
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
GUARDA-ROUPA

CONGESTÃO CEREBRAL
[SÓ]
Eu não fui, desde a infância
Como outros eram… não olhei
O que outros viam… não busquei
Na mesma fonte as minhas ânsias…
Não foi do mesmo poço que tirei
Minha amargura… meu coração
Não entoou, em coro, hinos de louvor…
E tudo o que eu amei, amei em solidão…
Então ─ na minha infância ─ no alvor
De minha vida atormentada, fui refém
Do mistério que ainda hoje sobrevém
Do abismo donde brota o mal e o bem…
Da torrente, da nascente…
Da rubra fraga ascendente…
Do Sol que em mim revolveu
No seu fulgor outonal…
Do clarão que ascendeu
Pelo espaço, e em mim rasou…
Do trovão, do temporal…
Da nuvem que se moldou
(Conquanto azul fosse o céu)
Em demónio e me ensombrou.
Edgar Allan Poe, in Obra Poética Completa, trad. Margarida Vale de Gato, Tinta-da-China, Março de 2009, p. 199. Do mesmo poema, publiquei ali uma versão minha em Julho de 2005. Relembro-a agora:
SÓ
Desde a hora da infância eu não fui
Como outros foram - eu não vi
Como outros viram – não pude tomar
Minhas paixões duma primavera vulgar.
Da mesma nascente eu não traguei
A minha tristeza; eu não despertei
Para o júbilo comum o meu coração;
E tudo o que amei, eu amei em solidão.
Nesse tempo da infância ─ na madrugada
Da vida mais tormentosa ─ foi traçada
Das profundezas do bem e do mal
O mistério que me mantém sem igual:
Da torrente ou da fonte,
Do rubro penhasco do alto monte,
Do sol que gira em meu torno
Num matiz dourado de Outono ─
Do relâmpago no céu
Que tão perto de mim se deu ─
Da tempestade e do trovão,
E da nuvem que adquiriu a feição
(Quando azul era o resto dos Céus)
De um demónio aos olhos meus.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
DOUBT
INSÓNIA
domingo, 17 de janeiro de 2010
CASAMENTO
— O casamento é para maricas.
sábado, 16 de janeiro de 2010
TRESMALHADO
Duas memórias e uma inconfidência. A primeira é de um homem a esvair-se em suor, em estado de pânico induzido pela presença das câmaras televisivas, numa conversa apresentada por Clara Ferreira Alves, onde também estava o escritor Rui Zink. Vi aquele homem e senti certas afinidades com o tal estado de pânico. Era poeta, salvo erro chamava-se António Cabrita. A segunda é mais certa, não corre o risco da adulteração fantasista da memória, pois está documentada. 17 de Novembro de 2000, café literário em volta do teatro e da poesia de Jaime Rocha, apresentação de António Cabrita. Fui ouvir e ver, mais pelo apresentador que pelo apresentado, confessei, e logo às primeiras me desarmou o tom já não aflito, mas até bastante descontraído, de quem falava para a plateia sem pingo de suor no rosto. Talvez o problema fosse mesmo do cenário televisivo, das lentes que roubam a alma a quem se deixa por elas capturar. Mais estranho ainda, num homem cuja relação com o cinema sempre foi de grande proximidade. Lá iremos. Antes disso, a inconfidência. Há tempos recebi uma longa Carta do Extremo Sul. Meu caro Henrique, assim começam as mais de 20 páginas da missiva. Andei eu em estado de pânico durante meses, pegava nas folhas, começava a lê-las, ficava a meio. Uma lição de poesia, pois claro, tendo por motivo o meu singelo Cinzeiro Azul. Sucede que nunca agradeci, que nunca acusei sequer a recepção da dita, que só muito depois de a ter recebido consegui lê-la do princípio ao fim, que me senti, sinto, sentirei tão grato pelo gesto, que as palavras se me travaram algures e não quiseram responder. O que dizer a alguém que perde mais de 20 páginas com a nossa delirante inutilidade? É que tenho por regra este sentimento muito natural de que a vida se fica pelo estrume, pelo que todo o tempo sobre a terra é de uma preciosidade incomparável, insubstituível, inalienável. Investir mais de 20 páginas de tempo em palavras que me saíram dos dedos não é coisa que se agradeça, é coisa para guardar do lado esquerdo do peito até que este se transforme no estrume «com que a morte mantém / estáveis as características do subsolo». Aqui fica então a inconfidência, no dia em que lembro ter o poeta António Cabrita nascido no Pragal a 16 de Janeiro de 1959. Fez o curso de Cinema do Conservatório Nacional, publicando mais tarde peças/guiões dos quais Duas Luas, Entrededos (INCM, Março de 1984) é exemplo a reter. De resto, a ligação ao cinema foi sempre muito forte. Durante vários anos, António Cabrita foi crítico da sétima arte nas páginas do jornal Expresso (entre 1988 e 2004). Também escreveu aí sobre livros, aí e noutros lugares: JL, O Jornal, DL, etc.. A poesia aparece cedo e em boa companhia. Alberto Pidwell Tavares (vulgo Al Berto) publica-lhe Oblíqua visão de um cristal num gomo de laranja ou perene o sangue que arrebata os anjos vingadores (1979), título do qual nunca mais saberemos nada. Seguem-se outros de poesia, mas também de contos, argumentos para cinema, assim como novas aventuras pelo campo editorial, com a extinta Íman, ou com a direcção da revista Construções Portuárias. Em 1997, recebe o Prémio Cesário Verde pelo magnífico Carta de Ventos e Naufrágios (Teorema, Novembro de 1997). Três anos depois, arruma parte considerável da sua produção poética no volume Arte Negra (Fenda, 2000). Sobre Combate de Flautas (&etc., 2003), escreveu António Guerreiro no Expresso: «Certo é que a poesia de António Cabrita é em tudo contrária a uma nova austeridade que encontramos em muitos poetas recentes. Nela, as metáforas são o próprio órgão do pensamento e, por isso, ficam às vezes submetidas a um exercício rebuscado». Mais recentemente, Bar La Fontaine foi galardoado com o O Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire. Emigrado em Moçambique, onde é hoje docente universitário, António Cabrita também não coube na antologia:
Ah, ser de um rebanho
tresmalhado:
e eis meia vida desperdiçada
a enxertar
flores silvestres
no lenho dos românticos —
muito bem providos
os olhos
cerzidos em ouro.
António Cabrita, in Carta de Ventos e Naufrágios, Teorema, Novembro de 1997, p.74.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
CARTAS, MÁXIMAS E SENTENÇAS
Nascido em Samos em 341 a.C., Epicuro fundou a sua escola nos subúrbios de Atenas. Afastado da turbulência citadina, mais próximo da paz campestre, o Jardim admitia mulheres, escravos, prostitutas e ostentava no pórtico a seguinte inscrição: «Visitante, terás aqui uma agradável estadia, pois aqui o bem supremo é o prazer!» Os adversários acusaram-no de promover orgias, foram colocadas a circular “cartas licenciosas” que lhe eram atribuídas, disseram que era irmão de um proxeneta, que auxiliava a mãe nas suas tarefas de curandeira, que plagiou Demócrito, que não era cidadão legítimo, que era obsceno, que «vomitava duas vezes por dia por causa dos excessos», etc.. Na verdade, pouco podemos hoje saber acerca da veracidade destas supostas calúnias. Podemos concentrar-nos nos escritos do réu e tentar compreender o que possa ter havido neles de tão perverso e incitador. Ainda que lhe tenham posto na boca a ideia de que os cínicos eram «inimigos da Grécia», encontramos na escola de Epicuro várias pontes com o cinismo, nomeadamente na defesa da autarquia enquanto princípio fundamental da vida feliz.
Não deixa de ser curiosa, por outro lado, a perspectiva de historiadores como Giovani Reale e Dário Antiseri, para quem «Epicuro é um percursor de Paulo no “espírito missionário”, não no conteúdo da mensagem, já que a fé epicurista é uma fé que se coloca do lado de cá, negadora de toda a transcendência e radicalmente ligada à dimensão do “natural” e do “físico”». Tal perspectiva parece-nos corroborável a partir de uma leitura da Carta a Heródoto, onde toda a doutrina epicurista sobre a Natureza aparece resumida em alguns preceitos de inspiração atomista, nomeadamente uma visão materialista da realidade que compreende a alma como «um corpo formado de partículas subtis, espalhado por todo o agregado» (p. 75). Não negando a existência dos deuses, Epicuro afasta-se das interpretações comuns: «Ímpio não é, por conseguinte, quem destrói os deuses da multidão, mas quem atribui as opiniões da multidão aos deuses» (p. 111). É compreensível que este tipo de pensamento causasse mossa junto daqueles que insistiam em amestrar as multidões com base num pensamento mitológico subjugador da vontade dos homens à vontade dos deuses.
A ética Epicurista resulta, pois, de uma concepção do mundo refutadora de dimensões idealistas e planos fantasmagóricos da realidade. Podemos ir mais longe na deambulação especulativa afirmando que tanto a República ideal platónica como a crendice popular que Epicuro tão bem terá conhecido de acompanhar a sua mãe nas artes mágicas, são os alvos fundamentais da vida festejada no Jardim. O prazer que se coloca no centro da vida feliz, enquanto ausência e denegação da dor, não tem outro sentido senão o de chamar as hordas à realidade, libertando-as dos erros e das falsidades que advêm de opiniões sem confirmação sensível. A morte nada é, seria frívolo perder tempo com ela. «O sábio, ao contrário, não recusa a vida nem teme a não-vida, pois nem a vida lhe pesa nem crê que a não-vida seja um mal» (p. 112). O prazer devolve a alma ao corpo, sustenta o fenómeno da sensação, ao mesmo tempo que resgata o corpo dos grilhões de uma certa ideia de alma (imortal) castradora da vontade. Porque a vida feliz não é concebível sem liberdade, Epicuro advoga não um culto despropositado do desejo — o excesso, mais que libertar, aprisiona —, mas antes a auto-suficiência e a prudência enquanto fiadores da vida justa. «Nenhum prazer é em si mesmo mau» (p. 122). Quem julgar o contrário, dedique-se à dor.
TIME AFTER TIME
No repeat: saber sair de cena honra a inteligência. Não saber leva-nos a pensar em decepcionantes lados B.
VIVER
VÍTIMAS
O MUNDO
CONTRIBUTO PARA A IMAGINAÇÃO DE VAN ZELLER (3)
O senhor Van Zeller que se contenha no precipício. Estarmos soltos de uma casa para pagar não nos coloca no lugar dos privilegiados. Na verdade, deixa-nos apenas um nível acima dos enterrados da nação que, com 450€ mensais, se vêem na obrigação de arranjar fôlego para o pescoço atado à corda dos juros. Temos, como esses, o encargo das despesas inerentes à manutenção do palácio. Dispensamos mordomo, sopeira, nem sequer podemos dar-nos ao luxo de uma mulher-a-dias que tire as grainhas das uvas. Limpa-se o pó quando se pode, areja-se a sala de quando em vez, arruma-se o possível num esforço de poupança que ajuda às entorses. Há que ser solidário para com o emplastro leão. Agora façamos contas: 10€ para o condomínio, uma média de 45€ para o gás, 18€ para os Serviços Municipalizados e 40€ para a EDP perfaz a módica quantia de 113€ fixos que teremos de subtrair aos luxuosos 450€ com que o nosso trabalho é remunerado mensalmente. Sobram-nos 337€ por mês. Uma fortuna. Pois bem, desta incomensurável e burguesa fortuna grande parte vai para a velocidade. O Ibiza de 1999 vai dando para as curvas. 00999 de cilindrada a gasolina, ligeiro em todos os atalhos, mas guloso que se farta. Ao preço a que está o combustível, nem eu consigo imaginar como me vão chegando os tais 337€ por mês. Quanto mais o senhor Van Zeller. Não o censuro, pois, pela falta de imaginação, embora não possa perdoar-lhe o ar abastado com que se atira contra todo e qualquer aumento da minha mísera e prescindível dignidade. Juntemos-lhe o seguro, as revisões, a inspecção, e o bólide leva-nos o grosso da nossa fortuna. É para ele, mais que para outra coisa qualquer, que andamos a trabalhar todos os meses. Um luxo, dir-me-á. Por que não optar pelos transportes públicos? É simples: para não ser despedido por chegar atrasado ao emprego, para poder deixar as crianças a tempo e horas na escola (uma delas, fica a mais de 15Km cá de casa, seria deveras incomodativo fazermos isso a pé todos os dias, ainda que já tenhamos ponderado fazê-lo de bicicleta só para não dar argumentos ao senhor Van Zeller). Confesso: sinto remorsos a pesarem-me na consciência. Talvez devesse prescindir do bólide assim como prescindi da mulher-a-dias. Tenho de reconhecer a minha veia burguesa. Que Deus nosso senhor me perdoe e não me mande para o Inferno por andar a poluir este mundo com os meus excessos e a desperdiçar a vida em luxos destes.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
BLOOD FROM A STONE
Já não sei se são as pedras que sangram, se são os meus pés gretados que deixam na rua o rastro da dor que é estar constantemente a caminhar erraticamente. Não faço promessas, é esse o problema. Caminho, corro, pedalo, sem metas, sem destino, sem esperar sequer que alguma coisa aconteça. Também, para quê fazer promessas? Para depois desesperar de não poder cumpri-las?
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
ÉRIC ROHMER 1920-2010
Conte de printemps, Conte d’hiver, Conte d’été, Conte d’automne. Principalmente Conte d’été. E Triple agent.
APRENDIZ DE VIAJANTE
Fotografia de Luísa Ferreira.
notas para o diário
deus tem que ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis, vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.
mas gosto da noite e do riso das cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precariedade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.
pois bem, mário ─ o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade. fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-se as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas… e nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida ─ e a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
Al Berto, in Horto de Incêndio, Assírio & Alvim, Março de 1997, pp. 39-40.
domingo, 10 de janeiro de 2010
PRESSA DE VIVER
Negro, trinta e dois anos,
dealer. Pensava que a guerra
no Kosovo tinha por motivo único
a resistência à conversão em euros
— e talvez nisso tivesse, afinal, uma obscura
razão. Noutra noite, vi-me obrigado
a explicar-lhe o melhor que pude
o que era o FMI — que ele decerto
interpretou como um partido de 'tugas
vagamente hermético. De facto, é outra
a sua economia: contos de xamon, pastilhas,
piropos de esquina, os dois ou três filhos
de que apenas bêbedo se lembra.
Mas não é bem disso que eu hoje
queria falar. Passámos a noite
lado a lado, no mesmo balcão.
Demorei algum tempo a cumprimentá-lo
— «tá-se?». Pediu logo grandes, imensas
desculpas por não me ter visto.
Que era «pressa de vive!», garantiu-me,
aquilo que nos torna tão cegos
às evidências, ao rosto desse próximo
que só por bíblico acaso amamos
— quando o ódio, mais discreto,
dá nome e sentido às ruas.
Fingi acreditar, procurei não
desmentir o seu olhar verde
vindo de outro qualquer planeta.
Seria difícil explicar-lhe àquela hora
a compulsiva demora de morrer
que me faz sair de casa e procurar,
entre ninguém, a pior das companhias: eu.
Acabou por levar para a rua
uma imperial de plástico, lembrado
talvez dos possíveis clientes
a quem ajudará a esquecer um emprego,
o desamor, o calor sinistro deste Verão.
Na verdade, pouco mais haveria
a dizer sobre este corpo brando que
há vários anos se encosta às minhas noites.
Serve-me de escudo para os bárbaros mais novos
— e protege-se, o melhor que pode,
da rusga sem objecto a que chamamos vida.
Manuel de Freitas, in [SIC], Assírio & Alvim, pp. 41-42, Outubro de 2002. Nasceu em 1972, no Vale de Santarém. Mudou-se para Lisboa em 1990, onde concluiu uma licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas. Estreou-se em livro com o ensaio A Noite dos Espelhos – Modelos e Desvios Culturais na Poesia de Al Berto (Frenesi, 1998). A primeira recolha de poemas surgiu dois anos depois na Campo das Letras. Todos contentes e eu também (2000) marcou o início de uma fecunda aventura poética. Desde então, Manuel de Freitas publicou inúmeros livros de poesia, tornou-se numa referência para alguns dos poetas portugueses mais jovens, motivou discussão. Com a organização da antologia Poetas Sem Qualidades (2002), abriu as portas da editora Averno, onde tem publicado alguns dos mais significativos volumes de poesia portuguesa dos últimos anos, assim como a emblemática revista Telhados de Vidro, co-dirigida com Inês Dias, cujo primeiro número viu a luz do dia em Novembro de 2003. Em 2006 foi-lhe atribuído o Prémio Literário Ruy Belo da Câmara Municipal de Sintra. Tradutor, crítico literário, poeta, ensaísta, editor, Manuel de Freitas é, sem dúvida, um dos poetas mais representativos da poesia portuguesa contemporânea. Não coube na Antologia.
sábado, 9 de janeiro de 2010
DEVORADOR DE ASPIRINAS
Podemos verificar que o conceito de composição de cada artista, da mesma maneira que seu conceito de poema, é determinado pela sua maneira pessoal de trabalhar. Libertando da regra, que lhe parece, e com razão, perfeitamente sem sentido, porque nada parece justificar a regra que lhe propõem as academias, o jovem autor começa a escrever instintivamente, como uma planta cresce. Naturalmente, ele será ou não um homem tolerante consigo mesmo, e esse homem que existe nele vai determinar se o autor será ou não um autor rigoroso, se pensará em termos de poesia ou em termos de arte, se se confiará à sua espontaneidade ou se desconfiará de tudo o que não tenha submetido antes a uma elaboração cuidadosa.
O espectáculo da sociedade aparecerá a esse jovem autor coisa muito confusa e ele não saberá descobrir, nela, a direcção do vento. Por isso, preferirá recorrer ao espectáculo da literatura. A partir da vida literária que se está fazendo no momento, ele fundará sua poesia. O confrade lhe é mais real do que o leitor. Ora, no espectáculo dessa vida literária ele pode encontrar autores justificando todas as suas inclinações pessoais, críticos para teorizar sobre sua preguiça ou sua minúcia obsessiva, grupos de artistas com que identificar-se e a partir de cujo gosto condenar todo o resto. Aí começa a descoberta de sua literatura pessoal. Essa descoberta é curiosa de acompanhar-se. Primeiro, o jovem autor vai procurando-se entre os autores de seu tempo, identificando-se primeiro com uma tendência, depois com um pequeno grupo já de orientação bem definida, depois com o que ele considera o seu autor, até o dia em que possa dar expressão ao que nele é diferente também desse seu autor. É então neste momento, em que depois da volta ao mundo se redescobre, com uma nova consciência, a consciência do que o distingue, do que nele é autêntico, consciência formada à custa da eliminação de tudo o que ele pode localizar em outros, que o jovem autor pensa ter desencavado aquele material especialíssimo, e exclusivo, com que construir a sua literatura.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
CONTRIBUTO PARA A IMAGINAÇÃO DE VAN ZELLER (2)
POEMA DA MATERNIDADE
Tudo em mim se revolta: a carne, o instinto,
A minha mocidade, o meu amor,
A minha vida em flor!
É mentira! É mentira!
Se o meu filho respira,
Se o meu corpo consente,
Covardemente,
A minh'alma não quer!
Eu não quero ser mãe! Basta-me ser mulher!
Basta-me ser feliz!
E o meu instinto diz:
— «Acabou-se! Acabou-se! Agora renuncia:
Começa a tua noite: acabou-se o teu dia!
Tens vinte anos? Embora! A tua mocidade
Perdeu chama e calor, perdeu a própria idade.
Resigna-te. És mulher! Foi Deus que assim o quis.
Já foste flor: agora és só raiz.» —
Não pode ser! É injusta a minha sorte!
Não quero dar vida a quem me traz a morte!
O meu destino há-de ter outro brilho!
Vida, quero viver! E morro, morro...
Filho!
Pode lá ser, Jesus! Eu não mereço tanto!
Filho da minha dor, eu já não choro — canto!
Filho que Deus me deu! Porquê, Senhor,
Há só uma palavra: Amor, Amor, Amor?!
Dai-me outra voz que nunca tenha dito
Coisas más, coisas vis... e que saiba a infinito...
Dai-me outro coração, mais puro, mais profundo,
Que o meu já se quebrou de encontro ao mundo...
Dai-me outro olhar que nunca tenha olhado,
Que não tenha presente nem passado...
Dai-me outras mãos, que as minhas já tocaram
A vida e a morte... o bem e o mal... e já pecaram...
Filho, por que seria? Ao vires para mim,
Mudaste num jardim
Os espinhos da minha carne triste...
E como conseguiste
Dar uma cor de sol às horas mais sombrias?
Meu menino, dorme, dorme,
E deixa-me cantar
Para afastar
A vida, um papão enorme...
Meu menino, dorme, dorme...
Vamos agora brincar...
Que brinquedo, meu menino?
O mar, o céu, esta rua?
Já te dei o meu destino,
Posso bem dar-te a Lua.
Toma um navio, um cavalo,
Toma agora o mar sem fundo...
Ainda achas pouco? Deixá-lo!
Se quiseres, dou-te o mundo!
Mas por que não vens brincar?
Por que preferes chorar?
Jesus! Que tem o meu filho?
Que vida estranha no brilho
Do seu olhar?
Uma vida inquieta e obscura
Anda a queimar-lhe a frescura ...
Ainda hoje, meu filho, não sorriste
E o teu olhar é triste...
Cheiras a noite, a luto, a azebre...
Senhor! O meu filho tem febre!
O seu hálito queima, o seu olhar escalda...
Ele que tinha um olhar de estrela ou de esmeralda
E um perfume de flor,
Agora tem na boca um amargo sabor
E cheira a noite, a luto, a azebre...
Senhor! O meu filho tem febre!
Tirai-me dos olhos toda a luz!
Livrai-me da blasfémia... Deus! Jesus!
Pois se o meu filho morre, se agoniza,
Por que há flores no chão que ele não pisa?
Se num coval o hei-de pôr, de rastros,
Por que estarão tão altos os astros?
Senhor, eu sou culpada… Eu sei o que é o pecado…
Mas ele, meu Jesus, ainda não tem passado...
Para mim, não há mal que não aceite,
Mas ele, ainda tão perto do teu céu!
A sua vida era beber-me leite...
No olhar com que me olhava tinha um véu
De neblinas, de névoas de outras vidas...
Às vezes, tinha as pálpebras descidas
E punha-se a chorar no meu regaço
Com saudades, talvez, do céu, do espaço...
O meu filho tem febre!
Por que andam a cantar pelos caminhos?
Por que há berços e ninhos?
Vida! O meu filho era belo,
O meu filho era forte!
Vida, que mãe és tu? Defende-me da morte!
Vida! Vida! Vida!
Louvado seja Deus! A morte foi-se embora!
Já não tens febre agora!
Louvado seja Deus! O meu menino vive,
Este menino, o meu, que só eu tive!
E pude blasfemar!
E o meu menino chora, e eu posso já cantar!
E o meu menino canta e eu posso já chorar!
O meu menino vive e toda a vida canta,
Toda a terra é uma fresca e sonora garganta!
Que toda a gente o saiba e toda a terra o veja!
Louvado seja Deus!
Louvado seja!
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
CONTRIBUTO PARA A IMAGINAÇÃO DE VAN ZELLER (1)
ELEGIA LENTA
É um homem tépido
escrevendo a horas certas cartas
telegramas cansados palavras
no muro alto palavras desoladas
─ Abriram as rosas ─ disseram-lhe ─
as rosas decotadas do mês.
─ Alegra-te. Todavia
o homem entristece
cava no sangue
reescreve com uma caligrafia
cuneiforme enigmática
poemas de antigas civilizações
Condenaram este homem
mataram este homem
o tráfego leva-o nos braços
as mulheres amam-no muito pouco ou nada
os bêbedos afirmam ─ é nosso
e toda a gente pergunta ─ quem é?
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
UM TRONCO DADO À COSTA
MEMÓRIA DO PRESENTE
Hoje aconteceu-me o facto mais importante
de toda a vida geográfica do meu corpo:
cerceei a minha dionisíaca barba até à novidade,
sendo apenas magnânimo com o indefeso bigode.
Dizem os da casa que me encontro irreconhecível:
sofri sem dúvida um verdadeiro e higiénico avatar,
sou um outro homem renascido inopinadamente,
um outro travo biológico de esperança isenta
...a recém descoberta de uma insólita leviandade!
Se não fossem os pêlos implantados no rosto,
o que seria de mim sem tão benéfico auxílio?
Não poderia fugir à monotonia do quotidiano,
nem tão-pouco efigiar mais ou menos exemplarmente
as mais esquipáticas figuras ou faces fictícias:
personagens ambíguas do sonho real que vivo,
justificações sãs da minha pirética estesia.
Hoje sou a pintura suave e verde de Modigliani,
trago o bigode vincado na aridez do meu fácies,
duas rugas côncavas a estiolar a harmonia da cor,
uns lábios belfos e vermelhos fesceninos de dor,
uns olhos garços tauxiados na placidez do rosto.
No coração sobressai o amarelo obeso de van Gogh,
o sexo é um magento osso daliano em convulsões,
as pernas são devaneios matizados de Kandinsky,
os braços dois cones azuis aplainados de Picasso.
Sou agora a pintura universal e humana,
o meu corpo a tela em constante viagem,
o pintor é o sibilino tempo da estiagem,
o último quadro o estertor rouco da agonia;
um féretro pesado de difíceis recordações,
uma cova da última emoção, uma plangente alegria.
Silva Carvalho, in Memória do Presente, Brasília Editora, Porto, 1977, p. 41. Pobre desgraçado. Nasceu a 8 de Fevereiro de 1948 em Vila do Conde. Frequentou a Universidade de Coimbra antes de se exilar em Paris, em 1969. Regressou a Portugal em 1975, licenciando-se em Filologia Românica. Foi professor do ensino secundário, Leitor na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, E.U.A. (1985-89), na Universidade de Goa, Índia (1990-91) e na Universidade de Massachusetts, Dartmouth, E.U.A. (1997-2001). Leccionou na Escola Secundária de Santa Maria, em Sintra, até 2008. Publicou na Black Sun, na Fenda, entre outras editoras ditas de circulação restrita. Não coube na Antologia.
PENHORE OS SEUS BENS, E VIVA NO REAL
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
FEELING
Num ensaio datado de 1941, João Cabral de Melo Neto diz que «o sono predispõe à poesia». Ele abre-nos as portas à aventura do sonho e oferece-nos um simulacro da morte. Acontece que as pessoas com insónias também sonham. Sonham que têm pesadelos e acordam sobressaltadas. E quando sonham que acordam sobressaltadas acordam mesmo. Depois continuam a sonhar acordadas com soninhos descansados onde engendram projectos futuros: uma plantação de frutos secos, de poemas.
REVER METROPOLIS
À TARDE
Uma melancolia venenosa,
Meu Deus! que não sabe donde vem…
E vem como uma sombra vagarosa
Que chovesse dum céu crepuscular…
Vem subindo da terra dolorosa
Como um grande dilúvio de pesar,
Como um olhar de dor silenciosa
Que tentasse subir para as estrelas
E ficasse disperso pelo ar…
E vem do fundo de alma… Perscrutasse
A gente o coração pra sentir bem
Que é lá no fundo de alma que a dor nasce
E é de lá sobretudo que ela vem…
De lá! De lá do fundo! Bem do fundo
De nós mesmos… E, lenta, vem subindo
Aos olhos que a reflectem, reflectindo
Na nossa dor a dor de todo o mundo!
Dolorosamente
A tarde exausta morre de cansaço
E parece que sofre a natureza…
Anda uma luz de cinza pelo espaço
E lentamente
Envolve as coisas todas de tristeza…
E a tarde cai nos olhos e entristece-nos…
E toda a melancolia,
De lá do fundo de alma aonde está,
Vem-nos subindo aos olhos e escurece-os…
Os olhos escurecem e dir-se-ia
Que é de lá
Que a tristeza das coisas irradia…
A tristeza das coisas… Afinal,
Ó tristeza das coisas, tu existes
Dentro de nós, em nossas almas tristes,
Como um eco da dor universal!
Ó silêncio das coisas, é ouvindo
O próprio coração que te escutamos!
E as lágrimas das coisas vão caindo
…E somos nós que as choramos!
Sim, nós!... Quem sofre e chora, somos nós!
Um choro de cobardes e vencidos,
Nessa hora de sombra em que, transidos,
Olhamos em redor… e estamos sós!
Sós! Todos sós! Ó almas solitárias,
Vede a tristeza da tarde!
É vendo-a que a noss’alma desolada
Se sente mais sozinha, abandonada,
E o nosso coração é mais cobarde…
É vendo a claridade agonizar,
Como um olhar voluptuoso e triste,
Que sentimos subir-nos surdamente
Aos olhos o desejo de chorar
Baixinho, docemente,
Sobre o peito de alguém… que não existe!
……………………………………………………………
E, quando sobre o mar
Cai a noite do céu pesadamente,
A gente, sem querer… põe-se a chorar!
Manuel Laranjeira, in Líricas Portuguesas – 2.ª série, Portugália Editora, 3.ª edição, Setembro de 1967, pp. 111-113. Pobre desgraçado. Nasceu em Vergada a 17 de Agosto de 1877. Dedicou-se, desde muito novo, à poesia, ao teatro, à crónica. Oriundo de uma família modesta, chegou a médico. Um homem polémico que não prescindiu da actividade política. Obteve 19 valores com a tese de doutoramento A doença da Santidade. Foi viajado, amigo de Amadeo de Souza-Cardoso, conheceu Unamuno ─ «Fué Laranjeira quien me enseño a ver el alma trágica de Portugal y me enseño no poços rincones de los abismos tenebrosos del alma humana» ─, trocou correspondência com Pascoaes, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, João de Barros, etc. Uma sífilis nervosa e a “inépcia dos políticos” deram-lhe cabo dos nervos. Suicidou-se com um tiro na cabeça a 22 de Fevereiro de 1912. Não coube na Antologia.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
LHASA DE SELA (27 de Setembro de 1972 - 1 de Janeiro de 2010)
A voz de Lhasa é a respiração a cantar. Histórias de amor, sim, canções nocturnas, cantadas em cabarés, tabernas, nas ruas onde o povo dá voz à tradição. Tangos, blues, western, valsa, folk, vaudeville, bolero e por que não fado? Os sopros, as cordas e as percussões, a densidade, como se estivéssemos atravessando ruas desérticas ladeadas por árvores gigantescas. Como se estivéssemos a observar uma mulher a dançar com a própria sombra. Uma doçura, uma ternura imensa, a sensualidade desenhada a preto e branco com os contornos de uma simplicidade que dispensa grandes reflexões. Porque as grandes reflexões levam-nos sempre aos locais de partida. É tão simples partir para apenas chegar. Ao mesmo tempo, é tão comovente. (3 de Junho de 2008)
EXALTAÇÃO
Vida! quero viver! quero em prazeres
Abril de 1860.
Esta exaltação, como quase todas, terminou em nada. Não cheguei a incomodar os convivas dos festins da vida para me darem lugar e espero que nunca os incomodarei. Divirtam-se em paz.
Júlio Dinis, in Poesias, Publicações Europa-América, s/d, pp. 247-248. Pobre desgraçado. Nasceu no Porto a 14 de Novembro de 1839. Foi escritor e médico, mas não se livrou da doença. Perdeu a mãe, vítima de tuberculose, aos seis anos. Ele próprio acabou por morrer vítima da mesma doença, com apenas 32 anos. A tuberculose foi a causa da morte de todos os seus oito irmãos. As poesias foram dadas à estampa postumamente, em 1873. Não coube na Antologia.
domingo, 3 de janeiro de 2010
ADULTOS
sábado, 2 de janeiro de 2010
ODE
A miúda de James Bond
Está na cama, com
Um pesadelo durante uma trovoada
Todas as folhas caíram:
Dois homens no espaço,
Uma senhora com o cão,
Uma senhora com o filho,
Uma árvore casa, pequenas cabanas e barcos,
E homens apanharam pardais
Para levar para outro país
Aarão ficou no templo
Mas Mrs. Grub foi ao dentista
Deixando o filho com bexigas doidas
Chovia dentro de casa
Nevava nos carros da polícia
E assim a menina mimada
Que arrasta o cabelo
Baixo baixo baixo no tapete de treino
Libertando o poder da serpente
Da sua espinha atrás dela
Ouve a coruja
Que já não grita
Ofuscada por faróis por assim dizer
E atravessando a estrada, a árvore vazia,
E a mente mais vazia do que antes, e mais livre.
The Paris Review, n.º53, 1972.
Tradução de Manuel de Seabra.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
GUILTY
Chegou-me pela primeira vez numa voz holandesa. Só depois vim a escutá-la nas cordas originais. Numa e noutra, a mesma emoção: o regresso ao regaço de quem nos vai aturando as bebedeiras. Sou culpado, claro, mas também não peço que me perdoem. Não faço mal a ninguém. E vá lá, compreendam que viver comigo próprio há 35 anos é uma prova de resistência dificilmente ultrapassável.
NÃO É FÁCIL O AMOR
Arrancar um braço fazê-lo voar
Dar a volta ao mundo abraçar
Todo o mundo fazer da alegria
O pão nosso de cada dia não copiar
Os males do amor matar a melancolia
Que há no amor querer a vontade fria
Ser cego surdo mudo não sujeitar
O amor o destino de cada um não ter
Destino nenhum ser a própria imagem
Do amor pôr o coração ao largo não sofrer
Os males do amor não vacilar ter a coragem
De enfrentar a razão de ser da própria dor
Porque o amor é triste não é fácil o amor
(cantado no álbum A Cantar ao Sol, 1983, de Janita Salomé)
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
DISAPPOINTED IN THE SUN (o meu 2009)
Sou um lacrau do deserto, tenho uma costela árabe. Prefiro viver na sombra, mas sobrevivo a altas temperaturas. Alimento-me ociosamente do pouco que necessito. A minha principal contradição é o fundo do mar, para onde quero ir quando a melancolia me açoita a cauda. O louva-deus é o meu principal inimigo. Agora que o ano finda, sem que ninguém me explique por que outro começa, penso que talvez seja bom recapitular o êxtase à meia-noite de 31 para logo a seguir, na manhã do primeiro dia, voltar a sentir a ressaca de estar vivo. Balanceio o meu 2009 às costas de Para Sempre:
─ E depois?
─ Como depois?
─ Porque ou tu não realizas o absoluto sonhado e então falhou, ou o realizas e ficas à boa vida. E então depois? Como vais viver em pasmaceira? E em que alínea do teu programa político se trata também do problema da morte?
E eu então disparatei contra mim:
─ Que problema de merda é esse do absoluto e da morte?
─ Fala baixo que as tias podem ouvir.
─ Que problema de caca é esse de desocupados? Tu devias passar fome para teres razão de falar. Os teus problemas são um insulto para quem não tem que comer. Eu estou-me nas tintas para todo esse mistifório de meninos mimados pela sorte. Quero lá saber do depois do depois. Quero é saber do agora, aqui, quero saber de problemas concretos, daqueles que se resolvem com as mãos, com os pés, no estômago. Toda essa metafísica de merda.
Mas Vergílio Ferreira também estava equivocado. O meu problema concreto de agora é mesmo a retórica do depois. É um problema fodido que hei-de resolver à maneira da Fernanda Ribeiro:
Este é um 2009 que nunca esquecerei.
Talvez venha a esquecer o 2009 do ano passado ou o 2009 de aqui a dois anos ou o 2009 de há 10 anos atrás, mas este 2009, este de agora, concreto, problemático, com suas dores de estômago, pé de atleta e mãos encarquilhadas... eu jamais esquecerei.