segunda-feira, 22 de março de 2010

DIZ QUE GOSTAVA DE HORTICULTURA



Michael Hamburger nasceu a 22 de Março de 1924, em Berlim, no seio de uma família judaica burguesa. O pai era um pediatra com inclinações melómanas que incutiu nos filhos um forte interesse pelas temáticas culturais. A mãe era filha de um importante banqueiro. Um dos amigos de infância do poeta foi Lucien Freud. O alarme nazi levou a família a emigrar para Edimburgo, em 1933. Alteradas as condições económicas, Michael ainda pôde estudar no George Watson’s College, transferindo-se posteriormente para Westminster. Não sendo propriamente um menino de coro, escolheu como desporto favorito, além da poesia, o boxe. Dizem que se vingava no ringue dos alemães ricaços que frequentavam o colégio. Em 1941, devido à guerra, os estudos prosseguiram suportados por uma bolsa em Oxford. Foi aí que o jovem poeta/pugilista conheceu outros desportistas de renome, entre eles Dylan Thomas e Philip Larkin. O convívio deu-lhe punho. Juntamente às traduções que ia fazendo dos poemas de Hölderlin, o poeta submetia os seus próprios poemas à apreciação do mestre Eliot. A vida não estava para poesias. Hamburger cumpriu os seus serviços militares no Queen's Own Royal West Kent Regiment, andou por Yorkshire e foi colocado em vários postos britânicos. Acumulou com a itinerância militar traduções de Baudelaire, as quais não terão sido boa influência. Frustrado, objecto de encenações pouco estimulantes, resolveu festejar o fim da Guerra com uma garrafa de brandy que o deixou em coma durante vários dias. A recuperação levou-o até Aleister Crowley, com quem pretendia discutir as traduções de Baudelaire. Mas o nosso poeta acabou colocado em Graz, a ensinar inglês e alemão às criancinhas. Traduziu os escritos de Beethoven e, em 1950, conseguiu publicar a sua primeira colectânea de poemas: Flowering Cactus. Dois anos depois, colocaram-no como leitor na University College London. Pelo meio, ainda arranjou tempo para casar com Anne Ellen File, a actriz e poeta Anne Beresford. A partir daqui, a vida foi ocupada com traduções de Brecht, Grass, Baudelaire, Celan, Rilke, Goethe, WG Sebald (que o meteu num dos seus livros, Os Anéis de Saturno), entre tantos outros. Escreveu mais de vinte volumes de poesia, foi professor em várias universidades norte-americanas, escreveu um curioso ensaio intitulado The Truth of Poetry (1970), onde alertava tanto para os perigos das leituras de poemas levadas a cabo pelos Beats como para os jogos obscurantistas da poesia concreta. Escreveu ainda alguns livros de memórias e crítica literária, traduziu imenso, foi-lhe atribuído um OBE (Order of the British Empire) em 1992, morreu a 7 de Junho de 2007 na sua casa em Suffolk:


PARA UM ÁLBUM DE FAMÍLIA

Quatro cabeças à luz de um candeeiro
E todas curvadas em peculiar obscuridade,
Lendo, desenhando, sós.
Uma câmara tê-las-ia aprisionado
Difusas na penumbra morna da sala,
E tê-las-ia deixado, recusando contar
O tempo até que o candeeiro se fundisse,
O cabelo se pusesse em pé, se cortasse, pintasse
ou ondulasse.

Nem sequer as posso descrever, só apanhei
Um clarão que devastou
As paredes da nossa sala na penumbra;
Ou o negativo ─ uma chapa preta
Aberta à luz tão branca que feria o olhar.

Deixai esta página em branco.
Não gostaríeis nem acreditaríeis
Na foto que nenhuma lente poderia tirar:

Atado aos meus ossos como raízes
Nas vossas cadeiras voáveis, voáveis.


Michael Hamburger, trad. por Manuel de Seabra, in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, Livros Horizonte, Junho de 1982, p. 16. Na imagem: Anne Beresford, Rita Dove, Michael Hamburger e Fred Viebahn.

domingo, 21 de março de 2010

A TERRA SANTA

Conheci Jericó,
também eu tive a minha Palestina,
os muros do manicómio
eram as muralhas de Jericó
e um poço de água infecta
baptizou-nos a todos.
Lá dentro éramos judeus
e os Fariseus ficavam no alto
e, perdido na multidão,
estava também o Messias:
um louco que gritava aos céus
todo o seu amor por Deus.

Todos nós, rebanho de ascetas
éramos como pássaros
e de vez em quando uma rede
obscura aprisionava-nos
mas íamos a caminho da colheita,
a colheita do nosso Senhor
e Cristo o Salvador.

Fomos lavados e sepultados,
cheirávamos a incenso.
E depois, quando amávamos
davam-nos choques eléctricos
porque, diziam, um louco
não pode amar ninguém.

Mas um dia de dentro do sepulcro
também eu me levantei
e também eu como Jesus
tive a minha ressurreição,
mas não subi aos céus
desci ao inferno
de onde revejo estupefacta
as muralhas da antiga Jericó.

Trad. Clara Rowland.


Alda Merini nasceu em Milão no dia 21 de Março de 1931. Em 1950, Giacinto Spagnoletti publica dois textos da autora na Antologia da Poesia Italiana 1909-1949, apresentando-a como «uma jovem que não nasceu em nenhum terreno de cultura, nunca frequentou ambientes literários, leu até agora poucos e nem sempre bons livros e ignora, por exemplo, a Divina Comédia. Leva uma vida de rapariga pobre, confiante apenas nas grandes verdades que a sua alma descobriu». Como diria a minha avó, benza-a Deus. Merini começa a frequentar a casa de Spagnoletti no mesmo ano em que se manifestam os primeiros sintomas de doença psiquiátrica. É internada numa clínica, pronunciando uma vida devastada por sucessivos internamentos, períodos de lucidez acossados pela demência, o “inferno do manicómio”. Casa em 1953, ano da sua primeira recolha poética publicada: La presenza di Orfeo. Em 1955 nasce-lhe a primeira filha. Publica quatro livros entre 1953 e 1961, seguindo-se um silêncio poético de quase vinte anos passado mormente no manicómio Paolo Pini. Volta a sentir a experiência da maternidade por mais três vezes. O regresso à publicação acontece em 1980, com Destinati a morire, mas será com La Terra Santa (1984) que a sua voz mais se fará ouvir. Desde então, a poesia de Alda Merini mereceu várias distinções, juntando-se à vasta produção poética alguns volumes em prosa. É hoje considerada uma das vozes mais fortes da poesia contemporânea, autora de uma poesia do gueto, violenta, mas depurada, com uma forte ligação às emoções e sem outra escola que não a da sua própria experiência. Vive e morre e ressuscita e volta a morrer e volta a renascer na cidade onde nasceu.

sábado, 20 de março de 2010

O PALHAÇO DE TUBINGA


Só agora compreendo o homem, agora que estou longe dele e vivo na Solidão!


Dez anos a escrever poemas. 36 anos de loucura. Um amor impossível. Uma vida desventurada. Nascido nas margens do Neckar, a 20 de Março de 1770, Hölderlin perdeu o pai com apenas dois anos. Johanna Christina Hölderlin, a mãe do poeta, casou pouco depois com o presidente do município de Nürtingen. Enfermeira mas malograda nos amores, Johanna perdeu o seu segundo marido contava o filho apenas nove primaveras. Órfão ao quadrado, Hölderlin foi encaminhado para a carreira de teólogo. Quando se nasce torto, nem Deus nos endireita. Andou pelos seminários de Denkendorf e Maulbronn, passando depois para o Stift de Tubinga, onde travou amizade com os jovens Hegel e Schelling. Por esta altura, já escrevia poemas de velada admiração pela Revolução Francesa. Feito o exame de teologia, separou-se dos comparsas e seguiu o rumo natural de um jovem oriundo de famílias pouco abastadas: tornou-se «preceptor de meninos de famílias ricas, espécie de criado de melhor qualidade». Estamos em 1793, em casa de Charlotte von Kalb, grande amiga de Friedrich von Schiller. Estamos em Iena, convivendo com Schiller e Fichte. Estamos em Weimar, de visita a Herder. E estamos com Goethe. Na revista de Schiller, Hölderlin publicou os seus primeiros textos, um fragmento do Hyperion e o poema Destino. O convívio com o génio dos supracitados, sobretudo com Schiller, deixou-o ambivalente: «O Sr. Excita-me de mais quando estou ao pé de si, (…) estou por vezes em luta secreta com o seu génio para salvar dele a minha liberdade». A situação tornou-se incomportável e Hölderlin fugiu literalmente de Iena para o colo materno, instalando-se posteriormente em casa do banqueiro Jakob Gontard, em Francoforte-sobre-o-Meno. Novamente afundado na carreira de preceptor, isolou-se na poesia:

OS POETAS HIPÓCRITAS

Frios hipócritas, não faleis dos deuses!
Vós sois tão razoáveis! não acreditais em Hélios,
Nem no Tonante e no Deus do Mar;
A Terra está morta, quem quer agradecer-lhe? ─

Confiança, Deuses! pois ornais a canção,
Inda que dos vossos nomes a alma já se foi,
E quando é precisa uma grande palavra,
Mãe Natureza! é em ti que se pensa.


E deu-se o caso. Hölderlin perdeu-se de amores por Susette Gontard, mulher do patrão e mãe dos seus educandos. Diotima, assim lhe chamava, foi o tema de muitos dos seus poemas. Do amor platónico saíram-lhe odes, elegias, extensos poemas em verso longo e uma enorme depressão amainada por cartas à amante e breves encontros secretos. Em 1798, o poeta deixou Francoforte, resistiu às preces da mãe para que voltasse à vida eclesiástica, foi para Homburg vor der Höhe, onde trabalhou uma inacabada tragédia sobre a morte de Empédocles e continuou a escrever poemas:

Ouvisse eu agora os que me avisavam, de mim sorririam e pensariam:
«Por nos recear, mais cedo este louco nas mãos nos caiu.»
E não considerariam isso um lucro…

Cantai, ó cantai-me, terríficos Deuses Fatais, a canção
Profetizando desgraça, sempre de novo ao ouvido.
Sou vosso por fim, bem o sei, mas quero antes disso
Pertencer a mim mesmo e conquistar vida e glória.


Falhado o projecto de uma revista em Homburgo, partiu para Nürtingen, Estugarda, Hauptwyl na Suíça, Bordéus… Escreveu a Schiller cartas sem resposta e partiu, partiu, partiu. Susette Gontard morre. Ninguém sabe onde pára o poeta. Apareceu novamente na «pátria, feito um farrapo irreconhecível, depois de ter atravessado a pé a França de fronteira a fronteira». Schelling encontrou-o em estado nojento e recomendou-o a Hegel, Sinclair arranjou-lhe um lugar de bibliotecário, até que, em 1806, «uma vez que a medicina não dá esperanças, entrega-o aos cuidados de um mestre marceneiro de Tubinga, Zimmer de nome, em casa de quem fica vivendo até ao fim. É o gáudio dos estudantes e dos garotos de Tubinga que se divertem a enfurecê-lo». Hölderlin continuou a escrever versos que assinava com nomes estranhos, mostrava indiferença perante as publicações dos seus poemas, era amiúde visitado pelo fantasma de Diotima, «passa nas trevas da loucura mais de metade da sua longa vida». Morreu a 7 de Junho de 1843.

Fonte: Poemas, de Hölderlin, trad. Paulo Quintela, Relógio d’Água, 1991.

MC SNAKE

A indignação perante o que aconteceu ao cubano Orlando Zapata Tamayo, de que partilho por ser contra todo o tipo de determinismo político, faz-nos também pensar na hipocrisia com que o mundo ocidental censura estas situações. Este mesmo mundo, autoproclamado de civilizado, por oposição, certamente, a um mundo incivilizado que eu continuo a ter dificuldades em reconhecer nos mapas geopolíticos cá de casa, arroga-se no direito de condenar os inimigos do capitalismo ao mesmo tempo que denota uma estranha complacência para com variadíssimos atentados aos direitos humanos perpetrados por aqueles que se julgam donos da ética e da moral. Do Sunday, Bloody Sunday que os U2 registaram numa canção às imagens de Abu Ghraib, da evangelização aos casos de pedofilia, passando pela Inquisição que mancha o historial criminoso da Igreja Católica Apostólica Romana, da máquina de morte que os alemães alimentaram durante a Segunda Grande Guerra às limpezas étnicas nos Balcãs, da escravatura globalizada ao colonialismo no Médio Oriente, da brutalidade policial repetidamente exercida sobre os manifestantes do chamado contrapoder a variadíssimos casos de censura, coerção, pressão, limitação política, económica e social exercidos sobre aqueles que defendem o direito a pensar e agir livremente, o que não falta é exemplos de um terror que abala a legitimidade dos profetas da universalidade dos direitos humanos. Chegámos a um ponto em que ninguém tem legitimidade para impor um qualquer sistema de valores a quem quer que seja. O mundo está coberto por um imenso telhado de vidro. Debaixo desse telhado, são cada vez menos as referências credíveis, os homens cujas acções e saber podem servir-nos de exemplo. E são meramente individuais. Quando se deixam enredar nas tramas gregárias do poder, acabam quase invariavelmente por se transformar em monstros clonados daqueles de quem foram vítimas. Daí que seja cada vez mais urgente questionarmos os fundamentos do estado. Cito:

A concentração de toda a força física nas mãos da autoridade central é a função primária do estado e é a sua característica decisiva. De maneira a tornar isto claro, considere-se o que não se pode fazer sob a forma de domínio do estado: ninguém na sociedade governada pelo estado pode tirar a vida de outrem, fazer-lhe mal fisicamente, tocar na sua propriedade ou prejudicar a sua reputação excepto com a permissão do estado. Os mandatários do estado têm poderes de tirar a vida, infligir castigos corporais, tirar propriedade como multa ou por expropriação, e afectar o estatuto ou reputação de um membro da sociedade.
Isto não equivale a afirmar que em sociedades sem estado se possa tirar a vida impunemente. Mas em tais sociedades (por exemplo, entre os bosquímanos, os esquimós, e as tribos da Austrália Central) a autoridade central que protege a família contra transgressores é inexistente, fraca, ou esporádica, e foi aplicada entre os Crow e outros índios das planícies ocidentais só à medida que surgiam situações. Nas sociedades sem estado, a família ou o indivíduo são protegidos por meios não explícitos, pela participação total do grupo na supressão do transgressor, pela aplicação temporária ou esporádica de uma força que deixa de ser necessária (e portanto deixa de ser usada) quando a causa da sua aplicação pertence ao passado. O estado dispõe de meios para suprimir o que a sociedade considera incorrecto ou criminoso: polícia, tribunais, prisões, instituições que funcionam explícita e especificamente nesta área de actividade. Além disso, estas instituições são estáveis no quadro de referência da sociedade, e permanentes.
Quando o estado se formou na antiga Rússia, o príncipe dominante afirmou o poder de impor multas e infligir a dor física e a morte, mas não permitia a qualquer outro que agisse assim. Afirmou mais uma vez a natureza monopolista do poder de estado excluindo do seu exercício qualquer outra pessoa ou organismo. Se um súbdito sofresse algum mal às mãos de outro sem a permissão expressa do príncipe, isto era uma transgressão e o transgressor era punido. Além disso, o poder do príncipe só podia ser delegado explicitamente. A classe dos súbditos desta forma protegidos era assim cuidadosamente definida, claro; de maneira nenhuma eram protegidos desta forma todos os que estavam dentro do seu domínio.
Nenhuma pessoa ou grupo se pode substituir ao estado; os actos do estado só podem ser realizados directamente ou por delegação expressa. O estado, ao delegar o seu poder, transforma o seu delegado em agente do estado. O poder coercivo dos polícias, juízes, guardas prisionais, deriva, segundo as regras da sociedade, directamente da autoridade central; bem como o dos cobradores de impostos, dos militares, guardas fronteiriços, e coisas semelhantes. A função autoritária do estado assenta no seu comando destas forças como seus agentes.

Lawrence Krader, in Formation of the State, citado por Robert Nozick, in Anarquia, Estado e Utopia, trad. Vitor Guerreiro, Edições 70, Novembro de 2009, pp. 154-155.

O que pensar quando o estado ou os seus agentes se transformam em agressores? O que pensar e, sobretudo, o que fazer para que não sejamos nós as próximas vítimas?

PASSADO

Tu não sabes o que é que eu ia fazer no passado. Se esperasses para ver o que eu ia fazer no passado não dizias isso.
Matilde

sexta-feira, 19 de março de 2010

E AGORA?


Restam-me 32,84€ e não sei o que fazer. Imagino os tormentos e as angústias que os Van Zeller deste mundo têm de suportar. Leio na imprensa que um tal de Penedos recebeu um prémio de 243,8 mil euros relativo ao seu profissionalíssimo desempenho e que um tal de Rui Pedro Soares, rapazito simpático, recebeu 1,5 milhões em 2009. O que fará esta gente com tanto dinheiro? Temo por eles. Se recebem estas quantias astronómicas é lógico que trabalhem imenso. Não devem ter tempo nem para desfrutar de um copo de Häagen-Dazs, quanto mais para pensar no que fazer ao dinheiro que conquistaram com o suor do seu trabalho. Restam-me 32,84€ e nenhuma ideia. Talvez o Van tenha razão, talvez me devessem baixar o salário. Livravam-me de horas, diria mesmo de dias inteiros, desesperadamente à procura de um motivo, de uma razão, de qualquer coisa que justifique gastar a fortuna que me resta. Já paguei as contas, estou vestido, comido, bebido. Que mais posso querer? Só não estou dormido, sem dúvida por ser tanto o dinheiro que me sobra e a cabeça não parar de se questionar sobre o privilégio que é poder ainda ter 32,84€ no bolso quando anda para aí tanta gente sem nada (ou com alguns milhões, o que, bem vistas as coisas, vai dar ao mesmo). Pensei que ir ao médico tratar da saúde talvez fosse uma boa opção. E fui. Deixei 40€ na clínica - para ser auscultado e vir-me embora com uma receita de Miflonide, Formoterol, Flutaide, Nasex, Stérimar, Aerius, Ben-U-Ron, Nimesulida, Acetilcisteína e Clavamox. Já aviei a receita na farmácia. Agora estou com saldo negativo. Começo a ficar ansioso, deprimido, ainda mais doente do que estava. Pode ser que a azia me tome conta da asma e das alergias. Deixaria de ir ao médico e poderia gastar os 32,84€ em sais de frutos. Ou numas minis para misturar com o Clavamox. Será que dá moca?

quinta-feira, 18 de março de 2010

PRIMEIRA ANTOLOGIA DE MICRO-FICÇÃO PORTUGUESA


Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa
Tradução para árabe de Said Benabdelouahed
Selecção e organização de Rui Costa e André Sebastião
Prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho
Racines, Marrocos
2010

Prefácio, pp. 7-12. Os mesmos contos que aqui, pp. 47-56.

segunda-feira, 15 de março de 2010

SERRALVES, MARÇO, 2010

Isto não é um quadro pendurado numa parede. É uma parede de vidro, um vidro numa parede, o exterior pendurado numa parede através de uma janela gigantesca. Isto é uma obra de arte, a mais realista das obras de arte, é um pedaço de terra circundado de silêncio, é um pedaço de jardim delimitado pelas paredes, transfigurado através de um vidro transparente. Isto é aquilo que os nossos olhos vêem enquanto transitam no interior de uma obra de arte. Isto é potlatch, numa relação misticamente ateísta entre três espaços conexos: o da nossa intimidade/corpo, o do edifício que nos abriga a intimidade e o espaço exterior onde esse edifício foi erigido.


Isto podia ser uma sombra de Lourdes Castro, um trabalho de Manuel Zimbro, uma obra exposta numa galeria. Mas isto não é um quadro, nem uma fotografia, nem uma obra de arte pendurada numa parede. Isto é a cerimónia do artista que, acossado pela teoria, opta por ensaiar a abnegação com um gesto radical: a morte. Ainda me faltam alguns livros para chegar ao termo da cerimónia, ainda me faltam alguns passos, mais um ou dois banhos daquela luz que atravessa o vidro e me faz pensar que isto não é uma obra de arte pendurada numa parede. Isto é o corpo de um artista a dar-se ao meu corpo, é a paisagem que a parede tem para me oferecer enquanto lá fora o mundo se afunda.


Mas isto sim, isto é o que o olhar constrói quando se deixa destruir pela dádiva. Leonel Moura ironizando o corpo dentro de outro corpo, um edifício teórico, idealista, esse corpo que cresce nos livros e nos asfixia até à ausência de esperança. Nesse corpo, as extremidades são férreas. Nada mais se avista para lá desse corpo, nenhum jardim, nenhum mundo, as paredes tornam-se obscuras, o cérebro enreda-se numa plausível desistência. Não há o que pensar acerca desta relação. O artista dá-se, oferece-se ao seu público, dá-se na totalidade já não apenas enquanto artista, mas como homem. Suicida-se. Como Ruy Belo, matando-se na escrita, o artista mata-se na obra, oferece-se como recompensa à teoria que a sustentou. Aceito a tua dádiva, morte pendurada na parede, como quem nada tem para oferecer senão o testemunho de uma presença.

CIRCLE




Enclausurado na deprimente previsibilidade dos seres humanos, o tédio ganha a força de um vulcão cheio de raiva. Se explodir, fará estragos irreversíveis. Já fez alguns. Da cinza nascerão novas e renovadas formas de vida. O fim do mundo deve ser qualquer coisa parecida com isto. Ou então estamos mesmo sós, irremediavelmente sós, e o fim do mundo, do nosso mundo, é uma outra coisa bem diferente: aprender a viver com a natural solidão que nos divide.

sábado, 13 de março de 2010

pullllllllllllllllllllllllll



«Esperamos que a vossa experiência de leitura possa ser tão desconcertante como foi a nossa tentativa de tradução – à falta de melhor palavra para uma prática poética que puxaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa a linguagem até ao limite» (p. 7). O desejo formulado por John Havelda, Isabel Patim e Manuel Portela, organizadores e tradutores de pullllllllllllllllllllllllll (Antígona, Fevereiro de 2010), pode servir de mote para algumas questões sempre associadas a um trabalho como é aquele que ora nos ocupa. Antes de mais, um exemplo inócuo e, provavelmente, irrelevante aos olhos de alguns leitores: o título da antologia é dinâmico. pullllllllllllllllllllllllll, uma espécie de neologismo, aparece grafado ora com 26 éles (no miolo), ora com 12 (na lombada), ora com 11 (na capa, se não tivermos em conta o saca-rolhas). O número é indiferente, mas não deixa de ser curiosa esta confrontação imediata com uma intenção subjacente a toda a poesia aqui reunida, ou seja, a de se jogar com a linguagem a ponto de tornar o significado e o sentido elementos secundários na concepção do poema. Importará mais a sugestão de uma ideia, de uma imagem, ou a exploração do ritmo e da musicalidade nas suas dimensões menos constrangidas, do que submeter a palavra a uma eventual mensagem cuja comunicabilidade é sempre discutível e radicalmente subjectiva. Isto, apesar das normas e das regras gramaticais, sintácticas, ortográficas.

Os autores coligidos podem não parecer preocupados com o que têm para dizer, pelo menos não tanto como parecem empenhados na experimentação do dizer ele mesmo – subvertendo as regras, minando a gramática, armadilhando as normas, jogando, espartilhando a morfologia da palavra. Isto não significa um radical esvaziamento de sentido, apenas e tão-só que o sentido advém de uma predisposição para a plasticidade e para a elasticidade do dizer. A poesia é colocada numa situação-limite que pode inspirar desconfiança ou, se pensarmos em práticas de leitura mais conservadores, pode resultar num desprezo que negará a própria existência de poesia, independentemente do que entendamos sobre tal conceito, nas práticas poéticas levadas a cabo por estes autores. São treze e nem todos canadianos de origem. Robin Blaser (1925-2009), por exemplo, nasceu em Denver, Colorado, e só em 1972 obteve cidadania canadiana. É também o mais velho dos antologiados e o único que, à data em que escrevo, já faleceu. A este se juntam Robert Kroetsch (1927), Fred Wah (1939), Roy Miki (1942), bpNichol (1944), Dennis Cooley (1944), Steve McCaffery (1947), nascido em Sheffield, Inglaterra, Dionne Brand (1953), emigrada para o Canadá em 1970, mas nascida em Guayguayare, Trinidad, Erín Moure (1955), Karen Mac Cormack (1956), nascida na Zâmbia, Jeff Derksen (1958), Lisa Robertson (1961) e Christian Bök (1966).

Cada qual com as suas idiossincrasias, ligam-se pela tendência para a experimentação poética e pela recusa da fossilização discursiva que caracteriza a poesia dita mais acessível ou, pelo menos, mais convencional. Mas ligam-se igualmente por outros aspectos não tão evidentes. Nota-se, por exemplo, uma certa inclinação para polvilhar a explosão poética com elementos oriundos de outras artes ou ciências: da zoologia à geologia, da geografia à economia, da política à história, etc. Erín Moure, a título de exemplo, enraíza a criação poética no trabalho de tradução, chamando ao palco vozes tão diversas como as de Alberto Caeiro, Jean-Luc Nancy, Judith Butler, Lévinas, Aristides Sousa Mendes, Clarice Lispector, entre outros. A intenção não deixa margem para dúvidas: «Desfazer o conceito do “eu” como observadora não autoconsciente no poema, como “voz poética”. Que se dane a voz poética» (p. 221). Daqui à produção do acaso, das composições de cariz mais visual a outras filiadas na chamada poesia sonora, é precisamente o eu lírico quem acaba mais maltratado. No entanto, a corrosão do lirismo não é um fim em si mesmo. Note-se como não deixando de ser algo líricos, os poemas de Dionne Brand armadilham esses resquícios de lirismo assumindo na sua vertente política uma interrogação dos limites da linguagem: «O que eu digo em qualquer língua é dito com perfeito / conhecimento da pele, em embriaguez e pranto, / dito como uma mulher sem fósforos e mecha, não em / palavras e em palavras e em palavras decoradas, / contadas em segredo e sem ser em segredo, e escuta, não / se extingue nem desaparece e é abundante e impiedoso e ama» (p. 53).

Palavras decoradas ou decorativas, certo é que encontramos nestes poemas uma constante interrogação do sentido. Talvez o poema (A) Diferença Faz-se, de Fred Wah, seja, pelo que foi afirmado, o mais representativo da antologia: «Dizer: “Não percebo o que isto significa” é, pelo menos, reconhecer que / “isto” significa. O problema é que o sentido não é uma totalidade de / igualdade e previsibilidade» (p. 277). A problematização do poético e a sua aparente imprevisibilidade acaba por ser o que de mais resistente encontro nestas práticas poéticas, pelo que sou levado a concluir ser esta apenas mais uma das diversas formas do fazer poético que redundará sempre numa vontade de conhecer o mundo para lá da sua aparente cognoscibilidade. A questão é que talvez a palavra não tenha mesmo nada a dizer. Antes de terminar, alguns aspectos de organização que importa sublinhar, até pela relevância que assumem numa obra deste tipo: a edição é bilingue, permitindo um acesso directo aos textos originais e uma confrontação com as versões portuguesas que, diga-se em abono da verdade, são, pela dificuldade das propostas, geralmente meritórias; cada autor tem direito a notas biobibliográficas com todas as referências necessárias para um melhor enquadramento dos trabalhos seleccionados, assim como menção a sítios na Web que poderão abrir portas sobre as obras em causa; acrescentam-se ainda breves citações de cada um dos autores, esclarecedoras do entendimento que cada um construiu sobre as suas próprias produções. Um mimo, portanto, para os adeptos da poesia experimental.

Escrito para o Rascunho.

sexta-feira, 12 de março de 2010

LE TEMPS QU'IL RESTE



Último eco do FantasPorto 2010: The Time That Remains, de Elia Suleiman. A história de uma família de palestinianos desde a fundação de Israel até à actualidade. Suleiman diz que se inspirou nos diários deixados pelo pai, malogrado combatente da resistência árabe, e nas cartas que a mãe escrevia para familiares forçados a abandonar a região depois de os judeus terem tomado o poder por aquelas bandas. O retrato de Suleiman é de um humor com inclinações negras que tem dois méritos: arrancar sorrisos irónicos à assistência e provocar aqueles que eventualmente possam esperar uma encenação trágica dos acontecimentos históricos. Tal como já acontecia em Divine Intervention (2002), o enfoque é colocado na dimensão absurda das variadíssimas situações. Numa cena, Suleiman chega a saltar à vara o muro que separa Israel da Palestina. Sempre de ombros descaídos e com um rosto desapaixonado, a lembrar a ausência de sorriso que ficou para a história como uma das principais marcas de Buster Keaton, o realizador/actor aparece nos momentos finais do filme para representar um reencontro com as origens. A pergunta que paira no ar é: onde estou? O sentimento de deslocação é evidente, as personagens parecem perdidas, não como corpos à deriva, mas antes como elementos desagregados do espaço agora estranho onde detêm as suas raízes. Desenraizamento e desorientação são, quiçá, as razões que explicam os comportamentos abismados e pasmados, quase sem reacção, daqueles que se vêem impossibilitados de regressar aos lugares de onde partiram. Há em cada uma das cenas um esforço coreográfico que faz deste filme uma espécie de musical sem banda sonora, à qual não será alheia a técnica mímica. Para territórios devastados, os cenários são paradoxalmente límpidos, quase impolutos. E é admirável a forma como os diálogos são filmados, nomeadamente no contexto familiar, não sendo necessárias muitas palavras para afirmar o que os movimentos de câmara, os diferentes planos, os esgares, já asseguram por si. Entre cenas de maior ou menor intensidade dramática, uma personagem sintetiza melhor que todas as outras a natureza tragicómica do argumento: um velho palestiniano que não aguenta viver sob o jugo israelita, embebeda-se sucessivamente e tenta suicidar-se regando o corpo com querosene; vai sendo salvo por um vizinho, o pai de Elia, que no dia seguinte escuta ao velho novas e extravagantes estratégias para derrubar o inimigo invasor. Todas elas incluem um mesmo elemento: beber muito álcool. Há lá melhor forma de combater os inimigos?

quinta-feira, 11 de março de 2010

DIÁLOGOS SOBRE ESTÉTICA

O pai naturalista: As Winx não existem.
A filha romântica: Existem, existem.
O pai naturalista: Se existem, onde é que elas estão?
A filha romântica: No canal Panda.

UMA SESTA

Hoje dormi uma sesta gorda.
Beatriz, 3 anos.

O CINEMA ENQUANTO REMAKE



O vídeo acima é do mesmo autor de La Carte, a Melhor Curta-Metragem do FantasPorto deste ano. O estilo é o mesmo, pelo que sou levado a crer que Stefan le Lay gosta de desorganizar histórias de amor recorrendo a artifícios técnicos transformadores da realidade. Em La Carte, as figuras de postais expostos num quiosque de praia ganham vida própria. Uma delas, apaixona-se por uma outra que está num expositor ao lado. O resto resulta de um primoroso exercício técnico que mete as figuras dos postais a saltarem de expositor para expositor, une realidades multicoloridas a paisagens a preto e branco, mistura elementos visuais distantes no tempo mas próximos na temática ilustrada. Tudo muito ligeiro, fascinante, alegre, mas também incitador de um questionamento a que o domínio cinematográfico nos obriga permanentemente, isto é, a transfiguração da realidade enquanto produto de uma imaginação cuja função é o de ir alargando os limites dessa mesma realidade. Se admitimos que no campo da imaginação tudo é possível, não podemos negar que essa infinitude de possibilidades se processa sobre o terreno aparentemente mais limitado do real. Mera aparência, pois o real não é senão o corpo vivo e mutável onde a imaginação vai imprimindo as suas novas aventuras. Os desenvolvimentos constantes da técnica aí estão para o provar.

De uma mão cheia de curtas que vi lá pelo norte, quero ainda sublinhar, até pela relação improvável que mantém com as afirmações anteriores, um trabalho assinado por Artur Serra Araújo. Desavergonhadamente Real é uma curta de meios ínfimos que prova não serem necessários grandes recursos para se fazer bom cinema. Durante uma sessão de filmagens, dois actores acabam por não resistir ao envolvimento e o que deveria ser mera representação de papéis acaba por se confundir com um relacionamento objectivo. As fronteiras que separam a realidade da ficção são transpostas, deixando o espectador na dúvida entre o que possa ser trabalho ou lazer na cena de sexo que está a ser filmada. Mas ainda que a intenção do realizador seja responder a algumas dúvidas entre as relações sempre dúbias entre os domínios da realidade e da ficção, o que fica no ar é uma estranha perplexidade: afinal, não andaremos nós a representar constantemente um papel sem guião nem realizador determinados? Aqueles que nos julgam cumprem o papel do realizador, mas também eles são personagens de uma trama sem fim. Nas suas mãos, nós somos apenas o que resulta de um olhar mais ou menos inteligente no contexto da hermenêutica que pretenda levar a cabo. Curioso paradoxo, este de vivermos sob máscaras que pretendemos serem rostos que nem nós próprios, por vezes, conseguimos vislumbrar com clareza num qualquer espelho revelador de identidades em incessante construção.

QUANDO ESCREVE DESCALÇA-SE À ENTRADA DO POEMA


Braga, 11 de Março de 1940, Rua de São Geraldo, freguesia da Cividade. Nasce Dinis Albano Carneiro Gonçalves, filho de um professor primário e de uma doméstica. O pequeno Dinis frequentará a escola primária em Torre de Dona Chama, aos cuidados da avó paterna e de um tio-avô que era padre. Em 1949, a família partiu para Moçambique, passando a residir em Tete. Dinis Gonçalves prosseguirá os estudos no Colégio Camões e no Instituto Liceal na Beira, dirigido por padres maristas. Este convívio recorrente com gente ligada à igreja não é de descurar, mais ainda se tivermos em conta que o seu pai era um homem com formação teológica. Nos finais dos anos 50, a família mudou-se para Quelimane. Foi por estas terras que Dinis Albano Carneiro Gonçalves começou a transformar-se em Sebastião Alba, um poeta de corpo inteiro. Com 21 anos, a tropa trocou-lhe as voltas. Arregimentado no Contingente Geral, em Boane, a cerca de 20 Km de Lourenço Marques, desertou ao segundo dia, acabando por ser detido e acusado de «extravio de objectos militares». Os objectos eram um cinto e o bivaque. Enquanto aguardou julgamento na prisão, ainda se ausentou quatro vezes. Foi condenado a 15 meses de pena, cumpridos na 23ª Enfermaria do Hospital Miguel Bombarda. A consciência política tornava-se mais aguda, pelo que não é de estranhar o surgimento do primeiro livro de poemas (por vezes, há entre ambas as realidades uma estranha relação de causa e efeito). Poesias foi publicado em 1965, patrocinado por um jornalista amigo do pai de Sebastião Alba. Dele, pouco resistirá. Daqui em diante, o poeta sobreviveu como jornalista e angariador de publicidade. Em 1966, conheceu Felisbela do Livramento Silva. Casaram-se três anos depois e tiveram duas filhas. Entretanto, Sebastião Alba foi travando conhecimento com vários escritores e colaborou com a revista Caliban, dirigida por João Pedro Grabato Dias e Rui Knopfli. 1974 será um ano determinante: morre-lhe, vítima de acidente de viação, o irmão, também jornalista e escritor, António Carneiro Gonçalves, e publica O Ritmo do Presságio, com apresentação de José Craveirinha:

Quando nascemos entramos
no nome pela voz dos pais:
─ Dinis Albano…
Íntima e sonora identidade.
Chamam-me e volto
a cabeça, dissuadido.
Na voz duma mulher
os nomes são
interiores a nós.
(Na dum polícia, desprendem-se,
como se apenas
os envergássemos).
Um amigo dirige-se-nos,
e as letras do nome
─ tu?! ─ correm de doçura.
Um dia, o nome,
por capricho duma veia ou dum fonema,
ocultamente, esvai-nos.
E por detrás dele,
alheados dos ritos,
nem sabemos da sua
cessação.

Após a independência de Moçambique, o apoio à FRELIMO valeu-lhe um convite para frequentar um curso de formação em Inhanbane e a nomeação para Administrador da Província da Zambézia, cargo que abandonou passados alguns meses. Leccionou Economia Política e fixou-se, com a família, em Maputo, contactando aí com a nata intelectual de Moçambique. Um dos comparsas era o poeta Luís Carlos Patraquim, com quem terá levado a cabo algumas actividades contestatárias. Em 1982, Sebastião Alba publicou, pelas Edições 70, o livro A Noite Dividida:

Gosto dos amigos
que modelam a vida
sem interferir muito;
os que apenas circulam
no hálito da fala
e apõem, de leve,
um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
entre quem são
e quem eles me parecem,
o meu agrado inclina-se
para o mais reconciliado,
ao acordar
com a sua última fraqueza;
o que menos se preside à vida
e, à nossa, preside
deixando que o consuma
o núcleo incandescente
dum silêncio votivo
de que um fumo de incenso
nos liberta.

Pouco depois, abandonou Moçambique e regressou a Braga com a mulher e as filhas. Mais tarde, estas serão confiadas à avó materna e passarão a viver em Miratejo. Sebastião Alba continuou a publicar alguns poemas, nomeadamente na revista Colóquio/Letras. Em Braga, assumiu uma vida solitária, de andarilho, desempenhando por períodos breves algumas actividades. O vício do álcool foi-se agravando. Tentou várias curas de desintoxicação. Em 1993, o divórcio e visitas esporádicas às filhas. Morre-lhe a mãe. Michel Laban entrevista o poeta e publica o texto no volume Moçambique ─ Encontros com Escritores. Alguns amigos subscreveram um pedido de subsídio de mérito cultural, que acabou por lhe ser atribuído pelo Ministério da Cultura. Ainda assim, a rua era a nova casa de Sebastião Alba. Herberto Helder sugeriu à Assírio & Alvim a publicação da obra reunida do poeta, o que veio a acontecer em 1996:

Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame…
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.

Por essa altura, Sebastião Alba era o caso da poesia portuguesa (sempre ávida e pródiga de/em casos). Em 1997, ganhou o Grande prémio de Poesia ─ Imobiliária Teixeira & Filhos. Fez-se representar por uma das filhas e prescindiu do dinheiro a favor dos herdeiros. Alguns poemas seus foram traduzidos para alemão, recusou vários convites para iniciativas culturais, a saúde foi-se degradando. A 14 de Outubro de 2000, termina os seus dias como vítima fatal de atropelamento e fuga. O corpo permaneceu por identificar durante três dias. A 7 de Outubro, escrevia a Vergílio Alberto Vieira: «Se um dia encontrarem morto "o teu irmão Dinis", o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá».



Fonte: Uma Pedra ao Lado da Evidência, selecção e apresentação de Vergílio Alberto Vieira, Campo das Letras, Novembro de 2000. Infelizmente não consegui apurar a autoria da imagem. As minhas desculpas.

SOMEBODY TO LOVE A WHITE RABBIT :)



Vou recuperar os sons da BASF na expectativa algo vã de que os sons me recuperem. Começo com um 2 em 1, assim como quem lava a cabeça no termo do dia.

quarta-feira, 10 de março de 2010

SÃO AS FORMIGAS



Dórdio Guimarães nasceu no Porto a 10 de Março de 1938. Filho do cineasta Manuel Guimarães, colaborou, desde cedo, nos filmes do pai, primeiro como actor e depois como assistente de realização. O próprio acabou por realizar alguns filmes sobre escritores portugueses e assinou programas de televisão, entre os quais Mátria, apresentado por Natália Correia. Foi jornalista durante vários anos, exercendo a profissão na imprensa escrita, na rádio e na televisão. Como poeta, estreou-se em 1960 com Tempo imediato. Em 1962, co-organizou, com Mário Dias Ramos, uma colectânea de novos autores intitulada Poesia e Tempo. Nesse mesmo ano, conheceu Natália Correia, com quem manterá uma forte amizade reforçada com o casamento em 1990. A vida de Dórdio Guimarães confunde-se com a de Natália Correia, ou «Cynthia», como a apelidava e como a cantou nos livros Cynthia (1964) e Cynthia livro segundo (1968): «Eu toupeira das horas tu amazona / amiga de dormidas árvores». É autor de uma obra que se estende pela poesia e pela narrativa. Em 1967, publicou a novela O Homem das Batalhas e, em 1972, o romance Alexandre Nevski. Colaborou com o projecto musical Fluido, liderado por Paulo de Carvalho, vendo alguns dos seus poemas ousadamente musicados. Dedicou os últimos anos da sua vida à memória de Natália Correia, nomeadamente tentando criar uma Fundação Cultural com o seu nome. Faleceu em Lisboa, a 2 de Julho de 1997. Não coube na antologia:

SÃO OS ELEFANTES...

Na alvorada mais límpida do mais denso sossego
marchando leves e bisonhos para a morte
são os elefantes

quero morrer com essa convicção e essa nitidez
um bailado de astros acordados à mesma hora
jovens sentados na terra tocando suas violas
com seus cantos misturados com os pássaros
e peixes estremunhados por ondas e marés vivas
um dia de cristal abrindo pupilas de alegria
são os elefantes

são os elefantes marchando de manhã para o cemitério
e dançam os corpos de vinte anos com as plantas
e dançam com as pedras com as árvores com as flores
e danço eu que vou morrer ao ar enfim livre
e certamente é a paz que faz mover os paquidermes
e os impele adentro o dia discretos como uma carícia
e os jovens vibram sua voz com a decisão dum canto
de trunfo de anúncio de triunfo
são os elefantes

que só fale a natureza a palavra sem perigo
marcham lentamente bondosos de silêncio e morte
quero morrer feliz e claro vivam os jovens amanhã
são os elefantes

são os elefantes

são os elefantes




Nota: A fotografia foi surripiada ali.

WARD N.º6



Ward nº 6, do russo Karen Shakhnazarov, baseia-se num conto de Anton Tchekov ─ motivo mais que suficiente para aguçar a curiosidade. Ainda por cima, é um excelente filme. Levou para casa o Prémio Especial do Júri do Fantasporto 2010, ao qual se deverá acrescentar a minha absoluta rendição. O cenário é um antigo mosteiro transformado, ao longo dos tempos, em asilo de loucos. Filmado num registo que alterna o documental com a pura ficção, Ward nº 6 começa precisamente por nos introduzir nesse processo de transformação do edifício. No entanto, a história que tem para nos contar é sobre o processo de transformação de um homem que trabalha dentro desse edifício: o doutor Ragin, director do hospício. Um homem inteligente, especulativo, com inclinações filosóficas, aberto a questões metafísicas, mas profundamente só. Isolado, sem ter com quem partilhar os seus interesses, enclausurado numa cidade amorfa repleta de gente desinteressante, óbvia, mesquinha, previsível e superficial, o doutor Ragin encontra num dos seus pacientes o parceiro de conversa ideal. Muito discutem, nomeadamente os fundamentos para a situação em que ambos se encontram. O que é a loucura? Com que direito alguns homens encarceram outros homens? Quem determina a insanidade de um ser? Porque não é a sociedade que se movimenta para lá das paredes daquele asilo, na sua artificial normalidade, mais demente do que os alienados ali enclausurados? Embrenhado num manto de dúvidas, o doutor Ragin entrega-se ao álcool, deixa-se tomar pela depressão, torna-se ele próprio uma ameaça ao pilar que fundamenta a convencional separação entre loucura e normalidade. Não é preciso ter lido Arno Gruen para perceber que o meio social é um vasto e legitimado hospício onde emergem, por variadíssimas razões e em diversificados contextos, pequenos vírus que os homens ditos normais tendem a considerar loucos. Em certas circunstâncias, os loucos são tomados por gente normal. Deixam de o ser quando ameaçam os muros da maioria, quando se tornam, eles próprios, uma ameaça, quando agridem e violentam as regras, as leis, as noções de dever e os direitos que servem de base à organização social, como uma superfície de areia muito fina que ao mais leve movimento pode ser desorganizada. Afinal, a normalidade é uma questão estatística. O doutor Ragin acabará por ser visto, aos olhos de um jovem e ambicioso doutor, como um desses elementos que pode pisar o risco, ou seja, a fina areia, deixando num estado caótico o que se pretende ordenado. A questão que somos levados a formular, já sobre a mudez de um homem outrora loquaz, é esta: o que nos leva à loucura? Recordo-me de um poema meu que começa assim: as pessoas saudáveis são todas desinteressantes. A retórica do argumento não pretende outra coisa senão chamar a atenção para os vícios da higienização, algo que, se quiserem, pode ser interpretado paralelamente aos perigos da normalização. Estes processos tendem a impedir a afirmação livre do ser, ofuscam-no, recalcam-no, adestram-no, porque temem a sua inconveniência. Pretendem integrar, desintegrando. Pouco mais podem sustentar do que um inconformismo conformado. O resto será interpretado como desvio. E para o desvio só resta uma solução: endireitar. Nada há mais impertinente numa sociedade que se pretende calafetada do que as pulsões do ser. Por isso foram os homens impelidos a conter o riso, por isso foram educados para o desprezo do corpo, por isso foram domesticados na sua natural bestialidade, crueldade, anarquia, por isso foram os homens chamados a odiar os amantes incondicionais, por isso foram reprimidos sempre que foram homens, ou seja, sempre que questionaram os métodos através dos quais se proíbe alguém de ser ele próprio. O inquestionável não existe. O silêncio fechado do doutor Ragin resulta da mais execrável violência que pode ser exercida sobre alguém cuja natureza é, precisamente, questionar. Neste caso, pode ser interpretado como uma violentação tirânica do ser. Não é outro o papel das sociedades higienizadas, tiranizar o ser a ponto de o reduzir a uma insustentável solidão. Agora pense o leitor no Portugal contemporâneo, assaltado recorrentemente por exemplos, ainda que mais ou menos residuais, de um puritanismo medievalesco. Depois de pensar, se se sentir só, pense duas vezes antes de ir ao médico.

terça-feira, 9 de março de 2010

FISH TANK



Nasci numa localidade atravessada por um rio. Desde muito cedo, habituei-me a dar utilidade às canas. Ia com alguns amigos para um açude, roubávamos maçãs pelo caminho, fumávamos barba de milho, pescávamos peixes que depois voltávamos a lançar à água. Um dia, lembrei-me de ficar com um desses peixes. Guardei-o dentro de um saco de plástico cheio e levei-o para casa, colocando-o depois dentro de um aquário improvisado. Um frasco de Toddy, se bem me lembro. O peixe passava o tempo todo a saltar para fora do frasco. Um dia não fui a tempo de voltar a colocá-lo dentro de água e o peixe morreu. Afogado de ar, suponho. Fish Tank, o filme de Andrea Arnold que ganhou este ano o Prémio da Semana dos Realizadores/Prémio Manoel Oliveira, acumulando com o Prémio para Melhor Argumento, oferece-nos uma personagem semelhante àquele peixe da minha infância. Começa com essa personagem ofegante, uma jovem adolescente que diremos problemática só para simplificar a caracterização. Fechada numa sala de um prédio abandonado dos subúrbios, ensaia passos de dança. Porém, o destino da jovem Mia não será tão óbvio quanto o do meu peixe. É numa intencional frustração das expectativas em momentos de contenção que o filme de Andrea Arnold ganha todo o interesse. Por diversas ocasiões, a mais óbvia morbidez do espectador é levada a esperar o pior. Mas o pior fica sempre por acontecer. Numa cena, desconfiamos que a jovem protagonista do filme acabará violada. Nada acontece. Noutra, supomos que ela irá matar, ainda que acidentalmente, a filha de um impostor que lhe andava a comer a mãe. Nada acontece. Noutra cena, é-nos sugerido que ela será agredida raivosamente por esse aldrabão. Fica-se a brutal violência por uma chapada nas trombas. Uma chapada do mesmo género que a realizadora nos dá nestas e noutras variadíssimas ocasiões. A frustração das expectativas é uma constante no argumento e na relação mantida entre o espectador e a narrativa visual a que este está sujeito. Se os filmes fossem sobre alguma coisa, podíamos dizer que este é um filme sobre a vida nos subúrbios... mas não estaríamos a ser precisos. Também não se trata de pretender fugir ao óbvio resvalando numa gratuitidade reflexiva que poderia fazer deste mais um filme sobre a entrada na vida adulta. À jovem Mia já foi usurpada a adolescência. Uma mãe disfuncional obrigou-a a crescer raivosamente. Há pelo meio uma mula que talvez possa servir de metáfora para tudo o que ali se passa. A mula está presa num acampamento de ciganos. Mia tenta, por diversas ocasiões, libertá-la. Não consegue. Ela e a mula têm praticamente a mesma idade. Estão ambas aprisionadas. Porque se encontrava doente, a mula terá de ser abatida. O mesmo terá de fazer Mia. Abater-se, deixar para trás o passado, libertar-se, já que em seu redor não existe quem a queira libertar. Enfim, a ser sobre alguma coisa, este filme é sobre a capacidade de resistir às adversidades e tomar a vida nas próprias mãos. Uma última palavra para Michael Fassbender, um grande actor que já me tinha surpreendido em Hunger e Eden Lake. Teve também uma participação mais discreta em Inglourious Basterds.

segunda-feira, 8 de março de 2010

HEARTLESS



MEFISTÓFELES. Mui bom proveito
Vos faça o banho quente, que é mer’cido!
Johann W. Goethe, in Fausto


Tenho um sentimento ambivalente do mundo. Se por um lado consigo deleitar-me com as maravilhas que ele nos oferece, por outro lado deprimo-me amiúde com os horrores que ensombram essas mesmas maravilhas. Seria superficial considerar-me optimista ou pessimista, mas ainda mais banal dizer-me realista. Entalado entre dois pólos, julgo que a maleita que melhor condiz com o meu temperamento é uma qualquer forma de distúrbio bipolar que ainda não tomou definitivamente conta de mim por razões tão simples de serem explicadas como encontrar uma agulha num palheiro. Porque não tenho palheiro e as agulhas estão todas devidamente arrumadas no seu lugar, concentro-me num mapeamento do mundo que os leitores poderão julgar em função de critérios subjectivos e, por isso mesmo, discutíveis. Mas o que a paisagem tem para me oferecer é um mundo profundamente desigual, assimétrico, injusto, não sei se melhor ou pior que no passado, até porque essa percepção agudizaria ainda mais a subjectividade do diagnóstico, portanto um mundo incoerente, absurdo a ponto de nele observarmos territórios riquíssimos em termos de recursos naturais, mas paupérrimos em termos de qualidade de vida, como se a riqueza natural fosse incompatível com a felicidade dos homens, pois neste mesmo mundo aqueles que a natureza terá, aparentemente, menos beneficiado são, estranhamente, os que denotam vidas mais opulentas. Norte e sul. Podemos ir diminuindo o campo de visão, diminuí-lo a ponto de pouco mais restar para ver do que aquilo que se passa à nossa volta. Um bairro servirá de barómetro e tudo se revelará incompreensivelmente semelhante. Um bairro é um mundo. Sucede que num bairro o mundo aproxima-se-nos, deixamos de necessitar de intermediários para pintarmos a tela, as notícias que nos dão conta da extrema violência longínqua abeiram-se à ponta do nariz, o corpo treme com um medo incomparavelmente alienador, a doença ameaça tomar-nos conta da carne e a descida aos infernos transforma-se numa realidade que psicólogos e psiquiatras empenhados na catalogação dos males poderão enquadrar à medida das suas próprias aflições. Uma criança suicida-se porque é objecto de violência continuada. Homens e mulheres suicidam-se nos seus locais de trabalho porque são objecto de outras formas de violência continuada. Há quem não aguente a pressão, nem arrumado num escafandro sobrevivem esses cuja sensibilidade desce aos infernos a ponto de entrar em colapso. O diabo e seus demónios passam a ser metáfora apenas para quem assiste à descompensação, mas transformam-se numa indubitável e insustentável realidade, um terror que se apodera do corpo, um medo que domina e tudo torna possível. Até pactos com o diabo. Vem isto a propósito de Heartless, o filme de Phillip Ridley que arrecadou o Grande Prémio do Fantasporto deste ano, assim como prémios para melhor realização e melhor actor. Jim Sturgess interpreta um jovem que desce aos infernos para pactuar com Mefistófeles, numa versão pós-moderna de Fausto onde o velho estudioso é um jovem atormentado por um rosto manchado à nascença. O pacto metamorfosear-lhe-á o rosto, mas também o transformará num agressor, ou seja, em mais um desses demónios que contribuem para uma realidade negra, uma realidade onde já nem pela ambivalência o coração logra resistir, pois nesta realidade o inferno é mesmo o mundo do qual fazemos parte. De certa forma, podemos pensar que a personagem central do filme acaba por se entregar à morte. Vê-lo a ser consumido pelas chamas recoloca-nos no tal plano de ambivalência onde iniciámos a viagem. É que ver alguém a libertar-se do inferno, mesmo que abdicando da vida, não pode senão sugerir-nos algum consolo. Quanto ao filme, é assim-assim.

sexta-feira, 5 de março de 2010

POLEMISTA E POETA

A biografia de Pasolini é um manancial de processos, interrogatórios, denúncias, depoimentos, audiências, condenações, recursos, detenções, notificações, sentenças, transgressões, difamações, agressões, distúrbios, queixas, assaltos à mão armada… Foi acusado de tudo, condenado por actos obscenos, detido por embriaguez, condenado por transgressão rodoviária, por porte abusivo de pistola, acusado de corrupção de menores, de ultraje aos bons costumes, etc., etc., etc.. Apreenderam-lhe romances, filmes, agrediram-no, violentaram-no, mataram-no. Nasceu este demónio a 5 de Março de 1922, em Bolonha, filho de um militar e de uma professora. Por imperativo familiar, peregrina entre a cidade natal e Parma, Belluno, Conegliano… «A minha infância foi uma longa série de mudanças...» Em 1935, tem um irmão: Guido Alberto Pasolini, que acabará executado por um corpo de jugoslavos dissidentes. Pier Paolo faz a escola primária em Sacile, escreve poemas dedicados à mãe, alimenta um ódio visceral pelo pai, que olha para o filho como um pequeno génio em formação. «Antes, até aos quatro ou cinco anos, desenhava muito. Aos sete anos, na segunda classe, escrevia pequenos poemas sobre a natureza, as árvores, as flores, as aves; exprimia ingenuamente o meu afecto pela minha mãe. Por outro lado, foi precisamente a minha mãe que, ao escrever uma poesia que me dedicou, me revelou a possibilidade de escrever poesias». A aposta da família na educação de Pier Paolo Pasolini é clara. Apesar da itinerância, o jovem consegue completar os estudos secundários no liceu Galvani e licenciar-se em letras na Universidade de Bolonha. Em 1942, o pai é feito prisioneiro no Quénia, o resto da família refugia-se em Casarsa, Pasolini pulica, em edição de autor, o seu primeiro livro de poemas em dialecto friulano: Poesias a Casarsa. Tinha 20 anos. «Escrevia estes primeiros poemas friulanos em plena voga do hermetismo cujo mestre era Ungaretti. À margem de um certo simbolismo provincial, Montale empenhava-se em prolongar poetas como Eliot e Pound; em suma, todos os poetas herméticos viviam da ideia de que a linguagem da poesia era uma língua absoluta. (...) Com muita ingenuidade, decidi ser incompreensível e, para tal, escolhi o dialecto friulano. Era, para mim, o cúmulo do hermetismo, da obscuridade, da recusa de comunicação. Ora, aconteceu uma coisa pela qual não esperava. O uso deste dialecto proporcionou-me o gosto da vida e do realismo». Enquanto cumpria serviço militar em Livorno, o regime caiu e o poeta regressou a Casarsa. 1945 foi o ano da morte do irmão, membro da brigada Osoppe. Pasolini lecciona, funda a Academia de língua friulana, adere ao Partido Comunista Italiano, empenha-se politicamente em várias lutas, lê Gramsci, Marx. Por esta altura, escreveu os poemas que darão corpo a L’usignolo della Chiesa cattolica (1958). Mas em 1948, um padre de Casarsa convenceu a família de um jovem a apresentar queixa contra Pasolini. Este acabou condenado por desvio do menor. Na sequência, foi perseguido, envolveu-se em vários escândalos, abandonou o PCI e Casarsa. Roma será a próxima estação. Dois anos de desemprego quase o levaram ao suicídio. Disfarçava a miséria com os jovens subproletários dos «borgata». Conseguiu um lugar como professor em Ciampino, travou conhecimento com o escritor Giorgio Bassani e chegou ao mundo do cinema como argumentista. Estabeleceu-se, com a família, em Monteverde e continuou a publicar os seus poemas. Criou um jornal poético, Dal diario, colaborou com a revista Officina, editou o romance Ragazzi di vita, sobre as suas experiências com os tais jovens subproletários. O escândalo estava mais uma vez instalado, assim como a celebridade. O reconhecimento dos pares e a fama que chegou com o romance e se prolongou com o cinema só aguçaram o apetite das hienas: sucedem-se perseguições, processos por obscenidade, denúncias várias. Pasolini aproximou-se dos cristãos progressistas, aprofundou os seus conhecimentos sobre antigas civilizações, escreveu vários ensaios, proferiu conferências sempre rodeadas de enorme polémica. «Sem ter deixado de habitar Roma, posso dizer que vivi fora da cidade. Progressivamente, este apego transformou-se em ideologia e acabei por viajar frequentemente e por amar os países do Terceiro Mundo, com um amor rural irredutível. Viajei pela Índia, pelos países africanos, árabes... Por Marrocos, pela Síria, pela Turquia, etc..» A sua relevância nos meios culturais era cada vez mais notada. Com ela, os escândalos políticos, as contradições, as tentativas de conciliação, a luta e a necessidade de intervir, manchadas sucessivamente pelo desregramento emocional. «Luta contra todos os conformismos e todos os preconceitos, quer sejam de direita ou de esquerda. Redefine o fascismo e o anti-fascismo à luz da nova evolução social (a sociedade de consumo)». Ateu confesso, não deixava de negar uma forte inclinação para um certo misticismo. «Embora a minha visão do mundo seja religiosa, não acredito na divindade de Cristo». A colaboração com o Il Corriere della sera reaproximou-o do PCI, mas sempre com a desconfiança das alas conformistas. «De resto, escrevi no poema Una disperata vitalità que sou comunista porque sou conservador». A 2 de Novembro de 1975, Pier Paolo Pasolini apareceu morto numa praia de Óstia. Assassinato. A obra de Pasolini continuou a fazer o seu caminho: em Janeiro de 1976, Saló foi apreendido e o produtor Grimaldi acusado de comercializar publicações obscenas. Debaixo da terra, o cadáver defende-se: «Muitos nunca me perdoaram escrever entre eles, sem estar enfeudado a nenhum poder nem constrangido pela Lei da sobrevivência. O meu verdadeiro pecado, foi ter exercido o ofício de jornalista como polemista e poeta, na mais total insubordinação. Esta insubordinação, transferiram-na para o plano moral, e a homossexualidade tornou-se, por esta operação de transferência, o próprio princípio do mal».

Fonte: As Últimas Palavras de um Ímpio (conversas com Jean Duflot), trad. Isabel St. Aubyn, Distri Editora, 1985.

quinta-feira, 4 de março de 2010

AS RATAS (excerto)

Era uma pele de coelho, sem carne
Que me levou ao quarto pobre para me regalar:
A terra baldia que a Mr. Eliot parecia morte
Estimulou-me com paixão, vida e alento
Para prolongar por mais uma geração
Uma terra baldia satélite de veneração
Uma rolha, um bocado de osso, uma pedra
Não marcada em cartazes ou grandes estandartes
Para catapultar contra os conspiradores rodentes.

Ter-me-ia feito entender claramente?
Ata as tuas fitas a um novo mastro
De grupos guinchantes e rock-'n'-roll
Unindo tambores nativos a blues de terra baldia
Como bife de lombo a carne à jardineira,
Tudo serve para te sacudir a garganta e os pés
A feroz, feia, estranha derrota da morte
Que traz à vida e funde o grude
Que nos faz morrer como mezinha de bruxa.

...a britadora e turbo-broca que
Atravessa granito... como faca manteiga
(Devo seguir o nariz de M. Eliot
E rebitar este verso usando «Meiga»?)
Rock-a-bye-baby, chega à copa da árvore
Canta ao fazeres a colheita da maçã
Rouba todas as vozes truncadas de Ouarta-feira de Cinzas
Telefona ao Mardi-Gras para agarrar e partir:
Ata as fitas a um novo mastro.

A terra baldia foi o lugar onde melhor brinquei
Em miúdo ranhoso, de calção roto à pedrada:
De um quadro ferrugento e duas rodas de cama fiz
Uma bicicleta onde rodava e corria
Entre valados, por altos e baixos
E ferros-velhos anunciando «Armas para Espanha».
Uma pergunta de rata relampeja no ecrã:
«Como aprendeste a preencher requerimentos
E a atacar-nos com tempestades verbais?»

Li quase todo o pescador de girinos
O que Katy fez no seu primeiro Natal
O Conde de Monte Cristo, Notre Dame
A Ilha do Tesouro e a vergonha de Eliza
O esplêndido saque das casas de Usher
Por filantropos de rasgadas calças.

No inverno peles de coelho serviam bem
Para manter quentes as brasas desse conhecimento:

A terra baldia foi a minha biblioteca e faculdade.


Trad. Manuel de Seabra.



Romancista, dramaturgo, autor de livros infantis, Alan Sillitoe teve uma infância ensombrada pelas dificuldades económicas da família. Filho de Christopher Sillitoe e de Silvina Burton, gente humilde e iletrada da classe operária, Alan nasceu em Nottingham no dia 4 de Março de 1928. Obrigado a abandonar os estudos com apenas 14 anos, trabalhou como operário numa fábrica de bicicletas. Começou a escrever mais regularmente durante um internamento num hospital da RAF, após serviço militar cumprido na Malásia de onde trouxe uma tuberculose. Uma pequena pensão permitiu-lhe viver em França e na Espanha durante sete anos, onde foi recuperando da doença e intensificando o seu gosto pela literatura. Em 1951, conheceu a poeta norte-americana Ruth Fainlight que, apesar de se encontrar casada, resolveu acompanhar Sillitoe por França, Espanha e Itália, sobrevivendo ambos da pensão que o ex-militar auferia por serviços prestados à Royal Air Force. Em 1957 publicou o primeiro livro de poemas: Without Bear or Bread (fontes diversas apresentam The Rats and Other Poems, de 1960, como tendo sido o seu primeiro livro de poesia). Na ilha de Maiorca, travou conhecimento com Robert Graves, que o encorajou a escrever o romance Saturday Night and Sunday Morning (1958). O retrato da working-class de Nottingham foi um sucesso imediato, sendo posteriormente adaptado ao cinema. A escrita depurada e directa, mesmo vernacular, de Alan Sillitoe transformou-o num representante de uma espécie de neo-realismo britânico. Um ano depois da edição do primeiro romance, Alan Sillitoe casou com Ruth Fainlight. Embora a crítica nunca tenha sido generosa para o Sillitoe poeta, este fez sempre questão de afirmar esta sua condição como anterior à de ficcionista. Em 1963, passou algum tempo na União Soviética. O facto não é displicente, até porque terá contribuído para reforçar a catalogação do autor, embora contra desejo do próprio, como um dos «angry young men» que constituíam um grupo informal de escritores britânicos, provenientes das classes operária e média, entre os quais figurava John Osborne, autor de Look Back in Anger. Entre outros, foram-lhe atribuídos um Hawthornden Prize (1959) e várias condecorações académicas pela vastíssima obra publicada.

12 ANOS

O mundo é um viveiro de patinhos feios. As escolas estão cheias de patinhos feios. No mundo do trabalho, são tantos os patinhos feios que se nos torna difícil ver alguma beleza no mundo do trabalho. Os patinhos feios são agredidos por outros patinhos. No meu modo cá de ver, os patinhos que agridem são os mais feios de todos. Agridem, vão agredindo, complacente e impunemente. Os pais dos patinhos agressores não querem saber. Coisas de patinhos, dizem os patos e as patas, feios ou mais feios que feios, enterrando a cabeça nas águas turvas do descaso. Estar atento dá uma trabalheira danada. Deixem-nos pôr ovos descansadamente, chocá-los, não nos incomodem com brincadeiras de patinhos. Feios. Por vezes, os patinhos feios suicidam-se. Por vezes, antes de sequer terem aprendido a voar.

quarta-feira, 3 de março de 2010

PESCAR SOMBRAS

Tenho andado pela costa a pescar sombras. Se não entendeis, pensai nos lugares de descanso. Para lá chegar é preciso, primeiro, cansar os músculos. As virilhas ressentem-se, a idade começa a pesar, mas o coração aguenta sempre mais do que julgamos ser possível. Quem quiser, que perca o seu tempo com mesquinharias. Mas onde vai o corpo buscar a energia que falta ao espírito?


Às nuvens, talvez. Carregadas de um mar com asas. Ou ao sol, essa flecha que atravessa muros de treva para nos vir banhar os olhos ao mesmo tempo que mergulha na garganta de todos os medos. Ameaçado pela rouquidão da garganta revolteada, persigo as pegadas junto à rebentação. A espuma confunde-se com os dias. Quem quiser, que perca o seu tempo com mesquinharias. Ao longe, a realidade inclinada.

Ainda há quem desafie a natureza. Talvez com um respeito que nos tem faltado. Por isso nos espantamos, neste início de ano pavoroso, com a terra que treme, as fendas abertas no alcatrão, os corpos engolidos pela ferocidade das águas, todo um modo de vida arrastado pela lama para um outro lugar qualquer. Um lugar de silêncio, quem sabe? Quem quiser, que perca o seu tempo com mesquinharias.


De tudo o que tem acontecido, registe-se a beleza medonha que esta força imprime nas nossas parcas vidas. A qualquer instante comestíveis, somos alimento de velhos mitos, fantasmagorias acordadas, recuperadas, relembradas pela destruição e pelo pavor. No fundo, nada somos. Queremos pensar o contrário, mas a natureza vai-se encarregando de nos desmentir.

Praia do Salgado, Nazaré.

O SILÊNCIO DO CHANTAGISTA

Embora as pessoas valorizem o silêncio de um chantagista, e paguem por ele, o silêncio do chantagista não é uma actividade produtiva. As suas vítimas ficariam igualmente bem se o chantagista não existisse sequer e, portanto, não as ameaçasse. E não ficariam pior se se pensasse que a troca era absolutamente impossível. Na perspectiva que adoptamos aqui, quem vendesse tal silêncio podia legitimamente cobrar apenas o que omite pelo silêncio. Aquilo que ele omite não inclui o pagamento que poderia receber para se abster de revelar a sua informação, embora inclua os pagamentos que outros lhe fariam para revelar a informação. Assim, alguém que estivesse a escrever um livro, para cuja pesquisa se deparasse com informação acerca de outra pessoa, informação que caso fosse incluída no livro ajudaria nas vendas, pode cobrar a outro que deseja que esta informação seja mantida em segredo (incluindo à pessoa sobre quem incide a informação) para se abster de incluir essa informação no livro. Pode cobrar uma quantia em dinheiro igual à diferença esperada, em direitos de autor, entre o livro com esta informação e o livro sem a mesma; não pode cobrar o melhor preço que conseguiria obter ao comprador do seu silêncio. Os serviços de protecção são produtivos e beneficiam o seu destinatário, ao passo que a «extorsão de protecção» não é produtiva. Ao ser-nos vendida, por parte dos vigaristas, a mera abstenção destes em lesar-nos, a nossa situação não fica melhor do que se nada tivéssemos a ver com eles sequer.

Robert Nozick, in Anarquia, Estado e Utopia, trad. Vitor Guerreiro, Edições 70, Novembro de 2009, pp. 120-122. Justify Full



São imensos os exemplos históricos que corroboram a afirmação, mas também há daqueles que nos permitem justificar as relações entre os indivíduos num plano moral que ultrapassa a mera relação de deve e haver aqui exposta. Cobrar pelo silêncio é típico. O próprio Estado representa, muitas vezes, o papel do chantagista. Podemos, no entanto, supor uma situação em que nenhum dinheiro possa cobrar o silêncio. Aquele que se presta para dar com a língua nos dentes pode ter vários motivos a justificarem-lhe a intenção. O prestigio que advém, por exemplo, do crédito moral atribuído àqueles que se mostram corajosos e menos flexíveis perante ganhos imediatos. Outro ganho, de tipo kantiano, é aquele que resulta da própria prática do bem, embora eu esteja convencido de que há muito os indivíduos perderam esse sentido do dever que leva alguém a agir, não em benefício exclusivamente próprio, mas em benefício de todos, o que, em abstracto, significa agir exemplarmente. Pagar a um chantagista tem um significado menos formal: é pagar a dissimulação da verdade. No mundo em que vivemos, nada é tão lucrativo como a mentira. O problema está em que aqueles que lucram com a mentira penalizam de um modo impagável as vítimas do embuste. (Estou a lembrar-me da invasão do Iraque.) Quem são essas vítimas? Todos os que são prejudicados pela dissimulação da verdade.

terça-feira, 2 de março de 2010

ERVAS DANINHAS


Antes de morrer, o jardineiro compreendeu
quanto é inglório o esforço de erradicar
a desordem do mundo. Pela janela, viu
o canteiro pisado pelos cães, a sebe menos
simétrica, o musgo esverdeando a estátua,
o ancinho cedendo à ferrugem. Chamado
à pressa para a extrema-unção, o padre
nunca mais esqueceu aquela última frase.
«Afinal, as ervas mais formosas eram
as daninhas», disse. Ainda hoje a sua
campa parece uma pequena selva onde
nunca entraram sementes ou flores.

José Mário Silva, in Nuvens & Labirintos, Gótica, Outubro de 2001, p. 79.


E o José Mário Silva nasceu a 2 de Março de 1972. É um tipo porreiro. O resto podem ler aqui.

LÁ FORA



Michael Schmidt nasceu na Cidade do México a 2 de Março de 1947. Antes de se fixar em Inglaterra, estudou em Harvard e Oxford. Fundador e director editorial da Carcanet Press, que começou por publicar panfletos no termo da década de 1960, dirige igualmente a revista Poetry Nation (PN Review), fundada em 1973, quando o poeta era Gulbenkian Fellow of Poetry no Manchester Poetry Centre. Professor de poesia na Universidade de Glasgow, destacou-se como crítico e ensaísta. Organizou diversas antologias. Em 2006, recebeu um OBE por, escutem bem, «services to poetry and higher education». Isto é possível. O seu projecto mais ambicioso talvez tenha sido uma História da Poesia. É também autor de dois romances. O vídeo acima é de uma leitura em homenagem ao poeta irlandês Thomas Kinsella. Um poema:


PROSTITUTAS ÍNDIAS

Guarda-sóis verdes tornam as mulheres em folhas.
O betão onde andam guarda um rastro
De sombra perfumada. Entre os peitos
Trazem sacos de moedas.

Ódio à asa de ave e à sua sombra,
flecha no ar, arqueiro
e o sol. Amar o céu
abandonado: azul que leva histórias como pó
e arrasta folhas como estas mulheres índias.

Podiam encarnar as estátuas castanhas
enterradas em verde. À luz da neve os seus ancestros
beberam sangue com as águias da sierra,
rudemente devoraram o coração de cactos
e homens. Estas são suas filhas inocentes.

Falta de bailadeiras na última cinza. Nunca
recordaram e nunca dormem sós. Uma nova página,
sorrisos em verde, e cânhamo aninha onde herdeiros
nascem sem o mínimo fogo.



Michael Schmidt, in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, org./trad. Manuel de Seabra, Livros Horizonte, Junho de 1982, p. 132.

A BUCHA

Lembrei-me agora que ainda não comi nada e já só me restam 212,84€. A ventania está de volta, ameaça arrancar-me os estores da casa. Espero que não faça estragos. Falta-me orçamento para reparações e não tenho seguro. O meu seguro, nestas ocasiões, é a oração. Mas a verdade é que nem um ateu que reza vive de se alimentar à base de mezinhas. Portanto, há que enganar o estômago com uma bucha. Arrumemos a um canto o subsídio de alimentação. Não interessa para aqui. É justo, tendo em conta que não tenho feito as contas ao orçamento contando com os encargos paternos. Imaginemos, pois, que as duas filhas não comem ou que se alimentam à base de ervilhas. Façamos antes de conta que elas não existem, que não farão parte das nossas preocupações orçamentais. Podemos assim esquecer toda uma série de despesas que nem convém lembrar, para bem da nossa saúde mental. Alimentação, roupa, escola, lazer, higiene. Higienizemos o orçamento pela tabela da vida solitária. Por uma vez na vida, a família ficará no saco. Portanto, restam-me 212,84€ para comer. Sendo eu um homem de peso, poderá o leitor supor que sou igualmente um desses escravos do alimento que reclamam por tudo e por nada. A verdade é que o meu estômago vive bem com pouco, ainda que pouco por vezes pareça muito e, noutras ocasiões, nos faça pensar que andamos perto de nada. De quando em vez, cometo umas loucuras. Mariscada na Nazaré, bacalhau à campino no Guisado, bife da vazia na Portugália, uma imperial e uma chamuça numa esplanada qualquer. É raro. Regra geral, desenrasco a fome com o que está à mão. Vou então supor que 6€ por dia me chegam perfeitamente para pequeno-almoço, almoço e jantar. Nada de lanches nem de ceias, que o estômago, não estando danificado, dificilmente resistiria a dietas mais exigentes. 6€ por dia. Parece-me uma diária razoável e justa. Multiplicamos por 30 dias e obtemos a módica quantia de 180€. Subtraído este valor aos 212,84€ que nos restavam, ficamos com 32,84€. Uma fortuna que ainda terá de chegar para as receitas médicas, para o MEO, para o cinema, o teatro, a ópera, para as estadias em hotéis de luxo sempre que viajamos, porque nos fartamos de viajar, uma fortuna que teremos de aprender a multiplicar se quisermos, sei lá, mudar as lâmpadas do tecto, as pilhas dos comandos, comprar toalhas, artigos de limpeza, incenso, uma fortuna que terá de ser distribuída, com lógica e propriedade, pelas carências de satisfação mais premente. O cão pode morrer à fome. E não se admirem se tivermos os dentes estragados. Com um ordenado destes, quem consegue pagar a um dentista?

MÁQUINA DE EXPERIÊNCIAS

Suponhamos que havia uma máquina de experiências que proporcionaria ao leitor a experiência que desejasse. Neuropsicólogos superfixes podiam estimular o seu cérebro de maneira a pensar e sentir que escrevia um grande romance, fazia uma amigo, ou lia um livro interessante. Durante todo o tempo, estaria a flutuar numa cuba, com eléctrodos ligados ao cérebro. Dever-se-ia ligar esta máquina durante toda a vida, pré-programando as suas experiências de vida? Se está preocupado com a perda de experiências desejáveis, podemos supor que as empresas investigaram exaustivamente a vida de muitos outros. O leitor pode escolher a partir da sua imensa biblioteca ou bufete dessas experiências, seleccionando as suas experiências de vida para, digamos, os dois anos seguintes. Após dois anos, poderia passar dez minutos ou dez horas fora da cuba, para seleccionar as experiências dos seus dois anos seguintes. Evidentemente, enquanto está na cuba não saberá que ali está; pensará que tudo aquilo acontece efectivamente. Os outros podem também ligar-se e ter as experiências que quiserem, pelo que não há necessidade de estar desligado para os servir. (Ignore problemas como o de saber quem cuidará das máquinas se todos se ligarem.) Ligar-se-ia? O que mais pode ter importância para nós, além do modo como são as nossas vidas a partir de dentro?

Robert Nozick, in Anarquia, Estado e Utopia, trad. Vitor Guerreiro, Edições 70, Novembro de 2009, pp. 74-75.

Há poetas que escrevem como se estivessem ligados a uma destas máquinas. Outros parecem eles próprios máquinas de experiências. Os meus preferidos são apenas e tão só aqueles que escrevem em busca de uma resposta para a questão final. Possivelmente desconfiando que tal resposta não exista, não deixam de tentar. Porquê? Talvez por terem entendido que melhor do que a previsibilidade dos dias é sermos brindados pelos acidentes. E, por isso, experienciam não de um modo maquinal, mas de um modo que lhes permita continuar a pensar que vale a pena, mesmo que não valha, continuar a experienciar.

segunda-feira, 1 de março de 2010

MORREU AGARRADO A UM RETRATO

Girl in Bed (1952), de Lucian Freud

OS AMIGOS CHAMAVAM-LHE CAL


Filho de um ilustre oficial da marinha, Robert Lowell nasceu em Boston no dia 1 de Março de 1917. Os primeiros estudos foram feitos na St. Mark's School, onde foi aluno do poeta Richard Eberhart. Os amigos chamavam-lhe Cal, do imperador Calígula e de Caliban, personagem d’A Tempestade, de Shakespeare. Terminados os estudos em St. Marks, ingressou num curso de Literatura Inglesa em Harvard. Aí conheceu Robert Frost, um dos mais relevantes poetas norte-americanos. Pediu-lhe opinião sobre um poema que havia escrito e obteve óptimas referências. Lowell tornou-se amigo próximo de Frost, acabando este por ajudá-lo em várias ocasiões. Nos últimos anos da década de 1930, os pais de Lowell mostraram-se descontentes com a relação que o filho mantinha com a escritora Jean Stafford. Lowell cortou relações com a família e casou com Jean. À época, alguns problemas de saúde começaram a evidenciar-se no poeta. Sobre aconselhamento psiquiátrico, transferira-se para o Ohio, onde estudou poesia e crítica com John Crowe Ransom. No Kenyon College travou também conhecimento com Peter Taylor e Randall Jarrell, de quem se tornaria grande amigo. A 8 de Setembro de 1943, enviou uma carta ao Presidente Roosevelt recusando-se a servir nas Forças Armadas. A ousadia levou-o às grades durante um ano. O primeiro livro, de cariz autobiográfico, aparecerá em 1944: Land of Unlikeness. Dois anos depois, venceu o Pulitzer com Lord Weary’s Castle. Thoreau e Melville eram influências assumidas. Em 1948, Robert Lowell divorciou-se de Jean Stafford. Os problemas de saúde tinham-se agravado. As primeiras crises psiquiátricas permitiram traçar o diagnóstico: maníaco-depressivo (ou perturbação bipolar, se preferirem). O poeta iniciou uma relação com Elisabeth Hardwick, com quem casou em 1949, mas, passados dois anos, apaixonou-se por Elizabet Bishop. Os dois manterão correspondência até à morte de Lowell. Entre outras, uma mancha no currículo: apoiou Joe McCarthy na perseguição aos comunistas. Viajou, na companhia da mulher, por Florença, Amesterdão, Bruxelas e Paris. A sua poesia era reconhecida e premiada, o poeta foi convidado a leccionar no Salzburg Seminar, onde sofrerá mais uma crise. Tratamentos com electrochoques não resolveram o problema. Regressou a Boston em 1954, ano em que a sua mãe faleceu. A segunda metade dos anos 50 será de trabalho académico, traduções de autores clássicos, entre outros. A 4 de Janeiro de 1957 nasceu-lhe a filha Harriet. As crises psiquiátricas e consecutivos internamentos não desaparecerão. Com Life Studies, em 1959, recebeu o National Book Award. No entanto, a década de 1960 será de empenho civil. Manifestou-se contrário ao envolvimento dos americanos no Vietname e recusou participar no White House Festival of the Arts, subscrevendo um abaixo-assinado contra a guerra e participando na marcha sobre o Pentágono. Em 1970, partiu para Inglaterra. Afastou-se de Elisabeth Hardwick e aproximou-se de Lady Caroline Blackwood, ex-mulher do pintor Lucian Freud, com quem virá a casar e de quem terá um filho, Sheridan. Na Primavera de 1975, sofreu alguns problemas cardíacos. A morte torna-se uma obsessão que se transformará numa realidade a 12 de Setembro de 1978, durante uma viagem de táxi. Diz-se que morreu agarrado a um retrato de Caroline Blackwood pintado por Lucian Freud, quando tentava regressar para junto de Elisabeth Hardwick e da sua filha Harriet:

MARIDO E MULHER

Domesticados pelo
Miltown, estamos deitados na cama da Mãe;
o sol, despontando em pinturas de guerra, tinge-nos de vermelho;
à plena luz do dia, as colunas doiradas da cama brilham,
abandonadas, quase dionisíacas.
As árvores estão finalmente verdes em Marlborough Street,
as flores desabrochando na nossa magnólia inflamam
a manhã com um branco mortífero de cinco dias.
Durante toda a noite segurei a tua mão,
como se tivesses
enfrentado pela quarta vez o reino dos loucos ─
o seu discurso banal, o seu olhar homicida ─
e me tivesses arrastado para casa vivo… Oh, minha
Petite,
a mais lúcida de todas as criaturas de Deus, toda ela ainda ar e vigor:
estavas nos teus vinte anos, e eu,
com um copo na mão
e o coração na boca,
esvaziei os
Rahvs no calor
de Greenwich Village, desmaiando a teus pés
demasiado agitado e tímido,
com uma expressão demasiado impassível para namorar,
enquanto o insistente entusiasmo
da tua invectiva feria o Sul tradicional.

Agora, doze anos depois, voltas as costas.
Sem sono, anichaste-te
à almofada como uma criança,
a tua tirada fora de moda ─
terna, rápida, implacável ─
irrompe como o Oceano Atlântico na minha cabeça.


Robert Lowell, in Aos Mortos da União e Outros Poemas, trad. Mário Avelar, Assírio & Alvim, Abril de 1993, pp. 37-39. Nota do editor: «Miltown» é um tranquilizante. «Rahvs» é uma referência ao crítico Philip Rahv, editor da Partisan Review, e à sua mulher. Na imagem: Robert Lowell , Elisabeth Hardwick e Harriet Lowell.

MARÇO

Para começar bem o mês, nada como uns epigramas do ibérico Marcial. Há quem diga que nasceu a 1 de Março, cerca de 40 d.C.. Viveu em Roma e deixou 12 livros de epigramas, dos quais deixamos aqui três eloquentes exemplos:

Lamentas, Cornélio, que os meus versos
sejam pouco sérios, nada a gosto do mestre-escola.
mas livros destes, tal como o marido à mulher,
não satisfazem se não for com a pissa.
queres celebrar núpcias sem usar
as palavras que lhe pertencem?
alguém aboliria o nu nas Florálias,
e greve túnica às putas imporia?
é natural que poemas prazenteiros
não consigam dar gozo
se não provocarem certas comichões.
deixa-te portanto de rigores, absolve
o jogo e o divertimento. Não me castres,
peço-te, os meus livros.
Príapo sem colhões nunca se viu
.

*

Tens um rosto a que nem as mulheres são capazes
de pôr defeito, tens um corpinho sem mácula,
e não te admira que seja tão raro desejarem-te,
para não dizer repetirem? Galla, tens um defeito
de bradar! sempre que eu meti mãos e empernámos,
a tua cona não se calou, e tu calada.
provesse aos deuses que falasses tu, não ela,
que é gorjeio que não agrada.
antes te peidasses: como diz Símaco
tem a vantagem de nos fazer rir.
mas quem ri com os peidos vaginais?
a quem não cai ali mesmo tudo ao chão?
diz qualquer coisa que abafe a palradora,
e, se és muda, aprende com ela a falar.


*

Apanhaste-me, mulher, a enrabar um rapaz,
e alto e bom som disseste que também tinhas cu.
não o dizia assim mesmo Juno ao lascivo Júpiter,
que não deixava de se deitar com Ganimedes já crescidinho?
e quando Hércules, em vez do arco, vergava Hilas
achas que Mégara não tinha nádegas?
a fugitiva Dafne fazia os ardores de Apolo:
quem lhe apagou o fogo? um rapaz espartano.
Briseida nunca se negava de costas, mas Aquiles
preferia o doce amigo.
Por isso, mulher, poupa termos masculinos
para isso que aí tens: não é cu, são duas conas.


Marcial, traduzido por Alberto Pimenta, in Telhados de Vidro, n.º7, Averno, Novembro de 2006, pp. 51-57.