segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

DESCULPE?

─ O que mais detesta em Lisboa?
─ O preconceito de que alguns lisboetas parecem padecer para com o resto do país, ou seja, aquela ideia de que para lá da capital é tudo paisagem.
─ E o que mais detesta no Porto?
─ A facilidade com que algumas elites beijam a mão aos califas da capital, ao mesmo tempo que se fazem sentir desconsideradas e até inferiorizadas por esses mesmos califas. Ou seja, parece haver em algumas pessoas do Porto um complexo de inferioridade mal resolvido.
─ E o que mais detesta em Coimbra?
─ Desculpe?

domingo, 31 de janeiro de 2010

ENTARDECER

Sol-posto ungindo o mar: incensos de ouro!

Recolhe funda a tarde em sonho e mágoa.
Surdina fluida: anda o silêncio a orar –
E há crepúsculos de asas e, na água,
O céu é mármore extático a cismar!


E nas faces marmóreas dos rochedos
Esboçam-se perfis,
- Cintilações,

Penumbra de segredos!

Ó painéis de nuvens sobre a terra,
Ogivas delirantes
Na água refractando…
Encheis de sombra o mar de espumas rasas,
Iniciando
A hora pânica das asas!


E, à meia luz da tarde,
Na areia requeimada,
São vultos sonolentos
As proas dos navios…


Ó tristeza dos balões
Iluminando,
Na água prateada,
Os pegos e baixios…


Dormentes constelações
Que, em fundos lacustres
E musgosos,
Pondes reverberações
Em nossos olhos ansiosos.


Ó tardes de aquático esplendor,
Descendo em meu olhar!


Num sonho de regresso,
Numa ânsia de voltar,
Em mim todo me esqueço
E fico-me a cismar.


A tarde é toda um sonho moribundo.
É já olor da cor que amorteceu.
O céu vive no mar: sono profundo.
A asa do rumor no ar adormeceu!




Luís de Montalvor é o pseudónimo do poeta, ensaísta e editor Luís Filipe de Saldanha da Gama da Silva Ramos. Nasceu a 31 de Janeiro de 1891, em S. Vicente, Cabo Verde, mas veio para Portugal com apenas dois meses de vida. Residiu no Brasil entre 1912 e 1915, regressando a Lisboa com a ideia de fundar uma revista modernista. Fundou a Orpheu (1915), a Centauro (1916) e, anos mais tarde, a editorial Ática (1942), um órgão fundamental na divulgação sistemática das obras completas de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Enquanto poeta, foi, certamente, um dos nomes maiores do modernismo português, assim como um interessante prossecutor da poesia da Decadência. Devemos-lhe também a divulgação dos inéditos de Camilo Pessanha que viriam a ser reunidos no volume intitulado Clepsidra. A poesia de Luís de Montalvor ficou dispersa por várias publicações, entre as quais se destacam as revistas supracitadas e as colaborações com a Presença, Exílio, Athena, Contemporânea, Sudoeste, Cadernos de Poesia e Seara Nova. Só postumamente os seus versos foram coligidos num único volume. «Não nos ilude Luís de Montalvor na expressão essencial dos seus versos: vive num mundo seu, como todos nós; mas vive com vida num mundo seu, ao passo que a maioria, em verso ou prosa, morre o universo que involuntariamente cria» (Fernando Pessoa). Faleceu a 2 de Março de 1947, afogado no rio Tejo, num acidente de viação que vitimou, igualmente, a sua mulher e o filho único de ambos. Acidente? Suicídio? «Façamos com a dor, sem um queixume, / as guirlandas formosas desta vida!»

sábado, 30 de janeiro de 2010

MY GIRLS





Há um ano, a funcionária dos Correios informou-me de que os livros não são material frágil. Eu tinha acordado com a sensação de que o pensamento pesava mais do que o sono. Tinha acordado com os acentos trocados e, por isso, inventariei alguns dos epítetos começados por i com que até então tinha sido brindado: incauto, indigente, inteligente, irresponsável, irritante, incoerente, inconsequente, instável, invejoso, idiota, irascível, incrível, ínclito... Mas hoje acordei com a sensação de que devia comprar um moleskine para anotar a fragilidade dos livros que não escrevo. Ou então aderir a uma rede social, fazer muitos amigos, contá-los diariamente na esperança de vir a ser muito amado à distância. Mas para que me servem amigos que não poderei abraçar? Para nada. De que nos vale o sol a espreitar se as ruas continuam cinzentas?

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

THE HOST OF SERAPHIM


Jorge Aguiar Oliveira
Insónia em Segunda Mão
Edição do Autor
Janeiro de 2010


Prefácio: The Host of Seraphim - Argumento baseado num livro de poemas de Jorge Aguiar Oliveira

NEGÓCIO

O pai foi um comerciante de sucesso. Todos os anos, pelo Natal, oferecia um cabaz aos fiscais. O filho herdou do pai o negócio, mas não a mesma sabedoria. Deixou de oferecer o cabaz aos fiscais e levou o negócio à falência.

FEITIO

Diziam-lhe que ia pagar caro aquele feitio. Mas ele não percebia. Não queria comprar nada.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

REVENDO BLACKMAIL


Este post não é sobre escutas. Nem sei se é sobre um filme de Hitchcock chamado Blackmail (1929), concebido inicialmente para ser filmado num registo mudo. A versão sonora terá sido uma opção posterior, algo que fica evidente nos minutos iniciais. Blackmail começa com uma detenção cujo significado é meramente introdutório. Os detectives da New Scotland Yard são representados a partir de gestos teatrais que falam pelas personagens. Os planos do rosto dispensam palavras, intensificam expressões que dialogam entre si sem que nos seja necessário escutar os diálogos induzidos pelos lábios em movimento. O som surge após este primeiro momento. Escutam-se passos, o estrado de um antigo carro da polícia, uma buzina, algumas vozes. No entanto, o jogo de silêncios percorre o filme como um jogo de sombras. Há mensagens cifradas, códigos imperceptíveis, é-nos dado ouvir o riso provocado por segredos que nunca serão desvendados. Os recados silenciosos, os segredos e as insinuações dão corpo ao suspense. O silêncio alimenta-o, é a acção por detrás da intenção, ou seja, é o não audível, já como decisão, que sustenta a intenção com que se concretizará este ou aquele gesto. Para quem desconheça a história, aqui fica um resumo:
1. Alice é vítima de uma tentativa de violação, conseguindo escapar depois de assassinar o violador, de nome Crew, com uma faca;
2. Alice namora com um detective da Scotland Yard que, encarregado de investigar o caso, encontra uma luva da namorada no local do crime;
3. Frank, o detective, tenta encobrir a namorada, acabando vítima de chantagem por parte de um indivíduo que não só tinha visto Alice com Crew antes do crime, como penetrara no local e encontrara a outra luva que provava ter sido Alice a assassina;
4. O chantagista, homem com cadastro, acaba por falecer numa perseguição da Scotland Yard, depois de ter sido apontado por uma vizinha de Crew como possível autor do crime.
O que Alfred Hitchcock filma nesta história é a fragilidade daquilo que tomamos por verdadeiro. Há sempre uma sombra vigilante disposta a aproveitar-se do mal dos outros, máxima relevante num contexto moral. Neste filme, a questão essencial é epistemológica. Os “jogos de sombra sonoros” que matizam a fita são o elemento intensificador do suspense, mas também revelam uma especial atenção a certos pormenores com que apuramos a verdade dos factos. Repare-se na importância do registo áudio como prova. Costuma-se dizer que «nem tudo aquilo que parece, é». Também se diz que aquilo que por aí se vai ouvindo não corresponde necessariamente à verdade. Não acredites em tudo o que ouves. Mas a verdade é que a confissão, não garantindo a verdade, pelo menos oferece-nos uma verdade possível. Ademais, nenhuma escuta logra ouvir o que nos vai no coração. Hitchcock distorce as falas, entrega-nos a sussurros imperceptíveis. Numa cena magistral, toda a sua genialidade vem à superfície no rosto de Alice. Esta encontra-se a tomar o pequeno-almoço com a família e olha para a faca do pão, induzindo no espectador uma relação traumática entre aquela faca e a faca com que fora cometido o crime da noite passada. Não satisfeito, Hitchcock coloca na mesma sala uma vizinha bisbilhoteira que não se cansa de falar do crime. Não percebemos bem o que ela diz, porque o realizador distorce-lhe a voz, mantendo apenas clara a pronúncia de uma palavra que se repete ad nauseam: justamente a palavra faca, faca, faca, faca, faca. A perturbação no rosto de Alice é evidente. O eco é interrompido abruptamente quando Alice larga a faca no chão. Algo se passa com a pobre rapariga. A consciência moral começa a tomar-lhe conta do corpo, das emoções, dos medos, dos anseios. A verdade, que só ela e o namorado ficarão a saber, a verdade que nos é mostrada enquanto espectadores, é também a prova da farsa que subsidia o apuramento dessa mesma verdade. Ora, num diálogo entre Frank e Alice é mantida uma conversa sobre o cinema:
─ Ainda não viste o filme «Impressões Digitais». Aposto que falharam em todos os pormenores.
─ Não sei porquê. Até contrataram um criminoso para realizador.
O cinema, meus caros, assim como qualquer outra arte, é a impressão digital da realidade. E o realizador, o artista, um criminoso que distorce essa mesma realidade em função do que pretenda mostrar-nos. Isto é, em função do que pretenda manter oculto, silencioso, como um segredo irrevelável.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

MOCKINGBIRDS




Ilya Ehrenburg também se queixava do “é a vida, o que é que se há-de fazer”. Com uma ligeira inflexão, o poeta soviético falava dos tempos, no plural, e não propriamente da vida. Terminava o poema profetizando que «diante de todos se responderá / pelo seu tempo e não por si só». Duvido. Mal temos mão sobre a nossa própria vida, quanto mais sobre a vida dos tempos. A verdade é que somos arrastados e o pouco mais que podemos fazer é esbracejar, espernear contra a corrente para que o naufrágio seja adiado e o corpo se console de apaziguadores, mas momentâneos, mergulhos. Não falo sequer de mudar o mundo, tão só o nosso mundo. Não falo de coisas heróicas e inumanas. Falo da vidinha figurante, cada vez mais complexa e infernal. Por exemplo, falo de não ter que responder a um inquérito para poder satisfazer a secura com uma simples água com gás:

─ Quero uma água com gás.
─ Fresca ou natural?
─ Fresca.
─ Das Pedras ou Frize?
─ Das Pedras.
─ Com ou sem sabor?
─ Sem sabor.
─ E vai desejar copo?
─ Sim.

AS POETISAS SÃO COMO AS CEREJAS

Judith Teixeira levou-me à uruguaia Delmira Agustini (1886-1914). Delmira casou com Enrique Reyes a 14 de Agosto de 1913, deixando-o mais ou menos um mês após o casamento. Divorciaram-se a 15 de Junho de 1914. Passado um mês, Enrique assassinou-a com dois tiros na cabeça. Depois suicidou-se.

O DIAMANTE
Hoje, numa grosseira mão instintiva, disforme, vi o mais belo diamante que talvez possa atear o Milagre… Parecia vivo e doloroso como um espírito desolado… Vi dimanar da sua luz uma sombra tão triste, que chorei por ele e por todos os belos diamantes extraviados em mãos disformes…


Versão minha.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

PARA QUE TUDO FIQUE NA MESMA


«Alguém se recorda deste nome: Judith Teixeira? Não será fácil, sobretudo aqueles que, embora interessados pela nossa poesia, se satisfazem apenas consultando compêndios da especialidade que lhes orientam as leituras: as histórias, os ensaios, as antologias» (António Manuel Couto Viana, 1974). Passados tantos anos, a interrogação continua a fazer sentido e a desmemória prevalece. Judith Teixeira é um desses casos que nos levam a sublinhar a mesquinhez de um país e a desconfiar da putativa autonomia dos mais novos, por neles continuarmos a observar os mesmos vícios de uma cultura subserviente a cânones instalados e amortalhados por academias que não gostam de sujar as mãos na terra. Nasceu a poeta, segundo consta, a 25 de Janeiro de 1880 na cidade de Viseu. Não se sabe muito das suas origens, mas informa o assento de baptismo que a sua mãe se chamava Maria do Carmo. Perfilhada por um tal de Francisco dos Reis Ramos, terá estado casada com um empregado comercial. O casamento foi dissolvido em 1913, tendo Judith sido acusada de adultério. Voltou a casar um ano depois, com um advogado. Apesar de se ter estreado em livro já com 42 anos cumpridos, terá começado a escrever em tenra idade aquela que foi considerada por Couto Viana a única mulher modernista portuguesa. Seja como for, publicou algumas narrativas, sob pseudónimo, em 1918 e 1919, no Jornal da Tarde, e colaborou com a revista Contemporânea no ano de 1922. No ano seguinte, publicou a primeira colectânea de poemas, intitulada Decadência, causando forte e irremediável polémica: «Trago nos nervos a morte! / Sou uma sombra em recorte / de tristeza e de ruína… // Uivou dentro em mim a dôr... / Só lhe perco o som e a côr / em orgias e morfina!». A Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa insurge-se contra esta e outras obras. Sodoma Divinizada, de Raul Leal, Canções, de António Botto, e Decadência, de Judith Teixeira, são retirados das livrarias e queimados publicamente junto ao Governo Civil. O medievalismo da época não contrasta muito com o moralismo acéfalo da actualidade, mas o silêncio que se abateu sobre Judith não pode deixar de causar embaraço. Fernando Pessoa indigna-se contra as acções moralistas dos estudantes. É conhecida a sua defesa das Canções de António Botto. No entanto, cala-se acerca de Decadência. Só Aquilino Ribeiro (e poucos mais) se manifesta(m) a favor do talento da autora que, no mesmo ano, fez publicar Castelo de Sombras, um «outro livro de versos, muito serenos, muito espirituais e que não devem ofender a moralidade literária da polícia...» De nada lhe valeu a cautela. A ignominiosa poesia de Judith estava marcada pelo ferro em brasa da boa moral. Em 1925, dirigiu três números da revista Europa. No ano seguinte, apareceu o seu último livro de poemas, Nua – Poemas de Bizâncio, e a conferência intitulada De Mim, onde a autora procurava defender-se do enxovalho e da ridicularização a que fora sujeita. A instauração da ditadura sentenciou a quase morte da poeta. Voltará a publicar apenas um volume de contos, Satânia, onde eram anunciados livros que nunca viram a luz do dia, cujos manuscritos permanecem desconhecidos. Pouco se sabe sobre os seus últimos anos de vida. Colaborou com a revista Terras de Portugal, terá andado fora do país, morreu viúva, sem filhos, completamente só, a 17 de Maio de 1959, em Lisboa: «Choro?! Oh, sim, perdidamente! / Mas sabes tu, por que este pranto / Assim amargo e soluçado vem? / É que na hora da partida / Eu nunca pude sem chorar / Dizer adeus a ninguém!» Voltou a não caber nas antologias. (A visitar, sobre Judith Teixeira, este e este lugares).

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

ALÔ, ALÔ, MARCIANO


Curioso: há precisamente um ano, acordei com o sacro deslocado. A história repete-se. É o eterno retorno a manifestar-se na base da coluna vertebral. Entretanto, toma lá um mail partilhado para topares do espírito que por aqui reina:

É um gozo ler essas histórias, saber-te do outro lado da linha, reparar, mais uma vez, que afinal o outro tinha razão: isto anda mesmo tudo ligado. Ele só não sabia, não podia prevê-lo, que seria uma coisa sem fronteiras a ligar-nos todos uns aos outros, uma coisa já extravasada deste lugar, dizes bem, atolado na porcaria. Sim, Portugal é uma coisa estranha no coração de quem o vive. E eu nem o vivo, mas tenho que me viver dentro dele. Ou não tenho. Sonho com pôr-me a andar daqui para fora, mas vou ficando, ficando, ficando, à espera que a pilha se quine e eu vá com ela para outro lugar qualquer, um lugar bem longe desta mesquinhez poluente. Ainda assim, sempre vão chegando boas novas. Umas de cá, outras de lá, tanto faz. Agarram-nos à vidinha e levam-nos a fortalecer a espera, como dizia outro outro, a espera de que algo aconteça.

P.S.: estarei ausente durante as próximas horas. Irei desenjoar para norte, com pedras a ferver sobre as costas e muita vontade de me desligar do mundo. Passem bem na minha ausência. Passem pel’O Indesmentível. É provável que amanhã a cidade tussa.

«UM DOS MAIORES POETAS DO DESEJO»


Ela diz-me que aprecia o entusiasmo com que falo da obra alheia. Respondo-lhe que sou como Picabia: porque me é impossível compreender o que se passa entre o frio e o quente, julgo necessário vomitar os mornos. Ela desconhece. Prometo-lhe, então, o dia seguinte. Francis Picabia nasceu em Paris a 22 de Janeiro de 1879. Breton chamou-lhe «detractor, que assim se quis, de todas as convenções morais e estéticas». Este enfant terrible veio ao mundo pela mão de pai cubano e mãe francesa, num berço aristocrato-burguês que começou a revelar-se algo desconfortável depois de Marie Cécile Davanne, a mãe, ter sido devorada pela tuberculose. Tinha o artista sete anos, para logo de seguida perder igualmente a avó materna. O avô era fotógrafo, entusiasmou o neto para a coloração de fotografias, mas este inclinava-se mais para as «fantasias exteriores e espirituosas» que habitam «pessoas às quais ninguém “rói a corda”». A Ecole des Arts Décoratifs foi, neste contexto, uma opção previsível. Em 1899, estreia-se como “artista” no Salon des Artistes Français, embora tenha vindo a preferir o Salon d’Automne e o Salon des Indépendants para começar a impressionar o “espírito parisiense”, isto é, aquele que «possui o segredo de fazer da chicória chicória, dos espinafres espinafres, e da merda caca». Estas palavras, oriundas da revista 391, fundada e dirigida por Picabia entre 1917 e 1924, são ilustrativas do que se seguiu aos primeiros anos de afirmação “reputativa”. 1909 é o ano do casamento com Gabrielle Buffet. Novas músicas embalam o coração do artista. Rupturas estéticas, do impressionismo ao abstracto, da aceitação ao repúdio, banido por galerias, público e críticos, passeando-se pelo fauvismo, futurismo, cubismo, modernismo e todos os demais ismos que serão posteriormente e sistematicamente triturados pela liberdade dadaísta. A amizade com Duchamp foi, pois claro, fundamental. Assim como o encontro com Apollinaire. A Primeira Grande Guerra rebenta, Picabia zarpa para Cuba, passa por Nova Iorque, desenha máquinas, pinta-as, mostra-as, ao mesmo tempo que a neurastenia e a depressão o perseguem. Mas ele foge. Barcelona, Caraíbas, Nova Iorque serão os refúgios da guerra exterior e interior. É em Barcelona que começa a escrever poesia, publicando aí a sua primeira colecção sob o título Cinquante-deux-miroirs (1917). Também é nesta altura que surge a revista 391:

Braque acaba de comprar um Citroën para continuar a fazer arte. Ultimamente entrou em casa com a mudança de velocidades dentro das calças.
Derain acaba de comprar um Citroën para levar a passeio Louis Vauxcelles e Jacques Blanche.
Picasso acaba de comprar um Citroën que sobe maravilhosamente às árvores. Diz que a viatura lhe urina na mão.
Matisse tem realmente um Citroën.
Metzinger comprou uma capota Citroën.
Juan Gris comprou um assento Citroën.
Archipenko comprou um limão Citroën.
Francis Picabia tem um Citroën de socorro.
Citroën comprou um quadro cubista e o cubismo é todo ele um quadro Citroën.

Tradução portuguesa de Mário Cesariny. Do Citroën não sabemos, mas Gabrielle Buffet foi trocada por Germaine Everling no regresso a Paris. Tratamentos na Suiça afastam-no da pintura, mas aproximam-no da poesia. Contacta com Tristan Tzara, separa-se da primeira mulher e dos quatro filhos, parte para a aventura dadaísta na companhia de Germaine. Com Tzara e Breton, a festa Dada desdobra-se em revistas, publicações de ordem diversa, happenings, livros. Picabia publica Jesus-Christ Rastaquouère em 1921. Depois é o que se sabe: conflitos internos, inveja, egos hiperbólicos, desmembraram o grupo. Picabia prossegue sozinho, compõe colagens, polemiza com panfletos apontando espingardas contra o surrealismo, instala-se na Côte d’Azur levando uma vida que dará azo a todo o tipo de especulações, apaixona-se por Olga Mohler, uma jovem contratada para tomar conta de Lorenzo, filho de Picaia com Germaine Everling. Tornam-se famosas as soirées do casino organizadas por Picabia, a quantidade infindável de veículos que adquire, o dinheiro que esbanja durante os anos passados entre o Château de Mai, construído perto de Cannes, e Paris. Picabia é a estrela dos clubes nocturnos, das galas, da vida mundana. Vive a três, com o coração dividido entre Germaine e Olga. As relações com Gabrielle Buffet, Germaine Everling e Olga Mohler acabam por pautar-lhe os períodos artísticos. A Segunda Grande Guerra apanha-o já na companhia de uma só mulher: Olga Mohler. Continua a trabalhar, regressando às fases figurativas dos primeiros anos. Distancia-se dos movimentos vanguardistas, assume posições apolíticas, abandona a ostentação e o luxo, pinta de um modo cada vez mais realista. Sofre a primeira hemorragia cerebral. Regressa com Olga a Paris, ao mesmo tempo que regressa também às letras. Publica Thalassa dans le desert (1945). Em 1949 é organizada uma retrospectiva da sua obra, são instantes de celebração efémera: assaltam-lhe a casa no momento da estreia e deixam-no sem cheta. Os últimos anos não serão especialmente felizes. A arteriosclerose rouba-lhe a fonte de sobrevivência, a pintura. Morre a 30 de Novembro de 1953.

A CRIANÇA

Gastou-se o Outono
pela criança
de quem se gostou.
Como um abutre
sobre uma carcaça,
diminui a família
e já desaparece
como borboleta.


Francis Picabia, in Antologia do Humor Negro, org. Andre Breton, trad. Jorge Silva Melo, Edições Afrodite, Abril de 1973, p. 306

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A CICATRIZ DO AR

A aventura de Jorge Fallorca (n. 1949) na selva das letras portuguesas pauta-se por nunca ter o aventureiro andado em busca da esmeralda perdida. Lançou dois livros na década de 1970: Imitação da Morte dos Outros (&etc., 1976) e A Luva In Love (Assírio & Alvim, 1977). Depois, quando nada o profetizava, resolveu desaparecer. Em entrevista cedida a António Cabrita, agora recordada, à laia de errata, no final deste A Cicatriz do Ar (edição de autor, Novembro de 2009), as razões do sumiço são explicadas pela consequência: «Felizmente proporcionei-me tempo suficiente para me cansar de mim, e creio ter corrigido o atrevimento». Sucede que a mossa estava criada. Os mais desatentos desconhecerão o texto de guerrilha que Luiz Pacheco dedicou ao segundo livro de Fallorca, apontando «jogos de palavras, brinquedos de garotos viciados, passatempos patetas», continuando, naquele estilo exercitado que alguns lhe reconhecerão, com o diagnóstico de um “livrito” que «não passa de um arroto, mal-humorado como tu próprio em pessoa», para culminar nesta sentença: «Foleirices, fallorquices, fumarada idiota para os nossos narizes» (Diário Popular, 15 de Setembro de 1977).

Luiz Pacheco era «contraditoriamente insurrecto e conservador» (Torcato Sepúlveda), escolhia bem os alvos e reagia à desconstrução como outros, noutras épocas, reagiram aos libertinos que ele próprio idolatrava. Estávamos nos 70s portugueses, distantes no tempo mas próximos, em termos de convulsão social, dos 50s norte-americanos. Não admira que por cá tenha aparecido um conjunto de autores a escrever ao som do eco beatnik. Alguns dos mais relevantes terão sido Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Jorge Fallorca. Em 2001, este resolveu remontar os livros iniciais, reorganizando (quase) tudo no volume Fruta da Época (frenesi). De resto, não me recordo de um autor relevante dessa fornalha que não tenha, posteriormente, revisitado os textos inaugurais. Suponho que isso se deva ao facto de haver, nestes autores, uma indissociável correlação de forças entre a escrita e a vida. Ou seja, estes são autores que escrevem em relação com o tempo habitado, não buscam nas palavras o saguão da intemporalidade, manifestam antes um completo desprezo pela cultura pretensamente universalista que as academias procuram impor como sendo de todos e para todos, não fosse ela para cada um conforme as especificidades de cada qual.

Acontece que, por vezes, a escrita torna partilháveis as singularidades de uma vida concreta, provocando encontros, gerando simpatias (ou antipatias), alimentando vítimas de uma fome insaciável. Há um poema do livro Longe do Mundo (frenesi, Maio de 2004) que toca, precisamente, na ferida: «Decorrido meio século de existência, li e escrevi o suficiente para considerar a escrita ─ como qualquer acto criador ─ antropófaga até à vileza» (p. 16). Os corpos que servem de alimento à escrita são as vidas que nela se põem, agora desconstruídas pelo simulacro da palavra ou, se preferirem, reconstruídas pela misteriosa e inexplicável existência do texto. A Cicatriz do Ar volta a lembrá-lo no seu Bloco-Notas introdutório. Nessa parte do livro, a vida literária é não só a daquele que escreve como também a daquele que lê. O escritor desdobra-se no papel de leitor, cita as suas referências, evoca o “prazer da leitura”, os textos que o acompanharam pelos lugares trazidos à página: as casas de Monte Alto e Carnaxide, Huelva, Lisboa, Tânger, o Sul. A geografia do corpo é a geografia da escrita, a qual se revelará, na parte que oferece título ao volume, transfronteiriça, sem lugar que não seja o do corpo solitariamente entregue aos seus exercícios de ir vivendo «com o horizonte esticado pela crueza dos panos da viagem adiada e silenciosa/ à tona da vida, lastrada pelo remorso e a saudade» (p. 76).

Os apontamentos biográficos indicam que as décadas de 1980 e 1990 foram, para Fallorca, décadas de dispersão por folhetos breves, colaborações avulsas com suplementos da imprensa escrita, trabalhos radiofónicos, participações em algumas antologias. A dispersão encontrou termo em 1999, com a publicação de Água Tatuada (&etc). Seguiu-se a tal revisitação da obra inicial, duas narrativas de viagem para a Teorema, Entre Chipiona e Tarifa (2002) e Al-Khaïma (2004), a colectânea Longe do Mundo. A Cicatriz do Ar é, pois, pelo que foi dito e não só, um livro que oferece continuidade à “vagabundagem” literária. As partes que agora se reúnem e se relacionam mostram-nos um autor despreocupadamente entregue à escrita do seu mundo. A palavra tranquilidade que se repete em alguns dos textos coligidos induziria em erro não fosse a clareza do desabafo: «Decorridos cinquenta anos, aprendi a não dramatizar e a não dar mais importância ao que me acontece do que o simples facto de ter acontecido. Repugna-me, fatiga-me a lufa-lufa da necessidade de criação; sufoca-me a excitação da espera, frequentemente frustrante» (p. 21). Entre esta passagem e a passagem de Longe do Mundo supracitada, o leitor não carecerá de mais explicações: o que neste, como noutros livros de Fallorca, se sustenta é o gozo da deambulação, o prazer da errância e o culto de uma certa vagabundagem (intelectual) que ousa embriagar-se com a língua em que se exprime ao mesmo tempo que se deixa embriagar pela vida que a expressa.

Escrito para o Rascunho.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

LIKE A ROLLING STONE




Ainda criança, sonhava baixinho, encostado às paredes da vergonha, que um diria seria marinheiro. Não me deu oceanos a vida, senão espuma, areia, algumas ilhas. Fiquei-me na borda dos rios, a pescar à linha peixes minúsculos que depois libertava do anzol e devolvia aos caudais, por ainda ter para com a vida animal um certo respeito lúdico que já não consigo ter para com a vida dos homens. Agora adulto, sonho acordado com esses sonhos antigos. Penso que teria sido melhor resvalar na lama, ser levado pela corrente, desaguar naufragado na foz dos mortos. Mas logo me arrependo do que penso. Afinal estou hoje como aqueles peixes abocanhados no anzol, contorço-me, revoluteio-me, só não sei se quem me pescou terá para comigo o respeito lúdico que em tempos eu tive pela vida dos peixinhos de água doce.

GUARDA-ROUPA


Leitor atento levantou a questão do investimento automóvel na minha última contribuição para a imaginação de Van Zeller. Esclareço que não se trata de investimento algum. Como venho dizendo, heranças e tradições familiares permitem-me alguns luxos. Ora, tal como a “aparelhagem” SONY, também o Ibiza foi conquistado por bom comportamento. Era tradição na família presentear a Licenciatura com carrito de estilo ligeiro. Tradição que, está bem de ver, terá de ser quebrada junto das próximas gerações. Pois bem, não tendo eu sequer carta de condução quando dei por finada a exploração académica, fui pressionado pela família a inscrever-me numa escola de condução, de modo a poder-me ser ofertado o bólide a que tinha direito. Ainda tentei fazer-me à massa em troca das quatro rodas, tentativa malograda pela evidente constatação de que mais rapidamente me faria à estrada com dinheiro no bolso do que com carro para sustentar. Assim me prenderam à terra os meus queridos e prestimosos pais. Feitas as contas, encho o depósito, no mínimo, duas vezes por mês, o que me rouba mais 120€ (raciocino pelos mínimos) aos 337€ que me restavam. Ora, ficam-me 217€ por mês para a rambóia. Repare-se que excluo das contas várias despesas concernentes à circulação, das portagens que pago diariamente aos seguros, revisões, inspecções, outros que tais. A modos que fiquemo-nos pelos 217€. Tenho outra vantagem sobre a maioria dos demais. Não gasto um tostão em roupa. Esta terceira necessidade do homem (as outras são alimentação e casa) está-me garantida pelo negócio familiar do pronto-a-vestir. Dou-me inclusive à opulência de possuir um guarda-roupa pejado de fatos que nunca visto, gravatas que nunca uso, malhas que nunca teço. Limito-me a comprar sapatos (uma média de um par por ano), para não ter de andar descalço. Recuso-me a dar mais que 50€ por um par de sapatos, o que, dividido por 12, dá uma média de 4,16€ por mês. Sendo assim, já só tenho 212,84€. Talvez venha a investir em acções da CIMPOR. Dir-me-à o leitor amigo se farei bom investimento (siga o link).

CONGESTÃO CEREBRAL


Mestre do horror, pai do policial, poeta maldito, assim aparece muitas vezes recordado o génio de Edgar Allan Poe. Nasceu em Boston, filho de actores itinerantes, a 19 de Janeiro de 1809. O pai terá morrido em 1810, falecendo a mãe no ano seguinte. Deixaram três órfãos. Edgar foi acolhido por John Allan, um comerciante de tabaco, William faleceu novo e a irmã Rosalie acabou por enlouquecer mais tarde. A tragédia de Edgar Allan Poe estava traçada. Ainda criança, denota uma forte inclinação para a poesia. John Allan, o pai adoptivo, leva-o para Inglaterra, onde fez os primeiros estudos. De regresso aos states, dedica-se à poesia satírica, estuda em colégios privados de Richmond, «tem uma paixão platónica pela mãe de um dos seus colegas, Jane Stanard, que vem a morrer tuberculosa em 1824». A morte foi sempre a melhor amiga de Poe. Passeia-se pela Universidade de Virgínia, mas o vício do jogo e as dívidas contraídas acabam por dar-lhe cabo dos planos. A relação com John Allan deteriora-se. Como se não bastasse, a paixão pela jovem Elmira Royster encontra a oposição das respectivas famílias. Pior ainda quando, de visita à amada, Poe descobre-a comprometida com outro indivíduo. Conta-se que terá estado presente na festa onde foi feito o pedido de noivado, apurando com Elmira a existência de cartas de amor interceptadas. Nada havia a fazer. Poe rompe com a sua família adoptiva, parte para Boston, junta-se ao exército e publica o primeiro volume de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827), a expensas próprias. Reaproxima-se de John Allan após a morte de Frances, a mãe adoptiva. Publica Al Aaraaf, Tamerlane and Minor Poems (1829). A vida no exército não lhe correrá de feição. Poe tem um comportamento negligente, escreve versos satíricos que têm por alvo os oficiais, provoca a sua expulsão da academia, o que acontece a Janeiro de 1831. Vai viver para Baltimore, amparado pela tia Maria Clemm. Vê um conto seu ser premiado, enceta carreira nos jornais e nas revistas, mas também aprofunda o vício alcoólico. Em 1836 casa com a prima Virginia Clemm. Virginia tinha apenas 13 anos. Morrerá tuberculosa em 1847, depois de ter passado praticamente os últimos cinco anos de vida inválida. Muda-se para Nova Iorque, depois Filadélfia, colabora com a imprensa, publica contos fantásticos e recensões, faz-se valer da “vocação polemista” e, em Julho de 1838, publica a novela The Narrative of Arthur Gordon Pym. Agastado com a doença de Virginia, imerso em dívidas, refugia-se no álcool e nas drogas. Em 1843 vai a «Washington para uma entrevista relativa a um cargo nas alfândegas da administração Tyler, porém embriaga-se e arruína as hipóteses». Nesse mesmo ano inicia um circuito de conferências sobre poesia norte-americana. Almeja fama e sucesso com a publicação do poema The Raven (1845). Com a mulher bastante doente, «corteja literariamente a poetisa Frances Sargent Osgood». A depressão e acessos de loucura perseguem-no. Tenta suicidar-se com láudano. São publicados vários apelos à caridade para com Poe e a sua família. Virginia morre em 1847, Poe adoece gravemente, continua a trabalhar, é publicado em França, suscita o interesse de Baudelaire, mas já pouco havia a fazer pela sua recuperação. Mantém vários romances, dos quais os mais conhecidos terão sido com as poetisas Sarah A. Lewis e Sarah Helen Whitman. Chegou a estar noivo desta última, mas os excessos alcoólicos afogaram as núpcias. Cada vez mais dependente do láudano, quase morre novamente em Novembro de 1848. Em 1849 fica noivo de Elmira Royster Shelton, a namorada de infância agora viúva. Em Setembro desaparece por alguns dias. Perdido algures entre Richmond e Nova Iorque, é encontrado em absoluto estado de delírio numa taberna de Baltimore. Morre no hospital, a 7 de Outubro, vítima de «congestão cerebral»:

[SÓ]

Eu não fui, desde a infância
Como outros eram… não olhei
O que outros viam… não busquei
Na mesma fonte as minhas ânsias…
Não foi do mesmo poço que tirei
Minha amargura… meu coração
Não entoou, em coro, hinos de louvor…
E tudo o que eu amei, amei em solidão…
Então ─ na minha infância ─ no alvor
De minha vida atormentada, fui refém
Do mistério que ainda hoje sobrevém
Do abismo donde brota o mal e o bem…
Da torrente, da nascente…
Da rubra fraga ascendente…
Do Sol que em mim revolveu
No seu fulgor outonal…
Do clarão que ascendeu
Pelo espaço, e em mim rasou…
Do trovão, do temporal…
Da nuvem que se moldou
(Conquanto azul fosse o céu)
Em demónio e me ensombrou.


Edgar Allan Poe, in Obra Poética Completa, trad. Margarida Vale de Gato, Tinta-da-China, Março de 2009, p. 199. Do mesmo poema, publiquei ali uma versão minha em Julho de 2005. Relembro-a agora:




Desde a hora da infância eu não fui
Como outros foram - eu não vi
Como outros viram – não pude tomar
Minhas paixões duma primavera vulgar.
Da mesma nascente eu não traguei
A minha tristeza; eu não despertei
Para o júbilo comum o meu coração;
E tudo o que amei, eu amei em solidão.
Nesse tempo da infância ─ na madrugada
Da vida mais tormentosa ─ foi traçada
Das profundezas do bem e do mal
O mistério que me mantém sem igual:
Da torrente ou da fonte,
Do rubro penhasco do alto monte,
Do sol que gira em meu torno
Num matiz dourado de Outono ─
Do relâmpago no céu
Que tão perto de mim se deu ─
Da tempestade e do trovão,
E da nuvem que adquiriu a feição
(Quando azul era o resto dos Céus)
De um demónio aos olhos meus.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

DOUBT


John Patrick Shanley, realizador de Doubt, foi o argumentista de Alive (1993), um filme de que alguns se recordarão pelas cenas de “canibalismo”. Ironias da sobrevivência. Mais discreto, o filme que opõe Meryl Streep (1949) a Philip Seymour Hoffman (1967), dois actores multifacetados com vários desempenhos de excelência no currículo, volta a incidir sobre a problemática do dilema moral. Agora, já ninguém tem de comer carne humana para sobreviver. Pelo menos, literalmente. Mas no ambiente eclesiástico que suporta a acção, o dilema moral surge intensificado pela não excepcionalidade da situação vivida. Temos um padre progressista e uma freira conservadora em conflito no território – simbólico - de um colégio. Digo simbólico por naquele colégio vislumbrarmos um campo de decisão sobre o futuro, ao passo que as barreiras interpostas entre a directora do colégio e o padre estão directamente relacionadas com o passado de cada um deles. A montagem é inteligente, deixa o espectador numa expectativa nunca desmascarada. John Patrick Shanley, o realizador, joga com insinuações, sugestões, simulacros, induz-nos a pensar isto ou aquilo conforme as “constrições” de cada uma das personagens. Há uma criança problemática cujo problema desconhecemos, não é objectivado, ainda que seja sugerido. Há uma relação de índole desconhecida entre essa criança e o padre, mas várias sugestões são feitas no sentido de ficarmos a pensar que o padre poderia abusar da criança, que a criança – um preto num colégio de brancos – poderia denotar comportamentos homossexuais, que o pai da criança o agrediria por isso mesmo, etc. E depois há a desconfiança da irmã Aloysius, directora do colégio, baseada em boatos, insinuações, uma suspeição debilitada pela incerteza, fundamentada apenas numa fé que se revela demasiado frágil perante a ausência de prova. As homilias do padre vão pontuando a relação de desconfiança estabelecida entre ambos, o plano de insinuações nunca resolvidas que coloca cada um deles num problemático fosso de incertezas, como se cada um, falando com o outro, estivesse apenas a falar para si próprio, nunca sendo absolutamente claro na manifestação dos seus sentimentos e das suas dúvidas. Esta situação, geradora de qualquer tipo de boataria, gera igualmente a bisbilhotice, o desejo de ver para lá do visível. O que há de mais interessante no filme é, precisamente, esta teatralidade dos diálogos, onde o que fica por dizer parece sempre mais determinante para as acções do que aquilo que é dito. Olhamos para aqueles dois como quem lê um texto metafórico, tentando compreender o segundo sentido que se esconde por debaixo do véu dissimulador da verdade, um véu de silêncios ou de palavras, tanto faz, um véu que nos coloca o mais elementar desafio do entendimento: procurar espreitar por debaixo da fé. Jesus falava por metáforas, diz-se. Nas suas metáforas esconder-se-ia a verdade. Por que não falava ele por verdades preferindo exprimir-se através de metáforas será problema a decifrar pelos exegetas interessados no assunto. Talvez porque as metáforas exemplificam a verdade, talvez por não esperar que os crentes sentissem necessidade de bisbilhotar para lá da fé que a metáfora exige. Porque a fé, de algum modo, é já interpretação. Uma interpretação sem intriga, assente apenas no princípio do acolhimento. Faltando essa fé, instaura-se a dúvida. Instaurando-se a dúvida, abala-se a fé. O sentido crítico da fé estará sempre, por isso mesmo, mais em acreditar com dúvidas do que autoconvencer-se sem incertezas. Julgo que é isso que a irmã Aloysius descobre no final.

INSÓNIA

Hoje à noite, no Prós & Contras, debater-se-á a indiferença dos portugueses para com todo o tipo de debates. Hoje à noite, Marcelo Rebelo de Sousa escolherá as melhores fotografias da tragédia no Haiti. Hoje à noite, Martim Cabral e Nuno Rogeiro explicarão aos portugueses para que serve um Hércules C-130. Hoje à noite, António Vitorino elogiará Manuel Alegre. Hoje à noite, José Sócrates distribuirá computadores Magalhães pelas crianças do Haiti. Hoje à noite, Cavaco Silva não comentará. Hoje à noite, Vasco Pulido Valente tentará explicar aos portugueses que Portugal é o Haiti da Europa. Hoje à noite, António Barreto tenderá a concordar com Vasco Pulido Valente, passe embora o exagero da comparação. Afinal, Portugal é só o Burkina Faso da Europa. Hoje à noite, George W. Bush pedirá dinheiro para o Haiti ao mesmo tempo que o furacão Katrina pestanejará no Iraque. Hoje à noite, Fernanda Câncio promoverá o casamento gay no Haiti em prol do robustecimento demográfico e económico desta nação das Caraíbas. Hoje à noite, Angelina Jolie e Madonna darão o exemplo adoptando crianças órfãs do Haiti que deambulam pelas cidades dos EUA. Hoje à noite, Medina Carreira refutará as previsões maias. O mundo já acabou, nós é que andamos distraídos. Hoje à noite, Pedro Santana Lopes andará por aí. Hoje à noite, Pacheco Pereira argumentará contra a comunicação social servindo-se da comunicação social. Hoje à noite, Manuela Ferreira Leite aliviará os joanetes com palmilhas ortopédicas. Hoje à noite, Clara Ferreira Alves citará Michel Houellebecq a propósito do Haiti. Hoje à noite, Daniel Oliveira andará muito indignado. Hoje à noite, Catarina Furtado será nomeada embaixadora dos embaixadores. Hoje à noite, Ricardo Araújo Pereira escreverá umas piadas giras. Hoje à noite, Pedro Mexia também. Hoje à noite, o Papa descalçará os seus sapatos vermelhos, retirará o seu chapéu Saturno e o camauro, despirá a Mozzetta, rezará pelas vítimas da fome, adormecerá a ver filmes do Manoel de Oliveira. Hoje à noite, os ricos adormecerão no aconchego do lar, os pobres dormirão ao relento, povos exóticos e mediaticamente fotogénicos comercializarão restos de comida encontrados em lixeiras. Hoje à noite, à distância, eu estarei a trabalhar até às 23h. Depois, muito provavelmente, serei assolado por mais uma insónia.

domingo, 17 de janeiro de 2010

CASAMENTO

Bernardo amava Bernarda. Pediu-a em casamento. Ela, decepcionada, respondeu-lhe asperamente:

— O casamento é para maricas.

sábado, 16 de janeiro de 2010

TRESMALHADO

Fotografia de Jorge Simão.


Duas memórias e uma inconfidência. A primeira é de um homem a esvair-se em suor, em estado de pânico induzido pela presença das câmaras televisivas, numa conversa apresentada por Clara Ferreira Alves, onde também estava o escritor Rui Zink. Vi aquele homem e senti certas afinidades com o tal estado de pânico. Era poeta, salvo erro chamava-se António Cabrita. A segunda é mais certa, não corre o risco da adulteração fantasista da memória, pois está documentada. 17 de Novembro de 2000, café literário em volta do teatro e da poesia de Jaime Rocha, apresentação de António Cabrita. Fui ouvir e ver, mais pelo apresentador que pelo apresentado, confessei, e logo às primeiras me desarmou o tom já não aflito, mas até bastante descontraído, de quem falava para a plateia sem pingo de suor no rosto. Talvez o problema fosse mesmo do cenário televisivo, das lentes que roubam a alma a quem se deixa por elas capturar. Mais estranho ainda, num homem cuja relação com o cinema sempre foi de grande proximidade. Lá iremos. Antes disso, a inconfidência. Há tempos recebi uma longa Carta do Extremo Sul. Meu caro Henrique, assim começam as mais de 20 páginas da missiva. Andei eu em estado de pânico durante meses, pegava nas folhas, começava a lê-las, ficava a meio. Uma lição de poesia, pois claro, tendo por motivo o meu singelo Cinzeiro Azul. Sucede que nunca agradeci, que nunca acusei sequer a recepção da dita, que só muito depois de a ter recebido consegui lê-la do princípio ao fim, que me senti, sinto, sentirei tão grato pelo gesto, que as palavras se me travaram algures e não quiseram responder. O que dizer a alguém que perde mais de 20 páginas com a nossa delirante inutilidade? É que tenho por regra este sentimento muito natural de que a vida se fica pelo estrume, pelo que todo o tempo sobre a terra é de uma preciosidade incomparável, insubstituível, inalienável. Investir mais de 20 páginas de tempo em palavras que me saíram dos dedos não é coisa que se agradeça, é coisa para guardar do lado esquerdo do peito até que este se transforme no estrume «com que a morte mantém / estáveis as características do subsolo». Aqui fica então a inconfidência, no dia em que lembro ter o poeta António Cabrita nascido no Pragal a 16 de Janeiro de 1959. Fez o curso de Cinema do Conservatório Nacional, publicando mais tarde peças/guiões dos quais Duas Luas, Entrededos (INCM, Março de 1984) é exemplo a reter. De resto, a ligação ao cinema foi sempre muito forte. Durante vários anos, António Cabrita foi crítico da sétima arte nas páginas do jornal Expresso (entre 1988 e 2004). Também escreveu aí sobre livros, aí e noutros lugares: JL, O Jornal, DL, etc.. A poesia aparece cedo e em boa companhia. Alberto Pidwell Tavares (vulgo Al Berto) publica-lhe Oblíqua visão de um cristal num gomo de laranja ou perene o sangue que arrebata os anjos vingadores (1979), título do qual nunca mais saberemos nada. Seguem-se outros de poesia, mas também de contos, argumentos para cinema, assim como novas aventuras pelo campo editorial, com a extinta Íman, ou com a direcção da revista Construções Portuárias. Em 1997, recebe o Prémio Cesário Verde pelo magnífico Carta de Ventos e Naufrágios (Teorema, Novembro de 1997). Três anos depois, arruma parte considerável da sua produção poética no volume Arte Negra (Fenda, 2000). Sobre Combate de Flautas (&etc., 2003), escreveu António Guerreiro no Expresso: «Certo é que a poesia de António Cabrita é em tudo contrária a uma nova austeridade que encontramos em muitos poetas recentes. Nela, as metáforas são o próprio órgão do pensamento e, por isso, ficam às vezes submetidas a um exercício rebuscado». Mais recentemente, Bar La Fontaine foi galardoado com o O Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire. Emigrado em Moçambique, onde é hoje docente universitário, António Cabrita também não coube na antologia:

Ah, ser de um rebanho
tresmalhado:

e eis meia vida desperdiçada
a enxertar
flores silvestres
no lenho dos românticos —

muito bem providos
os olhos
cerzidos em ouro.


António Cabrita, in Carta de Ventos e Naufrágios, Teorema, Novembro de 1997, p.74.