quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

MEMÓRIA DO PRESENTE

25.
Pelo cão!
Hoje aconteceu-me o facto mais importante
de toda a vida geográfica do meu corpo:
cerceei a minha dionisíaca barba até à novidade,
sendo apenas magnânimo com o indefeso bigode.
Dizem os da casa que me encontro irreconhecível:
sofri sem dúvida um verdadeiro e higiénico avatar,
sou um outro homem renascido inopinadamente,
um outro travo biológico de esperança isenta
...a recém descoberta de uma insólita leviandade!

Se não fossem os pêlos implantados no rosto,
o que seria de mim sem tão benéfico auxílio?
Não poderia fugir à monotonia do quotidiano,
nem tão-pouco efigiar mais ou menos exemplarmente
as mais esquipáticas figuras ou faces fictícias:
personagens ambíguas do sonho real que vivo,
justificações sãs da minha pirética estesia.

Hoje sou a pintura suave e verde de Modigliani,
trago o bigode vincado na aridez do meu fácies,
duas rugas côncavas a estiolar a harmonia da cor,
uns lábios belfos e vermelhos fesceninos de dor,
uns olhos garços tauxiados na placidez do rosto.
No coração sobressai o amarelo obeso de van Gogh,
o sexo é um magento osso daliano em convulsões,
as pernas são devaneios matizados de Kandinsky,
os braços dois cones azuis aplainados de Picasso.

Sou agora a pintura universal e humana,
o meu corpo a tela em constante viagem,
o pintor é o sibilino tempo da estiagem,
o último quadro o estertor rouco da agonia;
um féretro pesado de difíceis recordações,
uma cova da última emoção, uma plangente alegria.


Silva Carvalho, in Memória do Presente, Brasília Editora, Porto, 1977, p. 41. Pobre desgraçado. Nasceu a 8 de Fevereiro de 1948 em Vila do Conde. Frequentou a Universidade de Coimbra antes de se exilar em Paris, em 1969. Regressou a Portugal em 1975, licenciando-se em Filologia Românica. Foi professor do ensino secundário, Leitor na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, E.U.A. (1985-89), na Universidade de Goa, Índia (1990-91) e na Universidade de Massachusetts, Dartmouth, E.U.A. (1997-2001). Leccionou na Escola Secundária de Santa Maria, em Sintra, até 2008. Publicou na Black Sun, na Fenda, entre outras editoras ditas de circulação restrita. Não coube na Antologia.

PENHORE OS SEUS BENS, E VIVA NO REAL


Francisco Van Zeller terminou a sua liderança da Confederação Industrial Portuguesa (CIP), iniciada em 2002, e deu uma das suas poucas entrevistas ao último Diário Económico do ano de 2009 (31 de Dez/2009), ano em que manifestou a sua oposição ao aumento do Salário Mínimo Nacional (SMN). O que não o impede de fazer a afirmação extraordinária que recebeu destaque de primeira página. Se FVZ se refere à incapacidade de viver com esse valor por mês, não será por falta de imaginação, mas sim por falta de capacidade de observação da arraia miúda à sua volta. Presumo que não se confronte com a pobreza de quem trabalha nas suas deslocações de Mercedes ou BMW entre a sua vivenda ou condomínio fechado e os escritórios da CIP. Presumo que a sua afirmação não se refere à incapacidade de imaginar-se a manter o mesmo nível de vida auferindo o SMN. Só a roupa que traz vestida deve rondar esse valor. Porque recusa o aumento do SMN? (a resposta está aqui)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

FEELING


Num ensaio datado de 1941, João Cabral de Melo Neto diz que «o sono predispõe à poesia». Ele abre-nos as portas à aventura do sonho e oferece-nos um simulacro da morte. Acontece que as pessoas com insónias também sonham. Sonham que têm pesadelos e acordam sobressaltadas. E quando sonham que acordam sobressaltadas acordam mesmo. Depois continuam a sonhar acordadas com soninhos descansados onde engendram projectos futuros: uma plantação de frutos secos, de poemas.

REVER METROPOLIS


Fritz Lang foi o segundo marido de Thea von Harbou, actriz e escritora a quem devemos o romance que serviu de base a Metropolis (1927). Projecto ambicioso e inacabado, o filme de Lang mostra-nos um séc. XXI dominado por uma paisagem urbana, essencialmente industrial, de grandes edifícios erigidos sobre cavernosos mundos subterrâneos. À superfície, nos jardins eternos, vêem-se seios dissimulados por tecidos transparentes, vidas luxuosas e luxuriantes, sustentadas pela exploração da massa operária. Esta, confinada à engrenagem mecanizada da produção, limita-se a cumprir tarefas, horários, resignada, cabisbaixa, soterrada no seu próprio sufoco. O filme começa com uma mudança de turno e acaba por parecer moralmente ingénuo na mensagem final: O mediador entre o cérebro e as mãos tem de ser o coração. Há um catecismo inconsequente nestas palavras, mera retórica que tem garantido, ao longo da história da humanidade, o predomínio dos mais fortes (porque mais ricos) sobre os mais fracos (porque mais pobres). Seria necessário levar o cérebro à força bruta das mãos - e vice-versa - para que algo mudasse no coração dos homens, mas o coração dos homens não muda: é humano. E este parece-me ser o aspecto mais interessante do filme de Lang. Se bem observarmos, a ficção científica que caracteriza o argumento é clássica na sua origem. O inventor Rotwang quer vingar-se do todo-poderoso Joh Fredersen por lhe ter este roubado a amada. Uma história de amor e vingança, portanto, disfarçada pela revolta dos escravos, sempre tão voláteis na hora de agir. Ressalta à vista a incapacidade de organização voluntária das massas, necessitadas de mediadores que garantam um diálogo com as forças dominadoras. Matem as máquinas, o slogan apregoado pela mulher-máquina inventada por Rotwang, endrominará os corações frustrados do povo, para logo de seguida acabar a mulher-máquina, ironicamente, vítima do seu discurso. O curioso é que antes da mulher-máquina ter sido lançada à fogueira ninguém sabia que se tratava de uma máquina, todos julgavam tratar-se da “catequista messiânica que pregava a resignação”, uma bruxa. Incitados à revolta por um autómato disfarçado de messias, os escravos de Joh Fredersen, sem o saberem, tornam-se escravos ao serviço do vingativo Rotwang. Mas, ainda que revoltados, permanecem escravos. Não admira, por isso, que no final todos pareçam vítimas da fúria e entre o cérebro de Joh Fredersen e as mãos dos operários surja o coração do patético Freder, filho do ditador, a servir de ponte para aquilo que temos hoje: uma república de explorados que desprezam os exploradores ao mesmo tempo que, invejando-lhes a condição, tudo fazem para ser promovidos do mundo subterrâneo aos jardins da eternidade. No meio disto tudo, só a vingança do inventor Rotwang me parece verdadeiramente cativante. Pelo menos há nela o mérito de uma paixão, ecos de uma ferida amorosa que não sara, o coração em chamas que há-de faltar sempre ao homem do futuro, o homem-máquina que apregoa a revolta contra as máquinas, ou seja, contra si próprio.

À TARDE

A tarde lenta cai. E cai também
Uma melancolia venenosa,
Meu Deus! que não sabe donde vem…

E vem como uma sombra vagarosa
Que chovesse dum céu crepuscular…
Vem subindo da terra dolorosa
Como um grande dilúvio de pesar,
Como um olhar de dor silenciosa
Que tentasse subir para as estrelas
E ficasse disperso pelo ar…

E vem do fundo de alma… Perscrutasse
A gente o coração pra sentir bem
Que é lá no fundo de alma que a dor nasce
E é de lá sobretudo que ela vem…

De lá! De lá do fundo! Bem do fundo
De nós mesmos… E, lenta, vem subindo
Aos olhos que a reflectem, reflectindo
Na nossa dor a dor de todo o mundo!

Dolorosamente
A tarde exausta morre de cansaço
E parece que sofre a natureza…
Anda uma luz de cinza pelo espaço
E lentamente
Envolve as coisas todas de tristeza…

E a tarde cai nos olhos e entristece-nos…

E toda a melancolia,
De lá do fundo de alma aonde está,
Vem-nos subindo aos olhos e escurece-os…

Os olhos escurecem e dir-se-ia
Que é de lá
Que a tristeza das coisas irradia…

A tristeza das coisas… Afinal,
Ó tristeza das coisas, tu existes
Dentro de nós, em nossas almas tristes,
Como um eco da dor universal!

Ó silêncio das coisas, é ouvindo
O próprio coração que te escutamos!
E as lágrimas das coisas vão caindo
…E somos nós que as choramos!

Sim, nós!... Quem sofre e chora, somos nós!
Um choro de cobardes e vencidos,
Nessa hora de sombra em que, transidos,
Olhamos em redor… e estamos sós!

Sós! Todos sós! Ó almas solitárias,
Vede a tristeza da tarde!
É vendo-a que a noss’alma desolada
Se sente mais sozinha, abandonada,
E o nosso coração é mais cobarde…

É vendo a claridade agonizar,
Como um olhar voluptuoso e triste,
Que sentimos subir-nos surdamente
Aos olhos o desejo de chorar
Baixinho, docemente,
Sobre o peito de alguém… que não existe!
……………………………………………………………
E, quando sobre o mar
Cai a noite do céu pesadamente,
A gente, sem querer… põe-se a chorar!





Manuel Laranjeira, in Líricas Portuguesas – 2.ª série, Portugália Editora, 3.ª edição, Setembro de 1967, pp. 111-113. Pobre desgraçado. Nasceu em Vergada a 17 de Agosto de 1877. Dedicou-se, desde muito novo, à poesia, ao teatro, à crónica. Oriundo de uma família modesta, chegou a médico. Um homem polémico que não prescindiu da actividade política. Obteve 19 valores com a tese de doutoramento A doença da Santidade. Foi viajado, amigo de Amadeo de Souza-Cardoso, conheceu Unamuno ─ «Fué Laranjeira quien me enseño a ver el alma trágica de Portugal y me enseño no poços rincones de los abismos tenebrosos del alma humana» ─, trocou correspondência com Pascoaes, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, João de Barros, etc. Uma sífilis nervosa e a “inépcia dos políticos” deram-lhe cabo dos nervos. Suicidou-se com um tiro na cabeça a 22 de Fevereiro de 1912. Não coube na Antologia.

SÍTIO #6


Sítio
N.º 6, 2010
Académico de Torres Vedras

Inventar a Realidade, pp. 58-66.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

LHASA DE SELA (27 de Setembro de 1972 - 1 de Janeiro de 2010)



A voz de Lhasa é a respiração a cantar. Histórias de amor, sim, canções nocturnas, cantadas em cabarés, tabernas, nas ruas onde o povo dá voz à tradição. Tangos, blues, western, valsa, folk, vaudeville, bolero e por que não fado? Os sopros, as cordas e as percussões, a densidade, como se estivéssemos atravessando ruas desérticas ladeadas por árvores gigantescas. Como se estivéssemos a observar uma mulher a dançar com a própria sombra. Uma doçura, uma ternura imensa, a sensualidade desenhada a preto e branco com os contornos de uma simplicidade que dispensa grandes reflexões. Porque as grandes reflexões levam-nos sempre aos locais de partida. É tão simples partir para apenas chegar. Ao mesmo tempo, é tão comovente. (3 de Junho de 2008)

EXALTAÇÃO



Vida! quero viver! quero em prazeres
Sequioso saciar-me!
Deste frio letargo, em que hei vivido,
Quero, enfim, libertar-me!
Pr'a longe, o manto da indiferença! Aos gozos!
Eia! aos festins da vida!
Os mais convivas se sentaram há muito.
Dai-me a parte devida.
Pr’a longe pensamentos de tristeza
Gelado desalento!
Vou embriagar-me nas ardentes taças
Beber nelas o alento.
Mundo, dá-me o prazer que aos mais concedes!
Da isolação estou farto.
Adeus, ó solidão, adeus repouso.
Adeus… pr’a sempre eu parto!
Os rumores da turba escuto ao longe
No seio dos folgares;
E só eu, frio, cruzarei os braços,
Não buscarei seus lares?
Oh! não; é tempo, as alegrias chamam-me.
Antes de exausta a taça
Corramos a beber nela, que o gozo
Co’a juventude passa.
Amigos, esperai, eu já vos sigo.
Louco do que se isola!
Nem se torna melhor, nem suas penas
Na solidão consola.
Vamos ao menos no rumor das festas
Sufocar este grito,
Que nos brada: ─ Padece, que de lágrimas
Foi teu destino escrito ─
Vamos… ao menos no fulgor dos bailes
Fascinemos a vista.
Talvez aí se encontre o esquecimento,
Talvez o gozo exista.
Quebremos esta lápide marmórea
Que nos cingia em vida
Ressuscitemos! Eia, ó alma, acorda
Desta feral jazida.
Vamos!... às festas, ao prazer, aos cantos
Às flores e harmonias,
Taças a trasbordar, luzes fulgentes,
Delirantes orgias!
E, então, no meio do delírio fervido.
Perdido, embriagado,
Talvez encontre a paz que embalde tenho
Na solidão buscado.

Abril de 1860.



Esta exaltação, como quase todas, terminou em nada. Não cheguei a incomodar os convivas dos festins da vida para me darem lugar e espero que nunca os incomodarei. Divirtam-se em paz.

Júlio Dinis, in Poesias, Publicações Europa-América, s/d, pp. 247-248. Pobre desgraçado. Nasceu no Porto a 14 de Novembro de 1839. Foi escritor e médico, mas não se livrou da doença. Perdeu a mãe, vítima de tuberculose, aos seis anos. Ele próprio acabou por morrer vítima da mesma doença, com apenas 32 anos. A tuberculose foi a causa da morte de todos os seus oito irmãos. As poesias foram dadas à estampa postumamente, em 1873. Não coube na Antologia.

domingo, 3 de janeiro de 2010

ADULTOS

Há um ano, a Beatriz perguntava-me para onde tinham ido os foguetes. Hoje apanhou as canas: «Não podes passar por poças de lama porque isso não é de adultos. É só de avôs e de avós.»

sábado, 2 de janeiro de 2010

ODE


A miúda de James Bond
Está na cama, com
Um pesadelo durante uma trovoada
Todas as folhas caíram:
Dois homens no espaço,


Uma senhora com o cão,
Uma senhora com o filho,
Uma árvore casa, pequenas cabanas e barcos,
E homens apanharam pardais
Para levar para outro país

Aarão ficou no templo
Mas Mrs. Grub foi ao dentista
Deixando o filho com bexigas doidas
Chovia dentro de casa
Nevava nos carros da polícia

E assim a menina mimada
Que arrasta o cabelo
Baixo baixo baixo no tapete de treino
Libertando o poder da serpente
Da sua espinha atrás dela

Ouve a coruja
Que já não grita
Ofuscada por faróis por assim dizer
E atravessando a estrada, a árvore vazia,
E a mente mais vazia do que antes, e mais livre.

The Paris Review, n.º53, 1972.

Tradução de Manuel de Seabra.


O poeta David Shapiro nasceu a 2 de Janeiro de 1947, em Newark, Nova Jersey. Estudou na Universidade de Columbia e em Cambridge. É muitas vezes apresentado como uma criança prodígio, que aos dez anos lia e decorava versos de Milton, Shakespeare, Blake e Eliot. Foi distribuindo interesses por matérias tão diversas tais como música, matemática, pintura, arquitectura e poesia. Em criança tinha o sonho de vir a ser violinista, talvez influenciado pelo avô, um conhecido hazzan (condutor da liturgia) da comunidade Yiddish norte-americana. Começou a escrever poesia com nove anos e um ano depois publicou os primeiros versos na Antioch Review. Aos dezoito anos editou o primeiro livro, uma colectânea intitulada January. A família preferia que tivesse seguido a carreira de violinista, mas os elogios de outros autores acabaram por ditar uma carreira noutras músicas. Colaborou com várias revistas: Poetry, Art and Literature, The Paris Review, etc., tornando-se rapidamente conhecido entre poetas influentes como John Ashbery, Frank O’Hara e Diane DePrima. Em 1968, granjeou alguma notoriedade junto dos movimentos contestatários ao ser fotografado, juntamente com outros estudantes, a ocupar o escritório de Grayson Kirk, então director da Universidade de Columbia. Dois anos mais tarde casou-se com Lindsay Stamm, arquitecta e designer, de quem teve um filho, Daniel, também ele poeta. Historiador de arte com formação em literaturas comparadas, David Shapiro havia crescido num ambiente de convívio entre artistas reputados. O pai era escultor, a mãe cantora lírica, um dos tios era pianista e publicou poemas no New York Times. A dimensão poliglota e cultural da sua vida reflectiu-se na obra, dando azo a várias colaborações com arquitectos, poetas associados à denominada New York School (movimento avant-garde iniciado na década de 1950 ainda na esteira da beat generation), músicos como John Cage, o filósofo Jacques Derrida, o cineasta Rudy Burckhardt, entre muitos outros. Escreveu ensaios sobre Jasper Johns, Jim Dine, Piet Mondrian, entre outros. Co-editou, com Ron Padgett, An Anthology of New York Poets. Foi professor na Universidade de Columbia, no Bard College, na Universidade de Princeton…Traduziu Rafael Alberti, poemas de Picasso e os escritos de Sonia e Robert Delaunay. Tem um percurso vastamente premiado. Para ver e ouvir: aqui.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

GUILTY


Chegou-me pela primeira vez numa voz holandesa. Só depois vim a escutá-la nas cordas originais. Numa e noutra, a mesma emoção: o regresso ao regaço de quem nos vai aturando as bebedeiras. Sou culpado, claro, mas também não peço que me perdoem. Não faço mal a ninguém. E vá lá, compreendam que viver comigo próprio há 35 anos é uma prova de resistência dificilmente ultrapassável.

NÃO É FÁCIL O AMOR

Não é fácil o amor melhor seria
Arrancar um braço fazê-lo voar
Dar a volta ao mundo abraçar
Todo o mundo fazer da alegria


O pão nosso de cada dia não copiar
Os males do amor matar a melancolia
Que há no amor querer a vontade fria
Ser cego surdo mudo não sujeitar


O amor o destino de cada um não ter
Destino nenhum ser a própria imagem
Do amor pôr o coração ao largo não sofrer


Os males do amor não vacilar ter a coragem
De enfrentar a razão de ser da própria dor
Porque o amor é triste não é fácil o amor


(cantado no álbum A Cantar ao Sol, 1983, de Janita Salomé)


Luís Pignatelli foi o pseudónimo literário de Luís Oliveira de Andrade, nascido em Espinho, a 1 de Janeiro de 1935. Estreou-se nas letras em 1953, com um poema intitulado aguarela, assinado por Luís de Andrade, publicado na revista Bandarra. Tinha 18 anos. Em meados da década de 1950 mudou-se para Coimbra, cidade onde travou amizade com José Afonso: «Ele trabalhava lá nas Águas, numa secção da Câmara Municipal, chateadíssimo. Era um tipo que não se dava com aquela cidade. Tinha problemas vários e foi sempre bastante meu amigo em períodos muito difíceis que vivi em Coimbra» (José Afonso). Autodidacta, com pouco mais que a instrução primária, Pignatelli foi publicando alguns versos na revista Vértice e no suplemento cultural Perspectiva 60, do jornal Folha de Tondela, assinando também algumas capas e ilustrações em publicações diversas. Conhece Herberto Helder, Adriano Correia de Oliveira, António Quadros, Manuel Alegre, entre outros. Em 1963 passou uma temporada em Moçambique, trabalhando como jornalista na Tribuna de Lourenço Marques. Regressou a Portugal, como funcionário do Município de Coimbra e crítico de música e artes plásticas na imprensa local. Mudou-se para Lisboa em 1965, onde frequentou as tertúlias da época. Nesse mesmo ano nasceu-lhe o primeiro de cinco filhos, colaborou nos suplementos literários de vários jornais, nas revistas Commedia, O Tempo e o Modo, Cronos, Crónica Feminina ─ onde publicou, entre 1968 e 1973, a magnífica série de prosemas intitulada A Máquina do Tempo ─, Grial, Camões, Sílex e O Eugénio. Apareceu representado, entre outras, na Antologia de Poesia Concreta em Portugal, de E.M. de Melo e Castro e José-Alberto Marques. Em 1973, publicou o seu único livro, Galáxias, na Moraes Editores. A maior parte da sua obra poética ficou dispersa por jornais e revistas até à reunião póstuma da Obra Poética 1953-1993, organizada por Zetho Cunha Gonçalves e publicada na &etc. (1999). Pignatelli faleceu em Lisboa, a 20 de Dezembro de 1993. Além de poeta e ilustrador, entrou como actor no filme A Culpa, de António Victorino d’Almeida, foi crítico gastronómico, tradutor, autor de músicas e canções cantadas por Zeca Afonso, Vitorino, Janita Salomé.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

DISAPPOINTED IN THE SUN (o meu 2009)


Sou um lacrau do deserto, tenho uma costela árabe. Prefiro viver na sombra, mas sobrevivo a altas temperaturas. Alimento-me ociosamente do pouco que necessito. A minha principal contradição é o fundo do mar, para onde quero ir quando a melancolia me açoita a cauda. O louva-deus é o meu principal inimigo. Agora que o ano finda, sem que ninguém me explique por que outro começa, penso que talvez seja bom recapitular o êxtase à meia-noite de 31 para logo a seguir, na manhã do primeiro dia, voltar a sentir a ressaca de estar vivo. Balanceio o meu 2009 às costas de Para Sempre:

─ E depois?
─ Como depois?
─ Porque ou tu não realizas o absoluto sonhado e então falhou, ou o realizas e ficas à boa vida. E então depois? Como vais viver em pasmaceira? E em que alínea do teu programa político se trata também do problema da morte?
E eu então disparatei contra mim:
─ Que problema de merda é esse do absoluto e da morte?
─ Fala baixo que as tias podem ouvir.
─ Que problema de caca é esse de desocupados? Tu devias passar fome para teres razão de falar. Os teus problemas são um insulto para quem não tem que comer. Eu estou-me nas tintas para todo esse mistifório de meninos mimados pela sorte. Quero lá saber do depois do depois. Quero é saber do agora, aqui, quero saber de problemas concretos, daqueles que se resolvem com as mãos, com os pés, no estômago. Toda essa metafísica de merda.

Mas Vergílio Ferreira também estava equivocado. O meu problema concreto de agora é mesmo a retórica do depois. É um problema fodido que hei-de resolver à maneira da Fernanda Ribeiro:

Este é um 2009 que nunca esquecerei.


Talvez venha a esquecer o 2009 do ano passado ou o 2009 de aqui a dois anos ou o 2009 de há 10 anos atrás, mas este 2009, este de agora, concreto, problemático, com suas dores de estômago, pé de atleta e mãos encarquilhadas... eu jamais esquecerei.

O CASO


Danil Ivánovitch Iuvatchov (ou Daniil Ivanovich Yuvachov ou Даниил Иванович Ювачёв), mais conhecido por Daniil Harms (ou Kharms) nasceu em São Petersburgo no ano de 1905, presumivelmente a 30 de Dezembro, mas também a 17 do mesmo mês, se nos quisermos guiar por outros calendários. Filho de Ivan Iuvatchov, figura proeminente do grupo revolucionário Vontade do Povo, contactou, desde muito cedo, com gestos subversivos e suas consequentes retaliações. Sob o jugo de Alexandre III, o pai foi preso, condenado a trabalhos forçados perpétuos, condenação posteriormente substituída por quinze anos de reclusão. Morreu em 1940, cumprindo um percurso de escritor de histórias fantásticas a filósofo religioso e pacifista. Daniil teve o privilégio de estudar numa escola de inspiração germânica, onde adoptou o pseudónimo Kharms, embora variando entre DanDan, Khorms, Charms, Shardam, Kharms-Shardam, etc. Em 1924 foi estudar para Leninegrado, onde iniciou a sua vida literária junto de um grupo experimentalista que praticava a «poesia zaum» (linguagem poética sem significado definido). Rapidamente abandonou o grupo e aderiu à associação «tchinari» (experimentação em ritmos), mas só em 1927, com a formação do colectivo vanguardista OBERIU (Associação de Arte Real), é que a sua actividade ultrapassou o domínio da animação e atingiu o nível da publicação. «Poesia não é papas de painço que se engolem sem mastigar para se esquecerem logo a seguir», defendiam os OBERIU, ao mesmo tempo que apontavam a mira contra a escola zaum. No manifesto dos OBERIU, Daniil Harms era apresentado como um «poeta e dramaturgo que não concentra a atenção numa figura estática mas sim na colisão de uma série de objectos, nas suas inter-relações». Ainda antes da aventura OBERIU, Daniil havia casado com Ester Aleksandrovna Rusakova, de quem acabou por se divorciar em 1932, para se casar novamente, em 1934, com Marina Vladimirovna Malich. Em 1926 conseguira publicar dois poemas para adultos, os únicos publicados em vida, em antologias organizadas pela All-Russian Union of Poets. As performances absurdas, a linguagem excêntrica, os textos ilógicos, a postura dandy, granjearam-lhe a reputação de louco. Acabou por ser preso, pela primeira vez, em 1931, e condenado a deportação para a cidade de Kursk. De notar que a condenação esteve associada a uma acusação de escritor de literatura infantil anti-soviética, já que a actividade dos OBERIU estava fortemente ligada à publicação de histórias infantis. Regressará a Leninegrado no ano seguinte, iniciando um período de privações várias e desespero. Não consegue publicar os seus textos, os planos para performances e peças dramáticas não vingam, os OBERIU desmembram-se, Daniil passa fome, escreve uma prosa absurda e desesperada que dedica, em grande parte, a Marina Vladimirovna Malich, a sua nova companheira. O futuro dos OBERIU estava condenado na Rússia revolucionária. Uns morreram de fome, outros na prisão, outros foram exilados, outros foram assassinados, outros desapareceram durante a guerra: «Very few of the founders of the group escaped jail and exile. Zabolotsky spent the years 1938 to 1946 at various labour camps in Siberia. Vaghinov died ill and penniless in 1934». Harms chegou a servir no Exército Vermelho, escreveu várias histórias infantis, mas a sua atitude vanguardista entrava em conflito com a política cultural estalinista. O experimentalismo de Harms não cabia na União dos Escritores Soviéticos. Foi proibido de publicar, acabando novamente preso no ano de 1941. Desaparece misteriosamente. «Soube-se mais tarde que Harms, correndo o risco de ser fuzilado, simulou distúrbios psíquicos e foi internado no hospital-prisão, onde morreu, talvez de fome, talvez do “tratamento”». Só em Fevereiro de 1942, Marina foi informada da morte do marido. O nome do escritor foi reabilitado em 1956 e os seus escritos infantis voltaram a ser publicados durante a década de 1960. Marina foi evacuada para as Caraíbas após a morte de Harms, regressando posteriormente à Europa para viver na Alemanha. A ler este curioso artigo, a biografia no kirjasto e A Velha e Outras Histórias, de onde respigamos o caso final:
UM CASO


Uma vez o Orlov empanturrou-se com ervilhas moídas e morreu. Krilov, quando tal soube, morreu também. Ora, o Spiridónov morreu sem mais nem menos. A mulher de Spiridónov caiu do aparador e morreu também. Os filhos de Spiridónov afogaram-se no lago. A avó de Spiridónov alcoolizou-se e meteu-se a mendigar. Mikháilov deixou de se pentear e apanhou tinha. Kruglov desenhou uma senhora de chicote e enlouqueceu. Perekhrióstov recebeu um vale postal de quatrocentos rublos e tornou-se tão arrogante que foi despedido do trabalho.
Gente boa não sabe firmar-se na vida.

Daniil Harms, in A Velha e Outras Histórias, trad. Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim, Agosto de 2007, p. 226.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

ELOGIO DO CINSIMO (12)


A extensa citação de Onfray justifica-se por lhe devermos este redespertar para a lição cínica, a qual, como vimos, está longe de merecer a censura que interpretações históricas tendenciosas e enviesadas lhe impuseram. Os cínicos foram relegados para a penumbra por neles ter sido vislumbrada uma acção inconveniente à arquitectura das sociedades ideais, erguidas em modelos de submissão, escravatura, exploração, modelos que deploravam e deploram a resposta espontânea e livre das paixões, modelos castradores da liberdade e cristalizadores do pensamento. Basta lançarmos os olhos superficialmente pelo mundo em que vivemos para nos depararmos com as conquistas desses modelos de sociedades ideais: desigualdades cada vez mais profundas, assimetrias aparentemente inultrapassáveis, uma ínfima parte de indivíduos a gozar os lucros da exploração económica exercida sobre uma maioria confinada à mera sobrevivência, um mundo de ilusões e quimeras, como a do conhecimento acessível a todos, um conhecimento mentiroso e superficial, a tecnologização e mecanização dos saberes no chamado mundo civilizado a ditar uma desastrosa ausência de cultura geradora de comportamentos arrogantes, preconceituosos e hipócritas, o predomínio do ter sobre o ser, a paranóia do lucro, a guerra dos objectivos que dinamita os mais básicos direitos de quem trabalha e se transforma numa máquina de desespero e suicídios, a estereotipização do gosto e dos juízos, a disseminação de uma cegueira indolente, desapaixonada, com consequências devastadoras ao nível da solidariedade, cada vez mais subsumida numa caridadezinha que se faz passar por solidariedade em momentos de aflição próxima ou épocas natalícias de consumismo exacerbado. A ética cínica, a ética da resistência, faz mais sentido que nunca, tal é o cenário de escravos do consumismo e de endrominados do discurso publicitário que temos à nossa frente. Acenam-te com os direitos do consumidor e fazes disso uma bandeira, não percebendo que as cores dessa bandeira são as mesmas que levam ao colo o consumismo exacerbado onde se afundam os valores de uma verdadeira identidade: tu já não és um nome, és um código de barras, tu não és um homem com direitos, és um consumidor com direitos, tu não és um homem, és um consumidor, uma máquina de produzir escrava do consumo, tu produzes para poderes consumir enquanto és consumido pela máquina produtiva. A solução pode não estar na completa abnegação material e num despojamento radical, os quais se afiguram pouco viáveis num mundo em que os recursos mais básicos foram açambarcados pelo poder, num mundo em que é preciso prestar contas pela água que se bebe ou pelo terreno que se ocupa. «Cínicos, os rebeldes que colocam o seu orgulho bem acima das prebendas oferecidas em troca da colaboração com os poderes instituídos; cínicos, ainda, os revoltados que colocam o pensamento ao serviço da insubmissão, de preferência a pô-lo à disposição das forças que desvitalizam o indivíduo; cínicos, finalmente, os resistentes que opõem o saber ao poder, à laia de contra-poder.» Não colaborar, tanto quanto possível, o mais possível, com o poder, estimular a insubmissão, resistir ao canto da sereia, promover todas as formas de contra-poder contra a estigmatização dos comportamentos legitimamente livres. A defesa do próprio passa pela preocupação com o outro, com o direito que o outro tem de ser ele próprio. A questão está em defender um mundo onde os outros possam conviver consigo próprios sem necessitarem de corromper-se uns aos outros, porque o mundo actual caracteriza-se precisamente por essa táctica da corrupção que nos deixa sem voz quando nos vemos vítimas de erros por nós próprios anteriormente cometidos. Começar por dar o exemplo é um bom caminho, não sobrestimando nada que não seja vitalizador de uma ética libertária. No seu tempo, foi isso que os cínicos fizeram. Não admira que tenham sido calados, não admira que tenham sido silenciados, afastados das grandes enciclopédias, negligenciados pela história convencional que canoniza apenas o que se deixa canonizar. É isso que te espera se escolheres o caminho da resistência, contra as fábricas de epígonos em série, pela infantilização de uma humanidade demasiado séria para ser levada a sério:

Onde os auxiliares do poder vigente celebram a virtude do sério, do útil e indispensável para sacramentar o poder, para fazer dele um epifenómeno proveniente do religioso e do celeste, o libertário restaura as virtudes do desvio, da ironia, do humor, do cinismo, sob a forma de modalidades subversivas da linguagem e do gestual, conceptuais e pragmáticas. O riso nietzscheano de Foucault, contra o silêncio feltrado dos palácios presidenciais; a dança de Zaratustra, em contraponto à rigidez dos ministérios, de todos os protocolos; o grotesco de Rabelais e as loucuras de Swift, à laia de resposta aos sussurros dos enxames de porteiros; a chacota de Voltaire e a qualidade de Sartre, como eco às peças douradas da armação de portas e janelas e aos brocados púrpuras; os sarcasmos da festa dos loucos e as antimissas com burros, face à pompa do Eliseu. Vinho a rodos, libações, um Diógenes que peida, onanista e canibal, uma política dionisíaca; brindes com água simples, presidentes da República desmiolados, uma política apoloniana, eis o inventário das alternativas ancestrais.
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O BEM COMUM

Que podes fazer tu pelos outros? ─ perguntou-me. Não ser mais uma besta é já um contributo, um singelo contributo, para o bem comum.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

DEFENDER A FAMÍLIA


Arranjar uma noiva para o Santo Papa.

OBRA POÉTICA COMPLETA

Agora que o ano termina e todas as listagens pululam, convém espicaçar eventuais e previsíveis desmemoriados com factos passados à história, mas sobre os quais a história não deve passar como se não tivessem existido. Em 2009 completaram-se 200 anos sobre o nascimento de Edgar Allan Poe. Por cá, o génio de Poe ─ poucas vezes faz tanto sentido o uso do substantivo ─ foi sendo evocado e celebrado com diversas publicações, das quais destaco a edição da sua Obra Poética Completa levada a cabo, no mês de Março, pela editora Tinta-da-China. Antes de mais, é de bom-tom realçar a beleza inquestionável do volume (algo a que a editora em causa nos vai habituando com hedonística felicidade). O trabalho gráfico de Vera Tavares e as ilustrações de Filipe Abranches não só acompanham a excelência do labor que a tradutora Margarida Vale de Gato depositou nesta obra, como nos permitem afirmar estarmos perante um objecto cuja beleza procura fazer justiça ao ideal do autor ali compilado. Depois integram este volume, além dos poemas, um drama inacabado e um ensaio de Poe, assim como uma dedicadíssima introdução, preciosas notas explicativas da origem e dos processos relacionados com a composição dos diversos poemas, uma bibliografia seleccionada e uma cronologia biobibliográfica de inquestionável interesse.
Na introdução, Margarida Vale de Gato ocupa-se de vários aspectos clarificadores da complexidade estética do autor d’O Corvo. Entre outros, a ambivalência mística, o culto do paradoxo, os estados mentais intermitentes, a ironia romântica e a quimera da Beleza, o fascínio orientalista patente em poemas como Al Aaraaf e Israfel, o conflito entre os conceitos de fancy e imagination. A verdade é que a poesia de Edgar Allan Poe presta-se a leituras assaz diversificadas. É essa, de resto, a característica fundamental dos grandes autores. Uma obra, seja ela qual for, que constranja o seu intérprete no processo executório que lhe dá vida, perde, à partida, um dos valores mais característicos da criação artística: a liberdade. Este valor não é próprio daquele que cria, ele conquista-se na relação estabelecida entre criador, obra e intérprete, ou seja, aquele que recria. No ensaio A Filosofia da Composição, mais do que a defesa do poema enquanto construção, afastando-se Poe, neste domínio, das “tempestades impetuosas” que fundamentavam a poesia romântica, salienta-se a «sugestividade ─ uma espécie de corrente subterrânea, embora indefinida, de sentido» (p. 287). É esta sugestividade que marca toda a poética de Edgar Allan Poe. E esta sugestividade não se consegue sem espaço para a deambulação interpretativa.
Não é de admirar que Charles Baudelaire ou o nosso Fernando Pessoa se tenham deixado encantar pela sombra do poeta maldito norte-americano. Poe nasceu praticamente órfão na Boston de 1809. Ambos actores, o pai «sucumbe ao alcoolismo e abandona a família» um ano antes de a mãe ter falecido tuberculosa, em 1811. Edgar é adoptado e viaja com o padrasto pela Grã-Bretanha, onde faz os estudos primários. Começa a escrever versos satíricos, tem uma paixão platónica pela mãe de um dos seus colegas, contrai dívidas de jogo, dá cabo da relação com o pai adoptivo, à medida que se vai deixando tomar pelos vícios da boémia literária. Conhece algum sucesso em vida como contista e jornalista, mas arruína-se na embriaguez e na depressão. É quase impossível não associar as doses excessivas de láudano, os excessos alcoólicos, as depressões, à toada alucinatória que está na origem de praticamente toda a sua obra. Os mistérios e o fantástico, em Poe, surdem de uma deriva pelos “paraísos artificiais” que propiciaram, como também a Baudelaire e a Pessoa, uma sensibilidade para o Belo que cai por terra, como um pássaro morto, quando confrontado com a desditosa realidade do mundo terreno.
Esta desditosa realidade fica patente no tema por excelência da poesia de Poe: a morte de uma bela mulher e o pranto do amante enlutado. Um Péan, Para Alguém no Paraíso, Lenora, O Corvo, Annabel Lee são apenas exemplos maiores deste género de evocação, o qual não pode ser dissociado de uma consciência aterradora da finitude e da ruína que aparece magnificamente simbolizada no poema O Coliseu. É verdade que a poesia de Edgar Allan Poe se faz envolver de uma espécie de nuvem tenebrosa e misteriosa, pautada por uma melancolia aparentemente sem saída, mesmo que, pontualmente, o ideal da Beleza se nos mostre sob a forma de poema, mas também não deixa de ser verdade que dessa nuvem brotam bátegas de uma ironia paradoxal: «Embora num só sonho… eu fui feliz, / Fui tão feliz… E eu amo essa tontura… Sonhos!» (p. 64) Estes sonhos, lugar de realização de uma certa felicidade, não deixam de ser parte integrante da vida. Eles não são ainda o mundo do inconsciente onde se encontram recalcadas as razões das dores presentes, eles são o mundo proscrito pelos olhos que acordados se vêem distantes de um sono brando ao lado da amada. O sonho é aquilo que em vida mais nos aproxima da morte, é o delírio que nos aparta, momentaneamente, da realidade. Uma advertência: a tradução do poema Para M. L. S., citado nas notas finais, não consta entre os poemas coligidos, o que vem confirmar aquela regra que afirma nada ser perfeito se não contiver pelo menos um erro.
Escrito para o Rascunho.

sábado, 26 de dezembro de 2009

PAI NATAL, MÃE NATAL

O Pai Natal faz oh, oh, oh.
A Mãe Natal faz ah, ah, ah.

Beatriz, 3 anos.

JUAN & ZENOBIA

Raízes e asas. Mas que as asas enraízem
e as raízes voem.

Era o filho mais novo de uma família abastada. Nasceu a 23 de Dezembro de 1881, baptizaram-no de Juan Ramón Jiménez. Moguer, no sul da Andaluzia, foi o berço geográfico do poeta. Fez os estudos secundários num colégio interno de jesuítas. Depois foi para Sevilha estudar Direito. A influência do pai, um homem rico da província de Huelva, foi decisiva. Mas Juan não prescindiu, por iniciativa própria, dos estudos de pintura, que acumulou com as aulas de Direito. Lia os poetas espanhóis da época: Bécquer, Rosalia de Castro, Verdaguer. Em 1897 publicou num jornal local um poema inspirado nos versos de Bécquer. Começa a publicar com alguma regularidade na madrilena Revista Nueva. A revista, de inspiração modernista, meteu Juan Ramón Jiménez em contacto com outros poetas, nomeadamente o boémio Francisco Villaespesa, a quem Ramón ficará a dever a convivência com o nicaraguense Rubén Darío. Juan Ramón chega a Madrid a 13 de Abril de 1900. O ambiente algo bucólico de Moguer contrasta com a agitação da capital espanhola. Para agravar a deslocação, o pai de Juan morreu subitamente, originando no poeta uma raiz de pânico que virá a atormentá-lo pelo resto da vida. Publica os primeiros livros, Ninfeas e Almas de violeta, ajudado por Darío. Em 1901 é internado num estabelecimento psiquiátrico perto de Bordéus. Aí leu, entre outros, poetas como Baudelaire, Mallarmé e Verlaine. Regressa a Espanha, onde permanece algum tempo no sanatório do Rosario em Madrid. Reunia-se nesse sanatório com outros escritores, formando uma tertúlia da qual nasceu a revista Helios. Ortega y Gasset elogia-lhe o livro Arias tristes, de 1903. Juan Ramón dedica-se inteiramente à poesia, colaborando em várias revistas. Regressa a Moguer, assolado por uma neurose, onde busca o repouso físico que nunca almejou intelectualmente. O convívio com a natureza era reconfortante, mas a ruína económica da família anunciava novos períodos de desespero. Parte novamente para Madrid. Em 1913 conheceu Zenobia Camprubí Aymar, com quem veio a casar a 2 de Março de 1916. A família de Zenobia estava contra o casamento, pelo que os dois resolveram dar o nó na cidade de Nova Iorque. A digressão americana motiva a escrita de Diario de un poeta reciencasado (1916). Em Nova Iorque, o poeta foi nomeado membro da Hispanic Society os America. O casal regressa a Madrid em 1916, Juan Ramón publica a edição completa do livro Platero y yo, publica livros de poemas, uma «antologia, Poesías escogidas, que inicia um singular processo de publicação da sua poesia: à selecção de livros anteriores junta versos de livros nunca publicados». Traduz, com Zenobia, livros de Rabindranath Tagore, edita várias revistas, entre as quais se destacam Índice, e Ley. A relação com Zenobia é reforçada por uma vida de trabalho conjunto. Viajam por França, Nova Iorque, Porto Rico, Cuba, até finalmente se instalarem em Coral Gables, perto de Miami, iniciando uma profícua colaboração com universidades norte-americanas. Em 1940 o poeta é novamente hospitalizado. As depressões nervosas repetem-se ao longo dos anos. Aconselhada por um médico, Zenobia tenta viver com Juan Ramón em Porto Rico. Não se vislumbram quaisquer melhoras. No final de 1951, a própria Zenobia é operada a um tumor no útero. O poeta sofre uma recaída e volta a ser internado. Em 1956 Zenobia é novamente atacada por uma doença cancerígena. Tenta convencer o marido a regressar a Espanha, para que ele pudesse ficar junto aos seus familiares após a morte que se avizinhava. O poeta recusa. Quando comunicam a Juan Ramón Jiménez a atribuição do Prémio Nobel da Literatura, Zenobia já não conseguia falar. Morreu três dias depois, a 28 de Outubro de 1956. Juan Ramón morrerá na mesma clínica, um ano e meio mais tarde, a 29 de Maio de 1958.

Fonte: Prólogo de José Bento à Antologia Poética de Juan Ramón Jimenez publicada pela Relógio D’Água.