segunda-feira, 12 de março de 2007

VIR AO SOFRIMENTO


Não sei ao certo o que me atrai nas esculturas do norte-americano George Segal (1924-2000), mas desconfio que seja esse registo quase fotográfico dos gestos quotidianos mais banais. Geralmente associado à Pop Art, Segal também foi pintor. Enquanto tal, reproduziu a preto e branco vários objectos de uso doméstico: jarras, chávenas, malas, saleiros, açucareiros, garrafas de ketchup, sapatilhas. Ao contrário da maioria dos seus congéneres de movimento, relegou a cor para um plano secundário. Porém, encontramos-lhe, muito de vez em quando, algumas esculturas mais coloridas, ainda que quase sempre monocromáticas. Dos seus trabalhos para espaços públicos, os mais conhecidos talvez sejam Gay Liberation (1980) e The Holocaust (1984). Esta última encontra-se no Lincoln Park, em São Francisco, e, apesar de nunca a ter contemplado senão através de registos fotográficos, toca-me particularmente. O tema, por si só, presta-se a isso, mas há algo mais que a torna profundamente marcante no contexto da obra deste escultor. As esculturas de George Segal representam, como já referi, gestos quotidianos, transeuntes a atravessar uma rua, uma mulher a abrir uma porta, um casal abraçado debaixo de um vão de escadas, cidadãos na paragem do autocarro, pessoas sentadas ao balcão, num restaurante, num banco de jardim, etc. No trabalho que se refere ao holocausto o quotidiano é caracterizado por um conjunto de cadáveres amontoados no chão e um homem de pé, cabisbaixo, agarrado ao arame farpado, de costas voltadas para os mortos. O autor capta assim, com brutal clareza e evidência, o quotidiano do holocausto, não sem nos interpelar sobre essa evidência. A figura que se encontra de pé está de costas voltadas para a morte, agarrando-se ao arame farpado num gesto que simula, ao mesmo tempo, uma impotência tremenda perante a vida mas uma força desconcertante na relação com o sofrimento. É, toda ela, uma lição de vida, um ensinamento que a História mais negra da humanidade nos outorgou. O sofrimento pode ser desnecessário, pode não haver nada na vida mais dispensável, mas é ele também quem melhor nos mantém de pé, quem, da forma mais radical, é certo, nos afirma e sublinha a vida. Vai-se a ver e isto anda tudo ligado e a forma como nascemos é já uma premonição do absurdo que é viver. Vir à vida é, desta forma, vir ao sofrimento, esse sofrimento que mais não é senão um adiamento da morte. No fundo, não é outro o quotidiano da humanidade.

CANSAÇO

A mãe foi às compras e regressou
com um saco cheio de cansadeira.

ESTÓRIA DOMÉSTICA

A sanita abria o chapéu de chuva sempre que o homem chegava para urinar. Quando vinha a mulher ela punha protector solar.

domingo, 11 de março de 2007

DÍPTICO MUSICAL

Se pensarmos em cinco poetas portugueses nascidos na segunda metade da década de 1940, talvez nos lembremos de nomes como os de Joaquim Manuel Magalhães (n. 1945), Al Berto (n. 1948), José Agostinho Baptista (n. 1948), Nuno Júdice (n. 1949) ou Hélder Moura Pereira (n. 1949). Porém, há um leque muito mais alargado de nomes dos quais dificilmente nos lembraríamos. Entre eles, o de Silva Carvalho (n. 1948) é talvez o menos conhecido de todos. Não sabemos as razões que explicam esse desconhecimento, mas ao entrar nesta obra que começou a desenhar-se em 1969, com um livro de nome Suor do Tédio, desconfiamos que tal se deva ao que menos agrada às cátedras e leitorados da literatura portuguesa: a ousadia. Neste caso específico, a ousadia começa logo na ruptura com os modelos poéticos ocidentais, na rejeição da versejadura nacional e dos preconceitos estéticos e estilísticos que, ora enformando, ora deformando, contaminam muita da poesia que por cá se vai produzindo. Díptico Musical, publicado em Novembro de 2005, foi-me oferecido por João Urbano, editor da revista Nada, a quem se devem as palavras inscritas na contracapa deste livro: «Em Silva Carvalho assistimos a uma deslocação, senão mesmo a uma inversão, de todos os valores poéticos, assistimos à rasura das poéticas neo-românticas e neo-simbolistas que dominam ainda a paisagem portuguesa, para que passe outra coisa muito mais exigente e arriscada, que não se contenta mais com o pequeno lume da poesia, seu lirismo complacente, essa destiladora de nostalgia, da pequena dor sacramental, e sem recair mais nas suas ilusões ou nos seus jogos de embriaguez redentora, alquímica, minimalista, perfeccionista e gnosiológica». São palavras que se ajustam na perfeição aos dois conjuntos que compõem Díptico Musical, assim intitulado por razões que o próprio autor explica num texto do segundo conjunto: «vou chamar aos dois últimos livros escritos, / esta Rede do Discurso e esse Quase, Díptico Musical, de tal maneira as canções que agora passam / pela rádio têm sido essenciais na feitura de mim / escrita de textos em livros personalizados» (p. 181). O musical do título é, deste modo, consequência mais de um acaso do que de um conceito a priori, ele resulta já de uma constatação a posteriori apenas possível devido ao constante diálogo que o "sujeito poético" mantém consigo próprio no espaço interior dos seus textos. Pela segunda vez lhes chamo textos e não poemas, pois assim parece ser, na medida em que se inscrevem no campo da poesia como uma interrogação constante das premissas poéticas, éticas e estéticas ocidentais. Ao poema prefere o autor o texto, ao verso prefere a linha ou qualquer coisa de indefinível que se inaugura entre os dois. A primeira impressão desta leitura é pois a de uma poesia que não é poética – no sentido que usualmente se dá ao conceito -, assemelhando-se mais ao ensaio ou a qualquer outra coisa que, em última instância, diríamos ser apenas literatura. Neste lugar da literatura encontramos proposta uma porética: «Porética é, senão a filosofia, a actividade, abrir / uma passagem todos os dias e a todas as horas, aqui / e ali, não só no linguajar (os heróis mortalmente / desaparecidos, cadáveres da ordem tumefacta), / mas na diversidade dos acontecimentos diários / onde se possa realmente sentir a realidade nova» (p. 124). A porética resulta numa musicalidade muito singular, também ela feita de metáforas, analogias, aliterações: «da voz que é foz faz a vez» (p. 34), «a vez voraz / do sem voz» (p. 83), «um nefasto fasto. Rasto de quê?» (p. 160). As palavras como que se puxam umas às outras, sugerem-se, uma palavra ecoa já uma outra que pede para ser evocada, para ser desenhada no corpo do texto, para ser parte integrante desse corpo. O ritmo de produção é impressionantemente quotidiano, quase sufocante, como se a escrita fosse um hábito no qual o homem se faz texto e o texto se erige como dilação natural do homem: «Estou a gostar deste texto. Estou, estupidamente, / a gostar de mim» (p. 137). Esta é uma escrita sem tempos mortos, feita a um ritmo alucinante (13 textos num só dia!) que pode oprimir a respiração da leitura, impondo-se ao leitor e exigindo-lhe uma predisposição que é um duelo permanente. É um ritmo que não se furta ao ruído, à intromissão de uma musicalidade vocabular muito pouco usual em livros de poesia: acmástica, aletologia, amíntica, borborigmos, catavético, ctónico, deiscência, epulótica, esplenética, intonativas, ortolexia, paratáctica, solecismo, tauxia, ustão, etc. Num mesmo poema podemos vislumbrar palavras como ingluviosa, inópia, insimulando, intermúndio, irrogar. A esta riqueza lexical corresponde aquilo a que o autor chama de catacrese (emprego de termos com significação diferente da usual, por falta de termos próprios na língua), uma espécie de metodologia da porética que reafirma os limites da linguagem. Isto justifica o tom de uma poesia sem soluções nem verdades, anticonvencional, onde, talvez por isso mesmo, encontramos recorrentemente o emprego da expressão «o que quer que seja». Em dois perigos incorre o leitor: julgar esta uma escrita ensimesmada e presunçosa. Há imensos ecos da vida quotidiana nestes textos de Silva Carvalho, referências a objectos, canais de televisão, canções, autores, ecos do mundo contemporâneo. Há um apego que é também, ao mesmo tempo, um desapego da realidade mas que não nega a experiência como alicerce da escrita. Aliás, a escrita é ela própria, neste contexto, uma experiência quotidiana. Nota-se, é verdade, uma má relação com o exterior, uma má relação que não resvala numa negação, antes pelo contrário, resulta numa exaltação da dor interna provocada pelo que provém de fora. O efeito é também aqui o de denúncia de um mal-estar e daquilo que o provoca. O leitor como que é levado a crer numa necessidade de distanciamento do mundo, numa espécie de taciturnidade, nunca concretizada. Daí, talvez, o desconforto. Mais que uma interacção com o mundo há uma reflexão crítica acerca dessa interacção, de como ela resulta no texto, há uma interrogação sobre a forma como a linguagem capta ou até onde logra captar essa mesma interacção. Pode parecer que Silva Carvalho se coloca na posição do sábio autoproclamado, o anacoreta que, em posse de herméticas verdades - mesmo que sejam elas a da ausência de verdade -, se arroga no direito e no dever de profetizar a estupidez do mundo, revelando o que os demais não vêem, e de censurar o mundo por este não ver nele esse tal profeta que só ele sabe que é. Mas essa atitude faz parte de um jogo que é, talvez, o que de mais poético tem esta porética.

sábado, 10 de março de 2007

6,300KG

Depois do que te fiz sofrer, ter nascido para sofrer já não é nada mau.

quarta-feira, 7 de março de 2007

DIRECTO

Numa reportagem de rua, uma inquirida grita para o microfone: «Depois, quando passar isto, ponha tudo em directo!!! Eu quero que o povo saiba todas estas verdades, ponha tudo em directo!!!»

A MULHER-BIBELOT

Para Schopenhauer o amor é um instinto, assim como mamar. Só que enquanto o instinto de mamar tem em vista a satisfação de uma necessidade fisiológica do indivíduo, o amor cumpre necessidades da espécie, nomeadamente, a procriação, a geração de uma criança. A verificar-se uma coisa destas, somos apenas joguetes da natureza, uns palermas que para aqui andam, cheios de sonhos e ideais que mais não são do que truques para disfarçar um egoísmo específico, uma debilidade que faz de nós escravos e vítimas da espécie. Sendo assim, as pessoas que não encontram o parceiro ideal para a procriação só podem trazer consigo um defeito de nascença, uma falha qualquer que os impede de concretizar os ditames da espécie. Já as pessoas que não desejam ter filhos podem ser consideradas, aos olhos da espécie, seres amotinados, temíveis revolucionários a trazer na mira da censura. De entre estes pervertidos os do género feminino são os mais censuráveis. Isto porque, levando à letra o autor de A Metafísica do Amor, deviam ser, naturalmente, o género mais fiel. Estando-lhe no sangue a propensão para a fidelidade e um espírito mais ponderado, apesar de se revelar o género mais frívolo e de inteligência acanhada, a mulher é quem mais obedece à natureza da espécie. O problema é que, no seu breve Ensaio Sobre as Mulheres, o filósofo alemão afirma a dissimulação como uma característica inata das mulheres, consequência da qual nasce a falsidade, a infidelidade, a traição, a ingratidão, etc. Afinal são as mulheres mais fiéis ou infiéis que os homens? Schopenhauer lembra-me aquele padre do poema de Manoel de Barros que, olhando no recreio um menino que não brincava com os outros meninos, pensou que ele seria poeta. Na verdade, o menino estava apenas com uma terrível dor de barriga. A Metafísica do Amor é um dos exemplos mais extraordinários de que, trazida ao concreto, a metafísica perde grande parte da sua razoabilidade in abstracto. Pretendendo-se inimiga do mito, ela foi, por diversas vezes, promotora de mitologias tão razoáveis e prováveis quanto o elixir da eterna juventude. Promotora, portanto, de injustiças com catastróficas consequências. Mas há um desses mitos schopenhaurianos que a toda a hora parece querer comprovar-se: «as mulheres são, por índole, inimigas». Bem sei o quão injustas podem ser todas as generalizações deste tipo, difíceis de justificar à luz da milhentos exemplos trazidos à mão, mas macacos me mordam se não é verdade verdadinha haver nesta metafísica da mulher uma correspondência iniludível com o concreto. Há quem diga que isto resulta de milénios de endrominação masculina, como se a história da subjugação da mulher ao homem tivesse resultado numa desconfiança entre as mulheres que hoje se manifesta numa espécie de instinto de competitividade, misturado com uma fatuidade extrema frequentemente confundível com inveja, ressentimento e outras virtudes que tais. Como sou muito humilde nestas questões, prefiro sempre não elaborar grandes teorias de género e evitar distinções disparatas que oponham homem e mulher a partir de traços de carácter biologicamente indetermináveis. O que a experiência me vai dizendo é que há entre as mulheres um complexo de inferioridade que ainda está por resolver, e que os tempos em que vivemos, tempos de subsunção do feminino à promoção de um ideal de beleza físico, também em nada ajudam a que ele seja resolvido. O estereótipo da mulher-bibelot, seja no papel de mãe, dona de casa, modelo de beleza, amante de trazer no bolso, está longe de ter sido ultrapassado. Estaremos no bom caminho?

segunda-feira, 5 de março de 2007

OBESE GIANT


Quando há 10 anos visitei A Ilha do Tesouro, uma exposição de Arte Britânica apresentada no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, ainda não conhecia o trabalho de Ken Currie. A pintura deste escocês cativou-me por nela encontrar um realismo que escapava à grande maioria dos artistas representados naquela mostra. Cito um excerto, da nota de catálogo, acerca da obra de Ken Currie: «O seu programa é claro: fazer arte sobre “trabalhadores, para trabalhadores…”, subscrevendo a ideia do poder da arte como motivação para alterar o modo de vida das pessoas (sem que no entanto, haja qualquer nota de optimismo no seu trabalho).» Em certa medida, julgo não ser displicente a afirmação de que o seu trabalho é de um realismo esclarecido que, por isso mesmo, não dispensa a ironia. A ironia, quando eivada de crueza, é amiúde confundida com ausência de optimismo. Não me parece que possa ser o caso de alguém que acredite num qualquer poder da arte em alterar o modo de vida das pessoas. A existência de um programa que consista em fazer arte sobre trabalhadores para trabalhadores não é nova, residindo a novidade apenas na reafirmação dessa atitude num tempo em que tal gesto não deixa de ser anacrónico. Digo isto porque dificilmente me convencem de que a arte não é, cada vez mais, um privilégio ao alcance de muito poucos, nomeadamente no que possui de potencial de mudança.



Podemos pensar na nossa relação com a arte como quem pensa num homem que viaja, num homem que, em contacto com o outro, com o diverso, se descobre a si próprio, se transforma, se constrói. A grande maioria das pessoas, por razões diversas, vive num estado de abdicação desse tipo de relações, preferindo investir noutra espécie de encontros muito mais sedentários. Talvez não seja tão romântica quanto pareça a ideia de que pela arte, porque em contacto com o diverso, mais facilmente o homem se descobre a si mesmo, isto se julgarmos haver um si mesmo por descobrir. Eu creio que sim, que esse si mesmo existe e que a vida é um percurso que fazemos na direcção da sua descoberta. O problema que podemos levantar é antes: quando podemos nós saber que somos isto e não aquilo? Nenhuma pessoa honesta pode afirmar que possui uma resposta para tal questão, mas isso não nos impede de supor a existência dessa mesma resposta algures, a pairar dentro de nós como um fantasma bulindo o nosso corpo enfermo. O que pretendo dizer é que mais facilmente se descobre a si próprio aquele que tacteia, aquele que ousa ensaiar-se nos palcos da vida, do que o homem subjugado a uma ordem definitiva de pensamento, a uma hierarquia de valores inflexíveis e absolutos. Vêm estas elucubrações a propósito do "pânico" que se instaurou em mim quando imaginei que para os «cubanos» que pretendam saber qualquer coisa sobre Portugal via Internet, os 10 primeiros resultados com que se deparam são «duas referências a movimentos de solidariedade portugueses pela libertação dos «cinco heróis cubanos» detidos nos EUA, três à actuação de Portugal no Mundial da Alemanha e cinco a discursos de Castro durante a sua última visita ao nosso país, ocorrida no já longínquo ano de 2001». Um Portugal, portanto, ainda mais fantasmagórico do que aquele que vive na cabeça de muitos portugueses. Imaginar tal coisa é mil vezes mais medonho do que eventualmente constatar que na cabeça da maioria das pessoas no mundo Portugal nem sequer existe. É como imaginar uma sala cheia de fantasmas a impedirem as pessoas de procurar o seu tal si mesmo. O mundo é muito esse impedimento, esse gigantesco fantasma obeso a mijar para cima de quem trabalha.

ESCADAS

Por que é que as escadas estão penduradas no tecto?
Matilde (3 anos)

sexta-feira, 2 de março de 2007

INTERNAMENTO

Não sei como é nos outros dias, mas desde segunda-feira passada deram entrada dois bebés abandonados pelos pais. Um com 2 meses de abandono, o outro com 5. São olhados com pena e raiva, talvez alguma incompreensão. Uma auxiliar diz que pena, pena, meteu-lhe a bebé que parecia uma boneca de porcelana. Não entende, a auxiliar, como é que os avós não querem ficar com um bebé tão bonito. Por onde andarão os avós dos bebés feios?

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

EM FALTA

Na verdade, a mulher não pede desculpa por estar doente. Ela limita-se a evidenciar a doença como justificação daqueles gestos involuntários e incomodativos. Isso remete-me para os alunos que justificam as faltas por motivos de doença, quase sempre dizendo que faltaram por motivos de saúde. Vê-se que ainda não aprenderam grande coisa, pois ninguém falta por ter saúde. Podemos mesmo dizer que estão em falta consigo próprios ao afirmarem uma coisa dessas. Que nunca saibam o que é faltar por motivos de doença.

INCÓMODO

Uma mulher peida-se e arrota intermitentemente, pedindo desculpa por estar doente. Por que pede alguém desculpa por estar doente?

ENFERMEIROS

Os enfermeiros lembram-me Lillian Gish em Broken Blossoms. Uma profissão que obrigue a ser simpático a todo o momento deve ser muito desgastante. Para onde irá aquela simpatia toda ao final do dia?

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

UM FILHO DOENTE


Francis Bacon, o pintor, foi quem melhor representou a doença. A doença é uma deformação, é um desequilíbrio. Todas as formas que deformam são uma representação da doença. Quando passeamos pelos corredores de um hospital constatamos que, nesse trépido jardim de mármores desinfectados, o nosso corpo é o que mais se aproxima de uma verdade que iludimos tanto quanto possível: somos uma doença a caminhar para a cura. Nada há pior que um filho doente, ele remata-nos o sentimento de pertença, apunhala-nos qualquer invocação de imortalidade. Olho os quadros de Bacon como quem visita um filho doente numa cama de um hospital, um corpo a caminhar para a cura, a fé numa ilusão que nos atrase a cura. É preciso acreditar no poder dos comprimidos, nos traços geométricos que enquadram a desfiguração. É preciso acreditar nos números como a balança que restituirá ao corpo a reverberação de uma pureza que se esvai na respiração dos dias. Bacon é como um ensaio de 200 palavras, um fragmento a inaugurar a violência das ideias, um pensamento inconclusivo. Secção de baconcologia: a pele mortiça dos gritos, o branco profundo da degenerescência, uma espécie de fraqueza que se resume na obscura colheita dos nervos a que damos, poeticamente, o nome de dor. Sinto os quadros de Francis Bacon como se fossem um filho doente, alguém a querer respirar por cima da respiração, como naqueles sonhos em que queremos gritar e o som agarra-se-nos às cordas vocais e não sai, nós sopramos e ele resiste lá dentro, agarrado, incrustado, um som terrífico porque ausente, silencioso. Sempre que resulta num grito calado, o silêncio é terrível – porque é uma deformação na cama da geometria, é uma doença.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

MORTO COM DEFEITO

Vítor Pinto Basto (n. 1959) é licenciado em Filosofia mas exerce, desde 1981, a profissão de jornalista. Publicou O Segredo de Ana Caio (Campo das Letras, 1996) e Gente que dói: o conflito basco por quem o vive (Deriva, 2004). Morto com Defeito, que também saiu, o ano passado, com o selo da Deriva, é uma novela que oscila entre o divertido e a crítica da actualidade. O enredo tem tudo o que é necessário para a construção de uma boa história: uma situação intrigante, ainda que caricata (notícia da morte de alguém que, afinal, está vivo), e personagens consistentes (do traficante de diamantes, dado como morto num atentado à bomba, ao jornalista que investiga o caso). No entanto, o autor não se limita a desenvolver a história, a relatá-la no que ela pudesse ter de testemunhal quanto a um tempo em que a verdade se constrói na base de equívocos e interesses que promovem esses mesmos equívocos. A narrativa esbarra frequentemente, diria mesmo demasiadamente, em considerações amarguradas sobre a actualidade portuguesa, considerações essas que quase nunca escapam à banalidade, tornando-se elas mesmas equivocais. Não me refiro ao tom discursivo, esse muito do meu agrado, próximo da conversa de café, ou seja, de um tom destemidamente popular e quotidiano. Refiro-me antes às considerações de índole política, sociológica e filosófica, às considerações que acusam um tempo, o nosso, que me parece bem mais complexo do que os lugares comuns permitem entender. Os exemplos podiam começar quando, a páginas 15, o autor se "defende" das «histórias enrodilhadas com pensamentos prolixos e versos caprichosos, em calhamaços-livros-decoração à espera de serem abertos e lidos. Livros fechados e mudos, com tanta palavra aprisionada em frágeis paralelepípedos de papel. Como se fosse essa a intenção da escrita, apanhar pó em salas apinhadas de ruído, ao lado da televisão que tudo parece substituir» (pp. 15-16). Não me sendo dado saber qual a intenção da escrita, embora tenda para a aceitação da mesma como uma decoração da vida, parece-me antes que a televisão não só não a substituiu como contribuiu, de certa maneira, para a sua promoção. Sendo Vítor Pinto Basto jornalista já com alguns anos de carreira, talvez o que aqui se torne mais evidente seja a necessidade de reflectir os meandros da sua profissão. O cenário, como outra coisa não seria de esperar, não é dos melhores: egoísmo, sofreguidão pelo poder, cobardia, filha-da-putice, sacanice, cinismo, maledicência, jogos de bastidores, «o pântano maquiavélico da intriga», «uma selva de ódios e rancores». Vem à tona um mal-estar que não vale a pena iludir, ele é o pão-nosso de cada dia numa sociedade que educa os seus cidadãos, quase exclusivamente, para o sucesso material. Natural que em profissões mais competitivas ele seja ainda mais ameaçador, desgastante e insuportável, retrato que, de certa forma, é o melhor deste Morto com Defeito. Talvez o próprio jornalismo se tenha transformado, como a morte de Carlos Palhal, esse morto com defeito, num equívoco, numa profissão cujo rumo é mais o de servir à conveniência das notícias do que à sua inconveniência. Temos então, novamente, o problema das camuflagens, da verdade ocultada na base dos interesses do poder, sendo esse poder sinónimo de economia, dinheiro, riqueza material. Seguem-se Bagdade, o Médio Oriente, a ambição dos políticos nas várias escalas do poder, o tráfico (de diamantes, de influências), o sexo, a prostituição, Moscovo e o Porto, as azias da democracia, porque «não faltam casos em que só há democracia da boca para fora, é democracia que só dá liberdade para falar, comos e a palavra fosse suficiente e enchesse barriga, quando se sabe que quem muito fala com razão ganha fama de inconveniente e costuma ser afastado ou humilhado por quem é pago para ter poder» (p. 115). Um último senão: as “gralhas”. Este livro tem muitas, o que é sempre uma outra forma de injustiça.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

LA CHUTE DES COURSES

Em 1998 fiquei especado durante largos minutos a olhar La Chute des Courses, uma obra monumental de Arman que consiste numa série de carrinhos de supermercado encaixados uns nos outros. É apenas um exemplo das famosas Acumulações do artista belga, conhecido também por transformar o lixo em arte e, segundo alguns especialistas na matéria, a arte em lixo. Arman é geralmente associado ao manifesto dos Nouveaux Réalistes, os quais se entretinham, entre outras coisas, a desconstruir os símbolos da sociedade de consumo, quando não a destrui-los, ou a empilhá-los sob o tecto de uma contextualização artística que unia a ideia de jogo à de provocação sociopolítica. Os carrinhos de supermercado são, por excelência, um símbolo de uma sociedade organizada em torno do valor do consumo. Nos trabalhos de Arman encontramos esse valor satirizado e exaustivamente representado em metáforas da produção em série e do desperdício. Enquanto fruidores de arte somos colocados perante o paradoxo da reavaliação dos objectos. Ou seja, o que em certo contexto não passaria de lixo passa a ser arte. O lixo, assim transformado num objecto artístico, readquire um valor que é já consequência da mesma sociedade que o produziu enquanto tal. Basicamente, Arman diz-nos que nós, os consumidores, somos as máquinas de produzir o lixo que ele transforma em arte, somos máquinas de produzir (arte) para consumir (arte). Nós podemos questionar o valor estético destas produções, mas não consigo imaginar um qualquer cidadão minimamente informado acerca do trabalho de Arman a rejeitar um dos seus Caixotes de Lixo. Imaginemos, no entanto, a possibilidade de um desses Caixotes ser oferendado a alguém que nunca tenha ouvido falar de Arman. Será que essa pessoa aceitaria, sem mácula, uma cuba em vidro cheia de resíduos? Conseguirão as pessoas ver resquícios de arte nos caixotes do lixo que têm, neste preciso momento, em suas casas? As questões frequentemente levantadas sobre o poder da teoria de arte levam-me a pensar que, fosse qual fosse a resposta às minhas dúvidas, isso não importaria minimamente para a definição do que é ou deixa de ser arte. Mas também não é isso, confesso, o que mais me interessa. Estou muito mais preocupado, actualmente, com a indiferença com que a arte é hoje olhada, seja ela mais ou menos violenta nos seus pressupostos. O espanto que me levou a ficar especado durante largos minutos perante La Chute des Courses, provavelmente, não é diferente do espanto com que a maioria dos meus alunos fica hoje a olhar, durante largas horas, as inúmeras fotografias publicadas no Hi5. O que me espanta é que ninguém se espante com isso, contribuindo, dessa forma, para algo que também já era denunciado nas obras desses artistas: a reprodução em massa de ausências, a vacuidade que convém a uma sociedade onde praticamente todos se tornam escravos dos desejos mais frugais. Essa é uma sociedade onde o artista tem um papel meramente ornamental, é a sociedade da razoabilidade, a mesma para quem 50, 100 ou 150 mortos por dia no Iraque é apenas notícia de telejornal, é a sociedade que assiste serenamente ao cortejo de carreiras administrativas corruptas fazendo disso primeira página no jornal e assunto de café mas pouco mais, é uma sociedade, em suma, que não se indigna, que não se impacienta, amorfa, absorvida pelo corriqueiro, inimiga da excepcionalidade. Em suma, é uma sociedade embrulhada, como numa obra de Christo, no manto branco da desmemória, no manto aflitivo da apatia.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

POESIA NORTE-AMERICANA

Manuel de Seabra seleccionou, traduziu, prefaciou e anotou esta Antologia da Novíssima Poesia Norte-Americana, publicada pela Editorial Futura, em 1973. Adquiri o meu exemplar através dos excelentes serviços on-line da Livraria Letra Livre. São cerca de trinta poetas, cujo critério de selecção foi devidamente explicado no prefácio: «Ao pretender organizar uma antologia da novíssima poesia norte-americana, foram postos automática e naturalmente de lado os fundadores do Modernismo, que seriam imprescindíveis numa antologia da poesia moderna». O que temos, portanto, é um leque relativamente abrangente de autores relacionados, de uma forma ou de outra, com a Beat Generation ou os associados ao famoso Black Mountain College. Toda esta poesia deixou de ser novíssima, mas muito dela permanece, "para mal dos nossos pecados", actual. Sobretudo quando manifesta uma vontade de sacudir valores ainda hoje radicados no império do consumismo ocidental, assim como uma atitude de ruptura com preconceitos literários que, quer queiramos quer não, resistem teimosamente no mais-conservador-do-que-seria-de-esperar mundo das letras. Alguns destes poetas foram não apenas autores de poemas, no sentido convencional de um mercado que enclausura a poesia em volumes muito arrumadinhos que depois saltam de livraria em livraria à procura de um lugar ao sol das cátedras, mas também leitores de voz alta, performers, agitadores, gente que não prescindiu de cuspir contra um sistema que remete constantemente os escritores para o plano do decorativo. Muitos destes poetas deram o corpo ao manifesto, outros terão também, com o tempo, dado ao manifesto um corpo aburguesado, desistente, conformado. Contas que não nos cabem. O que nos cabe é ressalvar esse uso da poesia como forma de denúncia e de testemunho, esse uso da palavra poética num registo muito para além do meramente retórico e coloquial, tantas e tantas vezes colegial, que ousou colocar a poesia ao nível de um discurso político cuja promessa não era outra senão a de recusar liminarmente todo o género de promessas, isto porque a promessa é indutora de uma autoridade sempre avessa ao poético, de um poder que se arquitecta a partir de um ponto de vista social megalómano que tem apenas em vista a subserviência e o servilismo que levam ao jogo de bastidores na ânsia de um sucesso artificial, pois certo, mas sempre muito atraente. Pena que a grande maioria dos poetas de hoje passe ao lado desta postura delinquente e inconformada, deixando-se pentear, com a mais ignóbil letargia, pelos peritos do sucesso, pelas autoridades eclesiásticas, pelos técnicos da promoção que fazem ascender ao cocuruto do referencial aquilo que, de outra forma, não passaria de um rastejante modo de se pass(e)ar pelo mundo. Rendo as minhas homenagens aos salteadores da poesia sem outra intenção que não seja a de expurgar o corpo dos detritos que a alma lhe imprime, essa alma que desde tão cedo deixa de ser nossa para passar a ser de quem nos ensina a pronunciar papá e mamã de acordo e em obediência com as gramáticas do “podrer”, do conformismo, da espinal algia, da observância mais cínica e sacana, mas muito disciplinada e, por isso, aclamada e reproduzida.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

CORRESPONDÊNCIA

Aproveitei o dia de reflexão para terminar a leitura da correspondência que Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena trocaram entre 1959 e 1978, publicada entretanto pela Guerra & Paz (suponho que já este ano tenha sido feita uma segunda edição, acrescentada com mais duas cartas de Sophia e um cartão postal de Jorge de Sena). É sempre com enorme esforço que leio este tipo de livros, fã que não sou do género epistolar. Cá em casa devem morar meia dúzia de livros do género, todos lidos muito lentamente, a espaços e sem grande motivação. A razão de tal dificuldade explica-se por um preconceito que, por muito que me esforce, não consigo ultrapassar: o de que a epistolografia é do domínio da privacidade e, enquanto tal, impublicável. Haver quem pense de forma diferente de mim apenas sublinha o lado preconceituoso desta embirração, mas não posso deixar de confessar que, exceptuando aqueles casos em que as cartas revelam uma elaboração ficcional e filosófica muito específicas, julgo completamente dispensável, e, muitas vezes, contraproducente, a publicação destes retalhos da intimidade e da vida privada. Dispensável porque raramente acrescentam qualquer coisa à literatura, contraproducente porque, sob o mito da verdade nua e crua, podem patrocinar ilusões acerca de factos históricos apenas inteligíveis no confronto entre as várias perspectivas implicadas. Deste modo, agrada-me a carta quando possui qualquer coisa de “invenção literária” mas dispenso-a enquanto consolação de um voyeurismo que não me estimula minimamente. O que me levou a pegar na correspondência entre Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena foi, muito particularmente, a profunda admiração, alimentada desde há muito, pela obra do autor de Peregrinatio ad Loca Infecta. Da obra de Sophia, perdoem-me, mas não sou "tão grande" admirador. Devo dizer, porém, que senti algum enfado com esta peregrinação pelas queixas domésticas da poetisa e pelos desabafos amargurados do poeta, apenas ultrapassado, aqui e acolá, quando a correspondência revela inteligentes trocas de impressões acerca de povos e culturas, quase sempre motivadas por viagens de Sophia à Grécia (ver carta de Abril-Maio de 1964), ao Brasil (ver carta de 30 de Agosto de 1966), ao México (ver cartas de 26 de Novembro de 1971 e 4 de Dezembro de 1971). Quanto ao resto, o que temos é conversa de escritores ocupados com a purgação do meio, prémios, tricas literárias e muita acusação que, diga-se em abono da verdade, parece ter tanto de justa como de pretensiosa. O tom de Jorge de Sena é de uma acutilância que os seus leitores atentos facilmente reconhecerão, revelando aquela amargura para com Portugal que já lhe sabíamos mas que, por vezes, se pode confundir com um ressentimento menos louvável. Acusações de «mesquinharia, incompetência, desonestidade intelectual, falta de educação, malícia, verrina, inveja, rancor e mediocridade» (p. 20), acompanham outras de perfídia, leviandade, desonestidade, cobardia, desatenção e paixão oportunista no que respeita à recepção do seu trabalho por terras lusas. A conclusão dificilmente poderia ser outra: «Cada vez mais penso que Portugal não precisa de ser salvo, porque estará sempre perdido como merece. Nós todos é que precisamos que nos salvem dele» (p. 52). O registo de Sophia é menos acutilante, mas igualmente implacável para com aqueles que, à época, confundiam literatura com luta política e partidária. Ao amigo, faz chegar os seguintes conselhos: «É o único sistema: rir de quem nos quer matar» (p. 32); «Valerá a pena você gastar tanta inteligência para explicar aos parvos que são parvos?» (p. 39). Mas faz chegar também, muito claramente, a expressão do seu pensamento político: «Acho que não se pode criar em nome do anti-fascismo um novo fascismo» (pp. 35-36). Sophia tinha razão. E Jorge de Sena também. Resta saber em que medida isso obstruiu ou, por outro lado, desbravou o percurso que levou as obras de ambos a patamares que são hoje o tecto sob o qual brigam as obras dos restantes. É que, como bem sabemos, os restantes são sempre o que resta. Nunca o essencial.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

AFURAR

Mamã, podes afurar-me o lápis?
Matilde (3 anos)

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

BONANÇA

Ando com alucinações. Ouço vozes que não existem senão na minha cabeça, sinto o chão derreter-se por baixo dos meus pés, por vezes convenço-me de que o coração parou-se-me há horas e eu ainda não dei por nada. Ainda agora, ao passar na rua, vi um boné a dançar na cabeça de um polícia. Que quererá isto dizer? Que significará um boné que dança?

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

FELICIDADE



De todas as dúvidas radicais, a mais radical de todas é esta: o que é a vida? Logo a seguir surge a pergunta sobre a felicidade, pois ninguém que se questione sobre a vida pode, se for honesto, deixar de lado a questão sobre a felicidade, já que vida e felicidade não fazem sentido uma sem a outra. Não há perspectiva segundo a qual a felicidade faça sentido sem a vida, ainda que possa haver quem pretenda sustentar fazer a vida sentido sem a felicidade. Estaremos, porém, a ser honestos se assim procedermos? Creio que não. No Capítulo II do Diálogo Sobre a Felicidade, Santo Agostinho diz que «quem determina ser feliz deve adquirir o que é sempre permanente e não pode ser destruído por nenhum revés da fortuna». Esta ideia de que a felicidade está dependente do perene, do que não está sujeito às circunstâncias, mais ainda da posse do que é sempre permanente, não é exclusiva do cristianismo. Há toda uma tradição filosófica ocidental que assenta a felicidade nesse princípio da perenidade. Para um ateu tudo isto é estranho, pois para um ateu tudo muda, nada é permanente. Ou quase tudo. Nos tempos hodiernos torna-se muito difícil aceitar esta concepção da felicidade, dado tratarem-se de tempos marcados pelo efémero, motorizados pela moda, esgotados na percepção de que tudo é passageiro. O filme Happiness (1998), de Todd Solondz, mostra-nos esses tempos encarnados em personagens quotidianas que são também um reflexo da alienação promovida pela organização da vida social. Talvez essas personagens, como qualquer um de nós, pretendam «adquirir o que é sempre permanente e não pode ser destruído por nenhum revés da fortuna» - isto se pretendermos ser felizes à maneira de Santo Agostinho. Porém, a vida não deixa. Traições, frustrações, recalcamentos, solidão, descambam numa encenação permanente dos comportamentos que, sob a capa aparente de uma felicidade artificial, disfarça a mais cruel das evidências: não há felicidade possível num mundo que nos obriga a ser o que (e quem) não somos. Não sei se essa impossibilidade é já consequência do tal esgotamento da perenidade, ou seja, da sensação de que tudo é passageiro, efémero, modal e, como tal, nada é permanente. É provável que o mais permanente de tudo seja mesmo essa sombra de efemeridade que hoje se abate sobre todas as coisas. Por outro lado, podemos afirmar, não sem algum cinismo, que o ser que se esconde atrás das máscaras com que enfrentamos o mundo exterior é também ele perene, vivendo apenas amordaçado e impedido de se manifestar por tal nos ser tão difícil. Dizia W. Somerset Maugham, numa das minhas passagens preferidas de Exame de Consciência, que se confessássemos cada pensamento que nos atravessa o espírito, o Mundo nos julgaria uns monstros de depravação. Não devem existir grandes dúvidas quanto a isto, assim como não devem existir grandes dúvidas de que é a ameaça desse julgamento que nos impede de sermos quem somos. A conquista da felicidade deverá ser, então, a conquista de nós próprios, uma espécie de reconquista do que de nós foi usurpado pelo Mundo. O raciocínio é este: se a felicidade consistir na aquisição do que é permanente, partindo do princípio que na minha vida nada há mais permanente que eu próprio, então a felicidade consistirá na aquisição de mim próprio, na (re)aquisição da minha própria vida. Só quando tal acontecer eu poderei revelar ao mundo, com a mais adolescente das ingenuidades, o que corresponde à mais maturada felicidade: vim-me, vim-me e (e)s(t)ou feliz!

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

CARAMELO

O caramelo é um rebuçado pegajoso que se cola muito aos dentes. É esse um dos seus principais inconvenientes. Se não lavarmos bem a boca depois de o mastigarmos, corremos o risco de produzir cáries e doenças gengivais irreversíveis.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

O MUNDO DO SILÊNCIO


Rever Le Monde du Silence, de Jacques-Yves Cousteau e Louis Malle, a esta distância de 50 e qualquer coisa anos, pode ser uma experiência fascinante. Curiosamente, uma das minhas cenas preferidas não se passa debaixo do mar nem é particularmente silenciosa. Trata-se daquele momento em que a tripulação do Calypso descansa, sob um calor tórrido, enquanto espera por terra à vista. Alguns dormem, outros banham-se em água fresca, um fuma cachimbo, outro lê, deitado numa espreguiçadeira, e há até um elemento da tripulação que toca violoncelo. Aquele momento de mero lazer é extraordinário, pois mostra-nos o que se pode fazer quando nada há para ser feito. Ontem, em conversa com um amigo, falávamos precisamente da televisão enquanto elemento aglutinador dos tempos livres. Recordávamos com nostalgia as nossas brincadeiras no rio, nos pomares, a jogar à bola, a brincar aos tropas, a caçar pardais, a experimentar o mundo. Depois lembrámo-nos de um episódio dos Simpsons, com uma cena bastante elucidativa de qualquer coisa que ainda não está tão bem explicada como possa parecer. A dada altura desse episódio há uma quebra no serviço televisivo e a população de Springfield sai toda para a rua, divertindo-se com as mais diversificadas ocupações; quando o serviço televisivo é reposto, as ruas ficam desertas, a população regressa em massa para os seus lares e senta-se a ver televisão. A televisão aqui deve ser considerada como símbolo da parafernália tecnológica que a maior parte das famílias do mundo dito desenvolvido tem hoje ao seu dispor dentro das suas casas. Bem sei que a noção de "qualidade de uma sociedade" é um pouco espúria, mas não resisto a aplicá-la neste sentido: creio que "a qualidade de uma sociedade" se reflecte muito na forma como as pessoas ocupam os seus tempos livres. Refiro-me à qualidade num sentido de maturidade, sociabilidade, civilidade, etc. Ora, não me parece que passar os tempos livres especado frente a uma televisão ou a um computador, a praticar a arte do zapping ou da navegação sem naufrágios, seja um caminho muito promissor. Esta questão preocupa-me por três razões especiais: sou pai de duas filhas, formador de muitos jovens, viciado em weblogs. Em qualquer um dos casos, o que me assusta é a forma como tantas e tantas vezes a realidade se subtrai ao que as tecnologias da informação, sejam elas quais forem, nos mostram. Passando as pessoas cada vez mais tempo dos seus tempos livres em ameno transe tecnológico, muita da tal qualidade de vida é colocada em cheque. Há alguns dados preocupantes sobre o tema: menor capacidade de concentração, maior conformismo, apaziguamento da curiosidade – provocada pela ideia de que se sabe tudo pelo simples facto de tudo ser dado a ver com a maior das facilidades -, indiferença, entre outros que podem resumir-se numa palavra: estupidificação. Por tudo isto vos digo, caros leitores-irmãos, larguem desde já os computadores, saiam de casa, vão ao café, falem com os vossos vizinhos, procurem um jardim, dêem um passeio na praia, vão brincar para junto de um rio, vão à pesca, libertem-se quanto antes deste inferno tecnológico se não querem ficar como eu. E longe de querer parecer o Padre António Vieira do Sermão de Santo António aos Peixes, permitam-me que vos lembre o essencial antes de virem com conversas para a caixa dos comentários: «Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam.» Por isso mesmo agora vos deixo, com o Jojo no coração, pois bem melhor faria se fosse pregar às criaturas do Monde du Silence.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

UM HOMEM, UM GUARDA-CHUVA, UMA CABEÇA

A OVNI aterrou nas livrarias portuguesas, tanto quanto possível, com esta colectânea de contos do argentino Fernando Sorrentino (n. 1942). Apresentado na nota biográfica introdutória como «mestre do conto», de Sorrentino conhecia-se na língua portuguesa, que eu saiba, apenas o conto que dá título à colectânea agora publicada, outrora aparecido na excelente revista Ficções, com tradução de Fernando Venâncio. Os dezoito contos que compõem Existe Um Homem Que Tem O Costume De Me Dar Com Um Guarda-Chuva Na Cabeça provêm de quatro livros do autor. Assim, para uma relação mais minuciosa temos quatro contos de Impérios y servidumbres (1972), mais quatro de El mejor de los mundos posibles (1976), nove de En defensa própria (1982) e um de El remédio para el rey ciego (1984). Estando já anunciada uma segunda colectânea a ser posteriormente editada pela mesma casa editorial, podemos dizer que, apesar de ser vasta a obra de Sorrentino, perspectiva-se um panorama simpático, em língua portuguesa, de uma produção iniciada em 1969 com o livro La regresión zoológica. As histórias deste autor possuem, desde logo, uma vantagem relativamente a muitas outras: são inocentes até prova em contrário. Cometem algumas transgressões, sobretudo quando traem a lei das probabilidades, optando por um registo tão absurdo quão inverosímil. Mas esse registo absurdo, que pode verificar-se por exemplo na ideia de um homem que persegue alguém para todo o lado, a toda a hora e a todo o instante, batendo-lhe com um chapéu-de-chuva na cabeça, não se pode dizer gratuito. Por isso lhe chamo vantagem, já que muitas vezes a short story resvala com facilidade numa certa gratuitidade estilística. Isso acontece quando a narrativa se torna escrava do remate, da moral, da punchline extraordinária, grotesca, surpreendente. No caso dos contos de Sorrentino, as situações absurdas, normalmente caracterizas pela introdução de um elemento anormal em situações normalíssimas, nunca chegam a ser desfeitas nem solucionadas. Elas dão antes azo a uma estranha conexão com aspectos particulares da normalidade, aqui entendida no sentido de lei, regra social, hábito, costume, justiça, valores. É essa conexão à normalidade, por via de um absurdo em tom de «e se», que leva a personagem do conto que dá título à colectânea a habituar-se de tal maneira à presença do homem que lhe bate na cabeça com o guarda-chuva que chega a angustiar-se «de pensar que, porventura quando mais necessitar dele, este homem se irá embora» (p. 13). Os melhores contos desta colectânea – acrescento ao já referido os contos O Espírito de Emulação, Fábula Edificante, o brevíssimo Mera Sugestão, Uma Cruzada Psicológica, Essência e Atributo, Em Legítima Defesa – vivem destas conexões. Aliás, em Uma Cruzada Psicológica é o próprio autor quem nos incita a levar à prática o que ele sabiamente joga com o leitor, ou seja, «colocar o examinando frente a situações inéditas e observar as suas reacções» (p. 103). É este jogo entre a situação inédita e a construção de uma plausibilidade o que se desfruta através da leitura dos contos de Sorrentino, escritos com um sentido de humor extraordinário e um préstimo lúdico que não dispensa a inquietação: «A cruzada psicológica obriga a certos desvelos (como todas as cruzadas), exige duros sacrifícios (como todas as cruzadas), implica ver-se envolvido em sérias dificuldades (como todas as cruzadas). Mas, que significam estes inconvenientes, comparados com a deleitosa observação das reacções que a cruzada psicológica suscita?» (p. 106)

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

AO REMETENTE

Um aluno a dormir em plena aula.
Um professor a morrer de inveja.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

A CIRCUNSTÂNCIA DA ÉTICA DA CIRCUNSTÂNCIA



Uma das vantagens das imagens de satélite e da fotografia aérea é permitir-nos uma perspectiva mais global de um certo fragmento da realidade. No entanto, esse fragmento, como bem sabemos, não se esgota na perspectiva global que dele tenhamos. Para o entendermos é fundamental chegarmos os olhos às suas particularidades. Teremos que recorrer, em última instância, a um microscópio – isto se pretendermos entender esse fragmento em toda a sua complexidade. O problema é tanto mais difícil quanto mais extenso for o objecto da nossa observação. No limite, para termos uma visão global da realidade teríamos que recorrer a engenhos ainda por inventar. A filosofia, que desde sempre procura ser uma tentativa de compreensão do mundo na sua totalidade, depara-se muitas vezes com este problema. Daí que a grande maioria dos filósofos faça sempre questão de sobrevalorizar a função crítica e problematizante da filosofia, relegando para segundo plano as eventuais respostas que esta ofereça em consequência das suas reflexões. Diversos filósofos escreveram obras imensas para concluírem a impossibilidade de uma resposta universal aos problemas que colocam, mostrando assim que a filosofia é sempre mais um esforço de compreensão do que de explicação. Tive um professor que falava também dos autores cujo discurso nos exigia permanentemente o recurso a um satélite para a compreensão das suas ideias. Entre esses autores, destacava-se, por exemplo, o alemão Karl-Otto Apel, autor de uns Estudos de Moral Moderna que começam logo assim: «A rigor, o título do presente trabalho deveria ser: “O jogo de linguagem transcendental da ilimitada comunidade de comunicação como condição de possibilidade das ciências sociais”.» Seria, está de ver, um título bem mais interessante e provocador. Mas Apel resolveu simplificar no título o que não simplificou na obra. Questionando-se sobre «a carência de uma ética universal, isto é, vinculadora para toda a sociedade humana», o filósofo procede a uma distinção que não pode deixar de nos inquietar: «Se, em vista das consequências, hoje possíveis, de acções humanas, distinguirmos entre uma microesfera (família, matrimónio, vizinhança), uma mesoesfera (patamar da política nacional) e uma macroesfera (destino da humanidade), então será facilmente demonstrável que as normas morais, actualmente eficazes entre todos os povos, ainda estão sempre predominantemente concentradas na esfera íntima (sobretudo na regulamentação das relações sexuais); já na mesoesfera da política nacional elas estão, em larga escala, reduzidas ao impulso arcaico do egoísmo grupal e da identificação grupal, enquanto as decisões propriamente políticas valem como “razão de estado” moralmente neutra. Mas, quando é atingida a macroesfera dos interesses humanos vitais, o cuidado por elas ainda parece estar confiado, primariamente, a relativamente poucos iniciados». Mas quem serão estes poucos iniciados? Como poderemos determiná-los na vastíssima manta da humanidade? Julgo que a parte mais considerável dos preceitos éticos e morais – termos que podem ser usados, como faz Peter Singer, indiferentemente – tem a sua origem numa necessidade básica: a da organização da convivência social. É na relação com o outro que o homem descobre o que é ou não moralmente aceitável, o que é ou não ético. Quando concluímos que não devemos matar o nosso semelhante, essa conclusão tem em vista a preservação de uma ordem social. Mas essa preservação aceita excepções: é moralmente aceitável matar alguém, por exemplo, em legítima defesa. O facto de aceitarmos esta excepção como moralmente aceitável torna, automaticamente, a ética dependente da circunstância. O mesmo se pode afirmar acerca de outros situações muito actuais: como vão os países desenvolvidos convencer os que estão em vias de desenvolvimento a não cometerem as mesmas asneiras ambientais que os primeiros cometeram podendo, assim, chegar ao nível económico a que chegaram? Não se torna algo imoral dizer a alguém que está a morrer de fome que não deve matar um animal e comê-lo porque esse animal tem direito à vida? Há circunstâncias que alteram, de facto, a nossa relação com as certezas éticas às quais chegamos através de uma panorâmica via satélite. Quando descemos à microesfera a nossa percepção sobre a tal macroesfera pode e deve-se transformar, sob pena de nos tornarmos fanáticos de uma luz que é sempre a dos poucos iniciados que ainda podem brincar com imagens de satélite e fotografias aéreas.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

A LÁGRIMA

É um clima agreste.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

ANSELMO

Anselm Kiefer

Quando era criança brincava muito com exércitos de plástico e a minha história favorita era a d’O Soldadinho de Chumbo, um conto que, vim a saber mais tarde, foi escrito pelo dinamarquês Hans Christian Andersen. Hoje estava a folhear um livro sobre a obra de Kiefer, não o Sutherland, mas o Anselm, e, tocado por uma forte nostalgia desses tempos, parei algum tempo a olhar um trabalho intitulado Bilderstreit. Trata-se, basicamente, de uma fotografia de dois blindados a apontarem para uma fortificação em forma de paleta. A fotografia tem também algumas inscrições em alemão, escritas a gouache e caneta. É um trabalho, na linha de outros de Anselm Kiefer, eivado de ironia, onde se mistura a iconografia da Segunda Guerra Mundial com formas associadas à criação artística, gerando, assim, uma metáfora representativa da sua própria atitude enquanto artista. Penso nisto a propósito de uma afirmação de Daniel Inneraritu: «ou os artistas compreendem a sua função social e a sua necessidade de serem compreendidos eles mesmos ou nada feito». Isto é muito polémico nos tempos que correm, pois, apesar de desde sempre os artistas questionarem a sua função no mundo e a própria arte nas suas obras, não lhes cabe compreenderem a sua função social como se fossem políticos, padres, médicos, fiscais das finanças, banqueiros ou taxistas. Não nego aos artistas uma função social qualquer, embora não esteja certo de qual, mas duvido que lhes caiba o esforço de compreensão dessa função. Quanto a mim, a função social dos artistas é produzirem arte. Não perspectivo outra função social mais compreensível, legítima e, por que não dizê-lo, louvável que essa.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

A VIRGEM VIOLADA

Sempre me intrigou a aversão dos filósofos ao dinheiro, como se dinheiro e filosofia fossem realidades incompatíveis. Desde muito cedo que a questão se colocou desta maneira: a filosofia é amor ao saber; logo, tirar lucro da mesma reduz o filósofo à condição de prostituta; isto porque só as prostitutas retiram lucro do amor. Penso não existir raciocínio mais anti-filosófico que este, dado o preconceito que revela - e a filosofia só faz sentido quando traz na mira todo o tipo de preconceitos. Na verdade, as prostitutas não retiram lucro senão do sexo. O amor é uma coisa completamente diferente. O que eu penso é que temos cada vez mais gente para quem o saber se apresenta como algo desnecessário, sendo muito poucos os que verdadeiramente o amam. Isto cria-nos um paradoxo, pois à legalização da “prostituição” dever-se-ia seguir a sua quase extinção. Porém, não consta que o negócio vá correndo assim tão mal. Se no mundo em que vivemos até os filhos se decidem pela despesa, o que pensar do saber? Tende a ser visto como um luxo, digamos assim, para prostitutas finas. É deste modo que as pessoas se relacionam com o saber. Duvido que, além dos filósofos e mais meia dúzia de tontos, a relação dos homens com o saber tenha alguma vez sido diferente. Sempre foi uma relação muito semelhante à de quem vai às putas. Quem tem dinheiro, frequenta as finas; quem não o tem, fica-se pela estrada. O resto é missa. Chego aqui depois de voltar a folhear o Discurso Sobre a Dignidade do Homem, de Giovanni Pico Della Mirandola, de onde relembro, evocando Pitágoras, «duas coisas que acima de tudo devemos evitar: urinarmos voltados para o sol e cortarmos as unhas durante o sacrifício». Ora digam se não andamos quase todos a fazer exactamente o contrário?

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

O MEU CINZEIRO AZUL


O Meu Cinzeiro Azul
Ilustrações de Cristóvão Crespo
Canto Escuro
2007

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

O SOM ATINGE O CIMO DAS MONTANHAS

Muito provavelmente, terminarei hoje o meu 2006 de leituras. Pelo menos no que a livros de poesia diz respeito. Fecho, como se costuma dizer, com chave de ouro. Primeiro porque se trata de um livro de uma nova editora, a OVNI, cuja existência, como já deu para perceber, muito me apraz saudar; depois porque o faço com a mais recente recolha de João Camilo (n. 1943), autor de uma obra considerável, com ramificações pela ficção, teatro, ensaio e poesia. O seu primeiro livro de poesia, Os Filmes Coloridos, apareceu em 1978, embora do mesmo autor prefira destacar um extenso volume editado, fez dez anos no ano que ora finda, pelas Edições Fenda. Refiro-me a Nunca Mais se Apagam as Imagens. Importa também referir que já este ano João Camilo havia reeditado Retrato Breve de J.B. (Fenda), ficção originalmente publicada em 1975, e um outro volume de poemas, Elogio do Silêncio, com a chancela da Casa do Sul. As coordenadas da poesia de João Camilo há muito foram traçadas. Quem nunca se tiver perdido no seu universo não deixará de se espantar, desde logo, com um natural convívio entre prosa e verso que dá forma aos seus textos, ligados por um impulso narrativo cuja matriz dificilmente poderá ser determinada. Quer em prosa, quer em verso, estes textos colocam o leitor numa espécie de limbo onde a realidade se cruza com a ficção, originando momentos poéticos que são também reflexões filosóficas, instantâneos da vida, retratos do quotidiano, reminiscências da infância, mapas sentimentais, testemunhos situacionistas de um tempo confuso. Num dos últimos textos deste O Som Atinge O Cimo das Montanhas, o poeta questiona-se sobre o que possa ser uma filosofia de vida, para, logo de seguida, nos colocar uma questão que, de certa forma, define o seu labor poético: «Poeta do instante, aparentemente, mas será a poesia uma vocação ou uma carreira política?» (pp. 98-99) São estas as dúvidas que alicerçam a escrita de João Camilo, como se a mesma fosse um impulso irresistível, inexplicável, que, absurdamente, procura algum sentido para o que, à partida, já é sabido não ter sentido algum. O mesmo texto terminará deste modo: «Que tédio. Que confusão. Que tempo inútil» (p. 99). Seja qual for a temática, é esse tédio, essa confusão, essa sensação de inutilidade o que atravessa a poesia deste autor. As interrogações sucedem-se umas às outras, sobretudo quando o tema é a própria poesia. Mas também quando vêm à tona «a materialidade insuportável / do real: violência, luta pelo poder e pela fama, escravidão» (p. 23), «a condição humana» (p. 29), «os / fantasmas dos desaparecidos» (p. 43), «a nostalgia da infância na aldeia» (p. 77), etc. Solidão, melancolia e tédio como que infectam as palavras, estendendo-se pelos textos onde o autor busca um certo repouso, uma pausa, uma suspensão da dor, ainda que à poesia não se reconheçam poderes curativos, pois: «A poesia é apenas uma forma de respiração e de sobrevivência» (p. 95). A questão é: nada mais existirá para lá dessa respiração, dessa necessidade de sobrevivência? A quem busque um sentido para a vida, pode a poesia desbravar caminho. No denso mato das nossas dúvidas, a poesia pode surdir como uma espécie de logradouro onde montamos a tenda, descansamos os músculos, recuperamos forças. No entanto, nenhuma verdade a poesia encerra. Há aqueles a quem basta respirar e sobreviver, aquietam-se no mato desbravado, traçam as suas fronteiras, ali ficam para o resto da vida. Mas há os outros, mais inquietos, porventura desesperados, nómadas, que não descansam enquanto não atingirem o fio do horizonte, tal como «o som atinge o cimo das montanhas». Não sei de que estirpe será o poeta João Camilo, mas desconfio que, no íntimo, não seja dos primeiros. Pois ele sabe e no-lo revela: «A poesia não fará brilhar / como oiro as cinzas que se acumularam / no túmulo da nossa biografia» (p. 58).

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

INTROUDÇÃO À FILOSOFIA POLÍTICA

- Olha filha, o pior português de sempre.
- Quem é, papá?
- É o Salazar, filha. A esse podes chamar todos os nomes que tu quiseres.
- Mas gaja não...

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

ROMANCE DA TRAIÇÃO

I
Um homem caminha na companhia do seu cão-mais-fiel. O cão vê um osso. O cão é atropelado junto à Praia do Osso. Fica com os ossos à mostra e rói-se todo.

II
O homem enterra o seu cão-mais-fiel. Volta para a mulher. Quando chega ao pé da mulher, o homem constata que ela o trocou por um cão-mais-fiel do que o homem. O homem rói-se de inveja. A inveja é o osso preferido do homem-cão.

III
O homem-cão, à procura de algum consolo, ladra um poema de O’Neill. O’Neill julga isso muito estranho e escreve a «Poesia-Cão». A mulher do homem-cão apaixona-se por O’Neill e trai o seu cão-mais-fiel.

IV
O cão-mais-fiel da mulher atira-se, por ciúmes e vingança, ao homem-cão. Mantêm uma relação gay. A mulher do homem-cão tem com O’Neill um filho que ronca. O cão-mais-fiel diz que esse filho é um porcão.

V
O’Neill, desesperado, escreve poemas sobre a vida. Liga-se tanto à poesia que acaba por negligenciar a mulher. A mulher-negligenciada separa-se de O’Neill, volta para a casa dos pais e entrega o filho porcão aos cuidados da Pocilga Pia.

SONO

O sono levantou-se da cama.
Matilde (3 anos)

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

JUVENTUDE EM MARCHA

Juventude em Marcha
de Pedro Costa

Esperei até hoje pelo meu filme do ano, ou lá o que isso seja, mas também por um desses filmes que fará parte do inventário essencial de uma vida. Tudo o que eu diga deve ser considerado suspeito, convencido que estou, desde O Sangue (1989), da genialidade de Pedro Costa (n. 1958). Juventude em Marcha é uma obra única, com uma ligação estética e ética a obras precedentes do mesmo autor: Ossos (1997), No Quarto de Vanda (2000). O personagem central, desta feita, é o pai de Vanda, um tal de Ventura a quem querem roubar a identidade que resta, atirando-o para uma casa nova onde terá que pagar água, luz e gás. Por onde quer que passe, Ventura verá sempre os vestígios da sua presença apagados. Dos pés ao rosto, apagam-lhe as impressões, a vida, os lugares. Restam as memórias de amigos perdidos, cartas nunca enviadas, fantasmas na memória de um homem velho, as nódoas. Restam as histórias para contar aos filhos e aos netos. Restam os dramas de uma vida na companhia dos mortos. Todas as personagens têm as suas histórias, mais ou menos caricatas, mais ou menos trágicas. Vanda conta como correu o parto da sua filha. A plateia ri. Vanda remata qualquer coisa do género: «Coitadinha, nunca mais me hei-de esquecer de ela a ressacar, como a mãe, ali aos saltos no berço». A plateia ajeita-se nos lugares, pressente-se algum desconforto na sala. Durante a projecção paira sempre esta percepção de um certo desconforto, de ora quem ri para, logo de seguida, estancar num cruel retrato da miséria. E como é bela esta forma de filmar a miséria! Uma miséria a rebentar de poesia, humana, com as Fontainhas em contraponto ao novo bairro social. Não sei se quem olhe o contraste sentirá o mesmo que eu: o bairro social parece-me sempre mais inóspito e sujo do que as Fontainhas, porque aqui ainda resta um pouco da identidade comunitária que no bairro novo parece desaparecer por completo. No bairro novo Ventura parece desapiedado, desintegrado, já só uma sombra de si próprio, ainda que para lá vá arrastando os seus fantasmas. Mas o que mais me impressionou em Juventude em Marcha foi o enquadramento das personagens, a forma como se nos apresentam em retratos de uma intimidade que transpira, ao mesmo tempo e na mesma medida, tristeza, melancolia, solidão e absurdo. Há uma nuvem de absurdo a pairar sobre todas as histórias contadas durante o filme, sobre todas as cenas, um absurdo existencial que nos coloca perante um olhar trágico, no sentido que os gregos lhe davam. Não vislumbro nesse olhar qualquer romantismo, sendo-me ali mais evidentes as marcas de um destino desgraçado, de uma fatalidade identitária punida com o exílio social. São as marcas de uma condenação cultural que me deixa resignado, porque sem grande esperança na nova vida que se avizinha. Tenho lido por aí ser este um filme de confidências. Soa-me bem. Sobretudo se alargarmos as confidências ao estranho, misterioso e fantasmagórico campo da reinvenção de uma vida. Porque o que este filme faz, quanto a mim, é reinventar um desventurado Ventura, restituindo a poesia onde, porventura, poucos dariam por ela. Só um olhar como o de Pedro Costa para no-la oferecer deste modo tão convincente.

domingo, 24 de dezembro de 2006

REVÓLVER

Se bem sei, Revólver é o terceiro livro de poemas de Rui Lage (n. 1975), depois de Antigo e Primeiro (2002) e Berçário (2004), todos publicados na colecção Uma Existência de Papel, das Quasi Edições. Não li o primeiro, mas lembro-me de ter escrito sobre o segundo: «estamos num campo afectivo que seduz pela forma como arrisca na irredutibilidade da memória a uma mera descrição do passado». Devo começar por dizer que se tinha apreciado o livro anterior, muito mais me impressionou o volume agora publicado. Não sei se é justo falarmos numa inflexão de discurso, pois aquele campo afectivo e um modo muito próprio de tratar a memória, feitos notar a propósito de Berçário, permanecem nos poemas deste Revólver. O que sucede é que nos quatro conjuntos que compõem esta colectânea encontramos uma boa dúzia de poemas com uma força, uma soltura e uma dinâmica argumentativa que escapava completamente aos poemas anteriores. Logo na primeira parte, intitulada Licença de porte de arma, a temática religiosa é abordada com um desassombro inquietante. Poemas como I.N.R.I., O fantasma de Nietzsche aparece no meu quarto e fala, Subsídios para uma Poética da Ciência e Deus na oficina, são, quanto a mim, do melhor que se publicou recentemente na poesia portuguesa. Rui Lage dinamita todos os preconceitos e estereótipos religiosos, sem negar uma muito íntima vivência da religiosidade, ao mesmo tempo que nos confronta com aquilo a que Paul K. Feyerabend chamou, noutro contexto, a ditadura fascista da ciência, uma ditadura que impõe modelos de observação e de explicação do mundo auto-proclamados de verdade mas que, no fundo, não passam muitas vezes de um rol de futilidades a disfarçarem o único facto evidente da vida: não temos solução senão conformarmo-nos com a insolubilidade das nossas dúvidas, amanharmo-nos nas coisas boas de vivermos, no que ainda nos reste de belo, natural e salvífico, aprendendo a viver com a inquietação e o desassossego das horas. Apetecia citar todos esses poemas, de tão coerentes me parecerem no seu conjunto. Opto pela parte final de Deus na oficina: «Resta-nos, irmãos, / esperar que a biotecnologia / nos possa salvar a alma, / essa coisa fora de moda, / quem sabe se feita / de proteínas / ou de informação alojada / no córtex parietal superior, // ou que num obscuro laboratório, / algum obscuro sábio, / com mulher, filhos / e contas para pagar, / comunique ao mundo / que decifrou enfim o pensamento de deus, / e assevere que não é assim tão complicado / ou transcendente, / mais valendo por isso irmos todos dormir / sobre o assunto // (porque amanhã é dia de trabalho)» (p. 32). É este cruzamento da ironia com o fulgor da reflexão o que faltava, ou pelo menos estava muito mais disfarçado, nos poemas anteriores do autor. Aqui deparamo-nos com todos os fantasmas do quotidiano, da vida citadina – no caso a cidade do Porto -, do absurdo existencial e da incapacidade perante a deterioração do país, fulgurantemente expressados sob a luz desse cruzamento, como se os poemas fossem balas disparadas contra o mal de vivre. Por vezes, em momentos menos felizes – como no poema O País à porta – cede-se a um ou outro lugar-comum: «país que secretamente não vota / para não se maçar», «país com mais que fazer / (futebol para ver / e mato para queimar)»… Mas que dizer do lugar-comum quando ele nos bate com a evidência de uma verdade insofismável? Com este livro, Rui Lage inclina-se para um exame do mundo e do país onde vive, contribuindo, com um senso irónico e uma preocupação política sincera, para um dos melhores momentos da poesia portuguesa contemporânea.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

O CARTEIRO

O Carteiro de Pablo Neruda
de Michael Radford

Andava há muito tempo para escrever qualquer coisa sobre O Carteiro de Pablo Neruda, talvez desde que aqui cheguei. Fui adiando, adiando, adiando, até que soube do desaparecimento de Philippe Noiret, o actor que interpreta o Neruda do filme. Talvez não passe de mera coincidência, alinhavar agora, pouco depois da notícia da morte de Noiret, algumas palavras sobre um filme que comemorou 12 anos neste 2006 que ora finda. A verdade é que há coincidências embaraçosas, porque nos lembram ser a morte, essa porta aberta ao esquecimento, quase sempre a maior motivação da memória. E depois, ocupamos tanto do nosso tempo a pensar nos filmes que nos inquietam e nos intrigam que, por vezes, esquecemo-nos daqueles que muito simplesmente nos comovem. Il Postino é uma dessas raras experiências cinematográficas cuja magia reside no dom de nos comover, independentemente das circunstâncias íntimas que nos façam companhia nos momentos de revisitiação. Vi-o no cinema, como milhares de portugueses, já uns meses depois de se ter tornado num inexplicável e surpreendente fenómeno de bilheteira. Lembro-me de ter saído da sala com uma sensação de leveza apenas explicável pela noção de que havia aprendido algo, de que havia crescido mais um pouco por dentro e que isso só fora possível porque o que acabara de presenciar tocara-me nesse lugar mais íntimo da sensibilidade, nesse lugar sem marcação de onde vem toda a poesia, esse lugar a que gosto de chamar respiração. Há obras que nos ajudam, sem dúvida, a respirar melhor. O Carteiro de Pablo Neruda é uma delas. Realizado por Michael Radford, adapta a novela Ardiente Paciência de Antonio Skarmeta. O argumento desenvolve-se em torno da relação entre um humilde carteiro de uma ilha siciliana e o poeta Pablo Neruda que para aí vai viver, quando se encontrava no exílio por razões políticas. Essa relação despoletará no carteiro o gosto pela poesia, pelas metáforas, sobretudo por se convencer do poder encantatório das metáforas junto das mulheres. Pablo Neruda, poeta do amor, poeta do povo, poeta. Poeta do povo, demasiado ocupado consigo próprio e com a sua poesia; poeta do amor, especialmente apreciado pelas mulheres. É à sua poesia, às suas metáforas, que Mario, o carteiro, recorre quando pretende enfeitiçar a sua amada Beatriz. E consegue. Casam, honrados pela presença do poeta chileno como testemunha do matrimónio. Entretanto Neruda regressa ao Chile e Mario fica enclausurado na ilha de onde nunca saíra, fica e aguarda pacientemente notícias do seu grande amigo Pablo Neruda, notícias que tardam em chegar, notícias que se esvaem no esquecimento. Fiel ao poeta, mais que o poeta o fora a si, Mario converte-se ao comunismo, acabando por morrer numa manifestação onde leria, assim tivesse sido possível, um poema em honra do seu amigo ausente. É esse poema, esse poema do carteiro Mario, aquele que nunca chegamos a escutar, é esse o poema que mais importa neste filme. Ao pé desse poema silenciado pela morte toda a poesia de Neruda é mero adereço, porque esse poema é o poema da simplicidade, é o poema da fidelidade, é o poema da amizade, é o poema da ausência. É, talvez, o poema das coisas belas que Mario aprendeu a ver no ostracismo da sua ilha, as ondas do mar, o vento nas escarpas, as moitas, o silêncio de um imenso céu estrelado, as redes tristes de seu pai, pescador, e Beatriz. Sobretudo Beatriz, metáfora feita carne, feita corpo que não se explica, beleza inexplicável, como a poesia que explicá-la seria uma traição. Ao descobrir a poesia, Mario descobre também a beleza do mundo que o circunda, descobre-o com o espanto de quem vê pela primeira vez o mundo à sua volta. Massimo Troisi, o actor italiano que interpreta o carteiro, faleceu antes do filme estrear. Foi este o seu último fôlego, sereno, calmo, paciente, misteriosamente belo. Noiret junta-se-lhe agora, passados 12 anos. Que o esquecimento lhes seja tão leve quanto a poesia que nos proporcionaram neste filme.

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

DIÁRIO ÍNTIMO

Duvido que existam muitos leitores de poesia da minha geração interessados neste Diário Íntimo, de Luís Amaro (n. 1923). Provavelmente estarão mais inclinados para o neo-realismo depurado de Carlos de Oliveira (n. 1921 – m. 1981), para o surrealismo de Mário Cesariny (n. 1923 – m. 2006), para a ironia certeira de Alexandre O’Neill (n. 1924 – m. 1986) ou para a interminável ontologia de António Ramos Rosa (n. 1924), isto só para mencionar quatro autores contemporâneos de Luís Amaro, aqui muito cindidos aos chavões que lhes são normalmente associados. Na verdade, se quisermos entender esta poesia teremos de pensar em outros nomes com a qual ela mantém uma clara e assumida continuidade: de António Nobre (n. 1867 – m. 1900) a Fernando Pessoa (n. 1888 – m. 1935), passando, inevitavelmente, por Teixeira de Pascoaes (n. 1877 – m. 1952). Nos poemas deste Diário Íntimo encontramos a mesma inquietação que enforma os versos dessa tríade poética, a mesma preocupação com o sentido da vida, o mesmo carácter intimista, a mesma fidelidade ao ritmo e à musicalidade das palavras. Não admira que, em carta reproduzida na marginália final, Teixeira de Pascoaes declare: «É da melhor Poesia moderna! E, sendo moderna, não ofende certas leis imutáveis da Poesia, isto é, o que nela é música. E poesia sem música o diabo que a leia! Poesia ruidosa é uma horrenda caricatura dessa Deusa!» (p. 137) Nunca uma marginália fez tanto sentido numa obra antológica, sabida e reconhecida que é a dedicação do autor de Dádiva (1949) – seu único livro de poemas – ao estudo da literatura portuguesa do século XX. Essa dedicação é comprovada pela gratidão manifesta nos testemunhos epistolares agora revelados. Casos, entre outros, de Sebastião da Gama, Jorge de Sena, Júlio Dantas, Jacinto do Prado Coelho, Irene Lisboa, Natércia Freire, Miguel Torga, Agostinho da Silva, Vitorino Nemésio. Diga-se, aliás, que todo este livro é uma mostra de gratidão, pois trata-se de uma excepcionalíssima reedição levada a cabo pela &etc, editora avessa a reedições e homenagens. Albano Nogueira, num prefácio breve mas esclarecedor, fala-nos, a propósito desta poesia, «num desbobinar sóbrio, discreto, quase linear, (…) concreto mas envolvente, caloroso e persuasivo.» Do livro Dádiva, recolha de poemas escritos entre 1941-49, salientarei um lirismo melancólico, como disse inquietado pela busca de um sentido da vida, onde sonhos descambam em desilusões, à esperança se sobrepõe a dúvida desencantada, a luz das estrelas é ameaçada por uma sombra que vem de longe. No entanto, a poesia de Luís Amaro não é de excessos. Com uma sobriedade que, por vezes, pode desmoralizar o leitor menos precavido, ela propõe-nos todo um Programa: «Quando vier a tristeza, / faz que ela tenha uma grandeza. // Quando vier a dor, / faz que ela seja bela como o amor. // Quando vier a rara alegria, / faz que ela seja pura como a luz do dia. // Quando vier a noite, / mansa, a envolver teu coração, / faz que ela traga ao erro o seu perdão» (p. 54). Esta simplicidade, este mesmo cuidado formal, não desaparece nos Outros Poemas (1940-75). Porém, nos poemas finais há uma maturidade que, em certa medida, suplanta a amargura inicial e a fragilidade das soluções programáticas, porque, entretanto, a melancolia tornou-se doce e a dor e a tristeza não são já só apenas o termo da dúvida mas também o princípio de uma esperança renovada: «A dor, amordaçando, purifica: / que ela te dê no sangue o novo alento / para outros voos de que sairás vencido / (mas entretanto vives…)…» (p. 116) Quase todos os poemas deste livro trazem dedicatórias, sendo alguns deles um oferecimento aos mestres: Raul Brandão, Teixeira de Pascoaes, Augusto Frederico Schmidt, Sebastião da Gama, José Régio. Poesia assim afectuosa e de afectos, não pode passar despercebida.

JOELHO

O joelho também tem cotovelo.
Matilde (3 anos)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

PREFLORAÇÃO

Dado à estampa pelas Quasi Edições em Maio passado, Prefloração foi distinguido na segunda edição do Prémio Daniel Faria. Julgo ser este o primeiro livro de Catarina Nunes de Almeida (n. 1982). Pelo menos nada nos informa do contrário na nota biográfica incluída numa das badanas da obra em causa, isto apesar de ser mencionado um outro prémio obtido pela autora, o Prémio Internacional de Poesia Castello di Duino, assim como a participação em revistas literárias. Acerca de Catarina Nunes de Almeida sei apenas o que foi aparecendo na imprensa: licenciada em Língua e Cultura Portuguesa, amiga de Casimiro de Brito, fascinada pela poesia oriental. Este fascínio está patente, desde logo, nas epígrafes de Issa Kobayashi, Matsuo Bashô e Shiki que abrem cada um dos quatro breves conjuntos de poemas de Prefloração. Não sendo um livro de haikus, nota-se nestes poemas um esforço de transparência e de simplicidade que os aproxima do género. Mas essa aproximação é operada, sobretudo, numa relação mulher-natureza sempre mais evocada do que contemplada, até porque muitas vezes a simplicidade não fica senão aquém de mero esforço ou intenção. De certa forma, não é sequer justo falar numa relação mulher-natureza, já que o ponto a partir do qual se percepciona a realidade é um ponto de fusão entre o homem, em sentido lato, e o mundo natural. Esse ponto, lugar de encontro e de emergência de uma cosmogonia muito específica, resulta, no haiku, de um processo de abnegação, ao passo que nos poemas de Prefloração ele é ainda o Eu da autora sobrepondo-se ao resto. Não podemos falar na poesia oriental de uma cisão entre o sujeito poético e o seu objecto, já que ambos se unem numa mesma realidade e dessa união resulta o poema enquanto testemunho depurado de uma certa forma de observar o mundo, uma certa forma de o contemplar. O que importa aí é a luminosidade das palavras e não a sua sombra. Pretendo com isto afirmar que aquilo que fascina no haiku, ou seja, o registo da sensibilidade de uma contemplação sem pretensões reflexivas, acaba por ser atraiçoado nos poemas de Catarina Nunes de Almeida, pois esta não resiste à tentação de sobrecarregar o mundo com imagens e metáforas que vêm de dentro, apenas de dentro, do sujeito. Assim, mar e terra, animais e sementes, são apenas pretextos para a exposição de um Eu, de um Mim, omnipresente: «Quando me dispo dorme em mim / o odor dos frutos mastigados» (p. 35). O que temos aqui, então, é uma forma ocidental de olhar as mistificadas tradições poéticas do oriente. Se o que disso resulta é bom ou mau, parece-me sempre muito discutível. Prefiro chamar a atenção para alguns versos que me parecem mais conseguidos, versos que, sozinhos, resultariam, talvez, em melhores poemas: «…os campos que germinam nas entranhas das sementes / e a terra que não morre de parto / ainda que as flores nasçam siamesas» (p.16); «há um pessegueiro dentro do fruto / um pomar de pessegueiros neste abrigo / rasgado pelas luzes da cidade» (p. 32); «A erva onde todos se deitam e se deita em todos /o chão que nenhuma mão nenhuma primavera lava» (p. 56). É nestes instantâneos que a poesia de Catarina Nunes de Almeida se revela mais atraente e luminosa. Pena que na maioria dos poemas ressalte alguma ausência de sobriedade e de discrição, talvez por culpa de um ímpeto a ser superado com a maturidade, que acaba por nos deixar aquele sentimento de ainda haver muito a rasurar.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

QUARENTA ROMANCES DE CAVALARIA

Tentar decifrar um livro de poesia é quase sempre uma tarefa ingrata, dado o carácter indefinível do próprio discurso poético. O confronto com um livro de poemas exige, deste modo, uma vigilância que não tenha na sua origem a intenção de vigiar, ou seja, uma abertura e um desprendimento que permita ser a palavra poética a criar, por si só, os sentidos e os significados que tiver de criar no momento da leitura. Nunca se lê um livro de poesia da mesma maneira, assim como duas pessoas jamais repetirão a mesma leitura. Julgo, aliás, que é assim com todo o género literário, mas mais ainda com o poético. Acontece existirem livros cuja organização nos sugere uma ordem formal que escapa ao conteúdo, sobretudo se o conteúdo induzir impulsos, manifestar liberdades, ostentar, até, um certo descomprometimento com o leitor. Quarenta Romances de Cavalaria e Outros Poemas, de Frederico Mira George (n. 1962?), é um desses livros. Abre com uma dedicatória, seguida de epígrafe, a Herberto Helder, o que não admira, pois a este poeta vai Frederico Mira George buscar aquele fluxo de escrita que a tantos abespinha e a outros cativa. Muito distante, porém, do mestre em termos de sensibilidade poética, o autor de Quarenta Romances de Cavalaria prefere um registo mais provocador e irónico, por vezes tétrico e mesmo grotesco, diria que muito menos místico e muito mais surrealizante. Logo no primeiro de quatro livros, todos compostos por quarenta poemas, deparamos com duas noivas sentadas nos bancos de um jardim onde olham um revólver: «marta e ana amam o revólver / são noivas num jardim entrecruzando as pernas / como cinzentos brincos-de-princesa na praia» (p. 11). Seguem-se «agulhas que sabem a chouriço» (p. 12), «miríades de deuses que precisam das suas sotainas engomadas pa / ra celebrar orgias no olimpo» (p. 13), pernas ásperas, pés doridos, sangue, vómito e febre, «a cabeça a estalar / de agulhas» (p. 18), «nuvens em forma de ovo transbordando de pólen e azeite» (p. 26), chuvas de pregos e de martelos, a degradação do amor, é óbvio, o cansaço a tomar conta da paixão, o costume e a existência doméstica a derrearem o amor. As imagens irrompem dos versos de Frederico Mira George como uma encruzilhada de sentidos, criando um ambiente onde a força da respiração se pontua a si própria, uma encruzilhada avessa às convenções que armadilham, tantas vezes, a poesia. O que aqui temos é a experiência de um acto terrorista, por isso mesmo poético, onde as palavras saem estropiadas, partidas a meio, acopladas, soletradas, com a pontuação por vezes invertida, outras vezes ausente, em regime de ruptura com qualquer tipo de tratado acerca da arte de bem escrever. Atentemo-nos ao título: Quarenta Romances de Cavalaria e Outros Poemas. Uma breve pesquisa sobre o romance de cavalaria informa-nos que este surgiu na Idade Média, tendo como principais características a complexidade do enredo, por vezes próximo do fantástico, e o carácter simbólico. É esse simbolismo o que se retoma nestes poemas, poemas que também são romances, enredos, situações que emergem na palavra com a figura de uma teia. Em Metrónomo, o Livro Segundo, o poeta (con)centra-se no eu e lança-nos pistas: «por dentro do sangue as veias correm álgidas levando ao coração / uma leveza inteira / e é nesse percurso gélido / intrasanguíneo / que reside o sentido último do verso» (p. 62). Surgem, aqui e acolá, referências várias aos rituais católicos, misturadas com evocações da vida quotidiana, familiar, reflexos próximos de um erotismo insólito, muito ao jeito do que acontecia na poesia e nos filmes de Luis Buñuel. Há evocações várias, diálogos, referências: Évora, Godard, Verdes Anos, Hans Hesse, Satie, Bach, Cervantes, Fiama, Al Berto, etc. O que quer tudo isto dizer? Puzzle sempre por terminar é o poema, enquanto repositório das complexas redes de associações que nos enformam a memória. Os Quarenta Romances de Cavalaria propriamente ditos são o Livro Quarto deste puzzle, quarenta poemas em prosa, sem qualquer tipo de pontuação, para ler de um só fôlego: «…vivo num pequeno apartamento de duas assoalhadas mais casa de banho e cozinha nos arredores de lisboa tenho uma razoável colecção de selos e bilhetes de autocarro com números capicua e gostava que a minha vida pudesse terminar sem grandes sobressaltos pelo menos que não voltasse tudo para trás que não tivesse que me confrontar de novo com a peste dos romances de cavalaria…» (p. 186).

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

BOCA DO INFERNO

Boca do Inferno é a expressão pela qual ficou conhecido o poeta Gregório de Matos e Guerra, nascido na Baía de Todos os Santos em 1633. Ironia das ironias, de santo não tinha nada este descendente de portugueses que a determinada altura da vida resolveu entregar-se a todos os vícios possíveis de imaginar. Antes de viajar para Portugal com a intenção de estudar leis, frequentou um colégio de jesuítas. Já na pátria lusa, matricula-se na Universidade de Coimbra. Forma-se em Cânones no ano de 1661, o mesmo do casamento com D. Michaela de Andrade. Inicia uma auspiciosa carreira jurídica que o prenderá a Portugal durante trinta e dois anos. Entre os seus amigos destaca-se o portuense Tomás Pinto Brandão (n. 1664 – m. 1743), autor de um volume de versos em estilo satírico intitulado Pinto Renascido (1732). A vida dos dois amigos confundir-se-á de tal forma que ainda hoje permanece um mistério a verdadeira autoria da sátira Este é o Bom Governo de Portugal: «Os Ministros de Justiça / que nunca a fizeram direita, / porque a valia respeita / pela puta, ou por cobiça, / o Demónio assim lhe atiça / este fogo em seus ardores, / juiz e corregedores, / letrados e escrivães, / alcaides e tabeliães, / todos vestem de um saial. / Este é o bom governo de Portugal». Precisamente na companhia de Tomás Pinto Brandão, Gregório de Matos regressa ao Brasil, já depois de ter enviuvado, nomeado tesoureiro-mor da Sé baiana. Será rapidamente destituído de todos os cargos por recusar ordens superiores e o uso da batina. Inicia-se assim a outra carreira de Gregório de Matos, uma carreira que eu diria em tudo oposta à de magistrado. A falta de tento na pena e o confronto com os podres da sociedade em que vivia, podres esses bem seus conhecidos de perto, como que o impelem à denúncia, em estilo corrosivo e pornográfico, da vilania e cretinice, da mediocridade e pedantice da canalha de sua terra: «Brás, pastor inda donzelo / Querendo descabaçar-se, / Viu Betica a recrear-se, / Vinda ao prado de amarelo; / E tendo duro o pinguelo / Foi-lho metendo, já nu, / Fossando como um tatu. / Gritou Brites: inda bem, / que tudo sofre quem tem / Rachadura junto ao cu». Todas as frontarias saem arruinadas nos versos atiçados deste Gregório, sejam freiras ingénuas, sejam damas mui altas, sejam conselheiros hipócritas, governantes facínoras. A veia erótica das suas décimas – mais correcto seria dizer o músculo erótico – extravasará todas as fronteiras daquilo a que hoje se apelidaria de politicamente correcto: «Eu, na minha opinião, / Segundo o meu parecer, / Digo que não há foder / Senão cono de enchemão: / Porque um homem com sezão, / Inda sendo caralhudo, / Meterá colhões, e tudo, / E assim mostra a experiência / Que, do cono a excelência, / É ser bem grande e papudo». Novamente casado, com uma tal Maria dos Povos, entrega-se com gosto e afinco à boémia, à vagabundagem, à embriaguez. Recita os seus poemas na rua e nas tabernas, e, talvez seguindo o exemplo de Tomás Pinto Brandão, vende-os pela cidade a troco de polémicas várias. Denunciado à Inquisição em Lisboa, ameaçado de morte, vai deportado para Angola no ano de 1694. Morrerá um ano depois, já regressado ao Brasil, vítima de febres contraídas em África, no dia 26 de Novembro. Recordo hoje Gregório de Matos como se o tempo não tivesse passado, como se a mesmo falso puritanismo continuasse a reger, sob moldes diversos, a nossa vida de todos os dias. A propósito de quê esta onda censória que nos assola, porque assola, vinda de quem, lá do alto da sua sabedoria instalada, julga poder refrear a expressão, a liberdade, como se esta fosse coisa de hoje em dia? O medo, creio, é o da visibilidade, é o de estar mais próximo e disponível o eco da denúncia. Não podendo já deportar para Angola aquele que ousa apontar o dedo à ferida, não podendo esconjurar aquele que se arrisca na denúncia dos podres instalados, denigre-se e ameaça-se a voz até que ela recue ao silêncio. E é curioso, tão curioso, que sejam precisamente alguns dos que mais lutaram para que fosse possível dizer basta, quem agora vem brandir proibições, à luz de um temor que é o de se ver atingido pela ausência de rosto e, por isso, de controlo que esta rede para a qual saltámos implica. A esses a última décima de um Gregório, passados tantos séculos, 'inda à espera de ser expelido: «Fodamo-nos, minha vida, / Que estes são os meus intentos, / E deixemos cumprimentos / Que arto tendes, de comprida. / Eu sou da vossa medida / E, com proporção tão pouca, / Se este membro vos emboca / Creio que a ambos nos fica, / Por baixo crica com crica, / Por cima boca com boca».

- Gregório de Matos, Boca do Inferno, colecção Contramargem 15, & etc., 1982;
- Tomás Pinto Brandão, Vida e Morte de Tomás Pinto Brandão Escrita Por Ele Mesmo Semivivo – Este é o Bom Governo de Portugal, Publicações Europa-América, 1976.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

CONCETTI SPAZIALLI

As telas monocromáticas rasgadas, que Lucio Fontana produziu com a intenção de «aprofundar criticamente a própria noção de pintura», produzem em mim uma certa ambivalência: não sei se me revejo mais no monocromático ou no rasgão. Sei que o mundo não deve andar muito distante disto, de uma tela monocromática rasgada.

Estas coisas têm o dom de me deixar a mioleira em frangalhos. Era assim nos tempos do espanto provocado por um urinol, parece continuar a sê-lo. Interrogo-me sobre isto: o mundo não deve andar muito distante de uma tela monocromática rasgada. Se calhar sou eu a ver coisas, mas noto uma certa abnegação no acto de rasgar a cor. Gosto disso e convém-me muito, apesar das minhas tenras, ingénuas e inexperientes 32 primaveras. É curioso que a propósito destas provocações muita tinta tenha corrido, uma mais negra que outra. Esforço-me por pintar a minha passagem pelo mundo, tanto quanto me é possível, com as cores primárias de quem passa o tempo e brinca e respira. Verdade seja dita que não tenho outras cores à disposição, nem me esforço por tê-las. E mesmo que as quisesse, reconheço que as não mereceria. A minha mãezinha chama-me simplório, eu digo-lhe que a culpa é do pai, a mana concorda, a mulher dá-me carinhos. Apercebi-me cedo que isto do desassossego tem as suas compensações, mesmo saindo caro ao conforto. Resta-me o gosto pelo copo, de política e de catarro estou cheio, inclino-me para a pesca e para passeios pela serra. Reparo agora que estou para aqui num esforço tremendo a armar-me em engraçadinho e que não tem graça alguma pôr graça nas verdades: o mundo é definitivamente uma tela monocromática rasgada.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

ESTÓRIAS DOMÉSTICAS & OUTROS PROBLEMAS


Estórias Domésticas & Outros Problemas
OVNI
Dezembro de 2006

não tenho nada contra a poesia
mas é mais útil a limpeza a seco
Fernando Assis Pacheco