Na verdade, a mulher não pede desculpa por estar doente. Ela limita-se a evidenciar a doença como justificação daqueles gestos involuntários e incomodativos. Isso remete-me para os alunos que justificam as faltas por motivos de doença, quase sempre dizendo que faltaram por motivos de saúde. Vê-se que ainda não aprenderam grande coisa, pois ninguém falta por ter saúde. Podemos mesmo dizer que estão em falta consigo próprios ao afirmarem uma coisa dessas. Que nunca saibam o que é faltar por motivos de doença.
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007
sábado, 24 de fevereiro de 2007
MORTO COM DEFEITO
Vítor Pinto Basto (n. 1959) é licenciado em Filosofia mas exerce, desde 1981, a profissão de jornalista. Publicou O Segredo de Ana Caio (Campo das Letras, 1996) e Gente que dói: o conflito basco por quem o vive (Deriva, 2004). Morto com Defeito, que também saiu, o ano passado, com o selo da Deriva, é uma novela que oscila entre o divertido e a crítica da actualidade. O enredo tem tudo o que é necessário para a construção de uma boa história: uma situação intrigante, ainda que caricata (notícia da morte de alguém que, afinal, está vivo), e personagens consistentes (do traficante de diamantes, dado como morto num atentado à bomba, ao jornalista que investiga o caso). No entanto, o autor não se limita a desenvolver a história, a relatá-la no que ela pudesse ter de testemunhal quanto a um tempo em que a verdade se constrói na base de equívocos e interesses que promovem esses mesmos equívocos. A narrativa esbarra frequentemente, diria mesmo demasiadamente, em considerações amarguradas sobre a actualidade portuguesa, considerações essas que quase nunca escapam à banalidade, tornando-se elas mesmas equivocais. Não me refiro ao tom discursivo, esse muito do meu agrado, próximo da conversa de café, ou seja, de um tom destemidamente popular e quotidiano. Refiro-me antes às considerações de índole política, sociológica e filosófica, às considerações que acusam um tempo, o nosso, que me parece bem mais complexo do que os lugares comuns permitem entender. Os exemplos podiam começar quando, a páginas 15, o autor se "defende" das «histórias enrodilhadas com pensamentos prolixos e versos caprichosos, em calhamaços-livros-decoração à espera de serem abertos e lidos. Livros fechados e mudos, com tanta palavra aprisionada em frágeis paralelepípedos de papel. Como se fosse essa a intenção da escrita, apanhar pó em salas apinhadas de ruído, ao lado da televisão que tudo parece substituir» (pp. 15-16). Não me sendo dado saber qual a intenção da escrita, embora tenda para a aceitação da mesma como uma decoração da vida, parece-me antes que a televisão não só não a substituiu como contribuiu, de certa maneira, para a sua promoção. Sendo Vítor Pinto Basto jornalista já com alguns anos de carreira, talvez o que aqui se torne mais evidente seja a necessidade de reflectir os meandros da sua profissão. O cenário, como outra coisa não seria de esperar, não é dos melhores: egoísmo, sofreguidão pelo poder, cobardia, filha-da-putice, sacanice, cinismo, maledicência, jogos de bastidores, «o pântano maquiavélico da intriga», «uma selva de ódios e rancores». Vem à tona um mal-estar que não vale a pena iludir, ele é o pão-nosso de cada dia numa sociedade que educa os seus cidadãos, quase exclusivamente, para o sucesso material. Natural que em profissões mais competitivas ele seja ainda mais ameaçador, desgastante e insuportável, retrato que, de certa forma, é o melhor deste Morto com Defeito. Talvez o próprio jornalismo se tenha transformado, como a morte de Carlos Palhal, esse morto com defeito, num equívoco, numa profissão cujo rumo é mais o de servir à conveniência das notícias do que à sua inconveniência. Temos então, novamente, o problema das camuflagens, da verdade ocultada na base dos interesses do poder, sendo esse poder sinónimo de economia, dinheiro, riqueza material. Seguem-se Bagdade, o Médio Oriente, a ambição dos políticos nas várias escalas do poder, o tráfico (de diamantes, de influências), o sexo, a prostituição, Moscovo e o Porto, as azias da democracia, porque «não faltam casos em que só há democracia da boca para fora, é democracia que só dá liberdade para falar, comos e a palavra fosse suficiente e enchesse barriga, quando se sabe que quem muito fala com razão ganha fama de inconveniente e costuma ser afastado ou humilhado por quem é pago para ter poder» (p. 115). Um último senão: as “gralhas”. Este livro tem muitas, o que é sempre uma outra forma de injustiça.quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
POESIA NORTE-AMERICANA
Manuel de Seabra seleccionou, traduziu, prefaciou e anotou esta Antologia da Novíssima Poesia Norte-Americana, publicada pela Editorial Futura, em 1973. Adquiri o meu exemplar através dos excelentes serviços on-line da Livraria Letra Livre. São cerca de trinta poetas, cujo critério de selecção foi devidamente explicado no prefácio: «Ao pretender organizar uma antologia da novíssima poesia norte-americana, foram postos automática e naturalmente de lado os fundadores do Modernismo, que seriam imprescindíveis numa antologia da poesia moderna». O que temos, portanto, é um leque relativamente abrangente de autores relacionados, de uma forma ou de outra, com a Beat Generation ou os associados ao famoso Black Mountain College. Toda esta poesia deixou de ser novíssima, mas muito dela permanece, "para mal dos nossos pecados", actual. Sobretudo quando manifesta uma vontade de sacudir valores ainda hoje radicados no império do consumismo ocidental, assim como uma atitude de ruptura com preconceitos literários que, quer queiramos quer não, resistem teimosamente no mais-conservador-do-que-seria-de-esperar mundo das letras. Alguns destes poetas foram não apenas autores de poemas, no sentido convencional de um mercado que enclausura a poesia em volumes muito arrumadinhos que depois saltam de livraria em livraria à procura de um lugar ao sol das cátedras, mas também leitores de voz alta, performers, agitadores, gente que não prescindiu de cuspir contra um sistema que remete constantemente os escritores para o plano do decorativo. Muitos destes poetas deram o corpo ao manifesto, outros terão também, com o tempo, dado ao manifesto um corpo aburguesado, desistente, conformado. Contas que não nos cabem. O que nos cabe é ressalvar esse uso da poesia como forma de denúncia e de testemunho, esse uso da palavra poética num registo muito para além do meramente retórico e coloquial, tantas e tantas vezes colegial, que ousou colocar a poesia ao nível de um discurso político cuja promessa não era outra senão a de recusar liminarmente todo o género de promessas, isto porque a promessa é indutora de uma autoridade sempre avessa ao poético, de um poder que se arquitecta a partir de um ponto de vista social megalómano que tem apenas em vista a subserviência e o servilismo que levam ao jogo de bastidores na ânsia de um sucesso artificial, pois certo, mas sempre muito atraente. Pena que a grande maioria dos poetas de hoje passe ao lado desta postura delinquente e inconformada, deixando-se pentear, com a mais ignóbil letargia, pelos peritos do sucesso, pelas autoridades eclesiásticas, pelos técnicos da promoção que fazem ascender ao cocuruto do referencial aquilo que, de outra forma, não passaria de um rastejante modo de se pass(e)ar pelo mundo. Rendo as minhas homenagens aos salteadores da poesia sem outra intenção que não seja a de expurgar o corpo dos detritos que a alma lhe imprime, essa alma que desde tão cedo deixa de ser nossa para passar a ser de quem nos ensina a pronunciar papá e mamã de acordo e em obediência com as gramáticas do “podrer”, do conformismo, da espinal algia, da observância mais cínica e sacana, mas muito disciplinada e, por isso, aclamada e reproduzida.segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
CORRESPONDÊNCIA
Aproveitei o dia de reflexão para terminar a leitura da correspondência que Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena trocaram entre 1959 e 1978, publicada entretanto pela Guerra & Paz (suponho que já este ano tenha sido feita uma segunda edição, acrescentada com mais duas cartas de Sophia e um cartão postal de Jorge de Sena). É sempre com enorme esforço que leio este tipo de livros, fã que não sou do género epistolar. Cá em casa devem morar meia dúzia de livros do género, todos lidos muito lentamente, a espaços e sem grande motivação. A razão de tal dificuldade explica-se por um preconceito que, por muito que me esforce, não consigo ultrapassar: o de que a epistolografia é do domínio da privacidade e, enquanto tal, impublicável. Haver quem pense de forma diferente de mim apenas sublinha o lado preconceituoso desta embirração, mas não posso deixar de confessar que, exceptuando aqueles casos em que as cartas revelam uma elaboração ficcional e filosófica muito específicas, julgo completamente dispensável, e, muitas vezes, contraproducente, a publicação destes retalhos da intimidade e da vida privada. Dispensável porque raramente acrescentam qualquer coisa à literatura, contraproducente porque, sob o mito da verdade nua e crua, podem patrocinar ilusões acerca de factos históricos apenas inteligíveis no confronto entre as várias perspectivas implicadas. Deste modo, agrada-me a carta quando possui qualquer coisa de “invenção literária” mas dispenso-a enquanto consolação de um voyeurismo que não me estimula minimamente. O que me levou a pegar na correspondência entre Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena foi, muito particularmente, a profunda admiração, alimentada desde há muito, pela obra do autor de Peregrinatio ad Loca Infecta. Da obra de Sophia, perdoem-me, mas não sou "tão grande" admirador. Devo dizer, porém, que senti algum enfado com esta peregrinação pelas queixas domésticas da poetisa e pelos desabafos amargurados do poeta, apenas ultrapassado, aqui e acolá, quando a correspondência revela inteligentes trocas de impressões acerca de povos e culturas, quase sempre motivadas por viagens de Sophia à Grécia (ver carta de Abril-Maio de 1964), ao Brasil (ver carta de 30 de Agosto de 1966), ao México (ver cartas de 26 de Novembro de 1971 e 4 de Dezembro de 1971). Quanto ao resto, o que temos é conversa de escritores ocupados com a purgação do meio, prémios, tricas literárias e muita acusação que, diga-se em abono da verdade, parece ter tanto de justa como de pretensiosa. O tom de Jorge de Sena é de uma acutilância que os seus leitores atentos facilmente reconhecerão, revelando aquela amargura para com Portugal que já lhe sabíamos mas que, por vezes, se pode confundir com um ressentimento menos louvável. Acusações de «mesquinharia, incompetência, desonestidade intelectual, falta de educação, malícia, verrina, inveja, rancor e mediocridade» (p. 20), acompanham outras de perfídia, leviandade, desonestidade, cobardia, desatenção e paixão oportunista no que respeita à recepção do seu trabalho por terras lusas. A conclusão dificilmente poderia ser outra: «Cada vez mais penso que Portugal não precisa de ser salvo, porque estará sempre perdido como merece. Nós todos é que precisamos que nos salvem dele» (p. 52). O registo de Sophia é menos acutilante, mas igualmente implacável para com aqueles que, à época, confundiam literatura com luta política e partidária. Ao amigo, faz chegar os seguintes conselhos: «É o único sistema: rir de quem nos quer matar» (p. 32); «Valerá a pena você gastar tanta inteligência para explicar aos parvos que são parvos?» (p. 39). Mas faz chegar também, muito claramente, a expressão do seu pensamento político: «Acho que não se pode criar em nome do anti-fascismo um novo fascismo» (pp. 35-36). Sophia tinha razão. E Jorge de Sena também. Resta saber em que medida isso obstruiu ou, por outro lado, desbravou o percurso que levou as obras de ambos a patamares que são hoje o tecto sob o qual brigam as obras dos restantes. É que, como bem sabemos, os restantes são sempre o que resta. Nunca o essencial.sábado, 10 de fevereiro de 2007
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007
FELICIDADE

De todas as dúvidas radicais, a mais radical de todas é esta: o que é a vida? Logo a seguir surge a pergunta sobre a felicidade, pois ninguém que se questione sobre a vida pode, se for honesto, deixar de lado a questão sobre a felicidade, já que vida e felicidade não fazem sentido uma sem a outra. Não há perspectiva segundo a qual a felicidade faça sentido sem a vida, ainda que possa haver quem pretenda sustentar fazer a vida sentido sem a felicidade. Estaremos, porém, a ser honestos se assim procedermos? Creio que não. No Capítulo II do Diálogo Sobre a Felicidade, Santo Agostinho diz que «quem determina ser feliz deve adquirir o que é sempre permanente e não pode ser destruído por nenhum revés da fortuna». Esta ideia de que a felicidade está dependente do perene, do que não está sujeito às circunstâncias, mais ainda da posse do que é sempre permanente, não é exclusiva do cristianismo. Há toda uma tradição filosófica ocidental que assenta a felicidade nesse princípio da perenidade. Para um ateu tudo isto é estranho, pois para um ateu tudo muda, nada é permanente. Ou quase tudo. Nos tempos hodiernos torna-se muito difícil aceitar esta concepção da felicidade, dado tratarem-se de tempos marcados pelo efémero, motorizados pela moda, esgotados na percepção de que tudo é passageiro. O filme Happiness (1998), de Todd Solondz, mostra-nos esses tempos encarnados em personagens quotidianas que são também um reflexo da alienação promovida pela organização da vida social. Talvez essas personagens, como qualquer um de nós, pretendam «adquirir o que é sempre permanente e não pode ser destruído por nenhum revés da fortuna» - isto se pretendermos ser felizes à maneira de Santo Agostinho. Porém, a vida não deixa. Traições, frustrações, recalcamentos, solidão, descambam numa encenação permanente dos comportamentos que, sob a capa aparente de uma felicidade artificial, disfarça a mais cruel das evidências: não há felicidade possível num mundo que nos obriga a ser o que (e quem) não somos. Não sei se essa impossibilidade é já consequência do tal esgotamento da perenidade, ou seja, da sensação de que tudo é passageiro, efémero, modal e, como tal, nada é permanente. É provável que o mais permanente de tudo seja mesmo essa sombra de efemeridade que hoje se abate sobre todas as coisas. Por outro lado, podemos afirmar, não sem algum cinismo, que o ser que se esconde atrás das máscaras com que enfrentamos o mundo exterior é também ele perene, vivendo apenas amordaçado e impedido de se manifestar por tal nos ser tão difícil. Dizia W. Somerset Maugham, numa das minhas passagens preferidas de Exame de Consciência, que se confessássemos cada pensamento que nos atravessa o espírito, o Mundo nos julgaria uns monstros de depravação. Não devem existir grandes dúvidas quanto a isto, assim como não devem existir grandes dúvidas de que é a ameaça desse julgamento que nos impede de sermos quem somos. A conquista da felicidade deverá ser, então, a conquista de nós próprios, uma espécie de reconquista do que de nós foi usurpado pelo Mundo. O raciocínio é este: se a felicidade consistir na aquisição do que é permanente, partindo do princípio que na minha vida nada há mais permanente que eu próprio, então a felicidade consistirá na aquisição de mim próprio, na (re)aquisição da minha própria vida. Só quando tal acontecer eu poderei revelar ao mundo, com a mais adolescente das ingenuidades, o que corresponde à mais maturada felicidade: vim-me, vim-me e (e)s(t)ou feliz!
sexta-feira, 26 de janeiro de 2007
CARAMELO
O caramelo é um rebuçado pegajoso que se cola muito aos dentes. É esse um dos seus principais inconvenientes. Se não lavarmos bem a boca depois de o mastigarmos, corremos o risco de produzir cáries e doenças gengivais irreversíveis.
quinta-feira, 25 de janeiro de 2007
O MUNDO DO SILÊNCIO

Rever Le Monde du Silence, de Jacques-Yves Cousteau e Louis Malle, a esta distância de 50 e qualquer coisa anos, pode ser uma experiência fascinante. Curiosamente, uma das minhas cenas preferidas não se passa debaixo do mar nem é particularmente silenciosa. Trata-se daquele momento em que a tripulação do Calypso descansa, sob um calor tórrido, enquanto espera por terra à vista. Alguns dormem, outros banham-se em água fresca, um fuma cachimbo, outro lê, deitado numa espreguiçadeira, e há até um elemento da tripulação que toca violoncelo. Aquele momento de mero lazer é extraordinário, pois mostra-nos o que se pode fazer quando nada há para ser feito. Ontem, em conversa com um amigo, falávamos precisamente da televisão enquanto elemento aglutinador dos tempos livres. Recordávamos com nostalgia as nossas brincadeiras no rio, nos pomares, a jogar à bola, a brincar aos tropas, a caçar pardais, a experimentar o mundo. Depois lembrámo-nos de um episódio dos Simpsons, com uma cena bastante elucidativa de qualquer coisa que ainda não está tão bem explicada como possa parecer. A dada altura desse episódio há uma quebra no serviço televisivo e a população de Springfield sai toda para a rua, divertindo-se com as mais diversificadas ocupações; quando o serviço televisivo é reposto, as ruas ficam desertas, a população regressa em massa para os seus lares e senta-se a ver televisão. A televisão aqui deve ser considerada como símbolo da parafernália tecnológica que a maior parte das famílias do mundo dito desenvolvido tem hoje ao seu dispor dentro das suas casas. Bem sei que a noção de "qualidade de uma sociedade" é um pouco espúria, mas não resisto a aplicá-la neste sentido: creio que "a qualidade de uma sociedade" se reflecte muito na forma como as pessoas ocupam os seus tempos livres. Refiro-me à qualidade num sentido de maturidade, sociabilidade, civilidade, etc. Ora, não me parece que passar os tempos livres especado frente a uma televisão ou a um computador, a praticar a arte do zapping ou da navegação sem naufrágios, seja um caminho muito promissor. Esta questão preocupa-me por três razões especiais: sou pai de duas filhas, formador de muitos jovens, viciado em weblogs. Em qualquer um dos casos, o que me assusta é a forma como tantas e tantas vezes a realidade se subtrai ao que as tecnologias da informação, sejam elas quais forem, nos mostram. Passando as pessoas cada vez mais tempo dos seus tempos livres em ameno transe tecnológico, muita da tal qualidade de vida é colocada em cheque. Há alguns dados preocupantes sobre o tema: menor capacidade de concentração, maior conformismo, apaziguamento da curiosidade – provocada pela ideia de que se sabe tudo pelo simples facto de tudo ser dado a ver com a maior das facilidades -, indiferença, entre outros que podem resumir-se numa palavra: estupidificação. Por tudo isto vos digo, caros leitores-irmãos, larguem desde já os computadores, saiam de casa, vão ao café, falem com os vossos vizinhos, procurem um jardim, dêem um passeio na praia, vão brincar para junto de um rio, vão à pesca, libertem-se quanto antes deste inferno tecnológico se não querem ficar como eu. E longe de querer parecer o Padre António Vieira do Sermão de Santo António aos Peixes, permitam-me que vos lembre o essencial antes de virem com conversas para a caixa dos comentários: «Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam.» Por isso mesmo agora vos deixo, com o Jojo no coração, pois bem melhor faria se fosse pregar às criaturas do Monde du Silence.
sexta-feira, 19 de janeiro de 2007
UM HOMEM, UM GUARDA-CHUVA, UMA CABEÇA
A OVNI aterrou nas livrarias portuguesas, tanto quanto possível, com esta colectânea de contos do argentino Fernando Sorrentino (n. 1942). Apresentado na nota biográfica introdutória como «mestre do conto», de Sorrentino conhecia-se na língua portuguesa, que eu saiba, apenas o conto que dá título à colectânea agora publicada, outrora aparecido na excelente revista Ficções, com tradução de Fernando Venâncio. Os dezoito contos que compõem Existe Um Homem Que Tem O Costume De Me Dar Com Um Guarda-Chuva Na Cabeça provêm de quatro livros do autor. Assim, para uma relação mais minuciosa temos quatro contos de Impérios y servidumbres (1972), mais quatro de El mejor de los mundos posibles (1976), nove de En defensa própria (1982) e um de El remédio para el rey ciego (1984). Estando já anunciada uma segunda colectânea a ser posteriormente editada pela mesma casa editorial, podemos dizer que, apesar de ser vasta a obra de Sorrentino, perspectiva-se um panorama simpático, em língua portuguesa, de uma produção iniciada em 1969 com o livro La regresión zoológica. As histórias deste autor possuem, desde logo, uma vantagem relativamente a muitas outras: são inocentes até prova em contrário. Cometem algumas transgressões, sobretudo quando traem a lei das probabilidades, optando por um registo tão absurdo quão inverosímil. Mas esse registo absurdo, que pode verificar-se por exemplo na ideia de um homem que persegue alguém para todo o lado, a toda a hora e a todo o instante, batendo-lhe com um chapéu-de-chuva na cabeça, não se pode dizer gratuito. Por isso lhe chamo vantagem, já que muitas vezes a short story resvala com facilidade numa certa gratuitidade estilística. Isso acontece quando a narrativa se torna escrava do remate, da moral, da punchline extraordinária, grotesca, surpreendente. No caso dos contos de Sorrentino, as situações absurdas, normalmente caracterizas pela introdução de um elemento anormal em situações normalíssimas, nunca chegam a ser desfeitas nem solucionadas. Elas dão antes azo a uma estranha conexão com aspectos particulares da normalidade, aqui entendida no sentido de lei, regra social, hábito, costume, justiça, valores. É essa conexão à normalidade, por via de um absurdo em tom de «e se», que leva a personagem do conto que dá título à colectânea a habituar-se de tal maneira à presença do homem que lhe bate na cabeça com o guarda-chuva que chega a angustiar-se «de pensar que, porventura quando mais necessitar dele, este homem se irá embora» (p. 13). Os melhores contos desta colectânea – acrescento ao já referido os contos O Espírito de Emulação, Fábula Edificante, o brevíssimo Mera Sugestão, Uma Cruzada Psicológica, Essência e Atributo, Em Legítima Defesa – vivem destas conexões. Aliás, em Uma Cruzada Psicológica é o próprio autor quem nos incita a levar à prática o que ele sabiamente joga com o leitor, ou seja, «colocar o examinando frente a situações inéditas e observar as suas reacções» (p. 103). É este jogo entre a situação inédita e a construção de uma plausibilidade o que se desfruta através da leitura dos contos de Sorrentino, escritos com um sentido de humor extraordinário e um préstimo lúdico que não dispensa a inquietação: «A cruzada psicológica obriga a certos desvelos (como todas as cruzadas), exige duros sacrifícios (como todas as cruzadas), implica ver-se envolvido em sérias dificuldades (como todas as cruzadas). Mas, que significam estes inconvenientes, comparados com a deleitosa observação das reacções que a cruzada psicológica suscita?» (p. 106)segunda-feira, 1 de janeiro de 2007
sexta-feira, 29 de dezembro de 2006
O SOM ATINGE O CIMO DAS MONTANHAS
Muito provavelmente, terminarei hoje o meu 2006 de leituras. Pelo menos no que a livros de poesia diz respeito. Fecho, como se costuma dizer, com chave de ouro. Primeiro porque se trata de um livro de uma nova editora, a OVNI, cuja existência, como já deu para perceber, muito me apraz saudar; depois porque o faço com a mais recente recolha de João Camilo (n. 1943), autor de uma obra considerável, com ramificações pela ficção, teatro, ensaio e poesia. O seu primeiro livro de poesia, Os Filmes Coloridos, apareceu em 1978, embora do mesmo autor prefira destacar um extenso volume editado, fez dez anos no ano que ora finda, pelas Edições Fenda. Refiro-me a Nunca Mais se Apagam as Imagens. Importa também referir que já este ano João Camilo havia reeditado Retrato Breve de J.B. (Fenda), ficção originalmente publicada em 1975, e um outro volume de poemas, Elogio do Silêncio, com a chancela da Casa do Sul. As coordenadas da poesia de João Camilo há muito foram traçadas. Quem nunca se tiver perdido no seu universo não deixará de se espantar, desde logo, com um natural convívio entre prosa e verso que dá forma aos seus textos, ligados por um impulso narrativo cuja matriz dificilmente poderá ser determinada. Quer em prosa, quer em verso, estes textos colocam o leitor numa espécie de limbo onde a realidade se cruza com a ficção, originando momentos poéticos que são também reflexões filosóficas, instantâneos da vida, retratos do quotidiano, reminiscências da infância, mapas sentimentais, testemunhos situacionistas de um tempo confuso. Num dos últimos textos deste O Som Atinge O Cimo das Montanhas, o poeta questiona-se sobre o que possa ser uma filosofia de vida, para, logo de seguida, nos colocar uma questão que, de certa forma, define o seu labor poético: «Poeta do instante, aparentemente, mas será a poesia uma vocação ou uma carreira política?» (pp. 98-99) São estas as dúvidas que alicerçam a escrita de João Camilo, como se a mesma fosse um impulso irresistível, inexplicável, que, absurdamente, procura algum sentido para o que, à partida, já é sabido não ter sentido algum. O mesmo texto terminará deste modo: «Que tédio. Que confusão. Que tempo inútil» (p. 99). Seja qual for a temática, é esse tédio, essa confusão, essa sensação de inutilidade o que atravessa a poesia deste autor. As interrogações sucedem-se umas às outras, sobretudo quando o tema é a própria poesia. Mas também quando vêm à tona «a materialidade insuportável / do real: violência, luta pelo poder e pela fama, escravidão» (p. 23), «a condição humana» (p. 29), «os / fantasmas dos desaparecidos» (p. 43), «a nostalgia da infância na aldeia» (p. 77), etc. Solidão, melancolia e tédio como que infectam as palavras, estendendo-se pelos textos onde o autor busca um certo repouso, uma pausa, uma suspensão da dor, ainda que à poesia não se reconheçam poderes curativos, pois: «A poesia é apenas uma forma de respiração e de sobrevivência» (p. 95). A questão é: nada mais existirá para lá dessa respiração, dessa necessidade de sobrevivência? A quem busque um sentido para a vida, pode a poesia desbravar caminho. No denso mato das nossas dúvidas, a poesia pode surdir como uma espécie de logradouro onde montamos a tenda, descansamos os músculos, recuperamos forças. No entanto, nenhuma verdade a poesia encerra. Há aqueles a quem basta respirar e sobreviver, aquietam-se no mato desbravado, traçam as suas fronteiras, ali ficam para o resto da vida. Mas há os outros, mais inquietos, porventura desesperados, nómadas, que não descansam enquanto não atingirem o fio do horizonte, tal como «o som atinge o cimo das montanhas». Não sei de que estirpe será o poeta João Camilo, mas desconfio que, no íntimo, não seja dos primeiros. Pois ele sabe e no-lo revela: «A poesia não fará brilhar / como oiro as cinzas que se acumularam / no túmulo da nossa biografia» (p. 58).quinta-feira, 28 de dezembro de 2006
INTROUDÇÃO À FILOSOFIA POLÍTICA
- Olha filha, o pior português de sempre.
- Quem é, papá?
- É o Salazar, filha. A esse podes chamar todos os nomes que tu quiseres.
- Mas gaja não...
- Quem é, papá?
- É o Salazar, filha. A esse podes chamar todos os nomes que tu quiseres.
- Mas gaja não...
quarta-feira, 27 de dezembro de 2006
terça-feira, 26 de dezembro de 2006
JUVENTUDE EM MARCHA
de Pedro Costa
Esperei até hoje pelo meu filme do ano, ou lá o que isso seja, mas também por um desses filmes que fará parte do inventário essencial de uma vida. Tudo o que eu diga deve ser considerado suspeito, convencido que estou, desde O Sangue (1989), da genialidade de Pedro Costa (n. 1958). Juventude em Marcha é uma obra única, com uma ligação estética e ética a obras precedentes do mesmo autor: Ossos (1997), No Quarto de Vanda (2000). O personagem central, desta feita, é o pai de Vanda, um tal de Ventura a quem querem roubar a identidade que resta, atirando-o para uma casa nova onde terá que pagar água, luz e gás. Por onde quer que passe, Ventura verá sempre os vestígios da sua presença apagados. Dos pés ao rosto, apagam-lhe as impressões, a vida, os lugares. Restam as memórias de amigos perdidos, cartas nunca enviadas, fantasmas na memória de um homem velho, as nódoas. Restam as histórias para contar aos filhos e aos netos. Restam os dramas de uma vida na companhia dos mortos. Todas as personagens têm as suas histórias, mais ou menos caricatas, mais ou menos trágicas. Vanda conta como correu o parto da sua filha. A plateia ri. Vanda remata qualquer coisa do género: «Coitadinha, nunca mais me hei-de esquecer de ela a ressacar, como a mãe, ali aos saltos no berço». A plateia ajeita-se nos lugares, pressente-se algum desconforto na sala. Durante a projecção paira sempre esta percepção de um certo desconforto, de ora quem ri para, logo de seguida, estancar num cruel retrato da miséria. E como é bela esta forma de filmar a miséria! Uma miséria a rebentar de poesia, humana, com as Fontainhas em contraponto ao novo bairro social. Não sei se quem olhe o contraste sentirá o mesmo que eu: o bairro social parece-me sempre mais inóspito e sujo do que as Fontainhas, porque aqui ainda resta um pouco da identidade comunitária que no bairro novo parece desaparecer por completo. No bairro novo Ventura parece desapiedado, desintegrado, já só uma sombra de si próprio, ainda que para lá vá arrastando os seus fantasmas. Mas o que mais me impressionou em Juventude em Marcha foi o enquadramento das personagens, a forma como se nos apresentam em retratos de uma intimidade que transpira, ao mesmo tempo e na mesma medida, tristeza, melancolia, solidão e absurdo. Há uma nuvem de absurdo a pairar sobre todas as histórias contadas durante o filme, sobre todas as cenas, um absurdo existencial que nos coloca perante um olhar trágico, no sentido que os gregos lhe davam. Não vislumbro nesse olhar qualquer romantismo, sendo-me ali mais evidentes as marcas de um destino desgraçado, de uma fatalidade identitária punida com o exílio social. São as marcas de uma condenação cultural que me deixa resignado, porque sem grande esperança na nova vida que se avizinha. Tenho lido por aí ser este um filme de confidências. Soa-me bem. Sobretudo se alargarmos as confidências ao estranho, misterioso e fantasmagórico campo da reinvenção de uma vida. Porque o que este filme faz, quanto a mim, é reinventar um desventurado Ventura, restituindo a poesia onde, porventura, poucos dariam por ela. Só um olhar como o de Pedro Costa para no-la oferecer deste modo tão convincente.
domingo, 24 de dezembro de 2006
REVÓLVER
Se bem sei, Revólver é o terceiro livro de poemas de Rui Lage (n. 1975), depois de Antigo e Primeiro (2002) e Berçário (2004), todos publicados na colecção Uma Existência de Papel, das Quasi Edições. Não li o primeiro, mas lembro-me de ter escrito sobre o segundo: «estamos num campo afectivo que seduz pela forma como arrisca na irredutibilidade da memória a uma mera descrição do passado». Devo começar por dizer que se tinha apreciado o livro anterior, muito mais me impressionou o volume agora publicado. Não sei se é justo falarmos numa inflexão de discurso, pois aquele campo afectivo e um modo muito próprio de tratar a memória, feitos notar a propósito de Berçário, permanecem nos poemas deste Revólver. O que sucede é que nos quatro conjuntos que compõem esta colectânea encontramos uma boa dúzia de poemas com uma força, uma soltura e uma dinâmica argumentativa que escapava completamente aos poemas anteriores. Logo na primeira parte, intitulada Licença de porte de arma, a temática religiosa é abordada com um desassombro inquietante. Poemas como I.N.R.I., O fantasma de Nietzsche aparece no meu quarto e fala, Subsídios para uma Poética da Ciência e Deus na oficina, são, quanto a mim, do melhor que se publicou recentemente na poesia portuguesa. Rui Lage dinamita todos os preconceitos e estereótipos religiosos, sem negar uma muito íntima vivência da religiosidade, ao mesmo tempo que nos confronta com aquilo a que Paul K. Feyerabend chamou, noutro contexto, a ditadura fascista da ciência, uma ditadura que impõe modelos de observação e de explicação do mundo auto-proclamados de verdade mas que, no fundo, não passam muitas vezes de um rol de futilidades a disfarçarem o único facto evidente da vida: não temos solução senão conformarmo-nos com a insolubilidade das nossas dúvidas, amanharmo-nos nas coisas boas de vivermos, no que ainda nos reste de belo, natural e salvífico, aprendendo a viver com a inquietação e o desassossego das horas. Apetecia citar todos esses poemas, de tão coerentes me parecerem no seu conjunto. Opto pela parte final de Deus na oficina: «Resta-nos, irmãos, / esperar que a biotecnologia / nos possa salvar a alma, / essa coisa fora de moda, / quem sabe se feita / de proteínas / ou de informação alojada / no córtex parietal superior, // ou que num obscuro laboratório, / algum obscuro sábio, / com mulher, filhos / e contas para pagar, / comunique ao mundo / que decifrou enfim o pensamento de deus, / e assevere que não é assim tão complicado / ou transcendente, / mais valendo por isso irmos todos dormir / sobre o assunto // (porque amanhã é dia de trabalho)» (p. 32). É este cruzamento da ironia com o fulgor da reflexão o que faltava, ou pelo menos estava muito mais disfarçado, nos poemas anteriores do autor. Aqui deparamo-nos com todos os fantasmas do quotidiano, da vida citadina – no caso a cidade do Porto -, do absurdo existencial e da incapacidade perante a deterioração do país, fulgurantemente expressados sob a luz desse cruzamento, como se os poemas fossem balas disparadas contra o mal de vivre. Por vezes, em momentos menos felizes – como no poema O País à porta – cede-se a um ou outro lugar-comum: «país que secretamente não vota / para não se maçar», «país com mais que fazer / (futebol para ver / e mato para queimar)»… Mas que dizer do lugar-comum quando ele nos bate com a evidência de uma verdade insofismável? Com este livro, Rui Lage inclina-se para um exame do mundo e do país onde vive, contribuindo, com um senso irónico e uma preocupação política sincera, para um dos melhores momentos da poesia portuguesa contemporânea.quarta-feira, 20 de dezembro de 2006
O CARTEIRO
de Michael Radford
Andava há muito tempo para escrever qualquer coisa sobre O Carteiro de Pablo Neruda, talvez desde que aqui cheguei. Fui adiando, adiando, adiando, até que soube do desaparecimento de Philippe Noiret, o actor que interpreta o Neruda do filme. Talvez não passe de mera coincidência, alinhavar agora, pouco depois da notícia da morte de Noiret, algumas palavras sobre um filme que comemorou 12 anos neste 2006 que ora finda. A verdade é que há coincidências embaraçosas, porque nos lembram ser a morte, essa porta aberta ao esquecimento, quase sempre a maior motivação da memória. E depois, ocupamos tanto do nosso tempo a pensar nos filmes que nos inquietam e nos intrigam que, por vezes, esquecemo-nos daqueles que muito simplesmente nos comovem. Il Postino é uma dessas raras experiências cinematográficas cuja magia reside no dom de nos comover, independentemente das circunstâncias íntimas que nos façam companhia nos momentos de revisitiação. Vi-o no cinema, como milhares de portugueses, já uns meses depois de se ter tornado num inexplicável e surpreendente fenómeno de bilheteira. Lembro-me de ter saído da sala com uma sensação de leveza apenas explicável pela noção de que havia aprendido algo, de que havia crescido mais um pouco por dentro e que isso só fora possível porque o que acabara de presenciar tocara-me nesse lugar mais íntimo da sensibilidade, nesse lugar sem marcação de onde vem toda a poesia, esse lugar a que gosto de chamar respiração. Há obras que nos ajudam, sem dúvida, a respirar melhor. O Carteiro de Pablo Neruda é uma delas. Realizado por Michael Radford, adapta a novela Ardiente Paciência de Antonio Skarmeta. O argumento desenvolve-se em torno da relação entre um humilde carteiro de uma ilha siciliana e o poeta Pablo Neruda que para aí vai viver, quando se encontrava no exílio por razões políticas. Essa relação despoletará no carteiro o gosto pela poesia, pelas metáforas, sobretudo por se convencer do poder encantatório das metáforas junto das mulheres. Pablo Neruda, poeta do amor, poeta do povo, poeta. Poeta do povo, demasiado ocupado consigo próprio e com a sua poesia; poeta do amor, especialmente apreciado pelas mulheres. É à sua poesia, às suas metáforas, que Mario, o carteiro, recorre quando pretende enfeitiçar a sua amada Beatriz. E consegue. Casam, honrados pela presença do poeta chileno como testemunha do matrimónio. Entretanto Neruda regressa ao Chile e Mario fica enclausurado na ilha de onde nunca saíra, fica e aguarda pacientemente notícias do seu grande amigo Pablo Neruda, notícias que tardam em chegar, notícias que se esvaem no esquecimento. Fiel ao poeta, mais que o poeta o fora a si, Mario converte-se ao comunismo, acabando por morrer numa manifestação onde leria, assim tivesse sido possível, um poema em honra do seu amigo ausente. É esse poema, esse poema do carteiro Mario, aquele que nunca chegamos a escutar, é esse o poema que mais importa neste filme. Ao pé desse poema silenciado pela morte toda a poesia de Neruda é mero adereço, porque esse poema é o poema da simplicidade, é o poema da fidelidade, é o poema da amizade, é o poema da ausência. É, talvez, o poema das coisas belas que Mario aprendeu a ver no ostracismo da sua ilha, as ondas do mar, o vento nas escarpas, as moitas, o silêncio de um imenso céu estrelado, as redes tristes de seu pai, pescador, e Beatriz. Sobretudo Beatriz, metáfora feita carne, feita corpo que não se explica, beleza inexplicável, como a poesia que explicá-la seria uma traição. Ao descobrir a poesia, Mario descobre também a beleza do mundo que o circunda, descobre-o com o espanto de quem vê pela primeira vez o mundo à sua volta. Massimo Troisi, o actor italiano que interpreta o carteiro, faleceu antes do filme estrear. Foi este o seu último fôlego, sereno, calmo, paciente, misteriosamente belo. Noiret junta-se-lhe agora, passados 12 anos. Que o esquecimento lhes seja tão leve quanto a poesia que nos proporcionaram neste filme.
terça-feira, 19 de dezembro de 2006
DIÁRIO ÍNTIMO
Duvido que existam muitos leitores de poesia da minha geração interessados neste Diário Íntimo, de Luís Amaro (n. 1923). Provavelmente estarão mais inclinados para o neo-realismo depurado de Carlos de Oliveira (n. 1921 – m. 1981), para o surrealismo de Mário Cesariny (n. 1923 – m. 2006), para a ironia certeira de Alexandre O’Neill (n. 1924 – m. 1986) ou para a interminável ontologia de António Ramos Rosa (n. 1924), isto só para mencionar quatro autores contemporâneos de Luís Amaro, aqui muito cindidos aos chavões que lhes são normalmente associados. Na verdade, se quisermos entender esta poesia teremos de pensar em outros nomes com a qual ela mantém uma clara e assumida continuidade: de António Nobre (n. 1867 – m. 1900) a Fernando Pessoa (n. 1888 – m. 1935), passando, inevitavelmente, por Teixeira de Pascoaes (n. 1877 – m. 1952). Nos poemas deste Diário Íntimo encontramos a mesma inquietação que enforma os versos dessa tríade poética, a mesma preocupação com o sentido da vida, o mesmo carácter intimista, a mesma fidelidade ao ritmo e à musicalidade das palavras. Não admira que, em carta reproduzida na marginália final, Teixeira de Pascoaes declare: «É da melhor Poesia moderna! E, sendo moderna, não ofende certas leis imutáveis da Poesia, isto é, o que nela é música. E poesia sem música o diabo que a leia! Poesia ruidosa é uma horrenda caricatura dessa Deusa!» (p. 137) Nunca uma marginália fez tanto sentido numa obra antológica, sabida e reconhecida que é a dedicação do autor de Dádiva (1949) – seu único livro de poemas – ao estudo da literatura portuguesa do século XX. Essa dedicação é comprovada pela gratidão manifesta nos testemunhos epistolares agora revelados. Casos, entre outros, de Sebastião da Gama, Jorge de Sena, Júlio Dantas, Jacinto do Prado Coelho, Irene Lisboa, Natércia Freire, Miguel Torga, Agostinho da Silva, Vitorino Nemésio. Diga-se, aliás, que todo este livro é uma mostra de gratidão, pois trata-se de uma excepcionalíssima reedição levada a cabo pela &etc, editora avessa a reedições e homenagens. Albano Nogueira, num prefácio breve mas esclarecedor, fala-nos, a propósito desta poesia, «num desbobinar sóbrio, discreto, quase linear, (…) concreto mas envolvente, caloroso e persuasivo.» Do livro Dádiva, recolha de poemas escritos entre 1941-49, salientarei um lirismo melancólico, como disse inquietado pela busca de um sentido da vida, onde sonhos descambam em desilusões, à esperança se sobrepõe a dúvida desencantada, a luz das estrelas é ameaçada por uma sombra que vem de longe. No entanto, a poesia de Luís Amaro não é de excessos. Com uma sobriedade que, por vezes, pode desmoralizar o leitor menos precavido, ela propõe-nos todo um Programa: «Quando vier a tristeza, / faz que ela tenha uma grandeza. // Quando vier a dor, / faz que ela seja bela como o amor. // Quando vier a rara alegria, / faz que ela seja pura como a luz do dia. // Quando vier a noite, / mansa, a envolver teu coração, / faz que ela traga ao erro o seu perdão» (p. 54). Esta simplicidade, este mesmo cuidado formal, não desaparece nos Outros Poemas (1940-75). Porém, nos poemas finais há uma maturidade que, em certa medida, suplanta a amargura inicial e a fragilidade das soluções programáticas, porque, entretanto, a melancolia tornou-se doce e a dor e a tristeza não são já só apenas o termo da dúvida mas também o princípio de uma esperança renovada: «A dor, amordaçando, purifica: / que ela te dê no sangue o novo alento / para outros voos de que sairás vencido / (mas entretanto vives…)…» (p. 116) Quase todos os poemas deste livro trazem dedicatórias, sendo alguns deles um oferecimento aos mestres: Raul Brandão, Teixeira de Pascoaes, Augusto Frederico Schmidt, Sebastião da Gama, José Régio. Poesia assim afectuosa e de afectos, não pode passar despercebida.quarta-feira, 13 de dezembro de 2006
PREFLORAÇÃO
Dado à estampa pelas Quasi Edições em Maio passado, Prefloração foi distinguido na segunda edição do Prémio Daniel Faria. Julgo ser este o primeiro livro de Catarina Nunes de Almeida (n. 1982). Pelo menos nada nos informa do contrário na nota biográfica incluída numa das badanas da obra em causa, isto apesar de ser mencionado um outro prémio obtido pela autora, o Prémio Internacional de Poesia Castello di Duino, assim como a participação em revistas literárias. Acerca de Catarina Nunes de Almeida sei apenas o que foi aparecendo na imprensa: licenciada em Língua e Cultura Portuguesa, amiga de Casimiro de Brito, fascinada pela poesia oriental. Este fascínio está patente, desde logo, nas epígrafes de Issa Kobayashi, Matsuo Bashô e Shiki que abrem cada um dos quatro breves conjuntos de poemas de Prefloração. Não sendo um livro de haikus, nota-se nestes poemas um esforço de transparência e de simplicidade que os aproxima do género. Mas essa aproximação é operada, sobretudo, numa relação mulher-natureza sempre mais evocada do que contemplada, até porque muitas vezes a simplicidade não fica senão aquém de mero esforço ou intenção. De certa forma, não é sequer justo falar numa relação mulher-natureza, já que o ponto a partir do qual se percepciona a realidade é um ponto de fusão entre o homem, em sentido lato, e o mundo natural. Esse ponto, lugar de encontro e de emergência de uma cosmogonia muito específica, resulta, no haiku, de um processo de abnegação, ao passo que nos poemas de Prefloração ele é ainda o Eu da autora sobrepondo-se ao resto. Não podemos falar na poesia oriental de uma cisão entre o sujeito poético e o seu objecto, já que ambos se unem numa mesma realidade e dessa união resulta o poema enquanto testemunho depurado de uma certa forma de observar o mundo, uma certa forma de o contemplar. O que importa aí é a luminosidade das palavras e não a sua sombra. Pretendo com isto afirmar que aquilo que fascina no haiku, ou seja, o registo da sensibilidade de uma contemplação sem pretensões reflexivas, acaba por ser atraiçoado nos poemas de Catarina Nunes de Almeida, pois esta não resiste à tentação de sobrecarregar o mundo com imagens e metáforas que vêm de dentro, apenas de dentro, do sujeito. Assim, mar e terra, animais e sementes, são apenas pretextos para a exposição de um Eu, de um Mim, omnipresente: «Quando me dispo dorme em mim / o odor dos frutos mastigados» (p. 35). O que temos aqui, então, é uma forma ocidental de olhar as mistificadas tradições poéticas do oriente. Se o que disso resulta é bom ou mau, parece-me sempre muito discutível. Prefiro chamar a atenção para alguns versos que me parecem mais conseguidos, versos que, sozinhos, resultariam, talvez, em melhores poemas: «…os campos que germinam nas entranhas das sementes / e a terra que não morre de parto / ainda que as flores nasçam siamesas» (p.16); «há um pessegueiro dentro do fruto / um pomar de pessegueiros neste abrigo / rasgado pelas luzes da cidade» (p. 32); «A erva onde todos se deitam e se deita em todos /o chão que nenhuma mão nenhuma primavera lava» (p. 56). É nestes instantâneos que a poesia de Catarina Nunes de Almeida se revela mais atraente e luminosa. Pena que na maioria dos poemas ressalte alguma ausência de sobriedade e de discrição, talvez por culpa de um ímpeto a ser superado com a maturidade, que acaba por nos deixar aquele sentimento de ainda haver muito a rasurar.sexta-feira, 8 de dezembro de 2006
QUARENTA ROMANCES DE CAVALARIA
Tentar decifrar um livro de poesia é quase sempre uma tarefa ingrata, dado o carácter indefinível do próprio discurso poético. O confronto com um livro de poemas exige, deste modo, uma vigilância que não tenha na sua origem a intenção de vigiar, ou seja, uma abertura e um desprendimento que permita ser a palavra poética a criar, por si só, os sentidos e os significados que tiver de criar no momento da leitura. Nunca se lê um livro de poesia da mesma maneira, assim como duas pessoas jamais repetirão a mesma leitura. Julgo, aliás, que é assim com todo o género literário, mas mais ainda com o poético. Acontece existirem livros cuja organização nos sugere uma ordem formal que escapa ao conteúdo, sobretudo se o conteúdo induzir impulsos, manifestar liberdades, ostentar, até, um certo descomprometimento com o leitor. Quarenta Romances de Cavalaria e Outros Poemas, de Frederico Mira George (n. 1962?), é um desses livros. Abre com uma dedicatória, seguida de epígrafe, a Herberto Helder, o que não admira, pois a este poeta vai Frederico Mira George buscar aquele fluxo de escrita que a tantos abespinha e a outros cativa. Muito distante, porém, do mestre em termos de sensibilidade poética, o autor de Quarenta Romances de Cavalaria prefere um registo mais provocador e irónico, por vezes tétrico e mesmo grotesco, diria que muito menos místico e muito mais surrealizante. Logo no primeiro de quatro livros, todos compostos por quarenta poemas, deparamos com duas noivas sentadas nos bancos de um jardim onde olham um revólver: «marta e ana amam o revólver / são noivas num jardim entrecruzando as pernas / como cinzentos brincos-de-princesa na praia» (p. 11). Seguem-se «agulhas que sabem a chouriço» (p. 12), «miríades de deuses que precisam das suas sotainas engomadas pa / ra celebrar orgias no olimpo» (p. 13), pernas ásperas, pés doridos, sangue, vómito e febre, «a cabeça a estalar / de agulhas» (p. 18), «nuvens em forma de ovo transbordando de pólen e azeite» (p. 26), chuvas de pregos e de martelos, a degradação do amor, é óbvio, o cansaço a tomar conta da paixão, o costume e a existência doméstica a derrearem o amor. As imagens irrompem dos versos de Frederico Mira George como uma encruzilhada de sentidos, criando um ambiente onde a força da respiração se pontua a si própria, uma encruzilhada avessa às convenções que armadilham, tantas vezes, a poesia. O que aqui temos é a experiência de um acto terrorista, por isso mesmo poético, onde as palavras saem estropiadas, partidas a meio, acopladas, soletradas, com a pontuação por vezes invertida, outras vezes ausente, em regime de ruptura com qualquer tipo de tratado acerca da arte de bem escrever. Atentemo-nos ao título: Quarenta Romances de Cavalaria e Outros Poemas. Uma breve pesquisa sobre o romance de cavalaria informa-nos que este surgiu na Idade Média, tendo como principais características a complexidade do enredo, por vezes próximo do fantástico, e o carácter simbólico. É esse simbolismo o que se retoma nestes poemas, poemas que também são romances, enredos, situações que emergem na palavra com a figura de uma teia. Em Metrónomo, o Livro Segundo, o poeta (con)centra-se no eu e lança-nos pistas: «por dentro do sangue as veias correm álgidas levando ao coração / uma leveza inteira / e é nesse percurso gélido / intrasanguíneo / que reside o sentido último do verso» (p. 62). Surgem, aqui e acolá, referências várias aos rituais católicos, misturadas com evocações da vida quotidiana, familiar, reflexos próximos de um erotismo insólito, muito ao jeito do que acontecia na poesia e nos filmes de Luis Buñuel. Há evocações várias, diálogos, referências: Évora, Godard, Verdes Anos, Hans Hesse, Satie, Bach, Cervantes, Fiama, Al Berto, etc. O que quer tudo isto dizer? Puzzle sempre por terminar é o poema, enquanto repositório das complexas redes de associações que nos enformam a memória. Os Quarenta Romances de Cavalaria propriamente ditos são o Livro Quarto deste puzzle, quarenta poemas em prosa, sem qualquer tipo de pontuação, para ler de um só fôlego: «…vivo num pequeno apartamento de duas assoalhadas mais casa de banho e cozinha nos arredores de lisboa tenho uma razoável colecção de selos e bilhetes de autocarro com números capicua e gostava que a minha vida pudesse terminar sem grandes sobressaltos pelo menos que não voltasse tudo para trás que não tivesse que me confrontar de novo com a peste dos romances de cavalaria…» (p. 186).
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