terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

PORTUGAL

Quase a terminar a primeira parte, Helton deixa entrar um cocorocó alto e sonante. De pronto os colegas o confortaram. Jesualdo, o treinador, ergueu-lhe os punhos de mão cerrada como que clamando: força, não esmoreças. Já na segunda parte, Helton volta a ser abraçado pelos colegas mais próximos. No outro lado do campo o Porto empatava a partida, atenuando o erro clamoroso do seu guarda-redes. É a comoção vivida nestes momentos que me aproxima do futebol. O resto interessa-me pouco. Gostaria de ver uma sociedade assim solidária para com o erro, concentrada na vitória, lançada na ambição de um resultado melhor, capaz de passar por cima da depressão, pelo menos, com a mesma força com que a depressão passa por cima de nós. Nada disso vejo. O clima é de bufaria generalizada, denúncia e intriga, o clima é exactamente o mesmo que Eça já denunciava, e Fialho de Almeida cuspia em crónicas azedas de gato assanhado, e Tomás Pinto Brandão satirizava sem dó nem piedade. O clima é o nosso. Tão aprazível nos céus quão desprezível na Terra. Este nosso clima, do qual jamais nos libertaremos, vai sofrendo ligeiras transformações. É fácil reconhecê-las. Mas de um modo geral o ambiente mantém-se de acordo com as mudanças de temperatura. Em Portugal, Hoje: o Medo de Existir, José Gil mais não fez que gritar o clima. O livro foi um sucesso. Pudera! Ao contrário do Helton reconfortado, a generalidade do povo português gosta de se ver espelhado. Gil disse-nos, não deixando que ninguém assobiasse para o lado esse dizer. É verdade que se trata de um livro cheio de defeitos, tal como nós, de um compêndio de análise social sensacionalista sem futuro, inconsequente e completamente inútil para o tempo que resta de jogo. Os portugueses que gostam de bola, entre os quais me inscrevo, compraram o livro, ofereceram-no no Natal, ter-lhe-ão lido as primeiras páginas, adoraram, adoraram, adoraram. Os outros fizeram o que sempre fazem: passearam os penteados nos colóquios, nas conferências, nos debates, escreveram croniquetas sem miolo e outras para mais tarde recordar, deram corda aos relógios e seguiram vidinha pela ala tardia do tenho mais que fazer. Os outros fizeram o que sempre fazem: sublinharam a raiva ao mesmo tempo que espezinhavam o colega do lado, bateram palmas deixando entre as mãos as cabeças dos ofendidos, abriram as bolsas aos encómios, desceram as avenidas de bandeirola na mão, saracotearam-se marcando presença na ausência de sempre. Gil gritou-nos o letargo, a passividade, a resignação, a apatia, a anestesia, a inércia, o autismo, a situação geral de não-inscrição. E entre muito tiro a fazer ricochete, um capítulo que vale a pena sublinhar. Na íntegra. Afinal de que é que se tem medo neste país? A pálida transfiguração do clima que se vive, com buscas, atentados, desrespeitos, suspensões, queixas-crime, telefonemas, apreensões, proibições, sem justificação aparente que não seja a de uma eterna saudade de tempos cabisbaixos (é preciso reler O’Neill), faz de nós, sem dúvida, «os chineses do Ocidente». O povo é sereno, triste lema de uma democracia que transportou para o seu âmago os piores vícios herdados da ditadura. Os portugueses são de brandos costumes, triste lema outro que reforçou em democracia os piores vícios herdados da ditadura. Aí têm, meus caros, o resultado: «brandura, doçura, amenidade». E enquanto tal, o poder a encabar-nos à tripa forra. Quem diz o poder, diz os pequenos poderes, diz todas as formas de poder legitimadas pelas hierarquias sociais com que vamos assegurando a obediência e a submissão da maioria. «A prudência é a lei do bom senso português». Daí que critiquemos em surdina, recorramos ao anonimato, façamos como a avestruz, olhemos por cima do cancro, como se nada fosse connosco. Numa sociedade pobre, de carteira e de espírito, dependente dos pequenos confortos, iludida com as parangonas do sucesso, perder um pouco é perder tudo. Ser despromovido no trabalho, perder o emprego, ver-se renegado, de portas fechadas para o elogio das boas famílias, ver-se, digamos assim, relegado para os planos da inconveniência, e por isso ostracizado, desapiedado, silenciado, ver-se assim abandonado à mercê dos «pequenos déspotas», sejam eles ignorantes agentes da autoridade ou directoras quasi analfabetas, é uma ameaça com a qual dificilmente aprenderemos a viver. Deste medo não nos libertaremos tão depressa. Falta quem nos erga os punhos de mão cerrada como que clamando: força, não esmoreças.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

DANÇAR

Estou a dançar com os livros.
Beatriz (2 anos)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

CONFISSÕES

O meu amor é o meu peso.
S. Agostinho

Para quem não esteja familiarizado com a estrutura da obra, convém esclarecer que Santo Agostinho organizou as suas Confissões em treze livros coligidos em duas partes (Primeira Parte: A Infância, Os Pecados da Adolescência, Os Estudos, O Professor, Em Roma e em Milão, Entre Amigos, A Caminho de Deus, A Conversão, O Baptismo; Segunda Parte: O Encontro de Deus, O Homem e o Tempo, A Criação, A Paz). Para simplificar, diremos que a primeira parte é de carácter mais biográfico, tendo sido reservado para a segunda parte o grosso do pensamento metafísico e filosófico constante na obra. No seu todo, as Confissões são um belo testemunho de conversão. Agostinho confessa-se pecador e explica o que o chamou para Deus, para a vida recta e virtuosa ao serviço do Senhor. Para trás ficaram os episódios perversos e ignominiosos da infância e da adolescência. Este santo foi corrupto, invejoso, mentiroso, frívolo, larápio, fraudulento, deixou-se contaminar pelos tenebrosos prazeres da carne, pela concupiscência, pelos vícios de uma vida luxuriante, e confessa-se: «Se tivesse vivido eunuco por amor do reino dos céus esperaria agora, mais feliz, os Vossos abraços» (p. 55). É óbvio que nem todos nascem para santos – durante muito tempo o próprio Agostinho não se terá distinguido, em acto e pensamento, do mais vulgar dos pecadores -, mas este elogio da castração sempre me comoveu. No fundo, ele pressupõe uma contradição que está na origem do discurso eclesiástico: santo é aquele que não procria, embora a mensagem de Deus tenha sido exactamente a contrária. Quer dizer, como entender o famigerado amor à vida, essa obsessão pela continuidade da espécie, ao mesmo tempo que se reclama a abstinência sexual como via para a santidade? Afinal, as delícias da casa Divina, na cidade de Deus, não podem ser comparáveis com os prazeres perversos da ejaculação. Há que conter o esperma, chicotear a tesão, martelá-la até que o grito da dor nos aproxime dos céus. E enquanto se entretinha a roubar frutos, não por necessidade ou para se banquetear, mas apenas para os lançar aos porcos, este malandro amava desavergonhadamente alguns dos seus comparsas. Esse amor está declarado no célebre episódio da perda de um amigo. Um amigo muito querido, íntimo, de uma amizade tão doce que a alma do santo já não podia passar sem o amiguinho. Mas teve que aprender a passar, pois Deus roubou-lho. Que mania esta a dos Deuses apreciarem jovens e belos amigos! Entretanto, as desgraças do santo foram sendo apaziguadas com a libertação do amor às coisas mortais. Também nunca entendi muito bem que outras coisas podemos nós amar senão as mortais. Mas não quero perder-me por aí. Prefiro saltar directamente para o Livro Onze e lembrar-vos o Tempo segundo Santo Agostinho. É a ele que devemos a mais eloquente concepção do Tempo. O problema é complexo se o abordarmos como deve ser, partindo do problema da criação do mundo até chegarmos à questão da eternidade. As conclusões de Santo Agostinho são muito convincentes, até porque deixam em aberto algumas aporias que seria inútil procurar resolver. Nestas como noutras coisas, a fé armadilha-nos sempre o pensamento. Mas há uma questão que não pode ser escamoteada: «Quem pode medir os tempos passados que já não existem ou os futuros que ainda não chegaram? (…) Quando está decorrendo o tempo, pode percebê-lo e medi-lo. Quando, porém, já tiver decorrido, não o pode perceber nem medir, porque esse tempo já não existe» (pp. 306-307). Esta concepção metafísica do tempo é muito interessante. Faz-nos pensar no grande ditador (O Tempo) como um contínuo, o que pode ajudar-nos a compreender algumas questões. Nomeadamente o facto de algumas pessoas da Igreja parecerem não ser deste tempo. De facto, não são. Elas são do tempo sem passado nem futuro, são do tempo que sempre foram, de um tempo lá delas que é um tempo sem tempo, sem História, sem as lições que a História pode e deve oferecer, são do «presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras» (p. 309). Elas são hoje o que foram ontem e o que serão amanhã, sem esperança na mudança, com os mesmos preconceitos de sempre, apenas menos concretizáveis, dominadoras e inquisidoras porque, a seu tempo, encontraram a resistência do laicismo e da secularização.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A MÃE DE TODAS AS HISTÓRIAS

A Mãe de Todas as Histórias era a história de Adão e Eva, contada pela mãe ao filho pequeno como princípio de uma educação moral que, entre outras funções, tem a de formatar a sexualidade. Entretanto a criança fez-se homem e descobriu outros mitos, entre os quais o do príncipe Ganímedes, raptado por um Zeus que o possuiu em pleno voo. Freud preferiu Édipo a Ganímedes, respeitando assim a moral d’A Mãe de Todas as Histórias. Nem mesmo o pai da psicanálise ousou desfazer os enigmas, preferindo embrenhar-se noutras histórias que vão servindo apenas as convenções que restringem o desejo, a paixão, o corpo, a sexualidade, a uma das suas vertentes. Sirva-nos então a poesia uma visão mais alargada, uma visão mais livre deste mundo dos afectos repetidamente refém de preconceitos dificílimos de superar. Veja-se como tem sido tratada na actualidade a questão do casamento homossexual. Pega-se no assunto com pinças, não vá o vírus contaminar a casta sociedade do bom costume e da tradição. Fala-se em decadência moral e em degenerescência espiritual, fala-se na corrupção do conceito de família, fala-se em perversidade com uma histeria do tipo daquela que a História registou noutras épocas. Em matéria de liberdade evoluímos muito pouco, continuamos herdeiros do ódio de Hera e ignorantemente tementes à normalidade que nos foi servida como às feras se vão servindo as chibatadas da domesticação. Sirva-nos então a poesia uma visão menos limitada, mantenha ela a bestialidade resistente dos poetas que ousam mais do que ousaram os psicanalistas. Outra força não se pode reconhecer na poesia de José António Almeida (n. 1959). A mesma força que havíamos experimentado em O rei de sodoma e algumas palavras em sua homenagem (Presença, 1993), voltamos a experimentar em A Mãe de Todas as Histórias (Averno, 2008). Mesmo quando os poemas optam por uma irónica formalidade, aproximando-se de formas canónicas de versificação – cantatas, canções, cantilenas, salmos, fados, etc. – ou submetendo à rima de feição tradicional a respiração dos versos, eles logram distorcer a aparência das convenções através de um processo de subversão que consiste em trazer a si temáticas muito raramente tratadas. O efeito é o de uma ironia tão desconcertante quão certeira que por vezes se aproxima da sátira social. Sirva de exemplo o poema que dá pelo título de Estranheza: «Os jovens machos usam brinco, faixa / no cabelo, pulseiras e colares, // roupa apertada para sublinhar // essas formas outrora ditas íntimas: // subversão que na minha juventude / era punida com palavras feias. // Estranho é que eles sejam os modernos / guardiães implacáveis e cruéis // porta-vozes dos mesmos palavrões» (p. 79). Estes contrastes avolumam-se numa recorrente evocação de santos - nomeadamente o mártir São Sebastião, padroeiro dos homossexuais -, recordações de aventuras amorosas, «do circo da sedução» e das suas inerentes «ratoeiras» e traições, convocações aparentemente contraditórias de locais de peregrinação (Cova de Iria, Andaluzia - a cidade de Sevilha é referida várias vezes) e prestidigitação (a província ostracista), memórias familiares em tom elegiaco e despudoradas confissões: «Quem veterinário for / que te cure, que eu de santo // não tenho assim tanto estofo» (p. 51). Por vezes muito breves, outras vezes mais longos, os poemas de A Mãe de Todas as Histórias apresentam-se como que sob a forma de orações livres e solitárias de quem sente o peso do mundo a partir de instantes marcados pela ferradura da des-ilusão, amarga e dolorosa ferida sem cura definitiva. As proibições, o secretismo, a hipocrisia, o fingimento, mesmo o amor sonhado, são tratados com sarcasmo porque outra coisa não pode o poeta declarar senão as lições de uma espinhosa aprendizagem: «A pele, se com o tempo ganhou / uma boa textura de crocodilo, / não sofre. Nem há leite derramado / que valha a sério com pena chorar / lágrimas, a não ser de crocodilo / velho, cansado e sentimentalão» (pp. 21-22).

sábado, 14 de fevereiro de 2009

SOMOS ARTISTAS

Somos artistas porque vestimos roupas negras, despenteamo-nos com arte e gel em proporcionais medidas, passamos o corpo a ferro com tatuagens desenhadas a unha, compramos livros de que ouvimos falar mas jamais leremos, admitindo porém que possam vir a servir-nos para fundamento de teses levadas a cabo em trabalhos académicos. Amamos a natureza e todos os animais, nomeadamente amamo-nos a nós próprios, embora não nos façamos arrastar como fazemos aos cães vadios adoptados com trelas de cordel asfixiante. Nem reparamos na guita que nos prende os pulsos e marioneta a alma, de tão distraídos que vamos com as coisas inusitadas que produzimos, tais como falar extrovertidamente acerca de tímidos assuntos e manifestar uma avassaladora timidez nas temáticas mais extrovertidas. Somos artistas porque deixámos a arte adormecida em casa, enquanto nos passeamos artisticamente pelos cafés da cidade.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

DOS MORTOS

Não me recordo do nome do filme. Vi-o há dias mas perdi-lhe o nome e não me apetece procurá-lo. Sei apenas que juntava dois grandes actores, Jack Nicholson e Morgan Freeman, interpretando personagens ameaçados pelo cancro. Com poucos dias de futuro, lançaram-se numa auspiciosa reconquista do passado. Elaboraram uma lista com os desejos que a vida lhes havia roubado e procuraram cumprir o programa à risca. Numa das cenas, encontramo-los sentados com vista para as Pirâmides de Gizé. Freeman conta que os antigos egípcios acreditavam ser necessário responder a duas questões para entrarem no paraíso: foste feliz em vida? Fizeste os outros felizes? Esta cena transportou-me para o local. Voltei a abrir O Livro dos Mortos do Antigo Egipto e fiz a minha viagem até às pirâmides. Quem já esteve naquele lugar não pode deixar de sentir uma grande ambivalência de sentimentos. Entre o caos de uma cidade gigantesca e o silêncio ameaçador do deserto, as Pirâmides de Gizé são um espanto de beleza e grandiosidade. Mas são também a consciência do sofrimento associado à edificação da obra. É impossível olhá-las sem ver ali a exploração escrava de impérios tirânicos, assim como é impossível estar dentro do coliseu romano sem ouvir os gritos dos cristãos lançados à voracidade de leões famintos. Experimento as mesmas sensações contraditórias ao folhear o livro dos mortos. Maria Helena Trindade Lopes apresenta-o como «o mais antigo livro ilustrado do mundo», o que já de si lhe confere um carácter monumental. As quatro partes do livro (excluamos os capítulos adicionais) relatam-nos a viagem de um morto, do cortejo fúnebre até ao mundo subterrâneo, passando pelas fases da regeneração e da transfiguração. O hermetismo dos textos, assim como o ecletismo inerente à sua filosofia, obriga-nos a evitar considerações sempre aquém da complexidade das imagens, dos detalhes, dos pormenores contidos em cada alusão, em cada metáfora, em cada passagem. Prefiro enumerar algumas ideias que o livro estimula. Por exemplo, a ideia da morte enquanto viagem a caminho da libertação. Não se trata aqui da libertação do corpo. Quem visite a sala das múmias no Museu do Cairo percebe facilmente a valorização do corpo que os antigos egípcios cultivavam. De resto, a regeneração (na forma solar) e a transfiguração (na forma da eternidade) não dispensam os tratamentos da carne. O Morto que viaja e fala n’O Livro dos Mortos do Antigo Egipto aponta várias vezes a sua virilidade, é um Morto ainda por morrer, é um Morto em viagem, é um Morto ao qual será devolvido o coração no reino dos mortos. No fundo, é qualquer um de nós neste preciso momento. Alumiado por archotes e perfumado por fumigações de incenso, em Heliópolis ele reencontrará os ritmos da eternidade e da perenidade. Libertaram-no das vísceras excrementícias, tudo o que ele abomina por tão próximas da putrefacção. Há uma moralidade neste livro que me agrada sobremaneira. Há uma afirmação da vida. As fórmulas para vingar na morte não diferem das fórmulas para vingar na vida. Descer aos subterrâneos do Vale dos Reis e do Vale das Rainhas lembra-nos de como o bem se revelava, à época, pela não-prática do mal. O julgamento final, se assim podemos dizer, não mais é do que um inventariar dos males que não se praticaram. Mais que procurar ser bom, importa não ser mau. Como? Não o fazendo, não cometendo a iniquidade contra os homens, não procurando conhecer aquilo que não é para conhecer, não sendo pederasta (sic), não fornicando nos lugares santos do deus da cidade, não apagando um fogo no seu ardor, etc… E por fim, fica a poesia dos hinos, dos cantos, das fórmulas como testemunho sábio sobre o sentido final da existência:

Ora, todo o ser humano é assim, que ele morra como não importa que quadrúpede, como não importa que pássaro, como não importa que peixe, como não importa que verme e como não importa que serpente: aqueles que vivem, morrem.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

POEMAS DE SAUDADE E DE AMOR

Depois de se ter apresentado com ainda aqui este lugar, de Pedro Afonso (Faro, 1979), a 4 Águas Editora volta a apostar em poetas algarvios. Doze Poemas de Saudade, de Fernando Cabrita (Olhão, 1954), e 69 Poemas de Amor, de Casimiro de Brito (Loulé, 1938), seguem-se ao livro do estreante Pedro Afonso. Não sei se esta opção regionalista é para manter, mas deve ser sublinhada enquanto esforço de divulgação de uma actividade poética que se pretende afirmar para lá do tradicional e conservador centro poético nacional. Diz-se que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. Porto e Coimbra tendem a ser a paisagem que olha para as elites da capital com uma perspectiva comummente bipolar. Nestas coisas amor e ódio misturam-se com espantosa facilidade. Lá do fim da nação, surge-nos agora a investida mourisca. O escritor Fernando Esteves Pinto é, com Vítor Cardeira, o director editorial desta 4 Águas Editora. Se tivermos em conta as actividades desenvolvidas no âmbito do Sulscrito – Círculo Literário do Algarve, facilmente percebemos esse salutar desejo de afirmação de uma actividade tantas vezes esquecida por aqueles para quem o país é ainda mais pequeno e medíocre do que a sua natural condição geográfica já impõe. Não se estranhe, por isso mesmo, que após um jovem autor a aposta seja em dois livros de autores com obra feita e reconhecida. Fernando Cabrita tem amealhado vários prémios literários, colaborou com diversos jornais e revistas, viu poemas seus musicados por projectos de música popular. Casimiro de Brito tem vasta obra publicada e premiada, está representado em inúmeras antologias, tem tido uma actividade poética intensa, é há vários anos presidente do PEN Clube Português. Outros pormenores ligam os dois livros agora dados à estampa: a opção por temas clássicos (a saudade no caso de Cabrita, o amor no caso de Casimiro), assim como a luminosidade que percorre os poemas de ambos os volumes. Em Doze Poemas de Saudade encontramos uma escrita simples, resvalando por vezes para um naïf de rimas óbvias e ideias triviais, cuja nostalgia aparece recorrentemente sugerida no tom plangente da interrogação: «Que nome tínhamos?» (p. 7), «Junho pode ser o que outrora fora?» (p. 9), «Onde o Templo que tanto venerais, onde a Rocha, onde a paz que tão prometida foi aos de boa vontade?» (p. 11), «Quando regressaremos à casa que foi nossa um dia?» (p. 22), «Onde, agora, esses tempos que sabemos que existiram?» (p. 24). Evocam-se Argos, o cão de Ulisses, e, de forma menos evidente, poetas como Ricardo Reis e Juan Ramón Jiménez, desenhando a saudade com os contornos do lamento e da dúvida. O tempo que passou sobre as coisas, arrastando consigo o que elas eram e já não são, impõe a pergunta: «Quanto de outrora a minha poesia agora tem?» (p. 36) Mas há nesta lamentação um inquestionável canto solar. De resto, o sol aparece logo no primeiro poema. É sob a sua luz que a Terra se transforma, que o mundo se vai perdendo. «E tudo está certo, apesar de tudo, / Tudo está certo como o vento e o sol» (p. 8). O mesmo sol aparece nos 69 poemas de amor que Casimiro de Brito coligiu nesta breve e temática antologia da sua vastíssima obra. O primeiro poema do livro, recolhido em Poemas da Solidão Imperfeita, data de 1957. Entre esse e os seis poemas de Arte de bem morrer (2007), passaram 50 anos. Acrescentam-se um conjunto considerável de inéditos retirados de dois títulos diferentes: Amar a Vida Inteira e Eros Mínimo. A fonte poética é facilmente reconhecível. Os poetas orientais, o haiku, a filosofia Zen são a nascente que há muito alimenta a torrente poética deste autor. A Via é a da transparência, da claridade, da tal estética solar que há pouco denunciava, é o caminho da luz e da «voz limpa dos frutos» (p. 12). Ainda assim, num dos melhores poemas do autor do Livro das Quedas, a dúvida aparece. Mas a possibilidade apenas surge para logo ser negada: «Talvez a vida não seja luminosa / Mas tem momentos: o lago da cama, o sol / Na lombada dos livros, o joelho / Amável / Da mulher deitada. Como vai ser a manhã / Não sei, ergo a minha taça» (p. 23). Poeta dos quatro elementos, Casimiro de Brito transfere para a língua portuguesa a luminosidade das paisagens orientais. É, à sua maneira, um poeta clássico sem o ser necessariamente. No entanto, o tu feminino que surge nos seus quadros poéticos iniciais vai dando lugar a uma ausência posterior. Também aqui o envelhecimento, a perda, a distância e a separação impõem uma outra luz: «Se o teu ouvido se fechou à minha boca / poderei escrever ainda poemas de amor? / A arte de amar não me serve para nada» (p. 49). Destas contradições se faz o amor, do sofrimento casado com o desejo e o prazer, da solidão avassaladora depois de perdido o objecto amado. Curiosamente, a filosofia acaba por ser bastante semelhante à dos poemas de saudade de Fernando Cabrita. Os homens erram, mudam, transformam-se na sua instabilidade inerente, muito aquém do que na natureza parece ser uma estabilidade dificilmente sustentável, reconheça-se, para lá do mero efeito poético: «Bebo-te, embriago-me, / enquanto as montanhas fazem o que sempre / fizeram: curvam-se, complacentes, / sobre quem vai correndo por vales silenciosos» (p. 78).

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

ÉDIPO

Regresso à tragédia, ao primeiro volume dos Clássicos Inquérito. Édipo Rei, de Sófocles, traduzido e prefaciado por Agostinho da Silva. Elogiam-se a harmonia e o equilíbrio, eleva-se Sófocles ao patamar de «génio grego». Com toda a certeza, o «génio grego» previu na tragédia o itinerário da catástrofe, a condição dos homens amarrados à foice do destino. Toda a gente sabe a triste história de Édipo. Freud apropriou-se dela para desenhar complexos de difícil decifração. Arrumo Freud na prateleira do inconsciente, mergulho na poesia da personagem grega. Chamam-me o destino e os enganos. Édipo não sabe quem é, crê nas revelações do oráculo com a cegueira dos crentes, supõe-se filho de quem é adoptado. O oráculo não oferece ao homem Édipo a sua história, o seu passado, fornece-lhe apenas as pistas impressionantes do futuro. O oráculo anuncia, prediz, escarra o destino, sugere. Ninguém está livre de se desencontrar sabendo o futuro, as pessoas encontram-se consigo próprias descobrindo o seu passado. Qual é a tua História? ― esta é a pergunta fundamental que qualquer homem deve fazer a si próprio, mais do que preocupar-se com o futuro. De novo ecoa Confúcio, por que querem os discípulos saber o que é a morte (futuro) se ainda nem perceberam o que é a vida (passado). O futuro é a anunciação ininterrupta do que o passado acondicionou, é uma afirmação que não carece de consultas. Só o passado merece a nossa preocupação. Sábio é o velho que perante a ausência de futuro faz o balanço do passado, sábio é aquele que se descobre a si próprio reflectindo-se, pensando-se pelo que foi e não pelo que será. O futuro é sempre uma promessa por cumprir, o passado é uma inscrição a pedir compreensão e testemunho. Édipo estava enganado acerca de si próprio, por isso dificilmente escaparia à predestinação: matou o pai, casou com a mãe. Toda a sua vida foi um engano fundamentado no desconhecimento de si próprio, das suas origens, da sua verdadeira natureza. Este “modelo de humanidade”, como lhe chama Agostinho da Silva, é um lamento primitivo. Faz-nos pensar “nos males que a vida traz” contíguos ao desconhecimento; a precipitação no futuro, quando para trás ficou todo um caminho que urge conhecer, compreender, governar. Nenhum futuro poderá ser governado com o desgoverno do passado, nenhum remédio para a catástrofe anunciada, impõe-se uma busca ao encontro dos factos, nenhuma indiferença nos ajudará a enfrentar os tempos vindouros. O futuro será sempre uma casa em chamas. «Eu esclarecerei a origem de tudo», afirma Édipo, aquele cuja própria origem nunca foi esclarecida por si próprio. Ironia das ironias, veja-se no que deu a ambição de Édipo, aquele que viveu mais preocupado em pôr a ciência ao serviço dos outros do que de si próprio. Conhece-te a ti mesmo, Édipo, «as almas como a tua castigam-se a si próprias». Fala Jocasta: «Que pode temer o homem quando o destino tudo governa e toda a previsão é incerta? O melhor que há a fazer é viver ao acaso.» Tivesses escutado as sábias palavras de quem te gerou, não terias acabado com os olhos perfurados por alfinetes de oiro. Ver não é crer, é compreender; ver não é predizer o futuro, é salvar o passado da incompreensão. A encruzilhada da vida, a tragédia, é tão raramente nos lembrarmos disso.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

PARIS

Nascido em Paris, filho de pais americanos, Julien Green (1900-1998) manteve sempre a cidadania americana. Serviu no exército francês, viveu praticamente toda a sua vida na cidade luz. As excepções aconteceram entre 1919-22, anos de estudo na Universidade de Virgínia, e durante a Segunda Grande Guerra. Paris foi publicado em 1991 e mostra-nos a importância da capital francesa na vida e na obra do autor de As terras Distantes (1987). Foi agora integrado pela Tinta-da-china numa colecção coordenada por Carlos Vaz Marques, que aqui acumulou a função de tradutor. Tratando-se de uma colecção especialmente inclinada para a chamada literatura de viagens, cabe dizer que Paris não encaixa ortodoxamente no conceito. De resto, a figura do viajante não é cara a Julien Green: «O viajante, por mais que fale, parece, quando termina, não ter dito nada» (p. 51). Neste livro encontramos antes um conjunto de prosas diversas, breves ensaios, narrativas curtas, que testemunham o amor de um homem por uma cidade, ao mesmo tempo que especulam sobre um conjunto vasto de questões acerca da relação homem-cidade. O viajante dá lugar ao passeante, ao flâneur que deambula pelas ruas como se deambulasse dentro de si próprio, pois entre ele e a cidade há apenas a confusão de duas dimensões unidas numa mesma realidade. A distância forçada entre ambos obriga ao discurso hiperbólico: «Durante os longos anos de guerra em que vivi longe de Paris, frequentemente me interroguei como é que num pequeno compartimento do cérebro humano podia caber tão grande cidade» (p. 19). Repete-se: «Quando eu era criança, interrogava-me como poderia o simples nome de Paris designar coisas tão diversas, tantas ruas e praças, tantos jardins, tantas casas, tantos telhados, chaminés e, para além de tudo isso, o céu inconstante e leve que coroa a nossa cidade; e quanto mais pensava nisso mais me parecia espantoso que uma cidade tão grande pudesse caber num nome tão curto» (p. 41-42). Os excertos são reveladores de duas vias de pensamento que acompanharão todos os textos: as memórias da Paris de infância e os tempos de afastamento. De resto, ambas as questões se interligam quando o discurso pende para uma desconfiança bastante crítica relativamente ao futuro da cidade. O sentimento é de perda, é de degradação, as digressões pelas ruas, pelos bairros, pelas praças parisienses são acompanhadas de retratos impressionistas que evocam frequentemente a infância perdida, a infância do homem e a infância da cidade, pois ambas se confundem numa só existência: «quando me passeio por Passy parece-me que deambulo por dentro de mim mesmo» (p. 25). A impossibilidade de revelar a alma de Paris, a insistência no indizível, em tudo o que as palavras não conseguem exprimir, não impedem o testemunho das catástrofes anunciadas por um progresso mais voltado para a praga turística do que para os habitantes da cidade. A Torre Eiffel, monumento que o autor desejaria ver submerso, aparece como o exemplo máximo dessa corrupção da beleza, das «transformações infelizes» que mancharam a paisagem, atentando contra o encanto de uma atmosfera que já só se encontra nos caminhos da memória: «se quero rever Paris é em mim mesmo que a encontro» (p. 42). O tom do reencontro é tão melancólico quão nostálgico, o olhar volta-se para as árvores, para os castanheiros do Trocadéro, divaga «através da trágica alternância entre esperança e desespero e através dos terríveis langores da ausência» (p. 47), busca o incompreensível e o inexplicável nas velhas escadarias, logra alguma ironia, passeia os sonhos lentamente por entre Museus, Ruas, Rostos e Estações do Ano, dá forma ao “espírito do passeante” deixando o Sena falar, lamenta a ausência de poesia, caminha dentro de inúmeras imagens que a todo o momento denunciam a perda e o desaparecimento: «Cá fora, na praça Vosges, estavam a ser derrubados ulmeiros. Era um pouco como se se estivessem a apagar milhares de encontros, ternos e terríveis, já que as pessoas podiam exprimir-se aqui recorrendo tanto a armas como a madrigais…» (p. 90). Mais do que inventariar uma cidade, Paris oferece-nos retratos inextinguíveis de um tempo que foi o tempo do passeante solitário e aventuroso Julien Green. Elogio, declaração de amor, exercício sobre o indefinível, este livro é, antes de mais, um testemunho da inevitável destruição que acompanha o passar do tempo. O que nele perdurará, perdurará apenas e tão-só nele.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

WONG KAR-WAI


Tenho um segredo para te contar: a chuva que surge das frestas e escorre pelas paredes vem de um tempo longínquo. Não é de agora, este aguaceiro que nos afunda. Todos nós o sabemos, embora nunca nenhum de nós tenha chegado à fonte. Mas se ofereceres à chuva as mãos em concha para depois levares à boca o gosto da água, poderás provar pelos teus próprios lábios o que atravessa o tempo. O amor é uma questão de oportunidade. De nada vale encontrar a pessoa certa antes ou depois da hora certa. Ninguém sabe a hora certa. Ninguém sabe parar as águas. Pensa nos cafés que amanhecem todas as noites com gente lá dentro, sentada ao balcão, à mesa, circulando entre o ruído, desonrando a melancolia. Nos cafés deambula o espírito das cidades, as pessoas com suas histórias pessoais a deslizarem para dentro de um copo, fechando-se no interior dos pormenores que marcam a diferença. Podemos entrar em mil cafés, poucos serão aqueles onde nos apetecerá regressar. Regressamos por causa dos pormenores. Regressamos aos cafés que nos integram nas páginas de um romance que vai sendo escrito todas as noites, sempre que amanhece mais um capítulo na vida que colocamos acima do deslumbramento. Regressamos à banalidade das coisas belas. Algumas passam-nos ao lado, despercebidas, outras revelam-se a meio de conversas inesperadas. Há um tratado acerca do inesperado nos cafés. Ao contrário do que acontece na maioria dos filmes, aqui é a película que entra dentro de nós. Nem vale a pena procurar reconstruir a nossa memória dos lugares comuns: um homem a contas com o passado, a contas com o insucesso no amor, procura esquecer (verbo absoluto) recriando-se, repensando-se, chamando-nos ao lugar mais inexorável dos sentimentos: o lugar do amor; ou então a síntese de um tratado numa tarte que ninguém quer, numa jarra cheia de chaves que simbolizam relações desfeitas, no alcoólico que não suporta a separação da mulher, no vício do jogo, numa rua espreitada através de uma cortina, numa câmara de vigilância que regista tudo o que escapa a quem, por servir atrás de um balcão, promove a câmara à condição de diário. Mas este tratado é transposto. Para lá dos pormenores, as portas que se abrem e que se fecham. Talvez Wong Kar-Wai queira transportar-nos até à fonte do amor. Disponível Para Amar, 2046, My Blueberry Nights, etc., remetem-nos ininterruptamente para os fantasmas do amor, roubando-nos o tempo necessário para uma construção de sentido. Dão-nos tempo para respirar e pouco mais. Imagens e diálogos intrometem-se no pensamento como se fossem, e são, uma aventurosa vida. Em My Blueberry Nights o balcão marca uma espécie de fronteira facilmente transponível entre a catástrofe e a revelação. Alguém a quem a vida parece fugir para a catástrofe pode simplesmente resolver-se pelas portas abertas da revelação. É assim a vida aventurosa. Seguir caminho na direcção do esquecimento, buscar a revelação que tinge todas as mudanças. No caso, essa busca não implica o abandono. Deixa-se para trás uma espécie de poiso, como que um elo que não nos separe em absoluto daquilo que pretendemos esquecer. São assim as aves migratórias. Regressam porque precisam de ver se ainda se lembram de como eram as coisas quando partiram, regressam curadas das feridas que as fizeram partir, regressam porque têm à sua espera quem resolveu permanecer, regressam para poderem voltar a partir, regressam para saberem se chegaram algum dia a partir ou se tudo não passou de uma mera ilusão. E há quem esteja sempre a partir sem nunca sair do mesmo lugar. E há quem espere como se fosse um poiso, o encanto daqueles que retornam numa carta, em corpo, por um cigarro ou, por que não?, por uma mera fatia de tarte de mirtilo. Para trás ficam as histórias vividas, deixadas ao abandono da memória, porque outras não podem ficar para trás. Só mesmo as que foram vividas. Eis a bênção do reencontro, o perfume e a alegria do regresso, descobrir que algo permanece imutável, à nossa espera, enquanto nós mudamos os ângulos à visão, enquanto mudamos as cores ao mundo, enquanto nos fazemos mais nós. Perdoe-se-me o destempero, mas vou citar-me: «Tudo acaba no começo de um novo dia / como um travo que move o crepúsculo do mundo, / como um amargor que nos devora / na sombra do esquecimento. / Como este pérfido canto / que sofre por não ser distante, / por ser daqui, por ser de agora». Tudo acaba, excepto a dor que fica. A dor do amor que não se esquece. Porque o amor não tem tempo, é deste agora sucessivo, deste agora não estático, deste agora em movimento. Um comboio rumo a um futuro imprevisível. Interrogo-me: poderá o amor ser uma hora certa? Será o amor eterno essa eternidade que fica numa hora certa que não se destrói, que é impossível destruir? Sendo assim, talvez se nos torne mais fácil entender o amor: é aquilo que não se esquece. Mesmo quando na sua configuração mnemónica se assemelha ao ódio, o amor é aquilo que não se esquece. É o que nos perdura no sangue, o que se nos impõe na memória. Os filmes de Wong Kar-Wai são belos poemas ao amor (não de amor), poemas em movimento. Águas passadas, dizem. Mas a gente olha-os nos olhos e vemos que são águas de sempre, essas águas que surgem das frestas e escorrem pelo rosto abaixo. Não é de agora, este aguaceiro que nos afunda. Todos nós o sabemos, embora nunca nenhum de nós tenha chegado à fonte. Mas se ofereceres à chuva as mãos em concha, para depois levares à boca o gosto da água, poderás provar pelos teus próprios lábios o que atravessa o tempo. Lágrimas de amor. Ou, dito de outra forma: «Fechas os olhos, /vertes uma lágrima: / um corte infortunado / com o paladar das manhãs. / Libertas a terra dos sonhos que a alimentam, / domas o corpo vespertino. / Estás pronta para acordar de uma velha recordação».

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

É HORA DE TARDE


Título: Beatriz.
Ilustração: Matilde.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

NATAL

Porque é que nas lojas dos chineses todos os dias são Natal?
Matilde (5 anos)

L'HOMME DU TRAIN


Como num western dos antigos, com slide guitars e harmónicas antigas ressoando numa evocação confessional, um homem misterioso chega num comboio a uma cidade desértica. O seu semblante observador anuncia os preparos de um crime. Patrice Leconte oferece-nos uma pandilha de pensadores. O homem misterioso sabe alguns versos de cor, o seu melhor amigo é pintor, encontram-se em museus e discutem pintura. A traição está prestes a acontecer. Não há pandilhas sem traidores, o cinema há muito no-lo ensina. Mas o homem do comboio deita-se na cama a fumar, olha o tecto e pensa. Foi acolhido, foi colhido pelo acolhimento. Gosta de casas de estilo antigo porque têm história, quer experimentar umas pantufas, senta-se ao piano, descobre numa inesperada cumplicidade a vida que nunca teve, a vida que poderia ter tido. Do outro lado, do lado oposto ao homem do comboio, um velho professor de literatura procura alguma afirmação no termo da vida. Morrerão ambos a olhar um para o outro, à distância, mas como se nunca tivessem sido outra coisa. Morrerão chegando a si próprios, depois de toda uma vida partindo, fugindo, negando-se. Bela forma de morrer. Quem disse que os outros também servem para nos encontrarmos?

DAS FINANÇAS AFECTIVAS


Fernando Esteves Pinto
Privado
Canto Escuro
Janeiro de 2009


Prefácio: Das Finanças Afectivas

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

REPÚBLICA

Platão chegou-me demasiado cedo, com a força de um planeta distante, num texto apologético. Falava-se dele no 10.º ano de Filosofia. Sócrates, objecto do panegírico, parecia uma invenção saída da cabeça do discípulo. Aquilo em que acreditamos ou não é tema central na Apologia de Sócrates. O condenado vê-se desacreditado perante os juízes, o filósofo transforma-se num mártir, entrega-se à morte em honra da maior das virtudes: a verdade. Mas a verdade tem muitas faces, é como a lua. Não admira pois que, em nome de outros bens maiores, Platão acabe por admitir uma espécie de mentira. A mentirinha nobre, apenas admissível aos chefes da cidades – na república ideal seriam os filósofos, quem mais? – era entendida como um benefício em razão da ordem. Abre-se o caminho a toda a espécie de especulação. Platão acaba despromovido, tal como o planeta quase homónimo. Justificar uma espécie de mentira, ainda que lhe chamemos nobre, ainda que lhe encontremos inúmeras desculpas de ordens diversas, justificar a mentira, dizia eu, resulta numa aceitação da hipocrisia retórica que contamina todo o discurso político. «Pode acontecer que os nossos governantes precisem de usar de mentiras frequentes e de dolos para benefício dos governados». Tanto pode que outra coisa não fazem, depois de chutarem para fora da cidade ideal os poetas, esses artífices da ilusão, cambada de aldrabões, que desviam a boa juventude da verdade obnubilando-lhes as vistas com mitos, enigmas, imitações de imitações, metáforas. A condenação da poesia n’A República de Platão devia fazer-nos pensar em todos os artistas vituperados ao longo da história da humanidade pelos poderes que, mais do que buscarem a verdade, procuram impor a sua verdade. Acontece já em Platão, por defeito de princípio, amar-se a verdade na base de um preconceito acerca da própria verdade. Não se chega à verdade definindo-se a priori o que ela seja, a verdade, a existir, tem a constância do inconstante. Novalis dirá tratar-se de poesia, talvez por ser a poesia essa constante inconstância – liberdade livre – o que melhor reflecte a improbabilidade de uma Verdade em prol de muitas verdades. Não se trata de subjectivar o olhar, de esbarrar nos erros cometidos por um relativismo absurdo. Trata-se de aceitar o contraditório como uma exigência de reflexão na busca de algo mais que não seja um mundo parado. Esse algo mais parado, em Platão, chama-se ideia. É o princípio de toda a nossa desgraça. Transforma-nos o corpo numa prisão como se fosse admissível uma liberdade para lá do corpo, como se não devesse ser no corpo, pelo corpo e para o corpo toda a afirmação da liberdade (curiosa a comparação da organização da cidade com o funcionamento do corpo humano). Só a liberdade nos permite ver para lá das sombras o que as próprias sombras contêm já, porque para lá das sombras há apenas outras sombras, as sombras são o que dá sentido à luz, a luz brilha no âmago das sombras. De tanto haver delimitado a perfeição, de tantos muros haver erigido em torno de um território ingovernável, este poeta que se pretendia filósofo para se afirmar governante acabou refém das suas próprias ilusões. A cidade ideal é um monstro que nasce de uma desconsideração por tudo o que seja humano excepto um medo profundo, o mesmo medo que impele para uma concepção de justiça fundamentada em mentiras nobres e improváveis pressuposições. Danosa poesia, “grande perigo”, salva-nos de verdades platónicas, dá-nos imitações e fingimentos que nos ajudem a sangrar o mundo numa palpitação que, apenas e tão-só à hora da morte, expire o seu idealismo a quem aprouver. Prefiro os fantasmas dos poemas, os ludíbrios dos poetas, ao masoquismo presunçoso dos filósofos que nunca souberam senão fabricar escravos de pretensas verdades absolutas. A nós a loucura dos desejos, o frenesi do amor, a nós a embriaguez do prazer, a selvajaria, o deleite que afirma a vida acima de todas as quimeras.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

COMÉRCIO TRADICIONAL

Há dias vi na televisão uma reportagem sobre o último taberneiro do Cartaxo, um derradeiro resistente a sobreviver, como náufrago numa ilha, na companhia do canto dos canários e dos periquitos engaiolados. Preso ao passado, sem esperança no futuro, o último taberneiro do Cartaxo já não serve a quantidade de cartolas de vinho que servia noutros tempos. Vai ficando atrás do balcão, entretendo-se com quem passa, e explica agora para a TV, transformado numa raridade, as três medidas de vinho que ainda hoje serve a quem lhe frequenta a casa. Ao bater com o vidro dos copos no mármore do balcão, gesto insignificante para uma imensa maioria de pessoas mais habituadas a coca-colas de pressão servidas em copos de papel, o último taberneiro do Cartaxo desperta-nos do sonambulismo provocado por uma contemporaneidade alheia ao serviço afectuoso do chamado comércio tradicional. O meu pai começou precisamente assim, com onze anos, numa taberna do Cartaxo. Diz-me que eram outros tempos, todos se conheciam pelo nome. O chamado serviço personalizado do que ainda vai sobrando de comércio tradicional não passa de um argumento retórico contra a proliferação de centros comerciais que atraem o público com armas ditas comercialmente mais agressivas: dos cartões de desconto à suposta rapidez dos estabelecimentos de fast-food, passando pelos famigerados preços combativos, entre outras armas de igual calibre. Perdeu-se o conforto de uma relação marcada pela familiaridade, ganhou-se em agitação, alvoroço, claustrofobia, pressa. O título da mais recente colheita de poemas de Vítor Nogueira resume um sentimento de extinção que é mais complexo do que aparenta. A sobriedade dos poemas coligidos em Comércio Tradicional pode distrair-nos de algo que me parece muito mais importante do que um mero elogio da tradição. Esse elogio aparece de um modo irónico num discurso que não enjeita a mais comum das desconfianças contra o progresso: «o progresso engole-nos a todos» (p. 12), «o progresso avança em ziguezague» (p. 44). Os remates dos poemas intitulados Benfica e Esplanada chegam a ser picarescos, mas o que neles há de cómico é a simulação do riso. Mais importante que esse suposto “elogio” é, quanto a mim, uma espécie de elegia dos afectos, da dignidade e da generosidade que foram deitadas para o lixo pelo famigerado progresso. O palco deste drama – não lhe chamo drama por acaso – está superiormente ilustrado no desenho de Luís Henriques que honra a capa. Trata-se da Drogaria da Praça, por vezes apelidada de “quartel-general”, superiormente governada por um tal de “farol do comércio tradicional”, mestre-de-cerimónias de uma fauna diversificada que mais não pode procurar do que passar o tempo enquanto o tempo lhes foge. Mas passar o tempo criando laços, aprendendo «a resistir às intempéries» (p. 8). Em redor deste «ecossistema, uma rede infinita / de ligações humanas» (p. 15): o engraxador do largo, o rapaz que tomou a overdose e todos mal conheciam, o cauteleiro, a viúva, a Pastelaria Gomes, a Livraria Branco, os rituais quotidianos mais vulgares, tais como registar o boletim do totobola ou pôr moedas no parquímetro, «pormenores a que não damos atenção» (p. 12) mas que acabam por definir o sentido de andarmos pela vida. Os poemas de Comércio Tradicional ajudam-nos a pensar a relação que estabelecemos com os espaços que frequentamos diariamente. Espaços que assumimos como sendo em parte nossos, mas que estão para lá de serem a nossa casa, o nosso lugar. São, no fundo, lugares de recolhimento onde a intimidade se vai revelando com o desenvolvimento da confiança. Esses espaços estão em vias de extinção, os espaços de uma partilha social da intimidade, pois a tendência é para confiar cada vez menos nos espaços por nós frequentados. O dito progresso económico é indissociável de um retrocesso humano, ou seja, a esse progresso corresponde um decrescimento das relações de confiança entre os homens. Já não se pode confiar em ninguém, diz-se. E com toda a razão. Limitamo-nos a passar pelos tais espaços de sociabilidade como quem podia passar por outro lugar qualquer, sem a mínima intenção de regressar. Passamos à pressa, em silêncio ou rodeados de um ruído ensurdecedor (outra forma de silêncio e de solidão). É esta a elegia que pontua os poemas do livro de Vítor Nogueira, a extinção de «uma forma específica de conhecimento» (p. 14), a extinção dos espaços que se tornam «extensões do corpo e da mente / que reajam às pontas dos dedos» (p. 16).

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

ANALECTOS

Calcorreando campos, montanhas, vales, atravessando rios, florestas densas, reinos, Kung-Fu-Tze foi entre os senhores feudais uma espécie de Santo António a pregar aos peixinhos. Um dia sentou-se numa pedra, olhou o rastro do seu manto na Terra e apercebeu-se da pobreza com que teve de fazer-se a si próprio. E fez-se. Dizem que foi um mestre sem mestres. Nascido em 551 a.C, marcou um tempo asiático que passou a dizer-se antes de Confúcio e depois de Confúcio (digo eu). Mas foi preciso retirar-se do mundo aziago e passar palavra aos discípulos, no silêncio de um regresso ao local que o vira nascer. O Tao - ou a Via - que deixou de herança não é o mais simpático, mas conseguimos reconhecer-lhe facilmente um vasto conjunto de virtudes. Ele é o princípio de uma filosofia política que importa recordar, ainda num tempo em que política e moral não eram discutíveis separadamente (embora na prática fossem já duas matérias distintas). Guardo destes ensinamentos a importância dos rituais, deles provém uma harmonia indispensável à boa vida (ou à vida boa, como preferirem). Os conselhos do Mestre são quase sempre de mestre, irritam-se com a obediência cega e acrítica, exigem dos outros um questionamento permanente, atento e estimulador da acção - «fazer perguntas é, em si mesmo, o rito correcto». Porque pensar é já agir, embora muitas vezes a acção careça de pensamento, o Caminho é o de uma acção onde os frutos do pensamento se mostrem espontaneamente. Ao contrário do que possa parecer, não há nesta devoção aos ritos nenhuma espécie de conservadorismo. O rito correcto é interrogação, não pressupõe nenhum tipo de subordinação. Até porque o que importa é estar atento aos feitos, às acções. Muito mais do que às palavras. Também aqui se opera uma distinção entre o que é moral e o que é lucrativo. Para o sábio, só a acção moral será lucrativa. Para o “homem pequeno” o lucro é indiferente à moralidade da acção. Daí que o Mestre tenha dito: «Gostar muito de alguma coisa é melhor do que meramente conhecê-la e encontrar alegria nela é melhor do que meramente gostar muito dela.» Mais do que conhecer, importa encontrar alegria nas coisas. Nada mais pode ser a sabedoria senão este vislumbre de alegria numa acção. Os tolos verão no elogio da alegria um embevecimento exótico, não compreendendo que ele é antes uma eloquente afirmação da vida. Note-se como responde o Mestre ao discípulo melancólico que pretende compreender a morte: «Tu nem sequer compreendes a vida. Como podes compreender a morte?» É esta afirmação da vida que pretendo sublinhar. N’Os Analectos, pequena grande obra onde o defeito do Meio Termo aparece já enunciado – lá iremos -, a afirmação da vida baseia-se numa virtude que destaca frequentemente as alegrias da música. Porque a música, tal como os ritos, ensina uma disciplina que é muito semelhante à mais básica disciplina do corpo. Aprender a respirar, aprender a caminhar, não é outra coisa senão aprender a viver. O mesmo que aprender a dar ao corpo o peso certo da harmonia. Dançar é isto: receber a música do silêncio.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

ZUI HAO DE SHI GUANG


Em português, Três Tempos. Histórias em épocas diversas (1966, 1911, 2005) sobre temas sem tempo. Cartas que nos arrastam para uma busca silenciosa. Cartas que são mapas sentimentais. Não penses que estarão à tua espera quando regressares. Na segunda história, os diálogos mínimos do filme dão lugar à mudez das personagens. Excepção feita a uma cantora de bordel que vem confirmar a regra de um cinema que faz do silêncio a sombra de uma singular luminosidade. O que fica para lá do tempo? Dois corpos protegidos por um guarda-chuva, de mão dada, alguém que volta àquilo que era depois de ter ultrapassado a doença, a conformidade à regra ultrapassada pelo fulgor da paixão. «Quero vender a minha alma. Não quero passado nem futuro». Um tempo de amor, um tempo de liberdade, um tempo de juventude. E o que fica para lá do tempo? Uma mensagem enviada por telemóvel? Um e-mail?

KUAILE GONGCHANG



Em português, Fábrica de Prazer. Um bairro em Singapura, no distrito de Geylang, transformado numa orgia de néones a iluminar noites de uma luxúria que em nada se distingue do comércio das carnes. Nenhum prazer sobra no estado nervoso que a mão trémula da prostituta denuncia, nenhum prazer na solidão e nas lágrimas de quem vende e compra corpos. Não só as operárias do sexo, desgastadas psicologicamente ao limite de uma exaustão indisfarçável, mas também o jovem nervoso que a elas recorrer para perder a virgindade. No final, sobram resquícios de afecto muito ténues. Pequenas pontas às quais a sobrevivência se agarra desesperadamente. Como uma puta que vai às putas para se esquecer, momentaneamente, da sua condição de puta.

domingo, 18 de janeiro de 2009

NÃO ESTÁ NAS NOSSAS MÃOS


Uma árida, absoluta e incomensurável solidão. Essa a marca de quem nasce ao contrário e, como todos, ruma direito à morte. Morrer porque morrer não tem avesso, é um ponteiro marcando a passagem do tempo, lembrando que é preciso viver a morte antes que a morte nos viva. Se os mestres ensinam num conto ser o absurdo a melhor forma de dissipar as dúvidas de uma árida, absoluta e incomensurável solidão, porque por mais que inventemos hipóteses nenhuma escapará ao jugo da realidade, num filme tudo isso pode ser transformado em telenovela existencial com romances do coração a marcarem o ponto. Limo as arestas ao discurso e penso no breu que tingia Se7en, em como o autodomínio acabou crucificado num arroubo de irascibilidade. Não está nas nossas mãos. Penso na farsa oferecida a Nicholas Van Orton, o bem sucedido empresário com a mais entediante das vidas. Não estava nas suas mãos desmascarar a farsa, tudo lhe parecia escapar para um sem sentido desesperante. Penso no niilismo de Fight Club, em como o vazio pode encontrar uma aparente resolução na prática da violência. Não está nas nossas mãos o que nos rasga os punhos. Penso em Panic Room, nas obsessões com a segurança subitamente desfeitas por um maldito acaso. Não está nas nossas mãos, os acidentes fiscalizam-nos a toda a hora. Penso em Zodiac, uma história magnífica sobre a busca incessante de uma verdade improvável. Improvável porque não está nas nossas mãos chegar à verdade. Queira ela fugir-nos, fugir-nos-á. E agora penso no curioso caso de Benjamin Button, um homem nascido ao contrário dos outros, nascido velho e rumando, como todos os outros, a caminho da morte. Morrerá com um corpo de bebé, nascido que foi com um corpo velho. As obsessões dos filmes de David Fincher evocam constantemente o que não está nas nossas mãos. Neste filme mais recente elas, as obsessões, nomeadamente a obsessão pela vida, evoca a morte, a morte num tiquetaqueado alegórico, é certo, mas ainda assim cruamente realista. Os acessórios técnicos, a caracterização impecável, é apenas um pormenor de quem pode dar-se ao luxo de filmar com recursos. Para lá dos acessórios, mostra-se a vida no que jamais estará nas nossas mãos: a morte. Talvez a palavra destino seja a chave para todos estes filmes de David Fincher, uma chave agora filmada em registo mais sentimental, é verdade, mas não menos irónico que no passado. Porque o sentimentalismo que paira sobre cada cena de The Curious Case of Benjamin Button – do velho que foi atingido sete vezes por um raio à reflexão sobre a possibilidade de um acidente não ter sucedido – é irónico na sua essência. Ele diz-nos de forma ligeira a mais pesada e rigorosa das filosofias: não está nas nossas mãos. Dentro de um cenário destes, ser livre é o quê? Tomar decisões, viver, ou seja, arrancar à morte o gozo de ter experimentado o naufrágio, o prazer imenso, explosivo, das aventuras marcantes. Tudo o que fica, o pouco que está nas nossas mãos, é entregarmo-nos a esse naufrágio. Sentando a alma a olhar o nascer sol, fazendo o corpo ao mar, desbravando o mato do coração. Porque outra coisa não está nas nossas mãos.

OS DIAS DO AMOR


Os dias do Amor - Um poema para cada dia do ano
Selecção e organização de Inês Ramos
Prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho
Ministério dos Livros
Janeiro de 2009

Prefácio: A Verdade do Ser (pp. 7-8)
Os amantes, p. 380.

sábado, 17 de janeiro de 2009

EFEITO BORBOLETA


Talvez o caos não exista, talvez aquilo a que chamamos caos seja apenas a inconsciência das regularidades que jazem adormecidas debaixo de frágeis, por muito sofisticadas que pareçam, teorias. Olhemos, a título de exemplo, a sobrecapa (à esquerda) de Efeito Borboleta. O nome do autor e o título do livro destacam-se pelo relevo e pela cor. Um branco fluorescente no caso do nome do autor, um amarelo berrante no caso do título. No entanto, o fundo impõe-se ao olhar como antigamente se impunham os espalhafatosos padrões dos reposteiros das casas aristocráticas. Nada nesta sobrecapa nos atrai, antes nos repele. Tentamos uma segunda vez. Despimos o livro da sobrecapa e deparamos com a sobriedade de outros tecidos. Agora o branco e o preto conjugam-se com belíssima clareza. A borboleta no canto inferior direito da capa (à direita) ganha vida, liberta-se dos ruídos que antes a rodeavam e voa na direcção de outras histórias. A história é outra quando arrancamos a um livro a ostentação de sobrecapas manhosas, quando respeitamos o minimalismo dos textos deixando o olhar cativar-se pela sobriedade das formas. A sobrecapa resulta de uma teoria sofisticada da atracção, alguém num qualquer departamento de marketing ou de design, provavelmente baseado nas matemáticas da sedução comercial, achou que ficava bem a um livro destes uma horrorosa cortina com cores aos berros. Jazendo adormecida debaixo da teoria, a capa tem a consistência de uma esplendorosa ordem. Simples, forte, eficaz como a teia de uma aranha onde certo dia o voo daquela borboleta foi interrompido. No miolo, o autor reuniu contos, pequenas histórias, micronarrativas. Alguns destes textos, como informa uma nota final, publicados nas extintas páginas do DNA, posteriormente antologiados no weblog O Verso dos Versos, surgiram de diálogos com poemas de vários autores. Outros serão fruto de conversas com o mundo e com a imaginação. Dentro dos contos encontramos personagens de índole diversa, desde o matemático Edward Lorenz, precursor da teoria que ficou conhecida como efeito borboleta, ao poeta Wallace Stevens em início de carreira, gente anónima, congressistas perdidos em caóticas conjecturas sobre a sua condição existencial, advogados «às voltas com a culpa» (p. 46), melómanos, um argumentista tentando a sorte em Hollywood, um romancista desbloqueado na criatividade, Raymond Carver ele mesmo, um arrumador de carros, entre outros. Liga todas estas personagens uma bruma que, sem se aclarar, acaba sendo sugestionadana texto, por vezes com envios para factos históricos facilmente identificáveis. Veja-se o caso do conto A Onda, onde alguém que começa por se lembrar «do dia em que quase morreu afogado» (p. 65) se confronta com a pequenez das suas memórias ao ouvir na TV a notícia de um tsunami ocorrido «no outro lado do mundo» (p. 66). Passeiam-se estas personagens por diversos lugares: um bar do velho Astoria, uma aldeia da raia alentejana, a Gulbenkian, Charing Cross, uma tasca como tantas outras, a par de lugares imaginários e utópicos. E há um conto, um dos melhores, que se passa todo ele num atendedor de chamadas. Os contos de José Mário Silva (n. 1972) são extraordinariamente cativantes quando se aventuram por esses territórios literários mais experimentais. Contos como Atendedor de Chamadas, Catorze Letras, Coisas Simples, Coisas Complexas ou Cinco Biografias e uma Tragédia resultam de belos exercícios literários. Os espaços oníricos ligam-se à realidade através de pontes indefinidas, linhas muito ténues os separam do espaço concreto da vida comum. São frequentes as convocações para um «território incontrolável dos sonhos» (p. 39), tornando-se isso evidente no conto intitulado Quatro Sonhos. Há uma saborosa indefinição entre a realidade e o sonho em algumas destas narrativas, o sonhado pode aparecer como parte integrante da realidade mas a realidade não deixa de ser parte integrante do sonho. Podíamos falar no chamado realismo mágico de Pedro Páramo ou na ficção borgesiana, mas o autor troca-nos as voltas quando, noutros textos, resolve enveredar por algumas derivações neo-realistas (casos, por exemplo, dos contos Ponto de Interrogação e IC-19), opta por comparações de gosto discutível - «gruas em repouso, como braços flácidos» (p. 28); «o acordar violento, como quem regressa ao princípio de tudo» (p. 38), «preparava a cana como quem veste um filho para a primeira comunhão» (p. 103) – e deixa a pena resvalar para a metáfora mole - «os corvos (…) rasgavam o fundo das trevas» (p. 40), «a respiração da morte» (p. 59), «as sombras empurravam todas as coisas para o vazio da noite» (p. 76). Para o fim ficam alguns pequenos textos próximos daquilo a que se convencionou chamar poema em prosa e um acelerado conjunto de 38 micronarrativas, algumas, como a que a seguir se reproduz, entre o epigrama e o aforismo, de mão dada com Ramón Gómez de la Serna:

Fatalidade
O rosto que mereces está sempre noutro espelho.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

POEMA DO SENHOR

Volto-me para Oriente. É um fascínio antigo motivado pelo mais ingénuo dos espantos. Seja. Nada haverá de muito diferente onde a terra for calcada por corpos humanos. Ainda hoje diziam na rádio que o homem é o único animal consciente de que vai morrer. Diria antes que o homem é o único animal que se julga o único animal consciente de que vai morrer. Esta consciência, numa e noutra versões, faz toda a diferença. Volto-me então para Oriente sem grande esperança, procurando talvez na força dos elefantes a dança de Xiva («ele personifica o Absoluto como potência dinâmica por excelência»). Fui um falhado praticante de yôga. O gozo dos vícios sobrepôs-se à disciplina do corpo (pessoalmente entendido como uma totalidade sem fracturas expostas). Os meus mestres são os poetas. É na poesia que encontro, colho, realizo (no sentido de cultivar) o fruto de uma liberdade superior, Sem sacrifício nem abnegação que não sejam os de um permanente desejo de me apagar, de me fazer esquecer. Há treze anos a Relógio d’Água publicou a tradução portuguesa de um livro indispensável, fruto maior do trabalho de um poeta português que já viu melhores dias. O trabalho de António Barahona neste volume é de uma riqueza impressionante. É o próprio quem informa tratar-se a Bhagavad-Guitá de um episódio do Mahabharata, grande epopeia da tradição hindu fixada algures no séc. VI a.C. De um ponto de vista filosófico, o que me interessa neste alimento de dificílima digestão – não pela pouca qualidade, mas pela complexidade – é o sentido de uma batalha travada no interior da mente de um herói assolado por dúvidas, hesitações, súbitos momentos de fraqueza e de desânimo. A angústia de Ardjuna, ao travar uma batalha contra parentes seus, é a angústia que qualquer homem sente quando confrontado com as consequências que as suas acções possam provocar nos outros. Os dilemas de sempre são a causa de uma lenta agonia manifestada sob a forma melancólica de uma vivência do tempo que Krixna ultrapassa da seguinte forma: «Aquele que crê que tem poder para matar / e aquele que pensa que também há-de morrer, / não entenderam nada, ambos, e só se enganam, / porque não há ninguém que mate nem que morra. // Ele nunca nasce nem tão-pouco morrerá jamais / nem começou a existir para acabar um dia: / não-nascido e eterno, permanente, antigo-uno, / na verdade, não morre, quando o corpo deixa a vida» (p. 51). Eis desenganado o animal que se julga o único consciente da morte, Uma morte que afinal não passa de patética ilusão. A qualidade da omnipresença deixa de ser atributo divino para passar a ser humano. A nenhum deus cabe o que é nosso. Ponha-se um fim às carpideiras que usam e abusam da temível morte prometendo paraísos improváveis, «tudo aquilo que é inevitável, tu não devias nunca, nunca lamentar». Muitos séculos depois, nem o racionalismo crítico de Kant escapará à mais básica intuição poética de Krixna: «Concentra-te somente na acção / e jamais nos seus frutos: não permitas / que os frutos da acção sejam o teu móbil / nem causa de ficar só inactivo» (p. 59). Que mérito em fazer disto um imperativo moral quando isto, no fundo, não passa da mais sensata das intuições? É verdade que a distinção posteriormente operada entre os sentidos e a mente já não me agrada tanto, nomeadamente ao estabelecer-se uma hierarquia metafísica (sentidos, mente, intelecto, Ele) conspurcada por uma desconfiança do corpo felizmente superada por gente que, usando e abusando da bela carne, logrou alcançar a «paz definitiva». Nenhuma libertação pode dar-se a partir da rejeição do corpo, toda ela se consegue integrando o corpo (o corpo-total) na terra. A palavra purificação causa-me repugnância, assim como o elogio do sacrifício e da austeridade, mas acho que compreendo o seu sentido no contexto de uma entrega à meditação «buscando só refúgio na imparcialidade» (p. 229). No entanto, estou em crer que a verdadeira ascese é para baixo, não é para cima. Talvez venha a desenvolver o tema em próximos capítulos. Para já despeço-me dos espectadores com mais um momento de rara e bela poesia:

Os alimentos que dão vida e mais virtude,
força, saúde, felicidade e alegria,
feitos com óleo e saborosos, bons pró estômago,
tais alimentos são amados pelos sáttvicos.

Alimentos amargos, ácidos, salgados,
secos e quentes, adstringentes e picantes,
que só provocam dor e tristeza e doença,
tais alimentos, os radjásicos, desejam.

Insípido, sem gosto e dum dia pró outro,
deixado após a refeição e já estragado,
este é, por excelência, o alimento impuro,
amado muito intensamente pelos tamásicos.

Nota: «Eis os três gunas, a saber: sattva, a conformidade com a esência pura do Ser (…), representada como uma tendência ascendente, orientada em direcção à intelectualidade metafísica e supra-humana; radjas, a impulsão expansiva, artística, emocional e apaixonada, em função da qual o ser se desenvolve no estado humano (…); tamas, a obscuridade, assimilada à ignorância (…)» (p. 304).

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

FADA DOS DENTES

O sorriso da Matilde tem menos um dente. A fada trocou-o por dois euros. Ela deixou-se encantar e foi à loja fazer negócio. Trouxe uma bandelete. No fundo, trocou um dente por uma bandelete. Mas o mais importante é que, não acreditando no Pai Natal, ela ficou devota da fada dos dentes. Assim se prova, mais uma vez, a relação entre a perda e a fé.

sábado, 10 de janeiro de 2009

PRIMAVERA

Todos me dizem que o tempo passa rápido, mas nunca mais chega a Primavera.
Matilde (5 anos)

O ESPÍRITO NÓMADA

Kenneth White nasceu em Galsgow, Escócia, no dia 28 de Abril de 1936. Estudou francês e alemão, tendo ido viver para França, em 1959, onde concluiu um doutoramento. Viveu entre a Escócia e França durante alguns anos, acabando por ser expulso da Universidade de Bordéus devido ao seu envolvimento nos protestos de Maio de 1968. Publicou vários livros de poesia, ficção e ensaios, entre os quais L'Esprit nomade (Grasset, 1987). Este livro aparece dois anos antes da fundação do Instituto Internacional de Geopoética, cujo propósito consiste num trabalho de pesquisa interdisciplinar tendo em vista um aprofundamento do conhecimento da “cultura planetária”. Mais interessado em peregrinar do que fixar, mais preocupado em problematizar do que classificar, mais voltado para as paisagens abertas e primitivas do que para as avenidas delimitadas do pensamento, o movimento intelectual nómada arrisca uma compreensão anárquica do universo (“sem bomba nem bandeira”), no seu sentido mais poético, criador, onde entre poesia, filosofia e ciência não se ergam muros preconceituosos e barreiras impeditivas de um (entre)cruzamento de saberes. A tradução portuguesa vinda a lume em Março de 2008 é da responsabilidade de Luís Nogueira, cabendo a congruente edição à Deriva. Mais uma vez lamenta-se a ausência de uma revisão cuidadosa que limpasse o texto de variadíssimas distracções e tornasse mais perceptível algumas passagens mudadas para um português bastante duvidoso. Ainda assim, a qualidade do livro faz-nos esquecer o pio das gralhas. Além do prefácio, a obra divide-se em três partes fundamentais. Na primeira o leitor é como que lançado numa deriva em busca das raízes do espírito nómada. Procura-se compreender, nunca estabelecer, a rede de intercepções filosóficas, artísticas, religiosas, cientificas, em suma culturais, que, a Oriente e a Ocidente, nos permitem sustentar, melhor seria dizer desbravar, um “itinerário anarco-niilista” do “nómada intelectual”. Recusando uma redução do pensamento à pesquisa de teorias estáticas, White não evita fixar-se no devir do pensamento. Parece paradoxal mas não é. A única fixação possível é precisamente a da consciencialização de uma mutabilidade natural. É sempre sobre a Terra que observamos a mudança das estações, é sempre sobre a Terra que contemplamos o crepúsculo e a aurora, é sempre sobre a Terra que experimentamos o devir. Vogando, viajando, é certo, inquieta e desassossegadamente no âmago de uma dinâmica (re)criadora. Nesta dinâmica mergulha o “nómada intelectual”, viajando sobre a Terra e dentro de si próprio (a viagem parece ser mais intelectual do que geográfica, embora ambas se complementem), esforçando-se no sentido de um «mundo limpo de ideais, impressões e de desejos de dominação» (p. 30): «o nómada intelectual em plena posse dos seus meios seria, não aquele que errasse pelas megalopolis com um vago sentido cosmopolita, mas o que soubesse seguir os seus “próprios caminhos” e que, por uma espécie de “transumância psíquica” (o termo é de Spengler) soubesse tomar os “caminhos próprios” de culturas diferentes daquela em que nasceu. Através de uma série de metamorfoses, chegaria talvez a um novo sentido do cosmos» (p. 43). Na segunda parte do livro, Kenneth White dá alguns exemplos de espíritos que recusaram a domesticação preferindo a experiência de um não-lugar ao lugar de uma não-experiência. Fala de George Borrow (1803-1881), do seu desprezo pelo “pessoal literário”, da “bravia solidão autodidacta dos seus estudos”, da sua atracção pelos ciganos (povo nómada por excelência); lembra Henry Thoreau (1817-1862) e o seu carácter apolítico, o seu temperamento desobediente, as suas pesquisas “sobre a vida e a cultura dos primeiros americanos” (o seu projecto seria “tornar-se índio”); cita “o feroz observador satírico” Hugh MacDiarmid (1892-1978), "posto fora do partido nacionalista, e não demorando a juntar-se aos comunistas. Isto apra acabar por se ver, em 1938, corrido do partido comunista – por nacionalismo"; fala ainda do solipsimo extremo de John Cowper Powys (1872-1963) e da sua inclinação "em direcção ao xamanismo dos Índios da América, do taoísmo chinês e da magia branca dos lamas tibetanos"; recorda os trabalhos de Victor Segalen (1878-1919) e a sua “embriaguez espiritual” por territórios orientais. A terceira e última parte de O Espírito Nómada não deixa de nos lançar pistas. Kenneth White cita imensos autores, cruza-os, procura abrir o espaço para uma geopoética marcada pela força do pensamento, integrando mais do que recusando, apagando as linhas que eventualmente possam ainda separar, como preconceitos difíceis de superar, a poesia da filosofia. Caminhando, dançando, nadando com o universo, o autor de O Espírito Nómada esboça uma teoria da geopoética – esboçar uma teoria não é o mesmo que fixá-la - acabando por desembocar numa intuitiva conclusão: um novo fôlego para o pensamento ocidental. Este livro é um excelente contributo para esse novo fôlego.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

PRÉ-SOCRÁTICOS

O primeiro volume da Biblioteca Básica de Filosofia (Edições 70) é o ensaio de Jean Brun sobre os chamados filósofos pré-socráticos. Sobre estes, melhor seria ler Os Filósofos Pré-Socráticos, de Kirk, Raven e Schofiel, publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Mas como a preguiça para o pensamento é um vírus contagiante, fiquemo-nos pela síntese de Brun, o qual divide a matéria em sete capítulos: os jónios ou milésios, o pitagorismo, Heraclito, os eleatas, Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazómenas e os atomistas. O destaque atribuído a três filósofos em particular justifica-se plenamente se tivermos em conta as repercussões do pensamento de cada um deles num futuro que à época estaria longe de ser previsível. Daí em diante foi sempre a morrer. Mas antes de mais impõe-se sublinhar algumas das vantagens proporcionadas pela leitura destes primeiros pensadores que a História consagrou: 1) são a filosofia no seu estado embrionário, ou seja, o único que realmente interessa; 2) das suas obras ficaram apenas registos fragmentários, algo que estimula a criatividade de quem os pense; 3) neles não encontramos nenhuma distinção entre as diversas dimensões do saber que foram posteriormente compartimentadas, sendo essa força de pensamento anterior à separação dos saberes muito mais actual do que a fixação num pensamento científico especificador e, por isso mesmo, lacunar; 4) nas palavras do poeta Robert Bringhurst: «ao contrário de Sócrates, discutiam consigo mesmos e não com os ouvintes. Ao contrário de Paltão, não se ocupavam a endireitar o mundo e a convencer. Ao contrário de Aristóteles, segundo conta Aristóteles, estavam mais interessados no elo entre inteligência e emoção do que em diferenciá-los»; 5) eram pensadores errantes, livres, que, por isso mesmo, não escapam hoje ao saudável gosto pela lenda que a toda a hora os recria. Poderia continuar a enumerar outras vantagens, não fosse o caso de ser muito mais higiénico evitar a exaustão. Nestas vantagens fica apenas patente uma simpatia inegável pelo primitivismo, aquele que nos levando à fonte, nos colocando perante os alicerces, pode ajudar a melhor entender a fachada do mundo em que nos foi acidentalmente oferecida a risível experiência de viver. Relembro duas heranças fundamentais de dois dos três pensadores acima destacados. Heraclito deixou-nos a noção de devir, celebrizada no fragmento que diz não se poder tomar banho duas vezes no mesmo rio. Esta noção de contínua transformação do mundo é tão importante que ainda hoje serve para opor às teorias idealistas da permanência e da imutabilidade do Ser, encalhadas em conceitos tão absurdos quanto os de ideia e essência, uma noção dinâmica da vida no interior de uma unidade vulcânica. É para essa unidade vulcânica que mergulhará Empédocles depois de ter andado a exorcizar mentes possuídas pelo demónio da ignorância. Chamam-lhe mago por ter reivindicado para si um conhecimento que era, antes de mais, uma forma de resistência ao sedentarismo castrador que ameaçava o pensamento. Viajou, regressou, exilou-se, vislumbrou no mundo uma imensa “tragédia cósmica” regida pela luta entre um par de forças que a toda a hora nos reclama a busca de um equilíbrio. A eternidade é uma perpétua transformação, é o que do passado há em mim e de mim haverá no futuro. É o que resulta de uma luta sem tréguas. «A luta do Amor e do Ódio, que constitui a própria vida do cosmos, reproduz-se no homem, microcosmos que vive em estreita relação com o que o rodeia», diz Jean Brun. E dentro de mim, a toda a hora, ódio e amor reivindicam a paz e a liberdade de um só gesto: o amoródio. Pena que chamem pré-socráticos a estes tipos. Na história das ideias deviam ser proibidos todos os prefixos. Seria muito mais seguro e justo se chamassem a todo o pensamento posterior a estes homens qualquer coisa do género pós-pré-socrático. Sócrates representa apenas uma ilusão, é já a sombra da luz que foram Heraclito, Empédocles, entre outros. Eles representam o pensamento esclarecido, um pensamento que resulta da razão dos instintos, da razão das impressões, das sensações, tudo o que nos resta. Não há um pensamento pré-socrático, há um pensamento pré-ilusionista.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

BARTLEBY, A ESCRITA DA POTÊNCIA

Giorgio Agamben (n. 1942) é um filósofo italiano com especial interesse nas relações entre a literatura e a filosofia. No ensaio intitulado Bartleby, Escrita da Potência procura interpretar a mítica personagem do conto de Herman Melville à luz do antigo problema filosófico “da mudança e da multiplicidade dos seres”. Aristóteles, o filósofo grego a quem devemos a organização das primícias que desde há muito nos regem o pensamento, terá sido quem melhor compreendeu a aporia da multiplicidade, resolvendo o problema procurando estabelecer uma dicotomia lógica que esteve em vigor durante muitos anos no pensamento ocidental. Refiro-me à distinção entre Potência e Acto. A Potência, anterior ao Acto, é o momento da indeterminação dos seres; aquilo que os determina é o Acto, pois Potência significa, ao mesmo tempo, poder ser e poder não ser. Assim, «segundo Aristóteles, cada potência é também potência de não» (p. 23). Este paradoxo do pensamento esteve na origem de inúmeras discussões metafísicas, nomeadamente sobre a natureza de Deus, que não cabem agora aqui. Relativamente a Bartleby, o problema coloca-se da seguinte forma: «ser capaz, numa pura potência, de suportar o «não mais [que]» (non piuttosto), para lá do ser e do nada, demorar-se até ao fim na impotente possibilidade que excede ambos» (p. 32). A tese é interessante, mas não esgota todo o (não-)sentido da personagem melvilliana. Bartleby, anaforicamente reduzido a uma preferência de não fazer, sugere muito mais do que uma questão ontológica radical. O que nele há de fascinante, mais ainda que a sua constituição alegórica, é a forma como os outros reagem à potência de nada que a sua decisão de não agir – uma espécie de inacção activa – manifesta. Ele é um não ser, uma biografia sem biografia, uma vontade sem vontade, um acidente, talvez, sem nada de acidental, que provoca nos outros a consciência de uma natureza adormecida. Ele não é a greve de fome, é a fome que se esconde por detrás da greve. Ele é uma humanidade parada na sua infernal correria. Tal como em Moby Dick podíamos entrever uma representação primitiva da humanidade, em Bartleby, O Escrivão observamos uma representação crítica dessa mesma humanidade já na sua idade moderna. Daí que o conto termine: «Ah, Bartleby! Ah, humanidade!» (p. 114) O desconcertante poder deste escrivão é o poder de não ser, algo cuja compreensão não está ao alcance dos homens vulgares que o rodeiam, sejam eles os colegas escrivães Turkey, Nippers e Ginger Nut, onde toda a excentricidade é abreviada a uma lógica comportamental previsível, seja o homem de leis – a expressão é sintomática – que nos narra a história. Não há-de ser por acaso que o ambiente escolhido para a existência desta tão excêntrica criatura seja o ambiente entediante, extremamente organizado e mecanizado de um cartório. Agamben lembra-nos algo deveras curioso: «Benjamin percebeu a íntima correspondência entre a cópia e eterno retorno, quando compara certa vez este último à Strafe des Nachsitzens, isto é, à punição que o professor aplica aos alunos negligentes e que consiste em copiar inúmeras vezes o mesmo texto» (p. 44). O pálido e singular escrivão que é admitido no cartório para logo preferir de não fazer o que lhe mandam, nomeadamente copiar, proporciona um acontecimento insólito causador de perturbações insustentáveis. Não só instaura uma fractura na lógica de betão que rege o funcionamento daquele microcosmo, como ainda entra em ruptura com um nexo histórico sustentador dos homens no tempo e no espaço. No fundo, ele representa a irracionalidade que desafia a lei, é a força do inconsciente, existisse consciente, a vir à tona da consciência num gesto inadmissível, isto é, o não-gesto. Bartleby faz pensar quem abdicou de pensar, faz sentir quem se esqueceu de sentir, lembra à humanidade as contradições de que é feita. Mas é necessário pensá-lo para lá da teia caótica que liga a lógica ao pensamento e o pensamento à linguagem, é preciso pensar esta personagem com o risco louco dos trapezistas sem rede. O preferir de não que sai de dentro da personagem como uma anáfora reveladora dos itinerários humanos que nos trouxeram ao ponto em que estamos, encalha no porto de uma liberdade existencial que a fenomenologia sintetizou na expressão estar em relação com. Se todo o homem for, de facto, um estar em relação com, então a expressão bartlebyana pode também ser entendida como uma recusa que esbarra no defeito de uma liberdade ainda por assumir. É que perante o outro, preferir de não lhe apertar a mão não impede que ele nos aperte a mão a nós. Recusando fazer parte de, Bartleby acaba sendo arrastado por. E ser arrastado por, convenhamos, não é nada recomendável.

domingo, 4 de janeiro de 2009

QUATRO NOITES COM ANNA


O facto do realizador polaco Jerzy Skolimowski não filmar há 15 anos pode ser muito aliciante para algumas pessoas. Muitas delas não terão sequer ouvido falar do artista, nunca lhe terão visto nenhum filme, mas alguém que resolve regressar 15 anos depois só pode ter algo muito importante a dizer. E di-lo. A gente escuta-o atentamente para não nos perdermos na gaguez do discurso. Di-lo com silêncios ensurdecedores, tempos misturados e gestos sobrepostos, di-lo com uma extrema simplicidade, di-lo com os olhos para que a gente aprenda a olhar. Afinal, não é isto que mais importa no cinema? Pouco importam os diálogos quando cada plano fala por si. Eles são o que a câmara concentra num homem e no mundo à sua volta. Só esse homem interessa, como O Estrangeiro de Camus e a sua inteligente incapacidade para o mundo das pessoas ditas normais. Que pode significar ser como os outros num mundo impiedoso? Quem quer ser como os outros num mundo onde os outros mal se distinguem de um estranho e ameaçador ruído? É verdade que este homem não deseja a morte de ninguém. Ele trabalha com a morte, deita fogo aos restos dos corpos que vão ficando aos bocados pelo mundo. O desejo dele é outro. É o desejo de amar. E ama, mesmo para lá da condenação que é o amor. Ama, amará, separado por uma rua enlameada, coberta de neve, separado pelos vidros das janelas, pelas paredes dos edifícios que separam quem se ama, separado e distante, ama à distância quem não sabe ser assim amado, ama às escondidas, ama para lá de qualquer inquisição, incondicionalmente, no silêncio do sono de quem ama, ama com a timidez de quem não suportaria, talvez, não ser amado. E por isso cala o amor, esconde-o do outro, reserva-o para si até ao momento de outro se revelar, lá está, pouco mais que um estranho e ameaçador ruído. Atrai-me em Léon a ingenuidade que já conhecia em Mario Ruoppolo, o carteiro de Pablo Neruda; atrai-me a compaixão silenciosa que vi recentemente num escuta da Stasi, em As Vidas dos Outros; atrai-me a gaguez, os gestos atabalhoados, os dedos encardidos que seguram um anel de diamantes para oferecer a uma amada que não suspeita sequer ter um amante. Dos outros só podemos esperar que construam muros, que se sintam ameaçados por quem olha assim, pois o tempo ensinou-nos a desacreditar estes modos de olhar, de observar, o tempo fez crescer entre nós e os outros muros intransponíveis porque nós e os outros deixámos de acreditar na contemplação. Todo o olhar é hoje um modo de devorar, de comer, todo o olhar é uma ameaça. Dessas ameaças nos protegemos colocando cortinas nas janelas, erguendo muros em torno das casas, disfarçando a nudez do corpo com trapos sazonais, disfarçando a nudez da alma com escudos invisíveis, os escudos da moral que se encontra nos códigos, nos processos, nas constituições que ditam e julgam os modos de ver, de olhar, de contemplar. Espreitamos os outros através de blogs. Pouco mais. O que dirá a maioria de Léon? Um coitado, um pobre solitário, um retardado, variadinho da mona, uma triste vida. É um anónimo, um desgraçado anónimo. No fundo, o que todos somos por passarmos a vida a olhar receando sermos vistos. Eis um belo e actualíssimo tratado sobre o mundo das novas tecnologias, sobre o amor neste mundo que é o nosso reduzido à dimensão de uma aldeia onde a vida ainda parece ser iluminada por candeias e nas lojas vendem-se machados.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

HUNGER


Do ano que foi ficaram mais que dois, entre os quais também esses tão simplesmente citados. Mas do ano que foi, já no ano que é, ficará igualmente a Fome de Steve McQueen (por falar nele). Antes de apertar a mão ao moribundo Bobby Sands, ou ao fantasma que dele ficará em correria nos matagais húmidos da Irlanda, confesso-me um homem sentado num quarto de Hotel. Mais uma vez sentado num quarto de Hotel, com os ouvidos desarrumados pelo barulho dos aviões que se levantam da terra e à terra regressam, rasando ilusoriamente o cocuruto dos prédios como ilusoriamente o céu rasa a copa das árvores. Não foi assim há tanto tempo que a sujidade e a nudez serviram de protesto. A gente é que já não se lembra, atarefados que andamos na educação dos filhos para as greves ligeiras da pátria - ligeiras deverão ser as refeições de quem sofre prisão de ventre. Vivemos as greves como quem vive uma festa, raramente vamos à porrada, mais raramente ainda o sangue nos sobe aos dentes, porque só nos resta tempo para reflectirmos o passado e no passado tentarmos encontrar justificações para o futuro que a toda a hora se avizinha mas nunca se concretiza. Ora, futuros assim só são concretizáveis nos olhos idealistas de homens como Bobby Sands (o retratado do filme que a história há-de guardar como terrorista, porque terroristas são todos os que agem para lá dos convencionalismos das negociações e deles será o reino... das profanações). O negócio destes terroristas é outro, tão semelhante ao dos serviçais do regime que não aguentam o choro perante os cenários abjectos da porrada, nem o vómito perante o nojo da porcaria. Por isso assistimos aos tremores nervosos dos polícias, homens a quem foi dada a ordem de manterem a ordem, homens que um dia, por acaso, por necessidade, por devoção, fizeram da cabeça o prémio que evita que outras cabeças, as do poder, se ganhem com mais facilidade. Na prisão, tanto eles como os outros, os encarcerados, estão presos. Estão presos, nesta situação tão específica, de uma resistência para lá do bem e do mal, de uma resistência para lá do organon que há muito determina os padrões da moralidade com que vamos desenhando os dias. Terrorista? Fanático? Inflexível? Bobby Sands estava convicto de uma razão com raízes em histórias antigas, por isso entregou o corpo à luta, por isso se entregou à morte fazendo uso da derradeira forma de luta que é a greve de fome. Não basta referir o papel de uma vida que é a interpretação de Michael Fassbender, um jovem nascido em 1977 que, ajudado pelo enorme sentido artístico de Steve McQueen – lembro-me bem de lhe ter sentido os olhos há coisa de cinco anos na Fundação Serralves -, oferece a quem consiga, queira e possa, um registo tão comovente quão chocante de um corpo/alma em desintegração. Hunger abre a janela do quarto de Hotel onde um homem sentado se distrai com motores potentes de aviões em transe, abre essa janela, digo, para uma paisagem temente. Logo ali à frente, a atravessar a rua, formas de luta apenas possíveis quando aquilo em que se acredita transcende os sentidos marcados pelos sinais de trânsito; um pouco mais adiante, do outro lado da rua, as contradições, os paradoxos, as dúvidas sem resposta que uma entrega assim provoca; lá ao fundo, no horizonte atravessado pelos edifícios teóricos, uma profunda melancolia, a morte fazendo-se vizinha dos sonhos, dos ideais, da procura extrema de uma liberdade oprimida. Um dia um padre chegar-se-nos-á para a última confissão. Dele nos despediremos enrolando as páginas da Bíblia. Fumando-as em conjunto, talvez mereçamos o abençoado carimbo do paraíso. Ou talvez já nada disso faça sentido quando outro Inferno não pode haver senão a vida que levamos. Então citaremos ao padre, não a Bíblia, mas uma nota de rodapé num ensaio de Giorgio Agamben: «John C. Colt assassinou Samuel Adams, em Nova Iorque, 1842. Condenado à morte, no dia da execução casou com Caroline Henshaw, de quem tinha um filho. Ficaram um momento sós após a cerimónia; Colt solicitou de seguida que o deixassem só antes de ser executado. Pouco antes da hora marcada foi encontrado apunhalado na sua cela». A moral é simples. Andamos todos presos à ilusão de que escolhemos como viver. Mas apenas alguns sabem escolher como morrer. Só esses são verdadeiramente livres. Mesmo quando estão presos.