O Primeiro Livro de Samuel é comummente apresentado como “uma reflexão histórico-religiosa sobre os sinais dos tempos (…) e sobre a realidade de misérias, pecados e grandezas, à luz da aliança de Deus com os homens e vice-versa”. Nele encontramos a célebre narrativa de David e Golias. O primeiro era o mais pequeno dos filhos de Jessé, guardava o rebanho, tocava harpa e fora escolhido por Deus para rei de Israel. Certo dia, os filisteus desafiaram o exército israelita. Os israelitas acamparam num monte do vale de Elah e prepararam-se para a batalha. Do lado dos filisteus, um gigante de três metros de altura chamado Golias incitou os israelitas a escolherem alguém que pudesse lutar contra ele. A provocação durou 40 dias, até que David, o mais pequeno dos filhos de Jessé, ofereceu-se para combater o gigante. Impregnado de fé, venceu o medo, pegou em cinco pedras e avançou na direcção de Golias com uma funda na mão. Golias não o tomou a sério, mas David arremessou-lhe uma pedra que ficou cravada bem no meio da testa do gigante. Golias caiu e David, com a espada do próprio, cortou-lhe a cabeça. Nisto, os israelitas perseguiram os filisteus e foram deixando os seus cadáveres a juncar os caminhos que levavam a Charaim, Gat e Ecron. Verdadeira ou ficcional, pouco importa. É uma história que se conta para adormecer crianças. Assim o faz Hank Deerfield (Tommy Lee Jones), personagem central de No vale de Elah, o magnífico filme de Paul Haggis, realizador de um não tão estimulante Colisão (2004). São muitas as batalhas travadas neste vale. Tommy Lee Jones, sempre impecável, é mais uma vez recrutado para fazer papel de investigador. Polícia militar reformado, procura o filho desaparecido depois do regresso do Iraque. Diversas questões de índole política fazem sombra ao filme, nomeadamente os traumas consequentes da participação na carnificina que ainda hoje perdura naquele inferno na Terra. As mazelas psicológicas que assolam os soldados regressados, os traumas de guerra, a completa perversão de valores que anula as fronteiras entre o bem e o mal, a indiferença com que aqueles homens passam a olhar o horror e a total banalização da violência, a ponto de se tornar aceitável nas cabeças de quem vive dentro dela, são algumas das questões que emergem no vale de Elah. Mas, como disse, muitas são as batalhas travadas naquele vale. Mais que todas as outras, toca-me especialmente a batalha travada entre o personagem interpretado por Tommy Lee Jones e as suas próprias convicções. Pareceu-me que o que ali estava em causa era o problema da verdade, a verdade de uma história, por exemplo, como a de David e Golias, a qual está dependente da nossa fé. Talvez a verdade esteja sempre dependente da fé. Talvez não. Talvez esteja antes dependente da experiência marcante que é sentir, como um punhal a atravessar-nos o peito, a nossa própria verdade romper-se perante o gume afiado da realidade. O homem acredita na pátria, acredita no exército, acredita que há um fosso a separar os bons dos maus, mas tudo aquilo em que acredita é posto em causa quando se confronta com o corpo despedaçado e carbonizado do filho, um corpo que escapou às pedras dos iraquianos mas não escapou à perversão dos soldados americanos que regressaram da guerra transformados em autênticas máquinas de matar. A realidade abala todas as convicções, subverte os ideais, transforma em pó, em barro, em terra o que antes era a brisa metafísica das supostas verdades absolutas. Quem sente este confronto com as suas próprias verdades jamais poderá meter fé nos absolutos. É esta a mais importante batalha travada no vale de Elah. Golias está dentro de David, é a sua verdade absoluta desafiando a fé, o medo, a coragem, tudo o que se mistura no coração de um homem que julga que o mundo pode ter a configuração de um sonho maniqueísta. Nunca o dia precisou de excluir a noite para ser dia, sempre o crepúsculo foi, ainda que na sua natural efemeridade, a mais eloquente manifestação da verdade, a tal verdade que estará sempre para lá das convicções de quem acredita em mundos a preto e branco. Porque os homens, definitivamente, não são ostras. Embora alguns se assemelhem ao molusco, a ponto de quase não se distinguirem uns dos outros.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
sexta-feira, 25 de julho de 2008
segunda-feira, 21 de julho de 2008
MAPA
domingo, 20 de julho de 2008
PORTO
De guarida no estúdio da Tulipa, com vista para o Douro e para uma escola de strippers, regressei à invicta das gaivotas em transe, dos gatos vadios, das varandas curvadas, das ruelas obscuras. Regressei devoluto ao Porto moderno, aportei moderno no Porto devoluto. Arrancada: sopa de feijão verde, cenoura e courgette, acompanhada de broa de Avintes e vinho verde gelado. No Centro Português de Fotografia, Virgílio Ferreira expõe peregrinos desfocados numa urbe iluminada por lâmpadas fluorescentes. Onde outrora o sol nascia, encontramos agora uma noite de perfis anónimos e nublados. Um passeio por Banguecoque, Macau, Hong Kong, Pequim, Xangai e Tóquio a lembrar o estranho lugar do amor filmado por Sofia Coppola. Do Curso Superior de Fotografia do Instituto Politécnico de Tomar, uma mostra excepcional de trabalhos realizados pelos alunos do 1.º ao 3.º anos do curso. Artistas em construção, edifícios novos, encenados ou espontâneos, ainda com muito decoro na técnica mas a revelarem uma prometedora audácia. Igualmente audaz é o negócio da Utopia. Aguenta-se, ali escondida junto ao quartel da Praça da República. Aproveito para comprar Lacrimae Rerum, de Slavoj Zizek, que começo a ler com alguma desconfiança depois de ter visto uma dúzia de putos a praticarem pesca submarina em plena Avenida dos Aliados: «a ficção é mais real do que a realidade social de representar papéis»? Dúvidas que voltam a assolar-me quando ouço Janis Joplin na Ribeira ou o poema preferido da Marlene Dietrich num festival a decorrer no outro lado do rio. Deito-me com o gato Narciso a fazer-me cócegas nos pés e uma melodia na cabeça: «A strange kind of love / A strange kind of feeling / Swims through your eyes».
A peregrinação continua. Feijoada de legumes com camarões, vinho branco. Gosto daquela mistura de cogumelos, brócolos, feijão preto e malaguetas a sacar um ardor que apenas com mais ardor se mata. Passeio de eléctrico da Ribeira à Foz, ou quase, seguido de caminhada até Serralves. Pelo caminho, mendigos, muitos edifícios devolutos e barcos abandonados, contrastam com espaços comerciais desenhados como mandam as leis do design. Dou, por mero acaso, com a Fundação Eugénio de Andrade. Que o poeta tenha passado os seus últimos dias no Passeio Alegre deixa-me consolado. Um passeio alegre é sempre um belo lugar para um poeta passar os seus últimos dias. Olho a inactividade daquele edifício como quem olha uma paisagem existente apenas na forma como cada um olha as coisas, uma paisagem subjectiva, inerente ao próprio olhar. Sigo assim caminho, embora ainda antes de chegar a Serralves um monumento ao esforço colonial português me tenha desdobrado as vistas. Ficção, realidade, documentário, cinema? Deixa-me cá explorar essa tal «tensão dialéctica entre realidade documental e ficção» na poesia de Manoel de Oliveira. Paro os olhos em Douro, Fauna Fluvial, embora com o pensamento estancado nos cínicos. Nem de propósito, acabo a rever aquela cena inesquecível de A Caça: um homem afunda-se lentamente num pântano, forma-se um cordão humano com a intenção de o salvar; os elementos desse cordão começam a discutir uns com os outros, dividem-se, esquecem-se do homem a afundar-se no pântano; excepto um maneta, que o acode enquanto grita por uma mão solidária. As árvores do jardim de Serralves são como aquele maneta. Só delas podemos esperar alguma atenção enquanto nos afundamos no pântano da realidade. Já desprotegido das sombras, segue o peregrino na direcção da noite. Francesinha no Taipas e Feijões, muito vinho, Smack My Bitch Up.
Quero dizer-te que fiquei durante alguns minutos só a olhar para a salada. Na companhia dos gatos, fiquei durante alguns minutos a escutar os diálogos, a observar as relações entre o tomate e a melancia, o ovo cozido e o ananás, a alface e o resto do mundo. Fiquei ali durante alguns minutos a pensar como tudo poderia ser mais belo se fosse mais simples, como tudo poderia ser mais simples se fosse mais belo. E foi assim que me pus a andar sem destino algum, simplesmente por andar a caminho de qualquer coisa, o que fosse, que pudesse ser simples. Dei alguns passos decadentes, visitei sinagogas desaparecidas, subi à Sé, desci à Ribeira, entrei em tascas imundas, visitei mercearias e profissões em vias de extinção, outras cada vez mais recorrentes, fui sempre junto ao rio até poder voltar a subir para lá das margens. Como se o meu corpo fosse a duna que se levanta para lá das margens. Quando nos predispomos a não querer, encontramos sempre o que nunca procurámos. Mais correcto será dizer que somos achados por quem nunca nos procurou: quando queremos andar só por andar, a observar não quem pretendemos que nos observe, mas a observar os nossos próprios movimentos na direcção de um nada que, súbita e inesperadamente, se transforma em tudo o que verdadeiramente importa. E tudo o que verdadeiramente importa é a dor que se desembaraça do corpo com outra dor ainda maior. O nosso corpo, assim aliviado dos relógios e dos mapas que o guiam quotidianamente, pressente nos acasos um diálogo simples e belo entre a liberdade que dá forma ao caos e o desejo que o contamina de uma ordem sempre muito pessoal. Descanso na Gato Vadio como um vadio sem pêlo, desnudado para fora da t-shirt suada, para dentro de duas cervejas pretas e das 535 Máximas 535, de Eastwood da Silva: «anda o mais possível a pé». E come farturas, e bebe cerveja, e fuma cigarros, e grita pelo Jim Morrison, e canta aquela velha canção: «sometimes, when I look deep in your eyes, I swear I can see your soul».
quinta-feira, 10 de julho de 2008
BIG ODE #5
Big Ode n.º 5
Tema: Pesadelo
Edição e Design: Rodrigo Miragaia
Design de conceito: Rodrigo Miragaia e Sara Rocio
Coordenação editorial: Maria João Lopes Fernandes
Julho de 2008
Vogais Mudas, Courgette, Pesadelo na Rua José Tanganho (s/pp).
quarta-feira, 9 de julho de 2008
DESNASCER
A filha mais pequena pede-me que ligue as janelas. Entre ligar e abrir há apenas alguns meses de introdução ao erotismo elegíaco dos tiranos. Um dia dir-lhe-ei: não é ligar, é abrir. A irmã já lhe diz. Eu não posso, tenho as mãos esgotadas de espera.
Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe. Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viagem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...
Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe. Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viagem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...
José Mário Branco
O DISCURSO DO MÉTODO
segunda-feira, 7 de julho de 2008
JULIAN SCHNABEL E OS NÁUFRAGOS
O artista plástico Julian Schnabel (1951) estreou-se no cinema em 1996, com um filme sobre Jean-Michel Basquiat (1960-1988). Seguiu-se Before Night Falls (2000), tendo como pretexto a vida do escritor cubano Reinaldo Arenas (1943-1990). A opção por histórias verídicas manteve-se em Le Scaphandre et le papillon (2007), desta feita centrado na tragédia de Jean-Dominique Bauby. Bauby era editor da revista Elle antes de ter sofrido um AVC. Com uma paralisia praticamente geral, sobrou-lhe um olho, o olho esquerdo, para comunicar com o mundo. Servindo-se simplesmente desse olho, conseguiu ditar um livro onde descreveu o seu mundo: «Doem-me os calcanhares, a cabeça pesa-me toneladas, todo o meu corpo está metido numa espécie de escafandro. A minha tarefa agora é redigir notas de viagens imóveis de um náufrago encalhado nas praias da solidão». É esta ideia do “náufrago encalhado nas praias da solidão” que me interessa particularmente no filme de Schnabel, até porque me parece que ela é extensível aos personagens dos seus filmes anteriores: o escritor homossexual e proscrito, o artista desassossegado. Cada um destes personagens foi, à sua maneira, um náufrago encalhado nas praias da solidão. Basquiat morreu muito novo, viciado em heroína. Arenas conseguiu fugir à ditadura cubana, vindo a suicidar-se nos EUA depois de saber que tinha SIDA. Bauby morreu condenado a comunicar com o mundo através de um olho, um único olho que, pestanejando, conseguia responder sim ou não às perguntas mais simples. Mas também conseguiu ditar todo um livro, o seu livro, o livro interior de uma situação-limite. Karl Jaspers chamava às situações-limite situações «que não podemos transpor nem alterar», são situações que delimitam a nossa condição humana, impondo-nos fronteiras das quais não escapamos, são situações que transcendem o domínio da nossa liberdade. «Tenho que morrer, tenho que sofrer, tenho que lutar, estou sujeito ao acaso e incorro inelutavelmente em culpa», dizia Jaspers. Mas acrescentava que o espanto provocado por estas situações era a origem mais profunda da filosofia. Perante uma situação-limite o homem tem duas hipóteses: ignorar ou questionar-se. «As situações-limite – morte, acaso, culpa e insegurança – mostram o fracasso. Que farei eu perante este fracasso absoluto a cuja intuição me não posso furtar se honestamente o apreendo?» Cada uma das personagens dos três filmes de Julian Schnabel terá respondido a esta questão de um modo diferente. A personalidade autodestrutiva de Jean-Michel Basquiat não é comparável à obstinação de Reinaldo Arenas, nem nenhum destes dois pode ser pensado à luz das privações extremas experimentadas por Jean-Dominique Bauby. Mas todos eles se cruzam num aspecto essencial: são náufragos encalhados nas praias da solidão. O náufrago não é aquele que está perdido, nem mesmo aquele que se sente perdido, não está em queda nem em ascensão, não vive num limbo, é apenas humano, mas é um humano que toma consciência da situação-limite em que vive, não a ignora. Julgo que todas as pessoas terão tal consciência, nesta ou naquela experiência de vida, embora viver permanentemente com a consciência da situação-limite em que se vive seja algo completamente diferente. Se entendermos o naufrágio como um acidente, o náufrago será aquele que participa do acidente. Nascer é o primeiro acidente do qual o náufrago participa. Morrer, o último. Entre o nascimento e a morte há todo um novelo de acidentes que se desenrola. A isso chamamos vida. Muita gente vive sentindo-se ancorada, não tendo consciência do naufrágio em que vive, disfarçando esse naufrágio com um sonambulismo ingénuo que até pode ser consolador. No entanto, a vida assemelha-se a um novelo de acidentes sobre os quais, enquanto participante, o náufrago pode assumir diversas posturas. Dependerá dos acidentes e da forma como cada indivíduo se coloca perante a vida. A pior postura de todas será, julgo eu, querer arrastar os outros para os nossos próprios acidentes, sobretudo se isso acontecer por manifesta incapacidade de enfrentar as tempestades que nos colhem, desassossegam e inquietam. Se pensarmos na solidão como uma situação-limite, uma dessas situações que Jaspers definia como sendo inultrapassáveis mas impulsionadoras de espanto e de questionamento, se pensarmos na solidão dessa forma, então o náufrago que encalha nas praias da solidão é aquele ao qual apenas resta uma de duas hipóteses: acomodar-se à praia onde encalhou ou enfrentar a agitação das marés tentando superar a sua condição. Pode fazê-lo de várias formas: droga-se, luta teimosamente pela sua liberdade, mata-se, cria, etc. Nos filmes de Schnabel nenhum deles optou pela acomodação, e isso é verdadeiramente espantoso tendo em conta o destino desgraçado dos três. Dizia hoje ao almoço que o que há de verdadeiramente espantoso na vida não é o inexplicável. O milagre não é o inexplicável. Milagre é encontrarmos explicação para alguma coisa, isso sim é milagroso, excepcional, raro e único. Ora, é absolutamente milagroso um homem encontrar uma explicação para os seus naufrágios. Seja qual for a opção na sequência dessa descoberta, ele nunca deixará de ser um náufrago, ou seja, alguém que participa dos acidentes da vida. Mas poderá sê-lo suspirando à hora da tempestade ou estrebuchando, no limite das suas energias, na senda de uma nova situação.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
POESIA BRITÂNICA
PORCO CUPIDO
A minha miúda
é um bife que respira,
dois bocados de acompanhamento bordado.
Um prato que sorri provocou um homem faminto,
agora vou alimentar-me.
Meu talher é um bastão
disciplinário de sangue.
Meu fito
é um buraco castanho,
a campa do amor.
O filho da minha miúda
é este ursinho
sentado na almofada em assustado silêncio.
Lindo.
O meu cérebro é concreto.
Meu apelo é culpado.
Meu sangue dói.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
INTO THE WILD
Os barómetros da vida estão todos baralhados. Nem podia ser de outra forma, ao pretenderem atribuir percentagens ao optimismo e ao pessimismo com que tentamos olhar para o futuro. Se a ideia de olhar para futuro é arrepiante, quanto mais olhá-lo com pessimismo ou com optimismo. Sejamos razoáveis, é impossível olhar para o futuro. Vemos apenas morte. É esse o futuro. Por isso importa olhar para o presente, mas sobre o olhar do presente não se fazem estatísticas. O presente é o devir e sobre o devir não reinam os números. Podemos afirmar que as pessoas vivem melhor ou pior conforme verifiquemos que as suas necessidades estão mais ou menos satisfeitas. Mas há lá coisa mais subjectiva do que as necessidades de cada um? A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer, dizia o escritor sueco Stig Dagerman. Talvez se tenha suicidado por isto mesmo. Talvez não lhe faltassem os bens materiais que tornam consolável a vida de muitas pessoas, mas faltou-lhe algo sem o qual não conseguiu sobreviver. Por vezes penso que não preciso de mais nada na vida: uma máquina de escrever, um cigarro e o meu amor a olhar para mim, por mim, através de mim, o que escrevo. É claro que um homem não sobrevive sem as contas pagas. Mas precisaremos nós de mais do que água, luz e gás? E há o carro, pronto, e a Internet, ok, concedo… a comidinha, umas mudas de roupa. Há esses bens “básicos”, esses pequenos luxos do lixo sem os quais se torna hoje difícil sobreviver. Precisaremos de muito mais? Afinal, em que pensam as pessoas quando pensam na possibilidade da sua vida melhorar? Será que não têm estas necessidades já satisfeitas? Será que lhes falta o consolo que é impossível satisfazer? Ou será que não têm tempo para o consolo porque andam na vida à procura de uma casa na praia, férias no Brasil, salas repletas de presentes inúteis na noite de Natal, mergulhos em piscinas atafulhadas de gente, hotéis de luxo, roupas de marca, carros mais rápidos, telemóveis da última geração, centros comerciais?... São perguntas simples, o discurso é simplista, objectivo, são questões para as quais não encontro uma resposta. Eu sei que passo muito bem com pouco e sei de quem não passe bem sem muito. As pessoas são diferentes. E eu não vim ao mundo para espalhar a mensagem. Permitam-me, e não me levem a mal que o declare neste tom estupidamente profético, que aquilo a que os políticos chamam “ventos de mudança” é um logro para colar as pessoas a uma vida desperdiçada ao serviço dos pequenos luxos. Mas há quem prefira gozar o mundo com corações de plástico. Que podemos nós fazer? Into The Wild responde-nos a esta questão com uma comovente honestidade, convence-nos, provoca-nos algo cada vez mais raro: uma fascinação espantada. A mesma fascinação que nos é oferecida pelos textos de Henry Thoreau, que um dia terá questionado o sentido dos novos meios de comunicação quando as pessoas nada têm para dizer umas às outras. Preocupado em tornar poético o seu modo de vida, preocupado em ganhar a vida e não a morte vivendo intensamente, Thoreau experimentou vários ofícios que pouco tinham que ver com a sua condição de intelectual. Apolítico, desprezando a vida alienadora das grandes cidades e a escravatura da industrialização, fez-se filósofo da natureza. Partiu para os bosques, construiu uma pequena cabana nas margens do lago Walden e aí viveu durante dois anos, regressando posteriormente à urbe para manter dentro de si o desassossego, a inquietude, para não se “waldenizar”. O termo é de Kenneth White, que num estimulante livro intitulado O Espírito Nómada dedica algumas páginas inteligentes à obra do norte-americano Henry David Thoreau. E eis que estou de regresso ao Papalagui de sempre com um sorriso nos lábios da memória: «assim como é de mau gosto um homem atravancar o peito com muitos colares de conchas, igualmente o será com o pesado fardo do dinheiro. Dificulta-lhe a respiração e tira-lhe a liberdade de movimentos de que os seus membros necessitam». Eu não odeio o metal redondo, mas odeio a ideia de me deixar entregar à ditadura do metal. Porque o sorriso do meu amor quando olha para mim não é pagável, nem o sono sossegado das filhas se transacciona como uma mercadoria, nem o sol que hoje iluminou o Tejo cobrou imposto. Daqui a nada, não estaremos por cá. E isto é tudo o que preciso de saber para saber o que não quero.
sábado, 21 de junho de 2008
VELHOS
sexta-feira, 13 de junho de 2008
AS CANTINAS
sexta-feira, 6 de junho de 2008
A CABEÇA DE BAPTISTA
Não é vulgar um poeta publicar quatro livros de poesia num só ano, muito menos vulgar tratando-se de quatro livros premiados. Aconteceu já este ano, e ainda vamos a meio, com o poeta Amadeu Baptista (n. 1953), que após Outros Domínios (Clamor por Florbela Espanca) – Prémio Literário Florbela Espanca, 2007 -, publicou recentemente, em belas edições da Cosmorama, os títulos O Bosque Cintilante - Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, 2007 -, Sobre as Imagens - Prémio Nacional de Poesia Palavra Ibérica, 2008 - e Poemas de Caravaggio - Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire, 2007.
Comecemos por O Bosque Cintilante. Colige mais de oitenta pequenos poemas em conexão com composições de Mozart, Strauss, Chopin, Vivaldi, entre outros. Vem-me à memória a Arte de Música (1968), de Jorge de Sena (1919-1978), livro memorável onde o exercício poético surgiu como forma de falar na arte da harmonia e os poemas impunham-se, também, como «transfiguração poética da música». Em O Bosque Cintilante encontramos, porém, uma outra experiência. Eles podem expressar uma mera impressão causada pela audição da obra, mas também recriam, de um modo seguro e reflexivo, aspectos biográficos dos compositores e das obras, em correlação com a disposição afectiva do poeta. Sendo assim, podemos observar três mecanismos de produção neste conjunto: a mera fruição das peças origina os versos, o conhecimento histórico dos autores motiva reflexões de vária ordem – por vezes num tom ligeiramente aforístico -, a experiência pessoal aparece disfarçada, ao mesmo tempo que legitimada, pelas vivências alheias. Este elo de ligação ao mundo, através de um processo criativo sobre outras criações, resulta não apenas naquilo que é costume apelidar-se de “poesia culta” mas antes na construção de um lugar salvífico, o lugar da comunhão possível, um lugar de encontro e de diálogo alternativo à cruel paisagem humana da actualidade (solitária por excelência, se assim podemos dizê-lo). Daí que sejamos constantemente confrontados com jogos de tonalidades onde a recorrência da «luz mais verdadeira» (p. 39), da brancura, da «subtil transparência do olhar» (p. 48), do esplendor, da clareza, do brilho, da clareira, seja amiúde confrontada com uma «sombra que baila» (p. 45), a treva, o «sol nocturno que nos vigia» (p. 21), numa união que não enjeita os duelos mas tenta resolvê-los: «Vejo todas as coisas com a irrealidade da luz / filtrada sobre o peso inverosímil da neblina. / A música evolve a água, / como uma linha de pássaros dentro da cabeça / enquanto a neve cai e flutua no horizonte o bosque cintilante» (p. 38).
Já no volume intitulado Sobre as Imagens, sexto da Colecção Palavra Ibérica, as referências são 14 painéis expostos no Museu de Grão Vasco. Em nota prévia, o autor esclarece-nos não se tratar este ciclo de «uma recriação ecfrástica da iconologia desses painéis». Não estamos, pois, perante exercícios descritivos, embora muitas vezes assim pareça: «(…) na imagem, está assim, com o corpo estarrecido (…)» (p. 9). Somos frequentemente encaminhados para as imagens, para os contrastes entre a luz e a escuridão, num processo multirreferencial que chega a ser exaustivo. O território é o de uma espécie de “poesia sacra” com ligações constantes aos lugares bíblicos: o monte Hermon, Jerusalém, Magdala, o deserto da Jordânia, Roma e Alexandria, Galileia, o Sinai, Genesaré, Gólgota, etc. Mas estes lugares bíblicos não são apenas recriações da geografia onde Deus feito homem pelos homens foi crucificado. São também uma reconstrução da história, um evangelho pessoal inspirado (faz todo o sentido aqui este termo) num testemunho pictórico. Não é, quanto a mim, dos livros mais cativantes de Amadeu Baptista, por nele vislumbrarmos uma fórmula que o próprio autor vem repetindo, deixando uma sensação de desgaste e alguma monotonia.
Tudo é diferente com Poemas de Caravaggio, certamente um dos melhores livros deste autor e um dos mais interessantes livros da poesia portuguesa dos últimos anos. No prefácio, Joana Ruas chama a atenção para «a íntima relação entre poesia e pintura existente no período barroco e que se pode resumir no pensamento: a pintura é poesia muda e a poesia é imagem que fala» (p. 10). O livro começa com um conjunto de oito Sonetos marcados por várias interrogações metafísicas onde estão em causa, principalmente, os paradoxos implicados numa relação conflituosa com a ideia de Deus. Seguem-se seis Poemas Sobre Tela, ou seja, seis explicações, pela hipotética voz de Caravaggio, para outras tantas das suas obras mais conhecidas. Muito haveria a dizer acerca destes poemas, sendo que não pode passar despercebida a intenção de reconstruir uma inquieta e inquietante visão do mundo. Não é possível ficar indiferente a estes versos: «O mundo, agora, é só hipocrisia. / E, por isso mesmo, a minha regra / é não ter regra nenhuma / - em busca da brandura / vou de sítio em sítio, / a procurar um sentido nos sentidos, / ou alguém que não difame, / ou que não roube» (p. 43). Poemas de Caravaggio encerra com Três Elegias seguidas de mais três Últimos Poemas. São textos extraordinários, até pelo modo como contrapõem a carne à matéria espiritual, a relação com o corpo feminino à relação com Deus, reconstituindo um tempo que, para mal dos nossos pecados, ainda se parece absurdamente com o nosso.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
SAUDADE #10
Saudade - Revista de Poesia
N.º 10, Junho de 2008
Director: António José Queirós
Associação Amarante Cultural
Poema do Novo Egipto, p. 28
sexta-feira, 30 de maio de 2008
POESIA BRASILEIRA DO TERCEIRO MILÉNIO
segunda-feira, 26 de maio de 2008
O SENHOR E O ESCRAVO
Para o manuel a. domingos
o escravo não queria ser senhor. queria apenas não ser escravo. quando deixou de ser escravo
quis ser senhor. mas quando quis ser senhor já não era escravo.
DESOCULTAR O ÓBVIO
No ano passado a Palma de Ouro foi atribuída ao filme 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, da romena Cristian Mungiu (n. 1968). O “hiperrealismo” do título faz justiça ao filme em si, uma abordagem ao aborto clandestino na Roménia comunista. A história decorre em 1987. Duas estudantes universitárias, Ottila e Gabita, resolvem recorrer a um tal de senhor Bebe para colocar fim à gravidez indesejada de Gabita. Além de dinheiro, Bebe exige que as duas amigas se prostituam com ele. O segredo entre ambas deixa de ser apenas o aborto de uma para passar a ser aquele acto de prostituição das duas, centrando-se o argumento na angústia de Ottila, claramente mais matura e esclarecida, e na sua dificuldade em lidar com a situação e, posteriormente, com o namorado. Várias questões de ordem ética e moral são ilustradas no drama de consciência que afecta Ottila, mas, à margem da própria história, ou talvez nem por isso, há uma cena que marca o filme. Um plano de Ottila ajoelhada na casa de banho do quarto onde o aborto é realizado. Ottila olha fixamente, num misto de tristeza e nojo, para o chão. Sabemos o que ela olha, mas não acreditamos que nos vá ser mostrado o objecto do seu olhar. Enganamo-nos. O que há de espantoso naquela cena é o facto de num filme onde a sobriedade é extrema sermos confrontados com a imagem de um feto expelido, embrulhado numa toalha, sem que nada o fizesse prever. Vivermos num mundo onde tudo se mostra transformou a arte, em certa medida, num saber da ocultação. Enquanto noutros tempos a arte foi sendo assumida como um dom de desocultação, decifração, revelação, agora parece fazer mais sentido o contrário, através de técnicas várias onde o segredo para mostrar melhor está, precisamente, em não mostrar. Cristian Mungiu resolveu mostrar-nos algo que, provavelmente, nós não esperaríamos ver, criando assim um inesperado efeito de surpresa. É curioso: noutro filme aquela cena talvez parecesse ridícula, neste não.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
MÁGOA DAS PEDRAS
Não é fácil escrever sobre a poesia de Joaquim Castro Caldas (n. 1956). Não porque seja uma poesia difícil – o que é isso de uma poesia difícil? -, mas porque os seus poemas encerram no âmago, enquanto entidades singulares em relação com o leitor, tudo o que possamos dizer acerca deles. Há uma transparência na poesia de Joaquim Castro Caldas que, muito frequentemente, a torna obscura. Recordo-me do poeta sentado, se a memória não me falha, no palco do café da Barraca. Recordo-me do poeta sentado, envolto numa nuvem de fumo, de copo de uísque na mão, a dizer/representar os seus poemas. Talvez seja aquele o ambiente natural desta poesia, uma poesia que nasce como uma voz que vem do fundo do corpo, palavras a pedirem uma pronunciação, vindo à boca como uma nuvem de fumo soprada no ar. Cã (1974), Português suave (1978), Diz que até Jesus (1998), Impressões digitais dos deuses (2001), Convém avisar os ingleses (2002), Só cá vim ver o sol (2004), são alguns dos livros anteriores do autor deste Mágoa das Pedras (Deriva, 2008). Quem conhecer alguns daqueles livros sabe o que pode esperar desta poesia: construções alternando entre o verso e a prosa, uma derrisão tão melancólica quão desencantada, «uma saudade concreta», mas também, e talvez sobretudo, uma ternura surpreendente. Talvez os poemas mais conhecidos de Castro Caldas sejam aqueles onde as veias burlesca, satírica e irónica são reveladas sem apelo nem agravo. É também um poeta do amor, da denúncia do seu tempo, da memória, até da confissão. Esta diversidade no tom, concentrada nas vivências vagabundeantes do autor, não implica uma heterogeneidade que possa pôr em causa a coerência dos temas: os tiques caracterizadores da sociedade portuguesa actual ou as memórias da infância, amores e desamores, brevíssimas reflexões existenciais, entre outros. Mágoa das Pedras denota, em diversos momentos, uma marca elegíaca. A morte surge logo no primeiro poema, um poema em prosa intitulado um fôlego: «aqui não há morte, a vida recomeça, há só uma energia que muda de forma e mergulha, dá-se inteira como uma escrita, a fala» (p. 9). Talvez seja esta a justificação do sentido da poesia, a justificação do sentido da poesia neste livro específico ou da poesia como um todo. Os poemas finais falam de partidas, num tom quase de despedida, falam do passar dos anos, dos enganos e dos desenganos, uma espécie de balanço existencial, falam dos outros, da gente boa que ficou e da gente que partiu, porque a vida não se divide entre um passado, um presente e um futuro, a vida é um ir indo: «a gente aprende / o coração à lareira / que se fica a ir / e reacende / are que um dia / alguém se lembre» (p. 60). É nesta cadência do "vai-se indo", expressão popular que define todo um povo, que os poemas surgem entre a luz terna dos afectos e a dor sombria dos percalços. O gavetão das memórias é aberto, vêm à tona imagens das brincadeiras de criança, um quando perdido que não se renova, a aldeia, Lisboa, o luar da infância que nos protege a todos da «brutalidade do mundo» e a poesia, quem pode saber, como o pouco que resta desse luar. Os brinquedos estão agora escangalhados, a rebeldia dos amigos vestiu fato e gravata, foi à vida. Os amigos são talvez quem está mais presente neste livro, «os amigos puros» e «os velhos amigos», aqueles que já não estão, aqueles que estando é como se não estivessem, os poucos que ainda estão ou os outros que, já não estando, são talvez os que estão mais. Não sabemos se há nas pedras uma mágoa. A haver, essa mágoa só pode ser a da degradação do tempo, a da desumanização da vida, sobretudo da vida entre pares. Os serviços de SMS substituíram as cartas com sangue e cheiro, o dinheiro é um vírus que tudo infecta, «o amor é um chip e o egoísmo o seu disco rígido e de repente eu já não te conheço fora do site e andamos de satélite e uma dúzia de monstros impunes põe e dispõe da alma à humanidade e eu sinto-me assim uma coisa inútil o email cobarde» (p. 32). E este é um livro desencantado. Certamente um dos melhores de Joaquim Castro Caldas, indubitavelmente um dos mais convincentes livros de poesia portuguesa deste ano.sexta-feira, 16 de maio de 2008
AÇO E NADA
As crónicas de Aço e Nada (Brasil, 2007) foram publicadas entre Fevereiro e Março de 2007, no jornal A Notícia (Joinville, estado de Santa Catarina). Poderiam ter ficado por ali esquecidas e abandonadas, não fosse o zelo do seu autor, Rubens da Cunha (n. 1971), que em boa hora resolveu guardá-las no regaço confortável de um livro. Três conjuntos de textos, aproximados no tom mas diversos na forma, prefaciados por Carlos Sousa de Almeida: «Partindo, amiúde, da insípida banalidade, e a arte é, antes de tudo o mais, isso mesmo, as crónicas de Rubens da Cunha dão sabor de ficção ao real, explorando os canais de emoção do leitor para neles se instalar». Já iremos à insípida banalidade. Para já, cabe lembrar que a crónica é sempre um género ingrato. Exige do autor um olhar vigilante, ao mesmo tempo desnudado, raramente merecedor de uma fixação que a previna da inflexível fogueira do esquecimento. Porque é escrava dos dias, a crónica apenas sobrevive quando logra apreender dos dias os pormenores esquivos que estão diante de todos mas só não passam despercebidos ao olhar garimpeiro do cronista. Por isso há sempre uma ambiguidade implícita nos tempos da crónica. Mesmo quando assume uma atitude mais reflexiva, ela não se livra dos preconceitos do seu tempo. Está dependente da actualidade, germina no ventre da actualidade, ainda que não se circunscreva a essa mesma actualidade. Se sai bem, irrompe desse terreno tão fértil quão delicado - como uma árvore de fruto. E ao longo dos tempos os frutos irão amadurecendo. O cronista sabe que pouco mais lhe resta do que amanhar a terra com as palavras, a ferramenta do seu ofício, semear perspectivas, indagações, breves apontamentos lunáticos, pulverizar as árvores com o veneno da poesia e esperar que os frutos surjam, pelo menos, com um aspecto desejável, apetitoso, se possível cativante. É pois na insípida banalidade dos dias, na monotonia quotidiana, no ramerrão que marca o ritmo das gentes, que o cronista planta as suas árvores e, paradoxalmente, colhe os seus frutos. Porque da insípida banalidade fazem parte tanto aquele que escreve como quem é escrito. Encanta nas crónicas de Rubens da Cunha a forma como consegue distanciar-se dos outros sem separar-se deles. Há uma atitude muito frequente em certos cronistas contemporâneos que é a de se afastarem esquizofrenicamente do mundo em que vivem e passarem a ver a realidade como se esta fosse um planeta girando em torno da luminosidade que irradiam. Esta atitude não é a do autor de Aço e Nada. O afastamento é um afastamento para dentro, uma aproximação do olhar aos pormenores, um aumento da objectiva a ponto de conseguir perspectivar já não apenas o banal mas os inusitados. Sendo a vida feita de aparência, o que estas crónicas buscam é o inaparente. Não que estejam crentes da existência desse inaparente, mas, pelo menos, conseguem iludir-nos quanto à existência de gestos que não sejam automáticos, situações que não sejam previsíveis, pessoas que não sejam triviais (quase sempre aquelas para as quais ninguém olha). E tudo isto é realizado com saudável ironia, nenhuma autocomplacência, uma enorme capacidade de espanto. Deste modo, é frequente a crónica resultar numa espécie de poema em prosa, num conto, numa colectânea de micronarrativas, onde o inédito é resgatado, fixado, apontado. Referindo-se à figura do poeta, Rubens da Cunha afirma não saberem aqueles que o criticam ser vasto e cansativo o trabalho de observar. É este trabalho de observar o quotidiano, a arquitectura das relações humanas, a inexplicabilidade de alguns factos, que vem à tona nas crónicas de Aço e Nada. Olhar vigiador, pois então, como no título de um dos três conjuntos aqui coligidos. Mas um olhar delicado, crítico mas não críptico, equilibrado na forma como conduz o leitor e capaz de revirar a terra para dela colher o alimento mais deleitoso.terça-feira, 6 de maio de 2008
A “PRIMEIRA ANTOLOGIA DE MICRO-FICÇÃO PORTUGUESA”
foi o pretexto desta conversa Rui Costa – Luís Ene
Qual o teu interesse pelo que se pode designar como micronarrativa ou micro-ficção? Já agora, que expressão preferes?
O meu interesse pela micro-ficção tem a ver com a sua extrema aptidão para a promiscuidade. A micro-ficção é um tique nervoso, uma descarga eléctrica feliz, como quando vais pela auto-estrada a 140, durante três horas, e te cai um broche do céu. Prefiro a expressão micro-ficção, porque me parece mais abrangente, e porque soa melhor (Cristina, não vais levar a mal).
Concordas com a afirmação de que a micronarrativa instala a confusão, como sugere HMBF no prefácio, entre a poesia e a prosa?
Sim. Não há confusão nenhuma, tudo é confusão. Os nossos antepassados é que se sentiam confusos e desataram a fazer classificações: isto é poesia, aquilo é prosa, isto é pimba, aquilo já é a botar pró clássico, e por aí fora. Eu gosto de abstracto, mas também gosto de concreto. Gosto de leite com groselha, mas também gosto de absinto. Isto faz-te confusão? A mim não me faz confusão nenhuma.
É como aquela pessoa que entra no autocarro e se agarra ao primeiro varão. O autocarro enche, as pessoas que vão entrando querem passar, mas aquela pessoa está aparafusada ao chão. Passa a primavera, o verão, chega o inverno. A pessoa tem o primeiro neto, compra uma casa de férias. Eventualmente morre sem deslargar o varão. O varão salvou aquela pessoa da confusão, não foi? Mas agora não há nenhum varão que nos salve.
Qual foi e como decorreu o processo de selecção e organização dos textos? Quais os critérios que te orientaram?
Convidei, como explico numa nota do livro, os autores a enviarem-me textos com o máximo de 200 palavras. Houve uma excepção, o Alcides. É um indivíduo estranho, ameaçou convidar-me para provar empadinhas de tofu.
Os critérios: qualidade e variedade. Quanto à variedade, deixo esta precisão: há um dois autores com quem não tenho especial afinidade de escritas/gosto, mas achei que deviam integrar a antologia, por focarem um conjunto de temas e/ou processos que ainda não estava representado.
Uma boa parte dos autores antologiados vai publicar mais coisas no futuro, e com todo o mérito.
A ideia de indicação dos blogues dos autores foi tua? O que está por detrás dela?
Foi. Descobri (por mim e por indicação tua e do Henrique Fialho) quase todos os autores nos blogues, nada mais natural do que indicar a fonte. E é uma forma de dizer “aos blogues”: estavas aí, discreto e caladinho a escrever posts onde não passa a TVI, mas valeu a pena porque houve alguém que leu e gostou.
Achas que a micronarrativa é um novo género?
Acho que a micro-ficção é mais do que um género, é um peixinho amarelo de barbatanas peitorais.
Que pensas do resultado final da antologia?
Ficámos todos contentes com o resultado final: um livro que ao mesmo tempo é um objecto bonito e tem um conteúdo variado e de qualidade. O meu maior gozo foi o de poder dar a conhecer autores que ainda não tinham tido oportunidade de publicar (e outros que andavam noutras lides).
Fico surpreso com o facto de esta ter sido a primeira antologia de micro-ficção portuguesa, sabendo nós como ela vem sendo praticada há alguns anos em Portugal e noutros países. Dizem que há muitas editoras? Se há, devem andar a dormir. A editora exodus apostou na minha ideia e diz que não se arrependeu: em pouco mais de um mês uma cadeia de livrarias reforçou os seus stocks duas vezes.
E o teu romance? Tem tido boa aceitação do público e da crítica?
O público (bem, nem todo) gosta de surpresas (um leitor falou-me do que chamou uma “nova experiência de leitura”); um excelente crítico vai falar alguns minutos sobre “A Resistência dos Materiais” no Programa da RTPN “Ler+, ler melhor” (ainda não sei a data mas, tendo em conta a pessoa, tou curioso).
Ei, reparo que parou de chover. Vou até ali ao bosque.
Até breve, amigo!
Qual o teu interesse pelo que se pode designar como micronarrativa ou micro-ficção? Já agora, que expressão preferes?
O meu interesse pela micro-ficção tem a ver com a sua extrema aptidão para a promiscuidade. A micro-ficção é um tique nervoso, uma descarga eléctrica feliz, como quando vais pela auto-estrada a 140, durante três horas, e te cai um broche do céu. Prefiro a expressão micro-ficção, porque me parece mais abrangente, e porque soa melhor (Cristina, não vais levar a mal).
Concordas com a afirmação de que a micronarrativa instala a confusão, como sugere HMBF no prefácio, entre a poesia e a prosa?
Sim. Não há confusão nenhuma, tudo é confusão. Os nossos antepassados é que se sentiam confusos e desataram a fazer classificações: isto é poesia, aquilo é prosa, isto é pimba, aquilo já é a botar pró clássico, e por aí fora. Eu gosto de abstracto, mas também gosto de concreto. Gosto de leite com groselha, mas também gosto de absinto. Isto faz-te confusão? A mim não me faz confusão nenhuma.
É como aquela pessoa que entra no autocarro e se agarra ao primeiro varão. O autocarro enche, as pessoas que vão entrando querem passar, mas aquela pessoa está aparafusada ao chão. Passa a primavera, o verão, chega o inverno. A pessoa tem o primeiro neto, compra uma casa de férias. Eventualmente morre sem deslargar o varão. O varão salvou aquela pessoa da confusão, não foi? Mas agora não há nenhum varão que nos salve.
Qual foi e como decorreu o processo de selecção e organização dos textos? Quais os critérios que te orientaram?
Convidei, como explico numa nota do livro, os autores a enviarem-me textos com o máximo de 200 palavras. Houve uma excepção, o Alcides. É um indivíduo estranho, ameaçou convidar-me para provar empadinhas de tofu.
Os critérios: qualidade e variedade. Quanto à variedade, deixo esta precisão: há um dois autores com quem não tenho especial afinidade de escritas/gosto, mas achei que deviam integrar a antologia, por focarem um conjunto de temas e/ou processos que ainda não estava representado.
Uma boa parte dos autores antologiados vai publicar mais coisas no futuro, e com todo o mérito.
A ideia de indicação dos blogues dos autores foi tua? O que está por detrás dela?
Foi. Descobri (por mim e por indicação tua e do Henrique Fialho) quase todos os autores nos blogues, nada mais natural do que indicar a fonte. E é uma forma de dizer “aos blogues”: estavas aí, discreto e caladinho a escrever posts onde não passa a TVI, mas valeu a pena porque houve alguém que leu e gostou.
Achas que a micronarrativa é um novo género?
Acho que a micro-ficção é mais do que um género, é um peixinho amarelo de barbatanas peitorais.
Que pensas do resultado final da antologia?
Ficámos todos contentes com o resultado final: um livro que ao mesmo tempo é um objecto bonito e tem um conteúdo variado e de qualidade. O meu maior gozo foi o de poder dar a conhecer autores que ainda não tinham tido oportunidade de publicar (e outros que andavam noutras lides).
Fico surpreso com o facto de esta ter sido a primeira antologia de micro-ficção portuguesa, sabendo nós como ela vem sendo praticada há alguns anos em Portugal e noutros países. Dizem que há muitas editoras? Se há, devem andar a dormir. A editora exodus apostou na minha ideia e diz que não se arrependeu: em pouco mais de um mês uma cadeia de livrarias reforçou os seus stocks duas vezes.
E o teu romance? Tem tido boa aceitação do público e da crítica?
O público (bem, nem todo) gosta de surpresas (um leitor falou-me do que chamou uma “nova experiência de leitura”); um excelente crítico vai falar alguns minutos sobre “A Resistência dos Materiais” no Programa da RTPN “Ler+, ler melhor” (ainda não sei a data mas, tendo em conta a pessoa, tou curioso).
Ei, reparo que parou de chover. Vou até ali ao bosque.
Até breve, amigo!
segunda-feira, 5 de maio de 2008
CALLEMA #4
Callema - publicação semestral
N.º 4, Maio de 2008
Director: M. Tiago Paixão
Edição: Cooperativa Literária
Recuperar Ema, pp. 29-32
domingo, 4 de maio de 2008
A RESISTÊNCIA DOS MATERIAIS
Vencedor do Prémio Albufeira de Literatura 2007, o primeiro romance do Rui Costa (n. 1972) percorreu o seu calvário até encontrar editor predisposto a colocá-lo nas livrarias portuguesas. O facto não é irrelevante. Antes pelo contrário. Diz-nos muito dos famigerados critérios editoriais de algumas editoras portuguesas, as quais optam por subjugar o interesse literário ao mero interesse comercial. Estão no seu direito, como é óbvio. Por isso não perderei tempo com as toneladas de livros absolutamente insignificantes vindos a lume todos os anos, só porque os seus autores são figuras públicas e frequentam espaços mediáticos que garantem uma abrangente e eficaz promoção desses títulos. Mas não posso deixar de me interrogar sobre o respeito que me merece uma editora que recusa a publicação de um livro ao qual reconhece uma qualidade indiscutível. O que pensar de uma editora que nega a publicação de um livro por vislumbrar nele um grau de dificuldade que não se coaduna com o mercado actual? Que pensar desta cedência ao facilitismo? Que pensar das pessoas, porque por detrás das editoras há sempre pessoas, que, sendo coniventes com o tal facilitismo, são as primeiras a queixarem-se da iliteracia que grassa no país? Afinal, como queremos ter um país mais culto se não só nos acobardamos perante a falta da cultura como não nos importamos de tirar proveito da mesma? Curiosamente, as respostas a estas questões encontram-se todas, de um modo metafórico, no romance A Resistência dos Materiais - romance alegórico para ser lido como um longo poema em prosa, escrito num ritmo que nunca entedia a leitura e desafia constantemente a imaginação do leitor, revelador de uma capacidade narrativa que, pretendendo fugir à banalidade, nunca resvala num hermetismo infundamentado. O grau de dificuldade deste romance é proporcional à inércia do leitor, ao pouco empenho que possa este revelar na fruição de uma história contada como um rastro que se vai deixando num matagal de metáforas extraordinárias. Há uma cidade, e na cidade decorre uma investigação científica sobre a propriedade das sombras. Os frutos dessa investigação terão consequências inimagináveis ao nível do domínio e da capacidade de influenciar os comportamentos humanos, pelo que importa manter o maior sigilo acerca das conclusões entretanto alcançadas. O que teremos, então, é uma metaforização das relações de poder estabelecidas, numa qualquer sociedade, entre os diversos agentes envolvidos numa investigação, na descoberta da verdade, na ânsia do poder. Desde logo, a negra Rafaela, filha do Comissário das Novas Descobertas, onde todas as sombras serão depositadas; o Escritor, aquele cuja função é roubar as sombras dos vivos; Maria, a mulher sem sombra que pode penetrar nas sombras dos outros, a quem cabe roubar as sombras dos mortos; os Donos, modo subjectivo de chamar à liça os homens que detêm o poder, sejam eles políticos, forças económicas, etc… Vem-nos à memória a platónica Alegoria da Caverna, aqui de certo modo invertida quanto ao sentido das sombras. Em A Resistência dos Materiais a verdade está nas sombras, «nós é que somos a sombra do que as nossas sombras são», tudo se apresenta sombrio, compreender as sombras, percebê-las, é deter um poder inigualável. Relativizam-se as coordenadas, «o precário equilíbrio do ser humano», o espaço deixa de ser algo definível para passar a ser algo em transe, o tempo não é mensurável senão na subjectividade do devir, as crianças são igualmente adultas e os velhos parecem crianças. Não “esquizofrenizando” o discurso, o que implicaria uma linguagem dificilmente decifrável, Rui Costa coloca-nos no centro de uma acção onde tudo parece novo, onde a realidade se reconstrói a cada frase, como numa espécie de cenário futurista ou num filme de ficção científica. E talvez seja disso que estamos realmente a falar, de uma estranha ficção científica com palácios, bruxas e princesas. Resistência dos materiais, informa-nos a Wikipédia, «é a ciência que estuda o comportamento elástico e plástico dos materiais à acção de força». Neste romance, Rui Costa propõe-nos um estudo romanceado da elasticidade dos comportamentos humanos à acção do poder. Por isso dizemos que as respostas às questões supracitadas vêm, de certo modo, no próprio romance, pois «no fundo de outro fundo há um poço e ninguém espreita a sua imagem lá dentro enquanto tiver medo de cair».sexta-feira, 2 de maio de 2008
segunda-feira, 21 de abril de 2008
O ESPELHO ATORMENTADO
Do norte-americano Russell Edson (n. 1935) encontrava-se disponível em língua portuguesa, se não estou enganado, apenas uma brevíssima selecção dos seus poemas em prosa intitulada O Túnel (Assírio & Alvim, 2002). Nesse pequeno volume, o tradutor, também ele poeta, José Alberto Oliveira introduziu algumas coordenadas para a compreensão desta poesia: os poemas de Edson são fábulas bem humoradas e inquietas que contam histórias com desfechos absurdos. O riso é, sem dúvida, uma das características mais evidentes na poesia de Russell Edson. Autor de um romance e de mais de uma dezena de livros de poemas em prosa, estreou-se em 1961 com Appearances. Em 1994 editou The Tunnel: Selected Poems e em 2000 apareceu The Tormented Mirror, uma colectânea de poemas anteriormente publicados em variadíssimas revistas que a OVNI disponibiliza agora em tradução bilingue. A responsabilidade da tradução é de Guilherme Mendonça. Traduzir Edson não é tarefa fácil, sobretudo por tratar-se de um autor com um uso muito particular da linguagem, repleto de jogos de palavras, alusões, trocadilhos, onde os planos da realidade e do onírico aparecem frequentemente confundidos. Diz-se desta obra ser algo pendular, talvez porque nela vislumbremos a omnipresença de tensões diversas. Desde logo, no plano formal, a afirmação destes textos enquanto poemas, mesmo tratando-se de poemas em prosa, não pode senão ser motivo de discussão. Não andará longe da verdade quem ouse chamar-lhes fábulas, estórias ou, fazendo uso de termos mais em voga recentemente, micronarrativas. No contexto da literatura norte-americana, trata-se, então, de poesia em prosa, o que, provavelmente para espanto daqueles que julgam serem os preconceitos literários tipicamente nossos, tem resultado numa certa marginalização desta obra por parte da comunidade académica. A essa marginalização Edson responde com simplicidade e inteligência: «Being, as you suggest, somewhat of a hermit, I've never thought of myself as marginal or mainstream, just happy to be writing». Há também aqueles que falam de Russell Edson como um dos mais importantes cultores do poema em prosa nos Estados Unidos da América (do Norte). A sua importância advém da sua singularidade, a qual parece por vezes devedora de um certo surrealismo menos automático mas amplamente enraizado nos domínios do inconsciente. É curioso, a título de exemplo, que mesmo quando se afirmam mais bizarras, as estórias de O Espelho Atormentado dialogam com referências muito concretas da vida quotidiana, trabalhos, paixões, desavenças, dificuldades da vida doméstica. Chamo-lhes estórias não inadvertidamente. O próprio afirma: «All writing is storytelling». O que nos contam, então, as estórias deste espelho atormentado? De um modo cómico, quase sempre efabulatório, não dispensando um certo wit, com bastante engenho na recusa da sátira, estas estórias contam-nos de elefantes com vergonha de roupa interior, de intricados laços genealógicos entre macacos, de casamentos entre galos e vacas, de um cavalo que aprendeu a montar outros cavalos, de um velho elefante de barbas brancas, de um Ciclope que precisa de óculos, de um papagaio que falava de si próprio na terceira pessoa, etc. Mas nos quatro conjuntos de textos coligidos em O Espelho Atormentado não são apenas os animais que falam. O núcleo de acção é diversas vezes o núcleo familiar, noutras ocasiões a estória desenvolve-se em torno de mutações físicas que instalam um paralelismo agradável com as próprias mutações da realidade convertida em texto. Uma escrita surreal, talvez, deveras fascinante na forma como agrega os planos da realidade e da ficção, na arte com que torna lógico o absurdo enviando-nos para o absurdo da lógica durante, por exemplo, a hora d’O Banho: «Um homem estava a tomar banho numa banheira de molho de peru; a pôr um patinho amarelo a boiar para passar a eternidade. Comia puré de batata, mergulhava no banho grandes garfadas… / Uma beleza, tudo aquilo, pensou, eu num ensopado com um pato, a comer puré de batata com molho, e lá fora um mundo completamente louco… (p. 157)»sexta-feira, 18 de abril de 2008
CINCO
Hoje vou chover para outro lado. Levo comigo a aura dos teus olhos, o sorriso ingénuo com que nos brindas todas as manhãs, a doçura dos gestos mais ternos que pode um homem almejar. Hoje não irei chover sobre a nossa terra, porque é de luz a nossa terra sempre que tu ris. Danço e canto melodias antigas, danço e canto melodias novas, danço ao ritmo frenético das tuas dúvidas, canto a ansiedade das tuas respostas. Não pode haver cansaço nessas perguntas, não pode haver mágoa. Sempre que madruga olho-te pelo retrovisor. Não me vês olhar-te, nem sabes que os meus olhos estão ali, deliciados, com a pureza da tua melancolia. Como pode uma criança trazer no rosto alguma melancolia? Como pode olhar a paisagem em movimento, o movimento em paisagem, sem se interrogar? Não pode. Por isso saltas da melancolia, lenta, com aquela moleza sofrida de todas as manhãs, e esperas acordada um sonho vindouro, enquanto apontas na parede os desenhos, as construções, os adereços com que vais aprendendo a dar cor à vida. Tudo me ensinaste, tudo te devo. Ensinaste-me a falar de outro modo, a escrever de outra fala, a olhar o mundo com um espanto que julgava perdido no quotidiano bafiento das pessoas adultas. Ensinaste-me que tudo é anterior às teorias e que as teorias são anteriores às palavras, que as palavras são anteriores a si mesmas: nos gestos desregrados, espontâneos e inusitados com que brindas a existência. Eu hoje vou chover para o lado amistoso do vento. Vou tracejar a verde o coração oferecido, colar na porta do frigorífico mais um sinal de esperança, escutar atentamente as tuas dores, a minha ausência, esta tristeza de não poder estar sempre onde nos manda o coração.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
CRIATURA
Houve um tempo em que as chamadas revistas literárias delimitavam territórios estéticos, faziam-se marcar sob o signo dos movimentos, reclamavam autonomia e manifestavam gosto pela ruptura. Esse tempo acabou. As revistas literárias são hoje, na sua imensa maioria, meros reservatórios de textos diversos, por vezes em diálogo permanente com outras artes que não a arte literária exclusivamente. Reúnem-se amigos e conhecidos, vozes distintas, tendências antagónicas, num mesmo espaço editorial como se esse espaço fosse um mero ponto de encontro sem pretensões de maior. Olhando para as estantes cá de casa, encontro muitas dessas revistas. Algumas tornaram-se leitura obrigatória, outras não inspiraram grande admiração. O que encontro de comum em quase todas é, precisamente, a ausência de conflito e de confronto. Há excepções, como é óbvio. Nestas coisas haverá sempre excepções que confirmem a regra. Mas, de um modo geral, vejo apenas uma amena confraternização, proporcionada pela carolice de alguns indivíduos, patrocinada por uma ou outra instituição, fundação, etc. Nos últimos tempos, digamos de há dez anos para cá, encontro alguns exemplos que convém sempre lembrar: a excelente revista de poesia Relâmpago (n.º1, 1997), a Alma Azul (n.º1, 1999), a revista de contos Ficções (n.º1, 2000), a Apeadeiro (n.º1, 2001), a Saudade (n.º1, 2001), a Telhados de Vidro (n.º1, 2003), a Boca de Incêndio (n.º1, 2004), a Magma (n.º0, 2005), a Big Ode (n.º0, 2006), entre outras, mais ou menos divulgadas, mais ou menos conhecidas. Se tivermos em conta o advento da Internet enquanto meio mais económico e ecológico, até mesmo mais disponível, na consecução destes projectos, torna-se impressionante constatar a sobrevivência de algumas destas edições, assim como o aparecimento de novas publicações do género. É o caso recente da revista Criatura, dirigida por Ana M. P. Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto. Integralmente composta por textos poéticos, o primeiro número da Criatura, de Fevereiro passado, conta com a colaboração de uma série de ilustres desconhecidos (ou nem por isso). De Ana Aleixo Lopes retive o tom filosófico e um longo poema colagem com citações de Luís Vaz de Camões e Fernando Pessoa em inglês. Ana M. P. Antunes opta pelo poema em prosa. António Ramos Pereira oferece-nos três poemas em verso de interesse desigual. Já Beatriz Hierro Lopes opta por uma prosa mais desenvolvida, com algumas interrogações geracionais, mas a carecer de uma revisão atenta. Em Cláudia Santos Silva pareceu-me notar alguma hesitação entre um certo hermetismo e uma espécie de prosaísmo melancólico. Gostei do poema «regresso na hora das empregadas da limpeza». David Teles Pereira aventura-se no poema longo com uma desenvoltura que ainda há-de encontrar o tom mais acertado. São evidentes os ecos da Gerção Beat. Diogo Vaz Pinto também tacteia o seu caminho, mas parece-me mais inclinado para um lirismo com uma componente irónica ainda por apurar. José Carlos Barros, que já não é novo nestas andanças, opta, desta feita, por um tom de polémica algo sobrepujado: «o que seria dos críticos do expresso / o que seria de tanto mestrado e tanto mestrando / o que seria enfim do país / se não houvesse de tempos a tempos / uma polémica onde exercitar o tiro ao alvo / como esta por exemplo dos poetas sem qualidades». Os poemas curtos de Maria Sousa denotam uma agradável melancolia, mas mais interessantes parecem-me as sequências de Marta Caldeira. É aqui que encontro o melhor desta revista Criatura, nestas prosas em versos, nestes versos em prosa, de grande fôlego, domínio rítmico e provocatória derrisão: «aqui na minha aldeia há dois poetas, um é o cristo pescador de per- / cebes e o outro é o cavador, poeta das hortas e das horas dormentes. / mas o maior poeta que conheço é a minha avó / :chama vergas à cadeira de onde os olhos se evadem / para o corpo criar metáforas». Com Marta Chaves regressamos ao poema curto de raiz melancólica. Nuno Araújo alterna entre a prosa e o verso um certo abstraccionismo e Rita Branco Jardim opta por uma espécie de lírica amorosa desalentada. Por fim, um tão agradável quão contido erotismo nos versos bem delineados de Sara F. Costa e, a fechar, alguns poemas igualmente ágeis de Susana Almeida. Que outros números venham, é tudo o que se espera.sábado, 12 de abril de 2008
INDIGÈNES
Indigènes (Dias de Glória, na versão portuguesa), de Rachid Bouchareb (n. 1959), não é apenas mais um filme sobre a II Grande Guerra. O cenário serve para lembrar os esquecidos, não deixar sarar as feridas e, mais do que homenagear, exigir uma reflexão sobre a hipocrisia enquanto grande motor da política. Do recrutamento aos dias de hoje, a história de um soldado e do seu pelotão. O que há de especial nestes soldados é terem sido recrutados nas ex-colónias francesas. São nativos da Argélia, Marrocos, etc., que combatem, lado a lado com os franceses, pela França, pela pátria-mãe que trata de modo desigual os seus filhos. Aqueles soldados não se limitam a lutar contra o nazismo alemão, não lutam unicamente pela França, pelos valores da liberdade, fraternidade e igualdade. Eles lutam pela discriminação de que são alvo, uma discriminação que começa logo nos seus companheiros de guerra, nomeadamente nos seus superiores. Bouchareb é translúcido no modo como expõe essa discriminação, perspectivando a presença daqueles soldados no exército francês como mera carne para canhão, apontando o dedo às tácticas e aos métodos praticados para promover soldados franceses e esquecer os magrebinos, chamando a atenção para os pormenores que fazem da História um processo calculista de selecção da memória. Estes combatentes esquecidos não são só, nos dias de hoje, meros soldados perdidos no combate do esquecimento. Eles são a prova de um cancro que ainda hoje nos assola, um cancro que nos obriga a reflectir e a julgar as nossas responsabilidades no estado actual do mundo. Seria redundante ver neste filme apenas mais um exercício sobre a II Grande Guerra ou até uma espécie de panfleto contra a discriminação de que os magrebinos têm sido alvo na França da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Este filme mostra-nos também que certos homens estão, à partida, limitados no reconhecimento pelo fatal destino da sua origem. Mostra-nos que alguns homens não precisam apenas de ser bons para serem reconhecidos como tal, precisam, antes, de ser óptimos, excelentes, muito melhores que os demais para serem vistos, pelo menos, como razoáveis. É a condição das minorias: chegar a Deus para estar ao nível dos homens. A uns exige-se tudo para que sejam pouco, a outros praticamente nada se exige para que sejam muito. Este filme é, de certo modo, sobre tudo isso, sobre a tatuagem que ainda hoje marca muitos dos filhos da Europa civilizada: pas de chance.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
UM POETA A MIJAR
O título da mais recente colectânea de A. Pedro Ribeiro enviou-me para uma tal de «poesia diurética», expressão usada por Luís Adriano Carlos na introdução a Alegria do Mal, reunião da obra poética de José Emílio-Nelson. Todavia, a poesia de A. Pedro Ribeiro, ainda que declaradamente abjeccionista, nada tem de diurético, procurando antes os caminhos do manifesto, de uma notória obstinação e de uma disfarçada abnegação. Um Poeta a Mijar, editado pela Corpos, surge depois de Saloon, um volume saído nas já clássicas Edições Mortas. Muita matéria os liga, até porque a forma descarnada como A. Pedro Ribeiro se expressa não dá lugar a grandes desvios, inflexões temáticas ou inovações de conjunto. O que é curioso notar é que estes poemas-manifesto, nessa sua forma descarnada, apresentam-se-nos também como um disfarce, o disfarce do poeta maldito autoproclamado, aquele que rejeita as cátedras não porque nada tenha que ver com elas mas porque nada quer ter que ver com as mesmas, o anónimo que opta por trabalhar apenas dois dias por semana para poder passar o resto do tempo a «pensar, criar, partir a loiça» e «observar discretamente / o balançar de ancas da vizinha». O tom não é tanto de galhofa como parece ser de insurreição, é um tom que se manifesta cruamente na consequência de retratos sociais e ilações morais fundamentadas na experiência dos dias, na vagabundagem intelectual, no estilo pouco fundamentado da gente mais comum: «a vida é uma merda». Entram o futebol, a televisão, o euromilhões, os casos políticos, a Internet, os telemóveis, a polícia, como marcos de uma vertigem social e de uma alienação colectiva que o poeta traz para a sua poesia num sentido meramente crítico e purgativo. A par destas expurgações, o sexo, o álcool, a música, aparecem enquanto metáforas vivas e vividas de uma vontade de escapar ao que se julga ser o fado alienante da maioria dos portugueses. A existir uma poesia pop, esta é uma poesia punk. E, tal como no género que os The Sex Pistols imortalizaram, a música é a da celebração da guerrilha, da vontade, do motim, do desvio enquanto caminho possível, enquanto fuga possível, enquanto atalho para uma vida menos morta ou, se quiserem, para uma morte mais vivida. Um poema mais longo, A Ilíada de Velvet, assim como os exercícios em prosa automática intitulados Borboletas, Ode a Jim Morrison, Satã Comeu a Cortesã e O Meu Reino Não É, ou mesmo os dois apontamentos micronarrativos Rock N’ Roll e A Valsa da Elsa, são textos paradigmáticos dessa postura que uns considerarão antipoética, outros julgarão gratuita, alguns tenderão a classificar de panfletária. Quanto a mim, prefiro ver nestes cantos um grito espontâneo, um ruído que nos aproxima daquela loucura que nos salva da normalidade, a atrofiante normalidade dos dias. Prefiro ver nestes cantos, e na voz escalavrada do poeta, um alívio instintivo. Este é, sem dúvida, o livro de um poeta a mijar, de um poeta a aliviar-se dos detritos agressivos que o enchem, incham, infectam no decorrer dos dias. Não é um livro simples como possa parecer. Nenhum livro é simples como parece. É um livro informal, onde a experiência aparece incorporada numa mescla de denúncia, teatro grotesco e eucaristia festivaleira. Não é mais um livro com um programa satírico, de escárnio e mal dizer, não é irónico nem deixa de o ser, não é diurético e, mesmo que possa relevar inclinação abjeccionista, não é de carimbar com ismos e de colocar nas prateleiras ao lado das centenas de livros classificados e classificáveis que diariamente chegam às livrarias. Porque este é, sem dúvida, o livro de Um Poeta a Mijar: «O poeta dirige-se à casa de banho e mija / Sim, porque os poetas também mijam e cagam / Não passam a vida a escrever versos e a apurá-los / Não passam a vida a fazer horas / E a aturar chatos no café / Não andam sempre a micar as meninas / para lhes oferecer poemas / Com fins libidinosos. // O poeta dirige-se à casa de banho e mija» (p. 36).
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