sábado, 27 de fevereiro de 2010

FORTE E VIGOROSO


«Tudo aquilo que não aconteceu a Ruy Belo mostra os mecanismos da merda em que nos fazem chafurdar» (Joaquim Manuel Magalhães). Ruy Belo nasceu em São João da Ribeira, aldeia do concelho de Rio Maior, a 27 de Fevereiro de 1933. Quem o conheceu, diz que era um rapaz tímido. Como praticamente toda a gente daquelas bandas, teve uma educação religiosa. Em 1943, matriculou-se no Liceu de Santarém. Concluído o Liceu, foi estudar Direito para Coimbra. Foi por essa altura que se comprometeu com o Opus Dei, organização que, segundo o próprio, veio a abandonar alguns anos depois por lhe ter sido proibida a escrita de poesia. Magalhães conta que Ruy Belo falava inclusive de um livro que fora obrigado a destruir por ordem do seu orientador espiritual. Isento do Serviço Militar, transferiu-se para a Universidade de Lisboa em 1954. A Licenciatura em Direito foi concluída em 1956. Partiu então para Roma, onde se doutorou em Direito Canónico com uma tese intitulada Ficção Literária e Censura Eclesiástica. Regressado a Lisboa, foi, durante praticamente três anos, Director Literário da Editorial Aster e chefe da Redacção da revista Rumo. Fez um estágio para advocacia, proferiu palestras sobre literatura na Emissora Nacional, foi adjunto do Director do Serviço de Escolha de Livros do Ministério da Educação Nacional, demitindo-se quando ia ser nomeado Director. 1961 é um dos anos mais marcantes da sua biografia. Abandona o Opus Dei, publica o primeiro livro, intitulado Aquele Grande Rio Eufrates, e conhece Maria Teresa, futura mulher, como bolseira da Gulbenkian na Faculdade de Letras de Lisboa. Eugénio de Andrade lembra o aspecto físico do poeta: «era forte e vigoroso, como se tivesse praticado basquetebol, ou coisa assim, e ficasse para sempre grandalhão e gauche». Mas lembra mais. O primeiro livro de Ruy Belo fora concorrente ao Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores, perdendo para Poesia III de José Gomes Ferreira. Entretanto, Ruy Belo foi traduzindo vários autores, publicou O Problema da Habitação, organizou a edição de livros de Camilo e Antero, casou com Maria Teresa, publicou o terceiro livro, Boca Bilingue, foi chefe do serviço de edições da União Gráfica, concluiu a licenciatura em Filologia Românica, foi pais duas vezes e, em 1969, candidatou-se a deputado por Lisboa nas listas da CEUD. Armando Pereira da Silva lembra que, por esta altura, «a sua ligação contratual a estruturas editoriais da Igreja entrou em colapso. E as portas profissionais seguintes foram-se fechando, apesar das duas licenciaturas e um doutoramento». Em 1971, além de ter prefaciado Sob Sobre Voz, de João Miguel Fernandes Jorge, conseguiu um lugar de leitor de português na Universidade de Madrid. A polícia política tentou limitar-lhe as acções procurando impor que falasse apenas de literatura. Ruy Belo manteve-se em Madrid durante seis anos, continuando a publicar os seus livros em Portugal, passando férias na Praia da Consolação, intervindo civicamente na cooperativa Proelium, regressando definitivamente no ano de 1977. No regresso, algo debilitado fisicamente, foi recebido com indiferença pela Academia, que lhe barrou a entrada como professor numa Faculdade. O Ministério da Educação e Cultura também lhe negou um pedido de equiparação a bolseiro. Tudo o que havia para o poeta, independentemente das habilitações, era um horário nocturno na Escola Técnica do Cacém. «Ficou muito quieto, bebendo muito sem nunca se embriagar, tomando muitos banhos frios para não entorpecer, tentando esquecer nos psicofármacos as mandíbulas dos que lhe fingiam apreciar os versos, para o despedir em seguida para o limbo dos inofensivos» (Joaquim Manuel Magalhães). O autor de A Margem da Alegria morreu no dia 8 de Agosto de 1978, na sua casa de Queluz, vítima de um edema pulmonar. Deixou três filhos e uma obra ímpar que os doutores da Academia podem agora apreciar, confortavelmente instalados nos lugares distribuídos onde vão refastelando o descaso:

O VALOR DO VENTO

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em Agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

AULA DE POESIA

Em Portugal não há aulas de poesia. Quando muito, uns cursos de intensidade média-baixa, workshops de escrita criativa, ou seja, uma escrita sem criatividade alguma. Porque, em Portugal, há um gene poético que predispõe qualquer português não só para se tornar poeta como também para tudo saber e tudo poder ensinar acerca dessa ciência do disfarce que dá pelo nome de Poesia (vai com maiúsculas, para fazer justiça à grandeza do país). Que um poeta e crítico de poesia (dupla condição que prolifera entre nós) chame Aula de Poesia a uma recolha de textos sobre livros de outros poetas, só pode denotar um saudável sentido da ironia que é viver num país onde toda a produção poética, para não falar da produção crítica, interessa apenas àquela meia dúzia de gatos-pingados que ainda lê poemas. Desconfio mesmo que, desta meia dúzia, metade sejam poetas ou aspirantes a. Se subtrairmos o professorado, que, como sabemos, acaba muitas vezes por ser indistinguível daquela metade, ficamos com uma ínfima parte de leitores sem aspirações. A dúvida é: será que lhes interessa uma aula de poesia? Duvido.

Muito por culpa de uma saudosa coluna mantida durante vários anos na revista LER, Eduardo Pitta (n. 1949) foi-se afirmando, sobretudo, como crítico literário. Preferiria chamar-lhe leitor atento, com um sentido crítico muito próprio, pois a escrita de Pitta raramente se aventura por uma análise especulativa das obras. Ao relermos os textos agora coligidos, percebemos claramente que o registo é outro. A recolha intitulada Metal Fundente (Quasi Edições, Maio de 2004) já havia sublinhado o interesse pelo apontamento biográfico, tendência que volta a manifestar-se determinante nos textos de Aula de Poesia (Quetzal Editores, Janeiro de 2010). Esta propensão para o biografismo acarreta um problema evidente: não havendo biografia, os textos perdem fôlego. Não admira, pois, que das recensões agora recuperadas, as menos interessantes sejam, regra geral, aquelas que têm por objecto um livro de um autor mais recente. O texto dedicado a Gonçalo M. Tavares, por exemplo, é de uma pobreza exasperante. Em 35 linhas, 8 ocupam um primeiro parágrafo onde se enumeram alguns autores contemporâneos mais prolixos, 8 linhas são para informações genéricas sobre a obra do autor, duas citações do livro ocupam 13 linhas, restando, sobre a obra, basicamente 4 interrogações e uma hipótese: «Podia ser uma reacção ao excesso de legibilidade dos anos 90, mas nem isso é, porque a estranheza da forma não oblitera o fio do discurso» (pp. 80-81). Fala-se ainda de poesia como mantra, mas fica a sensação de que nada havia para dizer.

Ao contrário, alguns textos sobre “autores menos novos” revelam-se assaz atraentes, quer pela informação biográfica que proporcionam, quer pelo enquadramento que sugerem da obra. Sublinho, entre outros, o texto de uma conferência sobre António Botto e as prosas dedicadas a Camilo Pessanha e Judith Teixeira, mas também os dois textos onde Eugénio de Andrade aparece evocado, sobretudo por neles ter entrevisto comentários muito mais desinibidos do que as leituras fastidiosamente apologéticas que geralmente são dedicadas ao autor de As Mãos e os Frutos. Os textos sobre Rui Knopfli, Luís Miguel Nava e João Miguel Fernandes Jorge cabem no que de melhor tem esta recolha, sendo igualmente de registar algumas leituras onde podemos descobrir enumerações, correcções, lembretes que permitem montar, como se de um puzzle se tratasse, o olhar do crítico sobre a actualidade literária: «A poesia portuguesa do século XX não tem uma antologia decente» (p. 34), «a poesia não é um jogo de salão» (p. 84), «a representatividade releva do conjunto da obra (muitas vezes desdobrada em vários géneros) e da intervenção do autor na sociedade, a qual se deve não confundir com visibilidade mediática» (p. 93), «a poesia portuguesa tornou-se um feudo académico» (p. 146), etc.

No entanto, o estilo de Eduardo Pitta deixa-me sempre dúvidas sobre uma real conformidade entre o afirmado e o praticado. Não sei até que ponto é necessário frequentar os salões para se poder dizer que a poesia não é um jogo de salão, ou se as cedências ao “feudo académico” e uma especial atenção a um putativo “cânone”, com apreciáveis excepções, como é óbvio, não legitimam e reforçam esse mesmo feudo. Pormenores de estilo, talvez, que permitem citar Carlo Vittorio Cattaneo, Barthes, Ducrot, Joaquim Manuel Magalhães (em dose dupla), Harold Bloom, Américo António Lindeza Diogo e Manuel Frias Martins, num mesmo texto, breve, a propósito de um livro de Nuno Júdice. O uso e abuso de estrangeirismos, locuções latinas, entre outras, reforça a pose: ars erotica, ars poetica, avant la lettre, bon vivant, bric-à-brac, close reading, corpus, deadline, diktat, engagement, establishment, ex aequo, expertise, freedom fighters, free lance, happy few, in progress, insert, intelligentzia, Kenosis, Kitsch, lead, leitmotiv, lobby, malgré, naïveté, nonsense, notebook, outsider, overact, plot, post scriptum, private joke, queer, scholar, script, soixante-huitard, success d’estime, tour d’horizon, travelling, turning point e, last but not least, virtuose. Enfim, caso para dizer que não havia necessidade.

Escrito para o Rascunho.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

NÃO É CERTO QUE TENHA MORRIDO SEM DEIXAR UM LIVRO

José Joaquim Cesário Verde nasceu em Lisboa a 25 de Fevereiro de 1855. O pai tinha uma loja de ferragens e dedicava-se à lavoura numa quinta em Linda-a-Pastora, nas imediações da capital. Terá contribuído para que a vocação poética do filho fosse retraída, tendo-o educado, sobretudo, para a vida de comerciante. Ainda criança, Cesário começou a trabalhar na loja do pai. Após os estudos secundários, matriculou-se no Curso Superior de Letras, sem nunca ter marcado presença nos exames finais. Valeu-lhe a experiência para travar conhecimento com Silva Pinto, um amigo de grande proximidade com quem Cesário manteve uma relação que tem sido alvo de várias especulações. O próprio recordará o dia do primeiro encontro no prefácio à primeira edição de O Livro de Cesário Verde: «Encontrámo-nos pela primeira vez no Curso Superior de Letras. Foi em 1873. Cesário verde matriculara-se no Curso, em homenagem às Letras, como se as Letras lá estivessem ─ no Curso. Eu matriculara-me, com a esperança de habilitar-me um dia à conquista duma cadeira disponível. Encontrámo-nos e ficámos amigos ─ para a vida e para a morte. Para a vida e para a morte». A decepção com o mundo universitário e uma inclinação literária que chocava com a vida de comerciante, transformam o poeta num indivíduo solitário. Comerciante de profissão, jamais seria aceite na cátedra dos homens de letras. Entre estes, como é sabido, os balcões são mais baixos e as negociatas menos translúcidas. Diz-se, portanto, que Cesário Verde escreveu poesia nas horas vagas, incapaz de cortejar os seus pares no mundo das letras e evitando o convívio com os seus pares no mundo do comércio. Foi publicando em jornais e revistas, provocando o sarcasmo de Ramalho Ortigão ─ deve tornar-se «menos Verde e mais Cesário» ─ e, num tom menos irónico, alguma polémica: «…o seu folhetim, onde cada verso é simplesmente um vomitório…» 12 de Novembro de 1873 marca a estreia do «poeta-negociante» no Diário de Notícias. Frequentou, igualmente, as páginas do invicto Diário da Tarde. Em 1874, mais uma de muitas desilusões literárias: Teófilo Braga não inclui nenhum dos poemas de Cesário na antologia Parnaso Português Moderno. Burguês, algo dândi, atraído pela boémia, Cesário Verde afoga as mágoas e as amarguras com absinto bebericado nas tascas e nos cafés. «Era um rapaz alto, direito, elegante, simpático, cabelo curto, alourado, olhos azuis, vestindo sempre fato azul, de jaquetão, de corte inglês, sapatos amplos, com todo um ar britânico»… Cada vez mais afastado da vida literária, substitui o pai nos afazeres mercantis. Publica raramente, adia a edição de um livro, perde uma irmã e um irmão com tuberculose, começa a manifestar o pavor da doença. O trabalho leva-o a Inglaterra e França, onde terá assistido ao funeral de Vítor Hugo. Deambula pela capital portuguesa, procura conforto no campo, mas a doença persegue-o, agrava-se, acaba por colhê-lo. Ignorado pelos seus contemporâneos, queixava-se aquando da publicação de O Sentimento dum Ocidental: «Uma poesia minha, recente, publicada numa folha bem impressa, limpa, comemorativa de Camões, não obteve um olhar, um sorriso, um desdém, uma observação. Ninguém escreveu, ninguém falou, nem num noticiário, nem numa conversa comigo; ninguém disse bem, ninguém disse mal!... Literariamente parece que Cesário Verde não existe». Cesário Verde morreu a 19 de Julho de 1886, com trinta e um anos. O Diário de Notícias, jornal onde o poeta se estreara, fez-lhe o necrológio: «malogrado poeta e comerciante». Meses após a morte do poeta, o amigo Silva Pinto publicou, a expensas próprias, a primeira edição do Livro de Cesário Verde. O resto é história:

CINISMOS

Eu hei-de-lhe falar lugubremente
Do meu amor enorme e massacrado,
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.

Hei-de expor-lhe o meu peito descarnado,
Chamar-lhe minha cruz e meu calvário,
E ser menos que um Judas empalhado.

Hei-de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
E desvendar-lhe a vida, o mundo, o gozo,
Como um velho filósofo lendário.

Hei-de mostrar, tão triste e tenebroso,
Os pegos abismais da minha vida,
E hei-de olhá-la de um modo tão nervoso,

Que ela há-de, enfim, sentir-se constrangida,
Cheia de dor, tremente, alucinada,
E há-de chorar, chorar enternecida!

E eu hei-de, então, soltar uma risada.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

ELEGIA


Conhecia Isabel Coixet (n. 1960, Barcelona) do filme The Secret Life of Words. Em Elegy, pude confirmar a inclinação da realizadora para relações amorosas contaminadas pelo lado trágico da vida. Tudo num tom de apreciáveis sobriedade e contensão, ainda que o aparente realismo das imagens perca autenticidade na improbabilidade de uma retórica demasiado confiante e esclarecida. Talvez o defeito seja meu, acredito mais nas estribeiras perdidas do que na capacidade das pessoas para resolverem os seus problemas de um modo, digamos assim, civilizado e polido. É verdade que a predilecção da realizadora por pares que juntam homens mais velhos a jovens moças ajuda a maturar os discursos e a manter um certo equilíbrio, se bem que, nos dois filmes, os homens pareçam crianças ao pé das suas jovens paixões. Que o estereótipo da jovem moça virginal e ingénua, ou simplesmente depravada, seja transposto por uma opção que prefere jovens amadurecidas por experiências traumáticas, sublinha apenas um certo olhar feminino sobre o lado macho da questão. Se Tim Robbins (n. 1958) parecia ter mais a aprender com Sarah Polley (n. 1979) em The Secret Life of Words do que o contrário, Ben Kingsley (n. 1943) não parece ter menos a aprender com Penélope Cruz (n. 1974) neste Elegy. O argumento adapta The Dying Animal, um romance de Philip Roth sobre a paixão entre um velho professor de literatura e uma das suas jovens estudantes. Ao (re)descobrir o amor com Consuela Castillo, o professor Kepesh, divorciado e algo licencioso em matéria de paixões, vê-se numa espécie de terreno pantanoso que o obriga a uma constante racionalização dos sentimentos. A diferença de idades é o principal problema que se intromete na relação, a qual favorece igualmente uma crítica muito clara e certeira ao casamento enquanto instituição castradora da vontade e moralizadora do desejo. Tudo menos problematizado do que seria expectável, nomeadamente a emergência do ciúme e da possessão num professor que camufla o desespero ao piano e à conversa com um amigo poeta. Temo que a intelectualização das personagens lhes tenha usurpado alguma humanidade, a qual apenas se revelará convincente nas sequências finais, nomeadamente as que focam a perda do amigo poeta, sucumbido na hora da consagração, e aquela em que Consuela Castillo reaparece na vida do professor-amante para lhe dar a notícia de uma operação que obrigará à amputação de uma mama. A amputação da beleza, inteligentemente contornada pelo corpo de Penélope Cruz, reconfigurará todo um elo sentimental que havia sido recalcado, tornando assaz comovente a cena em que o professor Kepesh fotografa, pela última vez, o corpo inteiro de Consuela Castillo, diligenciando, quem sabe, o registo de uma beleza que pode ter motivado a paixão mas, perdida, não ameaça o amor. Ironicamente, acaba por reforçá-lo. Ou, pelo menos, acordá-lo das zonas reprimidas. Matéria para filmes, pois claro. Fosse a vida real assim, não precisaríamos da arte para nada.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A MATÉRIA DO AR



Bom dia. Também eu sou feito de marfim.
Estes são os meus amigos d'hoje: folhedo
para entreter as mãos, pontas de madeira
grossa para depois comer. Hoje havia água
e a minha boca é cheia.
Nunca o mínimo deus me salvou.

Nem luz nem a treva. Às vezes, de madrugada,
visito as mulheres que lavam e que cantam.
Trabalho com elas e há um forno transparente
onde cozer o pão. Depois elas perguntam sempre
quem sou e eu respondo: sou alguém que come pão
e que se senta fora da casa com as mãos na terra.
E elas começam a cantar e nunca me falam de
amor.

Ainda tenho pensamentos mas já não os penso.
Falo como o sono nutre a sua teia e o seu
veneno. Só os bichos da terra e os que andam
no céu são brancos. E digo:
Acende uma fogueira ao que sobrar do
mundo.


Rui Costa, in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Quasi Edições, Maio de 2005, p. 45.

A VERDADE

A juntou-se a B na defesa de uma questão fracturante. A estes juntaram-se C, D, E, F, G, H, I, J, K, L e muitos outros. Almoçaram e jantaram juntos, partilharam salas, em alguns casos deram de guarida uns aos outros, mostraram-se unidos em prol da causa. Depois, B subiu na vida, indicou G para seu assessor, chamou a atenção de X, homem poderoso e influente, para as boas qualidades de I, que foi prontamente chamado a desempenhar cargos de relevo nas esferas do poder. A ficou a olhar para todas aquelas movimentações, chuchava no dedo, desabafava amargurado com C, D, E, F, entre outros, o ter sido esquecido nesta nobre distribuição de competências. Ele já nem sabia quem era B, de tão ofuscado que andava pelo remorso. E, que era rato, escutou os desabafos de A e foi dar conta do sucedido a B, o qual agradeceu a confiança e aproveitou a oportunidade para perguntar a E se este não estaria disponível para fazer parte dos quadros de uma Central de Informação do Governo. E disse que ia pensar no assunto, mas passadas umas horas já estava a telefonar para dar conta da sua disponibilidade e agradeceu a B o convite. Ofendido, remoído, desesperado, A armou um grande escarcéu na imprensa. Escreveu artigos, deu entrevistas, fez denúncias, insinuações, tudo em nome da verdade, porque nada mais lhe interessava senão a verdade.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

CONHECERAM-SE NO DIA DO CASAMENTO


Wystan Hugh Auden , W. H. Auden para os amigos, nasceu em York, a 21 de Fevereiro de 1907. Filho de George Augustus Auden, médico reputado, e de Rosalie (Bicknell) Auden, foi educado no internato de St. Edmund’s Hindhead e na Gresham's School. Conheceu Christopher William Bradshaw-Isherwood, um amigo íntimo com quem veio a partilhar viagens e produção literária, no internato. Antes dessas intimidades, Auden andou por Oxford. T.S. Eliot, então director da Faber & Faber, rejeitou-lhe uma primeira colecção de poemas. Por iniciativa de Stephen Spender, Poems acabará por sair em 1928, em edição privada, sendo posteriormente republicado, em 1930, já na Faber & Faber . Entretanto, em 1928, Auden partiu para Berlim, descobriu Brecht, o cabaré alemão, a liberdade sexual: «Auden e os amigos eram apenas rapazes que gostavam de frequentar os concorridos bares homossexuais da cidade, pejados de jovens do proletariado dispostos a tudo (a depressão económica da República de Weimar fizera disparar a prostituição masculina). Gide também andava por lá, mas as suas preferências iam para miúdos» (Eduardo Pitta, in Metal Fundente). No regresso a Inglaterra, o poeta vendeu aulas em várias escolas britânicas. Viajou à Islândia, na companhia de Louis MacNeice, ganhou fama como intelectual de esquerda, escreveu algumas obras a meias com Christopher Isherwood, casou-se com Erika Mann, filha de Thomas Mann, uma jornalista e actriz lésbica que, pelos vistos, também partilhava a cama com Carson McCullers. O casamento foi apenas uma forma de Erika conseguir passaporte britânico. Na verdade, conheceram-se no próprio dia do casamento. Em 1937, viaja a Espanha com o objectivo de apoiar as forças republicanas. Porque não era membro do Partido Comunista, acaba por ser ignorado. No ano seguinte, viaja à China na companhia de Isherwood. «Sex, according to Isherwood, gave their friendship an extra dimension». Assim foi que, por essa altura, resolveram emigrar para os Estados Unidos. Auden converteu-se ao catolicismo e levou uma vida de recolhimento até se mudar para um prédio em Brooklyn Heights onde residiam vários artistas em “atmosfera de despreocupada licenciosidade”. No decorrer de uma leitura de poemas na League of American Writers, Auden conheceu o jovem Chester Kallman. Será a paixão de uma vida, consolidada também literariamente com a escrita a duas mãos de vários libretos de ópera. Em 1946, o poeta adquiriu a nacionalidade americana. Eleito Professor de Poética, foi firmando cada vez mais a sua reputação enquanto escritor. Apesar de visitar a Europa com regularidade, só em 1972 abandonou em definitivo o território norte-americano. Fixou-se em Oxford, onde foi professor convidado de poesia, mas passava os verões numa casa que mantinha na Áustria. No dia 28 de Setembro de 1973, sentiu-se mal após uma leitura de poesia no Palácio Palffy, em Viena. Chester Kallman encontrou-o morto, vítima de ataque cardíaco, na cama do Hotel onde estavam instalados. Kallman morreu em 1975, sem quaisquer recursos, na cidade de Atenas:

BLUES FÚNEBRE

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e com os tambores em surdina
Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.


Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe em volta dos pescoços das pombas da cidade,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.


Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.


Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram o bosque;
Pois agora tudo é inútil.


Abril 1936


W. H. Auden, in Diz-me a verdade acerca do amor – Dez poemas, trad. Maria de Lourdes Guimarães, Relógio D’Água, 1994, p. 39. Na imagem ao alto: W. H. Auden, Stephen Spender e Christopher Isherwood.

OUTONO


Fui colega de curso do Gonçalo Salvado, um dos filhos do António Salvado. Em 1998, se não me falham as contas, acompanhei-o à Casa Fernando Pessoa para marcar presença na apresentação do livro Rosas de Pesto (A Mar Arte). Tive oportunidade de conhecer pessoalmente o poeta, pai de um companheiro que encontrei uma ou duas vezes, de raspão pela capital, nos últimos anos. Desde então, o António Salvado tem a gentileza de me enviar por correio postal todos os livros que vem publicando. Vão para a morada de Lisboa, dedicados ao poeta Manuel Bento, como então eu assinava algumas leviandades que tornei públicas. Celebro este ano dez primaveras de afastamento lisboeta, mas a casa de família onde residi ainda existe, alugada a estudantes que se encarregam de fazer chegar aos meus pais a correspondência que para lá me é dirigida. Outono chega-me com três meses de atraso, precisamente um dia depois de, por mera coincidência, ter escrito este post. É uma edição trilingue (castelhano, português, japonês) que une a Editorial Verbum à Trilce Ediciones, cabendo a tradução espanhola a A. P. Alencart e a japonesa a An Oshiro. Aos versos de António Salvado juntam-se as “ilustrações” de Kousei Takenaka. O resultado é acolhedor:




São corpos desgastados
que não deixam fugir
bem para longe as almas.



Obrigado António Salvado.

FALA O FICCIONISTA

Há pessoas que me parecem absolutamente convencidas de que têm vidas especiais, vidas que vale a pena expor ou simplesmente contar aos outros. Não duvido que assim seja, embora eu não esteja muito interessado nessas vidas. Contudo, estou convencido de que comigo se passa exactamente o contrário. A minha vida é tão desinteressante que passo a maior parte do meu tempo a pensá-la, a sonhá-la e a inventá-la. Resta-me, portanto, muito pouco tempo para vivê-la.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O DISCURSO OPCIONAL OBRIGATÓRIO

Seria incorrecto afirmar a inexistência de interesse pela poesia contemporânea espanhola antes de Joaquim Manuel Magalhães ter começado a publicar, na Relógio D’Água, os Trípticos Espanhóis. Os três volumes organizados pelo poeta e crítico português limitaram-se a desbravar caminho na redescoberta de uma poesia tão ou mais cativante do que aquela que por terras lusas vai sendo dada à estampa, divulgando de um modo consistente alguns poetas de um país vizinho onde os debates em torno da produção poética não diferem muito dos que por cá vão fazendo escola. É óbvio que os nomes seleccionados por Joaquim Manuel Magalhães servem, embora não tão linearmente quanto possa parecer, a defesa de uma poesia realista que Jorge de Sena já apregoava e Magalhães se limitou a reforçar. Dito isto, no primeiro de três volumes, publicado em Maio de 1998, foram traduzidos e apresentados José Luis García Martín, Abelardo Linares e Julio Martínez Mesanza. Seguiram-se, no segundo volume, datado de Junho de 2000, José Ángel Cilleruelo, Vicente Valero e Diego Doncel. Por fim, em Outubro de 2004, o terceiro volume dos Trípticos Espanhóis apresentou-nos Amalia Bautista, Luis Muñoz e Pablo García Casado. Quem julgar que a poesia espanhola se reduz a estes nomes está redondamente enganado. Estas vozes são apenas as mais facilmente ajustáveis a um programa que a editora Averno se encarregou de prosseguir, publicando, em Junho de 2005, Antologia de José Ángel Cilleruelo, para reincidir, em Novembro de 2007, com Em Nenhum Paraíso, volume de Diego Doncel. De resto, ambos os livros foram traduzidos e introduzidos pelo próprio Joaquim Manuel Magalhães, acontecendo o mesmo com A Névoa (Maio de 2006), de José Mateos. Mais recentemente, coube a Manuel de Freitas a tradução de A Caixa Negra (Fevereiro de 2009), de Josep M. Rodríguez, e O Discurso Opcional Obrigatório (Novembro de 2009), de Mariano Peyrou (n. 1971).

Ao contrário do que se passou em Espanha, e se exceptuarmos um certo modernismo à moda portuguesa, Portugal chegou sempre atrasado às vanguardas. O nosso surrealismo foi um pós-surrealismo. Surgiu, em reacção ao neo-realismo (“poesia de comício”?), praticamente vinte anos depois dos manifestos de Breton. Andámos sempre na sombra do que lá por fora se foi fazendo, ainda que cá por dentro o excesso metafórico, a radical arritmia metonímica, os misticismos de pacotilha e o culto inconsequente de um hermetismo vazio tenham, muito naturalmente, obrigado à defesa de uma poesia voltada para o real. Mas esta poesia não deve ser confundida com mero relato quotidiano, estória disfarçada de poema, confessionalismo exacerbado, politiquice rasteira. Nos dois lados da barricada, o folclore tem o seu lugar. Então, de que real estamos a falar quando falamos de um regresso ao real? O Discurso Opcional Obrigatório pode servir-nos de paradigma. Na introdução a esta antologia seleccionada por Manuel de Freitas, José Ángel Cilleruelo caracteriza a poesia de Mariano Peyrou chamando a atenção para uma «distorção constante da racionalidade», para terminar com a afirmação que a seguir se reproduz: «A incompreensão da realidade, que aumenta à medida que mais intensamente se vive e actua nela, converte-se no emblema do vitalismo arracional ─ se me é permitido o neologismo ─ que Mariano Peyrou estabelece como a razão estruturante da sua obra poética» (p. 13). Sublinhamos «incompreensão da realidade» e «vitalismo arracional», por nos parecerem as chaves para o entendimento não só destes poemas como da melhor poesia dita realista que se vai publicando entre nós.

De facto, o que sobressai nestes poemas colhidos de quatro livros anteriormente publicados pelo autor ─ La voluntad de equilibrio (2000), A Veces Transparente (2004), La Sal (2005), Estudio de lo visible (2007) ─ é a consciência da subjectividade contaminadora da apreensão do real. Esta “poesia do conhecimento” distingue-se de outras por radicalizar o papel do sujeito perante o objecto: «Mais tristes do que os seus melhores versos / são as tardes estéreis do poeta / em que despojado do acaso e da vaidade / (que chama talento ao acaso) / sabe que não encontrará esperança na metáfora» (p. 19). Não se vislumbra, nestes versos, qualquer veleidade cognitiva. Apenas e tão-só um «solipsimo» radical. A ideia da poesia enquanto verdade, ou, se quisermos, enquanto apreensão ou revelação (da verdade), cai por terra, para passarmos a ter apenas a manifestação de uma cisão impossível de transpor entre a realidade e o poeta. Não havendo qualquer pretensão de atingir uma verdade ─ podendo até existir essa pretensão, embora consciente do fracasso para que remete ─ o que é, então, o poema? Talvez uma «radiografia do silêncio» (p. 25) ou um «desejo de silêncio» (p. 29). O poema A Corola Inteira pode servir de resposta: «Ninguém é alguém mas / talvez alguém seja ninguém como / eu, pensa este candidato à / esperança enquanto estuda a / margarida de duas pétalas. O / melhor nestes casos é arrancar o / caule, iludir a lógica disjuntiva / e manter a corola inteira. Não / haverá resposta, e é nisso / que consiste a flor» (p. 27).

Refém da racionalidade, o poeta manifesta racionalmente a arracionalidade do seu discurso, intenta uma retórica contra as pretensões da lógica, chega a fazer filosofia sobre o nonsense que sustém, de um modo invariavelmente débil, a esperança de um conhecimento, resvala, ele próprio, nesse nonsense irónico, conjuga a um só tempo a disjuntiva e resume-se num título: O discurso opcional obrigatório. O que há de mais estimulante nestes poemas é a assumpção das antinomias, o equilíbrio com que nos oferecem uma hermenêutica do mundo invadindo a reflexão lógica, penetrando, inclusive, nos domínios da filosofia da linguagem, sem resvalarem no facilitismo palavroso das academias nem cederem a uma imagética pretensamente transgressora que redunda sempre num nada ter para dizer. De certa forma, são poemas reflexivos. Porém, o que há de menos estimulante nestes poemas é, precisamente, não recusarem a impossibilidade da poesia, tornando-se, eles próprios, paradoxalmente poéticos. Porque, na verdade, se «a representação da dor / é aquilo que dói» ─ e não duvidamos que assim seja ─, para quê escrevê-lo num poema? Digamos que o sentido da poesia talvez esteja em não ter sentido algum. O silêncio não se escreve. Quando muito, pressente-se. A conclusão pode parecer algo niilista: talvez a poesia não exista, talvez existam tão-somente homens que chamam poesia a qualquer coisa que escrevem não sabem bem porquê nem para quê. Talvez por nada, talvez para nada… nem ninguém.

Escrito para o Rascunho.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O MAIS NOVO DE CINCO FILHOS

fotografia respigada aqui


O poeta António Salvado nasceu em Castelo Branco, a 20 de Fevereiro de 1936. Era o mais novo de cinco filhos. Fez os primeiros estudos na cidade onde nasceu, partindo depois para Lisboa onde se licenciou em Filologia Românica. O primeiro livro de poemas surgiu em 1955, tinha o poeta apenas 18 anos, com o título A Flor e a Noite:

IMITADO DE CATULO

Odeio e amo. Inconsciente,
vós julgais talvez que eu minto
amando assim o que dói…
Mas é só isto o que eu sinto ─
um amor-ódio fervente
que a cada instante me rói!...


Ainda na fase universitária, foi, conjuntamente com os então jovens poetas José Sebag, Helder Macedo, Herberto Helder e José Carlos González, um dos organizadores da revista Folhas de Poesia, da qual se publicaram quatro números, entre 1957 e 1959, com capas de René Bértholo, Lopes Alves, Lurdes Castro e José Escada. Em 1959, António Salvado publica Recôndito:

SEGREDO

A David Mourão-Ferreira

Um queixume de rua envolve,
silenciosamente molhada,
aquele que marcha sozinho…

Pla sua face já não sabe
se correm lágrimas ou chuva,
desfeito o expedito sonho…

Apenas a rua molhada…
E bem dentro dele, aninhado,
pra sempre eterno, o inexprimível!


Após a licenciatura, repartiu as suas actividades profissionais pelo ensino e pela museologia. Foi Professor do Ensino Técnico-Profissional e do Ensino Liceal, frequentou cursos relacionados com as actividades que desempenha, desde há alguns anos, como Director-Conservador do Museu Tavares Proença Jr. (Castelo Branco), foi membro para a Educação e Cultura, do Conselho Distrital de Castelo Branco, é membro da Cátedra de Poética "Fray Luís de León" da Universidade Pontifícia de Salamanca, recebeu vários prémios e condecorações, entre as quais se destaca a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura de Portugal. Além de poeta com vastíssima obra publicada, Salvado escreveu ensaios, críticas, organizou antologias, traduziu autores estrangeiros, colaborou com variadíssimas publicações literárias e suplementos de jornais. Em 1997, a editora A Mar Arte coligiu-lhe a primeira e segunda partes da sua Obra: Obra I (1955-1975) e Obra II (1975-1995). Seguiu-se, em 1999, Obra III, mas António Salvado não pára de publicar livros. Está traduzido em castelhano, francês, italiano e inglês. Não coube na antologia:

COBERTO DE…

Coberto de vaidade,
mendigas um olhar
que rebrilhe contigo.

Por mim… passo-te ao lado:
nunca soube implorar
em vestes de mendigo.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

ORGIA

As notícias começaram a despir-se. Ficaram todos à espera, ninguém iniciaria uma orgia sem a presença do anfitrião – um tipo muito parecido com o Philip Seymour Hoffman. Ele nunca mais aparecia. As notícias começaram a sentir algum frio. Estavam nuas. Foi então que ouvimos uma canção dos Xutos & Pontapés na voz do José Cid: ai meu amor o que eu já chorei por ti. Vinha do fundo da sala. O tipo muito parecido com o Philip Seymour Hoffman chegou para dirigir a orgia. Pegou num microfone e enfiou-o na rata de uma das notícias. Algumas pessoas começaram a caminhar na direcção da canção. Outros desapareceram. Mas muitos meteram a boca no microfone que penetrava a rata da notícia. Eu fiquei na companhia da Rossy de Palma, os dois sozinhos, a olhar alguns peixes enormes nas águas poluídas de um mar parado. O mar parado era a realidade. Os peixes enormes eram pessoas reais, gente consecutivamente agredida pelo desinteresse, pelo descaso, pela incúria daqueles que se entretinham na orgia noticiosa.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O LAÇO BRANCO

É uma questão tão recorrente que se tornou vulgar. E, como todas as coisas vulgares, amolece à passagem do tempo. Deixamos de pensar nelas, transformando as questões em respostas, as dúvidas em trivialidades. O problema da vulgaridade é o princípio da indiferença. Tudo o que nos deixe de espantar, indignar, perturbar, corre esse risco do desinteresse. Sabemos do vírus que é a apatia, mas pouco ou nada conseguimos contra tal risco se nos deixarmos dominar pelos estereótipos, pelas ideias feitas, pelo bom e fácil do senso comum. O que a poesia tem de melhor é a afronta a este desleixo. Pois está que, de quando em vez, a pergunta volta a emergir: o que torna possível a existência de monstros? Ou, a título de exemplo: o que tornou possível que uma nação inteira, ou quase, tivesse acompanhado Hitler nas sua humanas loucuras? Estas perguntas são tanto mais difíceis se nos lembrarmos que tendemos a esquecer, omitir, negligenciar todos aqueles que, fazendo parte da nação alemã, se recusaram a engraxar as botas do füher, esticando o braço apenas para pedir boleia para o exílio, para o cárcere ou, nos casos talvez mais bafejados pela sorte, para a vala comum. Michael Haneke ensaia uma resposta a dúvidas similares no filme O Laço Branco. Melhor seria dizer que especula sobre a origem dos monstros neste seu filme a preto e branco. Cineasta com tendências para mergulhar nos requintes da violência psicológica, acompanho-o desde Funny Games (1997). Vi La Pianiste (2001) uma única vez e jurei para nunca mais. Deve ter sido o filme mais agressivo a que alguma vez assisti. Pelo menos, perturbou-me irremediavelmente. Tocou-me nas feridas abertas que a intimidade gostaria de poder recalcar não fosse a poesia um parasita insaciável. Caché (2005) actualizou a paranóia com requintes de malvadez sem par numa época em que os filmes estão pejados de violência gratuita e na nossa vida quotidiana desfilam a toda a hora e por todo o lado imagens cujo único efeito é, ao mesmo tempo e na mesma medida, banalizar o terror e gerar um medo suicida. Paradoxal? Nem por isso. Hoje, tudo se mostra para que nada se veja. O medo suicida alimenta a indústria do proteccionismo, manipula-nos a vontade de (auto)domínio, confronta-nos com um conjunto imenso de debilidades físicas, morais, psicológicas que alimentam a mais fácil das armas massivas de autodefesa: a indiferença. Das Weisse Band (O Lenço Branco) é, neste contexto especulativo sobre a origem dos monstros, o melhor dos filmes de Haneke. É-o, também, por recusar mostrar aquilo que outros escancaram. E, verdade seja dita, não o mostrando, as coisas vêem-se muito melhor. Que ele cole a crueldade, a monstruosidade, a barbárie às imaculadas criancinhas sufocadas pelo excesso de formalismo familiar só lhe fica bem. A aldeia do filme é apenas um cenário microscópico para nações inteiras erigidas sobre os vulcões adormecidos do opróbrio, da censura, da vergonha, de papas autoflagelando-se e de pastores que violentam, açoitam, agridem, humilham os filhos por nada que justifique tamanha cólera. Da subjugação laboral a um barão despótico à raiva contida dos trabalhadores revoltados, da vergonha que leva ao suicídio ao medo que impele à fuga, do autoritarismo moral imposto pela religião à excessiva formalidade que governa os comportamentos sociais, dos segredos íntimos aos podres coscuvilhados, há toda uma conjugação de situações violentíssimas que prescindem do sangue para que a dor nos seja constantemente mostrada sem pruridos nem lacunas. O preto e o branco do filme tornam ainda mais congruentes as subtilezas do argumento, fazendo uma ligação entre a aparente ordem exterior das coisas e a latente desorganização íntima das personagens, todas elas constituídas numa posição de explosão iminente. O termo da trama será o início da Primeira Grande Guerra. O nazismo e a sua inigualável máquina de morte encontram nas personagens deste filme possíveis justificações. De facto, não será muito difícil encontrar uma resposta para as questões inicialmente aludidas depois de nos cruzarmos com os habitantes da aldeia retratada neste filme. Ainda que psicossocialmente convencional, o tiro não deixa de ser certeiro: quanto maior for a opressão exercida pela sociedade sobre o eu individual, mais facilmente se torna este numa séria ameaça à individualidade do outro. Quem duvidar que atire a primeira pedra.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

LICENCIADO EM LIBERDADE, DOUTORADO EM RAIVA


Espreito a badana, roubo-lhe a entrada: «Agostinho da Silva, professor, filósofo, ensaísta, novelista, poeta, orador, investigador, tradutor, de seu nome completo George Agostinho Baptista da Silva, nasceu no Porto a 13 de Fevereiro de 1906». Poucos portugueses que estes olhos viram vivos me merecem tanto respeito. José Afonso, Carlos Paredes, poucos mais. Isso não cabe num post, numa evocação desinteressada, ou, como diria Jorge Luis Borges, numa biografia sintética. Ainda assim, convém lembrá-lo as vezes que forem necessárias, não vá o esquecimento cair como uma pedra sobre nomes que importa conhecer para que a sede nos não mate. Os pais de Agostinho da Silva mudaram-se para Barca D’Alva poucos meses após o seu nascimento. Aí passou a infância, recebendo da mãe os primeiros ensinamentos. Em 1912, de regresso ao Porto, inicia uma carreira escolar exemplar. Concluído o Liceu, ingressou na Faculdade de Letras do Porto, onde cursou, primeiro, Filologia Românica e, depois, devido a desentendimentos com Hernâni Cidade, Filologia Clássica. «Em 1928 concluiu uma licenciatura em “Liberdade” com uma tese sobre o poeta latino Catulo e, no ano seguinte, doutorou-se em “Raiva” com a tese intitulada Sentido histórico das civilizações clássicas». Por esta altura, era já colaborador das revistas A Águia e Seara Nova. Após uma breve experiência como professor no Liceu Alexandre Herculano, partiu para França. Entre 1931 e 1933 foi bolseiro da Junta Nacional de Educação na Sorbonne e no Collège de France, travando conhecimento com exilados políticos tais como António Sérgio, Raul Proença e Jaime Cortesão (acabará por casar com a filha deste, Judite Cortesão). Regressou para leccionar no Liceu de Aveiro, onde tinha colaborado com a revista Labor, sendo demitido da função pública depois de ter recusado assinar a Lei Cabral, que o obrigava a jurar não ter pertencido ou vir a pertencer a qualquer associação secreta. Vai como bolseiro para o Centro de Estudos Históricos de Madrid, regressa em fuga da Guerra Civil Espanhola, abandona a Seara Nova, onde havia publicado vários artigos de crítica mordaz ao meio académico português, passa a residir em Lisboa. Entre outras curiosidades, refira-se que teve como explicando o ex-Presidente da República Mário Soares. Em 1942, foi preso pela PIDE na Prisão do Aljube. Abandonou Portugal dois anos depois, rumando ao Brasil, dali para o Uruguai, Argentina, onde leccionou em vários colégios e universidades e organizou cursos de Pedagogia Moderna. Regressou definitivamente ao Brasil em 1947. A actividade de Agostinho da Silva no Brasil será essencialmente pedagógica, trabalhando junto de vários institutos, ensinando em várias Universidades, ajudando a fundar outras, tais como a Universidade Federal de Paraíba ou a Universidade de Santa Catarina. Ao que parece, terá sido o primeiro português a leccionar Filosofia da Educação. Fundou, igualmente, diversos centros de estudos, criando pontes fundamentais entre o mundo lusófono. Em 1964, por exemplo, fundou no Japão um Centro de Estudos Luso-Brasileiros. Em 1939, escreveu O Método Montessori. São imensos os seus escritos de relevância na área da pedagogia. Também assumiu ainda cargos de relevância política junto do Presidente Jânio Quadros. Já com nacionalidade brasileira, concedida em 1958, voltou para Portugal em 1969. O ditador Salazar estava a cair de podre, falava-se na primavera marcelista, mas foi preciso esperar até 1974 para que a flora desabrochasse. Entre 1969 e 1994, ano da morte de Agostinho da Silva, o filósofo leccionou em diversas universidades portuguesas. Reformado pelo Governo Brasileiro, recebeu do Governo de Portugal os retroactivos concernentes aos anos da Ditadura. Viajou, escreveu, foi agraciado com diversas honrarias, tornou-se no mais popular dos filósofos portugueses depois da RTP1 ter emitido um programa intitulado Conversas Vadias, onde o professor se deixava entrevistar por várias figuras públicas. Da sua vastíssima obra, destaco as Sete Cartas a Um Jovem Filósofo (1945, Ed. Do Autor; 1990/1997, Ulmeiro):

«Os artistas, querido Amigo, são uma espécie de lobisomens: obedecem a um fadário, não podem deixar de sacrificar os outros em vez da obra; o que não é, nos melhores, pequeno elemento para que sofram»;

«Quem fala de Amor não ama verdadeiramente: talvez deseje, talvez possua, talvez esteja realizando uma óptima obra literária, mas realmente não ama; só a conquista do vulgar é pelo vulgar apregoado aos quatro ventos; quando se ama, em silêncio se ama: às vezes o sabe a mulher amada, mas creio até que num amor que fosse pleno, em que nada entrasse das preocupações da terra, nem ela o saberia»;

«Nada me irrita como o elogio da juventude: é uma idade pasmosa de ignorância, de petulância, de expedições aventurosas, sem força real que as apoie; famoso tempo para tolices; e se você alguma vez sair da juventude, o que não acontece a muitos homens, verá que também a idade lhe foi ingrata…»;

«Entre as palavras e as ideias detesto esta: tolerância. É uma palavra das sociedades morais em face da imoralidade que utilizam. É uma ideia de desdém; parecendo celeste, é diabólica; é um revestimento de desprezo, com a agravante de muita gente que o enverga ficar com a convicção de que anda vestida de raios de sol»;

«Para cãezinhos de pêlo encaracolado e patinhas que mal aguentam o corpo tenho um fornecimento de almofadas, pires de leite, bolacha macia, perfumes, pentes finos, e nojo».

BLOWIN IN THE WIND




O vento está de volta. Um vento medonho, ruidoso e frio. Tal como as últimas horas. Eu sou um baralho de Tarot nas tuas mãos. Quando faz muito vento, lanças-me ao ar e eu fico todo espalhado pela terra. Vim de Lisboa com a melancolia já habituada. Ficaram por cumprir promessas. Precisava desenjoar das letras e a ressaca não deu para mais. O meu amigo Mário serviu-me tinto para comemorar o regresso. Havia um sorriso feminino por perto. E um gato, se bem me lembro. Mas não me lembro de muito mais. Ia-me estampando. Os livros não deixaram. Devo ter uma mão invisível a segurar-me do precipício, uma voz a chamar por mim sobre a terra. O excesso é compensado pela dor quando nos viciamos na melancolia. Não me queixo da solidão. A vodka faz-lhe companhia. Mas dificilmente regressarei nos próximos tempos às ruas que me enjoam, às praças que me entediam, à luz que me cega, ao lixo.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

RARIDADE

Não cedo à tentação de olhar para as árvores como quem olha edifícios humanos. A estrutura das árvores não obedece à lógica dos homens. Elas não foram pensadas, por isso nos parecem sempre mais acolhedoras. Os pássaros que descansam o voo nos ramos devem olhar para as árvores como antigamente os cavaleiros errantes olhavam para as estalagens.
Mas, por vezes, o meu olhar resvala na fé. Então, cedo à tentação de olhar para alguns edifícios humanos como quem perscruta uma árvore. E eu perscruto as árvores com os olhos da comoção. Entro nesses edifícios, sinto-lhes a vibração, sento-me a descansar o voo e medito, não oro, em favor dos homens que suaram para que pudesse eu pousar o meu espírito no trabalho que tiveram.

Ainda há dias, passeando junto à ria, pude mais uma vez constatar essa transmutação que transforma em abrigo o espelho das águas e em branda ondulação as fachadas dos edifícios. Casas antigas, pintadas às riscas, como se vestissem um pijama para que os nossos olhos encontrem nelas o conforto do algodão. Ali passeantes, como que adormecidos, sentimo-nos em casa andando pelas ruas.

Pode dar-se inclusive o caso de pousarmos as pernas numa esplanada. Pedimos o costume: um café cheio, um pastel de nata com canela e uma água com gás. Ateamos o cigarro, folheamos as páginas de um livro que trazemos por companhia e, subitamente, é-nos o colo assaltado por visita inesperada. Tudo conflui, nestes momentos, para uma estranha e rara harmonia. O homem, as casas, o gato e a ria. Escrever a história desses encontros é, talvez, o elemento mais artificial da reunião vivida. Por que a escrevemos? Talvez por pressentirmos e temermos a sua raridade.

Ílhavo, Praia da Costa Nova, Aveiro (2010).

THE FACE OF LOVE



Os poetas pensam coisas fantásticas, antecipam a própria morte, abrem a cova onde dormirão o sono dos justos, injustiçados, prevendo inclusive quem estará e quem não estará no momento da extrema unção. Imaginam o próprio velório. Conseguem, vivos, imaginar-se mortos, mas vendo tudo em redor com a clareza dos vivos. E do velório à cova, eles próprios se acompanham como uma sombra viva do tal corpo morto que há-de ser finalmente sacrificado com muitos quilos de terra por cima. Enfim, pela cabeça de qualquer trolha podem passar pensamentos destes. Mas os trolhas são mais espertos, guardam para si todos os pensamentos inúteis.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

PODE TER MUDADO MAIS VEZES DE PAÍS DO QUE DE SAPATOS, MAS NÃO TANTAS QUANTAS FORAM AS VEZES QUE MUDOU DE MULHER


Filho da Floresta Negra e de pai bávaro, nasceu, às 4:30 de 10 de Fevereiro de 1898, Eugen Bertholt Friedrich Brecht. De coração defeituoso e tiques faciais nervosos, a merecerem internamento num sanatório, a débil criança não conseguia adormecer no escuro e sem companhia. Frequentou uma escola primária protestante, mudando-se posteriormente para uma escola particular. Aos 12 anos, o primeiro ataque cardíaco. Recompôs-se a ler literatura imprópria e a masturbar-se a desoras, causando alguns embaraços e preocupações familiares. «Uma das criadas da família, Marie Miller, prestava-se a jogos com Bertolt e o irmão: escondia objectos debaixo da saia que eles tinham de encontrar». Marotos. Aos 16 anos, trocou a criada pelas putas de um bordel onde foi alargar os seus conhecimentos sexuais. Entretanto, havia fundado com os colegas o jornal escolar A Colheita, começara a colaborar com o jornal de Augsburgo e escreveu a primeira peça: A Bíblia. Em 1917, foi obrigado a abandonar a boa vida escolar e a prestar serviço militar burocrático. A saúde frágil não dava para mais. Matriculou-se no departamento de Filosofia da Universidade Ludwig Maximilian, em Munique, trabalhou como enfermeiro, compôs Lenda do Soldado Morto e começou a escrever a peça Baal. Teve um filho ilegítimo de Paula Banholzer, uma das damas de companhia do bordel predilecto, numa altura em que já andava enrolado com Hedda Kuhn. Serviu-se do sentido crítico com o mulherio para começar a publicar crítica tetaral no jornal A Vontade do Povo, diário do Partido Social Democrata Independente bávaro. Continuou a escrever e, em 1920, perdeu a mãe, vítima de cancro na mama. Mudou-se para Munique e arranjou-se com Marianne Zoff, uma cantora de ópera com quem acabou por casar e de quem teve uma filha, Hanne. Por esta altura, a reputação de Brecht começa a afirmar-se enquanto dramaturgo. É-lhe atribuído o Prémio Kleist pela peça Tambores na Noite. Intensifica a sua actividade crítica ao mesmo tempo que compõe várias peças. Estabelece relações com os dadaístas, fascinado pelo lado satírico e iconoclasta do movimento. Liga pouco à família, envolve-se em várias aventuras extramatrimoniais, e junta-se à actriz comunista Helene Weigel. Escreve canções para Kurt Weil e é pai pela terceira vez. Stefan é o fruto da nova relação com Helene. 1926 foi a data de publicação do seu primeiro livro de poemas: Taschenpostille (Sermonário de Bolso). Divorcia-se de Marianne Zoff, ganha um prémio de poesia após o segundo volume de poemas, Hauspostille (Sermonário Doméstico), casa-se com Helene Weigel, colabora intensamente com Kurt Weil na composição de óperas e canções, nasce-lhe o quarto filho, Barbara. No entanto, Brecht mantém relações amorosas anteriores sob a tolerância da mulher, «chegando [esta] a avisar outros homens que não interfiram com as amantes do marido». Na sequência de uma Carta aberta ao actor Heinrich George, perguntando-lhe pelo paradeiro de Hans Otto, membro do partido comunista torturado e assassinado pelos nazis, estes retiraram a cidadania alemã a Brecht quando ele se encontrava na Dinamarca com os filhos. Brecht meteu-se em fuga, exilou-se na Suécia, Finlândia, França, Grã-Bretanha até chegar à Califórnia, em 1941. Passou a grafar o seu nome como Bertolt e já não Bertholt. Exilado na companhia de Helene Weigel, escreveu roteiros de cinema em Hollywood para sobreviver. Na Alemanha, os seus livros eram atirados para a fogueira. Tem um terceiro filho ilegítimo de Ruth Berlau, mas a criança morre com pouco tempo de vida e a mãe acaba internada num hospital psiquiátrico. Na manhã de 30 de Outubro de 1947, compareceu perante a Comissão das Actividades Anti-Americanas. O interrogatório demorou uma hora. Brecht proclamou-se poeta revolucionário mas negou ter pertencido ao Partido Comunista. Apanhou um avião e partiu para novos exílios: Paris, Zurique, Berlim-Leste, onde fundará com a mulher o Berliner Ensemble. Em 1950, ele e a companheira de exílio obtêm a nacionalidade austríaca. Criticado a Leste, boicotado a Ocidente, «torna-se uma referência incontornável» para vários artistas do seu tempo. Morreu aos 58 anos, em 1956, vítima de enfarte do miocárdio:

LOUVOR DO ESQUECIMENTO

Bom é o esquecimento.
Senão como é que
O filho deixaria a mãe que o amamentou?
Que lhe deu a força dos membros e
O retém para os experimentar.

Ou como havia o discípulo de abandonar o mestre
Que lhe deu o saber?
Quando o saber está dado
O discípulo tem de se pôr a caminho.

Na velha casa
Entram os novos moradores.
Se os que a construíram ainda lá estivessem
A casa seria pequena de mais.

O fogo aquece. O oleiro que o fez
Já ninguém o conhece. O lavrador
Não reconhece a broa de pão.

Como se levantaria, sem o esquecimento
Da noite que apaga os rastos, o homem de manhã?
Como é que o que foi espancado seis vezes
Se ergueria do chão à sétima
Pra lavrar o pedregal, pra voar
Ao céu perigoso?

A fraqueza da memória dá
Fortaleza aos homens.



Bertolt Brecht, in Poemas e Canções, trad. Paulo Quintela, Livraria Almedina, 1975, p. 209. Nota biográfica composta a partir da cronologia organizada por Ana Barradas para o volume Brecht – Selecção de Poemas, Textos e Teatro, Dinossauro, 3.ª edição, Abril de 1999.

LONDRES

Após a reunião de grande parte da sua produção poética, num vasto volume intitulado Dispersão (Edições Sempre-em-Pé, Novembro de 2008), Nuno Dempster (n. 1944), que já não tem idade para ser novíssimo e ainda está fresco para ser Mestre, reaparece em livro com um poema longo simplesmente intitulado Londres (& etc., Janeiro de 2010). Não têm sido muito frequentes em Portugal as edições de poemas extensos, optando os vates da actualidade por uma poesia mais fragmentada, sequenciada ou pelo poema de extensão média, algo que é sempre difícil de definir e não nos deve merecer mais do que uma breve constatação. Porém, penso ser útil esta referência, pois há excepções que, apesar de tudo, convém sublinhar. Assim muito superficialmente, recordo-me do poema Escalpe que Amadeu Baptista (n. 1953) publicou em Outubro de 2009, também na &etc., ou de Lúcifer e 47, ambos de Vasco Gato (n. 1978), publicados, respectivamente, pela Alexandria e em edição de autor, assim como de O Metrónomo do Mundo, surpreendente primeira parte do livro Clave do Mundo, de Hugo Milhanas Machado (n. 1984). Outros exemplos haverá que mereceriam ser mencionados, mas, como referi, trata-se apenas de um sublinhado espontâneo.

Se é certo que muita da produção poética actual se realiza obedecendo a um modelo de sequência, acabando o todo por resultar num longo poema dividido em vários fragmentos, também não deixa de ser verdade que o nosso maior cultor do dito poema de grande fôlego foi Ruy Belo (n. 1933 – m. 1978). Do poema-romance Marânus, de Teixeira de Pascoaes (n. 1877 – m. 1952), aos modernistas, destes ao surrealismo de Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos, por Mário Cesariny (n. 1923 – m. 2006), da deriva surrealista à actualidade, é o autor de Margem da Alegria quem sobressai neste domínio. No entanto, não é com nenhum destes seus compatriotas que Nuno Dempster melhor dialoga. A epígrafe pedida de empréstimo a Manuel Bandeira (n. 1886 – m. 1968), nome maior de um certo modernismo brasileiro, anuncia-nos um texto de tom modernista. Significa isto, apenas e tão só, que Dempster é um poeta ciente da tradição que lançou os alicerces de uma poesia libertada de constrangimentos rítmicos e realista nas suas próprias vibrações. «A poesia moderna até quando parece hermética e quando o é, está sendo infinitamente realista», dizia Jorge de Sena num ensaio de 1939.

É pois difícil ler Londres sem pensar nesse “poema maior do modernismo” intitulado The Waste Land, uma obra que T. S. Eliot (n. 1888 – m. 1965) escreveu na ressaca da Primeira Grande Guerra. Londres aparece no átrio de um milénio iniciado com o 11 de Setembro de 2001, facto histórico que obrigou a uma nova reflexão sobre os desígnios da humanidade. Finda a Guerra-Fria, derrubado o Muro de Berlim, instalada a hegemonia norte-americana, alargada a Europa de inclinações federalistas, o 11 de Setembro de 2001 veio oferecer-nos um retrato do mundo não tão optimista como alguns poderiam profetizar. Aí estão os grandes abalos económicos a reforçar o pessimismo. No entanto, Dempster termina o seu poema de um modo intrigante: «Não é possível ser-se pessimista. // Tudo aqui é permitido imaginar, // menos horários e aeroportos» (p. 46). A mim parece-me que esta é uma das grandes vantagens da poesia de Dempster relativamente a outras que por aí se vão publicando: sem fugir aos podres do mundo e descrendo de um modo esclarecido da humanidade, também não recusa nem desiste dos refúgios que nos tornam esse mesmo mundo suportável: «A descoberta da humanidade / é um acto cansativo e doloroso, // e a lucidez não serve de nada, / excepto para morrermos / todos os dias pelos outros» (p. 26).

A viagem que nos é oferecida neste poema «é uma viagem sem termo» (p. 47). Inicia-se num aeroporto, percorre as ruas da capital inglesa, acomoda-se num hotel, visita museus, num registo turístico que, à distância, e como em qualquer viagem, serve a reflexão do mundo, dos tempos, de um país que é o nosso, por comparação com aquele que se visita ou por inusitada evocação. O tom que pauta a caminhada alterna, pois, entre um certo pendor evocativo, com várias alusões, algumas citações, fazendo confluir diversos tempos num só espaço, e a consciência crítica de quem ainda logra encontrar entre os destroços motivos para matar a sede: das raparigas de Leicester aos enormes copos de cerveja, da bruma de Turner aos «actores / que desfilam rumo às suas vidas conturbadas» (p. 14). Entre o sol e a bruma, este acaba por ser um hino à vida que não esquece «o cínico progresso» (p. 17), seus abusos, assimetrias e contradições, assumindo-se numa oscilação que coloca lado a lado o ruído e o silêncio, a depressão e a excitação, o riso e a comoção. O mundo é antinómico e a poesia, enquanto espelho do mundo, não pode ser diferente, porque nela se cruzam caminhos, confluem génios de tempos diversos, o impossível se torna evidente e o evidente se torna complexo.

Escrito para o Rascunho.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

DIÁRIO

A Matilde já lê e começou a escrever um diário. Advertências arrecadadas:

─ Mãe, isto é um diário, não podes ler porque é íntimo. Mas vê só se tem erros.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

O CU NA POESIA


Apanhei isto ontem na RTP 2. Obrigado. Eis Shunnoz Fiel dos Santos.

MANO FORTE


António José Forte nasceu no dia 6 de Fevereiro de 1931, na Póvoa de Santa Iria. Esteve ligado ao movimento surrealista através do denominado grupo do Café Gelo, convivendo de perto com Mário Cesariny, Virgílio Martinho, Ernesto Sampaio, Herberto Helder, entre outros. «Jovens, alguns adolescentes, todos rebeldes, a crítica à cultura vigente era a actividade quase constante». Escrevia-se poesia, desenhava-se poesia, vivia-se poesia, num clima de “crítica ao obscurantismo” que rapidamente encontrou os seus inimigos. Em 1958, Cesariny organizou a colecção A Antologia em 1958. Forte estrear-se-á em livro, dois anos depois, nessa mesma colecção, com o livro 40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes numa Girândola Implacável e Outros Poemas:

AINDA NÃO

Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar

ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem

ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer

ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça

ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração


Já antes, António José Forte publicara alguns textos na revista Pirâmide (n.º2, 1959), encetando uma colaboração dispersa por jornais (A Rabeca, Notícias de Chaves, Correio do Ribatejo, O Templário, Diário de Lisboa, A Batalha, JL) e revistas (Contraponto – Cadernos de crítica e arte, Pravda – Revista de Malasartes, &etc) que nunca deixará de manter. Diga-se, no entanto, que o chamado grupo do Café Gelo constituiu já uma “segunda geração surrealista” que, não tendo sido a primeira, seria injusto classificar “de segunda”. Num texto publicado em 1986 no JL, Forte elogiou o grupo chamando a atenção para a publicação da antologia Grifo, em 1970, onde se reuniu, pela última vez, o núcleo duro da malfeitoria. Findos os tempos da juventude, Forte tornou-se funcionário da Fundação Calouste Gulbenkian, desempenhando funções, durante mais de 20 anos, de Encarregado das Bibliotecas Itinerantes. A itinerância levou-o a Vieira do Minho, Tomar, Portalegre, Santarém. Casou-se com a pintora Aldina, natural de Caldas da Rainha, autora de uma tese de licenciatura sobre o Grupo do Café Gelo e colaboradora plástica de várias editoras. Lembrava o poeta: «Longe vão os tempos em que as Bibliotecas Itinerantes eram consideradas obra do demónio pelos padres do Minho e agentes de propaganda subversiva pelos presidentes de Câmara do Alentejo, com as inevitáveis honrosas excepções». Morreram as biliotecas itinerantes, morreram os cafés, morreram os grupos, morreu António José Forte. Foi no dia 15 de Dezembro de 1988. No ano seguinte, foi editado Corpo de Ninguém, onde se reuniram todos os livros do poeta publicados em vida. A integral apareceu posteriormente, com o título Uma Faca Nos Dentes, ilustrações de Aldina e prefácio de Herberto Helder:

O POETA EM LISBOA

Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.

Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.

Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha ─ numa música secreta, inaudível.

Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.

Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.

Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.

Sonâmbulo, magnífico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.

Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.

Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos.
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.

António José Forte, in Uma Faca Nos Dentes, 2.ª Edição, prefácio de Herberto Helder, edição de Zetho Cunha Gonçalves, Parceria A. M. Pereira, 2003.

GIVE ME THE SIMPLE LIFE


Há dias, ofereceram-me um par de luvas de lã. Ninguém me oferece luvas para não ter que trabalhar. Mas isto de viver num país sem resposta tem o seu encanto. Um tipo sempre pode ir pensando que, apesar de tudo, nem é mau de todo. Adormecemos dentro da neblina, acordamos num incêndio de chuva, mudamos a cassete e a mesma melodia continua a tocar. Para variar, hoje pus-me a pensar no que faria se me saísse o euromilhões. Sou tão patego, ou simplório, como diz a minha mãezinha, que a única coisa de que me lembrei foi que poderia comprar um móvel novo para o quarto da Beatriz.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

ABRAÇOS DESFEITOS


Quando nos morre alguém querido, a raiva fala por nós: tanto filho da puta no mundo e só morrem os bons. Depois olhamo-nos ao espelho e interrogamo-nos. E eu, por que razão continuo vivo? Serei mau de mais para morrer? Serei só mais um desses que escapam à morte sem tento nem esforço? A morte daqueles que nos são queridos recoloca-nos no mundo, oferece-nos uma dúvida limite acerca da nossa própria personalidade e das debilidades inerentes à sua construção. Mas a morte das personagens que odiamos, por razões mais ou menos conscientes, mais ou menos próximas, mais ou menos justificáveis, também.

Pedro Almodóvar pinta a morte com as mesmas cores que oferece ao amor. Nos seus filmes, ambas as dimensões da vida humana se confundem recorrentemente. Hable com ella (2002) talvez tenha sido o momento mais alto desta correlação. A narrativa dos seus filmes desenrola-se como um novelo de lã emaranhado, mostra-nos uma teia de relações humanas condicionada por sentimentos contraditórios que o amor e a morte encerram na sua intrincada complexidade. É, por excelência, o realizador do crime passional. Ciúme e vingança, desejo, paixão e obsessão, rancor, ressentimento, ódio, crime, são alguns dos elementos que (des)compõem o amor almodovariano.

Los Abrazos Rotos (2009) não é o melhor dos seus filmes. A espaços, torna-se entediante e previsível na abordagem do encantamento que aproxima as diversas personagens. Talvez as fragilidades do argumento, algo rebuscado na forma como procura atribuir sentido a cruzamentos relacionais dispensáveis, se devam à comunhão evidente que ali se processa entre amor carnal e criação cinematográfica. Temos um realizador de cinema apaixonado por uma candidata a actriz que, por acaso, é só a mulher do produtor do filme. O motivo está dado, agora são necessários os condimentos que ergam sobre a base um edifício sólido e apreciável. Esses condimentos acabam por ser a falsidade dos amores por conveniência em contraponto à verdade dos amores inconvenientes.

A presença da temática cinematográfica ─ da elaboração de um argumento à produção, desta à realização, da realização à montagem ─ é, neste filme, o reforço de uma convicção acerca da verdade: a verdade esconde-se atrás de um pseudónimo, ela não é o que se vê porque o que se vê é aquilo que se mostra e o que se mostra nem sempre corresponde à verdade. Cinema é arte. Não é verdade. A cegueira que atinge a personagem principal, um realizador convertido à escrita de argumentos, torna-se o elemento mais irónico deste colorido.

Penélope Cruz, cujo desempenho nunca precisa de ser brilhante para brilhar, tem no papel de secretária com o sonho de ser actriz uma função sintetizadora das mulheres que Almodóvar transformou em representações do universo feminino. Ela deixou-se sequestrar por um velho empresário, tão rico quão obsessivo, para posteriormente perseguir um sonho que a levou a um amor fatal. Desse amor, restam memórias, fotografias rasgadas que importa reconstruir, um filme que urge remontar, resta a imagem invisível que perdura no coração do malogrado amante como uma ferida à espera de sarar.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

SER GOVERNADO



Ser GOVERNADO é ser observado, inspeccionado, espiado, dirigido, regido pela lei, numerado, regulado, recrutado, matriculado, doutrinado, repreendido, controlado, verificado, avaliado, apreciado, censurado, comandado, por criaturas que nem têm o direito nem a sabedoria nem a virtude para o fazer. Ser GOVERNADO é estar em cada operação, em cada transacção, anotado, registado, contado, tributado, marcado, medido, numerado, avaliado, licenciado, autorizado, admoestado, impedido, proibido, reformado, corrigido, punido. É ser colocado, sob o pretexto da utilidade pública, e em nome do interesse geral, sob contribuição, instruído, esfolado, explorado, monopolizado, extorquido, espremido, intrujado, roubado; então, à mais leve resistência, a primeira palavra de protesto; reprimido, multado, aviltado, assediado, perseguido, maltratado, agredido, desarmado, amarrado, sufocado, aprisionado, julgado, condenado, fuzilado, deportado, sacrificado, vendido, traído; e para cúmulo, escarnecido, ridicularizado, zombado, ultrajado, desonrado. É isto o governo; é isto a justiça; é isto a moralidade.


P.J. Proudhon, General ldeia of lhe Revolution in the Nineteenth Century, (Londres: Freedom Press, 1923), pp. 293-294. Citado por Robert Nozick, in Anarquia, Estado e Utopia, trad. Vitor Guerreiro, Edições 70, Novembro de 2009, p. 40.

DÚVIDA


Este ─ o soneto da Saudade inquieta
Em que, lembrando as horas de paixão,
Pergunta à Musa o sonho do Poeta
Se ela é fiel à sua adoração…

Este ─ o ritmo de amor em que, discreta
E oculta e desejosa de ilusão,
Minh’alma balbucia a dor secreta
De nunca dominar teu coração…

Este ─ o soneto do viver profundo,
Em que a frase mais pobre é todo um mundo
De incerteza, de mágoa e puro ardor…

Vai para ti meu coração veemente…
─ Mas tu, Amor, se existes realmente,
Nem mesmo sabes que és o meu Amor!




Para uns, terá sido um instrumento de tortura de criancinhas inocentes. Para outros, um notável pedagogo. Mas João de Barros também foi poeta. Cabral do Nascimento afasta-o da tendência melancólica portuguesa, falando de uma poesia «sadia e optimista, confiante e colorida». Não coube na antologia. Veio o poeta ao mundo a 4 de Fevereiro de 1881, na bela cidade de Figueira da Foz. Licenciou-se em Direito, pela Universidade de Coimbra, em 1904, mas dedicou-se às letras e à pedagogia. Foi professor do ensino secundário na Figueira, no Porto e em Lisboa, tendo depois exercido os cargos de director do Ensino Primário e de secretário-geral do Ministério da Instrução Pública. Grande parte da sua obra foi ficando dispersa por publicações periódicas. Ainda antes de ter concluído o curso, publicara os volumes Algas (1899), O Pomar dos Sonhos (1900) e Entre a Multidão (1902), tendo mais tarde reunido os seus poemas nas antologias Vida Vitoriosa (1943) e Humilde Plenitude (1951). Entusiasta da lusofonia, fundou com João do Rio a revista de intercâmbio cultural luso-brasileiro Atlântida (1915-1920). Em 1920 foi eleito sócio da Academia Brasileira de Letras. Viajou ao Brasil, dois anos depois, na companhia do Presidente da República. Fez carreira política como Ministro dos Negócios Estrangeiros da Primeira República. Também pertenceu à Academia das Ciência de Lisboa. Em 1945, foi-lhe atribuída a grã-cruz da Ordem do Cruzeiro do Sul. Dedicou os últimos anos a elaborar adaptações juvenis de clássicos da literatura tais como Os Lusíadas ou a Odisseia, ainda hoje recorrentes no ensino da língua portuguesa. Casado com Raquel Teixeira de Queirós, de quem teve três filhos, faleceu a 25 de Outubro de 1960.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A MORTE DO PAI


Nascido e criado em Newark, Nova Jersey, Paul Benjamin Auster viu pela primeira vez a luz do dia a 3 de Fevereiro de 1947. As suas origens estão na classe média judia, nomeadamente com raízes na Rússia e na Polónia. Conta-se que uma das suas avós assassinou o marido. No início da década de 1970, frequentou a Universidade de Columbia. Foi aí que leu, pela primeira vez, alguns poetas franceses que traduzia enquanto começava a escrever os seus primeiros poemas. Mudou-se para Paris, onde viveu entre Fevereiro de 1971 e Julho de 1974. Sobreviveu de várias ocupações, de telefonista a tradutor de Sartre, Mallarmé e Blanchot. De regresso aos Estados Unidos, prosseguiu a carreira de tradutor e começou a escrever artigos na imprensa. Casou com Lydia Davis, de quem teve um filho, em 1977, mas pouco tempo depois divorciaram-se. Chegou a ponderar o abandono da actividade literária. A morte do pai, em 1979, forneceu-lhe novos motivos para a escrita. E em 1981 casou-se novamente, desta feita com a escritora Siri Hustvedt, de quem teve uma filha. Em 1982, publicou The Invention of Solitude, um volume de memórias tendo por principal motivo a morte do seu pai. Os primeiros livros de poemas datam do final da década de 1980. Em 2002, as Quasi Edições editaram em Portugal os seus Selected Poems:

EM MEMÓRIA DE MIM MESMO

Tão-somente ter cessado.

Como se eu pudesse começar
onde cessou a minha voz, eu mesmo
o som de uma palavra

que não consigo articular.

Tanto silêncio
para trazer à vida
nesta carne apreensiva, o ribombar
do tambor das palavras
na interioridade, tantas palavras

perdidas na amplitude do meu mundo
interior, e assim ter sabido
que apesar de mim

eu estou aqui.

Como se fosse isto o mundo.


Paul Auster, in Poemas Escolhidos, trad. Rui Lage, Quasi Edições, Novembro de 2002, p. 116. Além de escritor, de poeta, romancista, ensaísta, tradutor, Paul Auster é também realizador de cinema. Até à data, conhecem-se-lhe os filmes Blue in the Face, Smoke, Lulu on the Bridge e The Inner Life of Martin Frost.

O PRIMEIRO-MINISTRO E O ESCRITOR TRADUZIDO EM 20 IDIOMAS E COM MILHARES DE EXEMPLARES VENDIDOS

─ Tu chamas-te Jorge, não é?
─ José Luís.

O MUNDO ALUCINANTE

A primeira edição portuguesa de O Mundo Alucinante data de 1971. Agora reeditado pelas Publicações Dom Quixote, o romance de Reinaldo Arenas (n. 1943 – m. 1990) adquire um novo sentido. Há quase quarenta anos, este era um romance escrito por uma vítima do comunismo castrista. Arenas andou de braço dado com a revolução cubana até esta ter tentado destruir-lhe a identidade. De raízes paupérrimas, juntou-se aos barbudos com apenas quinze anos. Foi descobrindo o verdadeiro rosto que se escondia por detrás das barbas revolucionárias à medida que alimentava a inteligência com a formação oferecida pelo novo regime. Frequentou a Universidade de Havana, trabalhou na Biblioteca Nacional José Martí, onde foi acumulando dados sobre a vida de frei Servando Teresa de Mier, personagem central deste seu primeiro romance, galardoado em 1966 com uma menção honrosa num primeiro prémio que ficou por atribuir. Na oligarquia em que vivemos actualmente, caciquista e moralmente decrépita, o sentido da narrativa é outro. Já não temos apenas um romance escrito por uma vítima do comunismo castrista, mas também uma espécie de biografia fantástica de um ser em confronto permanente com as hipocrisias que regem o mundo.

Na introdução, ficam claros os propósitos do autor: demarcar-se do realismo socialista ─ «o chamado realismo parece-me ser precisamente o contrário da realidade» (p. 20) ─ escrevendo um romance sob a forma, passe a contradição, de poema «informe e desesperado» e, ao mesmo tempo, recriar-se na vida de uma personagem histórica com a qual os elementos identificativos são mais que evidentes. Importa lembrar que, apesar de escrito antes da experiência ostracista que levou o autor à prisão, apesar de anterior às acusações de “desvio ideológico”, por razão de uma postura assumidamente homossexual, contrária ao machismo revolucionário, há neste romance uma espécie de presságio hiperbólico do que viria a ser a carreira de exilado que Arenas foi obrigado a carregar até ao suicídio nova-iorquino. Também Servando Teresa de Mier (n. 1763 – m. 1827), um sacerdote dominicano com dotes para a oratória, proveio da miséria e viveu evadindo-se das veneráveis fogueiras da Inquisição, uma ameaça que teve de suportar com sucessivos encarceramentos e respectivas fugas. Livros proibidos, vozes amordaçadas, foram sempre o efeito preferido da canalha subjugada ao poder.

Arenas persegue os passos de frei Servando levando-nos do México a Espanha, daqui até França, passando por Itália, novamente Espanha, Portugal, Inglaterra, Estados Unidos. Terminaremos no México, não sem antes passarmos por Havana. Dados biográficos históricos aparecem misturados com elementos fantasiosos, numa perspectiva da história que extravasa todos os limites da historiografia convencional. Seria imprudente falarmos de biografia, ou mesmo de romance histórico, sendo talvez preferível falarmos de um retrato cruel que assume por objecto uma vida e um mundo que não podem ser resumidos realisticamente, sob pena de nos escapar o que têm de absurdo a alicerçar factos cuja racionalidade parece ausente. O espectáculo do mundo actual não é diferente. Diria que vislumbramos a perspectiva histórica mais objectiva nesta forma de irrealismo. Repare-se que os primeiros sermões que levaram frei Servando ao cárcere questionavam os argumentos evangelizadores do poder espanhol e a apropriação que estes haviam feito do mito de Nossa Senhora da Guadalupe. Sacrilégio, heresia, blasfémia, gritarão os nobres parasitas. As mesmas palavras, ou seus sinónimos pagãos, são hoje proferidas pelos ceguetas que teimam em não aprender a conviver com a liberdade dos outros.

O resto facilmente se imagina. Que pode esperar um homem condenado pelo Poder? O abandono e o desamparo. Arenas escreve: «A paisagem é sempre muito árida nestes lugares onde bispos, arcebispos e vice-reis têm o Poder, pois é como se o tivesse o próprio Satanás» (p. 67). E prossegue: «Em Roma, pensava que ia conhecer uma cidade santa, mas depois de a ter percorrido por duas vezes não vi mais que miséria rodeando o povo, sobrecarregado com os constantes impostos da igreja, que se aproveita da ignorância para encher as arcas. Foi isso que aí vi, como aliás por toda a parte» (p. 174). Mas esta percepção fortalece a vítima. E então o frade aplica-se na luta pela independência da sua terra, o México, alimenta um ódio indelével pelas «extravagâncias despóticas e miseráveis de Espanha», é desterrado, preso, foge, volta a ser preso e torna a fugir, conspira, encontra aliados que se convertem em inimigos e vice-versa, e tudo isto nos é descrito com um sentido de humor que é o humor estrambólico de um pesadelo inacreditável, porque «mesmo nos acontecimentos mais dolorosos há uma mistura de ironia e brutalidade, que faz de toda a verdadeira tragédia uma sucessão de calamidades grotescas, capazes de provocar o riso» (p. 149). A lição que Reinaldo Arenas nos oferece a partir de um olhar sobre as vivências de Servando Teresa de Mier é a daqueles que tomam para si as rédeas da liberdade contra a hipocrisia, contra a bajulice dos aduladores, contra a(s) desonestidade(s) do mundo político.

Escrito para o Rascunho.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

CHAMAR A MÚSICA


Foi actriz, guionista, apresentadora, poeta, romancista, letrista. Os colegas de letras bem podem guardar os elogios debaixo do tapete. Olharam-na sempre com desconfiança. Não nos admira que assim seja. Os livros portugueses chegam aos escaparates cheios de mordidelas nas costas e a li-te-ra-tu-ra não vive de simpatias. Era uma mulher bonita, inspirava-me carinho e gratidão. A Ana adormeceu muitas vezes a Matilde ao som de Chamar a Música, uma canção que a voz de Sara Tavares tornou imortal. Não sou fã, mas a miúda adormecia que era um mimo.

ROSA LOBATO DE FARIA (1932-2010)


Eu sei o sol a solidão o sono.
Eu sei os ralos o suor o gado
a sombra que se esconde.

A lagartixa sábia se insinua
nas entranhas do cântaro rachado.
A cal aquece nua
e esquece
o sonho emparedado.

No silêncio da sala a badalada.
Uma pancada só. Hora nenhuma.
No sótão as maçãs dormem a sesta.
Seu hálito ressuma.

No quarto a mosca o mosquiteiro a cesta
de vime toda cheia do bordado
que os meus dedos não sabem
mas pressentem
na sede deste verão abandonado.

Eu sei a espera o tempo o coração parado.


Rosa Lobato de Faria, in Poemas Escolhidos e Dispersos, Roma Editora, Outubro de 1997, p. 11.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

DEVAGAR


à Catarina


Quando devagar te doerem os peitos e colocares
as mãos em concha para reparar que ainda não enche

mas quase

Quando o espelho te devolver, devagar, esses beiços
carnudos entreabertos ao sopro do primeiro beijo
que ainda não tiveste

mas quase

(nesse dia o elevador matou a gata preta. Cortou-lhe a vida pelo pescoço. Surgiu-te na cara grão a grão um silêncio tremendo. Deixaste-nos saber que a gata, por se ir embora, havia de mandar em troca uma árvore. Que podíamos parar de chorar.)

Quando puseres a mão entre as pernas e sentires que molha, vires os dedos vermelhos e rebentares no ar uma gargalhada, uma erva, um estremecer, um simples sorriso, talvez o espelho te devolva então a lágrima, subindo às goelas a canção fininha que tens levado pelos teus poucos anos com tanto peso, a convencer o mundo de que ainda não existes,

mas quase

(disseste que os macacos, porque faziam amor tão depressa e com tantas macacas, tinham filhos à toa. E atiraste-me esses olhos pretos, indignados e tristes. Trepaste à árvore e vergaste, cabeça suspensa como um fruto, e os teus cabelitos lançaram alguns raios ao sol.)

Quando afastares as pernas e esticares os pés, esticares os braços o peito o chão do ventre, distribuíres olhos a dar entrada ao vento para depois te fechares como uma aranha sobre isso tudo com os membros que então tiveres, e gemeres de gozo ao morder por fim uma coisa tua que não será a primeira

mas quase

e embarcares nessa desforra que dá genica às pernas, nos empurra para longe e deixa respirar

eu vou sentir-me pequeno como um cais quando o navio solta os cordões e parte para acolá sem se voltar, e começa a descobrir que o mar não é tudo

mas quase


Manuel Cintra, in do lado de dentro, Presença, 1981, pp. 35-37. Este poema não coube na antologia.

DESCULPE?

─ O que mais detesta em Lisboa?
─ O preconceito de que alguns lisboetas parecem padecer para com o resto do país, ou seja, aquela ideia de que para lá da capital é tudo paisagem.
─ E o que mais detesta no Porto?
─ A facilidade com que algumas elites beijam a mão aos califas da capital, ao mesmo tempo que se fazem sentir desconsideradas e até inferiorizadas por esses mesmos califas. Ou seja, parece haver em algumas pessoas do Porto um complexo de inferioridade mal resolvido.
─ E o que mais detesta em Coimbra?
─ Desculpe?

domingo, 31 de janeiro de 2010

ENTARDECER

Sol-posto ungindo o mar: incensos de ouro!

Recolhe funda a tarde em sonho e mágoa.
Surdina fluida: anda o silêncio a orar –
E há crepúsculos de asas e, na água,
O céu é mármore extático a cismar!


E nas faces marmóreas dos rochedos
Esboçam-se perfis,
- Cintilações,

Penumbra de segredos!

Ó painéis de nuvens sobre a terra,
Ogivas delirantes
Na água refractando…
Encheis de sombra o mar de espumas rasas,
Iniciando
A hora pânica das asas!


E, à meia luz da tarde,
Na areia requeimada,
São vultos sonolentos
As proas dos navios…


Ó tristeza dos balões
Iluminando,
Na água prateada,
Os pegos e baixios…


Dormentes constelações
Que, em fundos lacustres
E musgosos,
Pondes reverberações
Em nossos olhos ansiosos.


Ó tardes de aquático esplendor,
Descendo em meu olhar!


Num sonho de regresso,
Numa ânsia de voltar,
Em mim todo me esqueço
E fico-me a cismar.


A tarde é toda um sonho moribundo.
É já olor da cor que amorteceu.
O céu vive no mar: sono profundo.
A asa do rumor no ar adormeceu!




Luís de Montalvor é o pseudónimo do poeta, ensaísta e editor Luís Filipe de Saldanha da Gama da Silva Ramos. Nasceu a 31 de Janeiro de 1891, em S. Vicente, Cabo Verde, mas veio para Portugal com apenas dois meses de vida. Residiu no Brasil entre 1912 e 1915, regressando a Lisboa com a ideia de fundar uma revista modernista. Fundou a Orpheu (1915), a Centauro (1916) e, anos mais tarde, a editorial Ática (1942), um órgão fundamental na divulgação sistemática das obras completas de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Enquanto poeta, foi, certamente, um dos nomes maiores do modernismo português, assim como um interessante prossecutor da poesia da Decadência. Devemos-lhe também a divulgação dos inéditos de Camilo Pessanha que viriam a ser reunidos no volume intitulado Clepsidra. A poesia de Luís de Montalvor ficou dispersa por várias publicações, entre as quais se destacam as revistas supracitadas e as colaborações com a Presença, Exílio, Athena, Contemporânea, Sudoeste, Cadernos de Poesia e Seara Nova. Só postumamente os seus versos foram coligidos num único volume. «Não nos ilude Luís de Montalvor na expressão essencial dos seus versos: vive num mundo seu, como todos nós; mas vive com vida num mundo seu, ao passo que a maioria, em verso ou prosa, morre o universo que involuntariamente cria» (Fernando Pessoa). Faleceu a 2 de Março de 1947, afogado no rio Tejo, num acidente de viação que vitimou, igualmente, a sua mulher e o filho único de ambos. Acidente? Suicídio? «Façamos com a dor, sem um queixume, / as guirlandas formosas desta vida!»