, / e assevere que não é assim tão complicado / ou transcendente, / mais valendo por isso irmos todos dormir / sobre o assunto // (porque amanhã é dia de trabalho)» (p. 32). É este cruzamento da ironia com o fulgor da reflexão o que faltava, ou pelo menos estava muito mais disfarçado, nos poemas anteriores do autor. Aqui deparamo-nos com todos os fantasmas do quotidiano, da vida citadina – no caso a cidade do Porto -, do absurdo existencial e da incapacidade perante a deterioração do país, fulgurantemente expressados sob a luz desse cruzamento, como se os poemas fossem balas disparadas contra o mal de vivre. Por vezes, em momentos menos felizes – como no poema O País à porta – cede-se a um ou outro lugar-comum: «país que secretamente não vota / para não se maçar», «país com mais que fazer / (futebol para ver / e mato para queimar)»… Mas que dizer do lugar-comum quando ele nos bate com a evidência de uma verdade insofismável? Com este livro, Rui Lage inclina-se para um exame do mundo e do país onde vive, contribuindo, com um senso irónico e uma preocupação política sincera, para um dos melhores momentos da poesia portuguesa contemporânea.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

O CARTEIRO

O Carteiro de Pablo Neruda
de Michael Radford

Andava há muito tempo para escrever qualquer coisa sobre O Carteiro de Pablo Neruda, talvez desde que aqui cheguei. Fui adiando, adiando, adiando, até que soube do desaparecimento de Philippe Noiret, o actor que interpreta o Neruda do filme. Talvez não passe de mera coincidência, alinhavar agora, pouco depois da notícia da morte de Noiret, algumas palavras sobre um filme que comemorou 12 anos neste 2006 que ora finda. A verdade é que há coincidências embaraçosas, porque nos lembram ser a morte, essa porta aberta ao esquecimento, quase sempre a maior motivação da memória. E depois, ocupamos tanto do nosso tempo a pensar nos filmes que nos inquietam e nos intrigam que, por vezes, esquecemo-nos daqueles que muito simplesmente nos comovem. Il Postino é uma dessas raras experiências cinematográficas cuja magia reside no dom de nos comover, independentemente das circunstâncias íntimas que nos façam companhia nos momentos de revisitiação. Vi-o no cinema, como milhares de portugueses, já uns meses depois de se ter tornado num inexplicável e surpreendente fenómeno de bilheteira. Lembro-me de ter saído da sala com uma sensação de leveza apenas explicável pela noção de que havia aprendido algo, de que havia crescido mais um pouco por dentro e que isso só fora possível porque o que acabara de presenciar tocara-me nesse lugar mais íntimo da sensibilidade, nesse lugar sem marcação de onde vem toda a poesia, esse lugar a que gosto de chamar respiração. Há obras que nos ajudam, sem dúvida, a respirar melhor. O Carteiro de Pablo Neruda é uma delas. Realizado por Michael Radford, adapta a novela Ardiente Paciência de Antonio Skarmeta. O argumento desenvolve-se em torno da relação entre um humilde carteiro de uma ilha siciliana e o poeta Pablo Neruda que para aí vai viver, quando se encontrava no exílio por razões políticas. Essa relação despoletará no carteiro o gosto pela poesia, pelas metáforas, sobretudo por se convencer do poder encantatório das metáforas junto das mulheres. Pablo Neruda, poeta do amor, poeta do povo, poeta. Poeta do povo, demasiado ocupado consigo próprio e com a sua poesia; poeta do amor, especialmente apreciado pelas mulheres. É à sua poesia, às suas metáforas, que Mario, o carteiro, recorre quando pretende enfeitiçar a sua amada Beatriz. E consegue. Casam, honrados pela presença do poeta chileno como testemunha do matrimónio. Entretanto Neruda regressa ao Chile e Mario fica enclausurado na ilha de onde nunca saíra, fica e aguarda pacientemente notícias do seu grande amigo Pablo Neruda, notícias que tardam em chegar, notícias que se esvaem no esquecimento. Fiel ao poeta, mais que o poeta o fora a si, Mario converte-se ao comunismo, acabando por morrer numa manifestação onde leria, assim tivesse sido possível, um poema em honra do seu amigo ausente. É esse poema, esse poema do carteiro Mario, aquele que nunca chegamos a escutar, é esse o poema que mais importa neste filme. Ao pé desse poema silenciado pela morte toda a poesia de Neruda é mero adereço, porque esse poema é o poema da simplicidade, é o poema da fidelidade, é o poema da amizade, é o poema da ausência. É, talvez, o poema das coisas belas que Mario aprendeu a ver no ostracismo da sua ilha, as ondas do mar, o vento nas escarpas, as moitas, o silêncio de um imenso céu estrelado, as redes tristes de seu pai, pescador, e Beatriz. Sobretudo Beatriz, metáfora feita carne, feita corpo que não se explica, beleza inexplicável, como a poesia que explicá-la seria uma traição. Ao descobrir a poesia, Mario descobre também a beleza do mundo que o circunda, descobre-o com o espanto de quem vê pela primeira vez o mundo à sua volta. Massimo Troisi, o actor italiano que interpreta o carteiro, faleceu antes do filme estrear. Foi este o seu último fôlego, sereno, calmo, paciente, misteriosamente belo. Noiret junta-se-lhe agora, passados 12 anos. Que o esquecimento lhes seja tão leve quanto a poesia que nos proporcionaram neste filme.

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

DIÁRIO ÍNTIMO

Duvido que existam muitos leitores de poesia da minha geração interessados neste Diário Íntimo, de Luís Amaro (n. 1923). Provavelmente estarão mais inclinados para o neo-realismo depurado de Carlos de Oliveira (n. 1921 – m. 1981), para o surrealismo de Mário Cesariny (n. 1923 – m. 2006), para a ironia certeira de Alexandre O’Neill (n. 1924 – m. 1986) ou para a interminável ontologia de António Ramos Rosa (n. 1924), isto só para mencionar quatro autores contemporâneos de Luís Amaro, aqui muito cindidos aos chavões que lhes são normalmente associados. Na verdade, se quisermos entender esta poesia teremos de pensar em outros nomes com a qual ela mantém uma clara e assumida continuidade: de António Nobre (n. 1867 – m. 1900) a Fernando Pessoa (n. 1888 – m. 1935), passando, inevitavelmente, por Teixeira de Pascoaes (n. 1877 – m. 1952). Nos poemas deste Diário Íntimo encontramos a mesma inquietação que enforma os versos dessa tríade poética, a mesma preocupação com o sentido da vida, o mesmo carácter intimista, a mesma fidelidade ao ritmo e à musicalidade das palavras. Não admira que, em carta reproduzida na marginália final, Teixeira de Pascoaes declare: «É da melhor Poesia moderna! E, sendo moderna, não ofende certas leis imutáveis da Poesia, isto é, o que nela é música. E poesia sem música o diabo que a leia! Poesia ruidosa é uma horrenda caricatura dessa Deusa!» (p. 137) Nunca uma marginália fez tanto sentido numa obra antológica, sabida e reconhecida que é a dedicação do autor de Dádiva (1949) – seu único livro de poemas – ao estudo da literatura portuguesa do século XX. Essa dedicação é comprovada pela gratidão manifesta nos testemunhos epistolares agora revelados. Casos, entre outros, de Sebastião da Gama, Jorge de Sena, Júlio Dantas, Jacinto do Prado Coelho, Irene Lisboa, Natércia Freire, Miguel Torga, Agostinho da Silva, Vitorino Nemésio. Diga-se, aliás, que todo este livro é uma mostra de gratidão, pois trata-se de uma excepcionalíssima reedição levada a cabo pela &etc, editora avessa a reedições e homenagens. Albano Nogueira, num prefácio breve mas esclarecedor, fala-nos, a propósito desta poesia, «num desbobinar sóbrio, discreto, quase linear, (…) concreto mas envolvente, caloroso e persuasivo.» Do livro Dádiva, recolha de poemas escritos entre 1941-49, salientarei um lirismo melancólico, como disse inquietado pela busca de um sentido da vida, onde sonhos descambam em desilusões, à esperança se sobrepõe a dúvida desencantada, a luz das estrelas é ameaçada por uma sombra que vem de longe. No entanto, a poesia de Luís Amaro não é de excessos. Com uma sobriedade que, por vezes, pode desmoralizar o leitor menos precavido, ela propõe-nos todo um Programa: «Quando vier a tristeza, / faz que ela tenha uma grandeza. // Quando vier a dor, / faz que ela seja bela como o amor. // Quando vier a rara alegria, / faz que ela seja pura como a luz do dia. // Quando vier a noite, / mansa, a envolver teu coração, / faz que ela traga ao erro o seu perdão» (p. 54). Esta simplicidade, este mesmo cuidado formal, não desaparece nos Outros Poemas (1940-75). Porém, nos poemas finais há uma maturidade que, em certa medida, suplanta a amargura inicial e a fragilidade das soluções programáticas, porque, entretanto, a melancolia tornou-se doce e a dor e a tristeza não são já só apenas o termo da dúvida mas também o princípio de uma esperança renovada: «A dor, amordaçando, purifica: / que ela te dê no sangue o novo alento / para outros voos de que sairás vencido / (mas entretanto vives…)…» (p. 116) Quase todos os poemas deste livro trazem dedicatórias, sendo alguns deles um oferecimento aos mestres: Raul Brandão, Teixeira de Pascoaes, Augusto Frederico Schmidt, Sebastião da Gama, José Régio. Poesia assim afectuosa e de afectos, não pode passar despercebida.

JOELHO

O joelho também tem cotovelo.
Matilde (3 anos)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

PREFLORAÇÃO

Dado à estampa pelas Quasi Edições em Maio passado, Prefloração foi distinguido na segunda edição do Prémio Daniel Faria. Julgo ser este o primeiro livro de Catarina Nunes de Almeida (n. 1982). Pelo menos nada nos informa do contrário na nota biográfica incluída numa das badanas da obra em causa, isto apesar de ser mencionado um outro prémio obtido pela autora, o Prémio Internacional de Poesia Castello di Duino, assim como a participação em revistas literárias. Acerca de Catarina Nunes de Almeida sei apenas o que foi aparecendo na imprensa: licenciada em Língua e Cultura Portuguesa, amiga de Casimiro de Brito, fascinada pela poesia oriental. Este fascínio está patente, desde logo, nas epígrafes de Issa Kobayashi, Matsuo Bashô e Shiki que abrem cada um dos quatro breves conjuntos de poemas de Prefloração. Não sendo um livro de haikus, nota-se nestes poemas um esforço de transparência e de simplicidade que os aproxima do género. Mas essa aproximação é operada, sobretudo, numa relação mulher-natureza sempre mais evocada do que contemplada, até porque muitas vezes a simplicidade não fica senão aquém de mero esforço ou intenção. De certa forma, não é sequer justo falar numa relação mulher-natureza, já que o ponto a partir do qual se percepciona a realidade é um ponto de fusão entre o homem, em sentido lato, e o mundo natural. Esse ponto, lugar de encontro e de emergência de uma cosmogonia muito específica, resulta, no haiku, de um processo de abnegação, ao passo que nos poemas de Prefloração ele é ainda o Eu da autora sobrepondo-se ao resto. Não podemos falar na poesia oriental de uma cisão entre o sujeito poético e o seu objecto, já que ambos se unem numa mesma realidade e dessa união resulta o poema enquanto testemunho depurado de uma certa forma de observar o mundo, uma certa forma de o contemplar. O que importa aí é a luminosidade das palavras e não a sua sombra. Pretendo com isto afirmar que aquilo que fascina no haiku, ou seja, o registo da sensibilidade de uma contemplação sem pretensões reflexivas, acaba por ser atraiçoado nos poemas de Catarina Nunes de Almeida, pois esta não resiste à tentação de sobrecarregar o mundo com imagens e metáforas que vêm de dentro, apenas de dentro, do sujeito. Assim, mar e terra, animais e sementes, são apenas pretextos para a exposição de um Eu, de um Mim, omnipresente: «Quando me dispo dorme em mim / o odor dos frutos mastigados» (p. 35). O que temos aqui, então, é uma forma ocidental de olhar as mistificadas tradições poéticas do oriente. Se o que disso resulta é bom ou mau, parece-me sempre muito discutível. Prefiro chamar a atenção para alguns versos que me parecem mais conseguidos, versos que, sozinhos, resultariam, talvez, em melhores poemas: «…os campos que germinam nas entranhas das sementes / e a terra que não morre de parto / ainda que as flores nasçam siamesas» (p.16); «há um pessegueiro dentro do fruto / um pomar de pessegueiros neste abrigo / rasgado pelas luzes da cidade» (p. 32); «A erva onde todos se deitam e se deita em todos /o chão que nenhuma mão nenhuma primavera lava» (p. 56). É nestes instantâneos que a poesia de Catarina Nunes de Almeida se revela mais atraente e luminosa. Pena que na maioria dos poemas ressalte alguma ausência de sobriedade e de discrição, talvez por culpa de um ímpeto a ser superado com a maturidade, que acaba por nos deixar aquele sentimento de ainda haver muito a rasurar.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

QUARENTA ROMANCES DE CAVALARIA

Tentar decifrar um livro de poesia é quase sempre uma tarefa ingrata, dado o carácter indefinível do próprio discurso poético. O confronto com um livro de poemas exige, deste modo, uma vigilância que não tenha na sua origem a intenção de vigiar, ou seja, uma abertura e um desprendimento que permita ser a palavra poética a criar, por si só, os sentidos e os significados que tiver de criar no momento da leitura. Nunca se lê um livro de poesia da mesma maneira, assim como duas pessoas jamais repetirão a mesma leitura. Julgo, aliás, que é assim com todo o género literário, mas mais ainda com o poético. Acontece existirem livros cuja organização nos sugere uma ordem formal que escapa ao conteúdo, sobretudo se o conteúdo induzir impulsos, manifestar liberdades, ostentar, até, um certo descomprometimento com o leitor. Quarenta Romances de Cavalaria e Outros Poemas, de Frederico Mira George (n. 1962?), é um desses livros. Abre com uma dedicatória, seguida de epígrafe, a Herberto Helder, o que não admira, pois a este poeta vai Frederico Mira George buscar aquele fluxo de escrita que a tantos abespinha e a outros cativa. Muito distante, porém, do mestre em termos de sensibilidade poética, o autor de Quarenta Romances de Cavalaria prefere um registo mais provocador e irónico, por vezes tétrico e mesmo grotesco, diria que muito menos místico e muito mais surrealizante. Logo no primeiro de quatro livros, todos compostos por quarenta poemas, deparamos com duas noivas sentadas nos bancos de um jardim onde olham um revólver: «marta e ana amam o revólver / são noivas num jardim entrecruzando as pernas / como cinzentos brincos-de-princesa na praia» (p. 11). Seguem-se «agulhas que sabem a chouriço» (p. 12), «miríades de deuses que precisam das suas sotainas engomadas pa / ra celebrar orgias no olimpo» (p. 13), pernas ásperas, pés doridos, sangue, vómito e febre, «a cabeça a estalar / de agulhas» (p. 18), «nuvens em forma de ovo transbordando de pólen e azeite» (p. 26), chuvas de pregos e de martelos, a degradação do amor, é óbvio, o cansaço a tomar conta da paixão, o costume e a existência doméstica a derrearem o amor. As imagens irrompem dos versos de Frederico Mira George como uma encruzilhada de sentidos, criando um ambiente onde a força da respiração se pontua a si própria, uma encruzilhada avessa às convenções que armadilham, tantas vezes, a poesia. O que aqui temos é a experiência de um acto terrorista, por isso mesmo poético, onde as palavras saem estropiadas, partidas a meio, acopladas, soletradas, com a pontuação por vezes invertida, outras vezes ausente, em regime de ruptura com qualquer tipo de tratado acerca da arte de bem escrever. Atentemo-nos ao título: Quarenta Romances de Cavalaria e Outros Poemas. Uma breve pesquisa sobre o romance de cavalaria informa-nos que este surgiu na Idade Média, tendo como principais características a complexidade do enredo, por vezes próximo do fantástico, e o carácter simbólico. É esse simbolismo o que se retoma nestes poemas, poemas que também são romances, enredos, situações que emergem na palavra com a figura de uma teia. Em Metrónomo, o Livro Segundo, o poeta (con)centra-se no eu e lança-nos pistas: «por dentro do sangue as veias correm álgidas levando ao coração / uma leveza inteira / e é nesse percurso gélido / intrasanguíneo / que reside o sentido último do verso» (p. 62). Surgem, aqui e acolá, referências várias aos rituais católicos, misturadas com evocações da vida quotidiana, familiar, reflexos próximos de um erotismo insólito, muito ao jeito do que acontecia na poesia e nos filmes de Luis Buñuel. Há evocações várias, diálogos, referências: Évora, Godard, Verdes Anos, Hans Hesse, Satie, Bach, Cervantes, Fiama, Al Berto, etc. O que quer tudo isto dizer? Puzzle sempre por terminar é o poema, enquanto repositório das complexas redes de associações que nos enformam a memória. Os Quarenta Romances de Cavalaria propriamente ditos são o Livro Quarto deste puzzle, quarenta poemas em prosa, sem qualquer tipo de pontuação, para ler de um só fôlego: «…vivo num pequeno apartamento de duas assoalhadas mais casa de banho e cozinha nos arredores de lisboa tenho uma razoável colecção de selos e bilhetes de autocarro com números capicua e gostava que a minha vida pudesse terminar sem grandes sobressaltos pelo menos que não voltasse tudo para trás que não tivesse que me confrontar de novo com a peste dos romances de cavalaria…» (p. 186).