Um dia não são dias, disse Janeiro a Novembro. E dois dias? – perguntou Fevereiro.
quinta-feira, 26 de abril de 2007
segunda-feira, 23 de abril de 2007
OFÍCIO DIÁRIO
O meu primeiro contacto com a poesia de Torquato da Luz (n. 1943) deu-se há coisa de quinze anos, através de uma antologia organizada por Fiama Hasse Pais Brandão e Egito Gonçalves. Falo de Poesia 71, editada pela Editorial Inova, em Junho de 1972. O nome de Torquato da Luz era então, para mim, completamente desconhecido, pelo que não foi sem espanto que o encontrei nessa antologia ao lado de poetas como Alexandre O’Neill, Almada Negreiros, António Ramos Rosa, Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade, Herberto Hélder, João Miguel Fernandes Jorge, Mário Cesariny de Vasconcelos, Ruy Belo, Sophia de Mello Breyner, entre tantos outros. O mesmo espanto voltei a experimentar quando, em início de actividade blogueira, voltei a cruzar-me com esta poesia, desta feita, num weblog intitulado Ofício Diário. Foi com imenso agrado, pois então, que recebi em casa a colectânea, agora publicada pela Papiro Editora, onde Torquato coligiu alguns dos poemas que foi publicando no seu weblog. Em livro, quer queiramos quer não, a poesia respira de modo diferente, o que estará relacionado com as especificidades dos diversos suportes que dão guarida à palavra. Neste caso específico é importante sublinhar um esforço de reorganização da matéria dada, uma distribuição dos poemas que pouco deve ao ritmo com que foram sendo publicados no weblog. Não vindo os poemas datados, fui, por mera curiosidade, averiguar das datas de publicação on-line. Se não me enganei, o poema mais antigo data de 10 de Fevereiro de 2005 e aparece na página 67 do livro, enquanto o mais recente, de 4 de Novembro de 2006, surge na página 8. Isto, por si só, não quer dizer grande coisa, mas denota uma intenção de alinhar os poemas, de arrumá-los sob um outro critério que não seja o critério cronológico de quem escreve um diário por ofício. Há ainda a referir que alguns títulos foram mudados, por vezes de forma radical (o poema Sombras intitulava-se Fantasmas, o poema Sem Medo aparece agora como simplesmente Tu, O Tempo deu lugar ao Ano Novo, etc.), outras vezes com pequenas alterações (A Tua Voz aparece agora somente como Voz, o mesmo acontecendo ao poema Nome que outrora se intitulou O Teu Nome, etc.). Fico, no entanto, sem perceber se a repetição de um poema é intencional ou não. O poema Margem (p.10) reaparece na página 78 com o título Na Margem e duas ligeiras diferenças, uma no conteúdo de um verso outra meramente formal, que não alteram o sentido do poema. Distracção? Se sim, devo dizer que em nada sai beliscado o cômputo geral. Nos cerca de noventa poemas incluídos nesta colectânea vislumbramos uma voz plenamente amadurecida, segura de si, com versos bem delineados e opções indiferentes às tendências do seu tempo. Neste Ofício Diário há um processo de busca e autoconhecimento que balanceia entre o amor e o sentimento de naufrágio, um balanceamento que resulta numa poesia simples, sim, mas nada simplória, a poesia daquele que não sabendo os porquês nem os para quês da vida opta pelo caminho do coração, o caminho afectivo de quem se entrega a um amor que pode ser entendido de várias formas mas que não se explica senão por si mesmo. Esse tu amoroso ao qual se dirige o poeta, por vezes tem corpo feminino, outras tantas vezes confunde-se com as forças da natureza. A mensagem final é equilibradamente positiva, recusando, porém, qualquer tipo de positivismo. Mesmo quando se embrenham no mundo sombrio do medo, do abandono e da solidão, os poemas de Torquato da Luz como que nos convocam para o lado oposto da sombra, um lado de busca e de entrega. Os recursos são os mais limpos, o poema desenha-se com estranha facilidade, não há mágoa nem ressentimento, há antes o lirismo das anáforas a reforçar o esforço de uma procura, de uma busca incessante do eu próprio e de algo mais que se esvaiu no tempo, no esquecimento. Gostei principalmente dos poemas Cactos (p. 17), Algures (p. 50) e O Cortador de Presunto (p. 83), pelos remates irónicos e por um sentido de humor que, de certa maneira, acaba destoando do resto. Ainda assim, parece-me esta poesia uma proposta bastante válida.sexta-feira, 20 de abril de 2007
O GRANDE SILÊNCIO
O modo de vida preconizado pela Ordem dos Cartuxos foi pela primeira vez registado cinematograficamente neste O Grande Silêncio (2005). O facto, já de si fortíssimo do ponto de vista promocional, garantiu a Philip Gröning (n. 1959) a adesão pública e crítica, aguçada pela expectativa voyeurista sobre o que teria resultado de dezassete anos de espera para filmar o interior da Grande Chartreuse, mosteiro situado nos Alpes franceses. Gröning terá ali passado seis meses sob rígidas condições que proibiam entrevistas, comentários, música. Os 169 minutos de documentário retratam essa experiência de forma directa, sem artifícios técnicos de monta, com a austeridade imposta pelo próprio local. É impossível não nos deixarmos impressionar de alguma forma por aquele despojamento, um estado de reclusão voluntário que, supostamente, coloca os homens mais perto de Deus. O Grande Silêncio é apenas interrompido pela prática do canto gregoriano, excepcionalíssimos momentos de confraternização e convívio, leitura ritualista de passagens bíblicas e dogmas da Ordem. De resto, o realizador separa os afazeres diários, os rituais cumpridos à risca, com citações, por vezes repetidas, de textos que nos introduzem no género de fé subjacente a este itinerário da mente para Deus. Enclausurados como peixes num aquário, os frades do silêncio dedicam-se aos afazeres quotidianos: rapam o cabelo, distribuem refeições, alimentam animais, cortam lenha, tratam da horta, oram, costuram hábitos, tocam o sino, massajam-se, cumprem escrupulosamente os rituais aos quais juraram devoção, iniciam os noviços nos preceitos da Ordem. A rigidez e previsibilidade dos gestos contrasta com a dimensão do acaso e do inesperado que matiza a Natureza, tão bem filmada num outro documentário, há cinquenta anos, por Jacques-Yves Cousteau: O Mundo do Silêncio (1955). Enquanto o silêncio dos homens é um voto do que há de razão na fé, o silêncio das funduras marítimas é uma qualidade própria da Natureza. Entre o silêncio dos homens e o silêncio dos peixes há-de estar Deus algures, mesmo que a cada um de nós caiba mais esperar que ele nos encontre do que desesperar de encontrá-lo. A doutrina dirá o contrário, mas a doutrina, além de nunca ter sido boa conselheira, é péssimo exemplo. O historiador José Mattoso (n. 1933), monge beneditino durante vinte anos, explicava há dias numa entrevista publicada na revista Única, do jornal Expresso, que «o monaquismo, que começa com os eremitas do deserto no século IV, criou um movimento de ruptura com a sociedade. Se a pessoa que se recolhe ao isolamento concentra todas as suas energias e inteligência na procura de Deus de uma forma radical e acredita que Deus é aquele que preside à vida humana, Ele orientará e salvará a Humanidade. E portanto o que é bom para um poderá ser bom para todos, dado que o Bem alastra de uma maneira misteriosa». Continuando, dizia Mattoso: «No silêncio encontro a simplificação, a essência das coisas, a sua pureza e simplicidade». É esta fé no silêncio enquanto voz essencial que atrai no modo de vida mostrado pelo documentário de Philip Gröning, muito mais persuasivo que a eloquência dos catequistas e a tagarelice doutrinária dos pseudo-procuradores de Deus na Terra. Eu, que não acredito em Deus, sinto-me tentado à conversão, permitissem-me Internet no mosteiro e pândegas de fim-de-semana… Passe a ironia frouxa, o problema é que a existência de Deus, do meu ponto de vista, é tão provável quanto a possibilidade do silêncio. Mesmo que por este entendamos uma abdicação voluntária da própria natureza humana, o que, salvo raríssimas excepções, é só mais um modo de morrer como outro qualquer.
quinta-feira, 19 de abril de 2007
MARFIM
Apontou as magníficas peças e vangloriou-se do negócio, acabara de adquirir 1500 euros de marfim. Olhei as peças e apenas vislumbrei elefantes mortos.
PROSTITUTA
Gina estava contra a legalização da prostituição. Acima de tudo, reivindicava o seu direito à clandestinidade.
ESFORÇO
O poeta: Tudo é inútil, incluindo a própria vida.
O filósofo: Então por que não nos matamos?
O poeta: Porque a vida é tão inútil que não merece esse esforço.
O filósofo: Nesse caso, não será menor o esforço de nos matarmos ao esforço de nos vivermos?
quarta-feira, 18 de abril de 2007
EXCEPCIONAL
Gostava de se sentir excepcional. Então escrevia coisas que julgava excepcionais, mas coisas que apenas ela julgava excepcionais. Só isso a fazia sentir-se excepcional.
CASANOVA
Casanova foi exímio no jogo do berlinde, até se dar conta que a paixão era uma barroca tão funda que cabiam lá famílias inteiras. Ainda houve um berlinde que cresceu dentro do seu peito, descaído para o lado esquerdo. Só não cresceu com o berlinde quem continuou a jogá-lo.
ELITES
Trazem risotas íntimas encapadas de melancolia. Depois aplaudem velhos ódios, enquanto celebram a usura dos apupos. São cinzentos, indigentes e cheiram a gasolina. À mínima faísca, explodem.
terça-feira, 17 de abril de 2007
JESUS
Encavalitado no pai, Jesus atravessou o mar de uma ponta à outra. Quando chegou ao deserto, foi arrastado para o seu estômago. Assim ocorreu a morte do Senhor, de uma indigestão fatal provocada pela tendência para a autofagia.
DIÁLOGO
Ela: Ao contrário do que tu dizes, não é uma questão de culpa.
Ele: A questão é o que tu quiseres que seja a questão.
Ela: Não é essa a questão. Se reparares, eu nunca tenho razão.
Ele: Claro. Tens toda a razão, tu nunca tens razão.
Ele: A questão é o que tu quiseres que seja a questão.
Ela: Não é essa a questão. Se reparares, eu nunca tenho razão.
Ele: Claro. Tens toda a razão, tu nunca tens razão.
segunda-feira, 16 de abril de 2007
TOMATES
A mulher da praça tinha os melhores tomates do país. Seu filho, pastor de poemas, era deles que se alimentava, mas certo crítico carunchoso desengatou-lhe o lirismo quando descreveu em coluna seminal as influências oitocentistas. Hoje, sempre que passa na rua, atiram-lhe com os tomates da mãe.
NÚMEROS GRANDES
Os amigos dos amigos tinham as costas muita largas. Os meus pais vendem números XXL.
PÁGINAS AMARELAS
O escritor bem sucedido tinha uma agenda do tamanho das Páginas Amarelas. À primeira crise literária, viu-se com uma tal seca em mãos que não resistiu a socorrer-se dos contactos solicitando subsídios para diminuir as consequências calamitosas da tragédia. Escusado será dizer que o escritor morreu de sede, agarrado à sua agenda.
A MORTE MELANCÓLICA DO RAPAZ OSTRA
Tim Burton (n. 1958) dispensa grandes apresentações. Autor de uma cinematografia assombrosa, dentro de um conceito que sem mácula podemos classificar de fantástico, ele irmana nos seus filmes a moral dos contos góticos e de horror com a estranha beleza das personagens mais insólitas mas, ao mesmo tempo, inusitadamente sentimentais. Vejam-se, a título de exemplo, filmes como Eduardo Mãos-de-Tesoura (1990) e Charlie e a Fábrica de Chocolate (2005). Tendo iniciado a sua carreira como animador nos estúdios da Walt Disney, Tim Burton detém também um extraordinário talento para o desenho. Tal facto pode verificar-se em magníficos filmes de animação como O Estranho Mundo de Jack (1993) e A Noiva-Cadáver (2005). Quem estiver minimamente familiarizado com este universo, não poderá deixar de se encantar facilmente por um livro como A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias. Publicado recentemente pela Antígona, com tradução de Margarida Vale de Gato, este objecto singularíssimo foi originalmente editado em Novembro de 1997 pela Rob Weisbach Books. Trata-se de um conjunto de estórias em verso, acompanhadas por ilustrações que nos remetem constantemente para o universo cinematográfico do autor. Importa dizer que em nenhuma destas estórias a ilustração está presente como mero acompanhamento do texto, sendo frequentes os casos em que ambos funcionam como que em diálogo, complementando-se, interagindo de um modo bastante expressivo. Isso acontece sobretudo nos casos em que a estória é mínima, naqueles casos em que nos é legítimo falar de micronarrativa, ressalvando, porém, o facto de todas estas micronarrativas serem partidas em verso e organizadas em função de um ritmo marcado pela rima. É este mais um caso em que a criação poética se confunde com a estória, com a pequena narrativa, com o argumento projectado a partir de uma rigorosa economia de recursos verbais. Característica comum a todas elas é o aberrante enquanto matriz literária, um aberrante que tanto pode dissimular como hiperbolizar as dimensões absurdas do afecto. Em muitas destas estórias é o amor que está em causa, o amor entoado pela desmesura da paixão, o amor a um filho ilegítimo ou anormal, o amor no seio familiar. Mas este amor acaba frequentemente minado pela inclusão de elementos aberrantes, quase sempre os rebentos, como é o caso do pobre bebé ostra, com dez dedos nos pés e nas mãos e cabeça de ostra. Não vale a pena tecer grandes considerações psicanalíticas sobre estas personagens, apenas chamar a atenção para o facto de todas elas nos enviarem para uma infância matizada pelo imaginário de um qualquer dia das bruxas. Temos, assim, os rapazes ostra, nódoa, robô, pesticida e torresmo, as raparigas vodu, lixo, com olhos fora de série e com muitos olhos, entre outros dignos representantes duma memória infantil em autêntico estado de expurgação, uma memória que resulta mais de um processo de reconstrução com recorrências diversas à imaginação do que uma memória reproduzida com a probidade de quem se confessa. Caso assaz curioso é, também pelo que tem de humorístico, o de Judite: «Para evitar uma queixa-crime, / chamemos-lhe apenas Judite / (ou “a rapariga que snifa cola / e que tem sinusite”). // Ora isso não a faz feliz: / é que quando se assoa / fica com o kleenex colado ao nariz. (pp. 102-105)».domingo, 15 de abril de 2007
ANÓNIMO
Vítima anónima da PIDE, Manoel Bogalho (sic) sentia um certo orgulho ao constatar que o filho era agora uma das vítimas preferidas dos anónimos da blogolândia.
quinta-feira, 12 de abril de 2007
MIMO
De vez em quando, Quitéria vem à janela brindar os transeuntes com os mais desavergonhados mimos da língua portuguesa. Também é frequente, quando alguém passa por ela, ser brindado com um Zé à moda de Bordalo. Hoje, quando fui vazar o lixo, passei por Quitéria. Pus-me logo em posição de defesa, olhando para o lado a fingir que não a via. Ela deu-me as boas tardes. Eu senti-me discriminado.
quarta-feira, 11 de abril de 2007
ESTÁDIO DA DANAÇÃO
Quem sabe não fala, quem não sabe fala de mais. Disto resulta que qualquer dia há um terramoto e ninguém dará por nada.
MARÉ
Quando a maré vaza, os barcos ficam mais perto da terra. A luz das candeias, reflectida nas águas, fá-los parecerem pirilampos flutuantes. Não sei se pescam ou se são pecado.
EDUCAÇÃO
O professor optimista entrou na sala, olhou para os alunos, cumprimentou-os, recebendo deles a mais taciturna das indiferenças. Encheu-se de entusiasmo e pensou que aquele silêncio atroz era um excelente sintoma do trabalho que tinha pela frente. Em termos de educação, estava tudo por fazer.
PAISAGEM
Aroldo Freyre passava o tempo metido em casa a pintar todo o tipo de objectos domésticos. Os críticos diziam ser mestre em naturezas mortas, mas Aroldo julgava-se antes um exímio paisagista.
terça-feira, 10 de abril de 2007
REPÓRTER
O repórter: A senhora alguma vez viu uma coisa assim?
O povo: Olhe, eu tenho vai para cima de 70 anos, moro aqui há mais de 60, o meu marido, que Deus nosso Senhor o tenha no céu, nasceu aqui, aqui criámos três filhos, e bem criados, um deles é advogado na capital, o outro emigrou para a França e o terceiro já tem um curso que eu agora não lhe sei dizer o que é, uma coisa assim estrangeira que serve para fazer anúncios na televisão, todos eles já me deram netinhos, a mais velhinha ainda agora acabou o curso de enfermeira em Coimbra, tenho por aqui amanhado terras que o meu marido, que Deus nosso Senhor o tenha lá no céu, me deixou, vinha, pomar e pinhal, e posso garantir-lhe, por alma de todos os meus filhos e do meu marido que Deus nosso Senhor o tenha lá no céu, que nunca, mas mesmo nunca os meus olhos viram uma coisa assim!
O povo: Olhe, eu tenho vai para cima de 70 anos, moro aqui há mais de 60, o meu marido, que Deus nosso Senhor o tenha no céu, nasceu aqui, aqui criámos três filhos, e bem criados, um deles é advogado na capital, o outro emigrou para a França e o terceiro já tem um curso que eu agora não lhe sei dizer o que é, uma coisa assim estrangeira que serve para fazer anúncios na televisão, todos eles já me deram netinhos, a mais velhinha ainda agora acabou o curso de enfermeira em Coimbra, tenho por aqui amanhado terras que o meu marido, que Deus nosso Senhor o tenha lá no céu, me deixou, vinha, pomar e pinhal, e posso garantir-lhe, por alma de todos os meus filhos e do meu marido que Deus nosso Senhor o tenha lá no céu, que nunca, mas mesmo nunca os meus olhos viram uma coisa assim!
CONCORRENTE
Krzysztof Kieslowski, Censura, Cobalto, Monarquia, Verão. A solução era óbvia, mas a concorrente respondeu em branco.
PORTAGEM
A menina da portagem arranjou o cabelo, pintou as unhas de vermelho e sorriu antes de desejar uma boa viagem. O utente não pagou qualquer taxa adicional pela clara melhoria na qualidade do serviço.
SKINHEADS
Numa manifestação internacional de nacionalistas, os skinheads germânicos entraram em conflito com os correligionários lusitanos. Entre ambos, os cabeças rapadas francófonos, liderados por dois indivíduos de tez negra, assaltaram o púlpito da discórdia gritando alto e em bom som que não podiam concordar com os nacionalistas lusitanos quanto à reclamação de Pátria Cimeira. Nesta matéria, os nacionalistas lusitanos lograram o singelo apoio dos nacionalistas al-garvios, última das colónias do império português, acabando por ser atribuído aos germânicos o galardão pelo qual tanto lutaram ao longo da história.
segunda-feira, 9 de abril de 2007
BARBA AZUL
Com o tempo, as barbas do Barba Azul ficaram grisalhas. Ganha a vida numa grande superfície comercial, mascarado de Pai Natal.
FINANÇAS
Na repartição de Finanças, uma utente queixava-se do sistema. A funcionária queixava-se dos utentes que estão sempre a queixar-se do sistema. Só o sistema não tinha queixas a declarar.
SANGUE AZUL
Quando cortou os pulsos, ao verificar que o seu sangue era tão rubro quanto o da plebe, a princesa sentiu um misto de alívio e de arrependimento.
SR PIRES
Um homem de apelido Pires aproximou-se do balcão de uma pastelaria e pediu um caracol. A empregada perguntou-lhe: «quer que o embrulhe ou é para comer já?» O homem respondeu-lhe: «meta num papel.» A empregada insistiu: «sim, mas quer que o embrulhe ou é para comer já?» O homem voltou a responder à empregada: «meta aí num papel.» A empregada puxou de um guardanapo e colocou o caracol, com o guardanapo, num pires. O homem pagou, pegou no caracol com o guardanapo e sentou-se numa mesa da pastelaria a degustar o bolo descansadamente. Entretanto, alguém entrou na pastelaria e perguntou pelo Sr. Pires. Este, não querendo ser interrompido, apontou calmamente na direcção do pires que ficara ao balcão e disse: «O Sr. Pires ficou ao balcão.»
CORRER
Certa vez tentei correr à velocidade do vento. Caí fatigado na terra, parados os dias, tudo stop. Resfolegava que nem um cavalo açoitado e nenhum ar me satisfazia os pulmões. Desmaiei. Quando acordei já não havia vento, nem tempo. Era tudo um stop muito parado, estático, como numa fotografia que uma vez me mostraram da terra que alimenta os mortos.
REVOLUÇÃO
Havia um coreto de papaias no cesto da fruta. As maçãs revoltaram-se, uniram-se às laranjas e às peras. Juntos, trataram de recolher gomos e caroços contra as papaias. As papaias, vaidosas e intumescidas, não quiseram fazer caso. Facilmente enjeitariam todos os frutos secos para levarem a cabo a batalha final. Traficaram influências junto das bananas, dos ananases, das mangas e dos abacaxis. Não foi difícil às papaias maquinar o sistema, para, chegada a hora da salada, darem lugar às peras e às laranjas e às maçãs que, com agrado e tempero, aceitaram, curvadas, o reconhecimento. Tomada a posse, foi elogiado aos frutos nativos a coragem e o respeito com que amanharam a revolta.
A ALEGRIA DE GOSTAR
Comecemos pela ideia: uma editora de audiolivros. Num país como o nosso uma ideia destas é não apenas uma prova de audácia como também um autêntico insulto, dê lá por onde der. Porquê um insulto? Porque num país como o nosso os livros são para fingir que se lêem e os CDs são para fingir que se ouvem, como tudo o resto que é sempre, ou quase, para fingir que se. À excepção deste insulto, tão real quanto a existência de livros que se escutam e de CDs que se lêem, podemos apenas acoplar o deleite, que num tempo de neodepressivos com curso tirado no manancial genético das perturbações bipolares é quase outra forma de insultar quem faz questão de sofrer fechando os olhos a tudo o que possa ameaçar o sofrimento. Pois não somos nós um país de fadistas? País de carpideiras, mais ou menos mansas, apaixonados por coisas como a saudade e o nevoeiro, a melancolia e a sublimação do sacrifício, desde que seja light, Portugal tende a olhar de soslaio tudo o que seja mimo, paixão, deleite, deslumbramento, carinho, tudo o que seja A Alegria de Gostar. A essas coisas a gente dá o cunho de pirosas e lamechas, tão temerários que somos no lamaçal da desgraça. Digo eu que esta Boca, não sendo uma boca pintalgada pela voluptuosidade dos batons carmins, nem mesmo boca de lábios carnudos, é de uma sensualidade sem limites, porque nos dá o prazer das coisas simples, autênticas, por que não dizê-lo, belas, sem o sentimentalismo pobre nem o sensacionalismo enfatuado de tantas boas ideias que se vão por aí perdendo nos ditames da ronronice. Esta Boca é um risco com as medidas perfeitas do riso. O primeiro dente não poderia ter nascido mais a propósito, com a ajuda de uma das mais belas vozes portuguesas – a de Amélia Muge – que aqui se cala para dar base sonora à dicção não menos exímia de Changuito, quase sempre a solo mas "entremeado" com as introduções de Oriana Alves. Posso garantir que é um prazer do tamanho do mundo escutar, ouvir, escutar, ouvir, ler, estes poemas infantis de Jairo Aníbal Niño (n. 1941) na voz destes diseures. Disse poemas infantis? Não liguem, só mesmo o meu lado mais adulto, ou seja, o menos precavido, poderia proferir uma calamidade destas. Estes poemas do colombiano Jairo Aníbal Niño são, sem dúvida, breves retratos da infância, estórias em verso dessa idade que é a idade da poesia, mas não têm que ser necessariamente, apesar de não escaparem a classificações do género, poemas infantis. E se tiverem de ser, são do melhor que há! Pena que o CD não se faça acompanhar de um libreto com as traduções, o que não seria de todo contraproducente embora de todo seja perceptível que tal não suceda. Não é difícil, porém, encontrar alguns dos sopesados versos de La alegría de querer. Poemas de amor para niños pelos ínvios caminhos das auto-estradas da informação. Trago para aqui, em castelhano, o que é para ler com os ouvidos, em português, no CD:MIRO LA LUNA LLENA
Miro la luna llena
y compruebo que la ausencia
tiene forma
de una brillante y triste rueda de bicicleta
sexta-feira, 6 de abril de 2007
SOLIDÃO
Fechou-se na monumental solidão dos seus pensamentos, sentiu o sangue parar, o coração estremecer, sentiu a cabeça transbordar para fora dos sentidos. Tem uma casa de dantes, não sabe se tem atalhos para o depois. Vai andando, com a certeza de que o corpo é a sombra e de que a sombra é o único, o verdadeiro, corpo real. Olhei-o nos olhos e lamentei… Uma brisa breve fez o espelho tremer. De súbito, toda a terra tremeu.
MENINO AZUL
Subitamente o menino azul começou a ficar rosado. Toda a gente o rodeou, com cara de espanto e alegria, julgando-o restabelecido. Na verdade, tinha apenas um caroço de maçã entalado na garganta.
PERÍODO AZUL
Fernande chegou-se a Picasso e abraçou-o ardentemente. Depois beijou-o, apalpou-o entre as pernas, lambeu-lhe o pescoço e trincou-lhe uma orelha. Picasso, melancólico e desesperado, afastou Fernande e disse-lhe: «Hoje não, amor, estou com o período azul».
quarta-feira, 4 de abril de 2007
CAFÉ CENTRAL
Talvez devido a um qualquer complexo de inferioridade ainda por explicar, as pessoas que moravam na periferia eram as mais fiéis frequentadoras do Café Central.
BICICLETAS PARA MEMÓRIAS & INVENÇÕES
Há livros que são para ler sem o compromisso que a literatura exige, livros que se lêem como quem folheia um projecto, um esboço, o princípio de qualquer coisa que é já tudo o que pode ser no seu incumprimento. Não são livros melhores nem piores por serem livros assim, são apenas livros. O que esses livros tenham de mau, se algo de mau tiverem, não nega, de todo em todo, este facto incontornável: o que há de bom nesses livros é o simples facto de existirem. Bicicletas para memórias & invenções (Dezembro de 2006), com todos os seus defeitos naturais, tem a virtude de ser um desses livros a que aqui e agora aludo. Colectânea de contos dos alunos da Companhia do Eu, coordenada pelo poeta e crítico Pedro Sena-Lino, Bicicletas para memórias & invenções pedala o seu percurso com a singeleza de um gesto pedagógico, um esforço e uma vontade de disseminar as letras na exacta proporção de um acto de sobrevivência no inóspito campo da criatividade literária em Portugal. Quem por aqui se passeia sabe que não sou adepto de cursos de escrita criativa, muito menos de escrita de poemas – não é este o caso -, mas sabe também que não descuro tudo o que possa ser feito em nome da criatividade. Por isso julgo importante relevar, tanto quanto possível, estas pequenas acções ao serviço da imaginação, da criação literária, do fazer algo no domínio da palavra. Como refere na apresentação preliminar o autor de Biofagia, «estes contos valem antes de mais como interrogação e trabalho» (p. 11). O resultado é francamente desequilibrado, com textos bons alternando com produções menos conseguidas e, num caso ou noutro, muito más. Mas que esperar de um projecto com estas características? Julgo que muito mais não se pode esperar, até porque à diversidade de vozes sempre correspondeu uma oscilação qualitativa. São doze as vozes indicadas no índice de autores, sendo que uma delas, Ana Moreira Pires, não aparece referenciada nas notas biográficas nem nos textos que compõem cada uma das duas partes da colectânea – Ficções (contos ou quase) e Páginas autobiográficas (percursos pela memória). Ao lapso acresce ainda a necessidade de revisão de um dos contos impressos, o de Josiane Guiraud (n. 1948), o que, se não castra um texto, acaba sempre por manchá-lo inadvertidamente. Da primeira parte agradou-me a prosa combativa de Maria, vão privatizar a guerra, de Madalena Braz Teixeira (n. 1938), a fazer lembrar os célebres manifestos de José de Almada-Negreiros, com reflexos da contemporaneidade social e política. O motivo condutor, já de si suficientemente delirante, é a privatização da guerra, repetida e enfaticamente anunciada entre parágrafos com retratos irónicos, mas pertinentes, da actualidade. Da segunda parte, porque é bom falar dos amigos, destaco as prosas poéticas – "classifico-as" assim à falta de educação literária mais apurada – da Maria João Fernandes (n. 1969), reunidas sob o título Uma Casa no Tempo. São nove textos breves, cadenciadamente desenvolvidos na base de um léxico que se vai repetindo no interior de imagens várias. Palavras como água, chão, pés, pedra, cidade, como que introduzem, logo no primeiro texto, a reconstrução de uma memória que vive de articulações metafóricas diversas dentro do mesmo complexo lexical. Descortinamos uma trama amorosa, um cenário – Sintra -, episódios que deambulam entre um onirismo romântico e uma realidade melancólica, um desenlace: «Fui num fim de tarde ao teu mar, o sol mergulhou e apagou-se. A tua mão continua em casa na minha, estou aqui a escrever» (p. 111). Os restantes autores representados são Isabel Reis Santos (n. 1981), Teresa Andrade Correia (n. 1963), Madalena Torgal Ferreira (n. 1965), João Nunes (n. 1938), Nuno Cunha Rolo (?), Madalena Barbosa (?), Rita Sousa Uva (n. 1972) e Ana M. Ribeiro-Rosa (n. 1963).terça-feira, 3 de abril de 2007
MÁXIMA
Faz o que eu digo, não faças o que eu faço. – disseram-lhe. Mas ele preferia não fazer o que dizia, ou seja, que jamais faria o que dissesse.
PERFEIÇÃO
O texto imperfeito olhou para o texto perfeito e disse: «Falta-te qualquer coisa». O texto perfeito respondeu: «Faltas-me tu». Juntaram-se, tiveram muitas páginas e viveram felizes para sempre.
ACAMPAMENTO
Num acampamento indígena, ofereceram a Madame Madame uma refeição local. Madame Madame declinou a oferta, desculpando-se com dores no estômago. Olharam-na como se ela fosse uma porca fundamentalista da civilizada gastronomia ocidental. Madame Madame sentiu-se intimidada, mas recusava ingerir um pitéu de escorpiões, jamais degustaria bosta de boi, ovos podres e térmitas. Madame Madame não comia focas, nem carne de cão, nem muita outra coisa, ainda que reconhecesse na gastronomia um bem cultural de enorme valor e, por isso mesmo, a respeitar sem hesitações. Quando foi à Índia reparou que ninguém comia vaca. «Olhas os porcos!» - comentou.
NOME
Tinha um nome a preservar. Só o usava para assinar cheques e para renovar o bilhete de identidade.
domingo, 1 de abril de 2007
RIMAS
Durante uma aula sobre rimas, à pergunta sobre o que rima com a palavra pai o menino esperto respondeu que pai rima com a palavra cai. Já o menino estúpido replicou: «Pai rima com mãe». Quis o destino que o primeiro se tornasse num empresário frustrado e o segundo viesse a ser um poeta de sucesso.
sexta-feira, 30 de março de 2007
PISTOLEIRO
Rapidamente ganhou fama de pistoleiro implacável, tal era o seu currículo de tiros certeiros. Jamais alguém pensaria que, afinal, ele era apenas um suicida com péssima pontaria.
IEFP
No Instituto do Emprego e da Formação Profissional, uma rapariga, na casa dos 30, aguardava a sua vez na longa fila dos desempregados. Entretanto, ao telemóvel, decidiu-se pelas férias em Fortaleza.
SALAZAR
Quitéria pegou numa das quatro patas de Salazar para lhe ler a sina: vais roer ossos até quando já não tiveres dentes, é essa a tua sina. Assim falou Quitéria, assim aconteceu.
COISAS
Aconteciam-lhe as coisas mais incríveis, coisas para as quais não vislumbrava qualquer tipo de explicação. Havia quem pensasse serem pretextos, desculpas que o descomprometiam de certas obrigações que ficavam sem efeito perante as coisas inexplicáveis que lhe sucediam. Quem assim pensava não sabia o que era o amor.
quinta-feira, 29 de março de 2007
MARILINE
Mariline possuía uma imaginação muito fértil, porém pouco lavrada. Ainda assim, de tão fértil que era, a imaginação de Mariline dava alguns frutos. Secos.
SANITAS
Ao filósofo de WC todos os fragmentos chegavam na hora de evacuar. Reuniu-os num volume a que deu o título de Sanitas. Ana Hatherly sentiu-se ofendida com o anagrama.
GORDO
Era uma vez um homem muito gordo, do tamanho de um micróbio, que não cabia numa micronarrativa.
quarta-feira, 28 de março de 2007
POPULAR

O papel das histórias populares foi pertinentemente sublinhado por Jean-François Lyotard em A Condição Pós-Moderna. No capítulo sexto dessa obra, intitulado Pragmática do saber narrativo, Lyotard distingue o saber em geral do conhecimento e da ciência, atribuindo ao saber uma abrangência de enunciados que escapa ao carácter denotativo da linguagem científica. O saber, porque não apenas denotativo, encontra assim na narrativa a sua linguagem veiculativa par excellence, já que a forma narrativa admite «uma pluralidade de jogos de linguagem» que escapa aos enunciados denotativos da ciência. No entanto, parece-me haver qualquer coisa de redutor na forma como o filósofo francês encarou a história popular, atribuindo-lhe sobretudo um papel transmissor do «grupo de regras pragmáticas que constitui o vínculo social». Lyotard fala nas narrativas populares como veículos de transmissão de modelos, mas refere igualmente o poderosíssimo efeito rítmico, por exemplo, das lengalengas infantis, relevando a cadência na prosódia dos adágios, dos provérbios, das máximas, como meio de efectivação dessas regras. A consequência disto será, grosso modo, uma cultura mais dependente do saber narrar do que da significação daquilo que é narrado. Ou seja, não importa o que se narra, importa é que se saiba narrar. As narrativas populares funcionam, assim, como uma espécie de mantras, cuja execução relega para plano secundaríssimo o significado dos sons pronunciados. É por isso que o bom narrador não é apenas aquele que lê, mas aquele que lê de determinada maneira, aquele que nos leva a aceitar a narrativa sem uma necessidade imediata de interrogação sobre o sentido do que está a ser narrado. Como disse, julgo ser demasiado redutor perspectivar a narrativa popular apenas sobre estes dois prismas, pois muitas vezes ela ostenta uma dimensão crítica dos próprios modelos sociais, quando não uma extensão à ruptura com esses mesmos modelos. O que se me afigura mais pertinente nos dias de hoje é pensar nos modelos da própria narrativa popular enquanto vinculativos de uma resistência à deterioração do saber. Cada vez mais reduzido ao seu carácter técnico, o saber que é hoje transmitido nas escolas, inimigo da reflexão, do tempo, da pausa, do ócio, da memória, escravo da prática, encontra nos modelos da narrativa popular um lugar de resistência à pesarosa ausência de referências, assim como um aliado subtil de práticas que podem optimizar os processos de concentração. É essa dificuldade de concentração, porventura resultante do culto do zapping, associado à prática das novas tecnologias, o que mais contribui, creio eu, para um desinteresse hoje generalizado por um saber que não seja meramente técnico, um saber que exija algo mais do que um uso eficaz do Copy & Paste, essa fabulosa e feérica firma das sábias luminárias que ameaçam tomar conta do mundo sob os desígnios de um facilitismo que não só se promove como se exalta em terra de chicos-espertos. Talvez algo que vem do povo possa ainda fazer qualquer coisa pelo povo. Não custa tentar.
terça-feira, 27 de março de 2007
AGRICULTURA
Dois agricultores portugueses rogavam a Deus pela chuva que tardava em chegar. As únicas gotas que caíam do céu eram merda de pombo.
DESDENTADO
Era uma vez um desdentado que mentia com quantos dentes tinha. Esta estória só não termina aqui porque era uma vez um mentiroso que mentia com quantos dedos tem.
MAN CHENG JIN DAI HUANG JIN JIA
Enquanto me deleitava com A Maldição da Flor Dourada, pensava em algo que, muito provavelmente, nada tem que ver com o filme de Zhang Yimou, ou seja, na dificuldade que sempre senti em pensar a filosofia oriental como uma espécie de pensamento geograficamente circunscrito e devidamente homogeneizado. Na realidade, não ouvimos falar de uma filosofia ocidental como se fala de uma filosofia oriental. Se a primeira se caracteriza pelo seu carácter polimórfico, pela heterogeneidade de diversas correntes de pensamento, a segunda aparece sempre perspectivada num corpo homogéneo, único e estável. Temos facilidade em falar de correntes de pensamento ocidentais, mas insistimos em nos referir à filosofia oriental como se esta não fosse também uma complexa teia de ideias e de propostas de reflexão do mundo. Da mesma forma, o cinema oriental foi historicamente encaixado em estereótipos que pouco têm que ver com a arte cinematográfica em si mas muito dizem da nossa dificuldade em apreender os objectos da criação apenas à luz deles mesmos. A Maldição da Flor Dourada é um filme que participa de alguns desses estereótipos, como a minuciosidade na arquitectura dos cenários, a luminosidade da fotografia, a dimensão trágica dos movimentos e da encenação. Fica de fora aquela poética do silêncio que é, digo eu, o melhor da maioria dos filmes que nos chegam de terras orientais, uma poética que não prescindindo da palavra pouco lhe fica a dever. Isto porque ela quase sempre se faz sentir mais nas imagens do que nos diálogos, na minudência com que os gestos mais simples são filmados do que na trama que imprime o ritmo à acção. Neste sentido, A Maldição da Flor Dourada aproxima-se de um qualquer épico, talvez excessivamente melodramático, made in Hollywood. Não que seja mau, até porque muitos épicos de Hollywood são geniais, mas porque a sua beleza resulta sobretudo da acção, dos aspectos decorativos, de um ritmo vertiginoso que nos habituámos, talvez preconceituosamente, a reconhecer mais aos de cá do ocidente do que aos de lá a oriente. Seja como for, o filme é belíssimo do ponto de vista meramente estético, ajudando isso à transformação da tragédia imperial numa história com múltiplas facetas extensíveis aos dramas sem tempo do poder absoluto. Tratando-se de uma história de época, passada na China, final da Dinastia Tang, século X, o que dela retiramos que possa ser congruente nos dias de hoje é a dificuldade de supressão dos poderes absolutos, organizados de tal modo que praticamente restringem ao fracasso qualquer tentativa de golpe. Quem for ver o filme irá encontrar uma tragédia no seio da família imperial, onde um dos três filhos do imperador se junta à imperatriz com o intuito de derrubar o pai do lugar onde este exerce o seu domínio com mão impiedosa, sobretudo no que respeita à relação que mantém com a imperatriz. Amor, traição, ciúme, tragédia familiar e intriga política misturam-se, acabando o imperador por levar de vencida a batalha pelo poder que tem na vingança passional um dos seus móbeis essenciais. A belíssima Gong Li, no papel de imperatriz, é razão mais que suficiente para não perder o filme.
segunda-feira, 26 de março de 2007
LINGUAGEM DA INTIMIDADE

Esta mania de hierarquizar, de meter por cima o que não queremos por baixo, de organizar o que nos faz confusão permanecer na sua própria ordem, porque as coisas têm o seu modo singular de ser, mas isso faz-nos impressão, incomoda-nos, por isso procuramos para as coisas um modo de ser que não seja o delas, mas nosso. Perguntam-me, por exemplo, qual a arte mais importante, se julgo a filosofia superior à ciência, se é possível falar de uma superioridade da ciência sobre as artes, perguntam-me essas coisas como quem convida um adversário para um assalto, munidos que estão já de uma resposta, de um preconceito, de uma verdade intocável, um axioma, formado lá onde se deformam as consciências, o espírito crítico, a vontade de problematizar. Não vale a pena complicar muito: se me dói a barriga, vou ao médico. Os cientistas têm funções que não cabe aos artistas cumprir, valendo o inverso na mesmíssima e exacta medida. Talvez o preconceito da superioridade das ciências sobre as artes, onde podemos incluir a própria filosofia, deva a sua formação à ideia da utilidade. Mais facilmente reconhecemos a utilidade de um médico do que a utilidade de um pintor, sendo que ao último os tempos modernos tendem a usurpar qualquer pretensão de utilidade. Trata-se de um preconceito perigoso, na medida em que coloca a ciência sob um prisma de resposta que não é de todo em todo o seu. Até haver resposta, a ciência carece da pergunta. Sem a pergunta não há resposta, assim como sem a capacidade de improvisação sobre a pergunta, a inventividade ao nível da experiência, sem essa inventividade, jamais haverá reposta. É nesse âmbito que qualquer separação em termos hierárquicos me parece sempre precipitada e injusta, pois ainda que possamos julgar a ciência mais útil que as artes ela nada consegue alienando-se do espírito que as artes lhe legam. Qualquer tipo de intercâmbio entre os diversos ramos do saber é sempre mais profícuo do que uma separação, uma delimitação, que trace fronteiras intransponíveis e crie constrangimentos ao nível do diálogo, da partilha, da experiência. Podemos mesmo partir de um paradigma relativista acerca da verdade e do real, assumindo que seja qual for a resposta ela será sempre resultante de uma circunstância, de uma situação. Por isso a ciência evolui e não é estática. Mas no domínio das artes a exaltação deste relativismo leva muitas vezes a que o mesmo se transforme num paradigma algo facilitador do logro e da fraude, sobretudo quando o artista resolve prescindir da ciência da sua arte. Há nisto qualquer coisa de perverso, pois por muito livre que a arte seja essa liberdade assenta sempre em pressupostos técnicos, históricos e mesmo simbólicos. Pode um poema ser escrito fora da língua, mas não pode esse poema ser lido por ninguém que não absorva as convenções dessa língua inexistente. E ao absorver essas convenções, por mais caóticas que elas sejam, ele está já a inserir-se no seio de uma comunidade, supostamente virtual, que legitima a leitura. A surdez não é partilhável, assim como a cegueira, mas o silêncio pode ser. O que se me afigura mais plausível é que perante uma obra cada qual construa a sua linguagem, uma linguagem da intimidade, não partilhável, mas que faça disso uma força de questionamento acerca do mundo que o rodeia, das convenções que põem em causa essa linguagem da intimidade, que, em última instância, procure compreender com a linguagem de todos o que há na sua que possa acrescentar algo de positivo àquela. Porque se é certo que todas as vozes juntas dão uma enorme cacofonia, não menos certo é que todos os silêncios juntos não dão mais do que silêncio. E do silêncio ninguém retira senão silêncio.
ESTADO NOVO
Apesar de ter nascido depois da revolução, Baltazar trazia no sangue os estigmas do Estado Novo: avós analfabetos e alcoólicos, pai marcado pela guerra, mãe marcada pelo pai marcado pela guerra.
SALAZAR
Quitéria não tem televisão em casa, mas está feliz com a vitória de Salazar - nome com que baptizou o rafeiro que a acompanha para onde quer que vá. Do que ela não gosta nada é da censura e chama pulhas aos PIDEs e não pode ver pão de milho com azeitonas à frente. Mas de Salazar, ó, ó, de Salazar é que este país precisa. Pelo menos de um em cada uma das esquinas onde o rafeiro de Quitéria mija com afincada noção territorial.
domingo, 25 de março de 2007
FALAR
Era considerado um dos faladores cimeiros da falatura portuguesa. Bastante assediado por jornalistas para programas de toda a espécie, convidado para conferências, colóquios, entrevistas, o falador mor apresentava as suas obras silenciosamente sentado a uma mesa onde escrevia de improviso.
quinta-feira, 22 de março de 2007
A MÚMIA DE PESSOA

Folheio o catálogo da exposição antológica de Antoni Tàpies, em 1996, no Centro Cultural de Belém. Com a pintura tudo parece ser diferente, o mais cativante é o que não se compreende, há como que um diálogo que se estabelece com as imagens que nos obriga à suspensão temporária do pensamento. Tive um amigo que fechava os olhos para assim melhor contemplar as obras expostas, dizia que com os olhos fechados as imagens anteriormente observadas adquiriam dentro de si uma configuração que escapava aos olhos. O órgão físico é apenas um meio, uma porta aberta, por onde as imagens nos penetram. É já dentro de nós que elas ganham o corpo que as aguarda, o corpo que cada um lhes dá, o corpo inexplicável, o corpo sem corpo onde confluem nervos, sensações, ritmos, numa complexa mecânica de processos químicos que escaparão sempre à razão. Há aquele poema de Fernando Pessoa, A Múmia, que começa assim: «Andei léguas de sombra / Dentro em meu pensamento». Mais à frente, na penúltima estrofe, o poeta diz: «Na alma meu corpo pesa-me. / Sinto-me um reposteiro / Pendurado na sala / Onde jaz alguém morto». A gente não sabe como se sente um reposteiro pendurado na sala, mas desconfiamos, por vezes estamos mesmo certos, de que nos sentimos tal qual esse reposteiro pendurado na sala onde jaz alguém morto. E eu sinto-me muitas vezes como as texturas de Tàpies, como uma mancha equilibrada no interior de um manto branco, como aquela linha vermelha que atravessa o espaço vazio e o enche como se fosse uma pegada no cimento, algumas letras reunidas de forma indecifrável, um colchão de palha rasgado e manchado, os contornos de uma mão, de um seio, de um pé, de um tronco perfurado por pregos, um ovo marcado, uma cruz, uma frase enigmática, como aquelas frases que escrevemos na areia da praia e se perdem para sempre, uma porta fechada do avesso, um bocado de madeira rasgada, um pouco de tecido partido, um divã sobre um losângulo. Folheio o catálogo e lembro-me do efeito das obras de Tàpies ao vivo, de quão intrigantes são os enigmas que nos sugerem, enigmas que o meu pensamento recusa mas que o meu corpo aceita como se fosse uma criança espantada com o ruído do papel amachucado. Espanto-me com a associação ao poema de Pessoa porque foi de Tàpies que me lembrei quando visitei as múmias no Museu do Cairo, aquela frustre tentativa de conservação de um corpo ao qual a alma regressará, como se aquele corpo não fosse todo o peso da alma, como se fosse possível guardar para sempre o bolor que se dissemina pela parede. «Não há / Cá-dentro nem lá-fora», diz o poema de pessoa. É como nos quadros de Tàpies, porque é preciso fechar os olhos e saber que, nesse instante, são eles que nos contemplam e não o contrário. Porque há objectos que nos olham como se tivessem uma vida autónoma e independente da vida que lhes damos quando os observamos, quando os utilizamos, quando os manipulamos. Projecções do nosso corpo, os objectos são a sombra de nós mesmos sem a qual não fazemos sentido, são o que há de vivo na nossa morte, são a música das ossadas.
quarta-feira, 21 de março de 2007
POESIA
De tanto dizerem que a poesia era vital, alguém a confundiu com água e colocou-a à venda num hipermercado.
terça-feira, 20 de março de 2007
domingo, 18 de março de 2007
JORNALISTA
Um jornalista chegou-se ao pé do homem que estava a morrer de velho e perguntou-lhe: O que está a sentir neste preciso momento, agora que chegou a sua hora? O homem que estava a morrer de velho olhou-o directamente nos olhos e disse: Sinto que estou a morrer de novo, agora que chegou a minha… E, antes que tivesse terminado a frase, o homem morreu.
CONTOS DE ALGIBEIRA
Contos de Algibeira
Organização de Laís Chaffe
Casa Verde
Porto Alegre, Brasil
2007
Militares, p. 27.
sábado, 17 de março de 2007
NO FIM DAS TERRAS
Um amigo ofereceu-me, há já alguns meses, este No Fim das Terras (Ateliê Editorial, 2005), do brasileiro Milton Torres. Sobre o autor apenas consegui saber o que aparece divulgado na Internet em meia dúzia de sítios: historiador gaúcho e diplomata de carreira, Milton Torres é cônsul-geral do Brasil em Houston, Texas. Não lhe descobri outros livros de poesia, mas suponho que seja de sua autoria um ensaio, dedicado à História do Maranhão, intitulado O Maranhão e o Piauí no espaço colonial (2006). Também em No Fim das Terras é o período colonialista que mais ecoa, organizando-se o livro, à laia de uma espécie de anti-epopeia, em torno de questões relacionadas com a época dos descobrimentos e da expansão territorial portuguesa. Trata-se, portanto, de um livro conceptual, de leitura difícil, exigente, e, sobretudo, reivindicador de uma erudição que escapa à grande maioria dos leitores (este que vos escreve incluído). Há, no entanto, duas formas de nos posicionarmos perante este tipo de livros: optarmos por perscrutar exaustivamente a teia de sentidos e de significados que ele nos sugere ou, de forma mais humilde, ficarmos por lhe captar o tom geral relevando-lhe os momentos e os aspectos que consideramos mais essenciais. Outra opção não pode ser a nossa senão a segunda. Comecemos pela estrutura da obra: duas partes – Portugueses e Novo Mundo – desdobram-se em quatro subdivisões cada – Hispânia, da memória, do império, do pensar e do fazer, na primeira parte, e Novo Mundo, poemas brasileiros, quadras do sul e poemas do Rio, na segunda parte. A estrutura parece-me aqui especialmente significativa dado o itinerário histórico que aponta, com um retrato do curso da colonização das Américas, ao mesmo tempo cruel e irónico, por isso realista, a pontuar a primeira parte, e uma reflexão acerca da condição cultural dos territórios colonizados, nomeadamente do Brasil, a sobressair na segunda parte. Na primeira parte encontramos imensas referências intertextuais (de Gil Vicente a Garcia de Orta, de Fernão Lopes a Afonso de Albuquerque e Damião de Goes, entre outros), e um vocabulário riquíssimo que se divide entre o português arcaico e o castelhano, o solene e o calão. Sobre este aspecto, Ivan Teixeira diz-nos no posfácio: «No mundo pós-moderno, o poeta épico será, antes de tudo, um artista do idioma. Deverá saber incorporar vocábulos nacionais, vocábulos internacionais, vocábulos correntes, vocábulos arcaicos, vocábulos sublimes, vocábulos baixos, gíria, ciência, sexo, arte e esculhambação» (p. 222). É isso que Milton Torres pratica, ressaltando à vista um extraordinário trabalho de montagem, com escola no concretismo, onde o denominado poema-colagem dialoga com apontamentos, mais ou menos herméticos, sobre as malhas com que se costurou o Império colonizador: «a própria razão dos impérios, a sua metalinguagem: gigantes uns poucos / pigmeus quase todos» (p. 65). Deste modo, como bem refere Leopoldo Bernucci no prefácio, «o poeta submete a expansão portuguesa a escrutínio naquele ponto em que ela permite desmascarar o autoritarismo da política do Estado quanto à rigidez estamental (“Empresa Marítima”) e a forte censura pela qual passavam os cronistas (“Escreve, Escriba, que Caiba”)» (p. 20). Na segunda parte mantém-se o tom crítico, mas a dimensão irónica desta poesia faz-se notar de forma mais evidente. Julgo estarem aqui os melhores poemas de No Fim das Terras, ou, pelo menos, aqueles que mais apreciei, talvez por razão dessa tal dimensão irónica que, sublinhe-se, logra conjugar de forma exemplar o testemunho com a metáfora, a denúncia com a reflexão, a crítica com a inventividade e, em certa medida, a própria subversão da linguagem, sem a qual nenhuma poesia sobrevive, com um erotismo algo galhofeiro. Um excelente exemplo é este Madrigal A Uma Negra: «a branca é chocha e não tem o teu bodum / oh Chica! / a tua bunda as sete saias enfuna / qual duas morangas inchadas da chuva. / esconde a noite a tua pele / mas acho-te pelo cheiro oh Chica / ou pl’os dentes quando ris / que mais faíscam que as faíscas mais todas / do rio» (p. 146). No Fim das Terras é, em suma, um livro que merecia outra divulgação, mais não fosse por nos desafiar, nesta época de impérios encapotados, a repensar o lugar da História. Afinal, as notícias de escravatura no presente, misturadas com as tramas da globalização, a isso obrigam. As caravelas são hoje de outro tipo, os navegadores nunca foram os heróis que a escola nos impingiu, a política é o mesmo tumor de sempre. Oremos.sexta-feira, 16 de março de 2007
quinta-feira, 15 de março de 2007
UMBIGO
Perante a falta de participação cívica, o umbigo do presidente encolheu tanto que parecia um poro da pele.
PERCENTAGENS
Via tudo pelo prisma das percentagens. Quando fez 40 anos disse que, na melhor das hipóteses, já tinha vivido 50% da sua vida. Mal sabia que tinha vivido 100%.
EUROMILHÕES
Passava o tempo todo a dizer mal de quem ganhava muito dinheiro. Saiu-lhe o Euromilhões. Dizem que foi castigo de Deus.
quarta-feira, 14 de março de 2007
AUTO-ESTRADAS
As auto-estradas da informação são, aparentemente, uma ferramenta ao serviço da informação, tornando-a mais abrangente e imediata. Ninguém pode duvidar das transformações profundas que vieram introduzir no quotidiano da sociedade civil global, podemos e devemos questionar-nos sobre a sua eficácia. A Internet é um espaço de circulação de informações sem fronteiras intransponíveis, facilmente a pensamos dessa forma e a julgamos cada vez mais essencial na busca de conhecimento e no estabelecimento de redes de comunicação. Motores de busca como o Google tornaram-se, nos últimos anos, autênticas enciclopédias ao serviço de grande parte da humanidade, pelo menos da humanidade dita desenvolvida ou mais abastada economicamente. O Google veio revolucionar aquilo a que podemos chamar uma possível paisagem do mundo, ao fornecer-nos dados sobre tudo e mais alguma coisa, acompanhados de imagens, fotografias, instantâneos diversos, que permitem reproduzir, de forma mais ou menos fiel, a realidade. Ao mesmo tempo cria-nos a ilusão de um conhecimento que nunca escapa à superficialidade e que, muitas vezes, surge poluído de perspectivas interesseiras sobre os mais diversos assuntos. No fundo, é uma máquina ao serviço de uma grande ilusão. Não resvalemos no lamaçal dos juízos de valor, não é isso que se pretende. Prefiro antes pensar nas consequências das auto-estradas da informação num contexto de pesquisa, ou seja, num contexto de diagnóstico do mundo, em última instância, num contexto da formulação de conceitos que nos permitam, mediante coordenadas diversas, enquadrar o tempo em que vivemos. Não creio que a esse nível estas novas tecnologias da informação venham acrescentar grande coisa ao que já tínhamos, isto é, a noção de que todas as representações não passam disso mesmo e, enquanto tal, nelas não devemos depositar grandes anseios de verdade. Se eu quiser fazer um trabalho sobre os índios Caiapó, fá-lo-ei com alguma facilidade. Se eu quiser conhecer os Pigmeus africanos, conhecê-los-ei com a mesma facilidade. Ou, pelo menos, será criada em mim uma ilusão desse conhecimento na base de informações que logro recolher em sites de todo o mundo elaborados por milhares de pessoas com os mais inimagináveis interesses. Por outro lado, se os Caiapó ou os Pigmeus quiserem saber como eu vivo, quais os meus hábitos, costumes e tradições, dificilmente terão essa oportunidade. O retrato do mundo que a actualidade nos proporciona permanece corrompido pelo exotismo das relações, sendo hoje esse exotismo, de certa forma, empolgado pela grande ilusão de um saber que não passa de um bem de consumo à disposição dos mais desenvolvidos. Lyotard alertava para isso quando afirmava que «a questão do saber na era da informática é, mais que nunca, a questão do governo», pois o que está em causa é saber distinguir o saber de um pseudo-saber, na medida em que o saber só se concretiza quando expurgado da ignorância que advém de nos julgarmos na posse de um saber que, na verdade, é um pseudo-saber, uma ilusão. Temo que as auto-estradas da informação tenham vindo agudizar essas discrepâncias, apesar de nos querem fazer crer do contrário. O grande desafio da educação na actualidade consiste, precisamente, em transmitir defesas que permitam ao sujeito que conhece proteger-se da poluição disseminada por quem governa o saber. É aí que o espírito crítico e o olhar desconfiado se tornam fundamentais. Mas caminhamos no sentido inverso quando a esse espírito quem governa o saber prefere o espírito técnico, ou seja, prefere um povo desarmado, iludido, sem defesas, facilmente manipulável, seduzível, submisso. Para isso, antes viver como os Caiapó ou os Pigmeus numa qualquer ilha que ainda reste neste canil de restos e de ossos. MESTRE E DISCÍPULO
O mestre insistia: Cu não leva acento no u. Mas o discípulo apenas pensava numa forma de se acentar na secretária.
ECOPONTO
No bairro dos ciganos já há um ecoponto. Quitéria, que não sabe ler nem para que servem aqueles contentores, acha que deviam pôr o ecoponto no lixo.
terça-feira, 13 de março de 2007
segunda-feira, 12 de março de 2007
VIR AO SOFRIMENTO

Não sei ao certo o que me atrai nas esculturas do norte-americano George Segal (1924-2000), mas desconfio que seja esse registo quase fotográfico dos gestos quotidianos mais banais. Geralmente associado à Pop Art, Segal também foi pintor. Enquanto tal, reproduziu a preto e branco vários objectos de uso doméstico: jarras, chávenas, malas, saleiros, açucareiros, garrafas de ketchup, sapatilhas. Ao contrário da maioria dos seus congéneres de movimento, relegou a cor para um plano secundário. Porém, encontramos-lhe, muito de vez em quando, algumas esculturas mais coloridas, ainda que quase sempre monocromáticas. Dos seus trabalhos para espaços públicos, os mais conhecidos talvez sejam Gay Liberation (1980) e The Holocaust (1984). Esta última encontra-se no Lincoln Park, em São Francisco, e, apesar de nunca a ter contemplado senão através de registos fotográficos, toca-me particularmente. O tema, por si só, presta-se a isso, mas há algo mais que a torna profundamente marcante no contexto da obra deste escultor. As esculturas de George Segal representam, como já referi, gestos quotidianos, transeuntes a atravessar uma rua, uma mulher a abrir uma porta, um casal abraçado debaixo de um vão de escadas, cidadãos na paragem do autocarro, pessoas sentadas ao balcão, num restaurante, num banco de jardim, etc. No trabalho que se refere ao holocausto o quotidiano é caracterizado por um conjunto de cadáveres amontoados no chão e um homem de pé, cabisbaixo, agarrado ao arame farpado, de costas voltadas para os mortos. O autor capta assim, com brutal clareza e evidência, o quotidiano do holocausto, não sem nos interpelar sobre essa evidência. A figura que se encontra de pé está de costas voltadas para a morte, agarrando-se ao arame farpado num gesto que simula, ao mesmo tempo, uma impotência tremenda perante a vida mas uma força desconcertante na relação com o sofrimento. É, toda ela, uma lição de vida, um ensinamento que a História mais negra da humanidade nos outorgou. O sofrimento pode ser desnecessário, pode não haver nada na vida mais dispensável, mas é ele também quem melhor nos mantém de pé, quem, da forma mais radical, é certo, nos afirma e sublinha a vida. Vai-se a ver e isto anda tudo ligado e a forma como nascemos é já uma premonição do absurdo que é viver. Vir à vida é, desta forma, vir ao sofrimento, esse sofrimento que mais não é senão um adiamento da morte. No fundo, não é outro o quotidiano da humanidade.
ESTÓRIA DOMÉSTICA
A sanita abria o chapéu de chuva sempre que o homem chegava para urinar. Quando vinha a mulher ela punha protector solar.
domingo, 11 de março de 2007
DÍPTICO MUSICAL
Se pensarmos em cinco poetas portugueses nascidos na segunda metade da década de 1940, talvez nos lembremos de nomes como os de Joaquim Manuel Magalhães (n. 1945), Al Berto (n. 1948), José Agostinho Baptista (n. 1948), Nuno Júdice (n. 1949) ou Hélder Moura Pereira (n. 1949). Porém, há um leque muito mais alargado de nomes dos quais dificilmente nos lembraríamos. Entre eles, o de Silva Carvalho (n. 1948) é talvez o menos conhecido de todos. Não sabemos as razões que explicam esse desconhecimento, mas ao entrar nesta obra que começou a desenhar-se em 1969, com um livro de nome Suor do Tédio, desconfiamos que tal se deva ao que menos agrada às cátedras e leitorados da literatura portuguesa: a ousadia. Neste caso específico, a ousadia começa logo na ruptura com os modelos poéticos ocidentais, na rejeição da versejadura nacional e dos preconceitos estéticos e estilísticos que, ora enformando, ora deformando, contaminam muita da poesia que por cá se vai produzindo. Díptico Musical, publicado em Novembro de 2005, foi-me oferecido por João Urbano, editor da revista Nada, a quem se devem as palavras inscritas na contracapa deste livro: «Em Silva Carvalho assistimos a uma deslocação, senão mesmo a uma inversão, de todos os valores poéticos, assistimos à rasura das poéticas neo-românticas e neo-simbolistas que dominam ainda a paisagem portuguesa, para que passe outra coisa muito mais exigente e arriscada, que não se contenta mais com o pequeno lume da poesia, seu lirismo complacente, essa destiladora de nostalgia, da pequena dor sacramental, e sem recair mais nas suas ilusões ou nos seus jogos de embriaguez redentora, alquímica, minimalista, perfeccionista e gnosiológica». São palavras que se ajustam na perfeição aos dois conjuntos que compõem Díptico Musical, assim intitulado por razões que o próprio autor explica num texto do segundo conjunto: «vou chamar aos dois últimos livros escritos, / esta Rede do Discurso e esse Quase, Díptico Musical, de tal maneira as canções que agora passam / pela rádio têm sido essenciais na feitura de mim / escrita de textos em livros personalizados» (p. 181). O musical do título é, deste modo, consequência mais de um acaso do que de um conceito a priori, ele resulta já de uma constatação a posteriori apenas possível devido ao constante diálogo que o "sujeito poético" mantém consigo próprio no espaço interior dos seus textos. Pela segunda vez lhes chamo textos e não poemas, pois assim parece ser, na medida em que se inscrevem no campo da poesia como uma interrogação constante das premissas poéticas, éticas e estéticas ocidentais. Ao poema prefere o autor o texto, ao verso prefere a linha ou qualquer coisa de indefinível que se inaugura entre os dois. A primeira impressão desta leitura é pois a de uma poesia que não é poética – no sentido que usualmente se dá ao conceito -, assemelhando-se mais ao ensaio ou a qualquer outra coisa que, em última instância, diríamos ser apenas literatura. Neste lugar da literatura encontramos proposta uma porética: «Porética é, senão a filosofia, a actividade, abrir / uma passagem todos os dias e a todas as horas, aqui / e ali, não só no linguajar (os heróis mortalmente / desaparecidos, cadáveres da ordem tumefacta), / mas na diversidade dos acontecimentos diários / onde se possa realmente sentir a realidade nova» (p. 124). A porética resulta numa musicalidade muito singular, também ela feita de metáforas, analogias, aliterações: «da voz que é foz faz a vez» (p. 34), «a vez voraz / do sem voz» (p. 83), «um nefasto fasto. Rasto de quê?» (p. 160). As palavras como que se puxam umas às outras, sugerem-se, uma palavra ecoa já uma outra que pede para ser evocada, para ser desenhada no corpo do texto, para ser parte integrante desse corpo. O ritmo de produção é impressionantemente quotidiano, quase sufocante, como se a escrita fosse um hábito no qual o homem se faz texto e o texto se erige como dilação natural do homem: «Estou a gostar deste texto. Estou, estupidamente, / a gostar de mim» (p. 137). Esta é uma escrita sem tempos mortos, feita a um ritmo alucinante (13 textos num só dia!) que pode oprimir a respiração da leitura, impondo-se ao leitor e exigindo-lhe uma predisposição que é um duelo permanente. É um ritmo que não se furta ao ruído, à intromissão de uma musicalidade vocabular muito pouco usual em livros de poesia: acmástica, aletologia, amíntica, borborigmos, catavético, ctónico, deiscência, epulótica, esplenética, intonativas, ortolexia, paratáctica, solecismo, tauxia, ustão, etc. Num mesmo poema podemos vislumbrar palavras como ingluviosa, inópia, insimulando, intermúndio, irrogar. A esta riqueza lexical corresponde aquilo a que o autor chama de catacrese (emprego de termos com significação diferente da usual, por falta de termos próprios na língua), uma espécie de metodologia da porética que reafirma os limites da linguagem. Isto justifica o tom de uma poesia sem soluções nem verdades, anticonvencional, onde, talvez por isso mesmo, encontramos recorrentemente o emprego da expressão «o que quer que seja». Em dois perigos incorre o leitor: julgar esta uma escrita ensimesmada e presunçosa. Há imensos ecos da vida quotidiana nestes textos de Silva Carvalho, referências a objectos, canais de televisão, canções, autores, ecos do mundo contemporâneo. Há um apego que é também, ao mesmo tempo, um desapego da realidade mas que não nega a experiência como alicerce da escrita. Aliás, a escrita é ela própria, neste contexto, uma experiência quotidiana. Nota-se, é verdade, uma má relação com o exterior, uma má relação que não resvala numa negação, antes pelo contrário, resulta numa exaltação da dor interna provocada pelo que provém de fora. O efeito é também aqui o de denúncia de um mal-estar e daquilo que o provoca. O leitor como que é levado a crer numa necessidade de distanciamento do mundo, numa espécie de taciturnidade, nunca concretizada. Daí, talvez, o desconforto. Mais que uma interacção com o mundo há uma reflexão crítica acerca dessa interacção, de como ela resulta no texto, há uma interrogação sobre a forma como a linguagem capta ou até onde logra captar essa mesma interacção. Pode parecer que Silva Carvalho se coloca na posição do sábio autoproclamado, o anacoreta que, em posse de herméticas verdades - mesmo que sejam elas a da ausência de verdade -, se arroga no direito e no dever de profetizar a estupidez do mundo, revelando o que os demais não vêem, e de censurar o mundo por este não ver nele esse tal profeta que só ele sabe que é. Mas essa atitude faz parte de um jogo que é, talvez, o que de mais poético tem esta porética.sábado, 10 de março de 2007
quarta-feira, 7 de março de 2007
DIRECTO
Numa reportagem de rua, uma inquirida grita para o microfone: «Depois, quando passar isto, ponha tudo em directo!!! Eu quero que o povo saiba todas estas verdades, ponha tudo em directo!!!»
A MULHER-BIBELOT
Para Schopenhauer o amor é um instinto, assim como mamar. Só que enquanto o instinto de mamar tem em vista a satisfação de uma necessidade fisiológica do indivíduo, o amor cumpre necessidades da espécie, nomeadamente, a procriação, a geração de uma criança. A verificar-se uma coisa destas, somos apenas joguetes da natureza, uns palermas que para aqui andam, cheios de sonhos e ideais que mais não são do que truques para disfarçar um egoísmo específico, uma debilidade que faz de nós escravos e vítimas da espécie. Sendo assim, as pessoas que não encontram o parceiro ideal para a procriação só podem trazer consigo um defeito de nascença, uma falha qualquer que os impede de concretizar os ditames da espécie. Já as pessoas que não desejam ter filhos podem ser consideradas, aos olhos da espécie, seres amotinados, temíveis revolucionários a trazer na mira da censura. De entre estes pervertidos os do género feminino são os mais censuráveis. Isto porque, levando à letra o autor de A Metafísica do Amor, deviam ser, naturalmente, o género mais fiel. Estando-lhe no sangue a propensão para a fidelidade e um espírito mais ponderado, apesar de se revelar o género mais frívolo e de inteligência acanhada, a mulher é quem mais obedece à natureza da espécie. O problema é que, no seu breve Ensaio Sobre as Mulheres, o filósofo alemão afirma a dissimulação como uma característica inata das mulheres, consequência da qual nasce a falsidade, a infidelidade, a traição, a ingratidão, etc. Afinal são as mulheres mais fiéis ou infiéis que os homens? Schopenhauer lembra-me aquele padre do poema de Manoel de Barros que, olhando no recreio um menino que não brincava com os outros meninos, pensou que ele seria poeta. Na verdade, o menino estava apenas com uma terrível dor de barriga. A Metafísica do Amor é um dos exemplos mais extraordinários de que, trazida ao concreto, a metafísica perde grande parte da sua razoabilidade in abstracto. Pretendendo-se inimiga do mito, ela foi, por diversas vezes, promotora de mitologias tão razoáveis e prováveis quanto o elixir da eterna juventude. Promotora, portanto, de injustiças com catastróficas consequências. Mas há um desses mitos schopenhaurianos que a toda a hora parece querer comprovar-se: «as mulheres são, por índole, inimigas». Bem sei o quão injustas podem ser todas as generalizações deste tipo, difíceis de justificar à luz da milhentos exemplos trazidos à mão, mas macacos me mordam se não é verdade verdadinha haver nesta metafísica da mulher uma correspondência iniludível com o concreto. Há quem diga que isto resulta de milénios de endrominação masculina, como se a história da subjugação da mulher ao homem tivesse resultado numa desconfiança entre as mulheres que hoje se manifesta numa espécie de instinto de competitividade, misturado com uma fatuidade extrema frequentemente confundível com inveja, ressentimento e outras virtudes que tais. Como sou muito humilde nestas questões, prefiro sempre não elaborar grandes teorias de género e evitar distinções disparatas que oponham homem e mulher a partir de traços de carácter biologicamente indetermináveis. O que a experiência me vai dizendo é que há entre as mulheres um complexo de inferioridade que ainda está por resolver, e que os tempos em que vivemos, tempos de subsunção do feminino à promoção de um ideal de beleza físico, também em nada ajudam a que ele seja resolvido. O estereótipo da mulher-bibelot, seja no papel de mãe, dona de casa, modelo de beleza, amante de trazer no bolso, está longe de ter sido ultrapassado. Estaremos no bom caminho?
segunda-feira, 5 de março de 2007
OBESE GIANT

Quando há 10 anos visitei A Ilha do Tesouro, uma exposição de Arte Britânica apresentada no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, ainda não conhecia o trabalho de Ken Currie. A pintura deste escocês cativou-me por nela encontrar um realismo que escapava à grande maioria dos artistas representados naquela mostra. Cito um excerto, da nota de catálogo, acerca da obra de Ken Currie: «O seu programa é claro: fazer arte sobre “trabalhadores, para trabalhadores…”, subscrevendo a ideia do poder da arte como motivação para alterar o modo de vida das pessoas (sem que no entanto, haja qualquer nota de optimismo no seu trabalho).» Em certa medida, julgo não ser displicente a afirmação de que o seu trabalho é de um realismo esclarecido que, por isso mesmo, não dispensa a ironia. A ironia, quando eivada de crueza, é amiúde confundida com ausência de optimismo. Não me parece que possa ser o caso de alguém que acredite num qualquer poder da arte em alterar o modo de vida das pessoas. A existência de um programa que consista em fazer arte sobre trabalhadores para trabalhadores não é nova, residindo a novidade apenas na reafirmação dessa atitude num tempo em que tal gesto não deixa de ser anacrónico. Digo isto porque dificilmente me convencem de que a arte não é, cada vez mais, um privilégio ao alcance de muito poucos, nomeadamente no que possui de potencial de mudança.

Podemos pensar na nossa relação com a arte como quem pensa num homem que viaja, num homem que, em contacto com o outro, com o diverso, se descobre a si próprio, se transforma, se constrói. A grande maioria das pessoas, por razões diversas, vive num estado de abdicação desse tipo de relações, preferindo investir noutra espécie de encontros muito mais sedentários. Talvez não seja tão romântica quanto pareça a ideia de que pela arte, porque em contacto com o diverso, mais facilmente o homem se descobre a si mesmo, isto se julgarmos haver um si mesmo por descobrir. Eu creio que sim, que esse si mesmo existe e que a vida é um percurso que fazemos na direcção da sua descoberta. O problema que podemos levantar é antes: quando podemos nós saber que somos isto e não aquilo? Nenhuma pessoa honesta pode afirmar que possui uma resposta para tal questão, mas isso não nos impede de supor a existência dessa mesma resposta algures, a pairar dentro de nós como um fantasma bulindo o nosso corpo enfermo. O que pretendo dizer é que mais facilmente se descobre a si próprio aquele que tacteia, aquele que ousa ensaiar-se nos palcos da vida, do que o homem subjugado a uma ordem definitiva de pensamento, a uma hierarquia de valores inflexíveis e absolutos. Vêm estas elucubrações a propósito do "pânico" que se instaurou em mim quando imaginei que para os «cubanos» que pretendam saber qualquer coisa sobre Portugal via Internet, os 10 primeiros resultados com que se deparam são «duas referências a movimentos de solidariedade portugueses pela libertação dos «cinco heróis cubanos» detidos nos EUA, três à actuação de Portugal no Mundial da Alemanha e cinco a discursos de Castro durante a sua última visita ao nosso país, ocorrida no já longínquo ano de 2001». Um Portugal, portanto, ainda mais fantasmagórico do que aquele que vive na cabeça de muitos portugueses. Imaginar tal coisa é mil vezes mais medonho do que eventualmente constatar que na cabeça da maioria das pessoas no mundo Portugal nem sequer existe. É como imaginar uma sala cheia de fantasmas a impedirem as pessoas de procurar o seu tal si mesmo. O mundo é muito esse impedimento, esse gigantesco fantasma obeso a mijar para cima de quem trabalha.
sexta-feira, 2 de março de 2007
INTERNAMENTO
Não sei como é nos outros dias, mas desde segunda-feira passada deram entrada dois bebés abandonados pelos pais. Um com 2 meses de abandono, o outro com 5. São olhados com pena e raiva, talvez alguma incompreensão. Uma auxiliar diz que pena, pena, meteu-lhe a bebé que parecia uma boneca de porcelana. Não entende, a auxiliar, como é que os avós não querem ficar com um bebé tão bonito. Por onde andarão os avós dos bebés feios?
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