segunda-feira, 28 de julho de 2008

NO VALE DE ELAH

O Primeiro Livro de Samuel é comummente apresentado como “uma reflexão histórico-religiosa sobre os sinais dos tempos (…) e sobre a realidade de misérias, pecados e grandezas, à luz da aliança de Deus com os homens e vice-versa”. Nele encontramos a célebre narrativa de David e Golias. O primeiro era o mais pequeno dos filhos de Jessé, guardava o rebanho, tocava harpa e fora escolhido por Deus para rei de Israel. Certo dia, os filisteus desafiaram o exército israelita. Os israelitas acamparam num monte do vale de Elah e prepararam-se para a batalha. Do lado dos filisteus, um gigante de três metros de altura chamado Golias incitou os israelitas a escolherem alguém que pudesse lutar contra ele. A provocação durou 40 dias, até que David, o mais pequeno dos filhos de Jessé, ofereceu-se para combater o gigante. Impregnado de fé, venceu o medo, pegou em cinco pedras e avançou na direcção de Golias com uma funda na mão. Golias não o tomou a sério, mas David arremessou-lhe uma pedra que ficou cravada bem no meio da testa do gigante. Golias caiu e David, com a espada do próprio, cortou-lhe a cabeça. Nisto, os israelitas perseguiram os filisteus e foram deixando os seus cadáveres a juncar os caminhos que levavam a Charaim, Gat e Ecron. Verdadeira ou ficcional, pouco importa. É uma história que se conta para adormecer crianças. Assim o faz Hank Deerfield (Tommy Lee Jones), personagem central de No vale de Elah, o magnífico filme de Paul Haggis, realizador de um não tão estimulante Colisão (2004). São muitas as batalhas travadas neste vale. Tommy Lee Jones, sempre impecável, é mais uma vez recrutado para fazer papel de investigador. Polícia militar reformado, procura o filho desaparecido depois do regresso do Iraque. Diversas questões de índole política fazem sombra ao filme, nomeadamente os traumas consequentes da participação na carnificina que ainda hoje perdura naquele inferno na Terra. As mazelas psicológicas que assolam os soldados regressados, os traumas de guerra, a completa perversão de valores que anula as fronteiras entre o bem e o mal, a indiferença com que aqueles homens passam a olhar o horror e a total banalização da violência, a ponto de se tornar aceitável nas cabeças de quem vive dentro dela, são algumas das questões que emergem no vale de Elah. Mas, como disse, muitas são as batalhas travadas naquele vale. Mais que todas as outras, toca-me especialmente a batalha travada entre o personagem interpretado por Tommy Lee Jones e as suas próprias convicções. Pareceu-me que o que ali estava em causa era o problema da verdade, a verdade de uma história, por exemplo, como a de David e Golias, a qual está dependente da nossa fé. Talvez a verdade esteja sempre dependente da fé. Talvez não. Talvez esteja antes dependente da experiência marcante que é sentir, como um punhal a atravessar-nos o peito, a nossa própria verdade romper-se perante o gume afiado da realidade. O homem acredita na pátria, acredita no exército, acredita que há um fosso a separar os bons dos maus, mas tudo aquilo em que acredita é posto em causa quando se confronta com o corpo despedaçado e carbonizado do filho, um corpo que escapou às pedras dos iraquianos mas não escapou à perversão dos soldados americanos que regressaram da guerra transformados em autênticas máquinas de matar. A realidade abala todas as convicções, subverte os ideais, transforma em pó, em barro, em terra o que antes era a brisa metafísica das supostas verdades absolutas. Quem sente este confronto com as suas próprias verdades jamais poderá meter fé nos absolutos. É esta a mais importante batalha travada no vale de Elah. Golias está dentro de David, é a sua verdade absoluta desafiando a fé, o medo, a coragem, tudo o que se mistura no coração de um homem que julga que o mundo pode ter a configuração de um sonho maniqueísta. Nunca o dia precisou de excluir a noite para ser dia, sempre o crepúsculo foi, ainda que na sua natural efemeridade, a mais eloquente manifestação da verdade, a tal verdade que estará sempre para lá das convicções de quem acredita em mundos a preto e branco. Porque os homens, definitivamente, não são ostras. Embora alguns se assemelhem ao molusco, a ponto de quase não se distinguirem uns dos outros.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

TOCAR

Estou a tocar no vento.
Matilde (5 anos)

segunda-feira, 21 de julho de 2008

MAPA

Mapa é o segundo livro de poemas de manuel a. domingos (n. 1977), estreado em 2002 com Entre o Silêncio e o Fogo. Nota-se uma inflexão da primeira colectânea para a segunda que passa, essencialmente, por uma maior transparência, um certo desapego metafórico ou, talvez seja mais correcto dizê-lo assim, uma tendência para a abnegação discursiva que pode ser explicada sob dois ângulos complementares. O primeiro é o de uma postura humilde perante a impetuosidade imagética que contamina muita da poesia contemporânea, uma postura que se revela algo crítica ao preferir o risco da simplicidade ao uso de “imagens gastas”: «acordas de manhã / e escreves alguns versos / sobre o peso dos dias, / mas logo concluis / que é imagem gasta» (p. 17); o segundo ângulo de explicação desta renúncia metafórica – veja-se, por exemplo, o poema da página 26 – é o da adopção de uma arte poética que se constrói de fora para dentro, ou seja, na observação das coisas quotidianas, banais e comuns, aquelas que afirmam a poesia na própria negação da poesia: «não há poesia // só nomes / verbos / um ou outro / adjectivo // tudo o resto / que possa haver // são mentiras» (p. 9). É curioso que muitos destes poemas partam de um jogo onde a poesia se afirma pela ausência do poético, onde o poema parece não pretender assumir-se enquanto tal, preferindo antes concretizar-se numa espécie de registo lúdico de uma viagem que é a viagem da vida. Um belo exemplo desse jogo são os dois primeiros versos do poema Budapeste - «um dia escrevo um poema sobre como / deixámos o tempo passar naquela esplanada» (p. 22). Há outros, que o leitor mais atento vislumbrará sem qualquer dificuldade. Mas praticamente todos estes poemas estão infectados por essa vontade de jogar com o poético, com aquilo que possa ser ou não ser poético, com as supostas coordenadas da própria poesia. O carácter epigramático da maioria dos poemas revela, deste modo, um gosto pelo essencial e pela clareza, embora essa clareza corra o risco de ser confundida com superficialidade. O facto dos poemas aparentarem uma desinteressante compreensibilidade, ou uma ligeireza poética pouco mais que lúdica e até humorística, não lhes nega um conteúdo que, mais ou menos circunstancial, está repleto de subtilezas irónicas sobre as tendências e os comportamentos na actualidade. Os Seis Poemas ao Homem Moderno que encerram o livro, iniciados com uma epígrafe pedida emprestada a um artigo publicado na revista Men’s Health, são um excelente apontamento social sobre a nova relação dos homens com o corpo e, consecutivamente, com os modelos de beleza propagados por quem faz disso negócio e modo de vida. De certa maneira, podemos mesmo afirmar que são poemas políticos, eivados de um cinismo sobre o qual haveria muito a dizer. Há nestes poemas uma relação muito espontânea com os jogos de sedução, por vezes parecem transformar-se em elementos de um jogo de sedução literário. Para tal, somos encaminhados numa viagem sem chegada nem retorno. Note-se que as partes que dividem este volume - Partida, Largada, Fugida - são sempre "arranques", termos com conexões subtis com outros termos tais como brincadeira, piada, etc. É este cinismo moderno que marca o passo na viagem traçada em Mapa, uma viagem onde a passagem do tempo vai sendo pautada pelos lugares – Viena, Budapeste, Silves, Londres, Guarda, Praga -, numa relação tempo-espaço que transforma esta numa poesia não apenas “consequência do lugar” mas também “consequência do tempo”. E é nesse espaço e nesse tempo específicos que encontramos as lembranças, o amor, a memória da juventude enquanto memória dos sonhos perdidos, os amigos deixados para trás e as conversas sumidas com esses amigos, uma caminhada para dentro de um silêncio microcósmico, o silêncio da poesia das coisas mínimas, talvez banais, mas sumamente belas, porque sempre a tempo de serem escutadas na voz de um anjo que se aproxima: «a vida que escolheste / é de pedras pelo caminho / nada de bom virá dela / e todas as recompensas / serão adiadas // por isso pensa melhor: / ainda estás a tempo / de desistir» (p. 41).

domingo, 20 de julho de 2008

PORTO


De guarida no estúdio da Tulipa, com vista para o Douro e para uma escola de strippers, regressei à invicta das gaivotas em transe, dos gatos vadios, das varandas curvadas, das ruelas obscuras. Regressei devoluto ao Porto moderno, aportei moderno no Porto devoluto. Arrancada: sopa de feijão verde, cenoura e courgette, acompanhada de broa de Avintes e vinho verde gelado. No Centro Português de Fotografia, Virgílio Ferreira expõe peregrinos desfocados numa urbe iluminada por lâmpadas fluorescentes. Onde outrora o sol nascia, encontramos agora uma noite de perfis anónimos e nublados. Um passeio por Banguecoque, Macau, Hong Kong, Pequim, Xangai e Tóquio a lembrar o estranho lugar do amor filmado por Sofia Coppola. Do Curso Superior de Fotografia do Instituto Politécnico de Tomar, uma mostra excepcional de trabalhos realizados pelos alunos do 1.º ao 3.º anos do curso. Artistas em construção, edifícios novos, encenados ou espontâneos, ainda com muito decoro na técnica mas a revelarem uma prometedora audácia. Igualmente audaz é o negócio da Utopia. Aguenta-se, ali escondida junto ao quartel da Praça da República. Aproveito para comprar Lacrimae Rerum, de Slavoj Zizek, que começo a ler com alguma desconfiança depois de ter visto uma dúzia de putos a praticarem pesca submarina em plena Avenida dos Aliados: «a ficção é mais real do que a realidade social de representar papéis»? Dúvidas que voltam a assolar-me quando ouço Janis Joplin na Ribeira ou o poema preferido da Marlene Dietrich num festival a decorrer no outro lado do rio. Deito-me com o gato Narciso a fazer-me cócegas nos pés e uma melodia na cabeça: «A strange kind of love / A strange kind of feeling / Swims through your eyes».



A peregrinação continua. Feijoada de legumes com camarões, vinho branco. Gosto daquela mistura de cogumelos, brócolos, feijão preto e malaguetas a sacar um ardor que apenas com mais ardor se mata. Passeio de eléctrico da Ribeira à Foz, ou quase, seguido de caminhada até Serralves. Pelo caminho, mendigos, muitos edifícios devolutos e barcos abandonados, contrastam com espaços comerciais desenhados como mandam as leis do design. Dou, por mero acaso, com a Fundação Eugénio de Andrade. Que o poeta tenha passado os seus últimos dias no Passeio Alegre deixa-me consolado. Um passeio alegre é sempre um belo lugar para um poeta passar os seus últimos dias. Olho a inactividade daquele edifício como quem olha uma paisagem existente apenas na forma como cada um olha as coisas, uma paisagem subjectiva, inerente ao próprio olhar. Sigo assim caminho, embora ainda antes de chegar a Serralves um monumento ao esforço colonial português me tenha desdobrado as vistas. Ficção, realidade, documentário, cinema? Deixa-me cá explorar essa tal «tensão dialéctica entre realidade documental e ficção» na poesia de Manoel de Oliveira. Paro os olhos em Douro, Fauna Fluvial, embora com o pensamento estancado nos cínicos. Nem de propósito, acabo a rever aquela cena inesquecível de A Caça: um homem afunda-se lentamente num pântano, forma-se um cordão humano com a intenção de o salvar; os elementos desse cordão começam a discutir uns com os outros, dividem-se, esquecem-se do homem a afundar-se no pântano; excepto um maneta, que o acode enquanto grita por uma mão solidária. As árvores do jardim de Serralves são como aquele maneta. Só delas podemos esperar alguma atenção enquanto nos afundamos no pântano da realidade. Já desprotegido das sombras, segue o peregrino na direcção da noite. Francesinha no Taipas e Feijões, muito vinho, Smack My Bitch Up.



Quero dizer-te que fiquei durante alguns minutos só a olhar para a salada. Na companhia dos gatos, fiquei durante alguns minutos a escutar os diálogos, a observar as relações entre o tomate e a melancia, o ovo cozido e o ananás, a alface e o resto do mundo. Fiquei ali durante alguns minutos a pensar como tudo poderia ser mais belo se fosse mais simples, como tudo poderia ser mais simples se fosse mais belo. E foi assim que me pus a andar sem destino algum, simplesmente por andar a caminho de qualquer coisa, o que fosse, que pudesse ser simples. Dei alguns passos decadentes, visitei sinagogas desaparecidas, subi à Sé, desci à Ribeira, entrei em tascas imundas, visitei mercearias e profissões em vias de extinção, outras cada vez mais recorrentes, fui sempre junto ao rio até poder voltar a subir para lá das margens. Como se o meu corpo fosse a duna que se levanta para lá das margens. Quando nos predispomos a não querer, encontramos sempre o que nunca procurámos. Mais correcto será dizer que somos achados por quem nunca nos procurou: quando queremos andar só por andar, a observar não quem pretendemos que nos observe, mas a observar os nossos próprios movimentos na direcção de um nada que, súbita e inesperadamente, se transforma em tudo o que verdadeiramente importa. E tudo o que verdadeiramente importa é a dor que se desembaraça do corpo com outra dor ainda maior. O nosso corpo, assim aliviado dos relógios e dos mapas que o guiam quotidianamente, pressente nos acasos um diálogo simples e belo entre a liberdade que dá forma ao caos e o desejo que o contamina de uma ordem sempre muito pessoal. Descanso na Gato Vadio como um vadio sem pêlo, desnudado para fora da t-shirt suada, para dentro de duas cervejas pretas e das 535 Máximas 535, de Eastwood da Silva: «anda o mais possível a pé». E come farturas, e bebe cerveja, e fuma cigarros, e grita pelo Jim Morrison, e canta aquela velha canção: «sometimes, when I look deep in your eyes, I swear I can see your soul».

quinta-feira, 10 de julho de 2008

BIG ODE #5


 Big Ode n.º 5
Tema: Pesadelo
Edição e Design: Rodrigo Miragaia
Design de conceito: Rodrigo Miragaia e Sara Rocio
Coordenação editorial: Maria João Lopes Fernandes
Julho de 2008

Vogais Mudas, Courgette, Pesadelo na Rua José Tanganho (s/pp).

quarta-feira, 9 de julho de 2008

DESNASCER

A filha mais pequena pede-me que ligue as janelas. Entre ligar e abrir há apenas alguns meses de introdução ao erotismo elegíaco dos tiranos. Um dia dir-lhe-ei: não é ligar, é abrir. A irmã já lhe diz. Eu não posso, tenho as mãos esgotadas de espera.


Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe. Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viagem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...

José Mário Branco

O DISCURSO DO MÉTODO

No século XVII, o filósofo René Descartes (1596-1650) tentou conceber um método que o ajudasse a resolver todos os problemas levantados pelo espírito humano. Toda a gente terá ouvido falar na obra onde esse método apareceu delineado nos seus preceitos essenciais. «Chama-se método à ordem que o pensamento deve seguir para chegar à sabedoria e em conformidade com a qual ele pensa, uma vez que aí chegou» - informa-nos Étienne Gilson, na introdução a uma das melhores edições do Discurso do Método, de René Descartes. À obra do filósofo francês, o poeta Nuno Rebocho (n. 1945) pediu emprestado o título para a sua mais recente colectânea de poemas. O gesto pode ser tomado como uma mera provocação, vazia de sentido e sem qualquer intencionalidade. Mas não é. Percebemos isso ao lermos os poemas coligidos neste volume, nomeadamente o último. Devo dizer que só por este poema, um poema-sequência, como muitos outros neste livro, já valeria a pena a leitura deste O Discurso do Método. Não resisto a citar a primeira parte na íntegra: «e recomeçamos. sempre recomeçamos porque há / um método dentro das sensações ou talvez devesse / haver e haver um método para descobrir esse método. e / descobrindo nos descobríssemos e seríamos ordenados / razoáveis ou como diria a minha amiga – pegaríamos / o touro pelos cornos. mas falta o método para abrir / a lata de todos os métodos e para dormirmos descansados / sem o risco de desgastar o corpo na água dos rios / que vão correndo e desgastar a alma dentro do corpo: / dizem que é assim que oxigenamos o sangue. então que / seja. por isso sempre recomeçamos em busca de um método» (p. 66). Entre Descartes e Rebocho muita água correu nos rios do tempo. A filosofia do conhecimento foi evoluindo na direcção de um caos ametódico, ou de uma metodologia caótica que fez as graças de alguns epistemólogos menos amigos da razão. Nem por isso deixaram de ser filósofos e de pensar com o pensamento que os permite pensar coisas tão ametódicas como, por exemplo, a poesia. Rebocho diz que falta o método para abrir a lata de todos os métodos e, dessa forma, podermos dormir descansados. Talvez haja neste livro essa tentativa, uma tentativa humilde, de abrir a lata de todos os métodos. A pergunta impõe-se e lança-nos numa raciocínio tautológico sem solução: qual o método para descobrir o método que nos ajude a abrir a lata de todos os métodos? Métodos há muitos. E há um, ao qual é costume dar-se o nome de poesia, que ousa colocar-nos no epicentro de uma guerra, de uma batalha, que é a guerra da linguagem. O poema é sempre uma cifra, mas está na sua constituição paradoxal ser uma cifra que decifra. As palavras que compõem o poema, organizadas na sua sintaxe muito particular, oferecem-nos ao mesmo tempo a realidade cifrada num ritmo e em imagens que, de algum modo, nos ajudam a decifrar a nossa própria natureza. O que é o método aplicado à poesia? O que é a poesia aplicada enquanto método? Talvez a “fala das emoções”, uma dissertação ferida, mas ferida como algo que vive, por uma ruptura. Talvez uma certa forma de conhecimento. Ou, pleo menos, de reconhecimento. Na poesia, pela poesia, o pensamento (re)conhece de uma outra forma, de uma forma livre, desembaraça das premissas lógicas e racionais com que olhamos o mundo. Com que lógica podemos olhar o amor? Com que lógica podemos olhar as cerejas, as aves, a montanha e a planície, as borboletas, as papoilas, os eucaliptos, o mar? A natureza aparece aqui como o corpo admirável de uma linguagem muito própria e secreta, talvez inacessível através dos métodos da razão, mas decifrável pelos métodos da emoção. Daí que o poeta conclua: «como fazemos para penetrar nos segredos? abrimos / as portas dos sentidos pelas quais chegam as novas / dos desertos. companheiros: se a palmeira nasce / dancemos a alegria porque cada tâmara é um segredo / bem guardado para nos bater à porta dos sentidos» (p. 73). Contra a lucidez, bebamos então as palavras do poeta, entremos destemidamente no bateau ivre sem outro método que não seja o de uma respiração sorridente e renovadamente espantada com o «mar para lá dos limites».

segunda-feira, 7 de julho de 2008

JULIAN SCHNABEL E OS NÁUFRAGOS

O artista plástico Julian Schnabel (1951) estreou-se no cinema em 1996, com um filme sobre Jean-Michel Basquiat (1960-1988). Seguiu-se Before Night Falls (2000), tendo como pretexto a vida do escritor cubano Reinaldo Arenas (1943-1990). A opção por histórias verídicas manteve-se em Le Scaphandre et le papillon (2007), desta feita centrado na tragédia de Jean-Dominique Bauby. Bauby era editor da revista Elle antes de ter sofrido um AVC. Com uma paralisia praticamente geral, sobrou-lhe um olho, o olho esquerdo, para comunicar com o mundo. Servindo-se simplesmente desse olho, conseguiu ditar um livro onde descreveu o seu mundo: «Doem-me os calcanhares, a cabeça pesa-me toneladas, todo o meu corpo está metido numa espécie de escafandro. A minha tarefa agora é redigir notas de viagens imóveis de um náufrago encalhado nas praias da solidão». É esta ideia do “náufrago encalhado nas praias da solidão” que me interessa particularmente no filme de Schnabel, até porque me parece que ela é extensível aos personagens dos seus filmes anteriores: o escritor homossexual e proscrito, o artista desassossegado. Cada um destes personagens foi, à sua maneira, um náufrago encalhado nas praias da solidão. Basquiat morreu muito novo, viciado em heroína. Arenas conseguiu fugir à ditadura cubana, vindo a suicidar-se nos EUA depois de saber que tinha SIDA. Bauby morreu condenado a comunicar com o mundo através de um olho, um único olho que, pestanejando, conseguia responder sim ou não às perguntas mais simples. Mas também conseguiu ditar todo um livro, o seu livro, o livro interior de uma situação-limite. Karl Jaspers chamava às situações-limite situações «que não podemos transpor nem alterar», são situações que delimitam a nossa condição humana, impondo-nos fronteiras das quais não escapamos, são situações que transcendem o domínio da nossa liberdade. «Tenho que morrer, tenho que sofrer, tenho que lutar, estou sujeito ao acaso e incorro inelutavelmente em culpa», dizia Jaspers. Mas acrescentava que o espanto provocado por estas situações era a origem mais profunda da filosofia. Perante uma situação-limite o homem tem duas hipóteses: ignorar ou questionar-se. «As situações-limite – morte, acaso, culpa e insegurança – mostram o fracasso. Que farei eu perante este fracasso absoluto a cuja intuição me não posso furtar se honestamente o apreendo?» Cada uma das personagens dos três filmes de Julian Schnabel terá respondido a esta questão de um modo diferente. A personalidade autodestrutiva de Jean-Michel Basquiat não é comparável à obstinação de Reinaldo Arenas, nem nenhum destes dois pode ser pensado à luz das privações extremas experimentadas por Jean-Dominique Bauby. Mas todos eles se cruzam num aspecto essencial: são náufragos encalhados nas praias da solidão. O náufrago não é aquele que está perdido, nem mesmo aquele que se sente perdido, não está em queda nem em ascensão, não vive num limbo, é apenas humano, mas é um humano que toma consciência da situação-limite em que vive, não a ignora. Julgo que todas as pessoas terão tal consciência, nesta ou naquela experiência de vida, embora viver permanentemente com a consciência da situação-limite em que se vive seja algo completamente diferente. Se entendermos o naufrágio como um acidente, o náufrago será aquele que participa do acidente. Nascer é o primeiro acidente do qual o náufrago participa. Morrer, o último. Entre o nascimento e a morte há todo um novelo de acidentes que se desenrola. A isso chamamos vida. Muita gente vive sentindo-se ancorada, não tendo consciência do naufrágio em que vive, disfarçando esse naufrágio com um sonambulismo ingénuo que até pode ser consolador. No entanto, a vida assemelha-se a um novelo de acidentes sobre os quais, enquanto participante, o náufrago pode assumir diversas posturas. Dependerá dos acidentes e da forma como cada indivíduo se coloca perante a vida. A pior postura de todas será, julgo eu, querer arrastar os outros para os nossos próprios acidentes, sobretudo se isso acontecer por manifesta incapacidade de enfrentar as tempestades que nos colhem, desassossegam e inquietam. Se pensarmos na solidão como uma situação-limite, uma dessas situações que Jaspers definia como sendo inultrapassáveis mas impulsionadoras de espanto e de questionamento, se pensarmos na solidão dessa forma, então o náufrago que encalha nas praias da solidão é aquele ao qual apenas resta uma de duas hipóteses: acomodar-se à praia onde encalhou ou enfrentar a agitação das marés tentando superar a sua condição. Pode fazê-lo de várias formas: droga-se, luta teimosamente pela sua liberdade, mata-se, cria, etc. Nos filmes de Schnabel nenhum deles optou pela acomodação, e isso é verdadeiramente espantoso tendo em conta o destino desgraçado dos três. Dizia hoje ao almoço que o que há de verdadeiramente espantoso na vida não é o inexplicável. O milagre não é o inexplicável. Milagre é encontrarmos explicação para alguma coisa, isso sim é milagroso, excepcional, raro e único. Ora, é absolutamente milagroso um homem encontrar uma explicação para os seus naufrágios. Seja qual for a opção na sequência dessa descoberta, ele nunca deixará de ser um náufrago, ou seja, alguém que participa dos acidentes da vida. Mas poderá sê-lo suspirando à hora da tempestade ou estrebuchando, no limite das suas energias, na senda de uma nova situação.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

POESIA BRITÂNICA

Gosto de antologias. Com uma boa antologia podemos aprender muita coisa. Por exemplo: com a Antologia da Poesia Soviética (Futura, 1973) aprendemos que houve um tempo e um lugar onde os estádios enchiam para ouvir recitais de poesia; com a Antologia da Novíssima Poesia Norte-Americana (Futura, 1973) aprendemos que as vidas podem ser usadas poeticamente e que é possível reunir poetas dentro de casas sem tecto; com a Antologia da Poesia Britânica Contemporânea (Livros Horizonte, 1982) aprendemos que há países com gente altamente condecorada por serviços prestados à poesia. Quer dizer, ninguém precisa de ler estas antologias para tomar conhecimento destes fenómenos. Nem uma antologia serve para isso. Mas também serve para isso. Uma boa antologia é assim como uma espécie de saca-rolhas da alma, predispõe-nos para a diversidade, alarga-nos as vistas e oferece-nos vastíssimas paisagens de horizontes indefiníveis. É verdadeiramente amargurante verificar que não se aprende nada, absolutamente nada, com as antologias vindas a lume, nos últimos anos, dedicadas ao que de produção poética vai acontecendo neste infeliz país de poetas. A gente degusta os poemas e por aí se fica. Na sua grande maioria, falamos de antologias temáticas (quase sempre dedicadas ao amor ou à liberdade ou à mulher ou ao que seja). Não vejo mal algum nisso, e até aprecio muito algumas dessas reuniões amenas. Refiro-me à ausência de uma boa antologia da poesia portuguesa moderna/contemporânea, algo ao género do que era feito com as Líricas Portuguesas ou do tipo da Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, organizada por M. Alberta Menéres e E. M. de Melo e Castro. Como leitor de poesia, dá-me imenso gozo folhear esses livros e descobrir sempre coisas novas ou redescobrir outras já esquecidas acerca deste ou daquele autor. O que temos hoje é pouco mais que nada, umas coisas feitas à pressa, desinformadas, sem contextualização, sacos de poemas. Esta Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, como, de resto, as outras duas mencionadas no início deste texto, foi organizada por Manuel de Seabra. Abre com um pequeno prefácio, não só bem informado, como bem escrito, onde o essencial é introduzido: estamos já no território da poesia mais informal, onde, à excepção do efémero movimento Apocalípticos e da tendência conhecida por The Movement, o que conta é a voz individual: «não há uma grande uniformidade na poesia britânica contemporânea. Não há tendências dominantes, linhas concentrantes. Cada poeta é ele próprio» (p. 9). Dos poetas mais conhecidos do público português, temos Charles Tomlinson (1927), com recolhas publicadas na Cotovia e na Relógio D’Água, o excelente Thom Gunn (1929) – ver, por exemplo, o livrinho A Destruição do Nada e Outros Poemas, publicado na Relógio D’Água -, Ted Hughes (1930) e a grande Sylvia Plath (1932), assim como Ian Hamilton (1938), com um volume editado na Cotovia. Além destes, há pelo menos mais quarenta autores antologiados. Seria fastidioso citá-los todos, até porque serão de interesse muito subjectivo. Importa referir que são autores nascidos entre 1924 e 1948, o que nos garante uma vista considerável da poesia britânica em pelo menos metade do século XX. A reter, entre outros: o surrealismo de John Digby (1938), a “aparente quotidianidade” de Harry Guest (1932), a tonalidade “pop” de Barry MacSweeney (1948) e de Roger McGough (1937), a “poesia de protesto” de Adrian Mitchell (1932), o “neo-realismo” de Alan Sillitoe (1928) e o experimentalismo de um tal de W. G. Shepherd (1935), do qual deixo este curioso poema:

PORCO CUPIDO

A minha miúda
é um bife que respira,
dois bocados de acompanhamento bordado.
Um prato que sorri provocou um homem faminto,
agora vou alimentar-me.

Meu talher é um bastão
disciplinário de sangue.
Meu fito
é um buraco castanho,
a campa do amor.

O filho da minha miúda
é este ursinho
sentado na almofada em assustado silêncio.
Lindo.

O meu cérebro é concreto.
Meu apelo é culpado.
Meu sangue dói.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

INTO THE WILD


Os barómetros da vida estão todos baralhados. Nem podia ser de outra forma, ao pretenderem atribuir percentagens ao optimismo e ao pessimismo com que tentamos olhar para o futuro. Se a ideia de olhar para futuro é arrepiante, quanto mais olhá-lo com pessimismo ou com optimismo. Sejamos razoáveis, é impossível olhar para o futuro. Vemos apenas morte. É esse o futuro. Por isso importa olhar para o presente, mas sobre o olhar do presente não se fazem estatísticas. O presente é o devir e sobre o devir não reinam os números. Podemos afirmar que as pessoas vivem melhor ou pior conforme verifiquemos que as suas necessidades estão mais ou menos satisfeitas. Mas há lá coisa mais subjectiva do que as necessidades de cada um? A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer, dizia o escritor sueco Stig Dagerman. Talvez se tenha suicidado por isto mesmo. Talvez não lhe faltassem os bens materiais que tornam consolável a vida de muitas pessoas, mas faltou-lhe algo sem o qual não conseguiu sobreviver. Por vezes penso que não preciso de mais nada na vida: uma máquina de escrever, um cigarro e o meu amor a olhar para mim, por mim, através de mim, o que escrevo. É claro que um homem não sobrevive sem as contas pagas. Mas precisaremos nós de mais do que água, luz e gás? E há o carro, pronto, e a Internet, ok, concedo… a comidinha, umas mudas de roupa. Há esses bens “básicos”, esses pequenos luxos do lixo sem os quais se torna hoje difícil sobreviver. Precisaremos de muito mais? Afinal, em que pensam as pessoas quando pensam na possibilidade da sua vida melhorar? Será que não têm estas necessidades já satisfeitas? Será que lhes falta o consolo que é impossível satisfazer? Ou será que não têm tempo para o consolo porque andam na vida à procura de uma casa na praia, férias no Brasil, salas repletas de presentes inúteis na noite de Natal, mergulhos em piscinas atafulhadas de gente, hotéis de luxo, roupas de marca, carros mais rápidos, telemóveis da última geração, centros comerciais?... São perguntas simples, o discurso é simplista, objectivo, são questões para as quais não encontro uma resposta. Eu sei que passo muito bem com pouco e sei de quem não passe bem sem muito. As pessoas são diferentes. E eu não vim ao mundo para espalhar a mensagem. Permitam-me, e não me levem a mal que o declare neste tom estupidamente profético, que aquilo a que os políticos chamam “ventos de mudança” é um logro para colar as pessoas a uma vida desperdiçada ao serviço dos pequenos luxos. Mas há quem prefira gozar o mundo com corações de plástico. Que podemos nós fazer? Into The Wild responde-nos a esta questão com uma comovente honestidade, convence-nos, provoca-nos algo cada vez mais raro: uma fascinação espantada. A mesma fascinação que nos é oferecida pelos textos de Henry Thoreau, que um dia terá questionado o sentido dos novos meios de comunicação quando as pessoas nada têm para dizer umas às outras. Preocupado em tornar poético o seu modo de vida, preocupado em ganhar a vida e não a morte vivendo intensamente, Thoreau experimentou vários ofícios que pouco tinham que ver com a sua condição de intelectual. Apolítico, desprezando a vida alienadora das grandes cidades e a escravatura da industrialização, fez-se filósofo da natureza. Partiu para os bosques, construiu uma pequena cabana nas margens do lago Walden e aí viveu durante dois anos, regressando posteriormente à urbe para manter dentro de si o desassossego, a inquietude, para não se “waldenizar”. O termo é de Kenneth White, que num estimulante livro intitulado O Espírito Nómada dedica algumas páginas inteligentes à obra do norte-americano Henry David Thoreau. E eis que estou de regresso ao Papalagui de sempre com um sorriso nos lábios da memória: «assim como é de mau gosto um homem atravancar o peito com muitos colares de conchas, igualmente o será com o pesado fardo do dinheiro. Dificulta-lhe a respiração e tira-lhe a liberdade de movimentos de que os seus membros necessitam». Eu não odeio o metal redondo, mas odeio a ideia de me deixar entregar à ditadura do metal. Porque o sorriso do meu amor quando olha para mim não é pagável, nem o sono sossegado das filhas se transacciona como uma mercadoria, nem o sol que hoje iluminou o Tejo cobrou imposto. Daqui a nada, não estaremos por cá. E isto é tudo o que preciso de saber para saber o que não quero.

sábado, 21 de junho de 2008

FACAS

Estas facas são boas. Não cortam.
Matilde (5 anos)

VELHOS

Velhos é o segundo volume de Jorge Gomes Miranda (n. 1965) na simpática colecção de Poesia Portuguesa Contemporânea publicada pelo Teatro de Vila Real. Do autor, li quase tudo. Falhei o livro de estreia, O Que nos Protege (1995), e o volume anterior a este, O Acidente (2007). Entre ambos, Jorge Gomes Miranda publicou, ao ritmo avassalador de muitos dos poetas da sua geração, Portadas Abertas (1999), Curtas-Metragens (2002), A Hora Perdida (2003), Postos de Escuta (2003), Este Mundo, Sem Abrigo (2003), O Caçador de Tempestades (2004), Pontos Luminosos (2004), Requiem (2005) e Falésia (2006), este último o primeiro na supracitada colecção. Faço questão de os mencionar para que se possa ter uma ideia do ritmo de publicação deste autor, um ritmo que não é de todo alheio a uma concepção poética que tende a olhar para o poema como uma espécie de registo evocativo. Importa salientar, porém, a diversidade de tons que matizam esses registos, frequentemente elegíacos, outras vezes fortemente irónicos, chegando mesmo a roçar o mato bravio do sarcasmo, por vezes aproximando-se daquilo que se convencionou chamar, de modo mais ou menos ligeiro, mais ou menos esclarecido, de poema político. Pessoalmente, agrada-me na poesia de Jorge Gomes Miranda a subtileza metafórica que povoa muitos dos seus poemas, uma subtileza que opta por não transformar o poema numa construção fechada sobre si própria, inacessível, esquizofrénica. Essa subtileza confunde-se muitas vezes com ausência, algo que me parece bastante precipitado. Sucede que os poemas acontecem – é essa a sua natureza – sem aparentes pretensões de afirmação, surgem límpidos na página, com uma linguagem nem sempre tão simples quanto possa supor-se, mesmo quando as temáticas são avessas a qualquer tipo de transparência. O pendor declaradamente narrativo - muitos poemas não passam de pequenas prosas partidas em verso – também pode iludir aquilo a que alguns gostam de chamar, em tom depreciativo, de prosaísmo ou mero confessionalismo. Mas não nos deixemos iludir. Quando começamos a aprofundar estes poemas encontramos algo para lá da superfície narrativa, das descrições, encontramos um trabalho de linguagem bastante rico que, no presente volume, passa, por exemplo, pelo uso de expressões e vocábulos quase perdidos numa província certamente pouco compreensível nos poetas da urbanidade. O livro parte de uma ideia, a ideia da velhice. Nos três conjuntos em que foi organizado encontramos os tais retratos dos velhos, um olhar terno mas também inquietante sobre os lugares dos velhos, os lugares que povoam a memória e a presença dos velhos, a ideia do velho como aquele que já só espera a morte, cuja presença é, como dizia Rilke, “uma espécie de símbolo dos vestígios terrestres te todos os (…) defuntos”. Há ainda espaço para uma melancolia muito sóbria, nada enfatuada, como no poema da avó que conta ao neto as particularidades do falecido avô e termina questionando-se: «Vamos que eu não me lembrava / a tempo; tudo isto / morria dentro de mim?» (p. 16) O cenário é o de uma província envelhecida, próxima do desaparecimento, que provavelmente desaparecerá com estes velhos, com os seus relatos e as suas memórias. Não me levem a mal que diga destes poemas serem outra forma de antologiar o esquecimento, de oferecerem à posteridade pequenos vestígios de modos de falar que são também os vestígios dos modos de viver. Há ainda lugar, no segundo conjunto, para as vozes dos velhos maledicentes. Os remates são invocativos de um sentido proverbial muito nosso, de uma nostalgia das figuras pícaras que deram cor à província portuguesa, mas também resultam como parábolas dos feitios sem tempo. Sucede, a título de exemplo, neste Um Não Digo Qual: «Era um peguilhento, um reticencioso / e estava à minha porta / para trazer de novo a uso / ressequidas histórias / de caça e gandaia. // De gingeira, de gingeira conhecia-o. / Depois da adolescência tornara-se / um troca-tintas. Menos que poetastro. / Vontade de empunhar um fueiro!» (p.36) Em suma, o tema da morte persegue a poesia de Jorge Gomes Miranda. Neste pequeno volume ela aparece nos olhos dos que, ainda vivos, mais próximos estão dela. Mas aparece de uma forma bastante comovedora, mesmo quando mostra o dente arreganhado do escárnio.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

SOBRE "PRIMEIRA ANTOLOGIA DE MICRO-FICÇÃO PORTUGUESA"


José Mário Silva, in Expresso, 13 Junho 2008, Actual.

AS CANTINAS

Fernando Pessoa nasceu há 120 anos. Malcolm Lowry nasceu há quase 100. Consigo imaginá-los juntos numa taberna de Cuernavaca. Pessoa a beber absinto, Lowry a afogar-se em tequila. Viveram ambos debaixo de um vulcão, cada um no seu tempo, afectados pelas idiossincrasias da História, as susceptibilidades da alma e as disposições do corpo. Há algo de comum entre os dois, algo de muito forte e inexplicável - não só o terem desaparecido com 47 anos de idade. Refiro-me a algo que escapa aos pormenores subjectivos da existência, algo que talvez seja apenas do domínio dos astros ou então produto das conjecturas rebuscadas do leitor. Leio As Cantinas e Outros Poemas do Álcool e do Mar, volume seleccionado e traduzido pelo poeta José Agostinho Baptista, e não consigo evitar aquele espanto infantil de quem vislumbra acasos, coincidências, um caos impartilhável – caso contrário deixaria de ser caos - entre duas vozes distantes no espaço e no tempo. Já sabemos que Lowry nasceu na Inglaterra em 1909. Uma cronologia disponível no final desta colectânea informa-nos que publicou os primeiros escritos no jornal do colégio onde estudou. Viajou muito, diplomou-se em literatura inglesa, sofreu alguns desgostos de amor. No ano em que Pessoa morreu, Lowry foi internado para uma primeira de muitas curas de desintoxicação. No México escreveu um dos mais assombrosos romances do século passado: Debaixo do Vulcão. A vida algo errante, excessiva, aguentou-se até 1957. Ficaram-nos os escritos. Nos dez poemas coligidos em As Cantinas encontramos um ambiente de desolação e de desesperança, homens destroçados pelo medo e pela solidão, afogando as mágoas em tequila, fazendo dos bares e das tabernas um santuário onde esperança alguma se ilude e realiza. Os bêbados dos poemas de Lowry trazem a morte tiquetaqueando no coração, não são uma resistência autodestrutiva à impossibilidade de se integrarem na textura social que despreza o espanto, que arruma a loucura em conceptualizações suturadas segundo manuais escolasticamente elaborados. Estes bêbados não confrontam sequer a morte, por saberem inglória qualquer oposição ao essencial. Eles bebem a morte, abraçam-na como uma inevitabilidade que aclara a existência. Bebem de um modo existencial, «sedentos de desastre» (p. 13), porque «a única esperança é o próximo copo» (p 21). Acompanhem os poemas na versão original, tentam capturar-lhes a música que se perdem na versão portuguesa. Poderão aí encontrar a cadência de quem se questiona mesmo na pretensão de questionar. É um jogo também pessoano que vem de trás, que aqui parece desenrodilhado pela crueza dos aforismos, por tornar tão evidente a ausência de uma luz, ainda que perecível, no caminho de quem já tem dificuldade em descobrir algo de humano no homem que assim se arrasta. Seguem-se os Outros Poemas do Álcool e do Mar. A imagem de um rio seco é a imagem de um sentido que se perdeu. Num poema que nos remete para Debaixo do Vulcão o verso não pode ser mais objectivo: «Não haverá amanhã. O amanhã acabou» (p. 37). Os poemas aparecem povoados de fantasmas, de mágoas e de agonias, amarguras, vagabundos caminhando sem sentido, um lirismo minado pelo desespero, pela impiedade, pelo caos e pela indolência. Os fantasmas que povoam estes poemas são os destroços desse lirismo, são a nossa tragédia dita com a raiva de quem já deu um passo para dentro do abismo. Aqueles fantasmas não são aparições de um tempo passado, são uma projecção presente do nosso futuro, são o futuro a perseguir quem vive debaixo de um vulcão, no inferno agonizante dos sonhos impossíveis. Há um poema que me toca especialmente. Chama-se Felicidade. Lowry enuncia um conjunto vasto de fenómenos belos, aprazíveis, aparentemente consoladores: «Montanhas azuis com neve e água azul, fria e turbulenta - / Um céu selvagem repleto de estrelas que nascem / E Vénus e a lua quase cheia quando o sol, nasce» (p. 53). Isto e muito mais é a felicidade, mas isto e muito mais é também o fundamento de uma dor. A dor de que tudo isto perdemos, a dor de andarmos perdidos entre tudo isto, a dor de sermos impossíveis. Daí que o poema termina com uma questão: «Meu Deus, por que é que nos deste tudo isto?» (p. 53). A impiedade divina é cruel, somos insectos nas mãos de um Deus indolente. Tudo isto é a razão da nossa angústia, a felicidade angustia-nos. Não há lugar para a alegria nos poemas de Malcolm Lowry. Talvez por isso, não sendo um dos meus poetas, seja um dos meus poetas. Volto a lembrar-me de Pessoa.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

A CABEÇA DE BAPTISTA

Não é vulgar um poeta publicar quatro livros de poesia num só ano, muito menos vulgar tratando-se de quatro livros premiados. Aconteceu já este ano, e ainda vamos a meio, com o poeta Amadeu Baptista (n. 1953), que após Outros Domínios (Clamor por Florbela Espanca) – Prémio Literário Florbela Espanca, 2007 -, publicou recentemente, em belas edições da Cosmorama, os títulos O Bosque Cintilante - Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, 2007 -, Sobre as Imagens - Prémio Nacional de Poesia Palavra Ibérica, 2008 - e Poemas de Caravaggio - Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire, 2007. Comecemos por O Bosque Cintilante. Colige mais de oitenta pequenos poemas em conexão com composições de Mozart, Strauss, Chopin, Vivaldi, entre outros. Vem-me à memória a Arte de Música (1968), de Jorge de Sena (1919-1978), livro memorável onde o exercício poético surgiu como forma de falar na arte da harmonia e os poemas impunham-se, também, como «transfiguração poética da música». Em O Bosque Cintilante encontramos, porém, uma outra experiência. Eles podem expressar uma mera impressão causada pela audição da obra, mas também recriam, de um modo seguro e reflexivo, aspectos biográficos dos compositores e das obras, em correlação com a disposição afectiva do poeta. Sendo assim, podemos observar três mecanismos de produção neste conjunto: a mera fruição das peças origina os versos, o conhecimento histórico dos autores motiva reflexões de vária ordem – por vezes num tom ligeiramente aforístico -, a experiência pessoal aparece disfarçada, ao mesmo tempo que legitimada, pelas vivências alheias. Este elo de ligação ao mundo, através de um processo criativo sobre outras criações, resulta não apenas naquilo que é costume apelidar-se de “poesia culta” mas antes na construção de um lugar salvífico, o lugar da comunhão possível, um lugar de encontro e de diálogo alternativo à cruel paisagem humana da actualidade (solitária por excelência, se assim podemos dizê-lo). Daí que sejamos constantemente confrontados com jogos de tonalidades onde a recorrência da «luz mais verdadeira» (p. 39), da brancura, da «subtil transparência do olhar» (p. 48), do esplendor, da clareza, do brilho, da clareira, seja amiúde confrontada com uma «sombra que baila» (p. 45), a treva, o «sol nocturno que nos vigia» (p. 21), numa união que não enjeita os duelos mas tenta resolvê-los: «Vejo todas as coisas com a irrealidade da luz / filtrada sobre o peso inverosímil da neblina. / A música evolve a água, / como uma linha de pássaros dentro da cabeça / enquanto a neve cai e flutua no horizonte o bosque cintilante» (p. 38). Já no volume intitulado Sobre as Imagens, sexto da Colecção Palavra Ibérica, as referências são 14 painéis expostos no Museu de Grão Vasco. Em nota prévia, o autor esclarece-nos não se tratar este ciclo de «uma recriação ecfrástica da iconologia desses painéis». Não estamos, pois, perante exercícios descritivos, embora muitas vezes assim pareça: «(…) na imagem, está assim, com o corpo estarrecido (…)» (p. 9). Somos frequentemente encaminhados para as imagens, para os contrastes entre a luz e a escuridão, num processo multirreferencial que chega a ser exaustivo. O território é o de uma espécie de “poesia sacra” com ligações constantes aos lugares bíblicos: o monte Hermon, Jerusalém, Magdala, o deserto da Jordânia, Roma e Alexandria, Galileia, o Sinai, Genesaré, Gólgota, etc. Mas estes lugares bíblicos não são apenas recriações da geografia onde Deus feito homem pelos homens foi crucificado. São também uma reconstrução da história, um evangelho pessoal inspirado (faz todo o sentido aqui este termo) num testemunho pictórico. Não é, quanto a mim, dos livros mais cativantes de Amadeu Baptista, por nele vislumbrarmos uma fórmula que o próprio autor vem repetindo, deixando uma sensação de desgaste e alguma monotonia. Tudo é diferente com Poemas de Caravaggio, certamente um dos melhores livros deste autor e um dos mais interessantes livros da poesia portuguesa dos últimos anos. No prefácio, Joana Ruas chama a atenção para «a íntima relação entre poesia e pintura existente no período barroco e que se pode resumir no pensamento: a pintura é poesia muda e a poesia é imagem que fala» (p. 10). O livro começa com um conjunto de oito Sonetos marcados por várias interrogações metafísicas onde estão em causa, principalmente, os paradoxos implicados numa relação conflituosa com a ideia de Deus. Seguem-se seis Poemas Sobre Tela, ou seja, seis explicações, pela hipotética voz de Caravaggio, para outras tantas das suas obras mais conhecidas. Muito haveria a dizer acerca destes poemas, sendo que não pode passar despercebida a intenção de reconstruir uma inquieta e inquietante visão do mundo. Não é possível ficar indiferente a estes versos: «O mundo, agora, é só hipocrisia. / E, por isso mesmo, a minha regra / é não ter regra nenhuma / - em busca da brandura / vou de sítio em sítio, / a procurar um sentido nos sentidos, / ou alguém que não difame, / ou que não roube» (p. 43). Poemas de Caravaggio encerra com Três Elegias seguidas de mais três Últimos Poemas. São textos extraordinários, até pelo modo como contrapõem a carne à matéria espiritual, a relação com o corpo feminino à relação com Deus, reconstituindo um tempo que, para mal dos nossos pecados, ainda se parece absurdamente com o nosso.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

SAUDADE #10


Saudade - Revista de Poesia
N.º 10, Junho de 2008
Director: António José Queirós
Associação Amarante Cultural

Poema do Novo Egipto, p. 28

sexta-feira, 30 de maio de 2008

POESIA BRASILEIRA DO TERCEIRO MILÉNIO

Afirma-se amiúde que nunca foi tão fácil editar poesia em Portugal como hoje. Não estou na posse de dados que me permitam corroborar ou contradizer tal afirmação, mas, mesmo aceitando que hoje seja mais fácil editar poesia em Portugal do que no passado, não posso concordar com a ideia de que é fácil editar poesia em Portugal. Se excluirmos as editoras que editam livros financiados pelos próprios autores ou por patrocinadores amigos, se excluirmos também aquelas que apenas editam consagrados ou autores chegados à casa por sugestão de autores já da casa, se formos ainda mais exigentes e excluirmos igualmente todos os autores que editam nesta ou naquela editora por a essa ou àquela editoras já terem prestado serviços vários (tradução e crítica/promoção à cabeça), então o que resta? Pouco. Um autor verdadeiramente autónomo, independente, desprotegido e fora dos circuitos literários habituais encontrará imensas dificuldades se não tiver dinheiro para pagar a edição dos seus próprios livros, se não tiver padrinhos ou amigos porreiros, se não estiver disposto a prestar serviços. Não admira, por isso, que o aparecimento na Internet de várias ferramentas de edição de texto tenha sido acompanhado pela revelação de inúmeros autores que, de outra forma, continuariam a escrever para a gaveta. Há uns anos, quando começou a falar-se de weblogs em Portugal, muitos foram os que, reconhecendo a existência de vários espaços dedicados à poesia neste novo mundo, logo se empenharam na desvalorização do que aí vinha aparecendo no domínio da arte poética. Elogiaram-se os cronistas, a prosa diarística, o aforismo, a análise política, o humor, alguma ficção – mais recentemente a microficção -, mas nenhuma poesia. Entretanto, alguns poetas de obra feita e publicada foram aportando neste cais. Vejam-se os casos de Nuno Júdice, Inês Lourenço, João Camilo, Hélder Moura Pereira, entre tantos outros. Agora já não há como negar à Internet o carácter de espaço privilegiado para a divulgação, promoção, prática, experimentação de vozes poéticas diversificadas. Ao nepotismo fechado e reinante na edição de livros, contrapõe-se a democracia dos espaços abertos de difusão; ao comércio encapotado de talento e propriedade, opõem-se as novas tendências como uma saudável, fecunda e revolucionária oficina de escrita. Senti vontade de dizer isto, a propósito da Antologia de Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milénio, seleccionada e organizada por Claudio Daniel para a Exodus, por ter encontrado, entre os dezoito poetas que compõem o volume, vários nomes com publicação regular em weblogs ou páginas na Internet: Adriana Zapparoli, Ana Maria Ramiro, Douglas Diegues, Marília Kubota (inédita em livro), Nícollas Ranieri, Thiago Ponce de Moraes, Virna Teixeira. Também inéditos em livro são Andréa Catrópa e Daniel Sampaio de Azevedo, sobrando André Dick, Danilo Bueno, Delmo Montenegro, Diego Vinhas, Donny Correia, Eduardo Jorge, Leonardo Gandolfi, Micheliny Verunschk, Simone Homem de Mello. Um leque onde o mais novo é Nicollas Ranieri (n. 1991) e a mais crescida é Marília Kubota (n. 1964). Esta antologia é uma lufada de ar fresco. Não só por nos mostrar uma poesia brasileira em constante ebulição, como também diversificadíssima nas propostas (algo que, em Portugal, acaba frequentemente reduzido ao seguidismo patético de duas ou três correntes distintas). A Introdução e o Posfácio, da autoria de Claudio Daniel, são dois documentos excepcionais que nos permitem perceber os trilhos da poesia brasileira depois do modernismo, do advento da poesia concreta e das orientações alternativas que foram surgindo da segunda metade do séc. XX até aos dias de hoje. Excelente apêndice à antologia organizada por Jorge Henrique Bastos para a Antígona, neste pequeno livro encontramos 18 poetas novos cultivando linguagens que, sendo também fruto do seu tempo, não deixam de ser questionadoras, confrontadoras, até transgressoras dos actuais paradigmas. Nota-se, na generalidade, uma tendência minimalista, fortemente imagética, por vezes prosaica, frequentemente hermética, mas com uma impressionante vontade de escapar à boçalidade. Poemas como Instalação, de Diego Vinhas, a morbidez nos poemas-sequência de Donny Correia, o tom escatológico de Micheliny Verunschk ou o feminismo irónico de Marília Kubota podem ser excelentes indicadores de uma moderna poesia brasileira que sai aqui excelentemente representada.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

O SENHOR E O ESCRAVO

Para o manuel a. domingos

o escravo não queria ser senhor. queria apenas não ser escravo. quando deixou de ser escravo
quis ser senhor. mas quando quis ser senhor já não era escravo.

DESOCULTAR O ÓBVIO

No ano passado a Palma de Ouro foi atribuída ao filme 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, da romena Cristian Mungiu (n. 1968). O “hiperrealismo” do título faz justiça ao filme em si, uma abordagem ao aborto clandestino na Roménia comunista. A história decorre em 1987. Duas estudantes universitárias, Ottila e Gabita, resolvem recorrer a um tal de senhor Bebe para colocar fim à gravidez indesejada de Gabita. Além de dinheiro, Bebe exige que as duas amigas se prostituam com ele. O segredo entre ambas deixa de ser apenas o aborto de uma para passar a ser aquele acto de prostituição das duas, centrando-se o argumento na angústia de Ottila, claramente mais matura e esclarecida, e na sua dificuldade em lidar com a situação e, posteriormente, com o namorado. Várias questões de ordem ética e moral são ilustradas no drama de consciência que afecta Ottila, mas, à margem da própria história, ou talvez nem por isso, há uma cena que marca o filme. Um plano de Ottila ajoelhada na casa de banho do quarto onde o aborto é realizado. Ottila olha fixamente, num misto de tristeza e nojo, para o chão. Sabemos o que ela olha, mas não acreditamos que nos vá ser mostrado o objecto do seu olhar. Enganamo-nos. O que há de espantoso naquela cena é o facto de num filme onde a sobriedade é extrema sermos confrontados com a imagem de um feto expelido, embrulhado numa toalha, sem que nada o fizesse prever. Vivermos num mundo onde tudo se mostra transformou a arte, em certa medida, num saber da ocultação. Enquanto noutros tempos a arte foi sendo assumida como um dom de desocultação, decifração, revelação, agora parece fazer mais sentido o contrário, através de técnicas várias onde o segredo para mostrar melhor está, precisamente, em não mostrar. Cristian Mungiu resolveu mostrar-nos algo que, provavelmente, nós não esperaríamos ver, criando assim um inesperado efeito de surpresa. É curioso: noutro filme aquela cena talvez parecesse ridícula, neste não.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

MÁGOA DAS PEDRAS

Não é fácil escrever sobre a poesia de Joaquim Castro Caldas (n. 1956). Não porque seja uma poesia difícil – o que é isso de uma poesia difícil? -, mas porque os seus poemas encerram no âmago, enquanto entidades singulares em relação com o leitor, tudo o que possamos dizer acerca deles. Há uma transparência na poesia de Joaquim Castro Caldas que, muito frequentemente, a torna obscura. Recordo-me do poeta sentado, se a memória não me falha, no palco do café da Barraca. Recordo-me do poeta sentado, envolto numa nuvem de fumo, de copo de uísque na mão, a dizer/representar os seus poemas. Talvez seja aquele o ambiente natural desta poesia, uma poesia que nasce como uma voz que vem do fundo do corpo, palavras a pedirem uma pronunciação, vindo à boca como uma nuvem de fumo soprada no ar. (1974), Português suave (1978), Diz que até Jesus (1998), Impressões digitais dos deuses (2001), Convém avisar os ingleses (2002), Só cá vim ver o sol (2004), são alguns dos livros anteriores do autor deste Mágoa das Pedras (Deriva, 2008). Quem conhecer alguns daqueles livros sabe o que pode esperar desta poesia: construções alternando entre o verso e a prosa, uma derrisão tão melancólica quão desencantada, «uma saudade concreta», mas também, e talvez sobretudo, uma ternura surpreendente. Talvez os poemas mais conhecidos de Castro Caldas sejam aqueles onde as veias burlesca, satírica e irónica são reveladas sem apelo nem agravo. É também um poeta do amor, da denúncia do seu tempo, da memória, até da confissão. Esta diversidade no tom, concentrada nas vivências vagabundeantes do autor, não implica uma heterogeneidade que possa pôr em causa a coerência dos temas: os tiques caracterizadores da sociedade portuguesa actual ou as memórias da infância, amores e desamores, brevíssimas reflexões existenciais, entre outros. Mágoa das Pedras denota, em diversos momentos, uma marca elegíaca. A morte surge logo no primeiro poema, um poema em prosa intitulado um fôlego: «aqui não há morte, a vida recomeça, há só uma energia que muda de forma e mergulha, dá-se inteira como uma escrita, a fala» (p. 9). Talvez seja esta a justificação do sentido da poesia, a justificação do sentido da poesia neste livro específico ou da poesia como um todo. Os poemas finais falam de partidas, num tom quase de despedida, falam do passar dos anos, dos enganos e dos desenganos, uma espécie de balanço existencial, falam dos outros, da gente boa que ficou e da gente que partiu, porque a vida não se divide entre um passado, um presente e um futuro, a vida é um ir indo: «a gente aprende / o coração à lareira / que se fica a ir / e reacende / are que um dia / alguém se lembre» (p. 60). É nesta cadência do "vai-se indo", expressão popular que define todo um povo, que os poemas surgem entre a luz terna dos afectos e a dor sombria dos percalços. O gavetão das memórias é aberto, vêm à tona imagens das brincadeiras de criança, um quando perdido que não se renova, a aldeia, Lisboa, o luar da infância que nos protege a todos da «brutalidade do mundo» e a poesia, quem pode saber, como o pouco que resta desse luar. Os brinquedos estão agora escangalhados, a rebeldia dos amigos vestiu fato e gravata, foi à vida. Os amigos são talvez quem está mais presente neste livro, «os amigos puros» e «os velhos amigos», aqueles que já não estão, aqueles que estando é como se não estivessem, os poucos que ainda estão ou os outros que, já não estando, são talvez os que estão mais. Não sabemos se há nas pedras uma mágoa. A haver, essa mágoa só pode ser a da degradação do tempo, a da desumanização da vida, sobretudo da vida entre pares. Os serviços de SMS substituíram as cartas com sangue e cheiro, o dinheiro é um vírus que tudo infecta, «o amor é um chip e o egoísmo o seu disco rígido e de repente eu já não te conheço fora do site e andamos de satélite e uma dúzia de monstros impunes põe e dispõe da alma à humanidade e eu sinto-me assim uma coisa inútil o email cobarde» (p. 32). E este é um livro desencantado. Certamente um dos melhores de Joaquim Castro Caldas, indubitavelmente um dos mais convincentes livros de poesia portuguesa deste ano.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

AÇO E NADA

As crónicas de Aço e Nada (Brasil, 2007) foram publicadas entre Fevereiro e Março de 2007, no jornal A Notícia (Joinville, estado de Santa Catarina). Poderiam ter ficado por ali esquecidas e abandonadas, não fosse o zelo do seu autor, Rubens da Cunha (n. 1971), que em boa hora resolveu guardá-las no regaço confortável de um livro. Três conjuntos de textos, aproximados no tom mas diversos na forma, prefaciados por Carlos Sousa de Almeida: «Partindo, amiúde, da insípida banalidade, e a arte é, antes de tudo o mais, isso mesmo, as crónicas de Rubens da Cunha dão sabor de ficção ao real, explorando os canais de emoção do leitor para neles se instalar». Já iremos à insípida banalidade. Para já, cabe lembrar que a crónica é sempre um género ingrato. Exige do autor um olhar vigilante, ao mesmo tempo desnudado, raramente merecedor de uma fixação que a previna da inflexível fogueira do esquecimento. Porque é escrava dos dias, a crónica apenas sobrevive quando logra apreender dos dias os pormenores esquivos que estão diante de todos mas só não passam despercebidos ao olhar garimpeiro do cronista. Por isso há sempre uma ambiguidade implícita nos tempos da crónica. Mesmo quando assume uma atitude mais reflexiva, ela não se livra dos preconceitos do seu tempo. Está dependente da actualidade, germina no ventre da actualidade, ainda que não se circunscreva a essa mesma actualidade. Se sai bem, irrompe desse terreno tão fértil quão delicado - como uma árvore de fruto. E ao longo dos tempos os frutos irão amadurecendo. O cronista sabe que pouco mais lhe resta do que amanhar a terra com as palavras, a ferramenta do seu ofício, semear perspectivas, indagações, breves apontamentos lunáticos, pulverizar as árvores com o veneno da poesia e esperar que os frutos surjam, pelo menos, com um aspecto desejável, apetitoso, se possível cativante. É pois na insípida banalidade dos dias, na monotonia quotidiana, no ramerrão que marca o ritmo das gentes, que o cronista planta as suas árvores e, paradoxalmente, colhe os seus frutos. Porque da insípida banalidade fazem parte tanto aquele que escreve como quem é escrito. Encanta nas crónicas de Rubens da Cunha a forma como consegue distanciar-se dos outros sem separar-se deles. Há uma atitude muito frequente em certos cronistas contemporâneos que é a de se afastarem esquizofrenicamente do mundo em que vivem e passarem a ver a realidade como se esta fosse um planeta girando em torno da luminosidade que irradiam. Esta atitude não é a do autor de Aço e Nada. O afastamento é um afastamento para dentro, uma aproximação do olhar aos pormenores, um aumento da objectiva a ponto de conseguir perspectivar já não apenas o banal mas os inusitados. Sendo a vida feita de aparência, o que estas crónicas buscam é o inaparente. Não que estejam crentes da existência desse inaparente, mas, pelo menos, conseguem iludir-nos quanto à existência de gestos que não sejam automáticos, situações que não sejam previsíveis, pessoas que não sejam triviais (quase sempre aquelas para as quais ninguém olha). E tudo isto é realizado com saudável ironia, nenhuma autocomplacência, uma enorme capacidade de espanto. Deste modo, é frequente a crónica resultar numa espécie de poema em prosa, num conto, numa colectânea de micronarrativas, onde o inédito é resgatado, fixado, apontado. Referindo-se à figura do poeta, Rubens da Cunha afirma não saberem aqueles que o criticam ser vasto e cansativo o trabalho de observar. É este trabalho de observar o quotidiano, a arquitectura das relações humanas, a inexplicabilidade de alguns factos, que vem à tona nas crónicas de Aço e Nada. Olhar vigiador, pois então, como no título de um dos três conjuntos aqui coligidos. Mas um olhar delicado, crítico mas não críptico, equilibrado na forma como conduz o leitor e capaz de revirar a terra para dela colher o alimento mais deleitoso.

terça-feira, 6 de maio de 2008

A “PRIMEIRA ANTOLOGIA DE MICRO-FICÇÃO PORTUGUESA”

foi o pretexto desta conversa Rui Costa – Luís Ene


Qual o teu interesse pelo que se pode designar como micronarrativa ou micro-ficção? Já agora, que expressão preferes?

O meu interesse pela micro-ficção tem a ver com a sua extrema aptidão para a promiscuidade. A micro-ficção é um tique nervoso, uma descarga eléctrica feliz, como quando vais pela auto-estrada a 140, durante três horas, e te cai um broche do céu. Prefiro a expressão micro-ficção, porque me parece mais abrangente, e porque soa melhor (Cristina, não vais levar a mal).

Concordas com a afirmação de que a micronarrativa instala a confusão, como sugere HMBF no prefácio, entre a poesia e a prosa?

Sim. Não há confusão nenhuma, tudo é confusão. Os nossos antepassados é que se sentiam confusos e desataram a fazer classificações: isto é poesia, aquilo é prosa, isto é pimba, aquilo já é a botar pró clássico, e por aí fora. Eu gosto de abstracto, mas também gosto de concreto. Gosto de leite com groselha, mas também gosto de absinto. Isto faz-te confusão? A mim não me faz confusão nenhuma.

É como aquela pessoa que entra no autocarro e se agarra ao primeiro varão. O autocarro enche, as pessoas que vão entrando querem passar, mas aquela pessoa está aparafusada ao chão. Passa a primavera, o verão, chega o inverno. A pessoa tem o primeiro neto, compra uma casa de férias. Eventualmente morre sem deslargar o varão. O varão salvou aquela pessoa da confusão, não foi? Mas agora não há nenhum varão que nos salve.

Qual foi e como decorreu o processo de selecção e organização dos textos? Quais os critérios que te orientaram?

Convidei, como explico numa nota do livro, os autores a enviarem-me textos com o máximo de 200 palavras. Houve uma excepção, o Alcides. É um indivíduo estranho, ameaçou convidar-me para provar empadinhas de tofu.

Os critérios: qualidade e variedade. Quanto à variedade, deixo esta precisão: há um dois autores com quem não tenho especial afinidade de escritas/gosto, mas achei que deviam integrar a antologia, por focarem um conjunto de temas e/ou processos que ainda não estava representado.

Uma boa parte dos autores antologiados vai publicar mais coisas no futuro, e com todo o mérito.

A ideia de indicação dos blogues dos autores foi tua? O que está por detrás dela?

Foi. Descobri (por mim e por indicação tua e do Henrique Fialho) quase todos os autores nos blogues, nada mais natural do que indicar a fonte. E é uma forma de dizer “aos blogues”: estavas aí, discreto e caladinho a escrever posts onde não passa a TVI, mas valeu a pena porque houve alguém que leu e gostou.

Achas que a micronarrativa é um novo género?

Acho que a micro-ficção é mais do que um género, é um peixinho amarelo de barbatanas peitorais.

Que pensas do resultado final da antologia?

Ficámos todos contentes com o resultado final: um livro que ao mesmo tempo é um objecto bonito e tem um conteúdo variado e de qualidade. O meu maior gozo foi o de poder dar a conhecer autores que ainda não tinham tido oportunidade de publicar (e outros que andavam noutras lides).

Fico surpreso com o facto de esta ter sido a primeira antologia de micro-ficção portuguesa, sabendo nós como ela vem sendo praticada há alguns anos em Portugal e noutros países. Dizem que há muitas editoras? Se há, devem andar a dormir. A editora exodus apostou na minha ideia e diz que não se arrependeu: em pouco mais de um mês uma cadeia de livrarias reforçou os seus stocks duas vezes.

E o teu romance? Tem tido boa aceitação do público e da crítica?

O público (bem, nem todo) gosta de surpresas (um leitor falou-me do que chamou uma “nova experiência de leitura”); um excelente crítico vai falar alguns minutos sobre “A Resistência dos Materiais” no Programa da RTPN “Ler+, ler melhor” (ainda não sei a data mas, tendo em conta a pessoa, tou curioso).

Ei, reparo que parou de chover. Vou até ali ao bosque.
Até breve, amigo!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

CALLEMA #4


Callema - publicação semestral
N.º 4, Maio de 2008
Director: M. Tiago Paixão
Edição: Cooperativa Literária


Recuperar Ema, pp. 29-32

domingo, 4 de maio de 2008

A RESISTÊNCIA DOS MATERIAIS

Vencedor do Prémio Albufeira de Literatura 2007, o primeiro romance do Rui Costa (n. 1972) percorreu o seu calvário até encontrar editor predisposto a colocá-lo nas livrarias portuguesas. O facto não é irrelevante. Antes pelo contrário. Diz-nos muito dos famigerados critérios editoriais de algumas editoras portuguesas, as quais optam por subjugar o interesse literário ao mero interesse comercial. Estão no seu direito, como é óbvio. Por isso não perderei tempo com as toneladas de livros absolutamente insignificantes vindos a lume todos os anos, só porque os seus autores são figuras públicas e frequentam espaços mediáticos que garantem uma abrangente e eficaz promoção desses títulos. Mas não posso deixar de me interrogar sobre o respeito que me merece uma editora que recusa a publicação de um livro ao qual reconhece uma qualidade indiscutível. O que pensar de uma editora que nega a publicação de um livro por vislumbrar nele um grau de dificuldade que não se coaduna com o mercado actual? Que pensar desta cedência ao facilitismo? Que pensar das pessoas, porque por detrás das editoras há sempre pessoas, que, sendo coniventes com o tal facilitismo, são as primeiras a queixarem-se da iliteracia que grassa no país? Afinal, como queremos ter um país mais culto se não só nos acobardamos perante a falta da cultura como não nos importamos de tirar proveito da mesma? Curiosamente, as respostas a estas questões encontram-se todas, de um modo metafórico, no romance A Resistência dos Materiais - romance alegórico para ser lido como um longo poema em prosa, escrito num ritmo que nunca entedia a leitura e desafia constantemente a imaginação do leitor, revelador de uma capacidade narrativa que, pretendendo fugir à banalidade, nunca resvala num hermetismo infundamentado. O grau de dificuldade deste romance é proporcional à inércia do leitor, ao pouco empenho que possa este revelar na fruição de uma história contada como um rastro que se vai deixando num matagal de metáforas extraordinárias. Há uma cidade, e na cidade decorre uma investigação científica sobre a propriedade das sombras. Os frutos dessa investigação terão consequências inimagináveis ao nível do domínio e da capacidade de influenciar os comportamentos humanos, pelo que importa manter o maior sigilo acerca das conclusões entretanto alcançadas. O que teremos, então, é uma metaforização das relações de poder estabelecidas, numa qualquer sociedade, entre os diversos agentes envolvidos numa investigação, na descoberta da verdade, na ânsia do poder. Desde logo, a negra Rafaela, filha do Comissário das Novas Descobertas, onde todas as sombras serão depositadas; o Escritor, aquele cuja função é roubar as sombras dos vivos; Maria, a mulher sem sombra que pode penetrar nas sombras dos outros, a quem cabe roubar as sombras dos mortos; os Donos, modo subjectivo de chamar à liça os homens que detêm o poder, sejam eles políticos, forças económicas, etc… Vem-nos à memória a platónica Alegoria da Caverna, aqui de certo modo invertida quanto ao sentido das sombras. Em A Resistência dos Materiais a verdade está nas sombras, «nós é que somos a sombra do que as nossas sombras são», tudo se apresenta sombrio, compreender as sombras, percebê-las, é deter um poder inigualável. Relativizam-se as coordenadas, «o precário equilíbrio do ser humano», o espaço deixa de ser algo definível para passar a ser algo em transe, o tempo não é mensurável senão na subjectividade do devir, as crianças são igualmente adultas e os velhos parecem crianças. Não “esquizofrenizando” o discurso, o que implicaria uma linguagem dificilmente decifrável, Rui Costa coloca-nos no centro de uma acção onde tudo parece novo, onde a realidade se reconstrói a cada frase, como numa espécie de cenário futurista ou num filme de ficção científica. E talvez seja disso que estamos realmente a falar, de uma estranha ficção científica com palácios, bruxas e princesas. Resistência dos materiais, informa-nos a Wikipédia, «é a ciência que estuda o comportamento elástico e plástico dos materiais à acção de força». Neste romance, Rui Costa propõe-nos um estudo romanceado da elasticidade dos comportamentos humanos à acção do poder. Por isso dizemos que as respostas às questões supracitadas vêm, de certo modo, no próprio romance, pois «no fundo de outro fundo há um poço e ninguém espreita a sua imagem lá dentro enquanto tiver medo de cair».

sexta-feira, 2 de maio de 2008

SOBRE MICRONARRATIVA


João Morales, in Os Meus Livros, Maio 2008.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

O ESPELHO ATORMENTADO

Do norte-americano Russell Edson (n. 1935) encontrava-se disponível em língua portuguesa, se não estou enganado, apenas uma brevíssima selecção dos seus poemas em prosa intitulada O Túnel (Assírio & Alvim, 2002). Nesse pequeno volume, o tradutor, também ele poeta, José Alberto Oliveira introduziu algumas coordenadas para a compreensão desta poesia: os poemas de Edson são fábulas bem humoradas e inquietas que contam histórias com desfechos absurdos. O riso é, sem dúvida, uma das características mais evidentes na poesia de Russell Edson. Autor de um romance e de mais de uma dezena de livros de poemas em prosa, estreou-se em 1961 com Appearances. Em 1994 editou The Tunnel: Selected Poems e em 2000 apareceu The Tormented Mirror, uma colectânea de poemas anteriormente publicados em variadíssimas revistas que a OVNI disponibiliza agora em tradução bilingue. A responsabilidade da tradução é de Guilherme Mendonça. Traduzir Edson não é tarefa fácil, sobretudo por tratar-se de um autor com um uso muito particular da linguagem, repleto de jogos de palavras, alusões, trocadilhos, onde os planos da realidade e do onírico aparecem frequentemente confundidos. Diz-se desta obra ser algo pendular, talvez porque nela vislumbremos a omnipresença de tensões diversas. Desde logo, no plano formal, a afirmação destes textos enquanto poemas, mesmo tratando-se de poemas em prosa, não pode senão ser motivo de discussão. Não andará longe da verdade quem ouse chamar-lhes fábulas, estórias ou, fazendo uso de termos mais em voga recentemente, micronarrativas. No contexto da literatura norte-americana, trata-se, então, de poesia em prosa, o que, provavelmente para espanto daqueles que julgam serem os preconceitos literários tipicamente nossos, tem resultado numa certa marginalização desta obra por parte da comunidade académica. A essa marginalização Edson responde com simplicidade e inteligência: «Being, as you suggest, somewhat of a hermit, I've never thought of myself as marginal or mainstream, just happy to be writing». Há também aqueles que falam de Russell Edson como um dos mais importantes cultores do poema em prosa nos Estados Unidos da América (do Norte). A sua importância advém da sua singularidade, a qual parece por vezes devedora de um certo surrealismo menos automático mas amplamente enraizado nos domínios do inconsciente. É curioso, a título de exemplo, que mesmo quando se afirmam mais bizarras, as estórias de O Espelho Atormentado dialogam com referências muito concretas da vida quotidiana, trabalhos, paixões, desavenças, dificuldades da vida doméstica. Chamo-lhes estórias não inadvertidamente. O próprio afirma: «All writing is storytelling». O que nos contam, então, as estórias deste espelho atormentado? De um modo cómico, quase sempre efabulatório, não dispensando um certo wit, com bastante engenho na recusa da sátira, estas estórias contam-nos de elefantes com vergonha de roupa interior, de intricados laços genealógicos entre macacos, de casamentos entre galos e vacas, de um cavalo que aprendeu a montar outros cavalos, de um velho elefante de barbas brancas, de um Ciclope que precisa de óculos, de um papagaio que falava de si próprio na terceira pessoa, etc. Mas nos quatro conjuntos de textos coligidos em O Espelho Atormentado não são apenas os animais que falam. O núcleo de acção é diversas vezes o núcleo familiar, noutras ocasiões a estória desenvolve-se em torno de mutações físicas que instalam um paralelismo agradável com as próprias mutações da realidade convertida em texto. Uma escrita surreal, talvez, deveras fascinante na forma como agrega os planos da realidade e da ficção, na arte com que torna lógico o absurdo enviando-nos para o absurdo da lógica durante, por exemplo, a hora d’O Banho: «Um homem estava a tomar banho numa banheira de molho de peru; a pôr um patinho amarelo a boiar para passar a eternidade. Comia puré de batata, mergulhava no banho grandes garfadas… / Uma beleza, tudo aquilo, pensou, eu num ensopado com um pato, a comer puré de batata com molho, e lá fora um mundo completamente louco… (p. 157)»

sexta-feira, 18 de abril de 2008

CINCO

Hoje vou chover para outro lado. Levo comigo a aura dos teus olhos, o sorriso ingénuo com que nos brindas todas as manhãs, a doçura dos gestos mais ternos que pode um homem almejar. Hoje não irei chover sobre a nossa terra, porque é de luz a nossa terra sempre que tu ris. Danço e canto melodias antigas, danço e canto melodias novas, danço ao ritmo frenético das tuas dúvidas, canto a ansiedade das tuas respostas. Não pode haver cansaço nessas perguntas, não pode haver mágoa. Sempre que madruga olho-te pelo retrovisor. Não me vês olhar-te, nem sabes que os meus olhos estão ali, deliciados, com a pureza da tua melancolia. Como pode uma criança trazer no rosto alguma melancolia? Como pode olhar a paisagem em movimento, o movimento em paisagem, sem se interrogar? Não pode. Por isso saltas da melancolia, lenta, com aquela moleza sofrida de todas as manhãs, e esperas acordada um sonho vindouro, enquanto apontas na parede os desenhos, as construções, os adereços com que vais aprendendo a dar cor à vida. Tudo me ensinaste, tudo te devo. Ensinaste-me a falar de outro modo, a escrever de outra fala, a olhar o mundo com um espanto que julgava perdido no quotidiano bafiento das pessoas adultas. Ensinaste-me que tudo é anterior às teorias e que as teorias são anteriores às palavras, que as palavras são anteriores a si mesmas: nos gestos desregrados, espontâneos e inusitados com que brindas a existência. Eu hoje vou chover para o lado amistoso do vento. Vou tracejar a verde o coração oferecido, colar na porta do frigorífico mais um sinal de esperança, escutar atentamente as tuas dores, a minha ausência, esta tristeza de não poder estar sempre onde nos manda o coração.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

CRIATURA

Houve um tempo em que as chamadas revistas literárias delimitavam territórios estéticos, faziam-se marcar sob o signo dos movimentos, reclamavam autonomia e manifestavam gosto pela ruptura. Esse tempo acabou. As revistas literárias são hoje, na sua imensa maioria, meros reservatórios de textos diversos, por vezes em diálogo permanente com outras artes que não a arte literária exclusivamente. Reúnem-se amigos e conhecidos, vozes distintas, tendências antagónicas, num mesmo espaço editorial como se esse espaço fosse um mero ponto de encontro sem pretensões de maior. Olhando para as estantes cá de casa, encontro muitas dessas revistas. Algumas tornaram-se leitura obrigatória, outras não inspiraram grande admiração. O que encontro de comum em quase todas é, precisamente, a ausência de conflito e de confronto. Há excepções, como é óbvio. Nestas coisas haverá sempre excepções que confirmem a regra. Mas, de um modo geral, vejo apenas uma amena confraternização, proporcionada pela carolice de alguns indivíduos, patrocinada por uma ou outra instituição, fundação, etc. Nos últimos tempos, digamos de há dez anos para cá, encontro alguns exemplos que convém sempre lembrar: a excelente revista de poesia Relâmpago (n.º1, 1997), a Alma Azul (n.º1, 1999), a revista de contos Ficções (n.º1, 2000), a Apeadeiro (n.º1, 2001), a Saudade (n.º1, 2001), a Telhados de Vidro (n.º1, 2003), a Boca de Incêndio (n.º1, 2004), a Magma (n.º0, 2005), a Big Ode (n.º0, 2006), entre outras, mais ou menos divulgadas, mais ou menos conhecidas. Se tivermos em conta o advento da Internet enquanto meio mais económico e ecológico, até mesmo mais disponível, na consecução destes projectos, torna-se impressionante constatar a sobrevivência de algumas destas edições, assim como o aparecimento de novas publicações do género. É o caso recente da revista Criatura, dirigida por Ana M. P. Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto. Integralmente composta por textos poéticos, o primeiro número da Criatura, de Fevereiro passado, conta com a colaboração de uma série de ilustres desconhecidos (ou nem por isso). De Ana Aleixo Lopes retive o tom filosófico e um longo poema colagem com citações de Luís Vaz de Camões e Fernando Pessoa em inglês. Ana M. P. Antunes opta pelo poema em prosa. António Ramos Pereira oferece-nos três poemas em verso de interesse desigual. Já Beatriz Hierro Lopes opta por uma prosa mais desenvolvida, com algumas interrogações geracionais, mas a carecer de uma revisão atenta. Em Cláudia Santos Silva pareceu-me notar alguma hesitação entre um certo hermetismo e uma espécie de prosaísmo melancólico. Gostei do poema «regresso na hora das empregadas da limpeza». David Teles Pereira aventura-se no poema longo com uma desenvoltura que ainda há-de encontrar o tom mais acertado. São evidentes os ecos da Gerção Beat. Diogo Vaz Pinto também tacteia o seu caminho, mas parece-me mais inclinado para um lirismo com uma componente irónica ainda por apurar. José Carlos Barros, que já não é novo nestas andanças, opta, desta feita, por um tom de polémica algo sobrepujado: «o que seria dos críticos do expresso / o que seria de tanto mestrado e tanto mestrando / o que seria enfim do país / se não houvesse de tempos a tempos / uma polémica onde exercitar o tiro ao alvo / como esta por exemplo dos poetas sem qualidades». Os poemas curtos de Maria Sousa denotam uma agradável melancolia, mas mais interessantes parecem-me as sequências de Marta Caldeira. É aqui que encontro o melhor desta revista Criatura, nestas prosas em versos, nestes versos em prosa, de grande fôlego, domínio rítmico e provocatória derrisão: «aqui na minha aldeia há dois poetas, um é o cristo pescador de per- / cebes e o outro é o cavador, poeta das hortas e das horas dormentes. / mas o maior poeta que conheço é a minha avó / :chama vergas à cadeira de onde os olhos se evadem / para o corpo criar metáforas». Com Marta Chaves regressamos ao poema curto de raiz melancólica. Nuno Araújo alterna entre a prosa e o verso um certo abstraccionismo e Rita Branco Jardim opta por uma espécie de lírica amorosa desalentada. Por fim, um tão agradável quão contido erotismo nos versos bem delineados de Sara F. Costa e, a fechar, alguns poemas igualmente ágeis de Susana Almeida. Que outros números venham, é tudo o que se espera.

sábado, 12 de abril de 2008

INDIGÈNES


Indigènes (Dias de Glória, na versão portuguesa), de Rachid Bouchareb (n. 1959), não é apenas mais um filme sobre a II Grande Guerra. O cenário serve para lembrar os esquecidos, não deixar sarar as feridas e, mais do que homenagear, exigir uma reflexão sobre a hipocrisia enquanto grande motor da política. Do recrutamento aos dias de hoje, a história de um soldado e do seu pelotão. O que há de especial nestes soldados é terem sido recrutados nas ex-colónias francesas. São nativos da Argélia, Marrocos, etc., que combatem, lado a lado com os franceses, pela França, pela pátria-mãe que trata de modo desigual os seus filhos. Aqueles soldados não se limitam a lutar contra o nazismo alemão, não lutam unicamente pela França, pelos valores da liberdade, fraternidade e igualdade. Eles lutam pela discriminação de que são alvo, uma discriminação que começa logo nos seus companheiros de guerra, nomeadamente nos seus superiores. Bouchareb é translúcido no modo como expõe essa discriminação, perspectivando a presença daqueles soldados no exército francês como mera carne para canhão, apontando o dedo às tácticas e aos métodos praticados para promover soldados franceses e esquecer os magrebinos, chamando a atenção para os pormenores que fazem da História um processo calculista de selecção da memória. Estes combatentes esquecidos não são só, nos dias de hoje, meros soldados perdidos no combate do esquecimento. Eles são a prova de um cancro que ainda hoje nos assola, um cancro que nos obriga a reflectir e a julgar as nossas responsabilidades no estado actual do mundo. Seria redundante ver neste filme apenas mais um exercício sobre a II Grande Guerra ou até uma espécie de panfleto contra a discriminação de que os magrebinos têm sido alvo na França da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Este filme mostra-nos também que certos homens estão, à partida, limitados no reconhecimento pelo fatal destino da sua origem. Mostra-nos que alguns homens não precisam apenas de ser bons para serem reconhecidos como tal, precisam, antes, de ser óptimos, excelentes, muito melhores que os demais para serem vistos, pelo menos, como razoáveis. É a condição das minorias: chegar a Deus para estar ao nível dos homens. A uns exige-se tudo para que sejam pouco, a outros praticamente nada se exige para que sejam muito. Este filme é, de certo modo, sobre tudo isso, sobre a tatuagem que ainda hoje marca muitos dos filhos da Europa civilizada: pas de chance.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

UM POETA A MIJAR

O título da mais recente colectânea de A. Pedro Ribeiro enviou-me para uma tal de «poesia diurética», expressão usada por Luís Adriano Carlos na introdução a Alegria do Mal, reunião da obra poética de José Emílio-Nelson. Todavia, a poesia de A. Pedro Ribeiro, ainda que declaradamente abjeccionista, nada tem de diurético, procurando antes os caminhos do manifesto, de uma notória obstinação e de uma disfarçada abnegação. Um Poeta a Mijar, editado pela Corpos, surge depois de Saloon, um volume saído nas já clássicas Edições Mortas. Muita matéria os liga, até porque a forma descarnada como A. Pedro Ribeiro se expressa não dá lugar a grandes desvios, inflexões temáticas ou inovações de conjunto. O que é curioso notar é que estes poemas-manifesto, nessa sua forma descarnada, apresentam-se-nos também como um disfarce, o disfarce do poeta maldito autoproclamado, aquele que rejeita as cátedras não porque nada tenha que ver com elas mas porque nada quer ter que ver com as mesmas, o anónimo que opta por trabalhar apenas dois dias por semana para poder passar o resto do tempo a «pensar, criar, partir a loiça» e «observar discretamente / o balançar de ancas da vizinha». O tom não é tanto de galhofa como parece ser de insurreição, é um tom que se manifesta cruamente na consequência de retratos sociais e ilações morais fundamentadas na experiência dos dias, na vagabundagem intelectual, no estilo pouco fundamentado da gente mais comum: «a vida é uma merda». Entram o futebol, a televisão, o euromilhões, os casos políticos, a Internet, os telemóveis, a polícia, como marcos de uma vertigem social e de uma alienação colectiva que o poeta traz para a sua poesia num sentido meramente crítico e purgativo. A par destas expurgações, o sexo, o álcool, a música, aparecem enquanto metáforas vivas e vividas de uma vontade de escapar ao que se julga ser o fado alienante da maioria dos portugueses. A existir uma poesia pop, esta é uma poesia punk. E, tal como no género que os The Sex Pistols imortalizaram, a música é a da celebração da guerrilha, da vontade, do motim, do desvio enquanto caminho possível, enquanto fuga possível, enquanto atalho para uma vida menos morta ou, se quiserem, para uma morte mais vivida. Um poema mais longo, A Ilíada de Velvet, assim como os exercícios em prosa automática intitulados Borboletas, Ode a Jim Morrison, Satã Comeu a Cortesã e O Meu Reino Não É, ou mesmo os dois apontamentos micronarrativos Rock N’ Roll e A Valsa da Elsa, são textos paradigmáticos dessa postura que uns considerarão antipoética, outros julgarão gratuita, alguns tenderão a classificar de panfletária. Quanto a mim, prefiro ver nestes cantos um grito espontâneo, um ruído que nos aproxima daquela loucura que nos salva da normalidade, a atrofiante normalidade dos dias. Prefiro ver nestes cantos, e na voz escalavrada do poeta, um alívio instintivo. Este é, sem dúvida, o livro de um poeta a mijar, de um poeta a aliviar-se dos detritos agressivos que o enchem, incham, infectam no decorrer dos dias. Não é um livro simples como possa parecer. Nenhum livro é simples como parece. É um livro informal, onde a experiência aparece incorporada numa mescla de denúncia, teatro grotesco e eucaristia festivaleira. Não é mais um livro com um programa satírico, de escárnio e mal dizer, não é irónico nem deixa de o ser, não é diurético e, mesmo que possa relevar inclinação abjeccionista, não é de carimbar com ismos e de colocar nas prateleiras ao lado das centenas de livros classificados e classificáveis que diariamente chegam às livrarias. Porque este é, sem dúvida, o livro de Um Poeta a Mijar: «O poeta dirige-se à casa de banho e mija / Sim, porque os poetas também mijam e cagam / Não passam a vida a escrever versos e a apurá-los / Não passam a vida a fazer horas / E a aturar chatos no café / Não andam sempre a micar as meninas / para lhes oferecer poemas / Com fins libidinosos. // O poeta dirige-se à casa de banho e mija» (p. 36).