De Artur Aleixo tinha lido quatro poemas aparecidos no n.º5 da revista Telhados de Vidro (2005). Os mesmos quatro poemas reaparecem neste opúsculo intitulado If My Heart Could Only Talk (2007), composto, na sua totalidade, por vinte e três poemas breves com claras afinidades estéticas, diga-se de passagem, com muitos dos autores que têm sido publicados na Telhados de Vidro ou geralmente associados a uma poesia mais inclinada para a experiência, a memória e o quotidiano. Esses quatro primeiros poemas remetem-nos para um tempo passado onde se destacam gestos, de certa forma, inaugurais: «os primeiros buracos / para jogar ao berlinde» (Abafadores), «as primeiras baforadas / de fumo» (Lume), «o primeiro cálice / de ginja» (Buttercookies), «os primeiros chutos / numa bola» (Chutos). Somos levados a pensar serem estes poemas sobre a infância, mas rapidamente mudamos de opinião. O que há nestes versos, quando a memória recorre à infância, à adolescência ou à juventude passadas, é antes uma tentativa de compreensão do presente. Esse investimento realiza-se a partir de um exercício de memória que parece ter mais como fim a disposição do presente, através de uma viagem pelo tempo, do que a explicação/demonstração do passado, à luz de retratos possíveis de experiências perdidas. O tempo, esse implacável ditador que tudo arruína, aparece em múltiplas coordenadas: o relógio e o calendário serão, talvez, os objectos que o indicam de modo mais evidente. Mas em todos os poemas surgem termos que, de modo menos directo, nos remetem para essa implacabilidade. O esquecimento, em contraponto com o magma dos poemas, ou seja, a memória, assim como as «paredes / em ruína» - imagem muito frequente em alguma da poesia portuguesa contemporânea, nomeadamente a de pendor mais elegíaco -, é também indicador desse percurso. Atentemo-nos a esta Arte Poética: «Quando a memória me deserda / do presente, reclamam-me os poemas. / Palavra a palavra, ergue-se a forma / devoluta das cidades – recomeça a paixão» (p. 28). O poema surge, deste modo, de uma privação, de um deslocamento, talvez de uma incompreensão ou mesmo de uma inaceitabilidade do presente. Este sentimento pode explicar-se de um modo algo simplista: lembrarmo-nos de como foi não pode senão horrorizar-nos de como é. Mas como foi o quê? Em If My Heart Could Only Walk, talvez de como foi o espanto do primeiro gesto, da experiência inicial, a surpresa que se perdeu para dar lugar a uma entediante repetição: «o ritmo viciado / da vida – demasiado repetida / para que não deseje o tempo / enterrá-la novamente» (p. 14). A morte impõe-se, por fim, com uma clamorosa evidência. A morte está em tudo, no fundo é a única coisa que sempre esteve em tudo. Quando não é nomeada explicitamente, ela aparece no velório, no luto, no lixo, no cadáver, no funeral, no caixão, nas cervejas mortas e, mais uma vez, nas «paredes / em ruína». Poderá o poema fazer frente à avidez do tempo, recuperar à morte um pouco do seu alimento, roubar ao esquecimento o que parece para sempre perdido? Pessoalmente, creio ser negativa a resposta. E estes poemas, na relação narrativa que mantêm com o passado, provam apenas que nada podem resolver, que apenas podem emprestar à morte um pouco de vida, esse pouco de vida que é o reconhecimento da morte no poema. Mesmo quando se limitam a retratar o presente, ou, como há pouco dizia, quando tentam compreender esse presente a partir de um exercício de memória que nos envia para o passado, estes poemas geram esse pouco de vida que é o reconhecimento da morte em tudo quanto existe.quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
IF MY HEART COULD ONLY TALK
De Artur Aleixo tinha lido quatro poemas aparecidos no n.º5 da revista Telhados de Vidro (2005). Os mesmos quatro poemas reaparecem neste opúsculo intitulado If My Heart Could Only Talk (2007), composto, na sua totalidade, por vinte e três poemas breves com claras afinidades estéticas, diga-se de passagem, com muitos dos autores que têm sido publicados na Telhados de Vidro ou geralmente associados a uma poesia mais inclinada para a experiência, a memória e o quotidiano. Esses quatro primeiros poemas remetem-nos para um tempo passado onde se destacam gestos, de certa forma, inaugurais: «os primeiros buracos / para jogar ao berlinde» (Abafadores), «as primeiras baforadas / de fumo» (Lume), «o primeiro cálice / de ginja» (Buttercookies), «os primeiros chutos / numa bola» (Chutos). Somos levados a pensar serem estes poemas sobre a infância, mas rapidamente mudamos de opinião. O que há nestes versos, quando a memória recorre à infância, à adolescência ou à juventude passadas, é antes uma tentativa de compreensão do presente. Esse investimento realiza-se a partir de um exercício de memória que parece ter mais como fim a disposição do presente, através de uma viagem pelo tempo, do que a explicação/demonstração do passado, à luz de retratos possíveis de experiências perdidas. O tempo, esse implacável ditador que tudo arruína, aparece em múltiplas coordenadas: o relógio e o calendário serão, talvez, os objectos que o indicam de modo mais evidente. Mas em todos os poemas surgem termos que, de modo menos directo, nos remetem para essa implacabilidade. O esquecimento, em contraponto com o magma dos poemas, ou seja, a memória, assim como as «paredes / em ruína» - imagem muito frequente em alguma da poesia portuguesa contemporânea, nomeadamente a de pendor mais elegíaco -, é também indicador desse percurso. Atentemo-nos a esta Arte Poética: «Quando a memória me deserda / do presente, reclamam-me os poemas. / Palavra a palavra, ergue-se a forma / devoluta das cidades – recomeça a paixão» (p. 28). O poema surge, deste modo, de uma privação, de um deslocamento, talvez de uma incompreensão ou mesmo de uma inaceitabilidade do presente. Este sentimento pode explicar-se de um modo algo simplista: lembrarmo-nos de como foi não pode senão horrorizar-nos de como é. Mas como foi o quê? Em If My Heart Could Only Walk, talvez de como foi o espanto do primeiro gesto, da experiência inicial, a surpresa que se perdeu para dar lugar a uma entediante repetição: «o ritmo viciado / da vida – demasiado repetida / para que não deseje o tempo / enterrá-la novamente» (p. 14). A morte impõe-se, por fim, com uma clamorosa evidência. A morte está em tudo, no fundo é a única coisa que sempre esteve em tudo. Quando não é nomeada explicitamente, ela aparece no velório, no luto, no lixo, no cadáver, no funeral, no caixão, nas cervejas mortas e, mais uma vez, nas «paredes / em ruína». Poderá o poema fazer frente à avidez do tempo, recuperar à morte um pouco do seu alimento, roubar ao esquecimento o que parece para sempre perdido? Pessoalmente, creio ser negativa a resposta. E estes poemas, na relação narrativa que mantêm com o passado, provam apenas que nada podem resolver, que apenas podem emprestar à morte um pouco de vida, esse pouco de vida que é o reconhecimento da morte no poema. Mesmo quando se limitam a retratar o presente, ou, como há pouco dizia, quando tentam compreender esse presente a partir de um exercício de memória que nos envia para o passado, estes poemas geram esse pouco de vida que é o reconhecimento da morte em tudo quanto existe.terça-feira, 29 de janeiro de 2008
FULL METAL JACKET
Ainda nos encontramos na fase da recruta, ainda não fomos enviados para o cenário de guerra, continuamos a engraxar as botas, a ultrapassar obstáculos, a limpar as armas, a acertar o passo. Quando formos enviados para o cenário de guerra, já que teremos sempre de ser enviados, não podemos fazer as nossas próprias guerras, como quisermos, onde quisermos, contra quem quisermos, quando formos enviados, dizia, bastar-nos-á um carregador cheio de balas. É tudo quanto necessitaremos para que a guerra possa ser feita. É tudo. Nem sequer precisaremos de um inimigo. Com um carregador cheio de balas a gente inventa um inimigo, a gente faz uma guerra. Se for preciso, voltamo-nos contra nós próprios, fazemos alvo das nossas frustrações, dos nossos recalcamentos, da nossa fúria acumulada, como uma dor conservada até ao limite dos prazos em que as dores expiram. Porque as dores têm um prazo, têm um dia de deixarem de ser dores para passarem a ser outra coisa qualquer, talvez uma simples margem de erro ou mesmo um prazer. É provável que o prazer seja uma dor fora de prazo. Enquanto a dor não se estragar, enquanto for consumível, nós continuaremos a engraxar as botas, a ultrapassar obstáculos, a limpar o soalho das casernas, a organizar os objectos, a treinar a pontaria. Até onde aguentaremos a dor, não sei. Os limites suportáveis da dor são subjectivos, adaptam-se à indiferença com que cada um lida com os seus sentimentos, com as suas emoções, com a sua racionalidade. Em certos casos, o limite suportável da dor é um grito. Noutros casos é um poema. Há também quem tenha por limite suportável da dor um assobio. Sei mesmo de um coveiro que tinha por limite suportável da dor uma mijadela nas campas que abria, como se quisesse tratar a cama dos mortos com o poder curativo da urina, como se lhes estivesse a purificar o caminho, como se lhes fosse queimar as feridas. Um morto é um morto. Qual será o limite suportável da dor de um morto? Dirão a dignidade com que morre, como se houvesse dignidade na morte. Julgo que o limite suportável da dor de um morto está no modo como os vivos lhe olham a morte, no modo como lhe preparam o esquecimento, no ódio ou no amor com que o abandonam aos vermes. O limite suportável da dor de um morto está nos vivos. Talvez o limite suportável da dor dos vivos esteja nos mortos. Porque há sempre uma certa indiferença na espinha curvada, na conformação com as regras do jogo, há sempre uma certa indiferença na vontade que se predispõe ao adestramento. É assim desde muito cedo, desde que aprendemos a andar de pé, desde que aprendemos as primeiras palavras, reagindo aos estímulos que nos preparam o cenário da observação e da imitação. Árduo será o caminho daquele que ouse transgredir todo esse percurso, buscando uma razão para os seus olhos secos de indiferença, tentando recuperar a verticalidade da espinha, deixando sobre o tapete a sujidade das botas, recusando-se a limpar as botas, ficando apenas e tão-só gozando o ritmo das suas dores. Se a história não se deixa marcar pela insignificante resignação dos desesperados, então que marquemos a história com o nosso sofrido desespero. Basta-nos um carregador cheio de balas, um gesto afirmativo, uma recusa. Mesmo que desse lugar sem nome ressoem as gargalhadas estridentes dos mortos à sombra dos nossos gestos. Afinal, a única coisa que temos a perder já está de todo perdida: a nossa própria vida.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
TRATAMENTO DE CHOQUE
A americana Karen Finley (n. 1956) é performer, gravou alguns discos, “artista de variedades” e mais um punhado de laborações entre as quais se destaca a escrita de livros. Em 1990 publicou este Tratamento de Choque, traduzido para português por Jorge P. Pires e publicado, em 2003, pela Frenesi. Tal como o título indica, a escrita de Karen Finley tem aquela característica peculiar de quem escreve num regime catártico onde só não vale arrancar olhos e rastejar aos pés de um sublime que se contente com plumas metafóricas e frases perfumadas. As ilustrações que acompanham os textos são tão incisivas, espontâneas e enérgicas quanto os próprios textos. Esses, aparecem divididos em quatro conjuntos: O Constante Estado de Desejo, A Família que Nunca Existiu, Citações de uma Fêmea Histérica, Orações Modernas, Mantemos as Nossas Vítimas Prontas. Podem classificar esta escrita de obscena, abjecta, pornográfica, irrisória, iconoclasta e heterodoxa, que ninguém poderá contestar-vos. Tudo porque a realidade que lhe serve de objecto é muito mais abjecta, obscena e pornográfica do que a escrita que a encena. Entre os temas focados nestes textos, estão violações, suicídios, o aborto, relações de poder e jogos de domínio, sexo, a vida doméstica, estilos de vida, desordens familiares, a educação, retratos sociais decadentes, o lado mais sórdido do mundo político, etc. «E eu digo «Doutor, a vida é um tratamento de choque»» (p. 53). São retratos da vida, pintados sem contemplações através de um prisma feminino onde a condição da mulher nas sociedades burguesas, tipicamente machistas, se evidencia pela assunção de um lugar que é o lugar da vítima, da violada, da deslocada, da estigmatizada. Esse estigma é o da mulher reduzida à sua condição materna, submissa de um conceito de família que a adestra no sentido de uma recusa de si própria em função dos filhos e do marido: «Proponho que as mulheres regressem à Natureza e mijem também em público. Usem saias amplas e compridas sem nada por baixo, abram as pernas, deixem-no escorrer e vão-se embora. Mijem em todos os museus de arte que não representem equitativamente as mulheres e as minorias. Mijem em todas as cabinas de voto onde haja apenas machos brancos para eleger, e mijem em todas as estações de rock clássico que apenas passem música de grupos de machos brancos. Depois, quando as mulheres obtiverem finalmente o direito de mijar em público, poderemos reunir-nos para grandiosos encontros de mijo sobre os relvados da Casa Branca» (p. 94). O alvo de Karen Finley é toda uma estrutura social que se estende do Vaticano aos EUA, baluarte do capitalismo e, por consequência, da exclusão das minorias. É a Eva condenada quem grita nestes textos. Não é pois de estranhar que a mulher apareça colocada no mesmo saco dos excluídos, na medida em que aqui ela ainda é tomada como uma máquina parideira ao serviço da estrutura familiar. Circunscrita à sua função materna, a mulher fica encerrada na mesma masmorra dos escravizados, dos explorados, dos condenados ao ostracismo. Ela torna-se apenas objecto de desejo, propriedade privada dos homens, figuras dominadoras em torno das quais a sociedade capitalista foi sendo arquitectada. «E esqueçam Deus e a religião / porque tudo quanto fazem é representar as fantasias dos homens / que perpetuam o ódio às mulheres e aos gays / Quero um deus homossexual / Quero uma deusa fêmea / Quero um deus lésbico / quero um deus negro / Quero uma deusa morena / Quero um deus amarelo / Quero uma deusa vermelha / Quero um deus à imagem dos humanos reais, aqui, agora» (p. 126). O que se revela extraordinário nestes textos de Karen Finley é a sua componente teatral. Eles estão escritos como quem os berra a alta voz, como quem grita, como quem, impelido por uma explosão há muito contida, já não consegue reprimir ou recalcar a dor que transporta dentro. Mas importa esclarecer que quando me refiro a uma componente teatral não quero com isso estetizar uma escrita que não aceita esse tipo de rotulagem. Pretendo antes relevar o facto de serem textos que ostentam uma componente oral estrondosa, sem qualquer tipo de concessão, sem pruridos morais. A moral destes textos é a paisagem que encenam, ou seja, é a paisagem de um mundo diariamente maquilhado e disfarçado nas suas injustiças, contradições e arbitrariedades. O que a autora de Tratamento de Choque faz, como quem limpa a maquilhagem de um rosto, é mostrar-nos as rugas e os pontos negros, as cicatrizes e os eczemas da sociedade em que vivemos.terça-feira, 22 de janeiro de 2008
SON FRÉRE
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
JOÃO ALVES
O SANGUE DE SIMONE
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
O QUADRO NEGRO
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
PREFERÊNCIAS
Muito bem. Sabemos que no ano que passou tiveste 10 livros preferidos, 10 filmes preferidos, 10 CDs preferidos. Que mais tiveste tu, nessa vidinha de preferências, que mereça uma lista de 1 a 10? Não te exigimos 10 sabonetes preferidos, nem as 10 noites mais bem dormidas do ano. Pedimos-te apenas que, além dos livros, dos CDs e dos filmes, partilhes connosco, pelo menos, 10 factos que te tenham agarrado à vida. Não me digas que a tua vida é uma ludoteca!
PREVISÃO
Prevejo que, em 2010, terás pelo menos 10 livros, CDs e filmes preferidos para partilhar com o mundo. Mas também prevejo que, nesse ano, não resistirás a um balanço da primeira década do século XXI. Chama-me bruxo.
MEMÓRIA
Agora que já sei quais foram os teus livros, CDs e filmes preferidos de 2008, gostaria mesmo de saber quais foram os teus filmes, CDs e livros preferidos de, vá lá, 1992. Será que ainda te lembras?
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
PASTOR DE RENAS
sábado, 5 de janeiro de 2008
VIDAS
Queria apenas dizer: uma coisa. E disse. Não sabia o que pensar sobre o assunto. E não pensou. Mas tinha que escrever algo sobre isso. E escreveu. Depois deitou-se cansado, dormiu descansado, acordou de novo, morreu de velho. Há vidas incríveis.
DUAS PEQUENAS EDIÇÕES
Poemas de António Cardoso Pinto, António José Queirós, Artur F. Coimbra, António Salvado, Carlos Vaz (em prosa), Cláudio Lima, Daniel Gonçalves, Gonçalo Salvado, Graça Pires, Isabel Wolmar, José d’Encarnação, Juliana Miranda, Luís Raposo, Maria Augusta Silva, Maria do Sameiro Barroso, Maria João Fernandes, Maria Teresa Dias Furtado, Maria Teresa Horta, Pompeu Miguel Martins, Rui Lage, Victor Oliveira Mateus e Helena Langrouva evocam, num tom genericamente compassivo, o Deus Menino, Jesus, Belém, os anjos, o milagre, Dezembro e o Inverno, os reis magos, promessas, estrelas, «a ceia posta na mesa alva», crianças a sorrir, presépios, «sinos a tocar à meia-noite», muito amor e alguma palha. São poemas que, na generalidade, não escapam ao lirismo da época. É pena, se tivermos em conta o facto de que, hoje em dia, só mesmo alguns poetas ainda logram ver no Natal esse lugar de meditação e introspecção que nos absolve das pragas do mundo. Aproxima-se do espírito natalício actual o poema de Rui Lage, cujo título, Deixemos arder o pinheiro de Natal, é sintomático de uma época desferida contra a ingenuidade de uns poucos, a depravação de tantos e a hipocrisia de quase todos: «É grande o desgosto dos reis magos / junto ao regato de celofane azul: / já do colmo da manjedoura / tomam conta as labaredas, / propagam-se ao pinheiro de Natal / com suas bolas vermelhas, / estrela na ponta e luzes coloridas // compradas num comércio de província, / antes dos centros comerciais / com prendas de última hora / para primos afastados e outros / animais de estimação». Há ainda fotografias, ilustrações e desenhos de Ângela Mendes Ferreira, César Taíbo, João Artur Pinto, João Luís Dória, Júlio Cunha, M. Helena Delgado, Nuno Canelas, Ricardo Cunha e Mário Bruno Cruz. Agradou-me a fotografia de Ângela Mendes Ferreira, intitulada Contra o esquecimento dos burros, particularmente relevante, creio, numa época que muito se presta a atenções tão imprevistas quão transitórias.
Nada transitória, como sabemos, é a dedicação aos livros de algumas casas que se confundem com quem nelas habita. António Barreto, na apresentação de Uma Luz de Papel, narra-nos, com suma brevidade, a sua história com a Livraria Académica, nomeadamente a partir da relação que estabeleceu com Nuno Canavez, proprietário daquele espaço - parte integrante da vida cultural da cidade do Porto e da arte de tratar os livros em Portugal. Entre as fotografias de Renato Roque, surgem poemas em verso de Ana Luísa Amaral, Jorge Sousa Braga, Filipa Leal, Inês Lourenço, João Pedro Mésseder, Carlos Alberto Braga, Jorge Velhote, Manuel António Pina e pequenas prosas de Manuel Jorge Marmelo, Emílio Remelhe, José Rui Teixeira, Mário Cláudio, Regina Guimarães e Teresa Tudela. Sendo o pretexto da edição o aniversário de uma livraria, natural que os temas sejam os livros e quem os cultiva. Recordo-me de aqui haver confessado a minha preferência pelas feiras de velharias em contraponto às feiras do livro, mas não me lembro de vos ter contado da minha paixão pelos alfarrábios. Usurpando os versos a Inês Lourenço, os livros usados trazem, de facto, mais uma história por contar. Terem circulado por outras mãos, confere-lhes uma força de vida que a novidade ainda não tem. Um livro velho é um livro resistente, faz-nos acreditar - quase como um acto de fé que, por ser isso mesmo, sabemos improvável - na possibilidade de uma existência que perdure para lá da implacável efemeridade de todas as coisas. Talvez por serem o receptáculo das ideias, os livros surgem-nos como um corpo imortal; ou, pelo menos, como o mais imortal dos corpos. Entrar num antiquário, num alfarrabista, oferece-nos essa experiência limite que é a constatação de que, para lá da fugacidade da nossa passagem pela terra, há no mundo um lugar onde o esquecimento perdurará… Até que uma mão, puxando-o da prateleira, o faça reviver na enca(de)rnação da memória.segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
A VELHA E OUTRAS HISTÓRIAS
Ando há dias às voltas com um texto sobre A Velha e Outras Histórias, colectânea abrangente do trabalho literário de Daniil Harms, traduzida e organizada por Nina Guerra e Filipe Guerra. Não me é fácil escrever sobre o autor, muito menos sobre as palavras que deixou escritas. Acontece-me sempre com autores que admiro para lá do que a razão logra sustentar. É assim com a obra de Harms, a qual exige, julgo, uma grande dose de paixão ao leitor que ouse entregar-se nas suas mãos. Não se trata de um autor hermético, nem de um surrealista pouco mais que indecifrável. Trata-se, antes, de um dos grandes mestres do absurdo, mas daquele absurdo com um cunho existencialista que põe constantemente à prova os nossos preconceitos lógicos e morais, a nossa fé e a nossa vontade. Se não me engano, tomei conhecimento da sua existência através da extinta Periférica. Procurei o que havia disponível do autor em língua portuguesa e encontrei as Crónicas da Razão Louca (1994) – grande título – na colecção memória do abismo da Hiena Editora. Com a leitura desse pequeno volume, seleccionado e traduzido por Sérgio Moita, adensou-se o espanto e a admiração pelo universo harmsiano. O que há na obra de Daniil Ivánovitch Iuvatchov (1905-1942) que o justifique? Nada. Quando justificados, o espanto e a admiração perdem significado, deixam de ser espanto e admiração para passarem a ser outra coisa qualquer que, muito simplesmente, resulta na banalização do que apenas faz sentido enquanto resiste à banalidade. Alguns aspectos da vida do homem são significativos. Nasceu e sobreviveu, até poder, na opressora sociedade soviética; integrou um grupo de poetas experimentais, do qual se afastou para fundar uma não menos experimental – se relativizarmos o conceito – associação de artistas: a OBERIU (Associação da Arte Real); sofreu o ostracismo que muitos, como ele, sofreram naqueles tempos em que a arte ainda era temida, tendo, em consequência disso, vivido miseravelmente; foi preso duas vezes, a última das quais culminando no seu misterioso desaparecimento num hospital psiquiátrico. Filipe Guerra, na introdução, informa-nos que: «As raízes artísticas de Harms estão bastante bem estudadas pelos especialistas, e são sobretudo Gógol, Dostoiévski, Saltikov-Chedrin, Hamsun, Carrol. Pode ter-se também a ousadia de se considerar Harms o representante russo – casual ou não – do surrealismo» (p. 10). Talvez não menos ousadamente o possamos considerar um dos maiores representantes da chamada literatura do absurdo – no que ela se toca com o existencialismo -, juntamente com Samuel Beckett (1906-1989), Albert Camus (1913-1960) ou Eugène Ionesco (1909-1994). A verdade é que a obra de Harms, tal como todas as grandes obras, excede as fronteiras delimitadoras dos géneros que, ao longo dos tempos, vão permitindo organizar o caótico mundo da criação humana. Podemos apenas ter em conta a novela que Nina Guerra e Filipe Guerra destacam no título desta colectânea, para facilmente chegarmos a algumas conclusões: o humor (geralmente negro), o absurdo, o caricato, a alucinação, o grotesco, o fantástico, a justaposição de planos onde o real se confunde com o onírico, são apenas um recurso para confrontar o leitor com a ausência de sentido que se esconde por detrás da manta lógica com que nos protegemos da verdade mais gélida e cruel, ou seja, a de que a nossa existência é ilógica. Tudo se passa deste modo nas historietas, nos pequenos dramas, nas poesias de Daniil Harms. Se algum sentido almeja a nossa existência, então esse sentido apenas pode ser apontado na liberdade com que cada um constrói o seu mundo. Chego a esta conclusão e reparo que há uma curiosa coincidência entre as obras que mais me marcaram no decorrer de 2007. Quer estejamos a falar do filme As Vidas dos Outros, da música dos Gogol Bordello ou das histórias de Daniil Harms, assalta-nos sempre a vontade de, quebrando as regras (lógicas, sociais, culturais), rasgando as leis, conseguirmos conquistar a síntese única e irrepetível que nos distinguirá dos demais. Uma síntese que seja, acima de tudo, a prática de uma liberdade sempre ameaçadora, porque indomesticável. Uma síntese esclarecedora no limite das suas propostas. Resta dizer que as outras histórias que se juntam à novela A Velha são muitas e bastante diversificadas, entre as quais vários pequenos dramas, alguns anexos de manifesto interesse e, no final, três poemas.terça-feira, 25 de dezembro de 2007
AS VIDAS DOS OUTROS
domingo, 23 de dezembro de 2007
PEQUENOS MISTÉRIOS
Para quem preste alguma atenção ao universo da pequena história, o nome de Bruce Holland Rogers (n. 1958) há muito deixou de ser estranho. Amplamente difundido em território cibernético, nomeadamente através de um serviço de entrega de “short-short stories” por e-mail, Rogers nasceu nos EUA, vive em Inglaterra, ensina escrita criativa, é um conferencista activo, venceu vários prémios literários. De entre os prémios que lhe foram atribuídos, destacam-se dois World Fantasy Awards (em 2004 e 2006). Geralmente conotada com o fantástico, com o terror e com a ficção científica, a sua obra é bem mais heteróclita do que, à partida, qualquer um desses rótulos possa revelar. A colectânea Pequenos Mistérios, editada em Novembro passado pela Livros de Areia, dá conta da tendência experimental e da diversidade que caracteriza a prosa deste autor. São quarenta histórias (ou mais, já explico porquê), traduzidas por Luís Rodrigues, organizadas em cinco conjuntos intitulados: Histórias, Metamorfoses, Insurreições, Contos e Simetrinas. O último conjunto, na verdade, reúne várias short stories, agrupadas sob três títulos distintos, algumas delas configurando o que pode hoje ser apelidado de micronarrativa. Jeff VanderMeer, autor do prefácio, diz haver nesta organização uma sequencialidade que permite ao leitor «sentir o florescimento de uma espécie de epifania». Com ou sem epifanias, o que o leitor certamente sentirá é a presença de um contador de histórias invulgar. Do primeiro conjunto, destaco os contos Para leste e Os poetas menores de San Miguel County. São histórias aparentemente vulgares (uma viagem-surpresa, em família, rumo ao oceano Atlântico; uma conferência sobre Rilke a convite de uma associação de poetas), bem desenvolvidas e contadas num estilo que nada deve ao fantástico. Antes pelo contrário. Nestes dois contos sobressai um olhar melancólico sobre a vida quotidiana, assim como uma certa afectuosidade para com a singeleza dos gestos mais banais. No capítulo seguinte tudo é diferente. O género presta-se à parábola, ao humor, ao absurdo, à caricatura. Mas mais interessante é o facto do autor conseguir conter-se na hiperbolização das caricaturas, a ponto de, por diversas vezes, se tornar nitidamente poético. Estamos na região da metáfora, aqui praticada com superior desenvoltura. Note-se, a título de exemplo, no excelente conto Don Ysidro, onde um fabricante de potes à moda antiga, já morto, diz-nos como ainda hoje se encontra espalhado pelo mundo, fundido nos potes que fabricou e ajudou a fabricar. Esta dimensão poética, de resto, está presente em muitas das estórias de Bruce Holland Rogers, não apenas no conteúdo metafórico das situações, mas também na própria estrutura dos contos. É o caso de Invasões, um conto do conjunto Insurreições, que pode ser lido como uma espécie de poema em prosa. Há também contos escritos como se fossem receitas de culinária, confissões, questionários. Já no quarto dos conjuntos que compõem esta colectânea, a narrativa torna-se mais convencional, embora esta convencionalidade se revele meramente formal. Dois excelentes contos – Metade do Império e Quiabo, sorgo e inhame – dão-nos conta do gosto do autor pela história-exemplo, pela alegoria. No entanto, estas alegorias terminam sempre num tom irónico que resulta, assim, numa subversão dos códigos que determinam, geralmente, os remates moralizantes deste tipo de narrativas. Para o fim, Rogers guardou três lotes de histórias muito breves, algumas das quais, como disse, de tipo micronarrativo. Pequenos Mistérios é um dos livros mais deliciosos do 2007 que está prestes a metamorfosear-se em 2008.segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
INLAND EMPIRE
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
BAGAGEM DE MÃO
A confiar na nota biográfica disponível na Wikipédia, Vítor Nogueira (n. 1966) publicou o seu primeiro livro de poesia, A Volta ao Mundo em 50 Poemas, em 1999. Seguiu-se, com vários ensaios pelo meio, a colectânea Senhor Gouveia (2006) e, agora, este Bagagem de Mão. À poesia de Vítor Nogueira já tínhamos feito referência a propósito de Senhor Gouveia, pequeno volume publicado, sem surpresa, pela Averno (editora de Manuel de Freitas). Talvez não seja displicente relembrar o facto do autor ser director do Teatro de Vila Real, selo duma colecção de Poesia Portuguesa Contemporânea, iniciada em 2005, onde foram dados à estampa, até agora, livros de Manuel de Freitas, A. M. Pires Cabral, Jorge Gomes Miranda, Rui Pires Cabral, Carlos Bessa e Rui Pedro Gonçalves. Bagagem de Mão reúne dois conjuntos de poemas cujo elo de ligação é a cidade de Lisboa. No primeiro conjunto, intitulado Toponímia, encontramos 19 poemas que, de um modo sóbrio e sem qualquer tipo de exaltação poética desnecessária, retratam a capital portuguesa num percurso muito pessoal de ruas, alfarrabistas, lugares, esquinas, pessoas, calçadas, pátios, sítios, recantos, praças, travessas, facilmente reconhecíveis e identificáveis. Mas Vítor Nogueira não se limita a inventariar esses espaços geográficos, nem se restringe a uma mera evocação dos mesmos que poderia, de alguma forma, servir de pretexto ou sustento para a confissão lírica. Neste caso, o que encontramos é o olhar do visitante, o olhar daquele que habita apenas temporariamente os espaços referidos, é o olhar vagueado do intruso, daquele que, vindo de fora, de alguma forma nunca estará dentro, pois a sua condição é a de um “turista residente”. Esta condição ambivalente confere aos poemas um interesse que não é comum, pois aqui o que temos não é a repetição de uma perspectiva sobre a cidade – excelentes livros de poesia têm concedido tais panoramas -, aqui temos antes uma perspectiva, de certa maneira, nova, na medida em que é a óptica do forasteiro que se nos apresenta como sendo, ao mesmo tempo, a óptica dum deslocado. Mais interessante ainda é verificar que os poemas, de extrema lucidez e sem juízos dispensáveis, extravasam quase sempre a cidade, tornando-se esta suporte duma espécie de divagação que nos transporta para “perguntas sem resposta”, apontamentos ligeiramente irónicos sobre a nossa identidade, gestos denunciantes da condição social em que sobrevivemos. Leia-se, a título de exemplo, este A DESCOBERTA DA AMÈRICA: «Praça da restauração (letra minúscula, / 1640 já vai longe). / Cabemos todos nesta cidade perdida, Lisboa / inteira se preciso for. Há sempre espaço / para mais um neste ovo de Colombo. / E a democracia chega quase a ser bonita, / enfeitada com as cores da McDonald’s. // Andará talvez pelos sessenta o escritor / sem abrigo à minha frente. Alheio à esplanada, / tão espaçosa, tão capaz de fingir que ele não existe. / Invejo-o porque escreve sem parar, distante / dos meus versos encravados. Em redor, / o mecenato cultural dá-lhe dispensa de consumo / obrigatório. Mesmo assim, é quase sádico / o luzir do reclamo da Kentucky Fried Chicken. // Abandono, com remorsos, um escritor / mal abrigado. É triste dizê-lo, mas a Fnac / é agora a melhor das livrarias, a quase estúpida / razão de vir aqui marcar o ponto / durante as férias da Páscoa. Falta evitar / mais prejuízos no Continente que Colombo / por engano descobriu, a penúltima estação / deste calvário invertido, cujo cimo / é lá no fundo, o parque de estacionamento. // Eu, pecador, me confesso, expulso / pela escada rolante, enquanto a luz / vai surgindo estranhamente apetecível / no enlace da Segunda Circular» (p. 18). A tendência para o prosaico é evidente, nem outra coisa seria de esperar. O que realmente cativa no poema acaba por ser aclarado no segundo conjunto deste livro. Intitula-se esse conjunto Os Forasteiros Nunca Têm Razão, e é composto por mais 19 poemas. O que há de cativante no poema acima transcrito é a transferência desse sentimento individual de deslocação para todo um país, como se essa parte que já perdemos do que somos, quando penetramos num território que não é o nosso de origem, fosse também a parte perdida dum país que é já uma outra coisa qualquer, deslocada de si, perdida num qualquer labirinto em direcção a um futuro incerto, numa viagem temporal e espacial em direcção a um mundo «pequenino / como qualquer sala de estar» (p. 42).segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
CONTOS DE ALGIBEIRA
A antologia Contos de algibeira, organizada por Lais Chaffe, é o terceiro volume da Série Lilliput, que a Casa Verde tem vindo a publicar desde a sua fundação em 2004. Os primeiros volumes desta série foram Contos de bolso (2005) e Contos de bolsa (2006). Antes de mais, importa esclarecer que a Casa Verde é uma espécie de associação de escritores gaúchos cujo objectivo editorial, com especial incidência na micronarrativa, é apenas um entre os demais. São parte integrante da casa os escritores Caco Belmonte, Christina Dias, Filipe Bortolini, Laís Chaffe, Luciana Veiga, Luiz Paulo Faccioli e Marcelo Spalding. Neste simpático terceiro volume da Série Lilliput a novidade consiste na reunião de autores portugueses e brasileiros. Menos os de cá (cerca de 35), mais os de lá (70, se bem contei). A diferença é não só compreensível como justificável, se tivermos em conta o facto por demais evidente de há muito se cultivar no Brasil esse género que, entre nós, permanece algo obscuro e desprezado. Ainda assim, sabe bem observar nomes como os de Gonçalo M. Tavares, João Pedro Mésseder, Joel Neto, Paulo Kellerman ou Rui Zink, entre outros, com mais ou menos obra publicada, com mais ou menos visibilidade, com mais ou menos passos dados no agreste caminho das letras. Perante a diversidade, é normal que alguns textos nos interessem mais que outros. Soube-me bem verificar, por exemplo, que alguns autores conseguiram fugir com mestria ao fragmento anedótico. É verdade que, na maioria dos casos, o humor permanece a solução mais fácil e a graça o objectivo mais almejado; mas também não deixa de ser verdade que, noutros casos, esse humor atinge contornos negros, deixa-se contaminar pela ironia e algum cinismo, logrando assim a micronarrativa efeitos que ultrapassam já o da mera anedota. Felizmente, poderia dar mais que um exemplo. Cingir-me-ei, no entanto, a este enigmático § de Rafael Mota Miranda (n. 1984): «houve um tempo em que morríamos por escrito, lembras-te? em que matávamos com um ponto bem gravado da esferográfica no final da frase. trocávamos carícias entre vírgulas. bem sei. arredondávamos dúvidas, erguíamos espadas em resposta. hoje já não morremos por escrito. para isso, bem o sabes, era preciso que estivéssemos vivos» (p. 43). E se nos é possível afirmar que este texto se aproxima do poético, mais interessante ele se torna, precisamente, por arriscar o extravasamento das fronteiras que, geralmente, separam a narração da poesia. O mesmo sucede, a título de exemplo, com o texto Sophia, que o brasileiro Edson Cruz (1959) dedica à sua filha Sophia Miki: «O verdadeiro sábio diria que há caminhos no céu que só os pássaros conhecem, e como eles sabem se guiar, sem trombadas, a não ser quando um helicóptero os estilhaça em pleno vôo; o sábio realmente diria que há trajectos nos mares manjadíssimos pelos peixes, que sempre vão aonde desejam, se é que peixe deseja alguma coisa; peixe não chora, vocês já repararam?, embora alguns poetas em seus tankas vislumbrem lágrimas nos olhos dos peixes, mas que eles sofrem, sofrem; talvez, não mais do que nós, que não conhecemos caminhos nos céus, nem nos mares, muito menos na terra, a não ser aqueles caminhos manchados de sangue de nossa triste história recente e sem fim» (p. 74). Ora, quer-me parecer, estes dois exemplos são suficientes para demonstrar que de anedotário este Contos de bolso pode apenas receber parte da sua caracterização, não a melhor ou a pior, não a mais ou menos digna, mas apenas parte, pois o conjunto é suficientemente diverso para que não caiamos na tentação demasiado simplista de apelidar de anedota o que não busca a graça. É que, chegados a este ponto, já nem deveria merecer discussão aquilo que distingue, no osso, o riso da graça. O riso é sempre um desafio, atinge-nos no âmago da nossa ambivalência. Por isso lhe chamavam satânico. Já a graça é matéria de espírito, pode, sem dúvida, armadilhar-nos o próprio riso, quando o torna inócuo e insignificante. Talvez isso explique que nem sempre o que faz rir tenha graça, embora nos atinja sempre os nervos como uma energia incontrolável.