sábado, 29 de março de 2008
FINGIR
UM PREFÁCIO PARA ONTEM
Prefácio: Um Prefácio para Ontem
terça-feira, 25 de março de 2008
CARAVANA
Quando, em Julho do ano passado, me questionaram sobre dez weblogs que gostaria de folhear, referi, entre outros, as traduções de Daniil Harms aparecidas n’O Vermelho e o Negro e as short stories que Rui Manuel Amaral foi "ensaiando" no Dias Felizes. Era quase certo que as traduções de Harms, levadas a cabo por Nina Guerra e Filipe Guerra, viessem a ser publicadas - o que sucedeu no excelente volume A Velha e Outras Histórias (Assírio & Alvim). Quanto às estórias de Rui Manuel Amaral, não havia senão a convicção de que dariam um excelente livro. Aí está ele. É um livro desejado, que me deixa feliz, ainda mais por ser um livro bonito, equilibradamente ilustrado por Francisco Costa, com algumas surpresas gráficas no interior. Como diria um velho amigo editor, é um livro de bom toque. Vem à luz numa colecção de nos deixar a boca aguada, uma nova colecção de microcontos, a Microcosmos, da não tão nova editora Angelus Novus. Na mesma colecção já foi editado um outro título: A Ovelha Negra e Outras Fábulas, do mestre Augusto Monterroso. Fiquemos atentos. Para já, ladremos um pouco a esta Caravana. A pergunta impõe-se-me: o que há nas estórias de Rui Manuel Amaral que me faz gostar tanto delas? Não sei o que têm de especial, sei apenas que gosto delas, que as acho bonitas, gosto delas sem qualquer tipo de interesse que não seja o de gostar de ler estórias e de por elas me sentir atraído. São estórias que me deixam intrigadamente bem disposto. Dispenso qualquer tipo de teoria acerca das mesmas. Limito-me a inventariar alguns apontamentos ocasionais: a) há uma destreza rara na forma como Rui Manuel Amaral trabalha o nonsense, fazendo uso de uma ironia deveras subtil mas subversiva; b) influências do humor de Gógol e do absurdo harmsiano são óbvias, sem que se sobreponham à singularidade do autor; c) alguns textos, como A Conspiração dos relojoeiros, remetem-me para a poesia de Jorge Sousa Braga, outros - penso, nomeadamente, em Maçã - dialogam bem com a Teoria das Cores, de Herberto Helder; d) a literatura é assunto recorrente, embora apareça como pretexto para uma espécie de atentado contra os lugares comuns e as ideias feitas que delimitam esse território da criação humana; e) algumas estórias aproximam-se da vulgar anedota, casos de Amor platónico (meticulosamente deixado na p. 69) e O meteorologista; f) o autor socorre-se frequentemente do trocadilho, aproveitando-se dos duplos significados de uma mesma palavra, como na História de uma beata, ou adulterando certas expressões dúbias do uso quotidiano: «a hora da morte anda ligeiramente adiantada» (p. 13), «possuía uma mente absolutamente iluminada, capaz de assegurar o fornecimento de luz a uma cidade de 100.000 habitantes» (p. 40), «A qualidade da voz da sua consciência ultrapassava largamente a dos melhores cantores líricos do seu tempo» (p. 53), «sonhou tão alto que bateu com a cabeça no teto e morreu» (p. 55), «a esperança, que costuma ser a última a morrer, há muito que se tinha posto a mexer para o outro mundo» (p. 83), etc.; g) o melhor destes microcontos (e esta é apenas uma forma de nos referirmos a estes textos) é o modo perverso e invulgar como dão lógica a um mundo que, sem disso se dar conta, é radicalmente ilógico. Sobre este último ponto quero apenas reforçar a ideia de que um olhar atento ao mundo descobre nesse mesmo mundo regras que escapam à maioria dos olhares. Tais regras, creio, são o que nos faz acreditar, por vezes, na realidade como uma imitação da ficção. Nas estórias de Rui Manuel Amaral, nem uma coisa nem outra. Estas reflectem antes uma realidade que apenas nos parece extraordinária por estarmos tão embrenhados nela que nos escapam os seus absurdos, os seus disparates e as suas contradições. O paradoxo nunca foi o oposto da verdade ou da realidade, ele é apenas uma realidade tão verdadeira quanto outra qualquer. Se o evitamos, é apenas para que possamos seguir caminho escondidos da nossa própria natureza. Não é outra a história da caravana humana: dissimular a sua própria natureza. Tudo isto enquanto os cães ladram e os gatos miam.sexta-feira, 21 de março de 2008
A NEO-PENÉLOPE
Em entrevista recentemente publicada no Diário de Notícias, Ana Hatherly (n. 1929) afirma que «o poeta, como emblema do criador, persegue todos os símbolos, todos os vestígios, ou seja, toda a memória que corre no seu sangue, e para além do espelho inventa o inaudito». No seu livro mais recente, a esposa de Ulisses, enquanto símbolo de uma certa condição feminina, é perseguida e reinventada. Talvez mais que reinventada, seja esta fiel e extremosa esposa desconstruída: «Não tece a tela / Não fia o fio / Não espera / Por nenhum Ulisses» (p. 15). Hatherly, nome que ficará inevitavelmente na história da literatura portuguesa, mais que não seja pelo pioneirismo na exploração de linguagens poéticas menos comuns, da poesia experimental ao barroco, passando pelas formas poéticas enraizadas nas filosofia e cultura orientais, propõe-nos em A Neo-Penélope uma revisão dos códigos que ainda hoje delimitam o modo como a feminilidade é perspectivada. Três conjuntos de poemas compõem a obra: Poemas Femininos, Alice no País dos Anões, Epigramas e Sátiras. A ligá-los encontramos essa intenção de repensar o feminino, quer a partir de simbologias instituídas – do mito de Penélope à fantasia de Alice -, quer através de um olhar minuciosamente irónico e satírico sobre a actualidade. Talvez não seja descuidado, provavelmente contra a vontade da autora, falarmos de um certo tipo de feminismo que sobressai nestes poemas, embora mais correcto seja falarmos antes de um olhar lúcido e consciente sobre a condição das mulheres ao longo dos tempos. Até porque mais do que reivindicarem uma aproximação entre os géneros, os poemas de A Neo-Penélope sublinham a especificidade de ser(-se) mulher: «A mulher é e não é / A campeã das gatas: / Pode encolher as unhas (ou não) / Mas o seu arco-íris da invenção / Exige mais do que / Um tapete de peluche / Para o ron-ron» (p. 13). O tom, geralmente irónico, permite à poetisa colocar-se no papel de uma Penélope que espera por algo que nos escapa. Não sabemos por quem espera ou por que espera, sabemos apenas que espera um outro, um TU ou, na sua forma mais paradoxal, um TU-EU, anunciados precisamente em maiúsculas. Este TU, dificilmente alcançável, impedido por uma espécie de reclusão interior, intimamente conflituosa e aparentemente insanável, surge-nos também como objecto amoroso. Deste modo, o amor é, no tempo e no espaço da neo-Penélope, uma força do desejo que o corpo indaga, uma aposta nem sempre ganha mas absolutamente fundamental. Leia-se, a título de exemplo, este perturbante Sem Amor: «Viver sem amor / É como não ter para onde ir / Em nenhum lugar / Encontrar casa ou mundo // É contemplar o não-acontecer / O lugar onde tudo já não é / Onde tudo se transforma / No recinto / De onde tudo se mudou // Sem amor andamos errantes / De nós mesmos desconhecidos // Descobrimos que nunca se tem ninguém / Além de nós próprios / E nem isso se tem» (p. 26). O que de algum modo é recusado é a subversão do papel do amor. O amor não implica uma entrega incondicional e passiva, ele não admite a atitude submissa que, para mal dos nossos pecados, foi desde sempre incutida na mulher que espera (ou deve esperar), na mulher que se entrega (porque é seu dever entregar-se), na mulher educada para prescindir de si própria em função do homem que ama. Ao longo da história da humanidade, o papel atribuído à mulher foi, quase sempre, o de uma inaceitável submissão. Por vezes, essa submissão aconteceu em nome do amor, como se o amor pudesse ser uma força que escraviza ao contrário de uma força que liberta. Urge subverter tais paradigmas, quebrar as regras já não num mundo de sonho, como sucede com Alice, mas na própria realidade. Alice é um pretexto, um protótipo do feminino que encerra uma invenção, uma felicidade onírica, improvável, a mulher que não existe num país inexistente, o país das maravilhas. Alice é o feminino projectado a partir das aspirações masculinas numa sociedade erigida sobre princípios arcaicamente machistas, Alice é, mais que uma mulher a sonhar, o sonho de um homem.quarta-feira, 19 de março de 2008
A LENTA VOLÚPIA DE CAIR
Em A Lenta Volúpia de Cair, publicado pelas Quasi há um ano, Pedro Eiras (n. 1975) reuniu ensaios sobre poesia saídos anteriormente em revistas tais como Relâmpago, Textos e Pretextos, Colóquio Letras, A Phala, entre outras. À excepção do ensaio inicial, centrado numa reflexão sobre a natureza da poesia, todos os textos focam autores e obras respectivas, não negligenciando, também aí, a interrogação acerca da essência da poesia, do lugar do poeta, da natureza do poema. Num desses textos, Eiras junta três recensões a obras distintas cujo elo de ligação é a poesia de Herberto Helder. Outros autores abordados são Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen, Carlos de Oliveira, Fernando Echevarría, António Ramos Rosa, Fiama Hasse Pais Brandão, Armando Silva Carvalho, Manuel António Pina, António Manuel Pires Cabral, António Franco Alexandre, Luís Miguel Nava, Adília Lopes e Luís Quintais. São quase sempre abordados isoladamente, embora noutras ocasiões o sejam também comparativamente ou em diálogo com obras alheias. Este último processo de análise verifica-se em Faca partilhada (um diálogo entre as poesias de Sophia e de João Cabral de Melo Neto) e Viver o tempo (onde a poesia de Luís Quintais é interpretada à luz do cinema de Tarkovsky). Há ainda um curiosíssimo exercício, A «Litania» reescrita, dedicado às revisões do célebre poema de Eugénio de Andrade pelas vozes de Gastão Cruz e Manuel Gusmão. Pedro Eiras denota minúcia e inteligência na interpretação, agradando, mais ainda, por um certo risco no modo experimental como se coloca frente aos objectos de análise. Talvez essa experimentação seja o que mais encanta neste volume, não porque aligeire o carácter ensaístico da escrita – antes pelo contrário -, mas por cativar a leitura com uma clara capacidade de renovação dos métodos de análise. O mais evidente nestes ensaios é o gosto pelo paradoxo, a exclusão de qualquer chave interpretativa do poema, o que seria, aliás, contraditório com a própria natureza da poesia, a opção permanente por um esforço de desbravamento de novos territórios, novas hipóteses, novos caminhos. Não há, nos ensaios de A Lenta Volúpia de Cair, a presunção de uma certeza. Há antes uma disposição indagadora que desafia permanentemente o leitor do ensaio, ao mesmo tempo que o centra no desafio que o ensaísta estabelece com a obra ou as obras em discussão. Neste sentido, é especialmente relevante o ensaio de abertura. Ele funciona como uma espécie de pórtico para uma aventura, a aventura de quem ousa, mais que ler poesia, escrever sobre a poesia que lê. Essa aventura apenas resultará em algo profícuo se ficarem previamente definidas as regras do jogo. São essas regras, esses pressupostos, que Pedro Eiras estabelece no ensaio justamente intitulado O que é a poesia? Questão recorrente, como é sabido, e sempre sem resposta ou passível de múltiplas respostas, respostas que nos aparecem invariavelmente sob a forma de interrogações. Daí que o ensaísta deva, desde logo, resolver a possibilidade de alguns equívocos, assumindo que: «Perante o poema, perante o mundo, a ciência só é uma resposta adequada para certas perguntas. Partir do princípio de que o poema deve ser explicado, interpretado, perguntado é enganador. A verdade é apenas uma consequência longínqua, acidental, acessória do poema» (p. 16). Muito haveria a dizer acerca do que se segue, não é este o local mais indicado. Não posso, no entanto, deixar de evocar três ideias que ressaltam neste ensaio, ideias essas com as quais não concordo necessariamente mas que talvez sirvam para futuras discussões: 1. a poesia nasce no sagrado; 2. o regresso à ideia de inspiração; 3. a poesia é uma Queda, assim mesmo, com maiúscula. Em jeito de provocação, levantarei, a contraponto, outras três hipóteses: 1. a de que o sagrado nasce do profano; 2. a de que o regresso à inspiração pressupõe um abandono nunca consumado (aliás, partindo do princípio que a poesia seja uma respiração, ela deverá ser tanto inspiração como expiração); 3. a de que mais que uma Queda ou uma Elevação (ou uma Salvação), a poesia é um caminho na direcção de um horizonte indefinível.sábado, 15 de março de 2008
ÚLTIMA HORA
terça-feira, 11 de março de 2008
BIG ODE #4
quinta-feira, 6 de março de 2008
A MINHA VIDA
sábado, 1 de março de 2008
PRIMEIRA ANTOLOGIA DE MICRO-FICÇÃO PORTUGUESA
Está pronta a Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa (Exodus), com selecção e organização de Rui Costa e de André Sebastião. O prefácio é meu. A primeira impressão é de que se trata de um volume, o segundo da colecção Anti-Matéria, graficamente cuidado (detectei uma gralha) e bem organizado. Para primeira antologia, pode-se dizer que apresenta um leque diversificado de autores. Diversificado nas propostas e no matiz geracional. Nascidos entre 1942 e 1984, marcam presença: Alcides, Alexandre Au-Yong Oliveira, Fernando Dinis, Fernando Esteves Pinto, Fernando Gomes, Filipe Guerra, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Lourenço, João Carlos Silva, Luís Ene, Maria João Lopes Fernandes, Paulo Rodrigues Ferreira, Paulo Kellerman, Pedro Afonso, Pedro Amaral, Rafael Mota Miranda, Rui Almeida, Rui Costa, Rui Manuel Amaral, Rute Mota, sara Monteiro e Sónia Duarte. Objectos deste género obrigam a opções sempre discutíveis. Importa salientar que o propósito final, explícito no título, não seria o de fazer uma antologia da micro-ficção portuguesa, mas apenas uma antologia de micro-ficção portuguesa. Os autores seleccionados não configurarão o panorama da micro-ficção em Portugal, mas complementam, certamente, uma paisagem agradável com muitos caminhos ainda por explorar. Seria fastidioso falar detalhadamente sobre cada um deles, pelo que limitar-me-ei a apontar algumas pistas de leitura. Agradou-me o erotismo heterodoxo de Alcides, mais pelo trabalho de linguagem que o texto propõe do que especialmente pelo texto em si. Os policiais de Alexandre Au-Yong Oliveira são uma boa surpresa, denotando também um certo gosto pela experimentação dentro de um género que, reduzido à escala da microficção, é deveras problemático. Fernando Dinis divide-se entre o poema em prosa e o miniconto de carácter mais convencional. Fernando Esteves Pinto opta pelo registo aforístico e por diálogos arrancados ao quotidiano pessoal. O humor, em múltiplas modalidades, é a marca mais óbvia dos textos de Fernando Gomes. Gostei especialmente de Os malefícios do spam, por arriscar no malfadado território da pornografia (alguns chamam-lhe brejeirice, eu chamo-lhe devassidão). Filipe Guerra, mais conhecido como tradutor, é outra boa surpresa. Oferece-nos alguns exercícios de tipo harmsiano (de Daniil Harms, para os desprevenidos). Sobre mim, por enquanto, ainda não falarei. Inês Lourenço é outra presença surpreendente, pelo simples facto de estarmos mais habituados a lê-la em verso. Pequenas prosas marcadas pela ironia e, num caso, pela mensagem de cariz feminista. João Carlos Silva é um caso sério de humor negro, optando por remates tão filosóficos quão sarcásticos. Muito bom. Luís Ene opta igualmente por um registo aforístico, embora de tempero zen. Horas Felizes é um bonito texto. Depois há a prosa diarística, tantas vezes em registo micro, aqui representada por Maria João Lopes Fernandes. Paulo Rodrigues Ferreira, que acabou de publicar um e-book na Minguante, domina razoavelmente o humor de tonalidades mais escuras. Já Paulo Kellerman dá continuidade à inclinação melancólica que lhe conhecemos de outras paragens. A colaboração de Pedro Afonso transporta-nos para o lado crepuscular da microficção, esse lado onde a poesia e a narrativa se confundem. Excelente surpresa, são os textos de Pedro Amaral: ficções onde o absurdo serve mais para falsificar a realidade do que para caracterizá-la. Excelente. Rafael Mota Miranda é proporcionalmente poético (assim a modos que o'neilliano) e picaresco. As ficções de Rui Almeida também não enjeitam o poético, ainda que disfarçado por um tom que justapõe uma certa moral ao cómico. Rui Costa lança-nos a imaginação para o domínio da fábula e Rui Manuel Amaral domina como nenhum outro o absurdo característico das short stories de Daniil Harms. Seguem-se Rute Mota, com narrativas balouçando entre a comoção e o irónico, Sara Monteiro, com textos alicerçados na metáfora e, talvez por isso, remetendo-nos para o universo do poema em prosa, e, por fim, Sónia Duarte, com três ficções onde alguns sinais da actualidade são subtilmente satirizados. Dito isto, resta parabenizar os organizadores pela iniciativa e sugerir aos eventuais interessados a busca do objecto.BALUERNA 29
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
BÍBLIA
− Você já leu a Bíblia?
− Não me parece que a Bíblia seja um livro que se leia. São muitos livros que se vão lendo.
− Mas leu ou não leu?
− Li alguns livros.
− É que ninguém pode falar da Bíblia sem a ter lido?
− Concede-me o direito de falar sobre os livros da Bíblia que li?
− Não. É que você diz que ele perdeu a fé.
− Não sou eu que digo, é ele. Não é uma interpretação, é uma citação.
− Mas onde é que ele diz isso?
− Você leu a obra?
− Li alguns versos avulsos.
− Sendo assim, você só poderá falar avulsamente da obra dele.
− Sabe, eu acho que ele morreu novo porque perdeu a fé.
− Sabe, eu acho que Jesus morreu ainda mais novo porque tinha fé a mais.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
SURDOS E MUDOS
Jornalista: Nunca se sabe.
TUDO
Tudo é uma palavra enorme, pesada, uma palavra sem oponentes, onde cabem sinónimos e antónimos, é uma palavra englobante, uma palavra que engloba, inclusive, a palavra nada. Daí que tudo se confunda tanto com nada, do mesmo modo que nada se confunde com tudo. Por isso dizemos que o branco afirma o negro e vice-versa, que a noite declara o dia e vice-versa, que o homem explica a mulher e vice-versa, que entre todos os opostos há, talvez, um lugar crepuscular, indecifrável, fonte de poesia. Mas mesmo esse lugar indecifrável cabe em tudo, pois tudo é tudo, não pode deixar de ser também o lugar indecifrável que se intrometerá entre tudo e nada, sob pena de, deixando de ser também esse lugar, deixar de ser tudo. De Luís Paulo Meireles sabemos tudo, ou seja, nada. A nota de abertura assinada por Henrique Delgado, outro acerca do qual sabemos nada, ou seja, tudo, faz dele autor transmontano/migrante, «contemporâneo de m.parissy, José Luís Peixoto e Nuno Rebocho» (sic). Sabemos ainda que publicou em projectos editoriais obscuros tais como non nova sed nove e cadernos de ibn mukhane, prorrogando a obscuridade com O Portão (ed. Autor, 2000) e, mais recentemente, com Tudo (Canto Escuro, 2008). Restam-nos os poemas, porventura o que mais interessa, esse pouco mais que nada com o qual pretendemos ocupar algum do nosso tempo. São poemas breves, de verso curto (à excepção de três prosas, ou de três poemas de verso menos contido), que nos lembram, por vezes, ladainhas e lengalengas sem intenções curativas que não sejam as de recitar, ao sabor do acaso e quando convém, os segmentos da existência que nos acompanham no tempo. Mais ou menos explicitamente, estão estes poemas repletos de memórias, ou, melhor, de uma «memória esfomeada» (p. 12) que resiste ao tempo, à brancura do esquecimento, que luta contra o medo dos náufragos. «Sobrevivente do naufrágio o homem» (p. 15) que escreve olha o mundo, recorda o passado, evoca os ausentes, aguarda o fim como quem cumpre tudo sem nada: «não tenho nada a escrever nem nada a conservar / desatam as recordações esquecidas na velha mala / a lutar no tempo na espera do meu destino / deito tudo fora e mergulho numa visão enganadora / a vida é uma mentira / fugindo das regras / fumando ervas loucas / árvore resistente e valente / apanho as sobras podres / lançadas no banquete da vida / e os homens vomitam palavras no jogo real / onde só sabem dos dados e cartas viciadas» (p. 21). Como é possível, não tendo nada a escrever, deitar tudo fora? Será tudo o que se deita fora apenas um gesto de abnegação ou antecipação do nada que a morte anuncia? O homem olha para trás, revê-se como um fantasma na reminiscência sombria da infância, da mãe perdida, viaja pelo tempo até aos abismos da memória, recorda os tempos de escola, os lugares da vila onde vive, olha as velhas vestidas de negro, os homens revoltados, as manhãs fazendo-se tardes e as tardes fazendo-se noites, e escreve para si: «um dia somos assim / brincamos com o nosso passado vivo / hoje curvados esperamos esperamos / o menino adormeceu» (p. 29). E tudo se resume ao tempo que passa, à memória do tempo que passa, ao medo causado pela memória do tempo que passa. O homem assume esse medo, não o nega, não o esconde, procura antes resolvê-lo, sabendo talvez ser irresolúvel a sua própria natureza. Não é o medo de estar vivo nem o medo de estar morto, não é o medo de estar morrendo nem de ir vivendo a caminho da morte, é um medo com o qual se foge, não do qual se foge, o medo das crianças assustadas, espantadas com o seu próprio reflexo nas águas, o medo dessa noite que afirma a nossa derrota, o medo de chegar tarde ou de não chegar sequer a cumprir um voo, uma espécie de loucura controlada que resume, afinal, o quase nada que é tudo nestes poemas. Continuamos sem saber o que quer que seja acerca de Luís Paulo Meireles, mas sentimos, perdoem-nos a presunção, que já sabemos um pouco mais acerca destes poemas, afinal enunciações de um nome, de uma vida, de uma passagem pela terra.segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
PRIMEIRA ANTOLOGIA DE MICRO-FICÇÃO PORTUGUESA
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
A DECISÃO DA IDADE
Ruy Duarte de Carvalho (n.1941) acaba de ser galardoado com mais um prémio literário, nomeadamente o Prémio Literário Casino da Póvoa. Quando escrevi sobre Lavra, a reunião de 30 anos de labor poético do mesmo autor, comecei por referir-me à desatenção de que tinha sido vítima a sua obra. Voltei a pegar nesse volume e num outro, A Decisão da Idade (Livraria Sá da Costa Editora, 1976). Verifico que foram feitos 3000 exemplares deste último e apenas 1000 de Lavra. Passaram mais de 30 anos, publica-se muito, os projectos editoriais proliferam como cogumelos, autores são mais que livros vendidos, o resultado fica à vista: muita parra, pouca uva. Mas decidiu a idade que as palavras do poeta angolano (escalabitano de nascença) adquirissem outra fluorescência nos últimos anos, com entrevistas, predicações, exposições. Releio A Decisão da Idade e penso na justiça deste reconhecimento. As três partes do livro – Chão de oferta, Tempo de ausência, Noção geográfica – remetem-me mais uma vez para uma paisagem tão telúrica quão erótica, preenchida por matas, manadas, cacimba, capins, onde a aridez do deserto contrasta com a fecundidade das terras. E é essa fecundidade que acaba sobrepondo-se a tudo, numa poesia recuperadora daquele espanto e respeito que o homem foi perdendo para com os ciclos da natureza, para com a natureza ela mesma. Não se trata de recuperar metaforicamente ou repercutir sentimentalmente o elogio da natureza. Trata-se antes de voltar a olhá-la com o rigor de quem nela e apenas por ela sobrevive. Há igualmente nesta dobra do olhar uma atitude política, mas política no sentido de demarcar antropologicamente o lugar do homem no mundo: «Um homem vem fundir geografias, polarizar as forças da manhã deserta, vem fecundar as latitudes nuas e violar segredos de falésias. Um homem vem, destrói a derradeira protecção da lenda, transita triunfante a bruma do silêncio, afaga, da idade, o corpo descuidado, revolve-se na febre, despoja-se de si e oferece o peito» (p. 49). Irrompe, na última parte do livro, a palavra força. Esta força é a da fecundação, a de trazer a chuva à terra seca, a de uma luta, a luta pela sobrevivência, que é a luta da flor que «aguarda paciente a gota de água» (p. 64). Confunde-se o homem, nos ciclos do corpo, com esta condição da natureza, já que outra coisa não será o homem senão parte integrante, ínfima, de um todo que o rodeia, condiciona e, até certo ponto, determina. No poema dramático intitulado Noção geográfica essa condição fica bem patente nas falas da Mulher: «Não são as minhas mãos mas tenho mãos. / E não as cito aqui para inventar palavras / por dentro das palavras / e procurar falar das mãos das coisas / onde as palavras mal adregam ser. / Eu falo destes meus dez dedos negros / com que amasso o estrume / e dou notícia à chuva de que estou atenta / e dou vazão à força da semente / que por mim desliza / para ascender seu fruto às minhas mãos / no tempo repetido das colheitas. / Cito os meus dedos para invocar a cor / da terra que pisais e donde apenas / conheceis o fruto já maduro / que estas mãos ofertam / pousado nos dez dedos que o criaram. / As mesmas rugas que a semente vence / ao deslizar para a terra por meus braços / são as que vós tocais ao tactear / as minhas mãos em busca de alimento / nestes dez dedos para vós abertos» (p. 73). Não sendo esta a minha linguagem, há qualquer coisa nesta linguagem que me atrai e cativa. Ao contrário do que sucede com outros poetas africanos, nem sequer aqui nos podemos desculpar com o lado exótico das palavras e dos ritmos que as palavras consentem. Esse lado, praticamente ausente nestes poemas, converte-se num telurismo que me agrada sobremaneira, talvez porque o sinta cada vez mais distante e ausente. Neste sentido, é também esta uma poesia de resistência. De resistência à perda dessa relação do humano com a sua fonte mais próxima, a terra, e de resistência ao esvaziamento da tradição. O mundo é cada vez mais outro, eu sei. Assim como sei, ou pelo menos desconfio, que, fosse hoje, teriam sido feitos não 3000 mas 300 exemplares deste livro.quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
VIEIRA
Muito longe de ser a melhor edição dos sermões do Padre António Vieira, este foi o meu pórtico para a catedral da palavra que é a obra de Vieira. Trata-se do volume 458 da colecção de livros de bolso da Europa-América. Muito se tem falado deste padre nos últimos dias, muito mas sempre pouco se tivermos em conta de quem se trata. E logo eu, que detesto padres, assim desfeito nas minhas inexoráveis contradições. António Vieira nasceu na freguesia da Sé, em Lisboa, a 6 de Fevereiro de 1608. O pai levou-o para o Brasil, decorria o ano de 1614. Contra vontade paterna, saiu de casa na noite de 5 de Maio de 1623 para se entregar de corpo inteiro às missões evangelizadoras dos Jesuítas. Estudou os costumes e as línguas dos nativos, os quais sempre defendeu em contexto muito adverso. Teve uma intensa vida diplomática, repleta de casos e de controvérsias, que culminou com a perseguição, prisão e condenação levada a cabo pelo Santo Ofício. Mas ainda antes do silenciamento final, a 17 de Junho de 1654, Vieira pregou o mais famoso dos seus sermões: «Sermão de Santo António aos peixes». Trata-se de um daqueles textos fundamentais que deveria ser obrigatório a qualquer candidato a escritor. O tema central é o da corrupção, logo enunciada no início do texto a partir de uma epígrafe "roubada" ao Evangelho de São Mateus: «Vos estis sal terrae». Questiona-se Vieira: «O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será ou qual pode ser a causa desta corrupção?» Eis uma questão colocada há 400 anos e que, pelos vistos, não nos larga. Perante a indiferença dos homens, Vieira faz como Santo António já havia feito: prega aos peixes. Aponta-lhes as qualidades (ouvem e não falam), denuncia-lhes os defeitos: «A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande». Perfeito retrato do mundo, um retrato impiedoso, implacável, certeiro, de tal modo certeiro que ainda hoje o reconhecemos como sendo nosso e lhe atribuímos as qualidades de todas as grandes obras: universal, sem tempo. A gente lê Vieira e vê Leonardo da Vinci, pois nas palavras de Vieira reside esse exemplo das obras imortais. No entanto, olhemos agora para nós: ridículos. Olhemos para nós, aqui, a lermos os textozitos uns dos outros, tão ridículos, e a dispararmos palavras, comentários absolutamente patéticos, como se fosse importante o que temos a dizer. E ainda mais ridículos os que julguem ser importante o que têm a dizer. Olhemos para nós, tão patéticos, ínfimos, ridiculamente ridículos, a perdermos tempo com palavras, questiúnculas, pseudo-debates, febrilmente opinativos, a desperdiçarmos a vida nestas pelejas inconsequentes, em textos votados ao esquecimento, caídos já na morte apagada do esquecimento. Efémeros, patéticos, ridículos. Olhemos para nós, miremos a nossa desgraça, somos todos tão risíveis, caricaturas de Quixote com moinhos cibernéticos. Julgaremos possível um olhar atento, um ouvido perscrutador? Nem os peixes. Que imbecilidade nos contamina? Só nós, para darmos algum crédito aos nossos sermões. Só mesmo nós, encafuados nas salas poeirentas das nossas casas, rodeados do pó dos livros, num mundo ainda mais absurdo que os nossos cus gordos sentados defronte a um monitor. Ridículos. Somos todos risivelmente ridículos. Podíamos andar a limpar matas, a distribuir sopa aos pobres, a construir castelos de areia, podíamos estar numa bela esplanada a ler um bom livro sem termos necessidade de contar as páginas desse livro a quem quer que fosse, lê-lo pelo simples prazer de ler um livro, não pela vaidade de o citarmos, divulgarmos, comos e fosse relevante o facto de termos lido um livro, de termos visto este ou aquele filme, de andarmos no mundo como as formigas andam nos carreiros e os carneiros andam nos rebanhos. E chamamos nós liberdade a esta vida domesticada, a estes comportamentos todos tão formatados? Somos autómatos, autómatos adulterados, de quando em vez, por um sorriso rasgado ou uma lágrima furtiva. Mas irremediavelmente autómatos. E ainda por cima ridículos. Ai se soubéssemos o preço da fome, se conhecêssemos o custo da miséria mais miserável de todas. Ai se estivéssemos longe destas janelas, ai se fôssemos não caricaturas de Quixote com moinhos cibernéticos, mas moinhos quixotescos de caricaturas reais. Ai se fôssemos um acto concreto, não um sonho, não uma miragem, mas já tão-somente o deserto que somos e insistimos iludir com os nossos debates fundamentais, as nossas questões fulcrais, os nossos discursos estonteantemente expressivos, retóricos, inúteis, as frases de belo efeito. Olhemos pois para nós, na sombra do padre, e miremos reflectida na sombra a luz da nossa absoluta desgraça e da nossa incontornável superficialidade. terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
UMA CASINHA
sábado, 2 de fevereiro de 2008
CONFISSÃO
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
IF MY HEART COULD ONLY TALK
De Artur Aleixo tinha lido quatro poemas aparecidos no n.º5 da revista Telhados de Vidro (2005). Os mesmos quatro poemas reaparecem neste opúsculo intitulado If My Heart Could Only Talk (2007), composto, na sua totalidade, por vinte e três poemas breves com claras afinidades estéticas, diga-se de passagem, com muitos dos autores que têm sido publicados na Telhados de Vidro ou geralmente associados a uma poesia mais inclinada para a experiência, a memória e o quotidiano. Esses quatro primeiros poemas remetem-nos para um tempo passado onde se destacam gestos, de certa forma, inaugurais: «os primeiros buracos / para jogar ao berlinde» (Abafadores), «as primeiras baforadas / de fumo» (Lume), «o primeiro cálice / de ginja» (Buttercookies), «os primeiros chutos / numa bola» (Chutos). Somos levados a pensar serem estes poemas sobre a infância, mas rapidamente mudamos de opinião. O que há nestes versos, quando a memória recorre à infância, à adolescência ou à juventude passadas, é antes uma tentativa de compreensão do presente. Esse investimento realiza-se a partir de um exercício de memória que parece ter mais como fim a disposição do presente, através de uma viagem pelo tempo, do que a explicação/demonstração do passado, à luz de retratos possíveis de experiências perdidas. O tempo, esse implacável ditador que tudo arruína, aparece em múltiplas coordenadas: o relógio e o calendário serão, talvez, os objectos que o indicam de modo mais evidente. Mas em todos os poemas surgem termos que, de modo menos directo, nos remetem para essa implacabilidade. O esquecimento, em contraponto com o magma dos poemas, ou seja, a memória, assim como as «paredes / em ruína» - imagem muito frequente em alguma da poesia portuguesa contemporânea, nomeadamente a de pendor mais elegíaco -, é também indicador desse percurso. Atentemo-nos a esta Arte Poética: «Quando a memória me deserda / do presente, reclamam-me os poemas. / Palavra a palavra, ergue-se a forma / devoluta das cidades – recomeça a paixão» (p. 28). O poema surge, deste modo, de uma privação, de um deslocamento, talvez de uma incompreensão ou mesmo de uma inaceitabilidade do presente. Este sentimento pode explicar-se de um modo algo simplista: lembrarmo-nos de como foi não pode senão horrorizar-nos de como é. Mas como foi o quê? Em If My Heart Could Only Walk, talvez de como foi o espanto do primeiro gesto, da experiência inicial, a surpresa que se perdeu para dar lugar a uma entediante repetição: «o ritmo viciado / da vida – demasiado repetida / para que não deseje o tempo / enterrá-la novamente» (p. 14). A morte impõe-se, por fim, com uma clamorosa evidência. A morte está em tudo, no fundo é a única coisa que sempre esteve em tudo. Quando não é nomeada explicitamente, ela aparece no velório, no luto, no lixo, no cadáver, no funeral, no caixão, nas cervejas mortas e, mais uma vez, nas «paredes / em ruína». Poderá o poema fazer frente à avidez do tempo, recuperar à morte um pouco do seu alimento, roubar ao esquecimento o que parece para sempre perdido? Pessoalmente, creio ser negativa a resposta. E estes poemas, na relação narrativa que mantêm com o passado, provam apenas que nada podem resolver, que apenas podem emprestar à morte um pouco de vida, esse pouco de vida que é o reconhecimento da morte no poema. Mesmo quando se limitam a retratar o presente, ou, como há pouco dizia, quando tentam compreender esse presente a partir de um exercício de memória que nos envia para o passado, estes poemas geram esse pouco de vida que é o reconhecimento da morte em tudo quanto existe.terça-feira, 29 de janeiro de 2008
FULL METAL JACKET
Ainda nos encontramos na fase da recruta, ainda não fomos enviados para o cenário de guerra, continuamos a engraxar as botas, a ultrapassar obstáculos, a limpar as armas, a acertar o passo. Quando formos enviados para o cenário de guerra, já que teremos sempre de ser enviados, não podemos fazer as nossas próprias guerras, como quisermos, onde quisermos, contra quem quisermos, quando formos enviados, dizia, bastar-nos-á um carregador cheio de balas. É tudo quanto necessitaremos para que a guerra possa ser feita. É tudo. Nem sequer precisaremos de um inimigo. Com um carregador cheio de balas a gente inventa um inimigo, a gente faz uma guerra. Se for preciso, voltamo-nos contra nós próprios, fazemos alvo das nossas frustrações, dos nossos recalcamentos, da nossa fúria acumulada, como uma dor conservada até ao limite dos prazos em que as dores expiram. Porque as dores têm um prazo, têm um dia de deixarem de ser dores para passarem a ser outra coisa qualquer, talvez uma simples margem de erro ou mesmo um prazer. É provável que o prazer seja uma dor fora de prazo. Enquanto a dor não se estragar, enquanto for consumível, nós continuaremos a engraxar as botas, a ultrapassar obstáculos, a limpar o soalho das casernas, a organizar os objectos, a treinar a pontaria. Até onde aguentaremos a dor, não sei. Os limites suportáveis da dor são subjectivos, adaptam-se à indiferença com que cada um lida com os seus sentimentos, com as suas emoções, com a sua racionalidade. Em certos casos, o limite suportável da dor é um grito. Noutros casos é um poema. Há também quem tenha por limite suportável da dor um assobio. Sei mesmo de um coveiro que tinha por limite suportável da dor uma mijadela nas campas que abria, como se quisesse tratar a cama dos mortos com o poder curativo da urina, como se lhes estivesse a purificar o caminho, como se lhes fosse queimar as feridas. Um morto é um morto. Qual será o limite suportável da dor de um morto? Dirão a dignidade com que morre, como se houvesse dignidade na morte. Julgo que o limite suportável da dor de um morto está no modo como os vivos lhe olham a morte, no modo como lhe preparam o esquecimento, no ódio ou no amor com que o abandonam aos vermes. O limite suportável da dor de um morto está nos vivos. Talvez o limite suportável da dor dos vivos esteja nos mortos. Porque há sempre uma certa indiferença na espinha curvada, na conformação com as regras do jogo, há sempre uma certa indiferença na vontade que se predispõe ao adestramento. É assim desde muito cedo, desde que aprendemos a andar de pé, desde que aprendemos as primeiras palavras, reagindo aos estímulos que nos preparam o cenário da observação e da imitação. Árduo será o caminho daquele que ouse transgredir todo esse percurso, buscando uma razão para os seus olhos secos de indiferença, tentando recuperar a verticalidade da espinha, deixando sobre o tapete a sujidade das botas, recusando-se a limpar as botas, ficando apenas e tão-só gozando o ritmo das suas dores. Se a história não se deixa marcar pela insignificante resignação dos desesperados, então que marquemos a história com o nosso sofrido desespero. Basta-nos um carregador cheio de balas, um gesto afirmativo, uma recusa. Mesmo que desse lugar sem nome ressoem as gargalhadas estridentes dos mortos à sombra dos nossos gestos. Afinal, a única coisa que temos a perder já está de todo perdida: a nossa própria vida.