Não consigo recordar-me quantos anos passaram sobre o primeiro encontro, sou péssimo a organizar o tempo. Recordo-me ter lido num jornal que ia ser ministrado uma espécie de curso sobre a história da poesia portuguesa no séc. XX. É verdade que desconfio de cursos sobre poesia, abomino cânones e sistematizações da actividade poética, também não julgo que a poesia tenha uma história, mas esse é assunto que não cabe aqui desenvolver. No entanto, gosto de ouvir poetas falarem sobre poesia, também não desgosto quando falam sobre outros poetas, estou até convencido haver nesta dedicação, mais que um salutar sinal de humildade, um olhar atento e curioso. Como já conhecia um pouco da poesia do responsável pelo curso, resolvi ir ouvi-lo. A situação hoje é mais desconfortável. Preferia ter permanecido na plateia a ter sido convidado para o palco. Deste lado é tudo mais mundo, ou seja, é tudo mais difícil de suportar. Pior ainda quando nos colocam em mãos um livro com um título tão pesado: “Versos Olímpicos”.
Ora, quem estiver minimamente familiarizado com a poesia de José Ricardo Nunes não pode deixar de se surpreender com este título. O adjectivo olímpico denota algo divino e magnificente, envia-nos para o festival de competições que na antiga Grécia lograva suspender guerras entre cidades e reunia os povos num único propósito: a arte de competir. Sublinhe-se o verbo competir, ele será determinante na compreensão deste livro. Antes de percorrermos as etapas da prova, lembremo-nos que o carácter lúdico de alguma poesia portuguesa contemporânea nunca foi uma presença inquestionável nos livros de José Ricardo Nunes. “Rua 31 de Janeiro (algumas vozes)” (&etc, 1998) resultou da actividade profissional num Instituto de Reinserção Social e dá voz a um conjunto de personagens literárias cujas vidas são tudo menos gloriosas; “Na Linha Divisória” (Campo das Letras, 2000), merecedor do Grande Prémio Eugénio de Andrade, é um conjunto de poemas epigramáticos que, até pela própria estrutura, configuram um pendor anti-épico que não só dessacraliza o poético como também o interroga; “Novas Razões” (Gótica, 2002) colige quatro conjuntos de poemas de matriz quotidiana, assumindo por vezes uma auto-ironia reveladora de um olhar atento ao mundo e indagador da nossa condição existencial; por fim, “Apócrifo” (Deriva, 2007) pensa de um modo poeticamente exemplar a questão da identidade, jogando com a prática do intertexto - tão em voga na actual poesia portuguesa – de um modo similar ao jogo que o próprio sujeito poético estabelece numa teia de paradoxos difíceis de resolver.
O título da mais recente colectânea não pode senão afirmar uma veia irónica que, nunca tendo estado ausente nos livros anteriores, se afirma neste livro com a clareza aguda de um título provocador. Como sabemos, o território da ironia é arriscado. Configura uma espécie de pantanal que obriga o explorador a múltiplos cuidados, nomeadamente por facilitar interpretações precipitadas, ambíguas, contraditórias, muitas vezes fatalmente lesivas do que muita gente supõe ser a espinal-medula da poesia. Há uma triste e absurda tendência para vislumbrar no queixume e na melancolia os princípios fundamentais da poesia, tornando-se difícil a alguns leitores compreender que no riso íntimo da ironia pode também residir a adversidade do saber poético, ou seja, de um saber que se constrói para lá das velhas dicotomias que tentam separar águas e territórios tão dificilmente destrinçáveis como são os territórios da razão e da emoção, do real e do sonho, do corpo e da alma, da ideia e da impressão, do sublime e do prosaico.
A ironia que encontraremos nestes “Versos Olímpicos” não é humorística, não é sarcástica, não chega sequer a ser satírica; é a ironia subtil de quem olha o mundo com uma certa distância, reconhecendo-se porém como parte integrante desse mesmo mundo; é a ironia de quem aponta o “outro”, consciente de que também ele pode estar a ser apontado; é a ironia de quem apenas sabe responder interrogando, nomeadamente questionando a sua própria identidade, revelando preocupações de ordem política e ontológica. No fundo, é a ironia de um olhar arguto e desassombrado. É uma ironia desencantada e desiludida, no sentido de não ter já ilusões acerca da sua própria força, da sua capacidade para atingir os alvos a que se dirige. O efeito que uma ironia destas produz no leitor, pelo menos o efeito que produziu em mim enquanto leitor, foi o de me colocar no centro de um mundo que muitos contestam mas a toda a hora acabam aprovando com a sua complacente indiferença. E esta complacência, meus amigos, não é de feitio nem de fraqueza; ela torna óbvio este facto: por mais resistentes que sejam as pessoas, obriga-as o “gene egoísta” da sobrevivência a serem indiferentes, a desligarem o canal que as liga ao Mundo. Caso contrário, o mundo sufocá-las-ia, oprimindo-as, enterrando-as no pântano das suas misérias e tornando-as também a elas miseráveis. Disto cabe ao poeta dar testemunho, o poema é esse testemunho irónico, um lugar de resistência à fome.
Vejamos o poema que abre “Versos Olímpicos”, congruentemente intitulado “Cerimónia de Abertura”. Tendo em conta o extremo cuidado que o poeta coloca na organização dos seus livros, o primeiro poema parece-nos ser fundamental. Entre a descrição do desfile figurante dos atletas, alusões aos sentimentos que os movem e o discurso dos comentadores, três momentos distribuídos por três estrofes, temos, a terminar cada uma dessas estrofes, a voz do poeta. E o que diz essa voz? «Digo-lhe que não sei parar as imagens». E reforça: «Acredito no que lhe digo». Mas diz a quem? Só na última estrofe o sabemos. Di-lo à Jacinta, uma personagem dúbia, que não sabemos quem seja, mas parece configurar um momento de suspensão. Vejamos como termina a última estrofe: «Resta-nos / o poder de mudar livremente de canal / ao sabor dos nossos humores tão variáveis». Curioso que na primeira estrofe tenha aparecido a palavra imagens e agora se aluda a uma mudança de canal. O livro está introduzido: estamos no campo minado das discussões que têm tingido a actual poesia portuguesa, a qual, na palavra de alguns críticos, deverá apagar as imagens do poema como se o poema, afirma-o José Ricardo Nunes, pudesse ser obediente a uma vontade que não seja a dos “humores tão variáveis”. Eis a arte poética que atravessará toda a obra…
Este e outros poemas do mesmo livro despertam-me a todo o instante para os paradoxos, as ambiguidades, as incongruências do “saber poético”. Creio que uma das marcas mais fortes da poesia do autor das “Novas Razões” é uma interrogação obsessiva acerca das “oposições”. Tudo na sua poesia assume uma incerteza que espanta pela arguta capacidade de conferir ao “real” planos que são seus e não podem ser apagados, sob pena do real passar a ser uma mera ficção. A bem dizer, não há senão um real construído e, por isso mesmo, ficcionado. O “real-real”, se assim o podemos afirmar, é sempre indefinível, inevitavelmente paradoxal e incerto, é, sobretudo, dinâmico, elástico, flexível, o real não é estanque, é devir. Se este livro é sobre poesia, como já afirmou o seu autor, então ele torna-nos espectadores intervenientes de uma tragédia que, por nela estarmos submersos, dificilmente vislumbramos de outra forma que não seja pela evidência irónica do poema. Falo, claro está, da tragédia da poesia portuguesa, inchada de atletas em busca de uma glória que, abramos os olhos, se restringe a tiragens de 300 exemplares por livro. Que haja gente indiferente a este facto, não admira. Que vá havendo quem dele dê testemunho, só nos pode… animar.
Estes poemas chamam-nos a atenção para a nossa própria realidade. No entanto, talvez contaminado pela ironia, penso nas odes que Píndaro compôs para celebrar vitórias atléticas nos Jogos Olímpicos. Naquele tempo a celebração servia também para pensar a condição humana na sua efemeridade, assim como para cantar coisas tão nobres como Deus e a justiça, a beleza do corpo humano, o amor e a poesia tornada tema. Eram, à época, poemas do belo e do sublime, como bem notou Frederico Lourenço na introdução que lhes fez na sua antologia da “Poesia Grega de Álcman a Teócrito”. Sobre as odes “epinícias” passaram 2500 anos. Os temas serão os mesmos, porque o mundo é o mesmo - pese embora, obviamente, os condicionalismos históricos diversos -, mas o tom é forçosamente outro. Permanece a interrogação sobre a poesia, a interrogação sobre o “eu”, sobre a condição humana, temos também poemas que reflectem preocupações, como já foi referido, de ordem política e ontológica, mas com um olhar que não ousa cantar glórias onde apenas vê falhanços e fracassos. Acrescentemos então ao sublime o prosaico, porque a vida não se faz em linha recta, faz-se num caminho repleto de curvas e contracurvas, um caminho sinuoso, e a poesia que se deixa contaminar pela vida não pode ser diferente.
São curiosos anti-heróis os atletas destas novas Olimpíadas. Lembram-nos os “Ladrões de Bicicletas”, de Vittorio de Sica, pobres roubando-se uns aos outros, lembram-nos a figura decadente do pugilista no filme “Touro Enraivecido”, lembram-nos esse atleta do cinismo que é a personagem chamada Johnny no filme “Naked”, de Mike Leigh. Lembram-nos, igualmente, os reclusos de “Rua 31 de Janeiro (algumas vozes)” e as batalhas travadas em solidão. No poema “Salta à Vara”, por exemplo, o sujeito poético não enjeita uma comparação. “Muitas vezes não ganho a altura / necessária. Às vezes, sempre” – constata. “Mas como tu, saltador à vara, / sei que para lá da fasquia / um colchão espera por mim”. Urge “desimportantizar” as consequências do salto, a queda será amortecida pelo colchão e o salto nunca poderá ser mortal. As façanhas dos atletas estão marcadas “a priori” pela insignificância das provas. “Não há / o efémero lugar na história, mas assegurei / um lugar na minha vida”, afirma-se noutro poema. Quem fala neste poema? Fala aquele que se interroga acerca do futuro ao mesmo tempo que arruma o presente. 300 leitores em 10 milhões de habitantes não conferem lugar algum em história alguma. Como dizia Ruy Belo, nascer português é nascer em desvantagem. E a única verdade que podemos dar como certa é esta: todas as pequenas vitórias não servirão para rasurar o facto de nascermos já derrotados.
Tal como no seu primeiro livro, José Ricardo Nunes volta a servir-se de personagens literárias que lhe permitem discorrer sobre vários temas de um modo livre, não tão dependente de um lirismo centrado exclusivamente no eu. Nesse primeiro livro tínhamos reclusos, homens encarcerados que procuravam escapar à solidão. Agora temos atletas, escravos de uma competição onde se almejam pequenas glórias, se projectam estatutos e hierarquizam memórias. Lembremos como a crítica costuma arrumar as coisas: há os novíssimos, as esperanças; há as confirmações; há os grandes e os cimeiros. Esta forma de arrumação dos fazedores de poemas nada deve ao jornalismo desportivo, em tudo se assemelha, conferindo ao fazer poético um carácter competitivo que está muito para lá de ser compreensível a quem leia poesia, a quem escreva poesia simplesmente porque não pode deixar de o fazer. Que ao menos na casa poética possamos habitar sem o espírito a que nos obrigam fora dela: «Merda para os gregos, / porque inventaram os Jogos Olímpicos, / para o Barão de Coubertin, / porque os ressuscitou, / e merda ainda para o mercado global / que os vendeu ao desbarato!» É certo que as personagens dos “Versos Olímpicos” são subjectivas, a sua afirmação está dependente de quem as leia e, desse modo, as construa. No fundo, são todos aqueles que competem num mundo que apenas tem para oferecer “o peso escuro da derrota”. Sobre isso fica “O Testemunho”, tudo o que é possível almejar a quem escreva poesia: «Já fui invólucro de ordens, notícias, / mensagens que se transformavam / em acontecimentos assim que eram destruídas. / Relegado de vez para o desporto, / passo agora vazio de mão em mão / pelas pistas dos estádios».
Ora, quem estiver minimamente familiarizado com a poesia de José Ricardo Nunes não pode deixar de se surpreender com este título. O adjectivo olímpico denota algo divino e magnificente, envia-nos para o festival de competições que na antiga Grécia lograva suspender guerras entre cidades e reunia os povos num único propósito: a arte de competir. Sublinhe-se o verbo competir, ele será determinante na compreensão deste livro. Antes de percorrermos as etapas da prova, lembremo-nos que o carácter lúdico de alguma poesia portuguesa contemporânea nunca foi uma presença inquestionável nos livros de José Ricardo Nunes. “Rua 31 de Janeiro (algumas vozes)” (&etc, 1998) resultou da actividade profissional num Instituto de Reinserção Social e dá voz a um conjunto de personagens literárias cujas vidas são tudo menos gloriosas; “Na Linha Divisória” (Campo das Letras, 2000), merecedor do Grande Prémio Eugénio de Andrade, é um conjunto de poemas epigramáticos que, até pela própria estrutura, configuram um pendor anti-épico que não só dessacraliza o poético como também o interroga; “Novas Razões” (Gótica, 2002) colige quatro conjuntos de poemas de matriz quotidiana, assumindo por vezes uma auto-ironia reveladora de um olhar atento ao mundo e indagador da nossa condição existencial; por fim, “Apócrifo” (Deriva, 2007) pensa de um modo poeticamente exemplar a questão da identidade, jogando com a prática do intertexto - tão em voga na actual poesia portuguesa – de um modo similar ao jogo que o próprio sujeito poético estabelece numa teia de paradoxos difíceis de resolver.
O título da mais recente colectânea não pode senão afirmar uma veia irónica que, nunca tendo estado ausente nos livros anteriores, se afirma neste livro com a clareza aguda de um título provocador. Como sabemos, o território da ironia é arriscado. Configura uma espécie de pantanal que obriga o explorador a múltiplos cuidados, nomeadamente por facilitar interpretações precipitadas, ambíguas, contraditórias, muitas vezes fatalmente lesivas do que muita gente supõe ser a espinal-medula da poesia. Há uma triste e absurda tendência para vislumbrar no queixume e na melancolia os princípios fundamentais da poesia, tornando-se difícil a alguns leitores compreender que no riso íntimo da ironia pode também residir a adversidade do saber poético, ou seja, de um saber que se constrói para lá das velhas dicotomias que tentam separar águas e territórios tão dificilmente destrinçáveis como são os territórios da razão e da emoção, do real e do sonho, do corpo e da alma, da ideia e da impressão, do sublime e do prosaico.
A ironia que encontraremos nestes “Versos Olímpicos” não é humorística, não é sarcástica, não chega sequer a ser satírica; é a ironia subtil de quem olha o mundo com uma certa distância, reconhecendo-se porém como parte integrante desse mesmo mundo; é a ironia de quem aponta o “outro”, consciente de que também ele pode estar a ser apontado; é a ironia de quem apenas sabe responder interrogando, nomeadamente questionando a sua própria identidade, revelando preocupações de ordem política e ontológica. No fundo, é a ironia de um olhar arguto e desassombrado. É uma ironia desencantada e desiludida, no sentido de não ter já ilusões acerca da sua própria força, da sua capacidade para atingir os alvos a que se dirige. O efeito que uma ironia destas produz no leitor, pelo menos o efeito que produziu em mim enquanto leitor, foi o de me colocar no centro de um mundo que muitos contestam mas a toda a hora acabam aprovando com a sua complacente indiferença. E esta complacência, meus amigos, não é de feitio nem de fraqueza; ela torna óbvio este facto: por mais resistentes que sejam as pessoas, obriga-as o “gene egoísta” da sobrevivência a serem indiferentes, a desligarem o canal que as liga ao Mundo. Caso contrário, o mundo sufocá-las-ia, oprimindo-as, enterrando-as no pântano das suas misérias e tornando-as também a elas miseráveis. Disto cabe ao poeta dar testemunho, o poema é esse testemunho irónico, um lugar de resistência à fome.
Vejamos o poema que abre “Versos Olímpicos”, congruentemente intitulado “Cerimónia de Abertura”. Tendo em conta o extremo cuidado que o poeta coloca na organização dos seus livros, o primeiro poema parece-nos ser fundamental. Entre a descrição do desfile figurante dos atletas, alusões aos sentimentos que os movem e o discurso dos comentadores, três momentos distribuídos por três estrofes, temos, a terminar cada uma dessas estrofes, a voz do poeta. E o que diz essa voz? «Digo-lhe que não sei parar as imagens». E reforça: «Acredito no que lhe digo». Mas diz a quem? Só na última estrofe o sabemos. Di-lo à Jacinta, uma personagem dúbia, que não sabemos quem seja, mas parece configurar um momento de suspensão. Vejamos como termina a última estrofe: «Resta-nos / o poder de mudar livremente de canal / ao sabor dos nossos humores tão variáveis». Curioso que na primeira estrofe tenha aparecido a palavra imagens e agora se aluda a uma mudança de canal. O livro está introduzido: estamos no campo minado das discussões que têm tingido a actual poesia portuguesa, a qual, na palavra de alguns críticos, deverá apagar as imagens do poema como se o poema, afirma-o José Ricardo Nunes, pudesse ser obediente a uma vontade que não seja a dos “humores tão variáveis”. Eis a arte poética que atravessará toda a obra…
Este e outros poemas do mesmo livro despertam-me a todo o instante para os paradoxos, as ambiguidades, as incongruências do “saber poético”. Creio que uma das marcas mais fortes da poesia do autor das “Novas Razões” é uma interrogação obsessiva acerca das “oposições”. Tudo na sua poesia assume uma incerteza que espanta pela arguta capacidade de conferir ao “real” planos que são seus e não podem ser apagados, sob pena do real passar a ser uma mera ficção. A bem dizer, não há senão um real construído e, por isso mesmo, ficcionado. O “real-real”, se assim o podemos afirmar, é sempre indefinível, inevitavelmente paradoxal e incerto, é, sobretudo, dinâmico, elástico, flexível, o real não é estanque, é devir. Se este livro é sobre poesia, como já afirmou o seu autor, então ele torna-nos espectadores intervenientes de uma tragédia que, por nela estarmos submersos, dificilmente vislumbramos de outra forma que não seja pela evidência irónica do poema. Falo, claro está, da tragédia da poesia portuguesa, inchada de atletas em busca de uma glória que, abramos os olhos, se restringe a tiragens de 300 exemplares por livro. Que haja gente indiferente a este facto, não admira. Que vá havendo quem dele dê testemunho, só nos pode… animar.
Estes poemas chamam-nos a atenção para a nossa própria realidade. No entanto, talvez contaminado pela ironia, penso nas odes que Píndaro compôs para celebrar vitórias atléticas nos Jogos Olímpicos. Naquele tempo a celebração servia também para pensar a condição humana na sua efemeridade, assim como para cantar coisas tão nobres como Deus e a justiça, a beleza do corpo humano, o amor e a poesia tornada tema. Eram, à época, poemas do belo e do sublime, como bem notou Frederico Lourenço na introdução que lhes fez na sua antologia da “Poesia Grega de Álcman a Teócrito”. Sobre as odes “epinícias” passaram 2500 anos. Os temas serão os mesmos, porque o mundo é o mesmo - pese embora, obviamente, os condicionalismos históricos diversos -, mas o tom é forçosamente outro. Permanece a interrogação sobre a poesia, a interrogação sobre o “eu”, sobre a condição humana, temos também poemas que reflectem preocupações, como já foi referido, de ordem política e ontológica, mas com um olhar que não ousa cantar glórias onde apenas vê falhanços e fracassos. Acrescentemos então ao sublime o prosaico, porque a vida não se faz em linha recta, faz-se num caminho repleto de curvas e contracurvas, um caminho sinuoso, e a poesia que se deixa contaminar pela vida não pode ser diferente.
São curiosos anti-heróis os atletas destas novas Olimpíadas. Lembram-nos os “Ladrões de Bicicletas”, de Vittorio de Sica, pobres roubando-se uns aos outros, lembram-nos a figura decadente do pugilista no filme “Touro Enraivecido”, lembram-nos esse atleta do cinismo que é a personagem chamada Johnny no filme “Naked”, de Mike Leigh. Lembram-nos, igualmente, os reclusos de “Rua 31 de Janeiro (algumas vozes)” e as batalhas travadas em solidão. No poema “Salta à Vara”, por exemplo, o sujeito poético não enjeita uma comparação. “Muitas vezes não ganho a altura / necessária. Às vezes, sempre” – constata. “Mas como tu, saltador à vara, / sei que para lá da fasquia / um colchão espera por mim”. Urge “desimportantizar” as consequências do salto, a queda será amortecida pelo colchão e o salto nunca poderá ser mortal. As façanhas dos atletas estão marcadas “a priori” pela insignificância das provas. “Não há / o efémero lugar na história, mas assegurei / um lugar na minha vida”, afirma-se noutro poema. Quem fala neste poema? Fala aquele que se interroga acerca do futuro ao mesmo tempo que arruma o presente. 300 leitores em 10 milhões de habitantes não conferem lugar algum em história alguma. Como dizia Ruy Belo, nascer português é nascer em desvantagem. E a única verdade que podemos dar como certa é esta: todas as pequenas vitórias não servirão para rasurar o facto de nascermos já derrotados.
Tal como no seu primeiro livro, José Ricardo Nunes volta a servir-se de personagens literárias que lhe permitem discorrer sobre vários temas de um modo livre, não tão dependente de um lirismo centrado exclusivamente no eu. Nesse primeiro livro tínhamos reclusos, homens encarcerados que procuravam escapar à solidão. Agora temos atletas, escravos de uma competição onde se almejam pequenas glórias, se projectam estatutos e hierarquizam memórias. Lembremos como a crítica costuma arrumar as coisas: há os novíssimos, as esperanças; há as confirmações; há os grandes e os cimeiros. Esta forma de arrumação dos fazedores de poemas nada deve ao jornalismo desportivo, em tudo se assemelha, conferindo ao fazer poético um carácter competitivo que está muito para lá de ser compreensível a quem leia poesia, a quem escreva poesia simplesmente porque não pode deixar de o fazer. Que ao menos na casa poética possamos habitar sem o espírito a que nos obrigam fora dela: «Merda para os gregos, / porque inventaram os Jogos Olímpicos, / para o Barão de Coubertin, / porque os ressuscitou, / e merda ainda para o mercado global / que os vendeu ao desbarato!» É certo que as personagens dos “Versos Olímpicos” são subjectivas, a sua afirmação está dependente de quem as leia e, desse modo, as construa. No fundo, são todos aqueles que competem num mundo que apenas tem para oferecer “o peso escuro da derrota”. Sobre isso fica “O Testemunho”, tudo o que é possível almejar a quem escreva poesia: «Já fui invólucro de ordens, notícias, / mensagens que se transformavam / em acontecimentos assim que eram destruídas. / Relegado de vez para o desporto, / passo agora vazio de mão em mão / pelas pistas dos estádios».
