segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
ODES
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
TOM
Tinha saltos altos e só isso justificava que falasse lá do alto com uma voz tonitruante a tentar dobrar as esquinas do medo de quem, cá em baixo, arrasado, a ouvia. Porque há quem pense serem a verdade e a razão resultado do tom de voz com que se proferem as maiores barbaridades. E cá em baixo, arrasados, os pequenos insectos ouviam-na trovejar as suas razões, tão incoerentes aos olhos de quem não tem costas largas, tão sitiadas dum sono angelical, uma canção tristemente pobre cantada no palco hipócrita das angariações de fundos. Contem-te escritor, não deixes a pena fugir para o automatismo. Tem tento nos dedos, comanda a mão, regula os acidentes como quem regula o som de uma voz firmemente colada à verdade de uma razão justificável pelo volume. Ela estava bem vestida, composta. As pessoas bem vestidas, compostas, são geralmente as mais feias. Porque o facto de estarem compostas torna-as facilmente expostas à descompostura. E logo hoje, quando ainda ecoava em mim a imagem do provocador de acidentes e da criação como uma consequência desses mesmos acidentes provocados por capricho, vontade, desrazão divina. E logo hoje.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
CONTOS, FÁBULAS & OUTRAS FICÇÕES
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
ANTÍGONA
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
HISTÓRIAS DE AMOR
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
PERSPECTIVA
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
THE VANISHING OF MARIA SCHNEIDER
I can’t stop cause it never began
Chegou a hora e ninguém estava lá para a receber. Rebentaram então dois vulcões que pareciam bombas atómicas. As pessoas que perceberam, esconderam-se. As outras agacharam-se aos pés do espectáculo e assistiram a tudo muito espantadas. A hora perguntou por que ninguém a esperava. Ninguém lhe respondeu.
See I’m stuck in this ungodly game
And I only have myself to blame
Deus mantinha-se sereno. De vez em quando esfregava os olhos e despertava alguns demónios nos sonhos da hora. Um homem estranhamente apaixonado resolveu então perguntar à hora por que tinha ela chegado, ao que a hora, muito informalmente, respondeu passando por cima do assunto. Ao passar por cima do assunto, este ficou espalmado.
I would rather drown with you
Than watch the surf with someone else
A hora era como um cilindro. Deixou o assunto espalmado sobre a terra, transformado numa espécie de tapete onde as pessoas arrastavam as solas dos sapatos. Havia um certo deslumbramento no rosto da hora, um gozo perverso que advinha de se sentir contemplada em silêncio. Mas o homem estranhamente apaixonado era feito de ousadia.
Rest your eyes, got no tears for a lovesong
Essa tua ousadia é material resistente, disse-lhe a hora com um sorriso inclinado. Armado da sua ousadia, o homem estranhamente apaixonado acusou a hora de um atraso de cinco minutos. O atraso provava que não era aquela a sua hora, portanto, que regressasse para de onde tinha vindo. Achando-se ultrajada, a hora cuspiu jactos de lava sobre o homem estranhamente apaixonado.
The reverb of time
Is our vantage point
Não tenho lágrimas para a tua amargura, não tenho lágrimas para o teu ódio. Com a minha armadura ousada, resistirei aos 1250 °C do teu cuspo. Tenho a meu favor cronómetros infalíveis, sei que te atrasaste cinco minutos e que, por isso, não é esta a tua hora. Não vale a pena humilhares-te com os demónios que Deus despertou nos teus sonhos.
I won't throw myself from the pier
I'm gonna go home and shut up for a year
Ao escutar estas palavras, Deus ficou tão surpreendido que elegeu o homem estranhamente apaixonado para profeta das suas exclamações. A hora regressou para de onde tinha vindo e o homem estranhamente apaixonado recolheu-se durante um ano em profunda reflexão. Passado esse ano, resolveu disseminar pelo mundo os olhos profundos de Deus.
We all just pretend
That we will not succumb
To the ultimate trend
O que o homem estranhamente apaixonado desconhecia era que os olhos profundos de Deus já não eram de Deus, esses estavam bastante inchados de tanto serem esfregados. Aqueles olhos profundos agora disseminados pelo mundo eram os olhos do homem estranhamente apaixonado com a armadura da ousadia carunchando de imprudência.
Scanning purple sunrise
O que o homem estranhamente apaixonado desconhecia era que os olhos profundos de Deus já não eram de Deus, esses estavam bastante inchados de tanto serem esfregados. Aqueles olhos profundos agora disseminados pelo mundo eram os olhos do homem estranhamente apaixonado com a armadura da ousadia carunchando de imprudência.
Scanning purple sunrise
Before you crawl to bed
Muitas auroras sucederam a tantos mais crepúsculos. As pessoas deixaram de se espantar com as coisas, procurando apenas descansar sobre uma certa nostalgia do espanto. A palavra disseminada era agora um rosto pálido, uma cama por fazer, a imitação de um espectro a animar crianças em centros comerciais. Ainda restavam alguns românticos. Mas as armaduras tinham-se deteriorado irremediavelmente.
Inside your fingers
My heart's the trigger
Escreviam-se canções sobre o assunto, muitos livros para pensar positivo, paródias deprimentes contra a depressão, proliferavam massagistas, vendedores de chás e havia uma grande variedade de iogurtes nas prateleiras dos hipermercados. De Deus já só ouviam falar os pescadores que ainda resistiam à invasão das terras sobre os oceanos. Amontoavam-se gigantescas vaidades dentro dos corações ternurentos. Os corações eram carapaças, pistolas avariadas, etc.
If you don't come from the states
Escreviam-se canções sobre o assunto, muitos livros para pensar positivo, paródias deprimentes contra a depressão, proliferavam massagistas, vendedores de chás e havia uma grande variedade de iogurtes nas prateleiras dos hipermercados. De Deus já só ouviam falar os pescadores que ainda resistiam à invasão das terras sobre os oceanos. Amontoavam-se gigantescas vaidades dentro dos corações ternurentos. Os corações eram carapaças, pistolas avariadas, etc.
If you don't come from the states
You will always be late to be in popular culture
Fechada sobre si própria, a hora continuava a aguardar o seu momento. O mundo, com os seus capitães, não era indiferente ao terrorismo. O terrorismo não era indiferente às orações. Mas entre ambos notava-se uma ligação como aquela que existe entre a farinha e a água e da qual resulta o pão que todos levamos à mesa. Pela tardinha, à minha frente, alguém vai meter a cabeça entre as mãos e lamentar a maldição. Eu não sei o que farei, do futuro não sei nada. Mas o mais provável é vir a barrar o pão com manteiga e sentar-me à espera da hora.
Fechada sobre si própria, a hora continuava a aguardar o seu momento. O mundo, com os seus capitães, não era indiferente ao terrorismo. O terrorismo não era indiferente às orações. Mas entre ambos notava-se uma ligação como aquela que existe entre a farinha e a água e da qual resulta o pão que todos levamos à mesa. Pela tardinha, à minha frente, alguém vai meter a cabeça entre as mãos e lamentar a maldição. Eu não sei o que farei, do futuro não sei nada. Mas o mais provável é vir a barrar o pão com manteiga e sentar-me à espera da hora.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
ONCE
Vi Once (2006) exactamente no mesmo dia em que Bruno Sena Martins escreveu esta pequena nota sobre o filme de John Carney: Para os devidos efeitos, o realismo do screenplay concilia-se com aquilo que há de mais verosímil no romantismo exacerbado. Na verdade, mais que a vocação efabulatória, tanto quanto a nostalgia, é a possibilidade real ou verosímil de uma história que coloniza a subjectividade romantizada. Temos pois um delicioso musical não mais meloso do que tantas vidas submetidas à dúvida razoável ("e se..."). O romantismo como uma dolorosa "hermenêutica da suspeita". A coincidência merece ser apontada, dada a remota probabilidade de voltar a acontecer. Pego nas palavras do texto supracitado para entrar de uma outra forma no filme. Antes de mais, há algo neste “delicioso musical” que o distancia do musical mais vulgar. Repare-se, por exemplo, como as canções surgem sempre em contextos verosímeis e de uma forma absolutamente natural. Ao contrário dos congéneres convencionais, em que a canção, acompanhada fatidicamente de coreografias pouco atractivas para este que vos escreve, surge em contextos improváveis, abrindo uma fenda na plausibilidade da situação, em Once temos um escritor de canções a fazer pela vida na rua, a tocar numa loja de instrumentos musicais, acompanhado ao piano por uma emigrante que, tal como ele, também fazia pela vida nas ruas de Dublin, a gravar em estúdio ou a ensaiar em casa. As coreografias são substituídas por outras danças, talvez menos físicas e mais emocionais. Duvido que se possa apelidar este filme de musical. A sê-lo, é-o de uma forma bem diferente do que até aqui se tinha visto. Será, talvez, um musical realista, um musical dos encontros românticos que acontecem uma vez na vida e deixam a suave marca de uma amizade profunda. Entre o “par amoroso” de Once não se vislumbra o desejo erótico de outros pares, o amor que ali acontece é o de um encontro que une duas pessoas pela partilha de uma paixão comum: a música. Quer ele, quer ela, sentem os corações travados pela vida que está para lá desse encontro. No caso dele, a mulher/amante deixada em Londres. No caso dela, o marido deixado na República Checa. O sexo está fora de questão, mas não o amor, uma certa forma de amor, aquele amor que se confunde tremendamente com a amizade tornada possível pelos interesses comuns. O filme envia-me para a Ética a Nicómaco de Aristóteles. Se bem me lembro, a amizade era aí definida como algo que resultava do afecto que sentimos pelo que é digno de ser amado. Ao amor era atribuída uma dimensão biológica que, de certa forma, o cingia à questão sexual. O prazer que nos é dado sentir em Once é o prazer de um encontro baseado na partilha, no registo dessa partilha na forma de um CD onde ficam gravadas as canções que para sempre unirão este extra-ordinário casal. Ora isto levanta outra questão. No final, os intervenientes separam-se fisicamente. Ele parte para Londres, ela fica em Dublin. A outra questão é: haverá separação nesta distância?
domingo, 23 de novembro de 2008
A FACA NÃO CORTA O FOGO
poesia, faz tempo que não conheço nenhuma,
quero dizer: ílima, íssima, poesia superlativa absoluta simples ou sintética indizível
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
KONRAD LORENZ
E um dia o cão viu Konrad Lorenz mergulhado nas águas frescas da canícula. Ficou sentado na berma do lago a perscrutar os braços do nadador, os patos chegando-se-lhe às melenas grisalhas, a sombra dos corpos estendida nas águas, cortada por finas ondas que mais pareciam estores líquidos. E um dia o cão falou numa língua inteligível, argumentando contra as sombras que um dia o afogaram. E um dia o pêlo do cão não precisou de deixar de ser pêlo de cão para se tornar humanamente respeitável, bem mais que os corpos afogados nas águas e que as águas bêbedas de corpos. E um dia eu ali, do outro lado, a olhar por cima das sombras o cão sentado.
domingo, 9 de novembro de 2008
SILÊNCIOS ENTRE NÓS
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
OBAMA
A eleição de Obama para presidente do Império Norte-Americano está já a surtir os seus benéficos efeitos. O mundo pula e avança de contentamento e mudança. Por exemplo, hoje mesmo um arrumador de carros disse-me que eu ficasse descansado porque ele estaria ali a tarde toda a guardar o imenso parque automóvel onde eu acabara de estacionar. Impressionado com as capacidades do arrumador, perguntei: ― Você sozinho para tudo isto? Ao que ele me respondeu: ― Não se preocupe. Tenho uma visão holística levada da breca.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
JUKEBOX 2
sábado, 25 de outubro de 2008
A METAMORFOSE DAS PLANTAS DOS PÉS
sábado, 18 de outubro de 2008
BROTO SOFRO
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
CLAVE DO MUNDO
domingo, 5 de outubro de 2008
SABOTADORES
Quando fico sozinho em casa sem saber o que fazer, revejo um filme de Hitchcock. Hoje calhou rever Saboteur (1942), filme estreado durante os anos sangrentos da Segunda Grande Guerra. O tema é especialmente hitchcockiano. Em 1936, o realizador inglês havia filmado Sabotage (1936). Aparte as considerações políticas de época, Saboteur é um filme cheio de cenas absurdas e inverosímeis que caricaturam com vivacidade o patético jogo que opõe a verdade à mentira. Esse jogo está igualmente presente em planos que nos remetem para uma espécie de teatro de sombras, porque a verdade é sempre uma luz que se mostra pelas frinchas. Denuncia-se a fachada de uma sociedade arreigada a padrões morais corrompidos por quem os representa, fazendo penetrar nesse grupo sombrio de traidores a inocência luminosa de um ingénuo. O operário em fuga não luta apenas pela reposição da verdade, nem mesmo tão-somente pela sua libertação. Ele quer acreditar que vive num país justo, de homens sábios, rectos, nobres, fiéis, filantrópicos. Homens como aquele intelectual cego que lhe dá de guarida, o tio da jovem modelo por quem o operário em fuga se apaixonará. Só mesmo um intelectual cego para acreditar na inocência de um operário em fuga num país regido pela aparência, pela publicidade, pela falsa caridade daqueles que ostentam o bem como se este fosse motivo de dança num baile para angariação de fundos. O fenómeno é o mesmo de sempre e é tão universal quanto a hipocrisia. Neste preciso momento, em Portugal, há alguém a dançar a melodia da bondade. E há uma série de indivíduos com o nome Fry a fazerem o jogo sujo de quem dança a melodia da bondade. E há alguns operários em fuga algemados. Só falta mesmo uma jovem modelo que os ajude. Mas esse é o lado cinematográfico da questão.
A MÁSCARA DA ANARQUIA
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