quinta-feira, 4 de março de 2010

AS RATAS (excerto)

Era uma pele de coelho, sem carne
Que me levou ao quarto pobre para me regalar:
A terra baldia que a Mr. Eliot parecia morte
Estimulou-me com paixão, vida e alento
Para prolongar por mais uma geração
Uma terra baldia satélite de veneração
Uma rolha, um bocado de osso, uma pedra
Não marcada em cartazes ou grandes estandartes
Para catapultar contra os conspiradores rodentes.

Ter-me-ia feito entender claramente?
Ata as tuas fitas a um novo mastro
De grupos guinchantes e rock-'n'-roll
Unindo tambores nativos a blues de terra baldia
Como bife de lombo a carne à jardineira,
Tudo serve para te sacudir a garganta e os pés
A feroz, feia, estranha derrota da morte
Que traz à vida e funde o grude
Que nos faz morrer como mezinha de bruxa.

...a britadora e turbo-broca que
Atravessa granito... como faca manteiga
(Devo seguir o nariz de M. Eliot
E rebitar este verso usando «Meiga»?)
Rock-a-bye-baby, chega à copa da árvore
Canta ao fazeres a colheita da maçã
Rouba todas as vozes truncadas de Ouarta-feira de Cinzas
Telefona ao Mardi-Gras para agarrar e partir:
Ata as fitas a um novo mastro.

A terra baldia foi o lugar onde melhor brinquei
Em miúdo ranhoso, de calção roto à pedrada:
De um quadro ferrugento e duas rodas de cama fiz
Uma bicicleta onde rodava e corria
Entre valados, por altos e baixos
E ferros-velhos anunciando «Armas para Espanha».
Uma pergunta de rata relampeja no ecrã:
«Como aprendeste a preencher requerimentos
E a atacar-nos com tempestades verbais?»

Li quase todo o pescador de girinos
O que Katy fez no seu primeiro Natal
O Conde de Monte Cristo, Notre Dame
A Ilha do Tesouro e a vergonha de Eliza
O esplêndido saque das casas de Usher
Por filantropos de rasgadas calças.

No inverno peles de coelho serviam bem
Para manter quentes as brasas desse conhecimento:

A terra baldia foi a minha biblioteca e faculdade.


Trad. Manuel de Seabra.



Romancista, dramaturgo, autor de livros infantis, Alan Sillitoe teve uma infância ensombrada pelas dificuldades económicas da família. Filho de Christopher Sillitoe e de Silvina Burton, gente humilde e iletrada da classe operária, Alan nasceu em Nottingham no dia 4 de Março de 1928. Obrigado a abandonar os estudos com apenas 14 anos, trabalhou como operário numa fábrica de bicicletas. Começou a escrever mais regularmente durante um internamento num hospital da RAF, após serviço militar cumprido na Malásia de onde trouxe uma tuberculose. Uma pequena pensão permitiu-lhe viver em França e na Espanha durante sete anos, onde foi recuperando da doença e intensificando o seu gosto pela literatura. Em 1951, conheceu a poeta norte-americana Ruth Fainlight que, apesar de se encontrar casada, resolveu acompanhar Sillitoe por França, Espanha e Itália, sobrevivendo ambos da pensão que o ex-militar auferia por serviços prestados à Royal Air Force. Em 1957 publicou o primeiro livro de poemas: Without Bear or Bread (fontes diversas apresentam The Rats and Other Poems, de 1960, como tendo sido o seu primeiro livro de poesia). Na ilha de Maiorca, travou conhecimento com Robert Graves, que o encorajou a escrever o romance Saturday Night and Sunday Morning (1958). O retrato da working-class de Nottingham foi um sucesso imediato, sendo posteriormente adaptado ao cinema. A escrita depurada e directa, mesmo vernacular, de Alan Sillitoe transformou-o num representante de uma espécie de neo-realismo britânico. Um ano depois da edição do primeiro romance, Alan Sillitoe casou com Ruth Fainlight. Embora a crítica nunca tenha sido generosa para o Sillitoe poeta, este fez sempre questão de afirmar esta sua condição como anterior à de ficcionista. Em 1963, passou algum tempo na União Soviética. O facto não é displicente, até porque terá contribuído para reforçar a catalogação do autor, embora contra desejo do próprio, como um dos «angry young men» que constituíam um grupo informal de escritores britânicos, provenientes das classes operária e média, entre os quais figurava John Osborne, autor de Look Back in Anger. Entre outros, foram-lhe atribuídos um Hawthornden Prize (1959) e várias condecorações académicas pela vastíssima obra publicada.

12 ANOS

O mundo é um viveiro de patinhos feios. As escolas estão cheias de patinhos feios. No mundo do trabalho, são tantos os patinhos feios que se nos torna difícil ver alguma beleza no mundo do trabalho. Os patinhos feios são agredidos por outros patinhos. No meu modo cá de ver, os patinhos que agridem são os mais feios de todos. Agridem, vão agredindo, complacente e impunemente. Os pais dos patinhos agressores não querem saber. Coisas de patinhos, dizem os patos e as patas, feios ou mais feios que feios, enterrando a cabeça nas águas turvas do descaso. Estar atento dá uma trabalheira danada. Deixem-nos pôr ovos descansadamente, chocá-los, não nos incomodem com brincadeiras de patinhos. Feios. Por vezes, os patinhos feios suicidam-se. Por vezes, antes de sequer terem aprendido a voar.

quarta-feira, 3 de março de 2010

PESCAR SOMBRAS

Tenho andado pela costa a pescar sombras. Se não entendeis, pensai nos lugares de descanso. Para lá chegar é preciso, primeiro, cansar os músculos. As virilhas ressentem-se, a idade começa a pesar, mas o coração aguenta sempre mais do que julgamos ser possível. Quem quiser, que perca o seu tempo com mesquinharias. Mas onde vai o corpo buscar a energia que falta ao espírito?


Às nuvens, talvez. Carregadas de um mar com asas. Ou ao sol, essa flecha que atravessa muros de treva para nos vir banhar os olhos ao mesmo tempo que mergulha na garganta de todos os medos. Ameaçado pela rouquidão da garganta revolteada, persigo as pegadas junto à rebentação. A espuma confunde-se com os dias. Quem quiser, que perca o seu tempo com mesquinharias. Ao longe, a realidade inclinada.

Ainda há quem desafie a natureza. Talvez com um respeito que nos tem faltado. Por isso nos espantamos, neste início de ano pavoroso, com a terra que treme, as fendas abertas no alcatrão, os corpos engolidos pela ferocidade das águas, todo um modo de vida arrastado pela lama para um outro lugar qualquer. Um lugar de silêncio, quem sabe? Quem quiser, que perca o seu tempo com mesquinharias.


De tudo o que tem acontecido, registe-se a beleza medonha que esta força imprime nas nossas parcas vidas. A qualquer instante comestíveis, somos alimento de velhos mitos, fantasmagorias acordadas, recuperadas, relembradas pela destruição e pelo pavor. No fundo, nada somos. Queremos pensar o contrário, mas a natureza vai-se encarregando de nos desmentir.

Praia do Salgado, Nazaré.

O SILÊNCIO DO CHANTAGISTA

Embora as pessoas valorizem o silêncio de um chantagista, e paguem por ele, o silêncio do chantagista não é uma actividade produtiva. As suas vítimas ficariam igualmente bem se o chantagista não existisse sequer e, portanto, não as ameaçasse. E não ficariam pior se se pensasse que a troca era absolutamente impossível. Na perspectiva que adoptamos aqui, quem vendesse tal silêncio podia legitimamente cobrar apenas o que omite pelo silêncio. Aquilo que ele omite não inclui o pagamento que poderia receber para se abster de revelar a sua informação, embora inclua os pagamentos que outros lhe fariam para revelar a informação. Assim, alguém que estivesse a escrever um livro, para cuja pesquisa se deparasse com informação acerca de outra pessoa, informação que caso fosse incluída no livro ajudaria nas vendas, pode cobrar a outro que deseja que esta informação seja mantida em segredo (incluindo à pessoa sobre quem incide a informação) para se abster de incluir essa informação no livro. Pode cobrar uma quantia em dinheiro igual à diferença esperada, em direitos de autor, entre o livro com esta informação e o livro sem a mesma; não pode cobrar o melhor preço que conseguiria obter ao comprador do seu silêncio. Os serviços de protecção são produtivos e beneficiam o seu destinatário, ao passo que a «extorsão de protecção» não é produtiva. Ao ser-nos vendida, por parte dos vigaristas, a mera abstenção destes em lesar-nos, a nossa situação não fica melhor do que se nada tivéssemos a ver com eles sequer.

Robert Nozick, in Anarquia, Estado e Utopia, trad. Vitor Guerreiro, Edições 70, Novembro de 2009, pp. 120-122. Justify Full



São imensos os exemplos históricos que corroboram a afirmação, mas também há daqueles que nos permitem justificar as relações entre os indivíduos num plano moral que ultrapassa a mera relação de deve e haver aqui exposta. Cobrar pelo silêncio é típico. O próprio Estado representa, muitas vezes, o papel do chantagista. Podemos, no entanto, supor uma situação em que nenhum dinheiro possa cobrar o silêncio. Aquele que se presta para dar com a língua nos dentes pode ter vários motivos a justificarem-lhe a intenção. O prestigio que advém, por exemplo, do crédito moral atribuído àqueles que se mostram corajosos e menos flexíveis perante ganhos imediatos. Outro ganho, de tipo kantiano, é aquele que resulta da própria prática do bem, embora eu esteja convencido de que há muito os indivíduos perderam esse sentido do dever que leva alguém a agir, não em benefício exclusivamente próprio, mas em benefício de todos, o que, em abstracto, significa agir exemplarmente. Pagar a um chantagista tem um significado menos formal: é pagar a dissimulação da verdade. No mundo em que vivemos, nada é tão lucrativo como a mentira. O problema está em que aqueles que lucram com a mentira penalizam de um modo impagável as vítimas do embuste. (Estou a lembrar-me da invasão do Iraque.) Quem são essas vítimas? Todos os que são prejudicados pela dissimulação da verdade.

terça-feira, 2 de março de 2010

ERVAS DANINHAS


Antes de morrer, o jardineiro compreendeu
quanto é inglório o esforço de erradicar
a desordem do mundo. Pela janela, viu
o canteiro pisado pelos cães, a sebe menos
simétrica, o musgo esverdeando a estátua,
o ancinho cedendo à ferrugem. Chamado
à pressa para a extrema-unção, o padre
nunca mais esqueceu aquela última frase.
«Afinal, as ervas mais formosas eram
as daninhas», disse. Ainda hoje a sua
campa parece uma pequena selva onde
nunca entraram sementes ou flores.

José Mário Silva, in Nuvens & Labirintos, Gótica, Outubro de 2001, p. 79.


E o José Mário Silva nasceu a 2 de Março de 1972. É um tipo porreiro. O resto podem ler aqui.

LÁ FORA



Michael Schmidt nasceu na Cidade do México a 2 de Março de 1947. Antes de se fixar em Inglaterra, estudou em Harvard e Oxford. Fundador e director editorial da Carcanet Press, que começou por publicar panfletos no termo da década de 1960, dirige igualmente a revista Poetry Nation (PN Review), fundada em 1973, quando o poeta era Gulbenkian Fellow of Poetry no Manchester Poetry Centre. Professor de poesia na Universidade de Glasgow, destacou-se como crítico e ensaísta. Organizou diversas antologias. Em 2006, recebeu um OBE por, escutem bem, «services to poetry and higher education». Isto é possível. O seu projecto mais ambicioso talvez tenha sido uma História da Poesia. É também autor de dois romances. O vídeo acima é de uma leitura em homenagem ao poeta irlandês Thomas Kinsella. Um poema:


PROSTITUTAS ÍNDIAS

Guarda-sóis verdes tornam as mulheres em folhas.
O betão onde andam guarda um rastro
De sombra perfumada. Entre os peitos
Trazem sacos de moedas.

Ódio à asa de ave e à sua sombra,
flecha no ar, arqueiro
e o sol. Amar o céu
abandonado: azul que leva histórias como pó
e arrasta folhas como estas mulheres índias.

Podiam encarnar as estátuas castanhas
enterradas em verde. À luz da neve os seus ancestros
beberam sangue com as águias da sierra,
rudemente devoraram o coração de cactos
e homens. Estas são suas filhas inocentes.

Falta de bailadeiras na última cinza. Nunca
recordaram e nunca dormem sós. Uma nova página,
sorrisos em verde, e cânhamo aninha onde herdeiros
nascem sem o mínimo fogo.



Michael Schmidt, in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, org./trad. Manuel de Seabra, Livros Horizonte, Junho de 1982, p. 132.

A BUCHA

Lembrei-me agora que ainda não comi nada e já só me restam 212,84€. A ventania está de volta, ameaça arrancar-me os estores da casa. Espero que não faça estragos. Falta-me orçamento para reparações e não tenho seguro. O meu seguro, nestas ocasiões, é a oração. Mas a verdade é que nem um ateu que reza vive de se alimentar à base de mezinhas. Portanto, há que enganar o estômago com uma bucha. Arrumemos a um canto o subsídio de alimentação. Não interessa para aqui. É justo, tendo em conta que não tenho feito as contas ao orçamento contando com os encargos paternos. Imaginemos, pois, que as duas filhas não comem ou que se alimentam à base de ervilhas. Façamos antes de conta que elas não existem, que não farão parte das nossas preocupações orçamentais. Podemos assim esquecer toda uma série de despesas que nem convém lembrar, para bem da nossa saúde mental. Alimentação, roupa, escola, lazer, higiene. Higienizemos o orçamento pela tabela da vida solitária. Por uma vez na vida, a família ficará no saco. Portanto, restam-me 212,84€ para comer. Sendo eu um homem de peso, poderá o leitor supor que sou igualmente um desses escravos do alimento que reclamam por tudo e por nada. A verdade é que o meu estômago vive bem com pouco, ainda que pouco por vezes pareça muito e, noutras ocasiões, nos faça pensar que andamos perto de nada. De quando em vez, cometo umas loucuras. Mariscada na Nazaré, bacalhau à campino no Guisado, bife da vazia na Portugália, uma imperial e uma chamuça numa esplanada qualquer. É raro. Regra geral, desenrasco a fome com o que está à mão. Vou então supor que 6€ por dia me chegam perfeitamente para pequeno-almoço, almoço e jantar. Nada de lanches nem de ceias, que o estômago, não estando danificado, dificilmente resistiria a dietas mais exigentes. 6€ por dia. Parece-me uma diária razoável e justa. Multiplicamos por 30 dias e obtemos a módica quantia de 180€. Subtraído este valor aos 212,84€ que nos restavam, ficamos com 32,84€. Uma fortuna que ainda terá de chegar para as receitas médicas, para o MEO, para o cinema, o teatro, a ópera, para as estadias em hotéis de luxo sempre que viajamos, porque nos fartamos de viajar, uma fortuna que teremos de aprender a multiplicar se quisermos, sei lá, mudar as lâmpadas do tecto, as pilhas dos comandos, comprar toalhas, artigos de limpeza, incenso, uma fortuna que terá de ser distribuída, com lógica e propriedade, pelas carências de satisfação mais premente. O cão pode morrer à fome. E não se admirem se tivermos os dentes estragados. Com um ordenado destes, quem consegue pagar a um dentista?

MÁQUINA DE EXPERIÊNCIAS

Suponhamos que havia uma máquina de experiências que proporcionaria ao leitor a experiência que desejasse. Neuropsicólogos superfixes podiam estimular o seu cérebro de maneira a pensar e sentir que escrevia um grande romance, fazia uma amigo, ou lia um livro interessante. Durante todo o tempo, estaria a flutuar numa cuba, com eléctrodos ligados ao cérebro. Dever-se-ia ligar esta máquina durante toda a vida, pré-programando as suas experiências de vida? Se está preocupado com a perda de experiências desejáveis, podemos supor que as empresas investigaram exaustivamente a vida de muitos outros. O leitor pode escolher a partir da sua imensa biblioteca ou bufete dessas experiências, seleccionando as suas experiências de vida para, digamos, os dois anos seguintes. Após dois anos, poderia passar dez minutos ou dez horas fora da cuba, para seleccionar as experiências dos seus dois anos seguintes. Evidentemente, enquanto está na cuba não saberá que ali está; pensará que tudo aquilo acontece efectivamente. Os outros podem também ligar-se e ter as experiências que quiserem, pelo que não há necessidade de estar desligado para os servir. (Ignore problemas como o de saber quem cuidará das máquinas se todos se ligarem.) Ligar-se-ia? O que mais pode ter importância para nós, além do modo como são as nossas vidas a partir de dentro?

Robert Nozick, in Anarquia, Estado e Utopia, trad. Vitor Guerreiro, Edições 70, Novembro de 2009, pp. 74-75.

Há poetas que escrevem como se estivessem ligados a uma destas máquinas. Outros parecem eles próprios máquinas de experiências. Os meus preferidos são apenas e tão só aqueles que escrevem em busca de uma resposta para a questão final. Possivelmente desconfiando que tal resposta não exista, não deixam de tentar. Porquê? Talvez por terem entendido que melhor do que a previsibilidade dos dias é sermos brindados pelos acidentes. E, por isso, experienciam não de um modo maquinal, mas de um modo que lhes permita continuar a pensar que vale a pena, mesmo que não valha, continuar a experienciar.

segunda-feira, 1 de março de 2010

MORREU AGARRADO A UM RETRATO

Girl in Bed (1952), de Lucian Freud

OS AMIGOS CHAMAVAM-LHE CAL


Filho de um ilustre oficial da marinha, Robert Lowell nasceu em Boston no dia 1 de Março de 1917. Os primeiros estudos foram feitos na St. Mark's School, onde foi aluno do poeta Richard Eberhart. Os amigos chamavam-lhe Cal, do imperador Calígula e de Caliban, personagem d’A Tempestade, de Shakespeare. Terminados os estudos em St. Marks, ingressou num curso de Literatura Inglesa em Harvard. Aí conheceu Robert Frost, um dos mais relevantes poetas norte-americanos. Pediu-lhe opinião sobre um poema que havia escrito e obteve óptimas referências. Lowell tornou-se amigo próximo de Frost, acabando este por ajudá-lo em várias ocasiões. Nos últimos anos da década de 1930, os pais de Lowell mostraram-se descontentes com a relação que o filho mantinha com a escritora Jean Stafford. Lowell cortou relações com a família e casou com Jean. À época, alguns problemas de saúde começaram a evidenciar-se no poeta. Sobre aconselhamento psiquiátrico, transferira-se para o Ohio, onde estudou poesia e crítica com John Crowe Ransom. No Kenyon College travou também conhecimento com Peter Taylor e Randall Jarrell, de quem se tornaria grande amigo. A 8 de Setembro de 1943, enviou uma carta ao Presidente Roosevelt recusando-se a servir nas Forças Armadas. A ousadia levou-o às grades durante um ano. O primeiro livro, de cariz autobiográfico, aparecerá em 1944: Land of Unlikeness. Dois anos depois, venceu o Pulitzer com Lord Weary’s Castle. Thoreau e Melville eram influências assumidas. Em 1948, Robert Lowell divorciou-se de Jean Stafford. Os problemas de saúde tinham-se agravado. As primeiras crises psiquiátricas permitiram traçar o diagnóstico: maníaco-depressivo (ou perturbação bipolar, se preferirem). O poeta iniciou uma relação com Elisabeth Hardwick, com quem casou em 1949, mas, passados dois anos, apaixonou-se por Elizabet Bishop. Os dois manterão correspondência até à morte de Lowell. Entre outras, uma mancha no currículo: apoiou Joe McCarthy na perseguição aos comunistas. Viajou, na companhia da mulher, por Florença, Amesterdão, Bruxelas e Paris. A sua poesia era reconhecida e premiada, o poeta foi convidado a leccionar no Salzburg Seminar, onde sofrerá mais uma crise. Tratamentos com electrochoques não resolveram o problema. Regressou a Boston em 1954, ano em que a sua mãe faleceu. A segunda metade dos anos 50 será de trabalho académico, traduções de autores clássicos, entre outros. A 4 de Janeiro de 1957 nasceu-lhe a filha Harriet. As crises psiquiátricas e consecutivos internamentos não desaparecerão. Com Life Studies, em 1959, recebeu o National Book Award. No entanto, a década de 1960 será de empenho civil. Manifestou-se contrário ao envolvimento dos americanos no Vietname e recusou participar no White House Festival of the Arts, subscrevendo um abaixo-assinado contra a guerra e participando na marcha sobre o Pentágono. Em 1970, partiu para Inglaterra. Afastou-se de Elisabeth Hardwick e aproximou-se de Lady Caroline Blackwood, ex-mulher do pintor Lucian Freud, com quem virá a casar e de quem terá um filho, Sheridan. Na Primavera de 1975, sofreu alguns problemas cardíacos. A morte torna-se uma obsessão que se transformará numa realidade a 12 de Setembro de 1978, durante uma viagem de táxi. Diz-se que morreu agarrado a um retrato de Caroline Blackwood pintado por Lucian Freud, quando tentava regressar para junto de Elisabeth Hardwick e da sua filha Harriet:

MARIDO E MULHER

Domesticados pelo
Miltown, estamos deitados na cama da Mãe;
o sol, despontando em pinturas de guerra, tinge-nos de vermelho;
à plena luz do dia, as colunas doiradas da cama brilham,
abandonadas, quase dionisíacas.
As árvores estão finalmente verdes em Marlborough Street,
as flores desabrochando na nossa magnólia inflamam
a manhã com um branco mortífero de cinco dias.
Durante toda a noite segurei a tua mão,
como se tivesses
enfrentado pela quarta vez o reino dos loucos ─
o seu discurso banal, o seu olhar homicida ─
e me tivesses arrastado para casa vivo… Oh, minha
Petite,
a mais lúcida de todas as criaturas de Deus, toda ela ainda ar e vigor:
estavas nos teus vinte anos, e eu,
com um copo na mão
e o coração na boca,
esvaziei os
Rahvs no calor
de Greenwich Village, desmaiando a teus pés
demasiado agitado e tímido,
com uma expressão demasiado impassível para namorar,
enquanto o insistente entusiasmo
da tua invectiva feria o Sul tradicional.

Agora, doze anos depois, voltas as costas.
Sem sono, anichaste-te
à almofada como uma criança,
a tua tirada fora de moda ─
terna, rápida, implacável ─
irrompe como o Oceano Atlântico na minha cabeça.


Robert Lowell, in Aos Mortos da União e Outros Poemas, trad. Mário Avelar, Assírio & Alvim, Abril de 1993, pp. 37-39. Nota do editor: «Miltown» é um tranquilizante. «Rahvs» é uma referência ao crítico Philip Rahv, editor da Partisan Review, e à sua mulher. Na imagem: Robert Lowell , Elisabeth Hardwick e Harriet Lowell.

MARÇO

Para começar bem o mês, nada como uns epigramas do ibérico Marcial. Há quem diga que nasceu a 1 de Março, cerca de 40 d.C.. Viveu em Roma e deixou 12 livros de epigramas, dos quais deixamos aqui três eloquentes exemplos:

Lamentas, Cornélio, que os meus versos
sejam pouco sérios, nada a gosto do mestre-escola.
mas livros destes, tal como o marido à mulher,
não satisfazem se não for com a pissa.
queres celebrar núpcias sem usar
as palavras que lhe pertencem?
alguém aboliria o nu nas Florálias,
e greve túnica às putas imporia?
é natural que poemas prazenteiros
não consigam dar gozo
se não provocarem certas comichões.
deixa-te portanto de rigores, absolve
o jogo e o divertimento. Não me castres,
peço-te, os meus livros.
Príapo sem colhões nunca se viu
.

*

Tens um rosto a que nem as mulheres são capazes
de pôr defeito, tens um corpinho sem mácula,
e não te admira que seja tão raro desejarem-te,
para não dizer repetirem? Galla, tens um defeito
de bradar! sempre que eu meti mãos e empernámos,
a tua cona não se calou, e tu calada.
provesse aos deuses que falasses tu, não ela,
que é gorjeio que não agrada.
antes te peidasses: como diz Símaco
tem a vantagem de nos fazer rir.
mas quem ri com os peidos vaginais?
a quem não cai ali mesmo tudo ao chão?
diz qualquer coisa que abafe a palradora,
e, se és muda, aprende com ela a falar.


*

Apanhaste-me, mulher, a enrabar um rapaz,
e alto e bom som disseste que também tinhas cu.
não o dizia assim mesmo Juno ao lascivo Júpiter,
que não deixava de se deitar com Ganimedes já crescidinho?
e quando Hércules, em vez do arco, vergava Hilas
achas que Mégara não tinha nádegas?
a fugitiva Dafne fazia os ardores de Apolo:
quem lhe apagou o fogo? um rapaz espartano.
Briseida nunca se negava de costas, mas Aquiles
preferia o doce amigo.
Por isso, mulher, poupa termos masculinos
para isso que aí tens: não é cu, são duas conas.


Marcial, traduzido por Alberto Pimenta, in Telhados de Vidro, n.º7, Averno, Novembro de 2006, pp. 51-57.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

FORTE E VIGOROSO


«Tudo aquilo que não aconteceu a Ruy Belo mostra os mecanismos da merda em que nos fazem chafurdar» (Joaquim Manuel Magalhães). Ruy Belo nasceu em São João da Ribeira, aldeia do concelho de Rio Maior, a 27 de Fevereiro de 1933. Quem o conheceu, diz que era um rapaz tímido. Como praticamente toda a gente daquelas bandas, teve uma educação religiosa. Em 1943, matriculou-se no Liceu de Santarém. Concluído o Liceu, foi estudar Direito para Coimbra. Foi por essa altura que se comprometeu com o Opus Dei, organização que, segundo o próprio, veio a abandonar alguns anos depois por lhe ter sido proibida a escrita de poesia. Magalhães conta que Ruy Belo falava inclusive de um livro que fora obrigado a destruir por ordem do seu orientador espiritual. Isento do Serviço Militar, transferiu-se para a Universidade de Lisboa em 1954. A Licenciatura em Direito foi concluída em 1956. Partiu então para Roma, onde se doutorou em Direito Canónico com uma tese intitulada Ficção Literária e Censura Eclesiástica. Regressado a Lisboa, foi, durante praticamente três anos, Director Literário da Editorial Aster e chefe da Redacção da revista Rumo. Fez um estágio para advocacia, proferiu palestras sobre literatura na Emissora Nacional, foi adjunto do Director do Serviço de Escolha de Livros do Ministério da Educação Nacional, demitindo-se quando ia ser nomeado Director. 1961 é um dos anos mais marcantes da sua biografia. Abandona o Opus Dei, publica o primeiro livro, intitulado Aquele Grande Rio Eufrates, e conhece Maria Teresa, futura mulher, como bolseira da Gulbenkian na Faculdade de Letras de Lisboa. Eugénio de Andrade lembra o aspecto físico do poeta: «era forte e vigoroso, como se tivesse praticado basquetebol, ou coisa assim, e ficasse para sempre grandalhão e gauche». Mas lembra mais. O primeiro livro de Ruy Belo fora concorrente ao Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores, perdendo para Poesia III de José Gomes Ferreira. Entretanto, Ruy Belo foi traduzindo vários autores, publicou O Problema da Habitação, organizou a edição de livros de Camilo e Antero, casou com Maria Teresa, publicou o terceiro livro, Boca Bilingue, foi chefe do serviço de edições da União Gráfica, concluiu a licenciatura em Filologia Românica, foi pais duas vezes e, em 1969, candidatou-se a deputado por Lisboa nas listas da CEUD. Armando Pereira da Silva lembra que, por esta altura, «a sua ligação contratual a estruturas editoriais da Igreja entrou em colapso. E as portas profissionais seguintes foram-se fechando, apesar das duas licenciaturas e um doutoramento». Em 1971, além de ter prefaciado Sob Sobre Voz, de João Miguel Fernandes Jorge, conseguiu um lugar de leitor de português na Universidade de Madrid. A polícia política tentou limitar-lhe as acções procurando impor que falasse apenas de literatura. Ruy Belo manteve-se em Madrid durante seis anos, continuando a publicar os seus livros em Portugal, passando férias na Praia da Consolação, intervindo civicamente na cooperativa Proelium, regressando definitivamente no ano de 1977. No regresso, algo debilitado fisicamente, foi recebido com indiferença pela Academia, que lhe barrou a entrada como professor numa Faculdade. O Ministério da Educação e Cultura também lhe negou um pedido de equiparação a bolseiro. Tudo o que havia para o poeta, independentemente das habilitações, era um horário nocturno na Escola Técnica do Cacém. «Ficou muito quieto, bebendo muito sem nunca se embriagar, tomando muitos banhos frios para não entorpecer, tentando esquecer nos psicofármacos as mandíbulas dos que lhe fingiam apreciar os versos, para o despedir em seguida para o limbo dos inofensivos» (Joaquim Manuel Magalhães). O autor de A Margem da Alegria morreu no dia 8 de Agosto de 1978, na sua casa de Queluz, vítima de um edema pulmonar. Deixou três filhos e uma obra ímpar que os doutores da Academia podem agora apreciar, confortavelmente instalados nos lugares distribuídos onde vão refastelando o descaso:

O VALOR DO VENTO

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em Agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

AULA DE POESIA

Em Portugal não há aulas de poesia. Quando muito, uns cursos de intensidade média-baixa, workshops de escrita criativa, ou seja, uma escrita sem criatividade alguma. Porque, em Portugal, há um gene poético que predispõe qualquer português não só para se tornar poeta como também para tudo saber e tudo poder ensinar acerca dessa ciência do disfarce que dá pelo nome de Poesia (vai com maiúsculas, para fazer justiça à grandeza do país). Que um poeta e crítico de poesia (dupla condição que prolifera entre nós) chame Aula de Poesia a uma recolha de textos sobre livros de outros poetas, só pode denotar um saudável sentido da ironia que é viver num país onde toda a produção poética, para não falar da produção crítica, interessa apenas àquela meia dúzia de gatos-pingados que ainda lê poemas. Desconfio mesmo que, desta meia dúzia, metade sejam poetas ou aspirantes a. Se subtrairmos o professorado, que, como sabemos, acaba muitas vezes por ser indistinguível daquela metade, ficamos com uma ínfima parte de leitores sem aspirações. A dúvida é: será que lhes interessa uma aula de poesia? Duvido.

Muito por culpa de uma saudosa coluna mantida durante vários anos na revista LER, Eduardo Pitta (n. 1949) foi-se afirmando, sobretudo, como crítico literário. Preferiria chamar-lhe leitor atento, com um sentido crítico muito próprio, pois a escrita de Pitta raramente se aventura por uma análise especulativa das obras. Ao relermos os textos agora coligidos, percebemos claramente que o registo é outro. A recolha intitulada Metal Fundente (Quasi Edições, Maio de 2004) já havia sublinhado o interesse pelo apontamento biográfico, tendência que volta a manifestar-se determinante nos textos de Aula de Poesia (Quetzal Editores, Janeiro de 2010). Esta propensão para o biografismo acarreta um problema evidente: não havendo biografia, os textos perdem fôlego. Não admira, pois, que das recensões agora recuperadas, as menos interessantes sejam, regra geral, aquelas que têm por objecto um livro de um autor mais recente. O texto dedicado a Gonçalo M. Tavares, por exemplo, é de uma pobreza exasperante. Em 35 linhas, 8 ocupam um primeiro parágrafo onde se enumeram alguns autores contemporâneos mais prolixos, 8 linhas são para informações genéricas sobre a obra do autor, duas citações do livro ocupam 13 linhas, restando, sobre a obra, basicamente 4 interrogações e uma hipótese: «Podia ser uma reacção ao excesso de legibilidade dos anos 90, mas nem isso é, porque a estranheza da forma não oblitera o fio do discurso» (pp. 80-81). Fala-se ainda de poesia como mantra, mas fica a sensação de que nada havia para dizer.

Ao contrário, alguns textos sobre “autores menos novos” revelam-se assaz atraentes, quer pela informação biográfica que proporcionam, quer pelo enquadramento que sugerem da obra. Sublinho, entre outros, o texto de uma conferência sobre António Botto e as prosas dedicadas a Camilo Pessanha e Judith Teixeira, mas também os dois textos onde Eugénio de Andrade aparece evocado, sobretudo por neles ter entrevisto comentários muito mais desinibidos do que as leituras fastidiosamente apologéticas que geralmente são dedicadas ao autor de As Mãos e os Frutos. Os textos sobre Rui Knopfli, Luís Miguel Nava e João Miguel Fernandes Jorge cabem no que de melhor tem esta recolha, sendo igualmente de registar algumas leituras onde podemos descobrir enumerações, correcções, lembretes que permitem montar, como se de um puzzle se tratasse, o olhar do crítico sobre a actualidade literária: «A poesia portuguesa do século XX não tem uma antologia decente» (p. 34), «a poesia não é um jogo de salão» (p. 84), «a representatividade releva do conjunto da obra (muitas vezes desdobrada em vários géneros) e da intervenção do autor na sociedade, a qual se deve não confundir com visibilidade mediática» (p. 93), «a poesia portuguesa tornou-se um feudo académico» (p. 146), etc.

No entanto, o estilo de Eduardo Pitta deixa-me sempre dúvidas sobre uma real conformidade entre o afirmado e o praticado. Não sei até que ponto é necessário frequentar os salões para se poder dizer que a poesia não é um jogo de salão, ou se as cedências ao “feudo académico” e uma especial atenção a um putativo “cânone”, com apreciáveis excepções, como é óbvio, não legitimam e reforçam esse mesmo feudo. Pormenores de estilo, talvez, que permitem citar Carlo Vittorio Cattaneo, Barthes, Ducrot, Joaquim Manuel Magalhães (em dose dupla), Harold Bloom, Américo António Lindeza Diogo e Manuel Frias Martins, num mesmo texto, breve, a propósito de um livro de Nuno Júdice. O uso e abuso de estrangeirismos, locuções latinas, entre outras, reforça a pose: ars erotica, ars poetica, avant la lettre, bon vivant, bric-à-brac, close reading, corpus, deadline, diktat, engagement, establishment, ex aequo, expertise, freedom fighters, free lance, happy few, in progress, insert, intelligentzia, Kenosis, Kitsch, lead, leitmotiv, lobby, malgré, naïveté, nonsense, notebook, outsider, overact, plot, post scriptum, private joke, queer, scholar, script, soixante-huitard, success d’estime, tour d’horizon, travelling, turning point e, last but not least, virtuose. Enfim, caso para dizer que não havia necessidade.

Escrito para o Rascunho.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

NÃO É CERTO QUE TENHA MORRIDO SEM DEIXAR UM LIVRO

José Joaquim Cesário Verde nasceu em Lisboa a 25 de Fevereiro de 1855. O pai tinha uma loja de ferragens e dedicava-se à lavoura numa quinta em Linda-a-Pastora, nas imediações da capital. Terá contribuído para que a vocação poética do filho fosse retraída, tendo-o educado, sobretudo, para a vida de comerciante. Ainda criança, Cesário começou a trabalhar na loja do pai. Após os estudos secundários, matriculou-se no Curso Superior de Letras, sem nunca ter marcado presença nos exames finais. Valeu-lhe a experiência para travar conhecimento com Silva Pinto, um amigo de grande proximidade com quem Cesário manteve uma relação que tem sido alvo de várias especulações. O próprio recordará o dia do primeiro encontro no prefácio à primeira edição de O Livro de Cesário Verde: «Encontrámo-nos pela primeira vez no Curso Superior de Letras. Foi em 1873. Cesário verde matriculara-se no Curso, em homenagem às Letras, como se as Letras lá estivessem ─ no Curso. Eu matriculara-me, com a esperança de habilitar-me um dia à conquista duma cadeira disponível. Encontrámo-nos e ficámos amigos ─ para a vida e para a morte. Para a vida e para a morte». A decepção com o mundo universitário e uma inclinação literária que chocava com a vida de comerciante, transformam o poeta num indivíduo solitário. Comerciante de profissão, jamais seria aceite na cátedra dos homens de letras. Entre estes, como é sabido, os balcões são mais baixos e as negociatas menos translúcidas. Diz-se, portanto, que Cesário Verde escreveu poesia nas horas vagas, incapaz de cortejar os seus pares no mundo das letras e evitando o convívio com os seus pares no mundo do comércio. Foi publicando em jornais e revistas, provocando o sarcasmo de Ramalho Ortigão ─ deve tornar-se «menos Verde e mais Cesário» ─ e, num tom menos irónico, alguma polémica: «…o seu folhetim, onde cada verso é simplesmente um vomitório…» 12 de Novembro de 1873 marca a estreia do «poeta-negociante» no Diário de Notícias. Frequentou, igualmente, as páginas do invicto Diário da Tarde. Em 1874, mais uma de muitas desilusões literárias: Teófilo Braga não inclui nenhum dos poemas de Cesário na antologia Parnaso Português Moderno. Burguês, algo dândi, atraído pela boémia, Cesário Verde afoga as mágoas e as amarguras com absinto bebericado nas tascas e nos cafés. «Era um rapaz alto, direito, elegante, simpático, cabelo curto, alourado, olhos azuis, vestindo sempre fato azul, de jaquetão, de corte inglês, sapatos amplos, com todo um ar britânico»… Cada vez mais afastado da vida literária, substitui o pai nos afazeres mercantis. Publica raramente, adia a edição de um livro, perde uma irmã e um irmão com tuberculose, começa a manifestar o pavor da doença. O trabalho leva-o a Inglaterra e França, onde terá assistido ao funeral de Vítor Hugo. Deambula pela capital portuguesa, procura conforto no campo, mas a doença persegue-o, agrava-se, acaba por colhê-lo. Ignorado pelos seus contemporâneos, queixava-se aquando da publicação de O Sentimento dum Ocidental: «Uma poesia minha, recente, publicada numa folha bem impressa, limpa, comemorativa de Camões, não obteve um olhar, um sorriso, um desdém, uma observação. Ninguém escreveu, ninguém falou, nem num noticiário, nem numa conversa comigo; ninguém disse bem, ninguém disse mal!... Literariamente parece que Cesário Verde não existe». Cesário Verde morreu a 19 de Julho de 1886, com trinta e um anos. O Diário de Notícias, jornal onde o poeta se estreara, fez-lhe o necrológio: «malogrado poeta e comerciante». Meses após a morte do poeta, o amigo Silva Pinto publicou, a expensas próprias, a primeira edição do Livro de Cesário Verde. O resto é história:

CINISMOS

Eu hei-de-lhe falar lugubremente
Do meu amor enorme e massacrado,
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.

Hei-de expor-lhe o meu peito descarnado,
Chamar-lhe minha cruz e meu calvário,
E ser menos que um Judas empalhado.

Hei-de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
E desvendar-lhe a vida, o mundo, o gozo,
Como um velho filósofo lendário.

Hei-de mostrar, tão triste e tenebroso,
Os pegos abismais da minha vida,
E hei-de olhá-la de um modo tão nervoso,

Que ela há-de, enfim, sentir-se constrangida,
Cheia de dor, tremente, alucinada,
E há-de chorar, chorar enternecida!

E eu hei-de, então, soltar uma risada.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

ELEGIA


Conhecia Isabel Coixet (n. 1960, Barcelona) do filme The Secret Life of Words. Em Elegy, pude confirmar a inclinação da realizadora para relações amorosas contaminadas pelo lado trágico da vida. Tudo num tom de apreciáveis sobriedade e contensão, ainda que o aparente realismo das imagens perca autenticidade na improbabilidade de uma retórica demasiado confiante e esclarecida. Talvez o defeito seja meu, acredito mais nas estribeiras perdidas do que na capacidade das pessoas para resolverem os seus problemas de um modo, digamos assim, civilizado e polido. É verdade que a predilecção da realizadora por pares que juntam homens mais velhos a jovens moças ajuda a maturar os discursos e a manter um certo equilíbrio, se bem que, nos dois filmes, os homens pareçam crianças ao pé das suas jovens paixões. Que o estereótipo da jovem moça virginal e ingénua, ou simplesmente depravada, seja transposto por uma opção que prefere jovens amadurecidas por experiências traumáticas, sublinha apenas um certo olhar feminino sobre o lado macho da questão. Se Tim Robbins (n. 1958) parecia ter mais a aprender com Sarah Polley (n. 1979) em The Secret Life of Words do que o contrário, Ben Kingsley (n. 1943) não parece ter menos a aprender com Penélope Cruz (n. 1974) neste Elegy. O argumento adapta The Dying Animal, um romance de Philip Roth sobre a paixão entre um velho professor de literatura e uma das suas jovens estudantes. Ao (re)descobrir o amor com Consuela Castillo, o professor Kepesh, divorciado e algo licencioso em matéria de paixões, vê-se numa espécie de terreno pantanoso que o obriga a uma constante racionalização dos sentimentos. A diferença de idades é o principal problema que se intromete na relação, a qual favorece igualmente uma crítica muito clara e certeira ao casamento enquanto instituição castradora da vontade e moralizadora do desejo. Tudo menos problematizado do que seria expectável, nomeadamente a emergência do ciúme e da possessão num professor que camufla o desespero ao piano e à conversa com um amigo poeta. Temo que a intelectualização das personagens lhes tenha usurpado alguma humanidade, a qual apenas se revelará convincente nas sequências finais, nomeadamente as que focam a perda do amigo poeta, sucumbido na hora da consagração, e aquela em que Consuela Castillo reaparece na vida do professor-amante para lhe dar a notícia de uma operação que obrigará à amputação de uma mama. A amputação da beleza, inteligentemente contornada pelo corpo de Penélope Cruz, reconfigurará todo um elo sentimental que havia sido recalcado, tornando assaz comovente a cena em que o professor Kepesh fotografa, pela última vez, o corpo inteiro de Consuela Castillo, diligenciando, quem sabe, o registo de uma beleza que pode ter motivado a paixão mas, perdida, não ameaça o amor. Ironicamente, acaba por reforçá-lo. Ou, pelo menos, acordá-lo das zonas reprimidas. Matéria para filmes, pois claro. Fosse a vida real assim, não precisaríamos da arte para nada.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A MATÉRIA DO AR



Bom dia. Também eu sou feito de marfim.
Estes são os meus amigos d'hoje: folhedo
para entreter as mãos, pontas de madeira
grossa para depois comer. Hoje havia água
e a minha boca é cheia.
Nunca o mínimo deus me salvou.

Nem luz nem a treva. Às vezes, de madrugada,
visito as mulheres que lavam e que cantam.
Trabalho com elas e há um forno transparente
onde cozer o pão. Depois elas perguntam sempre
quem sou e eu respondo: sou alguém que come pão
e que se senta fora da casa com as mãos na terra.
E elas começam a cantar e nunca me falam de
amor.

Ainda tenho pensamentos mas já não os penso.
Falo como o sono nutre a sua teia e o seu
veneno. Só os bichos da terra e os que andam
no céu são brancos. E digo:
Acende uma fogueira ao que sobrar do
mundo.


Rui Costa, in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Quasi Edições, Maio de 2005, p. 45.

A VERDADE

A juntou-se a B na defesa de uma questão fracturante. A estes juntaram-se C, D, E, F, G, H, I, J, K, L e muitos outros. Almoçaram e jantaram juntos, partilharam salas, em alguns casos deram de guarida uns aos outros, mostraram-se unidos em prol da causa. Depois, B subiu na vida, indicou G para seu assessor, chamou a atenção de X, homem poderoso e influente, para as boas qualidades de I, que foi prontamente chamado a desempenhar cargos de relevo nas esferas do poder. A ficou a olhar para todas aquelas movimentações, chuchava no dedo, desabafava amargurado com C, D, E, F, entre outros, o ter sido esquecido nesta nobre distribuição de competências. Ele já nem sabia quem era B, de tão ofuscado que andava pelo remorso. E, que era rato, escutou os desabafos de A e foi dar conta do sucedido a B, o qual agradeceu a confiança e aproveitou a oportunidade para perguntar a E se este não estaria disponível para fazer parte dos quadros de uma Central de Informação do Governo. E disse que ia pensar no assunto, mas passadas umas horas já estava a telefonar para dar conta da sua disponibilidade e agradeceu a B o convite. Ofendido, remoído, desesperado, A armou um grande escarcéu na imprensa. Escreveu artigos, deu entrevistas, fez denúncias, insinuações, tudo em nome da verdade, porque nada mais lhe interessava senão a verdade.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

CONHECERAM-SE NO DIA DO CASAMENTO


Wystan Hugh Auden , W. H. Auden para os amigos, nasceu em York, a 21 de Fevereiro de 1907. Filho de George Augustus Auden, médico reputado, e de Rosalie (Bicknell) Auden, foi educado no internato de St. Edmund’s Hindhead e na Gresham's School. Conheceu Christopher William Bradshaw-Isherwood, um amigo íntimo com quem veio a partilhar viagens e produção literária, no internato. Antes dessas intimidades, Auden andou por Oxford. T.S. Eliot, então director da Faber & Faber, rejeitou-lhe uma primeira colecção de poemas. Por iniciativa de Stephen Spender, Poems acabará por sair em 1928, em edição privada, sendo posteriormente republicado, em 1930, já na Faber & Faber . Entretanto, em 1928, Auden partiu para Berlim, descobriu Brecht, o cabaré alemão, a liberdade sexual: «Auden e os amigos eram apenas rapazes que gostavam de frequentar os concorridos bares homossexuais da cidade, pejados de jovens do proletariado dispostos a tudo (a depressão económica da República de Weimar fizera disparar a prostituição masculina). Gide também andava por lá, mas as suas preferências iam para miúdos» (Eduardo Pitta, in Metal Fundente). No regresso a Inglaterra, o poeta vendeu aulas em várias escolas britânicas. Viajou à Islândia, na companhia de Louis MacNeice, ganhou fama como intelectual de esquerda, escreveu algumas obras a meias com Christopher Isherwood, casou-se com Erika Mann, filha de Thomas Mann, uma jornalista e actriz lésbica que, pelos vistos, também partilhava a cama com Carson McCullers. O casamento foi apenas uma forma de Erika conseguir passaporte britânico. Na verdade, conheceram-se no próprio dia do casamento. Em 1937, viaja a Espanha com o objectivo de apoiar as forças republicanas. Porque não era membro do Partido Comunista, acaba por ser ignorado. No ano seguinte, viaja à China na companhia de Isherwood. «Sex, according to Isherwood, gave their friendship an extra dimension». Assim foi que, por essa altura, resolveram emigrar para os Estados Unidos. Auden converteu-se ao catolicismo e levou uma vida de recolhimento até se mudar para um prédio em Brooklyn Heights onde residiam vários artistas em “atmosfera de despreocupada licenciosidade”. No decorrer de uma leitura de poemas na League of American Writers, Auden conheceu o jovem Chester Kallman. Será a paixão de uma vida, consolidada também literariamente com a escrita a duas mãos de vários libretos de ópera. Em 1946, o poeta adquiriu a nacionalidade americana. Eleito Professor de Poética, foi firmando cada vez mais a sua reputação enquanto escritor. Apesar de visitar a Europa com regularidade, só em 1972 abandonou em definitivo o território norte-americano. Fixou-se em Oxford, onde foi professor convidado de poesia, mas passava os verões numa casa que mantinha na Áustria. No dia 28 de Setembro de 1973, sentiu-se mal após uma leitura de poesia no Palácio Palffy, em Viena. Chester Kallman encontrou-o morto, vítima de ataque cardíaco, na cama do Hotel onde estavam instalados. Kallman morreu em 1975, sem quaisquer recursos, na cidade de Atenas:

BLUES FÚNEBRE

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e com os tambores em surdina
Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.


Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe em volta dos pescoços das pombas da cidade,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.


Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.


Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram o bosque;
Pois agora tudo é inútil.


Abril 1936


W. H. Auden, in Diz-me a verdade acerca do amor – Dez poemas, trad. Maria de Lourdes Guimarães, Relógio D’Água, 1994, p. 39. Na imagem ao alto: W. H. Auden, Stephen Spender e Christopher Isherwood.

OUTONO


Fui colega de curso do Gonçalo Salvado, um dos filhos do António Salvado. Em 1998, se não me falham as contas, acompanhei-o à Casa Fernando Pessoa para marcar presença na apresentação do livro Rosas de Pesto (A Mar Arte). Tive oportunidade de conhecer pessoalmente o poeta, pai de um companheiro que encontrei uma ou duas vezes, de raspão pela capital, nos últimos anos. Desde então, o António Salvado tem a gentileza de me enviar por correio postal todos os livros que vem publicando. Vão para a morada de Lisboa, dedicados ao poeta Manuel Bento, como então eu assinava algumas leviandades que tornei públicas. Celebro este ano dez primaveras de afastamento lisboeta, mas a casa de família onde residi ainda existe, alugada a estudantes que se encarregam de fazer chegar aos meus pais a correspondência que para lá me é dirigida. Outono chega-me com três meses de atraso, precisamente um dia depois de, por mera coincidência, ter escrito este post. É uma edição trilingue (castelhano, português, japonês) que une a Editorial Verbum à Trilce Ediciones, cabendo a tradução espanhola a A. P. Alencart e a japonesa a An Oshiro. Aos versos de António Salvado juntam-se as “ilustrações” de Kousei Takenaka. O resultado é acolhedor:




São corpos desgastados
que não deixam fugir
bem para longe as almas.



Obrigado António Salvado.

FALA O FICCIONISTA

Há pessoas que me parecem absolutamente convencidas de que têm vidas especiais, vidas que vale a pena expor ou simplesmente contar aos outros. Não duvido que assim seja, embora eu não esteja muito interessado nessas vidas. Contudo, estou convencido de que comigo se passa exactamente o contrário. A minha vida é tão desinteressante que passo a maior parte do meu tempo a pensá-la, a sonhá-la e a inventá-la. Resta-me, portanto, muito pouco tempo para vivê-la.