segunda-feira, 30 de novembro de 2009

ELOGIO DO CINISMO (9)


A paixão cínica pode ser duplicada por uma vontade aristocrática. Sempre gostei que Roger Vailland, comunista, conduzisse um Jaguar MK II, tomasse heroína e que o seu compromisso, ao lado dos despojados, fosse apenas suspeito aos olhos das belas almas ainda piedosas, ou até cristãs até às entranhas, que só dão crédito aos pensamentos de esquerda no caso de estes envergarem, ridiculamente, os ouropéis caricaturais de uma pobreza composta, ostensivamente exibida a tiracolo. A culpabilidade não é uma obrigação nem um dever, pela simples razão que uma política hedonista, libertária e de esquerda, ilustra-se menos pela arte de empobrecer os ricos do que pela de enriquecer os pobres.
Longe daquilo que, numa dada época, pôde caracterizar uma esquerda dita «caviar», sobre a qual ainda se procura saber o que fazia dela uma esquerda, quando já não existem mais dúvidas sobre as razões e a existência da sua intoxicação ao beluga, um pensamento libertário, infundido por uma mística de esquerda, pode muito bem funcionar no registo artístico. Como prova, para além de Roger Vailland, as páginas soberbas escritas por Oscar Wilde, sob o título
A Alma do Homem sob o Socialismo ─ um livro de plena actualidade, após um século de existência ─ ou, mais inesperado, um almoço que aproximou, nas primeiras semanas de 1849, Baudelaire e Proudhon, numa pequena loja de pronto a comer da Rua Neuve-Vivienne. Um olhar ao sistema das contradições económicas, outro para saborear as flores do mal ou provar os paraísos artificiais, tendo o conjunto por desígnio o que Séverine chamava, no século passado, um dandismo revolucionário ─ esta mistura não deixa de me agradar.
A opção libertária, não tendo a obrigação de operar ao lado da compaixão no seu registo cristão, não me parece legítimo que para se ser credível se tenha de ser pobre ou despojado de si próprio, pois os detractores diriam, então, que o comprometimento político seria motivado por um ajuste de contas pessoal ou pelo ressentimento, no que encontrariam novos motivos para o descrédito que tanto procuram. Dandismo e pensamento libertário funcionam às mil maravilhas em todos aqueles que, longe dos imperativos do realismo socialista, em virtude do qual é necessário submeter a arte à política, postulam exactamente o inverso e esperam da arte que ela dê forma ao político, que o alimente, que lhe transmita força, vigor e energia. Nessa perspectiva, o dandismo contemporâneo do século da revolução industrial pode ler-se como reacção contra a unidimensionalidade gerada pela metamorfose do capitalismo.
Contra o igualitarismo, essa religião nociva da igualdade, o dandismo reivindica uma subjectividade radical activa, no combate contra todas as palavras de ordem do momento: culto do dinheiro e da propriedade, dogmas burgueses e mitologias de família, economia sensata dos casais e consumo da imprensa como única referência intelectual, cultural, de tudo o que constitui a tonalidade da época. Baudelàire afirma e exibe uma furiosa independência de espírito, uma animosidade particular em relação aos burgueses, venham eles de onde vierem, da esquerda ou da direita. Professa o culto do inútil e do artifício, do lazer e do gratuito, onde a maioria se esgota no útil, no rentável, no trabalho, na renda.
O dandy procura o sublime. A política libertária aspira ao mesmo tipo de objectivo: a assunção do indivíduo artista reage contra a queda dos particulares nos «bas-fonds» onde triunfam as virtudes e os valores burgueses. O poeta contra o farmacêutico, o pintor como remédio à frouxidão da vida moderna, o escritor à laia de resposta às infâmias induzidas pela industrialização e pela era da reprodução mecânica dos objectos, dos homens, das obras de arte ─ pensemos nas imprecações do poeta sobre a fotografia ─ ou das individualidades. Na época do reproduzível, todos são pensados, desejados e construídos segundo o mesmo padrão. O dandismo teoriza a reivindicação de garantias, multiplicadas pela expressão da individualidade e pela soberania das monadas.
O dandismo revolucionário, formulado por Séverine, não supõe a comunhão nalgum outro pecado venal, por vezes mortal, cometido por aqueles que estremecem não muito longe da mística de esquerda: o dever de amar o povo, a obrigação abjecta de celebrá-lo, de lhe conceder ou emprestar méritos, pois uma vista de olhos retrospectiva sobre a História deveria dissuadir a prática desse entusiasmo tão perigoso quanto nefasto, fornecedor, em cada ocasião, dos gregarismos políticos, do estalinismo ao nazismo, passando pelas fórmulas europeias de um nacional-populismo declinado nos registos italiano, espanhol, francês, grego e da Europa de Leste. Não há nada mais devoto para com o povo que as declarações de Lenine, Estaline, Hitler, Pétain, Mussolini, Franco, Le Pen e tantos outros, cuja fabulação sobre este universal das suas contas se alimenta do esquecimento e da negligência dos indivíduos, únicos princípios ou unidades operatórias em matéria de política. O dandy prima na farmacopeia que se opõe ao
homem das multidões.

Michel Onfray, in A Política do Rebelde – Tratado de Resistência e de Insubmissão, trad. Carlos Oliveira, Instituto Piaget, 1999, pp. 194-196.
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ARTUR

Tive um cão chamado Artur. Não era meu, mas acompanhou-me durante um Verão passado em Odeceixe. Portanto, como tudo o que algum dia me acompanhou, tive-o pelo tempo que o mereci. O Artur foi uma excelente companhia, era perspicaz, carinhoso, um exímio caçador de pinhas, um guarda que se chegava à tenda sempre que escutava lá no seu modo de escutar o mais ínfimo formigueiro. Nunca mais vi o Artur senão em pensamentos. Sou visitado amiúde por este cão, pelas memórias desse Verão de 1996, pelo sorriso do meu amor sentada numa mochila enquanto eu fumava um Marlboro e ambos esperávamos o autocarro que nos haveria de levar até Vila Nova de Mil Fontes. Montámos a tenda durante uma, duas noites, não mais. O parque era ruidoso, mais que os meus cabelos compridos e o sorriso jovial do meu amor a olhar o desaforo com que eu enfrentava um bloody mary a saber a ketchup. Depois apanhámos boleia para Odeceixe.

Que será feito do Artur nas noites de Verão? Que é feito de nós adormecidos um ao lado do outro, enquanto ao lado de nós, separados por finas paredes de tecido impermeável, outros casais adormeciam? Que é feito daqueles longos cabelos que o teu sorriso penteava por debaixo da sombra de extensos eucaliptais? Eu sei onde fica a fachada desta casa, tem uma só janela de madeira protegida por uma rede que impede os insectos de se intrometerem no sono, tem cadeiras pintadas de vermelho, uma jarra com flores silvestres sobre o tampo da mesa, um tampo contornado pelos malmequeres que alguém ali pintou enquanto orava aos budas expostos sobre o aparador. É um móvel dos antigos, esta casa, um armário com portas e janelas, duas gavetas, uma base onde deixámos a bilha de barro cheia de água fresca. É um cabide coberto de canecas especiais, cada uma com a sua memória de visitas esporádicas - como esta agora aqui sentado folheando as fotografias do verão de 96.


Tinhas um vestido preto, de alças, com florinhas brancas, tinhas o ar que ainda tens quando o teu sorriso se senta no baloiço montado entre os dois pinheiros, dois pequenos pinheiros nascidos das sementes que largámos sobre a Terra, quando descansas à beira de árvores antigas, na sombra dos medos que te consomem sempre que eu escrevo com o feltro da pele a palavra nua: amor. E o Artur atacava-nos as Dr. Martens com aquele sorriso canino que sempre gostei de pôr em tudo o que escrevo, bebíamos shots de vodca, uníamos os corpos no terraço, debaixo de um mar de estrelas, afogados numa luz milenar que sempre soubemos apreciar com os olhos de quem olha pela primeira vez. Mesmo quando embalados na rede esticada ao lado do baloiço, mesmo quando ensaboados pelo chuveiro balde, roubávamos à garganta os acordos tortos da nossa canção preferida.


O presente é uma coisa estranha, anda sempre atrás de nós. E já ali estava, olha para ele, no regresso, quando voltámos do Verão cheios de trabalhos, uma tese, talvez sobre Heidegger, e eu desesperadamente concentrado no ser para a morte quando sempre quis ser apenas para a vida. Merda para o Heidegger, dizias. Mas a culpa não era do filósofo alemão, não tanto como era de um semestre inteiro a ouvir o César das Neves especular sobre a melhor tradução para dasein. Eu bem lhe tentei explicar, mas ele não me deu ouvidos. Dasein é o Artur a ser lembrado daqui a, sei lá, 13 anos, é o sorriso do meu amor comovido com a leitura de um texto que hei-de então escrever, é eu para a vida enquanto ao fundo da estante a figura de Nietzsche se cola à sombra de Sócrates com a Janis Joplin a fumar um charro de premeio. Dasein, ó senhor professor, é tomar banho debaixo de um chuveiro balde enquanto o Artur me lambe os pés e os pinheiros abanam ao vento da nossa alegria. Chumbei.

domingo, 29 de novembro de 2009

SAPPY


Trazem-nos chá com torradas, doce de tomate. O que penso disso? Não penso nada. As caves onde andávamos aos encontrões fingindo que dançávamos foram todas transformadas em salões de chá, agora é proibido fumar e respirar mata, passeamos os olhos por centenas de canais. Alguns jovens têm um ar muito sério e respeitável, querem ser clones dos pais enquanto os pais os colonizam. Outros fumam drogas, roubam carros, passam horas no ginásio a enrijecer os músculos com que defenderão as damas dos rivais. Mal sabem elas que o mais provável será, dentro de anos, servirem de saco àqueles músculos. Sobre assuntos destes fazem-se estatísticas. O que penso disso? Não penso nada. Bebo um chá e como torradas.

CARAPAUS GRELHADOS

A minha mulher tem o terrível defeito de me amar. Esforço-me para o contrário, mas ela lá vai dizendo que não pode viver sem mim. Uma vez fiz-lhe uma surpresa. Levantei-me cedo, fui ao mercado comprar pão caseiro e queijinhos frescos, legumes para uma salada e carapaus. Depois grelhei os carapaus, temperei uma salada, cozi umas batatas e um ovo, servi-lhe os queijinhos de entrada. Ela gostou de molhar o pão caseiro no azeite, debicou a salada e os queijinhos, mas quase não tocou nos carapaus. Queixou-se de que o peixe grelhado lhe provocava gases. Após a refeição, ferrou-se a dormir e deixou-me a sós com os carapaus. No dia seguinte, disse-lhe que ia comprar cigarros e pus-ma a andar. Só parei ao quilómetro 15, quando as pernas não aguentavam mais e as bolhas cresciam nos pés. Apanhei boleia para o mais longe possível. Regressei a casa passados cinco anos. A minha mulher olhou para mim e perguntou: já? Disse-lhe que tive saudades de casa, ela respondeu-me que não podia viver sem mim. Viveste os últimos cinco anos sem mim, lembrei-lhe. Ela sorriu-me, abraçou-me, perguntou-me se eu queria carapaus grelhados ao jantar.

sábado, 28 de novembro de 2009

A SOLIDÃO E O SONHO

O sonho encontrou a solidão numa noite de Verão. Foi amor à primeira vista. Como todos os amores de Verão, também este amor durou o que tinha de durar. Não estava na natureza da solidão entregar-se a quem quer que fosse, e muito menos fazia parte da natureza do sonho deixar de sonhar com o amor dos seus sonhos.

POST-SCRIPTUM

Na verdade, a estória anterior não se passou exactamente como se encontra relatada. A mulher sacou de uma pistola e disse que se ia matar. O homem dizia-lhe vamos embora, vamos embora. Ela continuava a ameaçar que se ia matar. Rodrigo pegou na caçadeira e atirou contra os dois, deixando-se depois adormecer no maravilhoso silêncio da noite.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL

A vida corria-lhe mal, não tinha dinheiro, estava só no mundo, resolveu cortar os pulsos. Mas como conseguiria ele cortar os pulsos se não tinha braços? Resolveu, então, enfiar a cabeça dentro de um forno a gás. Ironia do destino, cortaram-lhe o gás precisamente quando enfiou a cabeça dentro do forno. Restava-lhe uma hipótese, saltar da varanda de casa. Fora de questão. Vivia num rés-do-chão. O desespero era cada vez maior, mas há sempre uma saída. Aquela luz ao fundo do túnel… eram os faróis de um camião guiado por um camionista embriagado.

HARAKIRI

Hōjō Ujinao não tinha estômago para o harakiri. Tentou-o pelas costas. Depois de várias facadas, continuou sem morrer. Sentiu-se imune ao harakiri. Certo dia, ao caminhar debaixo de um céu de tempestade, um raio atingiu a lâmina de uma faca espetada nas costas de Hōjō Ujinao. Morreu electrocutado.

OBSESSIVO-COMPULSIVO

O obsessivo-compulsivo queria matar-se. Comprou uma pistola e um estojo de limpeza para o efeito. Começou a limpar a arma, espreitou-lhe o cano, pareceu-lhe sujo, continuou a limpá-lo, a sujidade não desaparecia, limpou, limpou, limpou, obsessivamente, compulsivamente, e o cano parecia-lhe sempre sujo por dentro, conspurcado, imundo, sebento, repugnante, asqueroso. O obsessivo-compulsivo morreu de ataque cardíaco a tentar limpar o cano da pistola.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

PEÕES

Deitou-se na linha do comboio à espera que ele passasse. Quando o pressentiu, encolheu-se tanto, tanto, que o comboio passou-lhe por cima e nada aconteceu. Acabou por ser esmagado pelas solas dos peões.

AFOGADO

Tomou um banho de imersão, secou o cabelo, lavou os dentes, vestiu o melhor fato que tinha, perfumou-se. Fez tudo isto sem reparar que se tinha esquecido da torneira da banheira aberta. Preparou uma refeição suculenta, enquanto a casa se enchia de água. Ele não reparava. Estava concentrado na sua refeição. Depois subiu para uma cadeira, atou uma corda ao pescoço, enquanto a água continuava a subir. Deu algum balanço à cadeira e saltou. A corda partiu-se, ele caiu desmaiado no chão. Acordou submerso, afogado. Nos jornais saiu a notícia: homem morreu afogado na sua própria residência.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

CONSTA QUE...


...o senhor Herberto Helder nasceu no Funchal a 23 de Novembro de 1930, perdeu a mãe aos 8 anos, dizem que estava doente desde o nascimento do filho, completou o 5.º ano do liceu no Colégio Lisbonense e, já em Lisboa, concluiu o 7.º ano do liceu na Escola Luís de Camões, frequentou o 1.º ano de Direito e o curso de Filologia Românica na Universidade de Coimbra, publicou os primeiros versos, entre 1952 e 1954, na colectânea Arquipélago, regressando posteriormente a Lisboa para trabalhar na Caixa Geral de Depósitos e como angariador de publicidade do Anuário Comercial Português, publicou poemas na colectânea Poemas Bestiais, colaborou no jornal A Briosa, regressou ao Funchal para trabalhar no Serviço Meteorológico Nacional, o pai negou-lhe o pecúlio necessário para zarpar para o Brasil, zarpou novamente para Lisboa, frequentou o grupo do Café Gelo, trabalhou como delegado de propaganda médica, colaborou no semanário Re-nhau-nhau, nas revistas Búzio, Folhas de Poesia, Graal, no suplemento Ágora do semanário Voz do Tejo e no suplemento Diálogo do jornal Diário Ilustrado, subscreveu, com João Rodrigues e José Sebag, o texto O Cadáver Esquisito e os Estudantes, casou com Maria Ludovina Dourado Pimentel, Luiz Pacheco publicou-lhe, na Contraponto, o primeiro livro, disse Pacheco: Oh Herberto, você escolha o seu poema que preferir, achar melhor, e traga. Gostava de o editar. O Herberto daí a dias trazia um poema, hesitou um tempo no título («Um Amor Feliz» teria sido uma hipótese, parece-me) e acertou em «O Amor em Visita», e depois disto colaborou nas revistas Cadernos do Meio-Dia, KWY e Folhas de Poesia, partiu para França, nasceu-lhe a filha Gisela Ester Pimentel de Oliveira, viveu, entre 1958 e 1960, na França, Bélgica, Holanda, Dinamarca, sobrevivendo de actividades tais como criado de cervejaria, cortador de legumes, enfardador de aparas de papel, policopista, operário nas forjas da Clabeck, carregador de camiões, ajudante de pasteleiro, guia de marinheiros em bairros de putas, colaborou na revista Pirâmide, regressou a Lisboa com bilhete de repatriado, passado em Antuérpia, viveu em Coimbra, recuperou de uma avitaminose, começou a trabalhar como encarregado de biblioteca das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, publicou A Colher na Boca e Poemacto em 1961, publicou Lugar em 1962, colaborou no jornal Távola Redonda, passou a armazenista das Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian, publicou Os Passos em Volta em 1963, traduziu literatura explicativa de medicamentos para laboratórios, co-organizou, com António Aragão, o n.º1 de Poesia Experimental, traduziu Hans Christian Andersen e Italo Calvino, trabalhou na Emissora Nacional, foi sujeito a testes psicofisiológicos no Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria, publicou mais, colaborou muito, reeditou, fez publicidade como copywriter para cinema, publicou, em 1968, Apresentação do Rosto, apreendido pela Censura, concedeu entrevistas ao Jornal de Letras e ao Jornal de Notícias, foi condenado a pena suspensa por causa do envolvimento na edição de Filosofia na Alcova, abandonou a grupoterapia, trabalhou num atelier de arquitectura, participou como actor no filme As Deambulações do Mensageiro Alado, gravou dois discos de poemas seus, foi director literário da Editorial Estampa, nasceu-lhe Daniel João Figueiredo de Oliveira, filho da relação com Isabel Figueiredo, viajou pela Europa, partiu para Angola em 1971, onde fez reportagem para a revista Notícias sob vários pseudónimos, publicou Vocação Animal, onde se afirmava que o autor deixara de escrever em 1968, em 1972 sofreu um acidente de viação, regressou a Lisboa, fez a reportagem de um Benfica-Sporting, publicou, em 1973, os dois volumes antológicos de Poesia Toda, viajou a Nova Iorque, casou-se com Olga da Conceição Ferreira Lima, trabalhou como redactor de noticiários da RDP, viajou, durante vários meses, por Paris, Le Mans, Cambridge e Londres, passou discretamente pelo PCP, publicou, em 1979, Photomaton & Vox na Assírio & Alvim, editora que, desde então, passará a publicar praticamente toda a obra do poeta, fazem-se teses sobre a sua poesia, escrevem-se artigos, proferem-se sentenças, subscreveu, em 1993, um pedido colectivo, dirigido à Secretaria de Estado da Cultura, no sentido de ser atribuído um subsídio mensal ao poeta António Gancho, internado há 26 anos no hospital psiquiátrico do Telhal, Vítor Silva Tavares sobre ele, Herberto, disse: pode supor-se que logrou endoidar psiquiatras, mestres zen e analistas literários, uma sua imagem virtual foi materializada no plenário fascista em réu de crime sádico não cometido, um dia do PREC escapou de boa (tareia) ao ser tomado por Manuel Alegre, o susto tê-lo-ia conduzido, presume-se, à entrada-por-saída no Partido Comunista (só a intriga é revolucionária!), não consta da lista telefónica apesar das contabilizadas inconfidências do Vergílio Ferreira, crê-se que escreverá algures, por certo à mão armada, e oculto, não gosta de ser fotografado, recusa prémios, aparece de quando em vez para dar um ar da sua desgraça. FONTE: JL.

LETRA CÊ

A letra da avó Clarisse
é um arco-íris a fazer
ó-ó
.

Beatriz, 3 anos.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

ELOGIO DO CINISMO (8)


A lição cínica é sempre de actualidade: ensinar a nudez do rei, a ausência de uma diferença de essência, de natureza ou de substância, entre o primeiro dos cidadãos do Império e o último dos escravos da cidade ─ uma sapiência anunciadora de Robert Antelme. De modo idêntico, Diógenes, Crates e os outros querem a desenvoltura no lugar de todas as manifestações de poder: fausto, teatralidade, esplendor dos ouros e das antiguidades. Cínicos, os rebeldes que colocam o seu orgulho bem acima das prebendas oferecidas em troca da colaboração com os poderes instituídos; cínicos, ainda, os revoltados que colocam o pensamento ao serviço da insubmissão, de preferência a pô-lo à disposição das forças que desvitalizam o indivíduo; cínicos, finalmente, os resistentes que opõem o saber ao poder, à laia de contra-poder.
Os conselheiros do Príncipe, os colaboradores ─ como se diz numa palavra que em nada perdeu o seu sentido desde o período dos anos sombrios ─ os técnicos, os funcionários do pensamento que operam em comissões ou fornecem aos homens políticos do momento e aos poderosos do dia dois ou três conceitos susceptíveis, à justa, de serem compreendidos e assimilados pelos jornalistas, esses, perpetuam a miséria e a servidão, a sujeição e o sacrifício das individualidades, em proveito das máquinas sociais, das quais obtêm vantagens em espécies, em termos simbólicos, ou até em liquidez, todos eles, aliás, bem compatíveis entre si.
Onde os auxiliares do poder vigente celebram a virtude do sério, do útil e indispensável para sacramentar o poder, para fazer dele um epifenómeno proveniente do religioso e do celeste, o libertário restaura as virtudes do desvio, da ironia, do humor, do cinismo, sob a forma de modalidades subversivas da linguagem e do gestual, conceptuais e pragmáticas. O riso nietzscheano de Foucault, contra o silêncio feltrado dos palácios presidenciais; a dança de Zaratustra, em contraponto à rigidez dos ministérios, de todos os protocolos; o grotesco de Rabelais e as loucuras de Swift, à laia de resposta aos sussurros dos enxames de porteiros; a chacota de Voltaire e a qualidade de Sartre, como eco às peças douradas da armação de portas e janelas e aos brocados púrpuras; os sarcasmos da festa dos loucos e as antimissas com burros, face à pompa do Eliseu. Vinho a rodos, libações, um Diógenes que peida, onanista e canibal, uma política dionisíaca; brindes com água simples, presidentes da República desmiolados, uma política apoIoniana, eis o inventário das alternativas ancestrais.
O risco que representa o lobo não é certamente o do cão. A este último destina-se a barriguinha ética, o fim de qualquer elegância moral, a obesidade conceptual e a reflexão adiposa, a obra lançada como pasto tanto aos simples como aos necrófagos: uma libra por cada ideia ─ e ainda... ─, uma libra por cada mandato do dono, uma chuva de pregações públicas, uma ocupação dos locais mediáticos da maneira como se ocupam os lugares de lazer. No final de contas, um talento desvitalizado, um pensamento em frangalhos, suturado, e a alma vendida aos parasitas políticos alimentados pelo sangue chupado e pela inteligência escravizada.
Para os outros, os lobos, destina-se o lote concedido aos companheiros de Diógenes através dos séculos: a expulsão, o exílio, a prisão, a tortura, a privação de liberdade, a perseguição, a punição, os maus tratos, a encarceração. Prisão mamertina e células entre quatro muros, montanhas córsegas e jaulas de ferro não longe de Couesnon, fogueiras romanas e salas de tortura espanholas, exílio para a Holanda e mudanças forçadas de paradeiro na América, a Bastilha e Charenton, Jersey e Guernesey ou, hoje, privação de cobertura mediática ou de promoção social, o contrário de tudo o que, de perto ou de longe, se assemelhe ao néctar e à ambrósia dos Eliseus. A loucura de Nietzsche, a sida de Foucault, o suicídio de Deleuze, o silêncio de Blanchot, contra a paixão de alguns pelos almoços em companhia daqueles que nos governam. Os pensamentos fortes associam-se às vidas que os acompanham e os pensamentos débeis também.


Michel Onfray, in A Política do Rebelde – Tratado de Resistência e de Insubmissão, trad. Carlos Oliveira, Instituto Piaget, 1999, pp. 192-194.
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domingo, 22 de novembro de 2009

WALKING IN MY SHOES

Era uma vez um Pai Natal muito, mas mesmo muito, muito, muito pequenino que queria ser como o filósofo Empédocles, o qual, para provar a sua imortalidade, saltou para a boca do Etna tendo este, como conta a lenda, devolvido à terra as suas sandálias de bronze. O Pai Natal muito, mas mesmo muito, muito, muito pequenino saltou para o fundo de uma chaminé e as brasas devolveram as suas botas de couro. Um mendigo que ia a passar na rua, com umas barbas muito, mas mesmo muito, muito compridas, apanhou as botas, calçou-as e seguiu caminho, a sonhar como seria bom ser como o Pai Natal.

O SANGUE POR UM FIO

Ainda é possível escrever sobre a morte, ou algo que se pareça com, sem repetir as mesmas banalidades de sempre, copiadas de um ditado há muito proferido. O título O Sangue Por Um Fio (Assírio & Alvim, Setembro de 2009) talvez iluda ao sugerir um trocadilho com a expressão «a vida por um fio», mas a verdade é que o conteúdo desta recolha, organizado por sete partes de extensão diversa, confirma as suspeitas que o título lança. Que outras eventuais suspeitas sejam desfeitas à partida. Sérgio Godinho (n. 1945), há muito reconhecido como um dos mais consistentes escritores de canções português, finta as fórmulas da canção nestes poemas, não permitindo quaisquer confusões que possam eventualmente surgir entre o formato da canção e a forma do poema. Talvez exista em alguns dos poemas seleccionados, sobretudo nos iniciais, um esforço de escapatória que, curiosamente, acaba por ser o aspecto menos atraente desta poesia. Mas esse será mais um problema do leitor e dos seus preconceitos do que dos poemas em si. Estes afiguram-se-nos elípticos e algo enigmáticos na viagem que propõem inicialmente. É uma viagem pela vida sem estar presa à memória, é uma viagem pelas memórias sem estar presa ao passado, é uma viagem pelas dúvidas que um futuro próximo parece suscitar.

A viagem que se propõe terá como referência o farol da morte. A morte, ou a proximidade disso a que chamam morte, pairará não somente como tema, mas sobretudo como motivo para um convite a embarcar num «barco à deriva já dentro do porto» (p. 9). Os ecos da viagem servirão de escrutínio para o que agora se pretende balancear: a vida. Temos então o enigma da vida cifrado nas guerras passadas, algumas ultrapassadas, outras nem por isso, temo-lo nas ilusões que se foram perdendo pelo caminho e noutras que vieram substituir aquelas, ilusões que o corpo desilude, que o tempo faz recordar como alguém que se recoloca defronte a um «pelotão de fuzilamento»: «A feras de erva mansa / dão-se / peixes de água doce / o isco em dias repetido / e de um só passo se atrai / a raiva do desleixo / as ordens são desde aí / desilusão consumada» (p. 26). Nota-se a ironia desencantada que motiva as erupções da palavra, chegadas à folha como uma espécie de disparo espontâneo e imprevisível. Nada nestes poemas permite entrever a consciência amansada da vida que caracteriza muita da poesia actual, a qual foge aos riscos de se estar vivo como quem recusa a liberdade que lhe não custou conquistar.

Os poemas de Sérgio Godinho tentam-nos. Julgamos ser a morte o tema central deste livro. E, de facto, esse tema paira, do princípio ao fim, com maior ou menor evidência. Mas dentro dele descobrimos uma lição de se estar vivo, uma interrogação constante, as dúvidas e as respostas de alguém que não nega a si próprio o gozo das partidas sem fim determinado: «Nada é mais do que o que fica. / Mas para isso, nada é menos do que agora» (p. 68). Afinal, o que importa, mais do que perceber o que é isto de andar por aqui, mais do que pretender ludibriar o que é isso de deixar de andar por aqui, o que importa é mesmo andar (ir andando também não chega). Estes poemas não se impõem como recados, parecendo-nos, por vezes, que eles escondem uma realidade que é fruto da experiência com a manipulação das palavras. Essa realidade é a de quem se liberta da manipulação da palavra e se deixa manipular pela força sugestiva dos vocábulos. Deste modo, o poema funciona como sugestão, não como uma mera confissão ou como um testemunho, não apenas como uma vontade de dizer algo que não pode ser dito de outra forma, mas como uma experiência de liberdade na relação com a palavra e seus modos de (des)organização formal.

Balanço ou reflexão, testemunho de resistência ou declaração de princípios, este livro vale, sobretudo, pela liberdade com que se coloca defronte ao fim: «O que foi tido por inesperado e imprevisível / talvez seja apenas a maneira de um todo / se descentrar / fugir à tarefa insanamente por nós mesmos exigida / à nossa pequena parte, já manchada de sangue, / sangue por rectas e curvas da coerência. / O sangue por um fio» (do último poema, intitulado Os órgãos vitais, p. 87). Não deixa de ser curioso que num tempo em que proliferam livros de memórias aos 30 anos, seja um autor na casa dos 60 a não se deixar prender ao passado com a nostalgia de quem sente já ter perdido tudo o que ainda não viveu. O Sangue Por Um Fio não se limita, pois, a inventariar uma vida aparentemente por um fio. Ele pega nos órgãos ainda vivos de um corpo presente e faz-lhes um exame anatómico sem preocupações formais, sem aquele tipo de cuidados exigido pelos corpos enfermos. Uma boa surpresa, portanto.

Escrito para o Rascunho.

sábado, 21 de novembro de 2009

UM BERÇO COSMOPOLITA

Nascido num berço cosmopolita, Nazim Hikmet viu a luz do dia, pela primeira vez, a 21 de Novembro de 1901. Foi em Salónica, ainda com o nome Mehmet Hazim. A mãe era pintora, tocava piano e descendia de famílias polacas. O pai era filho de um poeta liberal, mas enveredara pelo serviço público. Foi demitido e investiu parte das posses num malogrado negócio, regressando posteriormente, como tradutor, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros turco. Acabou como gerente de um cinema. Nazim Hikmet cresceu num ambiente progressista e culto, estudou num liceu onde se falava a língua francesa, começou a escrever poemas sob influência do avô, acabando por entrar para a Escola Naval em 1917. Chegou a graduar-se, mas teve de abandonar a marinha devido a problemas de saúde. A experiência durou três anos. 1920 será um ano marcante: ganha um concurso de poesia promovido pelo jornal Alemdar, escreve poemas de resistência contra a ocupação de Istambul, junta-se, com outros poetas, a um grupo de combatentes ligados ao Partido Comunista. É destacado como professor numa escola de Bolu, partindo posteriormente para a União Soviética à procura de formação mais consistente. Estudará sociologia e economia da Universidade de Moscovo. Influenciado pela escrita de Mayakovski, começa a escrever poemas de verso livre que faz publicar em diversos jornais. Regressa à Turquia, ilegalmente, no ano de 1924. Trabalha para o jornal Aydınlık, escreve argumentos para filmes e peças de teatro. É perseguido pela polícia, capturado e condenado. A sua voz literária era ouvida e temida. Passará vários anos na clandestinidade, vivendo entre a URSS e a Turquia com passaportes falsos, sendo capturado, detido, julgado. Grande parte da sua vida foi passada nas prisões. Apesar disso, os seus trabalhos iam sendo publicados. Casa com Piraye Altınoğlu a 31 de Janeiro de 1935, após uma relação suspensa durante cinco anos por causa dos interrogatórios e das detenções a que Nazim Hikmet era sucessivamente sujeitado. Já tinha casado duas vezes anteriormente, na União Soviética. Primeiro, com Nüzhet Hanım; depois, com Dr. Lena - relações frustradas pelas saudades da pátria. Nazim Hikmet sobrevive do que publica nos jornais, desde anedotas a contos assinados por variadíssimos pseudónimos. No final de 1936 é novamente preso, o que voltará a acontecer em Janeiro de 1938, saltando de prisão para prisão, onde lia poemas aos colegas de cela e ouvia-lhes as mais apuradas críticas. Finda a Segunda Grande Guerra, a liberdade não lhe é concedida. Entra em greve de fome a 8 de Abril de 1950, agravando os problemas de coração. Foram precisas outras greves de fome, muitos quilos perdidos, o corpo a entrar em delírio para que a liberdade chegasse a 15 de Julho de 1950. Em liberdade, divorcia-se de Piraye e casa com Münevver Andaç, uma prima que o visitara regularmente na prisão. Trabalha como guionista, tem um filho, continua a ser vigiado pela polícia, não consegue levar as suas peças à cena e vê os seus livros serem censurados. Obrigado a cumprir o serviço militar que fora interrompido por problemas de saúde, foge para a Roménia. Abdica da cidadania turca e naturaliza-se polaco. A polícia persegue Münevver e o filho enquanto o poeta granjeia fama no estrangeiro, marcando presença em congressos, visitando vários países, sendo traduzido em várias línguas. Recebe o Prémio Internacional da Paz e assume um papel de relevo no Conselho Mundial da Paz, ao mesmo tempo que começa a inquietar-se com o regime estalinista. Longe da mulher e do filho, apaixona-se por Galina Grigoryevna Kolesnikova, a médica que lhe tratou uma pneumonia no sanatório de Barvikha. Uma das suas peças é censurada em Moscovo após a noite de estreia. O autor sofre uma depressão, pensa em suicidar-se, mas um novo amor captura-o da morte. Vera Tulyakova, assim se clamava a jovem, era casada e tinha uma filha. Nazim era seis anos mais velho que o pai de Vera, oferece-lhe chocolatinhos e flores, trabalham juntos num argumento e numa peça de teatro, começam a viver juntos. Casam a 18 de Novembro de 1960. Após uma lua-de-mel em Paris, Nazim foi a Cuba levar um prémio a Fidel. Conhece Joyce Salvadori Lussu, uma delegada italiana do Conselho Mundial da Paz. Joyce desconhecia a recente relação de Nazim com Vera. Ao visitar Istambul no ano de 1960, conheceu Münevver Andaç e comprometeu-se a ajudá-la a sair da Turquia. Quando Nâzım Hikmet regressa de Cuba, encontra-se com a ex-mulher. Vera não aprecia a história, mas tudo acaba por se resolver. Münevver fica a viver com os filhos na Polónia, Nâzim e Vera permanecerão em trânsito pelo Egipto, Praga, Berlim, Leipzig, Bucareste, Itália, Paris, Moscovo, etc. Nazim Hikmet morre a 3 de Junho de 1963, vítima de ataque cardíaco, na casa de Moscovo, ao lado da sua jovem mulher.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

QUANDO FOR GRANDE

MC O que é o inferno? Ah! Olha, então não digo o que é o inferno. Vou dizer antes outra coisa. Eu aqui, agora... vocês vão-se embora, estou a dizer eu, que estou aqui neste quarto, estou numa espécie de paraíso muito parecido com o inferno, sabes? Mas acho que isto é verdade. Estou aqui. Nesta casa. Numa espécie de paraíso, muito parecido com o inferno.

(...)

MGM Então para que é que isto serve?

MC Não sei, serve para foder que é muito agradável e dá muito gozo. Serve para amar... e serve para morrer. Pronto!

In Autografia / Verso de Autografia, um retrato de Mário Cesariny por Miguel Gonçalves Mendes, Assírio & Alvim, Novembro de 2004. Para entrar nos 35 em boa companhia.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

QUANDO FOR GRANDE...



«Não vogando já na doce ilusão de uma sociedade sem classes, concordei em aceitar viver numa sociedade sem classe».

João César Monteiro, in Uma Semana Noutra Cidade, &etc., Novembro de 1999, p. 15.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

ACORDAR

Caminhava por uma rua onde passa todos os dias. Meteu o pé numa poça. A poça transformou-se num pântano, o seu corpo começou a enterrar-se. Ele gritava por socorro, mas ninguém o ouvia. As pessoas circulavam desatentas, contornavam a poça, enquanto ele continuava a ser engolido pelo pântano. Subitamente, deu por si a observar-se. Estava numa sala de cinema. Não. Estava numa sala de exposições. Contemplava-se a si próprio enquanto se afundava no pântano. As pessoas continuavam a circular, ele olhava para o seu próprio sufoco mas nada fazia, não tinha braços, não tinha boca, limitava-se a assistir à sua própria queda como um espectador que assiste a uma tragédia íntima, pessoal, e nada pode fazer. Depois acordou. É o que lhe vai valendo. Os seus sonhos acabam sempre bem.