segunda-feira, 21 de abril de 2008

O ESPELHO ATORMENTADO

Do norte-americano Russell Edson (n. 1935) encontrava-se disponível em língua portuguesa, se não estou enganado, apenas uma brevíssima selecção dos seus poemas em prosa intitulada O Túnel (Assírio & Alvim, 2002). Nesse pequeno volume, o tradutor, também ele poeta, José Alberto Oliveira introduziu algumas coordenadas para a compreensão desta poesia: os poemas de Edson são fábulas bem humoradas e inquietas que contam histórias com desfechos absurdos. O riso é, sem dúvida, uma das características mais evidentes na poesia de Russell Edson. Autor de um romance e de mais de uma dezena de livros de poemas em prosa, estreou-se em 1961 com Appearances. Em 1994 editou The Tunnel: Selected Poems e em 2000 apareceu The Tormented Mirror, uma colectânea de poemas anteriormente publicados em variadíssimas revistas que a OVNI disponibiliza agora em tradução bilingue. A responsabilidade da tradução é de Guilherme Mendonça. Traduzir Edson não é tarefa fácil, sobretudo por tratar-se de um autor com um uso muito particular da linguagem, repleto de jogos de palavras, alusões, trocadilhos, onde os planos da realidade e do onírico aparecem frequentemente confundidos. Diz-se desta obra ser algo pendular, talvez porque nela vislumbremos a omnipresença de tensões diversas. Desde logo, no plano formal, a afirmação destes textos enquanto poemas, mesmo tratando-se de poemas em prosa, não pode senão ser motivo de discussão. Não andará longe da verdade quem ouse chamar-lhes fábulas, estórias ou, fazendo uso de termos mais em voga recentemente, micronarrativas. No contexto da literatura norte-americana, trata-se, então, de poesia em prosa, o que, provavelmente para espanto daqueles que julgam serem os preconceitos literários tipicamente nossos, tem resultado numa certa marginalização desta obra por parte da comunidade académica. A essa marginalização Edson responde com simplicidade e inteligência: «Being, as you suggest, somewhat of a hermit, I've never thought of myself as marginal or mainstream, just happy to be writing». Há também aqueles que falam de Russell Edson como um dos mais importantes cultores do poema em prosa nos Estados Unidos da América (do Norte). A sua importância advém da sua singularidade, a qual parece por vezes devedora de um certo surrealismo menos automático mas amplamente enraizado nos domínios do inconsciente. É curioso, a título de exemplo, que mesmo quando se afirmam mais bizarras, as estórias de O Espelho Atormentado dialogam com referências muito concretas da vida quotidiana, trabalhos, paixões, desavenças, dificuldades da vida doméstica. Chamo-lhes estórias não inadvertidamente. O próprio afirma: «All writing is storytelling». O que nos contam, então, as estórias deste espelho atormentado? De um modo cómico, quase sempre efabulatório, não dispensando um certo wit, com bastante engenho na recusa da sátira, estas estórias contam-nos de elefantes com vergonha de roupa interior, de intricados laços genealógicos entre macacos, de casamentos entre galos e vacas, de um cavalo que aprendeu a montar outros cavalos, de um velho elefante de barbas brancas, de um Ciclope que precisa de óculos, de um papagaio que falava de si próprio na terceira pessoa, etc. Mas nos quatro conjuntos de textos coligidos em O Espelho Atormentado não são apenas os animais que falam. O núcleo de acção é diversas vezes o núcleo familiar, noutras ocasiões a estória desenvolve-se em torno de mutações físicas que instalam um paralelismo agradável com as próprias mutações da realidade convertida em texto. Uma escrita surreal, talvez, deveras fascinante na forma como agrega os planos da realidade e da ficção, na arte com que torna lógico o absurdo enviando-nos para o absurdo da lógica durante, por exemplo, a hora d’O Banho: «Um homem estava a tomar banho numa banheira de molho de peru; a pôr um patinho amarelo a boiar para passar a eternidade. Comia puré de batata, mergulhava no banho grandes garfadas… / Uma beleza, tudo aquilo, pensou, eu num ensopado com um pato, a comer puré de batata com molho, e lá fora um mundo completamente louco… (p. 157)»

sexta-feira, 18 de abril de 2008

CINCO

Hoje vou chover para outro lado. Levo comigo a aura dos teus olhos, o sorriso ingénuo com que nos brindas todas as manhãs, a doçura dos gestos mais ternos que pode um homem almejar. Hoje não irei chover sobre a nossa terra, porque é de luz a nossa terra sempre que tu ris. Danço e canto melodias antigas, danço e canto melodias novas, danço ao ritmo frenético das tuas dúvidas, canto a ansiedade das tuas respostas. Não pode haver cansaço nessas perguntas, não pode haver mágoa. Sempre que madruga olho-te pelo retrovisor. Não me vês olhar-te, nem sabes que os meus olhos estão ali, deliciados, com a pureza da tua melancolia. Como pode uma criança trazer no rosto alguma melancolia? Como pode olhar a paisagem em movimento, o movimento em paisagem, sem se interrogar? Não pode. Por isso saltas da melancolia, lenta, com aquela moleza sofrida de todas as manhãs, e esperas acordada um sonho vindouro, enquanto apontas na parede os desenhos, as construções, os adereços com que vais aprendendo a dar cor à vida. Tudo me ensinaste, tudo te devo. Ensinaste-me a falar de outro modo, a escrever de outra fala, a olhar o mundo com um espanto que julgava perdido no quotidiano bafiento das pessoas adultas. Ensinaste-me que tudo é anterior às teorias e que as teorias são anteriores às palavras, que as palavras são anteriores a si mesmas: nos gestos desregrados, espontâneos e inusitados com que brindas a existência. Eu hoje vou chover para o lado amistoso do vento. Vou tracejar a verde o coração oferecido, colar na porta do frigorífico mais um sinal de esperança, escutar atentamente as tuas dores, a minha ausência, esta tristeza de não poder estar sempre onde nos manda o coração.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

CRIATURA

Houve um tempo em que as chamadas revistas literárias delimitavam territórios estéticos, faziam-se marcar sob o signo dos movimentos, reclamavam autonomia e manifestavam gosto pela ruptura. Esse tempo acabou. As revistas literárias são hoje, na sua imensa maioria, meros reservatórios de textos diversos, por vezes em diálogo permanente com outras artes que não a arte literária exclusivamente. Reúnem-se amigos e conhecidos, vozes distintas, tendências antagónicas, num mesmo espaço editorial como se esse espaço fosse um mero ponto de encontro sem pretensões de maior. Olhando para as estantes cá de casa, encontro muitas dessas revistas. Algumas tornaram-se leitura obrigatória, outras não inspiraram grande admiração. O que encontro de comum em quase todas é, precisamente, a ausência de conflito e de confronto. Há excepções, como é óbvio. Nestas coisas haverá sempre excepções que confirmem a regra. Mas, de um modo geral, vejo apenas uma amena confraternização, proporcionada pela carolice de alguns indivíduos, patrocinada por uma ou outra instituição, fundação, etc. Nos últimos tempos, digamos de há dez anos para cá, encontro alguns exemplos que convém sempre lembrar: a excelente revista de poesia Relâmpago (n.º1, 1997), a Alma Azul (n.º1, 1999), a revista de contos Ficções (n.º1, 2000), a Apeadeiro (n.º1, 2001), a Saudade (n.º1, 2001), a Telhados de Vidro (n.º1, 2003), a Boca de Incêndio (n.º1, 2004), a Magma (n.º0, 2005), a Big Ode (n.º0, 2006), entre outras, mais ou menos divulgadas, mais ou menos conhecidas. Se tivermos em conta o advento da Internet enquanto meio mais económico e ecológico, até mesmo mais disponível, na consecução destes projectos, torna-se impressionante constatar a sobrevivência de algumas destas edições, assim como o aparecimento de novas publicações do género. É o caso recente da revista Criatura, dirigida por Ana M. P. Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto. Integralmente composta por textos poéticos, o primeiro número da Criatura, de Fevereiro passado, conta com a colaboração de uma série de ilustres desconhecidos (ou nem por isso). De Ana Aleixo Lopes retive o tom filosófico e um longo poema colagem com citações de Luís Vaz de Camões e Fernando Pessoa em inglês. Ana M. P. Antunes opta pelo poema em prosa. António Ramos Pereira oferece-nos três poemas em verso de interesse desigual. Já Beatriz Hierro Lopes opta por uma prosa mais desenvolvida, com algumas interrogações geracionais, mas a carecer de uma revisão atenta. Em Cláudia Santos Silva pareceu-me notar alguma hesitação entre um certo hermetismo e uma espécie de prosaísmo melancólico. Gostei do poema «regresso na hora das empregadas da limpeza». David Teles Pereira aventura-se no poema longo com uma desenvoltura que ainda há-de encontrar o tom mais acertado. São evidentes os ecos da Gerção Beat. Diogo Vaz Pinto também tacteia o seu caminho, mas parece-me mais inclinado para um lirismo com uma componente irónica ainda por apurar. José Carlos Barros, que já não é novo nestas andanças, opta, desta feita, por um tom de polémica algo sobrepujado: «o que seria dos críticos do expresso / o que seria de tanto mestrado e tanto mestrando / o que seria enfim do país / se não houvesse de tempos a tempos / uma polémica onde exercitar o tiro ao alvo / como esta por exemplo dos poetas sem qualidades». Os poemas curtos de Maria Sousa denotam uma agradável melancolia, mas mais interessantes parecem-me as sequências de Marta Caldeira. É aqui que encontro o melhor desta revista Criatura, nestas prosas em versos, nestes versos em prosa, de grande fôlego, domínio rítmico e provocatória derrisão: «aqui na minha aldeia há dois poetas, um é o cristo pescador de per- / cebes e o outro é o cavador, poeta das hortas e das horas dormentes. / mas o maior poeta que conheço é a minha avó / :chama vergas à cadeira de onde os olhos se evadem / para o corpo criar metáforas». Com Marta Chaves regressamos ao poema curto de raiz melancólica. Nuno Araújo alterna entre a prosa e o verso um certo abstraccionismo e Rita Branco Jardim opta por uma espécie de lírica amorosa desalentada. Por fim, um tão agradável quão contido erotismo nos versos bem delineados de Sara F. Costa e, a fechar, alguns poemas igualmente ágeis de Susana Almeida. Que outros números venham, é tudo o que se espera.

sábado, 12 de abril de 2008

INDIGÈNES


Indigènes (Dias de Glória, na versão portuguesa), de Rachid Bouchareb (n. 1959), não é apenas mais um filme sobre a II Grande Guerra. O cenário serve para lembrar os esquecidos, não deixar sarar as feridas e, mais do que homenagear, exigir uma reflexão sobre a hipocrisia enquanto grande motor da política. Do recrutamento aos dias de hoje, a história de um soldado e do seu pelotão. O que há de especial nestes soldados é terem sido recrutados nas ex-colónias francesas. São nativos da Argélia, Marrocos, etc., que combatem, lado a lado com os franceses, pela França, pela pátria-mãe que trata de modo desigual os seus filhos. Aqueles soldados não se limitam a lutar contra o nazismo alemão, não lutam unicamente pela França, pelos valores da liberdade, fraternidade e igualdade. Eles lutam pela discriminação de que são alvo, uma discriminação que começa logo nos seus companheiros de guerra, nomeadamente nos seus superiores. Bouchareb é translúcido no modo como expõe essa discriminação, perspectivando a presença daqueles soldados no exército francês como mera carne para canhão, apontando o dedo às tácticas e aos métodos praticados para promover soldados franceses e esquecer os magrebinos, chamando a atenção para os pormenores que fazem da História um processo calculista de selecção da memória. Estes combatentes esquecidos não são só, nos dias de hoje, meros soldados perdidos no combate do esquecimento. Eles são a prova de um cancro que ainda hoje nos assola, um cancro que nos obriga a reflectir e a julgar as nossas responsabilidades no estado actual do mundo. Seria redundante ver neste filme apenas mais um exercício sobre a II Grande Guerra ou até uma espécie de panfleto contra a discriminação de que os magrebinos têm sido alvo na França da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Este filme mostra-nos também que certos homens estão, à partida, limitados no reconhecimento pelo fatal destino da sua origem. Mostra-nos que alguns homens não precisam apenas de ser bons para serem reconhecidos como tal, precisam, antes, de ser óptimos, excelentes, muito melhores que os demais para serem vistos, pelo menos, como razoáveis. É a condição das minorias: chegar a Deus para estar ao nível dos homens. A uns exige-se tudo para que sejam pouco, a outros praticamente nada se exige para que sejam muito. Este filme é, de certo modo, sobre tudo isso, sobre a tatuagem que ainda hoje marca muitos dos filhos da Europa civilizada: pas de chance.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

UM POETA A MIJAR

O título da mais recente colectânea de A. Pedro Ribeiro enviou-me para uma tal de «poesia diurética», expressão usada por Luís Adriano Carlos na introdução a Alegria do Mal, reunião da obra poética de José Emílio-Nelson. Todavia, a poesia de A. Pedro Ribeiro, ainda que declaradamente abjeccionista, nada tem de diurético, procurando antes os caminhos do manifesto, de uma notória obstinação e de uma disfarçada abnegação. Um Poeta a Mijar, editado pela Corpos, surge depois de Saloon, um volume saído nas já clássicas Edições Mortas. Muita matéria os liga, até porque a forma descarnada como A. Pedro Ribeiro se expressa não dá lugar a grandes desvios, inflexões temáticas ou inovações de conjunto. O que é curioso notar é que estes poemas-manifesto, nessa sua forma descarnada, apresentam-se-nos também como um disfarce, o disfarce do poeta maldito autoproclamado, aquele que rejeita as cátedras não porque nada tenha que ver com elas mas porque nada quer ter que ver com as mesmas, o anónimo que opta por trabalhar apenas dois dias por semana para poder passar o resto do tempo a «pensar, criar, partir a loiça» e «observar discretamente / o balançar de ancas da vizinha». O tom não é tanto de galhofa como parece ser de insurreição, é um tom que se manifesta cruamente na consequência de retratos sociais e ilações morais fundamentadas na experiência dos dias, na vagabundagem intelectual, no estilo pouco fundamentado da gente mais comum: «a vida é uma merda». Entram o futebol, a televisão, o euromilhões, os casos políticos, a Internet, os telemóveis, a polícia, como marcos de uma vertigem social e de uma alienação colectiva que o poeta traz para a sua poesia num sentido meramente crítico e purgativo. A par destas expurgações, o sexo, o álcool, a música, aparecem enquanto metáforas vivas e vividas de uma vontade de escapar ao que se julga ser o fado alienante da maioria dos portugueses. A existir uma poesia pop, esta é uma poesia punk. E, tal como no género que os The Sex Pistols imortalizaram, a música é a da celebração da guerrilha, da vontade, do motim, do desvio enquanto caminho possível, enquanto fuga possível, enquanto atalho para uma vida menos morta ou, se quiserem, para uma morte mais vivida. Um poema mais longo, A Ilíada de Velvet, assim como os exercícios em prosa automática intitulados Borboletas, Ode a Jim Morrison, Satã Comeu a Cortesã e O Meu Reino Não É, ou mesmo os dois apontamentos micronarrativos Rock N’ Roll e A Valsa da Elsa, são textos paradigmáticos dessa postura que uns considerarão antipoética, outros julgarão gratuita, alguns tenderão a classificar de panfletária. Quanto a mim, prefiro ver nestes cantos um grito espontâneo, um ruído que nos aproxima daquela loucura que nos salva da normalidade, a atrofiante normalidade dos dias. Prefiro ver nestes cantos, e na voz escalavrada do poeta, um alívio instintivo. Este é, sem dúvida, o livro de um poeta a mijar, de um poeta a aliviar-se dos detritos agressivos que o enchem, incham, infectam no decorrer dos dias. Não é um livro simples como possa parecer. Nenhum livro é simples como parece. É um livro informal, onde a experiência aparece incorporada numa mescla de denúncia, teatro grotesco e eucaristia festivaleira. Não é mais um livro com um programa satírico, de escárnio e mal dizer, não é irónico nem deixa de o ser, não é diurético e, mesmo que possa relevar inclinação abjeccionista, não é de carimbar com ismos e de colocar nas prateleiras ao lado das centenas de livros classificados e classificáveis que diariamente chegam às livrarias. Porque este é, sem dúvida, o livro de Um Poeta a Mijar: «O poeta dirige-se à casa de banho e mija / Sim, porque os poetas também mijam e cagam / Não passam a vida a escrever versos e a apurá-los / Não passam a vida a fazer horas / E a aturar chatos no café / Não andam sempre a micar as meninas / para lhes oferecer poemas / Com fins libidinosos. // O poeta dirige-se à casa de banho e mija» (p. 36).

sábado, 29 de março de 2008

FINGIR

Dois filmes recentes de David Cronenberg: A History of Violence (2005) e Eastern Promises (2007). No primeiro, Viggo Mortensen é um ex-criminoso a tentar levar uma vida normal; no segundo, Viggo Mortensen é um agente infiltrado na criminosa máfia russa. Os dois filmes ligam-se pela temática da violência e do segredo. Em ambos os casos temos dois homens, curiosamente interpretados pelo mesmo actor, tentando sobreviver sob falsas identidades. O tema da identidade é talvez o mais central em toda a cinematografia de Cronenberg. Encontramo-lo igualmente em filmes como Spider, eXistenZ, Crash, M. Butterfly, Naked Lunch, The Fly, etc, etc, etc… O que há de interessante nestes dois filmes mais recentes é que esse problema coloca-se sob uma perspectiva realista, já não tão fantástica como em filmes anteriores, evitando subterfúgios simplificadores do problema, sejam eles de carácter psicológico ou de índole sexual. Mortensen, em ambos os filmes, é um homem à procura de si próprio em direcções diversas, é um homem sob disfarce, é um homem delimitado pelos seus segredos, é um homem tatuado pelo passado, um homem inexoravelmente disperso. Como os personagens ali interpretados, também nós jamais saberemos quem somos. A nossa vida é um disfarce permanente, mesmo quando dizemos que não temos segredos, que é tudo claro, como se alguma coisa pudesse ser clara. Só os estúpidos pensam que é tudo claro, só os ignorantes julgam estar livres de segredos. Nunca a intimidade se expõe, mesmo quando se procura expor a intimidade. É um paradoxo com o qual vivemos e do qual não nos libertamos. Não é por acaso que sábio é aquele que se conhece a si próprio, pois nada mais difícil, nada mais árduo, nada mais exigente, do que esse saber. Passamos pela vida sem nos apercebermos de que somos sombras de nós próprios, involuntariamente convencidos de vícios e virtudes que mais não são do que desculpas, simplificações, resumos de um retrato que nos escapa a toda a hora. Pudéssemos saber quem realmente somos e, provavelmente, nem de casa sairíamos, tanta seria a vergonha que sentiríamos de nós próprios. Estes dois últimos filmes de Cronenberg enfatizam bem essa dimensão do disfarce, do artifício, da dissimulação, do embuste, esse particular humano que é o da falsificação da nossa própria natureza.

UM PREFÁCIO PARA ONTEM


Amadeu Baptista
Outros Domínios 
(Clamor por Florbela Espanca)
Prémio Literário Florbela Espanca 2007
Câmara Municipal de Vila Viçosa
Março de 2008


Prefácio: Um Prefácio para Ontem

terça-feira, 25 de março de 2008

CARAVANA

Quando, em Julho do ano passado, me questionaram sobre dez weblogs que gostaria de folhear, referi, entre outros, as traduções de Daniil Harms aparecidas n’O Vermelho e o Negro e as short stories que Rui Manuel Amaral foi "ensaiando" no Dias Felizes. Era quase certo que as traduções de Harms, levadas a cabo por Nina Guerra e Filipe Guerra, viessem a ser publicadas - o que sucedeu no excelente volume A Velha e Outras Histórias (Assírio & Alvim). Quanto às estórias de Rui Manuel Amaral, não havia senão a convicção de que dariam um excelente livro. Aí está ele. É um livro desejado, que me deixa feliz, ainda mais por ser um livro bonito, equilibradamente ilustrado por Francisco Costa, com algumas surpresas gráficas no interior. Como diria um velho amigo editor, é um livro de bom toque. Vem à luz numa colecção de nos deixar a boca aguada, uma nova colecção de microcontos, a Microcosmos, da não tão nova editora Angelus Novus. Na mesma colecção já foi editado um outro título: A Ovelha Negra e Outras Fábulas, do mestre Augusto Monterroso. Fiquemos atentos. Para já, ladremos um pouco a esta Caravana. A pergunta impõe-se-me: o que há nas estórias de Rui Manuel Amaral que me faz gostar tanto delas? Não sei o que têm de especial, sei apenas que gosto delas, que as acho bonitas, gosto delas sem qualquer tipo de interesse que não seja o de gostar de ler estórias e de por elas me sentir atraído. São estórias que me deixam intrigadamente bem disposto. Dispenso qualquer tipo de teoria acerca das mesmas. Limito-me a inventariar alguns apontamentos ocasionais: a) há uma destreza rara na forma como Rui Manuel Amaral trabalha o nonsense, fazendo uso de uma ironia deveras subtil mas subversiva; b) influências do humor de Gógol e do absurdo harmsiano são óbvias, sem que se sobreponham à singularidade do autor; c) alguns textos, como A Conspiração dos relojoeiros, remetem-me para a poesia de Jorge Sousa Braga, outros - penso, nomeadamente, em Maçã - dialogam bem com a Teoria das Cores, de Herberto Helder; d) a literatura é assunto recorrente, embora apareça como pretexto para uma espécie de atentado contra os lugares comuns e as ideias feitas que delimitam esse território da criação humana; e) algumas estórias aproximam-se da vulgar anedota, casos de Amor platónico (meticulosamente deixado na p. 69) e O meteorologista; f) o autor socorre-se frequentemente do trocadilho, aproveitando-se dos duplos significados de uma mesma palavra, como na História de uma beata, ou adulterando certas expressões dúbias do uso quotidiano: «a hora da morte anda ligeiramente adiantada» (p. 13), «possuía uma mente absolutamente iluminada, capaz de assegurar o fornecimento de luz a uma cidade de 100.000 habitantes» (p. 40), «A qualidade da voz da sua consciência ultrapassava largamente a dos melhores cantores líricos do seu tempo» (p. 53), «sonhou tão alto que bateu com a cabeça no teto e morreu» (p. 55), «a esperança, que costuma ser a última a morrer, há muito que se tinha posto a mexer para o outro mundo» (p. 83), etc.; g) o melhor destes microcontos (e esta é apenas uma forma de nos referirmos a estes textos) é o modo perverso e invulgar como dão lógica a um mundo que, sem disso se dar conta, é radicalmente ilógico. Sobre este último ponto quero apenas reforçar a ideia de que um olhar atento ao mundo descobre nesse mesmo mundo regras que escapam à maioria dos olhares. Tais regras, creio, são o que nos faz acreditar, por vezes, na realidade como uma imitação da ficção. Nas estórias de Rui Manuel Amaral, nem uma coisa nem outra. Estas reflectem antes uma realidade que apenas nos parece extraordinária por estarmos tão embrenhados nela que nos escapam os seus absurdos, os seus disparates e as suas contradições. O paradoxo nunca foi o oposto da verdade ou da realidade, ele é apenas uma realidade tão verdadeira quanto outra qualquer. Se o evitamos, é apenas para que possamos seguir caminho escondidos da nossa própria natureza. Não é outra a história da caravana humana: dissimular a sua própria natureza. Tudo isto enquanto os cães ladram e os gatos miam.

sexta-feira, 21 de março de 2008

A NEO-PENÉLOPE

Em entrevista recentemente publicada no Diário de Notícias, Ana Hatherly (n. 1929) afirma que «o poeta, como emblema do criador, persegue todos os símbolos, todos os vestígios, ou seja, toda a memória que corre no seu sangue, e para além do espelho inventa o inaudito». No seu livro mais recente, a esposa de Ulisses, enquanto símbolo de uma certa condição feminina, é perseguida e reinventada. Talvez mais que reinventada, seja esta fiel e extremosa esposa desconstruída: «Não tece a tela / Não fia o fio / Não espera / Por nenhum Ulisses» (p. 15). Hatherly, nome que ficará inevitavelmente na história da literatura portuguesa, mais que não seja pelo pioneirismo na exploração de linguagens poéticas menos comuns, da poesia experimental ao barroco, passando pelas formas poéticas enraizadas nas filosofia e cultura orientais, propõe-nos em A Neo-Penélope uma revisão dos códigos que ainda hoje delimitam o modo como a feminilidade é perspectivada. Três conjuntos de poemas compõem a obra: Poemas Femininos, Alice no País dos Anões, Epigramas e Sátiras. A ligá-los encontramos essa intenção de repensar o feminino, quer a partir de simbologias instituídas – do mito de Penélope à fantasia de Alice -, quer através de um olhar minuciosamente irónico e satírico sobre a actualidade. Talvez não seja descuidado, provavelmente contra a vontade da autora, falarmos de um certo tipo de feminismo que sobressai nestes poemas, embora mais correcto seja falarmos antes de um olhar lúcido e consciente sobre a condição das mulheres ao longo dos tempos. Até porque mais do que reivindicarem uma aproximação entre os géneros, os poemas de A Neo-Penélope sublinham a especificidade de ser(-se) mulher: «A mulher é e não é / A campeã das gatas: / Pode encolher as unhas (ou não) / Mas o seu arco-íris da invenção / Exige mais do que / Um tapete de peluche / Para o ron-ron» (p. 13). O tom, geralmente irónico, permite à poetisa colocar-se no papel de uma Penélope que espera por algo que nos escapa. Não sabemos por quem espera ou por que espera, sabemos apenas que espera um outro, um TU ou, na sua forma mais paradoxal, um TU-EU, anunciados precisamente em maiúsculas. Este TU, dificilmente alcançável, impedido por uma espécie de reclusão interior, intimamente conflituosa e aparentemente insanável, surge-nos também como objecto amoroso. Deste modo, o amor é, no tempo e no espaço da neo-Penélope, uma força do desejo que o corpo indaga, uma aposta nem sempre ganha mas absolutamente fundamental. Leia-se, a título de exemplo, este perturbante Sem Amor: «Viver sem amor / É como não ter para onde ir / Em nenhum lugar / Encontrar casa ou mundo // É contemplar o não-acontecer / O lugar onde tudo já não é / Onde tudo se transforma / No recinto / De onde tudo se mudou // Sem amor andamos errantes / De nós mesmos desconhecidos // Descobrimos que nunca se tem ninguém / Além de nós próprios / E nem isso se tem» (p. 26). O que de algum modo é recusado é a subversão do papel do amor. O amor não implica uma entrega incondicional e passiva, ele não admite a atitude submissa que, para mal dos nossos pecados, foi desde sempre incutida na mulher que espera (ou deve esperar), na mulher que se entrega (porque é seu dever entregar-se), na mulher educada para prescindir de si própria em função do homem que ama. Ao longo da história da humanidade, o papel atribuído à mulher foi, quase sempre, o de uma inaceitável submissão. Por vezes, essa submissão aconteceu em nome do amor, como se o amor pudesse ser uma força que escraviza ao contrário de uma força que liberta. Urge subverter tais paradigmas, quebrar as regras já não num mundo de sonho, como sucede com Alice, mas na própria realidade. Alice é um pretexto, um protótipo do feminino que encerra uma invenção, uma felicidade onírica, improvável, a mulher que não existe num país inexistente, o país das maravilhas. Alice é o feminino projectado a partir das aspirações masculinas numa sociedade erigida sobre princípios arcaicamente machistas, Alice é, mais que uma mulher a sonhar, o sonho de um homem.

quarta-feira, 19 de março de 2008

A LENTA VOLÚPIA DE CAIR

Em A Lenta Volúpia de Cair, publicado pelas Quasi há um ano, Pedro Eiras (n. 1975) reuniu ensaios sobre poesia saídos anteriormente em revistas tais como Relâmpago, Textos e Pretextos, Colóquio Letras, A Phala, entre outras. À excepção do ensaio inicial, centrado numa reflexão sobre a natureza da poesia, todos os textos focam autores e obras respectivas, não negligenciando, também aí, a interrogação acerca da essência da poesia, do lugar do poeta, da natureza do poema. Num desses textos, Eiras junta três recensões a obras distintas cujo elo de ligação é a poesia de Herberto Helder. Outros autores abordados são Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen, Carlos de Oliveira, Fernando Echevarría, António Ramos Rosa, Fiama Hasse Pais Brandão, Armando Silva Carvalho, Manuel António Pina, António Manuel Pires Cabral, António Franco Alexandre, Luís Miguel Nava, Adília Lopes e Luís Quintais. São quase sempre abordados isoladamente, embora noutras ocasiões o sejam também comparativamente ou em diálogo com obras alheias. Este último processo de análise verifica-se em Faca partilhada (um diálogo entre as poesias de Sophia e de João Cabral de Melo Neto) e Viver o tempo (onde a poesia de Luís Quintais é interpretada à luz do cinema de Tarkovsky). Há ainda um curiosíssimo exercício, A «Litania» reescrita, dedicado às revisões do célebre poema de Eugénio de Andrade pelas vozes de Gastão Cruz e Manuel Gusmão. Pedro Eiras denota minúcia e inteligência na interpretação, agradando, mais ainda, por um certo risco no modo experimental como se coloca frente aos objectos de análise. Talvez essa experimentação seja o que mais encanta neste volume, não porque aligeire o carácter ensaístico da escrita – antes pelo contrário -, mas por cativar a leitura com uma clara capacidade de renovação dos métodos de análise. O mais evidente nestes ensaios é o gosto pelo paradoxo, a exclusão de qualquer chave interpretativa do poema, o que seria, aliás, contraditório com a própria natureza da poesia, a opção permanente por um esforço de desbravamento de novos territórios, novas hipóteses, novos caminhos. Não há, nos ensaios de A Lenta Volúpia de Cair, a presunção de uma certeza. Há antes uma disposição indagadora que desafia permanentemente o leitor do ensaio, ao mesmo tempo que o centra no desafio que o ensaísta estabelece com a obra ou as obras em discussão. Neste sentido, é especialmente relevante o ensaio de abertura. Ele funciona como uma espécie de pórtico para uma aventura, a aventura de quem ousa, mais que ler poesia, escrever sobre a poesia que lê. Essa aventura apenas resultará em algo profícuo se ficarem previamente definidas as regras do jogo. São essas regras, esses pressupostos, que Pedro Eiras estabelece no ensaio justamente intitulado O que é a poesia? Questão recorrente, como é sabido, e sempre sem resposta ou passível de múltiplas respostas, respostas que nos aparecem invariavelmente sob a forma de interrogações. Daí que o ensaísta deva, desde logo, resolver a possibilidade de alguns equívocos, assumindo que: «Perante o poema, perante o mundo, a ciência só é uma resposta adequada para certas perguntas. Partir do princípio de que o poema deve ser explicado, interpretado, perguntado é enganador. A verdade é apenas uma consequência longínqua, acidental, acessória do poema» (p. 16). Muito haveria a dizer acerca do que se segue, não é este o local mais indicado. Não posso, no entanto, deixar de evocar três ideias que ressaltam neste ensaio, ideias essas com as quais não concordo necessariamente mas que talvez sirvam para futuras discussões: 1. a poesia nasce no sagrado; 2. o regresso à ideia de inspiração; 3. a poesia é uma Queda, assim mesmo, com maiúscula. Em jeito de provocação, levantarei, a contraponto, outras três hipóteses: 1. a de que o sagrado nasce do profano; 2. a de que o regresso à inspiração pressupõe um abandono nunca consumado (aliás, partindo do princípio que a poesia seja uma respiração, ela deverá ser tanto inspiração como expiração); 3. a de que mais que uma Queda ou uma Elevação (ou uma Salvação), a poesia é um caminho na direcção de um horizonte indefinível.

sábado, 15 de março de 2008

ÚLTIMA HORA

ASAE prepara departamento especializado na fiscalização de órgãos sexuais humanos. Prevê-se que, dentro de um ano, todos os portugueses e todas as portuguesas sejam obrigadas a um exame no departamento em causa para averiguação de possíveis atentados contra os órgãos reprodutores. Nomeadamente: estraçalhamento dos testículos com anéis, perfuração da vulva com brincos e rompimento do prepúcio à base de agulhas, alfinetes e afins. Tatuagens nesses inocentes lugares do corpo humano serão consideradas violações graves da beleza natural da coisa pública e atentados ao pudor da imaculada concepção. Estuda-se igualmente a hipótese de alargar a inspecção ao ânus de todos os portugueses, de modo a garantir condições que permitam o usufruto do mesmo pelo Governo sem danos para a saúde de enrabados e enrabadores, respectivamente, cidadãos e políticos.

terça-feira, 11 de março de 2008

BIG ODE #4


Big Ode n.º4
Tema: Urbe
Edição e Design: Rodrigo Miragaia
Design de conceito: Rodrigo Miragaia e Sara Rocio
Coordenação editorial: Maria João Lopes Fernandes


CRÓNICAS EUROPEIAS: Atenas: Pensão AfroditeBarcelona: MatalásBudapeste: ?Lisboa: ClandestinoParis: Caveau de La HuchettePorto: Maus HábitosPraga: Jazz & Blues Café, Roma: Vodka Seven.

quinta-feira, 6 de março de 2008

A MINHA VIDA

A caminho da escola, a minha filha faz-me estremecer o corpo todo, mais a alminha que anda lá por dentro, com uma questão que eu diria fracturante se estivesse a falar de política (no contexto de uma conversa entre pai e filha direi antes tratar-se de uma das questões mais fodidas que uma filha pode colocar a um pai). E a questão foi: «Papá, gostava de saber por que não tens tanta sorte como o avô?» Como não sou de fugir às questões, mesmo quando elas implicam dolorosas verdades, lá lhe fui explicando que a vida está difícil, que o avô, quando tinha a idade do pai, estava bem pior, ganhava menos dinheiro, tinha um carripana velha, uma casa mais pequena, uma televisão a preto e branco, não tinha DVD, leitor de CDs, computador, jogos, que trabalhava muito mais e passeava muito menos, não comia tantos doces nem ia ao teatro e ao cinema. Enfim, tentei explicar-lhe que, apesar da minha pouca sorte, apesar da vida inútil que levo, não me posso queixar muito quando comparo a minha vida com a vida do meu pai há 30 anos. Pensei ainda, mas isso não lhe disse, que há 30 anos a vida do meu pai seria bem mais difícil do que a minha neste momento pelo simples facto de ele já ter então três filhos. Imagino o que seria viver com três filhos há 30 anos, ainda mais sendo eu um deles. Devia ser bem mais difícil do que viver com dois hoje em dia. A minha filha escutou-me atentamente, parou, olhou-me com espanto e disse-me: «Papá, não é isso, o que eu quero saber é por que é que o avô te ganha sempre às cartas?»

sábado, 1 de março de 2008

PRIMEIRA ANTOLOGIA DE MICRO-FICÇÃO PORTUGUESA

Está pronta a Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa (Exodus), com selecção e organização de Rui Costa e de André Sebastião. O prefácio é meu. A primeira impressão é de que se trata de um volume, o segundo da colecção Anti-Matéria, graficamente cuidado (detectei uma gralha) e bem organizado. Para primeira antologia, pode-se dizer que apresenta um leque diversificado de autores. Diversificado nas propostas e no matiz geracional. Nascidos entre 1942 e 1984, marcam presença: Alcides, Alexandre Au-Yong Oliveira, Fernando Dinis, Fernando Esteves Pinto, Fernando Gomes, Filipe Guerra, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Lourenço, João Carlos Silva, Luís Ene, Maria João Lopes Fernandes, Paulo Rodrigues Ferreira, Paulo Kellerman, Pedro Afonso, Pedro Amaral, Rafael Mota Miranda, Rui Almeida, Rui Costa, Rui Manuel Amaral, Rute Mota, sara Monteiro e Sónia Duarte. Objectos deste género obrigam a opções sempre discutíveis. Importa salientar que o propósito final, explícito no título, não seria o de fazer uma antologia da micro-ficção portuguesa, mas apenas uma antologia de micro-ficção portuguesa. Os autores seleccionados não configurarão o panorama da micro-ficção em Portugal, mas complementam, certamente, uma paisagem agradável com muitos caminhos ainda por explorar. Seria fastidioso falar detalhadamente sobre cada um deles, pelo que limitar-me-ei a apontar algumas pistas de leitura. Agradou-me o erotismo heterodoxo de Alcides, mais pelo trabalho de linguagem que o texto propõe do que especialmente pelo texto em si. Os policiais de Alexandre Au-Yong Oliveira são uma boa surpresa, denotando também um certo gosto pela experimentação dentro de um género que, reduzido à escala da microficção, é deveras problemático. Fernando Dinis divide-se entre o poema em prosa e o miniconto de carácter mais convencional. Fernando Esteves Pinto opta pelo registo aforístico e por diálogos arrancados ao quotidiano pessoal. O humor, em múltiplas modalidades, é a marca mais óbvia dos textos de Fernando Gomes. Gostei especialmente de Os malefícios do spam, por arriscar no malfadado território da pornografia (alguns chamam-lhe brejeirice, eu chamo-lhe devassidão). Filipe Guerra, mais conhecido como tradutor, é outra boa surpresa. Oferece-nos alguns exercícios de tipo harmsiano (de Daniil Harms, para os desprevenidos). Sobre mim, por enquanto, ainda não falarei. Inês Lourenço é outra presença surpreendente, pelo simples facto de estarmos mais habituados a lê-la em verso. Pequenas prosas marcadas pela ironia e, num caso, pela mensagem de cariz feminista. João Carlos Silva é um caso sério de humor negro, optando por remates tão filosóficos quão sarcásticos. Muito bom. Luís Ene opta igualmente por um registo aforístico, embora de tempero zen. Horas Felizes é um bonito texto. Depois há a prosa diarística, tantas vezes em registo micro, aqui representada por Maria João Lopes Fernandes. Paulo Rodrigues Ferreira, que acabou de publicar um e-book na Minguante, domina razoavelmente o humor de tonalidades mais escuras. Já Paulo Kellerman dá continuidade à inclinação melancólica que lhe conhecemos de outras paragens. A colaboração de Pedro Afonso transporta-nos para o lado crepuscular da microficção, esse lado onde a poesia e a narrativa se confundem. Excelente surpresa, são os textos de Pedro Amaral: ficções onde o absurdo serve mais para falsificar a realidade do que para caracterizá-la. Excelente. Rafael Mota Miranda é proporcionalmente poético (assim a modos que o'neilliano) e picaresco. As ficções de Rui Almeida também não enjeitam o poético, ainda que disfarçado por um tom que justapõe uma certa moral ao cómico. Rui Costa lança-nos a imaginação para o domínio da fábula e Rui Manuel Amaral domina como nenhum outro o absurdo característico das short stories de Daniil Harms. Seguem-se Rute Mota, com narrativas balouçando entre a comoção e o irónico, Sara Monteiro, com textos alicerçados na metáfora e, talvez por isso, remetendo-nos para o universo do poema em prosa, e, por fim, Sónia Duarte, com três ficções onde alguns sinais da actualidade são subtilmente satirizados. Dito isto, resta parabenizar os organizadores pela iniciativa e sugerir aos eventuais interessados a busca do objecto.

BALUERNA 29


Baluerna - Cuadernos del Viajero
Nº 29
Estación de Autobuses de Cáceres, S.A.
2008

Dois poemas traduzidos para espanhol por Antonio Sáez Delgado

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

BÍBLIA


− Você já leu a Bíblia?
− Não me parece que a Bíblia seja um livro que se leia. São muitos livros que se vão lendo.
− Mas leu ou não leu?
− Li alguns livros.
− É que ninguém pode falar da Bíblia sem a ter lido?
− Concede-me o direito de falar sobre os livros da Bíblia que li?
− Não. É que você diz que ele perdeu a fé.
− Não sou eu que digo, é ele. Não é uma interpretação, é uma citação.
− Mas onde é que ele diz isso?
− Você leu a obra?
− Li alguns versos avulsos.
− Sendo assim, você só poderá falar avulsamente da obra dele.
− Sabe, eu acho que ele morreu novo porque perdeu a fé.
− Sabe, eu acho que Jesus morreu ainda mais novo porque tinha fé a mais.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

SURDOS E MUDOS

Primeiro-ministro: A não ser que alguém saiba alguma coisa que eu não sei…
Jornalista: Nunca se sabe.

TUDO

Tudo é uma palavra enorme, pesada, uma palavra sem oponentes, onde cabem sinónimos e antónimos, é uma palavra englobante, uma palavra que engloba, inclusive, a palavra nada. Daí que tudo se confunda tanto com nada, do mesmo modo que nada se confunde com tudo. Por isso dizemos que o branco afirma o negro e vice-versa, que a noite declara o dia e vice-versa, que o homem explica a mulher e vice-versa, que entre todos os opostos há, talvez, um lugar crepuscular, indecifrável, fonte de poesia. Mas mesmo esse lugar indecifrável cabe em tudo, pois tudo é tudo, não pode deixar de ser também o lugar indecifrável que se intrometerá entre tudo e nada, sob pena de, deixando de ser também esse lugar, deixar de ser tudo. De Luís Paulo Meireles sabemos tudo, ou seja, nada. A nota de abertura assinada por Henrique Delgado, outro acerca do qual sabemos nada, ou seja, tudo, faz dele autor transmontano/migrante, «contemporâneo de m.parissy, José Luís Peixoto e Nuno Rebocho» (sic). Sabemos ainda que publicou em projectos editoriais obscuros tais como non nova sed nove e cadernos de ibn mukhane, prorrogando a obscuridade com O Portão (ed. Autor, 2000) e, mais recentemente, com Tudo (Canto Escuro, 2008). Restam-nos os poemas, porventura o que mais interessa, esse pouco mais que nada com o qual pretendemos ocupar algum do nosso tempo. São poemas breves, de verso curto (à excepção de três prosas, ou de três poemas de verso menos contido), que nos lembram, por vezes, ladainhas e lengalengas sem intenções curativas que não sejam as de recitar, ao sabor do acaso e quando convém, os segmentos da existência que nos acompanham no tempo. Mais ou menos explicitamente, estão estes poemas repletos de memórias, ou, melhor, de uma «memória esfomeada» (p. 12) que resiste ao tempo, à brancura do esquecimento, que luta contra o medo dos náufragos. «Sobrevivente do naufrágio o homem» (p. 15) que escreve olha o mundo, recorda o passado, evoca os ausentes, aguarda o fim como quem cumpre tudo sem nada: «não tenho nada a escrever nem nada a conservar / desatam as recordações esquecidas na velha mala / a lutar no tempo na espera do meu destino / deito tudo fora e mergulho numa visão enganadora / a vida é uma mentira / fugindo das regras / fumando ervas loucas / árvore resistente e valente / apanho as sobras podres / lançadas no banquete da vida / e os homens vomitam palavras no jogo real / onde só sabem dos dados e cartas viciadas» (p. 21). Como é possível, não tendo nada a escrever, deitar tudo fora? Será tudo o que se deita fora apenas um gesto de abnegação ou antecipação do nada que a morte anuncia? O homem olha para trás, revê-se como um fantasma na reminiscência sombria da infância, da mãe perdida, viaja pelo tempo até aos abismos da memória, recorda os tempos de escola, os lugares da vila onde vive, olha as velhas vestidas de negro, os homens revoltados, as manhãs fazendo-se tardes e as tardes fazendo-se noites, e escreve para si: «um dia somos assim / brincamos com o nosso passado vivo / hoje curvados esperamos esperamos / o menino adormeceu» (p. 29). E tudo se resume ao tempo que passa, à memória do tempo que passa, ao medo causado pela memória do tempo que passa. O homem assume esse medo, não o nega, não o esconde, procura antes resolvê-lo, sabendo talvez ser irresolúvel a sua própria natureza. Não é o medo de estar vivo nem o medo de estar morto, não é o medo de estar morrendo nem de ir vivendo a caminho da morte, é um medo com o qual se foge, não do qual se foge, o medo das crianças assustadas, espantadas com o seu próprio reflexo nas águas, o medo dessa noite que afirma a nossa derrota, o medo de chegar tarde ou de não chegar sequer a cumprir um voo, uma espécie de loucura controlada que resume, afinal, o quase nada que é tudo nestes poemas. Continuamos sem saber o que quer que seja acerca de Luís Paulo Meireles, mas sentimos, perdoem-nos a presunção, que já sabemos um pouco mais acerca destes poemas, afinal enunciações de um nome, de uma vida, de uma passagem pela terra.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

PRIMEIRA ANTOLOGIA DE MICRO-FICÇÃO PORTUGUESA


Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa
Selecção e Organização de Rui Costa e André Sebastião
Prefácio de Henrique Fialho
Exodus / 7 Dias 6 Noites - Editores Unipessoal, Lda
Fevereiro de 2008

Prefácio: Esboço Para Um Ensaio Sobre Micronarrativa, pp. 9-19.
Era uma vez (p. 53), O Primeiro Amor (p. 54), Detector de Metais (p. 55), Um Velho (p. 56), O Jornalista (p. 57), Videntes (p. 58), Rusga (p. 59), Uma Pradaria no Rosto (p. 60), O Sucateiro (p. 61), O Pendura (p. 62).

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

A DECISÃO DA IDADE

Ruy Duarte de Carvalho (n.1941) acaba de ser galardoado com mais um prémio literário, nomeadamente o Prémio Literário Casino da Póvoa. Quando escrevi sobre Lavra, a reunião de 30 anos de labor poético do mesmo autor, comecei por referir-me à desatenção de que tinha sido vítima a sua obra. Voltei a pegar nesse volume e num outro, A Decisão da Idade (Livraria Sá da Costa Editora, 1976). Verifico que foram feitos 3000 exemplares deste último e apenas 1000 de Lavra. Passaram mais de 30 anos, publica-se muito, os projectos editoriais proliferam como cogumelos, autores são mais que livros vendidos, o resultado fica à vista: muita parra, pouca uva. Mas decidiu a idade que as palavras do poeta angolano (escalabitano de nascença) adquirissem outra fluorescência nos últimos anos, com entrevistas, predicações, exposições. Releio A Decisão da Idade e penso na justiça deste reconhecimento. As três partes do livro – Chão de oferta, Tempo de ausência, Noção geográfica – remetem-me mais uma vez para uma paisagem tão telúrica quão erótica, preenchida por matas, manadas, cacimba, capins, onde a aridez do deserto contrasta com a fecundidade das terras. E é essa fecundidade que acaba sobrepondo-se a tudo, numa poesia recuperadora daquele espanto e respeito que o homem foi perdendo para com os ciclos da natureza, para com a natureza ela mesma. Não se trata de recuperar metaforicamente ou repercutir sentimentalmente o elogio da natureza. Trata-se antes de voltar a olhá-la com o rigor de quem nela e apenas por ela sobrevive. Há igualmente nesta dobra do olhar uma atitude política, mas política no sentido de demarcar antropologicamente o lugar do homem no mundo: «Um homem vem fundir geografias, polarizar as forças da manhã deserta, vem fecundar as latitudes nuas e violar segredos de falésias. Um homem vem, destrói a derradeira protecção da lenda, transita triunfante a bruma do silêncio, afaga, da idade, o corpo descuidado, revolve-se na febre, despoja-se de si e oferece o peito» (p. 49). Irrompe, na última parte do livro, a palavra força. Esta força é a da fecundação, a de trazer a chuva à terra seca, a de uma luta, a luta pela sobrevivência, que é a luta da flor que «aguarda paciente a gota de água» (p. 64). Confunde-se o homem, nos ciclos do corpo, com esta condição da natureza, já que outra coisa não será o homem senão parte integrante, ínfima, de um todo que o rodeia, condiciona e, até certo ponto, determina. No poema dramático intitulado Noção geográfica essa condição fica bem patente nas falas da Mulher: «Não são as minhas mãos mas tenho mãos. / E não as cito aqui para inventar palavras / por dentro das palavras / e procurar falar das mãos das coisas / onde as palavras mal adregam ser. / Eu falo destes meus dez dedos negros / com que amasso o estrume / e dou notícia à chuva de que estou atenta / e dou vazão à força da semente / que por mim desliza / para ascender seu fruto às minhas mãos / no tempo repetido das colheitas. / Cito os meus dedos para invocar a cor / da terra que pisais e donde apenas / conheceis o fruto já maduro / que estas mãos ofertam / pousado nos dez dedos que o criaram. / As mesmas rugas que a semente vence / ao deslizar para a terra por meus braços / são as que vós tocais ao tactear / as minhas mãos em busca de alimento / nestes dez dedos para vós abertos» (p. 73). Não sendo esta a minha linguagem, há qualquer coisa nesta linguagem que me atrai e cativa. Ao contrário do que sucede com outros poetas africanos, nem sequer aqui nos podemos desculpar com o lado exótico das palavras e dos ritmos que as palavras consentem. Esse lado, praticamente ausente nestes poemas, converte-se num telurismo que me agrada sobremaneira, talvez porque o sinta cada vez mais distante e ausente. Neste sentido, é também esta uma poesia de resistência. De resistência à perda dessa relação do humano com a sua fonte mais próxima, a terra, e de resistência ao esvaziamento da tradição. O mundo é cada vez mais outro, eu sei. Assim como sei, ou pelo menos desconfio, que, fosse hoje, teriam sido feitos não 3000 mas 300 exemplares deste livro.