
«Esperamos que a vossa experiência de leitura possa ser tão desconcertante como foi a nossa tentativa de tradução – à falta de melhor palavra para uma prática poética que puxaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa a linguagem até ao limite» (p. 7). O desejo formulado por John Havelda, Isabel Patim e Manuel Portela, organizadores e tradutores de pullllllllllllllllllllllllll (Antígona, Fevereiro de 2010), pode servir de mote para algumas questões sempre associadas a um trabalho como é aquele que ora nos ocupa. Antes de mais, um exemplo inócuo e, provavelmente, irrelevante aos olhos de alguns leitores: o título da antologia é dinâmico. pullllllllllllllllllllllllll, uma espécie de neologismo, aparece grafado ora com 26 éles (no miolo), ora com 12 (na lombada), ora com 11 (na capa, se não tivermos em conta o saca-rolhas). O número é indiferente, mas não deixa de ser curiosa esta confrontação imediata com uma intenção subjacente a toda a poesia aqui reunida, ou seja, a de se jogar com a linguagem a ponto de tornar o significado e o sentido elementos secundários na concepção do poema. Importará mais a sugestão de uma ideia, de uma imagem, ou a exploração do ritmo e da musicalidade nas suas dimensões menos constrangidas, do que submeter a palavra a uma eventual mensagem cuja comunicabilidade é sempre discutível e radicalmente subjectiva. Isto, apesar das normas e das regras gramaticais, sintácticas, ortográficas.
Os autores coligidos podem não parecer preocupados com o que têm para dizer, pelo menos não tanto como parecem empenhados na experimentação do dizer ele mesmo – subvertendo as regras, minando a gramática, armadilhando as normas, jogando, espartilhando a morfologia da palavra. Isto não significa um radical esvaziamento de sentido, apenas e tão-só que o sentido advém de uma predisposição para a plasticidade e para a elasticidade do dizer. A poesia é colocada numa situação-limite que pode inspirar desconfiança ou, se pensarmos em práticas de leitura mais conservadores, pode resultar num desprezo que negará a própria existência de poesia, independentemente do que entendamos sobre tal conceito, nas práticas poéticas levadas a cabo por estes autores. São treze e nem todos canadianos de origem. Robin Blaser (1925-2009), por exemplo, nasceu em Denver, Colorado, e só em 1972 obteve cidadania canadiana. É também o mais velho dos antologiados e o único que, à data em que escrevo, já faleceu. A este se juntam Robert Kroetsch (1927), Fred Wah (1939), Roy Miki (1942), bpNichol (1944), Dennis Cooley (1944), Steve McCaffery (1947), nascido em Sheffield, Inglaterra, Dionne Brand (1953), emigrada para o Canadá em 1970, mas nascida em Guayguayare, Trinidad, Erín Moure (1955), Karen Mac Cormack (1956), nascida na Zâmbia, Jeff Derksen (1958), Lisa Robertson (1961) e Christian Bök (1966).
Cada qual com as suas idiossincrasias, ligam-se pela tendência para a experimentação poética e pela recusa da fossilização discursiva que caracteriza a poesia dita mais acessível ou, pelo menos, mais convencional. Mas ligam-se igualmente por outros aspectos não tão evidentes. Nota-se, por exemplo, uma certa inclinação para polvilhar a explosão poética com elementos oriundos de outras artes ou ciências: da zoologia à geologia, da geografia à economia, da política à história, etc. Erín Moure, a título de exemplo, enraíza a criação poética no trabalho de tradução, chamando ao palco vozes tão diversas como as de Alberto Caeiro, Jean-Luc Nancy, Judith Butler, Lévinas, Aristides Sousa Mendes, Clarice Lispector, entre outros. A intenção não deixa margem para dúvidas: «Desfazer o conceito do “eu” como observadora não autoconsciente no poema, como “voz poética”. Que se dane a voz poética» (p. 221). Daqui à produção do acaso, das composições de cariz mais visual a outras filiadas na chamada poesia sonora, é precisamente o eu lírico quem acaba mais maltratado. No entanto, a corrosão do lirismo não é um fim em si mesmo. Note-se como não deixando de ser algo líricos, os poemas de Dionne Brand armadilham esses resquícios de lirismo assumindo na sua vertente política uma interrogação dos limites da linguagem: «O que eu digo em qualquer língua é dito com perfeito / conhecimento da pele, em embriaguez e pranto, / dito como uma mulher sem fósforos e mecha, não em / palavras e em palavras e em palavras decoradas, / contadas em segredo e sem ser em segredo, e escuta, não / se extingue nem desaparece e é abundante e impiedoso e ama» (p. 53).
Palavras decoradas ou decorativas, certo é que encontramos nestes poemas uma constante interrogação do sentido. Talvez o poema (A) Diferença Faz-se, de Fred Wah, seja, pelo que foi afirmado, o mais representativo da antologia: «Dizer: “Não percebo o que isto significa” é, pelo menos, reconhecer que / “isto” significa. O problema é que o sentido não é uma totalidade de / igualdade e previsibilidade» (p. 277). A problematização do poético e a sua aparente imprevisibilidade acaba por ser o que de mais resistente encontro nestas práticas poéticas, pelo que sou levado a concluir ser esta apenas mais uma das diversas formas do fazer poético que redundará sempre numa vontade de conhecer o mundo para lá da sua aparente cognoscibilidade. A questão é que talvez a palavra não tenha mesmo nada a dizer. Antes de terminar, alguns aspectos de organização que importa sublinhar, até pela relevância que assumem numa obra deste tipo: a edição é bilingue, permitindo um acesso directo aos textos originais e uma confrontação com as versões portuguesas que, diga-se em abono da verdade, são, pela dificuldade das propostas, geralmente meritórias; cada autor tem direito a notas biobibliográficas com todas as referências necessárias para um melhor enquadramento dos trabalhos seleccionados, assim como menção a sítios na Web que poderão abrir portas sobre as obras em causa; acrescentam-se ainda breves citações de cada um dos autores, esclarecedoras do entendimento que cada um construiu sobre as suas próprias produções. Um mimo, portanto, para os adeptos da poesia experimental.