domingo, 2 de maio de 2010

«FOI POR AMOR QUE ODIEI»


Em 1846, tinha eu dezassete anos de idade, fui admitido no conselho dos guerreiros. Fiquei muito feliz, porque já podia ir onde me apetecesse e fazer o que quisesse. Eu nunca estivera sob o controlo de nenhum indivíduo, mas os costumes da nossa tribo proibiam-me de partilhar das glórias da guerra até ser admitido pelo conselho. Depois disto, e quando a oportunidade se apresentasse, eu poderia ir para a guerra com a minha tribo. Seria glorioso. Eu ansiava por servir o meu povo em combate. Há muito que desejava combater ao lado dos nossos guerreiros.
Mas talvez o que me dava maior alegria era o facto de já poder casar com a bela Alope, filha de No-po-so. Era uma rapariga esguia e delicada, e há muito que éramos amantes. Assim, logo que o conselho me concedeu estes privilégios, fui falar com o seu pai sobre o casamento. Talvez o nosso amor não lhe interessasse, ou talvez quisesse conservar Alope consigo, porque ela era uma filha obediente. Fosse como fosse, pediu muitos póneis por ela. Não lhe respondi, e passados poucos dias apareci à frente do seu
wigwam com a manada de póneis e levei Alope comigo. Na nossa tribo, não era necessária mais nenhuma cerimónia de casamento.
Não longe do
tipi de minha mãe, eu construíra uma nova casa para nós. O tipi era feito de peles de búfalo, e lá dentro tinha muitas peles de urso e leão e outros troféus de caça, bem como as minhas lanças, arcos e flechas. Alope fizera muitos adornozinhos com contas e peles de veado desenhadas, e decorou o nosso tipi com eles. Também fez muitas pinturas nas paredes da nossa casa. Era uma boa esposa, mas nunca foi robusta. Seguíamos as tradições dos nossos pais, e éramos felizes. Tivemos três filhos ─ crianças que brincavam, mandriavam ou trabalhavam como eu fizera.
No Verão de 1858, quando estávamos em paz com as cidades mexicanas e todas as tribos índias vizinhas, fomos para sul, para o Velho México, para comerciar. Toda a tribo (Apaches Bedonkohe) passou por Sonora em direcção ao nosso destino, Casa Grande, mas antes de chegarmos a este lugar parámos noutra cidade mexicana, à qual os índios chamam «Kas-ki-yeh». Ali permanecemos vários dias, acampados fora da cidade. Íamos todos os dias à cidade para comerciar, deixando o nosso acampamento ao cuidado de uma pequena guarda que, enquanto estávamos ausentes, protegia as nossas armas, os mantimentos, as mulheres e as crianças.
Um dia, ao fim da tarde, quando regressávamos da cidade, vieram ao nosso encontro algumas mulheres e crianças que nos disseram que tropas mexicanas de outra cidade tinham atacado o acampamento, matando os guerreiros de guarda, capturando todos os póneis, apoderando-se das armas, destruindo os mantimentos e matando muitas das mulheres e crianças. Separámo-nos rapidamente e escondemo-nos o melhor que pudemos até ao cair da noite, altura em que nos reunimos num local pré-estabelecido ─ um matagal, junto ao rio. Regressámos silenciosamente ao acampamento, um de cada vez, e postámos sentinelas. Depois de contados os sobreviventes, descobri que a minha velha mãe, a minha jovem esposa e os meus três filhos estavam entre os mortos. Como não havia fogueiras no acampamento, afastei-me silenciosamente e fui para junto do rio. Não sei quanto tempo lá permaneci, mas quando vi os guerreiros preparando-se para um conselho, tomei o meu lugar.
Nessa noite, não votei contra nem a favor de nenhuma medida, mas chegou-se à conclusão de que não nos poderíamos sair vencedores de um combate: restavam apenas oitenta guerreiros, tínhamos ficado sem armas e mantimentos, e estávamos cercados pelos Mexicanos no interior do seu território. Assim, o nosso chefe, Mangus-Colorado, deu ordens para partirmos imediatamente e no mais absoluto silêncio para as nossas terras do Arizona, deixando os mortos no terreno.
Ali fiquei, de pé, enquanto todos dispersavam, sem saber o que fazer ─ não tinha armas nem queria lutar, e também não pensava em recuperar os cadáveres dos meus entes queridos, porque era proibido. Não rezei nem decidi fazer nada em particular, pois já nada fazia sentido para mim. Por fim, segui silenciosamente a tribo, mantendo-me apenas à distância suficiente para ouvir o arrastar dos pés dos Apaches em retirada.
Na manhã seguinte, alguns índios caçaram uma pequena quantidade de presas, e nós parámos o tempo suficiente para a tribo cozinhar e comer, e depois retomámos a marcha. Como eu não tinha caçado, não comi. Durante a primeira marcha e enquanto estivemos acampados neste lugar, não falei com ninguém nem ninguém falou comigo ─ nada havia a dizer.
Durante dois dias e três noites fizemos marchas forçadas, parando apenas para as refeições. Depois, acampámos perto da fronteira mexicana, onde descansámos dois dias. Foi aqui que ingeri alguns alimentos e falei com os outros índios que tinham perdido entes queridos no massacre, mas ninguém perdera tanto como eu, porque eu tinha perdido tudo.
Passados alguns dias, chegámos à nossa aldeia. Lá estavam as decorações que Alope fizera ─ e os brinquedos dos nossos pequenitos. Queimei tudo, incluindo o
tipi. Também incendiei o tipi de minha mãe, e destruí todos os seus haveres.
Nunca mais fui feliz na nossa tranquila aldeia. É verdade que podia visitar a sepultura de meu pai, mas eu jurara vingança contra os Mexicanos que me tinham injustiçado, e sempre que me aproximava do seu túmulo ou via algo que me fazia recordar os antigos dias de felicidade, o meu coração ansiava por vingança contra o México.


Geronimo, in Geronimo e os Apaches ─ Autobiografia do Último Chefe Índio, trad. Miguel Mata, estudo introdutório de António N. Marcos Andrade, Edições Sílabo, 2005, pp. 66-72.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

GERONIMO

Não posso acreditar que somos inúteis, de outra forma Usen não nos teria criado.
Geronimo


Não sendo exemplar, a história de Geronimo é um excelente exemplo. Nasceu numa família de origem Bedonkohe da tribo dos Chiricahuas, Apaches do sudoeste norte-americano que levavam uma vida semi-nómada entre o Grand Canyon (Norte) e a fronteira com o México (Sul). Não admira, pois, que os seus principais inimigos fossem os mexicanos e a tribo Comanche. Curiosamente, tanto Comanche como Apache significam inimigo. Comanche significa, mais propriamente, «aqueles que são contra nós» e a designação Apache deriva de Apachu (inimigo em língua zuñi). Geronimo distinguiu-se entre os demais por ter sido um guerreiro intransigente e um líder inconformista. Entre os seus, ascendeu a xamã: uma espécie de curandeiro a quem cabia, entre outras tarefas, planear e comandar os diversos combates. Entalados entre os mexicanos e os colonos dos incipientes Estados Unidos, os Apaches foram combatendo pelo seu direito ao território como puderam e sabiam. Rendiam-se, fugiam das reservas, voltavam a combater, voltavam a render-se. Vendo os seus companheiros progressivamente convertidos à civilização branca, Geronimo sentiu-se cansado, tornou-se agricultor, aderiu ao cristianismo da reforma holandesa (acabou por ser expulso) e foi vendendo a sua imagem por feiras e exposições. Dava autógrafos, produzia arcos e flechas que depois vendia. Era uma espécie de gorila enjaulado para delícia e espanto dos visitantes do jardim zoológico que o capturara. Morreu na sequência de uma bebedeira que apanhou com o dinheiro adquirido durante uma dessas dignificantes, civilizadas e cultas exposições.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

QUARTO SOLITÁRIO

Se te atreveres a surpreender
a verdade desta velha parede;
e as suas fissuras, fendas,
formando rostos, esfinges,
mãos, clepsidras,
seguramente virá
uma presença para a tua sede,
provavelmente partirá
esta ausência que te bebe.

Versão de HMBF.




Conta quem julga saber que Alejandra Pizarnik nasceu no dia 29 de Abril de 1936, filha de judeus russos emigrados nos subúrbios de Buenos Aires. Diz-se por aí que não teve vida fácil. Problemas de acne e tendência para engordar ter-lhe-ão abalado a auto-estima. Refugiou-se nas anfetaminas e na poesia, receitas pouco aconselháveis a personalidades demasiado sensíveis. La tierra más ajena (1955), o primeiro livro de poemas, praticamente coincidiu com a entrada para a Universidade de Buenos Aires. Estudos de Filosofia, Jornalismo e Letras foram sendo interrompidos por interesses de ordem estética. Estudou pintura sob tutela de Juan Batlle Planas. Partiu para Paris em 1960, aí tendo ficado até 1964. Na capital francesa, trabalhou para o jornal Cuadernos, traduziu vários autores, participou na cena literária local, frequentou alguns cursos na Sorbonne. De regresso à Argentina natal, continuou a publicar a sua obra e obteve duas bolsas que lhe permitiram sobreviver até à estocada derradeira. No dia 25 de Setembro de 1972 sucumbiu à depressão ingerindo uma dose excessiva de barbitúricos. Diz-se que, antes de morrer, maquilhou as bonecas que lhe faziam companhia à solidão.

P.S.: o fantasma de Alejandra Pizarnik aparece frequentemente, e bem, na casa da lebre. Aqui.

quarta-feira, 28 de abril de 2010



Sempre fumei com muito juizinho, isto é, socorrendo-me dos ensinamentos dos mestres para não ser apanhado pela armadilha da degenerescência. Aquele que recorre a um veneno para pensar, depressa deixará de poder pensar sem veneno. (Baudelaire) Com o álcool tenho uma relação semelhante, ainda que aprecie, de quando em vez, um certo tipo de abuso que me leve a acreditar ser a terra as águas sobre as quais Cristo caminha. No entanto, convenço-me cada vez mais que nenhuma droga me fez tanto mal até hoje como a droga da Filosofia. Se pudesse voltar atrás, nunca tinha lido a maioria desses estupores que fui obrigado a ler durante um curso que só me serve para fundamentar algo que não carece de qualquer fundamento: a vida é uma absurda e inútil jornada que a todo o momento nos reivindica uma justificação para estarmos vivos. Seguir caminho embriagado parece-me uma justificação tão clarividente como outra qualquer.

terça-feira, 27 de abril de 2010

MOTIVOS

Motivado por não sei que raiva, o corpo pede-me que caminhe mais do que seria suposto caminhar num dia de solidão igual aos outros. Contorno as curvas da enseada, finto as ondas pelo caminho, persigo pegadas que me levarão onde há muito não vou, por há muito ter deixado de ir para onde em tempos o vento me empurrava. Sinto o corpo enterrar-se na areia húmida, tanto quanto o sinto levantar-se para a fortuita caminhada.
Subo a duna do outro lado onde a baía se transforma em rio, a duna que separa a terra do oceano, subo-a pausadamente, porque o coração ganha mãos e esmurra o peito. Talvez queira libertar-se da caixa, da ossatura repressiva, talvez deseje saltar para fora do lado esquerdo do peito. E chegado ao cume, respiro a frescura da resina, perco-me entre os pinheiros, tento orientar-me numa direcção que contradiga as placas, no sentido inverso dos sinais. Distanciar-me o suficiente dos outros, para que me sinta mais próximo de mim.

Afasto enxames de abelhas, desfaço criminosamente as geométricas moradas das aranhas, desvio-me das varejeiras que se saciam em carcaça morta. Subo, desço, atropelo as sombras com a esperança de escutar a maresia fresca que me há-de trazer aos lábios o descanso da civilização. É preciso meter com cuidado o pé nas analogias, mas não consigo evitar a lembrança quando ao fundo avisto a ruína e o farol:

Aqui, penso muitas vezes em duas personagens.
Uma delas é John Meikle Gibb que, lá longe, na Escócia do século XVIII, queimou a bíblia num acesso de entusiasmo e foi condenado à morte, acabando todavia por ser deportado para a América, onde se juntou aos Índios e se tornou xamane.
A outra é o conde Henri de Puyjalon, que trocou o seu Bordelais natal pelo Canadá, acabou como faroleiro numa ilha ao largo de Mingan, e falou, no seu Diário do Labrador, do prazer de viver só, «longe dos imbecis e, sobretudo, longe das pessoas de espírito».
Um xamane é um faroleiro.
(Kenneth White)

Aqui chegado, deixo-me cair para trás, estico as pernas, acendo um cigarro, fecho os olhos. Ouço as gaivotas lá no alto, uma avioneta que lhes sombreia o voo. Sobre o rosto cai um ar que sabe a sal, o vento levanta-o das vagas, leva-o ao alto, para depois o deixar cair sobre a terra, sobre o nosso corpo. Trouxe na mão um livro de poemas: «conservamos ainda as ruínas dos templos fantasmas de jardins de casas / se tivéssemos perdido as ruínas teríamos ficado sem nada» (Zbigniew Herbert). Ando sempre com livros de poemas atrás.


No regresso, já pelos passadiços civilizacionais do turismo emergente, penso nesses antepassados cujo futuro preocupa o coração da minha filha. Não sei como chegámos a isto. Cinco anos de um curso de Filosofia não me serviram senão para perceber que em cada edifício teórico há uma tentativa aberrante de sistematizar a nossa evidente insignificância. O Deus que os homens parafrasearam ter-nos-á mandado dominar a natureza, mas em nenhuma circunstância logro encontrar um só vestígio desse domínio. Os poemas, as teorias, as ideias, tudo isso eu encontro mais nas rugas das pedras, no lodo das rochas, nas pegadas que me levam acidentalmente onde estou, do que nos livros que vou trazendo pela mão para onde quer que vá.


Para a Solange.
Para o Daniel Ricardo Barbosa.

PRESENTE

Só de pensar no futuro dos nossos antepassados...
Matilde

segunda-feira, 26 de abril de 2010

CORREIOS

Se há escritores cujo nome se transformou num conceito, Charles Bukowski (n. 1920 – m. 1994) é um deles. Designar algo de bukowskiano pode significar muita coisa, mais ainda se tivermos, como muitos leitores terão, uma ideia mitológica do homem. Se assim for, arriscamo-nos a contaminar a leitura com o mito. Nos tempos que correm, ressaca dos tempos que Charles Bukowski viveu, o mito alimenta-se da iconografia disponível. Uma coisa é construirmos em torno de um nome uma imagem, outra coisa é construirmos uma ideia em torno da imagem que temos do nome. E as imagens de que dispomos com Charles Bukowski a agredir a mulher durante a filmagem de um documentário, ou perdido de bêbedo no decorrer de um célebre programa televisivo francês para o qual havia sido convidado, fundamentam não só a ideia de um escritor rebelde, como tantos outros, de um maldito, como outros tantos, mas a de um homem diluído na sua própria obra. Entre as imagens daquele homem concreto e os movimentos de Henry Chinaski, o alter-ego literário do homem-escritor − de seu verdadeiro nome Heinrich Karl Bukowski, Jr. −, não resta qualquer diferença. Sendo assim, alguns tenderão a associar o conceito de bukowskiano a um certo autobiografismo hiper-realista. Creio, no entanto, que ele é algo mais.

Peguemos neste Correios (Antígona, Abril de 2010), primeiro romance do autor norte-americano, publicado originalmente em 1971, agora traduzido para português por Rui Lopes, e atentemo-nos às pertinentes palavras de Gerald Locklin, autor do prefácio: «afastado do “cânone oficial”, mas destinado a ser um membro permanente de um cânone alternativo, ao lado do Marquês de Sade, de Henry Miller, de Anaïs Nin, e de outros que espalharam a sua verdade, quer esta ofendesse quer não as elites culturais, sem se importarem com a aprovação ou com o sentimento de ofensa dos professores» (p. 10)… Eis um dos riscos clássicos da chamada contracultura: vir o tempo a elevá-la, ou a rebaixá-la, conforme as perspectivas, ao nível da cultura. Não se trata aqui de apanhar a carreira do estatuto, nem de renegar um estatuto que se tem por adquirido à nascença, não se trata de agir em confronto com o poder tendo em vista a tomada do poder, trata-se de ser apanhado pelo próprio veneno, como uma criatura autofágica que perante o olhar dos outros se vê numa espécie de comboio para o qual não comprou bilhete.

Vítima de maus-tratos na infância, bexigoso, refugiado no álcool e na literatura, Bukowski cursou jornalismo e letras. Não era propriamente um desses vagabundos entre os quais o seu alter-ego se sentia como peixe na água. O ostracismo paterno, o desamparo, a necessidade de sobrevivência, obrigou-o a várias e esforçadas ocupações. Começou a trabalhar nos correios em 1952, interrompendo um período de três anos devido a uma úlcera, para regressar, em 1958, com novas funções. Por lá andou durante doze anos, acumulando com os primeiros poemas, crónicas e contos em revistas marginais (ou quase). Foi apanhado pela corrente beat e deixou-se arrastar, demarcando-se sempre de toda e qualquer tentativa de associativismo que lhe usurpasse aquilo que mais lhe custou a construir: uma identidade própria. Essa identidade revela-se numa escrita directa, sem subterfúgios, prolífica em situações caricatas, burlescas, mas também comovente na forma quase ingénua como procura dissimular as emoções e uma incomodativa sentimentalidade. Ler Charles Bukowski é como ouvir à mesa do café as histórias de um desses homens que procuram disfarçar a dor com o riso, que tentam afastar do corpo os fantasmas de uma existência consciente de ser absurda, que perante a iminência das lágrimas travam o sal dos olhos com mais um copo bebido de penálti.

Correios relata, nesse estilo inconfundível – que outra ambição pode ter um escritor? – a passagem de Henry Chinaski pelo funcionalismo público. Primeiro, como carteiro substituto; depois, como carteiro efectivo; por fim, como funcionário administrativo. Pelo meio, muitas mulheres, corridas de cavalos, casamentos, divórcios, o nascimento da filha, um código de conduta sucessivamente mandado às malvas. Entre outros, dois aspectos em que esta escrita se mostra genial: a brutalidade das descrições leva-nos a atribuir um valor muito mais significativo a atitudes movidas por virtudes arredadas de um mundo gerido por hipócritas. Palavras como coragem e decência, num contexto em que a pessoa humana está ao nível do cão, já não são pormenores moralistas ou moralizantes, são a âncora que resgata dos seres humanos o que lhes sobra de humanidade entre a selvajaria a que estão sujeitos. Depois a auto-ironia, a capacidade de construir uma auto-imagem que se dá de beber ao público, levando-o a mergulhar na lama já sem a auréola que Baudelaire havia retirado da cabecinha do escritor. Bem sei que em era de hi5 e de Facebook, o mundo é todo um Photoshop em incansável actividade. A imagem que geralmente oferecemos de nós, uma imagem de gente séria e sensual, de gente bonita e alegre, agradável e amorosa, determinada e elegante, em pose intelectual e edificante, é apenas mera imagem. A limpar o cu, somos quase todos iguais. E ainda que a vida não se resuma a esse gesto, não se chame a isto uma extrema simplificação da vida. Dizê-lo por estes dias dá sentido à contracultura, mesmo que saibamos do risco a que estamos expostos. Tornarmo-nos cultos.
Escrito para o Rascunho.

PSICANALÍTICO

Sou feliz.
Peço desculpa.

Sou infeliz.
Queres ser
meu amigo?

CRAVO


Pouco te falta para seres escravo.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

2 POEMAS DE BOLSO

X
Formasitalianas ovalidadesmolesemmarcahalentaelipsoidal
docementecoloridasdeluzloura

Meus pés e minhas costas aquecem

O fogo pegou


XIV
Beijosestertoresmotorescampainhascanhõescomboiosvozestrovõestempestadesgritosestalidosqueixascantosmentirasodiosamoresalegriashomensanimaismáquinas
Que barulho quando não se ouve nada!



Trad. Mário Cesariny.




Pierre Albert-Birot nasceu a 22 de Abril de 1876 em Angoulême. Chegado a Paris com 17 anos, dedicou-se à pintura e à escultura. Em 1916, fundou a revista vanguardista SIC (Sons, Idées, Couleurs), na qual colaboraram, entre outros, Apollinaire, Tzara, Breton, Aragon, Max Jacob, Pierre Reverdy… Um ano antes, Pierre Albert-Birot tinha decedido passar a dedicar-se unicamente à escrita. Foi poeta, romancista e dramaturgo. A revista SIC acabou em Dezembro de 1919, mas Albert-Birot criou raízes surrealistas sem nunca ter chegado a estar integrado no movimento. Morreu em Paris, a 25 de Julho de 1967.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

OS NOVOS RETORNADOS

Camarada Van Zeller, dizem que Portugal vai falir. É bem feito. Ninguém nos mandou ser independentes. Tivéssemos ficado espanhóis e nada disto se verificaria. Diga, desculpe, o quê? Espanha também vai falir? Pois, mas se falirem há-de ser ao som do flamenco, com as sevilhanas ébrias de dança e toda a ciganagem a bater palmas. À gente da minha terra, lamento informá-lo, sobra o fado e a Mariza. Mas tenho esperança que falir não seja uma coisa assim tão má, e tenho ainda mais esperança nas cartadas que o governo guarda debaixo da manga e ninguém está a topar. Esta conversa da falência pode muito bem ser como o bluff no poker, quando os nossos adversários menos esperarem sacamos de uma daquelas jogadas de génio em que sempre fomos exímios. E eu estou convencido de que isso já está a acontecer. Sabe o camarada Van Zeller que o nosso país é dos que mais génios exporta para os quatro cantos do mundo. Lembrar-se-á daquela teoria da exportação de cérebros. Antecipando-se à globalização, Portugal foi espalhando os seus cérebros por toda a Europa, pelo norte e pelo sul das Américas, pela Ásia, África, etc.. Desconfio que até junto dos esquimós haja um cérebro português a fazer das suas. Se há coisa que não nos falta é portugueses geniais no estrangeiro. Por cá, fica o refugo. É bem provável que a nuvem de fumo que atravessa os céus europeus se deva à incansável actividade de um desses cérebros. Aquilo do vulcão, lá está, é só para disfarçar. É bluff. Com tudo isto o governo justificou a necessidade de investimento no TGV e a importância de um novo aeroporto. Justificou-o, pelo menos, com a mesma desenvoltura com que o senhor Pedro Arroja justifica os benefícios históricos da Santa Inquisição. Nada comparável, porém, com a grande jogada em marcha: o regresso a casa dos filhos pródigos da nação, o regresso dos cérebros por aí disseminados que agora voltam para sermos salvos da crise, da falência, da agonia em que nos estamos a enterrar como uma pedra num pântano. Inês de Medeiros aí está. Um dos nossos cérebros exportados, um dos mais ilustres, está de volta. Em plena Assembleia da República, já trabalha arduamente para nos salvar do naufrágio. Distrai-nos com filmes. E que filmes! O país não percebe que as viagens entre Paris e Lisboa são um justificadíssimo investimento na salvação da pátria, são o começo de uma nova era, a era dos cérebros retornados. O país precisa de Inês tanto quanto Pedro precisava. Abram os olhos. Vós, leitores, que o camarada Van Zeller já os tem bem esbugalhados.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A ESTÁTUA JACENTE

I

Contido
em seu livre abandono
um dinamismo se alimenta
de sua contenção pura.

Jacente
uma atmosfera cerca
de tal força o silêncio

como se jacente guardasse
o gesto total do segredo.

II

O jacente
é mais que um morto: habita
tempos não sabidos
de mortos e vivos.

O jacente
ressuscitado para o silêncio
possui-se no ser
e nos habita.

III

Vemos somente o repouso
como uma face neutra
além de tudo o que
significa.

(Mas se nos víssemos
no verbo totalizado
- forma que se concentra
além de nós -
Mas se nos víssemos
na contenção do ser
o repouso seria
expressão nítida.)

Vemos apenas
repouso:
contenção da palavra
no silêncio.

IV

Jaz
sobre o real o gesto
inútil: esta palma.

A palavra vencida
e para sempre inesgotável.



Nascida no interior de São Paulo em 1940, filha de pais analfabetos, Orides Fontela é um caso singular da poesia brasileira. Embora tenha publicado a partir do final da década de 60, a sua poesia só veio a ser reconhecida na década de 80, quando lançou vários livros que granjearam o reconhecimento da crítica. Autora de uma poesia concentrada, com uma economia acentuada de recursos, ainda que possuindo uma alta voltagem estética, Orides Fontela distinguiu-se pela essencialidade absoluta e por um domínio estilístico difícil de igualar. O seu carácter complexo, os problemas pessoais e a visível incapacidade para os enfrentar, acabaram por lançá-la na pobreza quase total. Faleceu em Novembro de 98, deixando uma obra difícil de situar.
Jorge Henrique Bastos, in Poesia Brasileira do Século XX - Dos Modernos à Actualidade, Antígona, Fevereiro de 2002, pp. 292-298.

terça-feira, 20 de abril de 2010

SEM ETIQUETA

Depois de muito reflectir sobre o assunto, decidi suspender o meu sportinguismo enquanto José Eduardo Bettencourt for presidente do meu clube de coração. Nem sequer vou falar noutros nomes, só gostava mesmo que me esclarecessem o que tem o Paulo Sérgio que o Carvalhal não tem?

EVOLUÇÃO


Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incógnita floresta…
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo…

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paul glauco pacigo…

Hoje, sou homem ─ e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade…

Interrogo o infinito e às vezes choro…
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.



Antero de Quental nasceu em Ponta Delgada a 18 de Abril de 1842, no seio de uma das mais antigas famílias locais. Partiu para Lisboa com apenas 10 anos de idade, tendo ingressado posteriormente na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Nesse tempo, começou por se destacar como autor de panfletos contra o conservadorismo que vigorava (e de algum modo ainda vigora) em Portugal. Nos jornais e nas revistas de Coimbra, publicou os primeiros poemas e artigos de crítica literária ou índole política e filosófica. «Em 1865, aos vinte e três anos, e «arrumado», definitivamente, o canudo de bacharel em Direito, Antero lançar-se-á à procura de si mesmo e da sua inserção no «Mundo» que, temporalmente, lhe coubera em sorte. Ora, esse «Mundo» ─ lembre-se ─ é o da Revolução Industrial e das suas sequelas estruturais: a alteração dos tradicionais ritmos de vida e de movimentação; a «questão social» e os novos apelos de liberdade e de justiça: o socialismo versus o liberalismo…» (Joel Serrão) Para trás tinham ficado, entre outros, os Sonetos de Anthero (1861). 1865 foi o ano das Odes Modernas, advento de uma certa modernidade que originou forte polémica inscrita na História da Literatura Portuguesa como a Questão Coimbrã. Há quem se refira inclusive a um duelo à espada entre Quental e Ramalho Ortigão, tendo este ficado ferido num pulso. Tomado pelos ideais socialistas, Antero de Quental foi tipógrafo na Imprensa Nacional e em Paris. De regresso a Lisboa, aceitou colaborar num jornal democrático e iberista. Seguiram-se viagens aos EUA e Canadá, intensa actividade política e propagandística, as denominadas Conferências do Casino, inauguradas em 1871 com um programa onde pontificavam, entre outros, Eça de Queiroz, J. P. Oliveira Martins, Manuel de Arriaga e Teófilo Braga. É dessa época o célebre Causas da decadência dos povos peninsulares nos três últimos séculos. Proibidas as conferências, Antero dedicou-se novamente à literatura, nunca abandonando, porém, as preocupações políticas e um forte sentido de intervenção social. 1874 marcou o aparecimento dos primeiros sintomas de doença nunca diagnosticada (constituição maníaco-depressiva?). Antero de Quental consultou vários médicos nacionais e internacionais. A conselho de um famoso médico parisiense chamado Charcot, isolou-se num estabelecimento termal nos arredores de Paris. Outrora atormentado filosófica e politicamente, sucumbia agora aos tormentos psicológicos. Recorde-se, porém, que já em 1868 o tom que perpassava na epistolografia do poeta não era o mais animador: «Aqui estou em Lisboa: nada mais te posso dizer, porque não conheço razões de aqui estar senão todas negativas, isto é, por não poder estar noutra parte». Ainda assim, a desilusão não o impediu de candidatar-se a deputado pelo Partido Socialista nas eleições gerais de 1879 e 1880. No ano seguinte, adoptou as filhas do seu falecido amigo Germano Meireles. Fixou residência em Vila do Conde, onde viveu durante dez anos. «No imaginário anteriano, poesia e filosofia foram sempre ─ e de 1865 a 1885 ─ formas gémeas ou de matricial convergência da mesma inquietude fundamental. (…) Com efeito, pode verificar-se que a produção poética anteriana seria contínua desde os dezasseis aos quarenta e três anos, ou seja, de 1858 até 1885, data do último soneto» (idem). Desiludido com a situação nacional, regressou a Ponta Delgada com as filhas adoptivas. No dia 11 de Setembro de 1891, suicidou-se, no Largo de São Francisco, junto ao Convento da Esperança.

domingo, 18 de abril de 2010

WINESBURG, OHIO

Após a edição de Pergunta ao Pó, de John Fante, as Edições Ahab voltam a investir num autor norte-americano menos conhecido do grande público. Sherwood Anderson (n. 1876 – m. 1941) nasceu em Camden, Ohio. As origens humildes obrigaram-no a trabalhar desde muito cedo. Aos 17 anos, mudou-se para Chicago. Menos dependente da família, conseguiu conciliar os estudos nocturnos com o trabalho diário num armazém. Completou o serviço militar combatendo em Cuba durante a Guerra Hispano-Americana, regressando posteriormente ao Ohio para se casar, zangar-se com a mulher e mudar-se novamente para Chicago já com a intenção de se tornar escritor a tempo inteiro. Em Chicago, juntou-se a Carl Sandburg e Theodore Dreiser, divorciou-se e voltou a casar, desta feita com a ex-mulher do poeta Edgar Lee Masters. Dois romances iniciais, Windy McPherson’s Son (1916) e Marching Men (1917), não lhe garantiram qualquer sucesso. Só granjeou o reconhecimento dos seus pares ao terceiro livro, este Winesburg, Ohio que agora aparece vertido para português por José Lima. Seguiram-se prémios, viagens pela Europa, encontros com Gertrude Stein, mais divórcios e casamentos. Instalado em New Orleans, partilhou um apartamento com William Faulkner, tornando-se uma das principais influências do autor de Absalom! Absalom! e ajudando-o a publicar o primeiro romance.

Por muitos considerada a sua obra-prima, Winesburg, Ohio (1919) é um daqueles livros que, pela sua organização formal, questionam a essência do romance enquanto género literário. Não sendo propriamente uma colectânea de contos, também não se encaixa no género mais convencional da grande narrativa. Em boa verdade, trata-se de uma obra composta de histórias unidas por um mesmo espaço físico, por um tempo comum, embora com ligeiras e momentâneas derivações, e pelo cruzamento de personagens que ora aparecem, ora desaparecem, deixando atrás de si um rasto que permitirá ao leitor, no final do livro, fazer da dispersão os fundamentos de uma narrativa englobante e unívoca. São vinte e quatro os sketches coligidos pelo autor. À caracterização de uma pequena povoação da América profunda, junta-se uma reflexão sobre o sens de la vie sustentada nas perturbações que assaltam cada um dos seus habitantes. Estas personagens apenas serão compreensíveis na relação que estabelecem com o meio social onde estão inseridas. Sublinho, do artigo de John Updike publicado à laia de posfácio, o seguinte apontamento: «Apesar de Winesburg acumular elementos exteriores ─ ruas, lojas, personalidades locais ─ enquanto segue tacteante o seu caminho, o seu peso é uma essência espiritual, um certo gosto acidulado e doce da vida tal como ela decorre nas solitárias casas da América alumiadas à luz do candeeiro. Uma beleza atormentada vive no meio desta desolação domesticada; o desfile de Anderson de espectros anelantes constitui em suma uma petição democrática pelos falhados, os esquecidos, os encurralados» (p. 253).

Por outro lado, parece haver como que um esforço de entendimento da dimensão grotesca de cada uma das personalidades em evidência. Entra elas, destaca-se o jovem George Willard. Repórter do Winesburg Eagle, George é o elemento para onde convergem todas as situações. As pessoas aproximam-se dele e contam-lhe as suas histórias, elegem-no confidente, estabelecem com ele vínculos de simpatia, dão-lhe conselhos, assediam-no. Porém, George alimenta um único sonho: «deixar a sua terra para a grande aventura da vida» (p. 242). De resto, não é o único em Winesburg com os mesmos anseios. Outras personagens, mais ou menos dominadas pela solidão e pelo desespero, estabelecem com o meio social um sentimento de deslocação que as transforma numa espécie de fantasmas de carne e osso. São exemplo disso o Dr. Reefy, acumulando pensamentos em pequenos bocados de papel que depois deita fora, Elizabeth Willard, a mãe de George, casada por conveniência «com Tom Willard, um empregado do hotel do pai, porque ele estava à mão e queria casar na altura em que ela tomara a decisão de casar» (p. 219), ou Alice Hindman, invadida de tristeza e de abandono por não ser amada, correndo nua pela rua fora, debaixo de chuva, pensando entregar-se ao primeiro homem que lhe aparecesse pela frente.

Não por acaso, a primeira das histórias de Winesburg, Ohio intitula-se O Livro do Grotesco. É sobre um velho escritor que vê desfilar perante si, nas intermitências do sono, uma procissão de figuras grotescas. «Todos os homens e mulheres que o escritor tinha conhecido se tinham tornado grotescos» (p. 23). Talvez Sherwood Anderson pretendesse projectar um sentimento pessoal acerca da sua própria história. Em certos aspectos, George Willard assemelha-se a um possível alter-ego do autor. Ou talvez nada seja tão simples. O Livro do Grotesco é um livro sobre verdades. As verdades são bonitas, excepto quando as pessoas as tomam para si e passam a chamar-lhes a sua verdade. Esforçando-se por seguir a sua vida de acordo com essa verdade, as pessoas tornam-se grotescas e a verdade transforma-se numa mentira. Após a leitura de Winesburg, Ohio, a sensação que nos fica é a de termos sido expostos à verdade de cada uma das personalidades que motivam as histórias relatadas. E essa verdade é ao mesmo tempo aterradora e encorajadora: afinal, são poucas as personalidades de Winesburg, Ohio que lograram desbravar caminho para que a sua vida pudesse consumar-se. Ao contrário, parecem ter-se fechado numa redoma que apenas lhes permitiu ver a vida passar por elas. A grande dúvida é se em partir ou ficar não estará a vida presa a essa ilusão de que é preciso cortar laços para tomar nas próprias mãos as rédeas de um destino que, em qualquer das circunstâncias, acaba sempre por ser mais fruto dos acasos do que uma construção individual.


Escrito para o Rascunho.

sábado, 17 de abril de 2010

A RAIZ DO MAL

Nunca digam a um homem obsequioso que é preciso cortar o mal pela raiz. Ele vai pôr-se a escavar, a escavar, a escavar, a escavar até encontrar a raiz do mal. Jamais se dará conta que a raiz do mal é o poiso de muitos e cantarolantes passarinhos.

Nada muda, tudo muda. Crise é tu estares do outro lado do balcão e eu não poder declamar-te um poema. Enfim, só quero que saibas que não te censuro pelo frio que faz, pela chuva que cai, pelos vulcões que mantêm os pássaros em terra e impedem os homens de levantar voo:

As autoridades marítimas investigam o misterioso desaparecimento da linha do horizonte ao longo de toda a costa atlântica.
Jorge Sousa Braga, in A Greve dos Controladores de Voo.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

OMS

Ao longo da vida, Bartolomeu foi acompanhando com copioso interesse as recomendações da Organização Mundial de Saúde. Ele era o tabaco que prejudicava, o azeite que fazia mal, a mostarda que era nociva… Eu sei lá. Momentos antes de morrer, as últimas palavras que se lhe escutaram foram: a mostarda pode ter-me prejudicado o coração, mas a OMS deu-me cabo da vida.

RESPIRAR

Às vezes a vida obriga a decisões drásticas. Por exemplo, Bartolomeu decidiu que ia deixar de fumar. Tabaco. Passou a fumar apenas ganzas. Depois deixou de fumar ganzas. Só fumava chinesas. Até que um dia deixou definitivamente de fumar. E de respirar também.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

UMA COISA QUE SIMPLESMENTE ACONTECE

Quis ver com os meus próprios olhos esse castelo gerado pelo ventre das águas, pequena célula da história ainda em gestação. Não julguem falidas aquelas torres, nem superadas as cruzes que levantaram a pedra. Incrustado no tempo, o castelo gerado pelo ventre das águas prova-nos que à dimensão do tempo toda a história é ínfima, todo o passado quase inexistente, toda a vida uma coisa que simplesmente acontece.
Nele já príncipes não se mostram. Provavelmente nunca mostraram. Sinto porém que neste lugar cavaleiros de água doce terão feito das suas, enquanto ao largo viam passar carroças apinhadas de damas, vindas de lavar a roupa no rio e assobiar o fogo nos resguardos da serra. Tomei o caminho do leito, quis ver com os meus próprios olhos onde iam desaguar os fantasmas dos templários, os filhos bastardos que terão sido feitos sob o escudo da soberania nacional.
Lentamente afastado das bermas por súbito temporal, fui dar à foz onde desaguam todos os fantasmas. Não fossem embater contra os corpos paridos pela terra, ao longe um farol guiava-os por entre brumas e tempestades. E foi neste preciso local que me ocorreu uma absurda relação: dos castelos aos faróis vai exactamente a mesma distância que separa um corpo humano das suas referências, com a diferença expressiva de nenhum corpo humano possuir a dignidade de uma muralha inviolável.


Almourol/Nazaré, 2010

JAIME SALAZAR SAMPAIO (1925-2010)

seja este minuto
o minuto de paz

esta palavra a palavra amiga
e a mão sem versos
poise na tua fronte

seja este minuto
o minuto de silêncio que pediste

e a vida não deu não tinha


Jaime Salazar Sampaio
Outro e mais: aqui.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

DIZEM QUE ERA FASCISTA. A VIDA ATÉ PARECE UMA COISA COMPLICADA.



A religião não me inspira confiança. Alguns dos maiores energúmenos que conheci diziam-se profundamente religiosos. O Zen também não me inspira confiança. Tenho conhecido muito apaixonado do Zen que se revela mesquinho, insidioso, invejoso, gente a quem eu não confiaria nem a guarda do meu cão. O partidarismo repugna-me e nutro um profundo desprezo pelas bandeiras impositivas. O nomadismo intelectual, o terrorismo poético, o hedonismo libertário, o anarquismo filantrópico, o cinismo na sua vertente clássica, inspiram-me confiança. Nada me exigem, deles nada espero senão que me deixem em paz. Neles deposito toda a minha confiança. Sam Shepard conta:

Penso em Céline. Por alguma razão Céline vem-me à ideia. A derradeira pergunta da derradeira entrevista antes de ele morrer. Estava sentado num banco dum parque, à sombra de uma nogueira, embrulhado num sobretudo esfarrapado. Estava velho e destroçado. Mutilado pela guerra. Pouco via, com o tecido cicatrizado que se amontoava à volta dos seus olhos. A última pergunta do entrevistador foi: o que é que ele realmente queria nesta vida? Céline virou-se para ele lentamente e disse: ─ Eu só quero que me deixem em paz.

O ÚLTIMO COMENTÁRIO

Era o meu comentador mais assíduo. Um dia, abordou-me através do e-mail. Queria conhecer-me pessoalmente. Marcámos encontro na cervejaria do Amilcar. Cheguei ligeiramente atrasado, mas redimi-me. Pedi uma imperial e um pires de tremoços. Ele pediu um café. Ficámos cinco minutos a olhar um para outro, a olhar para o tecto, a olhar para as paredes, a olhar para os tremoços. Depois ele disse qualquer coisa que eu não ouvi. Respondi-lhe com um sorriso. E depois ouvi-o comentar que julgava que eu fosse mais conversador. Encolhi os ombros, mandei vir a conta, que paguei, e despedi-me. Nunca mais o vi. Desconfio que ele nunca mais me tenha lido.

POETA, HOMOSSEXUAL E CATÓLICO




Se o cardeal Tarcisio Bertone lesse poesia portuguesa, talvez pensasse duas vezes antes de proferir asneiras como as que proferiu de visita ao Chile. Aqui fica, ao cuidado de Sua Eminência, um excerto do ensaio A Angústia da Azeitona Antes de se Transformar em Luz que abre o livro referenciado no termo da citação:

«Não é fácil ser poeta, nem homossexual, nem católico. E muito menos viver estas três identidades ao mesmo tempo. (…) Todos os homossexuais do mundo continuam a ser, aos olhos das três tradições monoteístas, os filhos deserdados de Abraão. E no entanto, analisando em termos comparativos o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo, é possível afirmar que foi o Cristianismo que permitiu, embora malgré lui, a emergência da homossexualidade como fenómeno societário contemporâneo. (…) A figura celibatária de Jesus de Nazaré, que escandalizou a mentalidade religiosa judaica coeva e vindoura, irá instaurar sete séculos mais tarde um fortíssimo e não menos escandaloso contraste com o modelo de vida poligâmico praticado entre os seguidores do Islão. Foi a interiorização social da figura celibatária de Jesus Cristo que veio possibilitar em termos culturais o aparecimento do homossexual autónomo e progressivamente emancipado dos nossos dias, independentemente de todas as questões teológicas que foram formuladas ao longo dos séculos e continuam em debate a respeito da homossexualidade. De certa forma, o homossexual é uma réplica involuntária do padre e a figura gémea do monge, ou a sombra de ambos. (…) Se a grandeza do Cristianismo consiste na capacidade operativa de integrar e transcender em sentido redentor a experiência da morte, da dor e de todas as formas de negatividade, como explicar a obstinada resistência da hierarquia eclesiástica à universal irradiação, para além dos limites da heterossexualidade do mundo, desse amor proclamado, com verdade e em verdade, a essência mesma de Deus? (I Jo 4, 7-16). O pobre, o deficiente, o velho, o doente, até o criminoso arrependido, recebe da Igreja acolhimento pastoral e na Igreja encontra o seu lugar. À excepção do homossexual, esse pária dos párias – a ovelha perdida do aprisco. (…) A hierarquia da Igreja Católica, neste novo pontificado, parece estar a repetir linearmente em relação aos homossexuais um dos vários comportamentos que teve, ao longo dos séculos, face aos judeus. Perante uma cultura emergente de emancipação dos homossexuais, a hierarquia vaticana está a lançar um combate que lembra muito tristemente a luta que travou de forma activa contra o movimento social e político de emancipação dos judeus desde os finais do século XVIIII até às primeiras décadas do século XX. (…) A salvação de Cristo veio para os circuncisos e para os incircuncisos (Act 11, 1-18). Um homossexual pode ser tão bom católico quanto um heterossexual. «O que há é pouca gente para dar por isso», como dizia Álvaro de Campos. A Igreja é testemunha do mistério de Deus, não pode ser reduzida por algum clero e por uma estranha obsessão homofóbica a uma mera e particularíssima forma de pensar o sexo».

José António Almeida, in O Casamento Sempre Foi Gay E Nunca Triste, &etc., Fevereiro de 2009, pp. 11-29. A colagem é da minha inteira responsabilidade. Ao alto, imagem dos mártires Sérgio e Baco.

A CRISE

Camarada Van Zeller, hoje venho a consulta sentimental. A minha mulher entusiasmou-se com o Farmville e agora quer investir numa quinta a sério. Já tentei explicar-lhe que as quintas a sério custam dinheiro e dão trabalho, mas ela não se convenceu. Só me pareceu renitente quando eu lhe lembrei que numa quinta a sério não pode ter elefantes. Aí sentia-a vacilar, sentia perder-se numa leve e efémera hesitação. Logo me respondeu com um rol de verdades para as quais não tenho réplica: que hei-de ser sempre um infeliz porque me conformo com o que tenho, que não sonho nem deixo os outros sonhar, que não faço nada por mim, limito-me a ler livros e a formular teorias inúteis sobre tudo e mais alguma coisa, incluindo a própria inutilidade das teorias. Andamos nisto há dias. Nisto da quinta, porque quanto ao resto andamos há vários anos. A minha mulher é uma pessoa persistente, mete uma coisa na cabeça e já ninguém a tira lá de dentro (eu sou uma dessas coisas). Uma vez tivemos uma discussão por causa de uma passadeira eléctrica. Ela pediu-me opinião sobre a possibilidade de comprarmos uma passadeira eléctrica para fazermos exercício físico. Eu disse-lhe que achava que não precisávamos de uma passadeira eléctrica para fazermos exercício físico. Bastava levantarmos o cu do sofá e darmos às pernas e aos braços alguma utilidade. Ela tinha metido na cabeça que com uma passadeira eléctrica a nossa vida desportiva seria diferente. Um dia, cheguei a casa, e lá estava o macambúzio no sótão, a barrar-me a passagem entre a aparelhagem de som e os CDs. Temo agora que um dia destes chegue a casa e tenha uma quinta à minha espera no sótão. Pergunto-lhe, camarada Van Zeller, como pode um homem que mal tem dinheiro para pagar o condomínio de um apartamento no Bairro dos Ciganos investir numa quinta? Bem sei que os meus pais têm uns terrenos lá na terra, mas aquilo precisa de muros e de terra lavrada, precisa de um tractor, de quem saiba distinguir sementes de frutos secos, aquilo precisa de alguém com garra e espírito e vontade e espírito de sacrifício. Ou seja, aquilo precisa de tudo menos de mim. Aquilo precisa de um chairman, aquilo precisa de um CEO. E depois há a crise. Em tempos de crise estamos obrigados a poupar. O que temos e o que não temos. Não é como a canalha que andou a gastar ao desbarato durante a Páscoa que passou. Li no jornal que este ano, entre a quinta-feira, dia 2, e Domingo de Páscoa, dia 5, foram feitas mais de 12 milhões de operações na rede Multibanco, entre compras e levantamentos, num total de 600 milhões de euros. Só pode ser da crise. Os portugueses andam deprimidos e investiram no chocolate. Sempre sai mais barato que os barbitúricos ou os narcóticos. Ou então andaram a comprar livros sobre a crise. Tenho reparado nas centenas de títulos que apareceram ultimamente com a crise por tema. Ele é como fazer o primeiro milhão, como poupar, como ficar mais rico, como esticar o salário. Eu passo a vida a esticar o meu, mas o elástico rompe-se sempre. Ainda assim, camarada Van Zeller, às vezes sinto-me tentado a concordar com os comunistas. O Carvalho da Silva diz que a conversa da crise é o maior roubo organizado da História. E já fez contas: «O dinheiro mobilizado pelos governos em menos de um ano para tapar buracos é 58 vezes o orçamento das Nações Unidas para o combate à pobreza». Não sei ao certo o real significado destas contas, mas como vou mudar de patrão começo a pensar se seguir mais uma vez os conselhos da minha mulher não será uma boa opção: comprar uma quinta e dedicar-me aos tomatais. Entretanto ela vendeu a passadeira eléctrica. Ficámos mais pobres e não menos gordos, mas pelo menos deixámos de discutir sobre a pertinência de uma passadeira eléctrica cá em casa.

terça-feira, 13 de abril de 2010

WERNER SCHROETER (1945-2010)





MADALENA DE WERNER SCHROETER

Quem me dera ainda tivéssemos a casa da árvore e nela pudéssemos sintonizar longínquas estações, uma mulher com um robe vermelho a caminhar sobre as rochas de uma vasta e revoltosa costa. (E das rochas brotando um pinheiro com anjos barrocos a sangrar das asas cortadas.) Quem me dera ainda tivéssemos várias línguas e uma mesma mulher, um amor lésbico separado à nascença porque à nascença começa a violência, quem me dera ainda a revolta da separação, crianças a brincar num parque infantil e tu a leres no jornal a notícia do mais recente crime cometido pelo assassino das flores. Quem me dera todos os assassinos deixassem uma flor sobre as suas vítimas, um mágico preto, os sonhos enclausurados num quarto exíguo para onde espreitam, através de grades, os olhos curiosos dos transeuntes. Fomos paridos numa estação ferroviária onde chegam e de onde partem, como se fossem turistas, todas as pessoas com que nos cruzámos. Deixam-nos memórias, um relógio a tiquetaquear a degradação material do corpo. Actuam em cabarés de cores berrantes onde buscam o apaziguamento que nunca encontrarão. Porque o cinema é uma provocação, uma fonte de perturbações, o cinema é um homem enforcado à porta de casa, imagens de uma biografia que vai sendo contada como se viver fosse um sonho. Isabelle Huppert a chutar um caldo, o sangue a escorrer-lhe da veia e o veneno a entrar-lhe no corpo, um ballet onírico, a memória de uma música árabe. Vejo um filme, mato-te pela solidão. Tu matas-me pela memória, és uma soprano que visita prisões em Sintra, és uma visitante de reclusos. Eu sangro dos olhos, tu limpas-me as chagas como se eu fosse o teu Cristo. A violência começa à nascença, dela seremos reclusos até à morte. Madalena.

OBSESSÃO

Numa altura em que têm vindo a lume centenas de casos de pedofilia perpetrados sob os telhados de vidro da Santa Madre Igreja, era mais que previsível um certo coro de vozes a pretender associar esses casos ao celibato a que estão obrigados, pelo que há de humano nas ordens divinas, todos os padres. Durante muito tempo associada à homossexualidade, a pedofilia tem vindo a ser paulatinamente desmascarada por vítimas cujos relatos nos impedem de estabelecer relações de causa-efeito entre celibato ou homossexualidade e o desvio sexual que transforma em objecto de desejo a fragilidade dos indefesos. Trazer à colação este tipo de associações apenas ilude o verdadeiro problema, nomeadamente enquanto se insistir no provimento dos preconceitos e dos estereótipos desinvestindo na educação e numa justiça sem filhos nem enteados. No seu mais recente livro, José António Almeida (n. 1959) colige poemas que nos remetem para uma estigmatização da homossexualidade que alguns tenderão a considerar inexistente, mas que, tal como a estupidez humana, perdura viva, saudável e sem modos de se ver extinta. Num desses poemas, intitulado Recapitulando, lá está a palavra “pedófilo” pintada nas paredes de uma casa situada numa vila da província portuguesa. É destes estigmas, destas cicatrizes, que o livro Obsessão (&etc., Janeiro de 2010) trata.

Longe do mainstream literário português, que supomos situar-se entre os romances de José Rodrigues dos Santos e as coisas que Margarida Rebelo Pinto escreve, José António Almeida vem publicando os seus livros com assinalável descrição. A estreia deu-se em 1984, com uma edição de autor intitulada António Nogueira. Não li. Mas li O Rei de Sodoma e Algumas Palavras em Sua Homenagem, publicado na colecção Forma, da Presença, nove anos após o primeiro livro. Foi preciso mais um interregno de quinze anos para que o poeta voltasse a publicar, desta feita com outra regularidade e dividindo-se pelos versos e pela prosa: A Mãe de Todas as Histórias (Averno, 2008), A Vida de Horácio (&etc., 2008) e O Casamento Sempre Foi Gay e Nunca Triste (&etc., 2009). O mais recente conjunto de poemas persiste na temática homossexual, quer em contexto erótico, quer num contexto interventivo que aproxima muitos destes textos da chamada “poesia política”. Reconheço que o conceito possa não ser o mais adequado, mas socorro-me dele sob o pretexto de simplificar o que julgo ser uma atitude de denúncia de um tempo e de um espaço irremediavelmente marcados pela tacanhez de espírito. Denúncia e testemunho fundem-se em três sequências de poemas que, numa nota inicial, o autor diz formarem «uma unidade de tessitura dramática mais ou menos óbvia».

Temos, portanto, um espaço e um tempo claramente delimitados: uma vila da província no sul de Portugal, nos anos 2005, 2006. A obsessão pelo corpo amado vai dando lugar a um ambiente de traição, de intriga, de coscuvilhice, um ambiente pautado pela mesquinhez das víboras que transformaram em ruína um amor agora rememorado. Seja quando evocam um relato «na sala do comandante do posto / da Guarda Nacional Republicana» (p. 22), seja quando lembram um assalto em que «essa vida que tinha as dimensões // do universo, contrai-se de súbito, / fica reduzida ao tamanho de // ponta de alfinete, gume de faca» (pp. 54-55), o que sustenta estes poemas é a memória, mais ainda quando neles vislumbramos aquele desejo de ver passar sobre as experiências traumáticas a ineficaz borracha do tempo: «Não, ninguém sabe, talvez / só o corvo que na torre // do relógio mora sempre, quantos dias são precisos // para esquecer uma noite» (p. 15). Escritos em estrofes cuidadosamente desenhadas, os poemas de José António Almeida revelam uma preocupação formal que contrasta com a informalidade do discurso, ainda que a linguagem empregada seja esteticamente depurada. Neste caso, o cuidado resulta numa acutilante denúncia da «fanfarrona estupidez da tribo» (p. 50) que habita a «mesquinha vila da província» (p. 56).

Não é necessário enveredar por um discurso ruinoso para denunciar a ruína, muito menos deixar a poesia ser assaltada pela podridão para tornar evidentes os podres do mundo. Empenhado na clarificação de um tempo, o poeta convoca a sua experiência pessoal enquanto fonte de uma narrativa que se pretende ao serviço de algo mais consolador e belo do que a dissimulada ignobilidade da maioria. Entre esses, pequenas flores germinam. As tais que convém descobrir e cultivar, como dizia Marco Polo ao grande Kublai Kan no termo d’As Cidades Invisíveis. No entanto, para tal é absolutamente necessário tornar clara a vulgaridade da patifaria, aprender a distinguir «a moeda falsa que faz o pedinte // desconfiar da mão de qualquer passeante» (p. 52) como quem aprende a distinguir cogumelos venenosos de cogumelos saudáveis. Talvez a poesia não seja a lição de que o mundo precisa. Porventura não será. Mas que vá ajudando a ultrapassar preconceitos e a combater estereótipos, já é suficientemente animador para que nos sintamos agradecidos por ainda haver quem nela procure o refúgio que oferece aos outros.

Escrito para o Rascunho.

sábado, 10 de abril de 2010

O ALBATROZ É UMA DESUMANA ALVORADA


Se o albatroz de Baudelaire é um príncipe das nuvens impedido de andar pelas asas gigantes, o de Melville é uma coisa magnífica e emplumada com vastas asas de arcanjo, uma coisa sacudida por estremecimentos que solta gritos como o espectro de um rei sofrendo angústias sobrenaturais. E tu, o que és? Um pintarroxo numa gaiola?

ACONTECEU

Aconteceu que até aos vinte e sete
anos de idade tive a alegria
de viver na solidão da casa e da família,
com um belo jardim à minha volta.

Fiquei, assim, um ser não corrompido
e, fazendo justiça à natureza,
sigo o murchar da floresta
ou o destino do jardim.

Gostei de esquecer a tristeza e a ira,
não ter ideias, não dizer palavras
e nas árvores loucas da infância
sofrer o tormento do génio alheio.

Fiquei de repente fina, como a relva,
alma pura, como as outras plantas,
não mais douta do que qualquer árvore,
não mais viva do que até o nascimento.

Sorria de noite para o tecto,
para o vazio, onde, perto e perceptível,
empalidecia encoberto o óbvio deus
que tem todos os sorrisos e bondades.

Fui tão inevitável paraíso
e estive tão perto da grande bondade divina,
que a trança da testa ─ para mais levemente beijar ─
afastei e dormi profundamente.

Como se por muito tempo, pelos tempos,
eu entrasse mais pela terra e pelas árvores.
Ninguém sabia como o tormento é grande
atrás da porta da minha solidão.

Trad. Manuel de Seabra.



Bella (Izabella) Akhmadulina nasceu a 10 de Abril de 1937 em Moscovo, filha de um tártaro e de uma russa, com raízes italianas, ligada ao KGB. Começou a escrever poemas muito cedo, enquanto trabalhava num jornal de Moscovo e frequentava os círculos literários organizados por Yevgeny Vinokurov. Em 1954, casou-se com o poeta Yevgeny Yevtushenko. Um ano depois começou a publicar os primeiros poemas na revista Outubro. No entanto, a sua primeira colectânea só apareceu em 1962. Nessa altura já havia terminado os estudos no Instituto Gorki de Literatura, tinha-se divorciado de Yevtushenko e juntado a Yuri Nagibin. Com uma poesia apolítica, mais intimista do que era suposto à época, foi sendo popularizada pela transformação de alguns dos seus poemas em canções. Com outros poetas pouco interessados nas loas ao regime, foi granjeando crédito em recitais públicos bastante concorridos. Em 1968, divorciou-se de Nagibin. Um ano depois publicou Lições de Música, o seu terceiro livro, depois de Corda (1962) e A Minha Árvore Genealógica (1964). Voltou a casar, em 1971, com Eldar Kuliev, de quem teve uma filha, Elizaveta Kuliev, também poeta. O casamento durou pouco tempo. Em 1974, Akhmadulina juntou-se ao seu actual companheiro, o artista Boris Messerer. Influenciada pelos acmeístas de Akhmatova, tomou algumas posições a favor do chamado movimento dos dissidentes (Andrei Sakharov, Lev Kopelev, Georgi Vladimov, Vladimir Vojnovich, entre outros). Banida dos meios nacionais, socorreu-se da imprensa estrangeira para fazer ouvir os seus testemunhos. A ousadia valeu-lhe a antipatia da União de Escritores, mas em 1977 tornou-se Membro Honorário da Academia Americana de Artes e Letras. Traduzida em variadíssimas línguas, é hoje considerada uma das mais importantes vozes poéticas russas. Também escreveu contos, ensaios e traduziu autores franceses, italianos, húngaros, polacos, etc..

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A MORTE DOS AMANTES

Edouard Manet, La Maïtresse de Baudelaire


Teremos camas com os mais leves cheiros
E profundos divans, quais mausoléus,
Além de estranhas flores nas prateleiras,
Pra nós abertas em mais belos céus.

À porfia gastando os ardores últimos,
Os nossos corações, quais labaredas,
Reflectirão as suas chamas duplas
Nas nossas almas, dois espelhos gémeos.

Numa noite de rosa e de azul místico
Um só relâmpago iremos trocar,
Como o soluço de um adeus sem fim;

E um Anjo, mais tarde, abrindo as portas,
Alegre e fiel, virá reanimar
Os baços espelhos e as chamas mortas.



Charles Baudelaire, in As Flores do Mal, trad. Fernando Pinto do Amaral, Assírio & Alvim, 3.ª edição, Maio de 1996, p. 313.

UM ANJO CAÍDO


Talvez seja exagerado afirmar que Baudelaire foi ignorado no seu tempo, talvez não seja exacto atribuir-lhe a raiz do “decadentismo”, mas é inquestionável que perante a sua genialidade as palavras de Luiz Pacheco a António José Forte fazem mais sentido: «Os saloios, como sabes, somos nós todos ─ vistos de paris» (in Mano Forte). Charles Baudelaire nasceu na capital francesa a 9 de Abril de 1821. Rebento de um segundo casamento de François Baudelaire com Caroline Archimbaut-Dufaÿs, foi baptizado com dois meses de existência. O pai tinha sido padre, a mãe era só praticamente 40 anos mais nova que o marido. François faleceu em 1827, tendo Caroline casado um ano depois com Jacques Aupick. Aupick era militar e foi nomeado chefe do estado-maior em Lyon, para onde foi viver com a mulher e o enteado. Foi nessa cidade que Baudelaire fez os primeiros estudos, mudando-se posteriormente para o Liceu de Louis-le-Grand em Paris. A relação que mantinha com o padrasto não era a melhor. Piorou quando o jovem poeta foi expulso do colégio por se ter recusado a denunciar um colega. Ainda assim, os estudos prosseguiram na faculdade de Direito. A frequência do curso foi meramente formal. Por essa altura, Charles Baudelaire já tinha metido no corpo o vício da escrita. Em 1840, a boémia francesa proporcionara-lhe o convívio com outros poetas, encontros com Nerval, baforadas de ópio e uma paixão assolapada por uma prostituta judia chamada Sarah. O padrasto ainda tentou travar-lhe o naufrágio mandando-o para Calcutá. O poeta chegou à ilha da Reunião e voltou para trás. De regresso, com a herança paterna já no bolso, instalou-se na ilha St. Louis e apaixonou-se pela actriz mulata Jeanne Duval. O convívio com outros artistas pautava-se pela entrega progressiva aos paraísos artificiais, do álcool ao haxixe, deste ao ópio. Em dois anos, esbanjou metade da herança paterna. Preocupados, a mãe e o padrasto do poeta tentaram impedi-lo de movimentar o património. O poeta ficou assim mais dependente da mãe e teve de desenrascar-se com uma pensão de 200 francos. Em 1845, começou a publicar críticas de arte e os primeiros poemas. Assinava Baudelaire-Dufaÿs. Nesse mesmo ano, tentou suicidar-se com uma faca. O incidente levou-o de novo para o colo materno, rompendo em definitivo as relações que mantinha com o padrasto. Continuou a publicar textos no Corsaire-Satan, no L’Artiste, aderiu à Societé des gens de lettres, publicando no boletim da mesma a novela A Fanfarlo. Durante a revolução de 1848, envolveu-se na política e juntou-se às barricadas de rua. Com Champfleury e Toubin, publicou o jornal democrático Le Salut Public. Também por esta altura, publicou as primeiras traduções de Edgar Allan Poe. A viver na companhia de Jeanne Duval, continuou a publicar os seus textos em edições dispersas, andou por Dijon e Neuilly, regressando a Paris com frequência. As relações com Jeanne haviam-se deteriorado. Baudelaire estava perdido de amores pela cortesã Apollonie Sabatier, assim como pela obra de Poe. Mas só a Sabatier mandou cartas anónimas, dedicando-lhe vários poemas que viriam a constar da primeira edição de As Flores do Mal (1857). Dividido entre Jeanne e Apollonie, resolveu-se por Marie Daubrun. As Flores do Mal foram publicadas com estardalhaço. O livro foi considerado imoral, obsceno e blasfémico, a maioria dos exemplares acabou apreendida e Baudelaire foi condenado a 300 francos de multa e obrigado a suprimir 6 poemas. Mais uma vez, a (in)justiça revelou-se justa: Victor Hugo escreveu a Baudelaire felicitando-o pela condenação. O poeta era cada vez mais um anjo caído nas teias da posteridade. Saltando de pouso em pouso, a obra prosseguia com redobrada atenção. Em 1859, uma paralisia cerebral tomou conta de Jeanne Duval. Pouco tempo antes, Baudelaire afastara-se de Apollonie Sabatier por ter esta oferecido ao poeta todos os atributos do seu corpo. Algumas perturbações cerebrais, provavelmente provocadas por uma sífilis contraída nos primeiros anos de boémia, começaram a perseguir o autor. Ainda que continuando a publicar textos críticos merecedores de atenção, assim como livros fundamentais ─ Os Paraísos Artificiais (1860), 2.ª edição de As Flores do Mal ─ a ideia do suicídio teimava em não se afastar. A solução passará por abandonar o país de origem e emigrar para a Bélgica, com a intenção de proferir conferências e publicar livros. Mas o acolhimento dos belgas foi praticamente nulo. Por sua vez, em França, sucediam-se artigos elogiosos de Verlaine, Mallarmé, Swinburne. Tudo bons rapazes. Em 1866, um acidente vascular cerebral trouxe-o de novo a Paris. Morreu a 31 de Agosto de 1867, na casa de saúde do Dr. Duval, acompanhado da mãe e de alguns amigos.

MALCOLM MCLAREN (1946-2010)


quinta-feira, 8 de abril de 2010

REPETIR O POEMA


Uns olhinhos muito pequeninos, minúsculos, dois berlindes azuis a quererem saltar das órbitas para os dedos, dois olhos lindos, muito pequeninos e azuis, tão belos, atraentes, atrás dos quais um oceano de lágrimas permanecia barrado por inúmeras mentiras. Dois olhos tristes. Aparentemente alegres.

TRÊS VEZES RECAMBIADO


Compreende-se melhor a obra de um artista se nos for possível enquadrá-la no seu tempo, recorrendo a dados biográficos e históricos. Ninguém olha para um quadro da mesma maneira se sobre esse olhar não pesar a informação que se julgue pertinente para a sua compreensão. Portanto, podemo-nos ficar pela mera degustação do olhar ou podemos apurar o gosto aprofundando os nossos conhecimentos. Com os poetas não é diferente. Podemos ficar simplesmente pelos poemas, aproveitando deles o gozo e a sabedoria da leitura indiferente, ou podemos intentar um diálogo com o que neles possa estar menos visível, procurando compreendê-los não só à luz que emitem mas também à luz do que dissimulam: a vida que esteve na sua origem. Para tal, é indiferente saber se Gregório de Matos nasceu a 23 de Dezembro de 1636 ou a 7 de Abril do mesmo ano. Na introdução a «Boca do Inferno» (&etc., contramargem/15, Novembro de 1982), somos informados de que o poeta nasceu em 1633. A confusão de datas há-de interessar a académicos e a astrólogos. A mim, particularmente, interessam-me outras informações. Coincidem os dados no local de nascimento: Baía de Todos os Santos. Descendente de um minhoto e de uma baiana endinheirada, estudou num colégio jesuíta e na Universidade de Coimbra. E aqui começa o que é verdadeiramente pertinente para a compreensão da sua obra. O estudo desinteressado das leis, o casamento com D. Michaela de Andrade e a amizade com Tomás Pinto Brandão apanharam-no nas tramas da poesia. Como D. Michaela era filha de juristas, o caminho para a carreira estava desbravado. Em 1663 foi nomeado Juiz de Fora de Alcácer do Sal, depois de constatada a sua pureza de sangue. Com o passar dos anos, acumularam-se os cargos. Gregório de Matos era representante da Baía nas cortes, era procurador, baptizou uma filha em Lisboa, enviúvou em 1678, foi nomeado Desembargador da Relação Eclesiástica da Bahia e Tesoureiro-Mór da Sé. D. Pedro II admirava-lhe as sátiras e incumbiu-o de um inquérito que provasse a corrupção de Salvador Correia de Sá e Benevides por terras do Rio de Janeiro. O poeta recusou-se e viu-se recambiado, desta feita para a Baía e pelas altas instâncias portuguesas. Depois de 32 anos vividos em Portugal, foi destituído dos cargos que lhe restavam por recusar vestir batina e por não aceitar a imposição de ordens superiores junto ao Arcebispado. Dedicou-se à boémia, o que fica sempre bem a um poeta, satirizando padres, freiras, ricos, governantes, a promiscuidade que à época se reflectia numa carne branca que não resistia aos apelos das mulatas:

Mulatinhas da Baía
Que toda a noite, em bolandas,
Correis ruas e quitandas,
Sempre em perpétua folia:
Por que andais nesta porfia?
Com quem de vosso amor zomba?
Eu logo vos faço tromba!
Vós não vos dais por achado:
Eu encruzo o meu rapado,
Vós dizeis arromba, arromba.


Em 1680, voltou a casar. Maria de Póvoas (dos Povos?) foi a feliz contemplada, de quem teve um filho de seu nome Gonçalo. Denunciado à Inquisição pela vida libertina que levava, safou-o o prestígio familiar. Mas as ameaças continuaram. Acabou preso e novamente recambiado, desta feita para Angola. Chegou a Luanda em 1694. Aí se envolveu em conspirações militares, favorecendo o governo local. Devido ao bom comportamento, foi de novo mandado para o Brasil. Mas agora estava no Recife, onde acabou por morrer em 1695 devido a febres contraídas em África. Tinha 59 anos e muitas décimas na gaveta:

Que febre têm, tão tirana,
As moças deste lugar,
Que se estão sempre a sangrar
Na veia d’arca conana?
A doença é tão insana,
Frenética e aluada
Que, a cada lua passada,
Torna logo o sangue a vir
Sem a veia se ferir,
Porque está sempre aventada.

Eu nunca pude alcançar
Como elas ficam sangradas
Sem levarem lancetadas.
Antes fogem de as levar!
Cada mês as vem sangrar
Com os seus dois cornos, a lua,
E sem lanceta nem pua
O sangue por si se escorre,
Sua e parece que corre,
Corre e parece que sua.

O sangue, em bom português,
Com letras bem rubricadas,
Depois de muitas penadas
Põe na fralda «aqui foi mês».
Chega um galante cortês
Ao templo do amor, então,
A fazer adoração
E, qual sacristão maior,
Descobre o painel do amor
E acha uma degolação.

Isto, sem tirar nem pôr,
Me sucedeu sempre a mim
No grande Pernamerim
Onde está o templo do amor;
E entrando no interior
Do templo, que eu fabriquei,
Um rio de sangue achei.
Pus-me então a esperar
Que vase, para o passar:
Não vasou, nunca o passei.

3800 ANOS

Camarada Van Zeller, já sei quem é o poeta mais rico de Portugal. É o Mexia. Só não sabia que além de publicar poemas, crónicas, weblogs, peças de teatro, contos e enciclopédias de auto-ajuda, também era presidente da EDP. 1,9 milhões de euros de remunerações em 2009 é muito pilim. Estive a fazer contas e cheguei à conclusão de que preciso de trabalhar 3800 anos, não gastar um único tostão, para conseguir amealhar tanto dinheiro. 3800 anos. Terei feito bem as contas? Não sei se vou conseguir trabalhar durante tanto tempo. Com o aumento da idade da reforma é bem capaz de ser possível, mas ainda assim 3800 anos é mais do que o tempo que Jesus Cristo leva pregado na cruz.

Podem dizer que as minhas contas são motivadas pela inveja. Se a inveja significar esta incapacidade de encontrar uma explicação para o facto do Mexia ganhar num ano o que eu só poderei auferir se trabalhar 3800 anos, então isto é inveja. Por mim, tudo estaria normal e seria justo e honesto, tudo estaria perfeitamente de acordo com as leis da vida, as quais, como o camarada Van Zeller saberá melhor que eu, são as leis do mercado, já que a vida não passa de um produto comercializável como um sabonete, para mim tudo estaria nos conformes se eu sentisse o meu esforço, a minha excelência, o meu mérito recompensados.

Bem sei que o negócio da energia não é comparável ao negócio dos livros. E que o presidente da EDP tem um trabalho bem mais exigente e esforçado do que o meu. Eu só tenho de conseguir explicar a miúdas giras que não me é possível aceder aos stocks de eventuais livrarias no aeroporto do Dubai e coisas do género. O Mexia tem de assinar montes de papelada e de subir aos postes de alta tensão. Toda uma vida de risco.

Sem electricidade, um tipo teria de viver iluminado por velas ou candeeiros a petróleo. Sem livros, um tipo embrutecia. O Mexia não poderia ser o poeta mais rico de Portugal, a EDP não existira, logo não teria um presidente a auferir num ano 1,9 milhões de euros de vencimento. Portanto, é muito mais importante iluminar a brutalidade do que sensibilizar a escuridão. Desculpar-me-á a deriva metafórica.

Mas por que é que eu estou condenado a 10% do meu vencimento base quando atinjo os objectivos que me são propostos? É este o prémio que o meu esforço merece: 47€. Enfim, 3800 anos é muito tempo. 1,9 milhões de euros é muito dinheiro. Tudo naturalíssimo. O mercado define as regras. As assimetrias não ferem porque é o mercado que as define e quando o mercado define ninguém se meta com ele porque ele é que sabe o que andamos todos a fazer sobre a terra até vir o dia em que a terra fará de nós o que nós não conseguimos fazer do mercado.

Olhe, camarada Van Zeller, dá vontade de fugir para Paris só para não ter de ouvir estas notícias. Dir-me-á que lá também é assim. Pois, mas pelo menos lá ouvíamos as notícias em francês. Será que o meu patrão me pagava as deslocações?

P.S.: afinal parece que são 3,1 milhões de euros. Sempre fui mau a matemática.

terça-feira, 6 de abril de 2010

SUCESSO NA VIDA




Há por aí uma espécie de gente morta-viva, que pouca consciência tem do viver excepto quando exerce alguma actividade convencional. Levem esses sujeitos para o campo, ou metam-nos num barco, e vereis como anseiam pela secretária ou pelo gabinete. Não manifestam curiosidade; não se deixam impressionar por aquilo que o acaso lhes coloca no caminho; não têm prazer em exercer gratuitamente as suas faculdades; e, a menos que a Necessidade os empurre à paulada, não mexem um dedo. Não serve de nada falar a indivíduos desta espécie; são incapazes de manter-se ociosos, a sua natureza não é suficientemente generosa; e passam em estado comatoso as horas que não dedicam à tarefa furiosa de enriquecer. Quando não precisam de ir ao escritório, quando não sentem fome nem estão dispostos a beber, todo o mundo vivo constitui para eles um espaço vazio. Se têm de esperar uma hora ou mais pelo comboio, caem numa espécie de torpor estúpido com os olhos abertos. Ao vê-los, dir-se-ia que não há nada para observar nem ninguém com quem falar; pensar-se-ia que estão paralíticos ou alienados. E, no entanto, provavelmente são trabalhadores incansáveis, à sua maneira, capazes de detectar à primeira vista um defeito numa obra ou uma flutuação no mercado. Frequentaram a escola e a universidade, mas estiveram o tempo todo com o olho numa medalha; andaram pelo mundo e cruzaram-se com pessoas inteligentes, mas durante todo esse tempo só pensavam nos negócios próprios. Como se a alma humana não fosse já demasiado pequena à partida, enfezaram a deles e limitaram-na ainda mais através de uma vida de trabalho sem a mínima distracção. E ei-los subitamente com quarenta anos, apáticos, incapazes de imaginar a mais pequena forma de divertimento, sem dois pensamentos que choquem um no outro, enquanto esperam pelo comboio. Antes de ter vestido os primeiros calções, talvez tivesse trepado aos caixotes; com vinte, teria provavelmente olhado para as raparigas; mas, agora, o cachimbo está fumado, a caixinha de rapé vazia, e ei-lo sentado num banco, hirto como uma estaca, com olhos mortiços. Não é propriamente o que eu chamo ter Sucesso na Vida.
Robert Louis Stevenson, in Uma Apologia dos Ociosos, trad. Célia Henriques, Junho de 2005, pp. 42-43.

DEDICÁCIAS

Fomos recordados este fim-de-semana de que a poesia portuguesa está em guerra. Pelo sim pelo não, comprei um colete à prova de balas (de borracha) e passarei a andar de capacete nas ruas. Os soldados desta guerra figurativa, há muito que o sabemos, são pobres e mal pagos. Nisto são como os outros. Só se distinguem dos demais por trazerem o amor pendurado ao peito. Os outros trazem o ódio para o qual foram educados. Contudo, é bem visível que nas trincheiras da poesia o amor que se traz pendurado ao peito (ou nas cordas vocais) só serve para atrair víboras que, caso seja necessário, serão mortas à paulada pelos próprios encantadores. Porque nesse amor, a gente já não sabe quanto nele há de desgosto e de aflição, de ressentimento e de frustração. Enfim, de alívio. Furto os componentes da bomba atómica, sumamente ridícula e defeituosa, à nota prévia que Mécia de Sena dedicou às famigeradas Dedicácias de seu genial marido. Agora republicadas pela Guerra & Paz (Março de 2010), seguidas de um discurso proferido a convite da comissão organizadora das comemorações de Camões em 1975, cabe-nos aqui repensar um pouco os ditames de uma guerra que mais se tem assemelhado a uma espécie de auto-genocídio sem Organização Mundial que valha à declarada morte da poesia. Coitadita.

Antes de mais, convém declarar que das quatro dezenas e qualquer coisa de Dedicácias revisitadas, pouco mais que uma dúzia valerá mesmo a pena enquanto poesia. O resto é esterco com o qual a obra poética de Jorge de Sena não se deixa confundir. Isto é apenas uma ínfima partícula dessa obra, «produto de profundo desgosto, porque alguém não esteve à medida da altura que devia; ou de ressentimentos, por alguma maldade ou injustiça recebidas ─ e foram muitíssimas e de toda a ordem» (Mécia de Sena, pp. 11-12). Que o fel do ressentimento vomitado sob a forma de poema seja tão popular, não admira. Mas talvez seja conveniente lembrar aos desmemoriados ou aos desatentos ou aos néscios ou aos despercebidos, sejam eles por conveniência ou pura ingenuidade, que Jorge de Sena não foi mais vítima do país que o maltratou do que muitos outros poetas por aqui nascidos e aqui falecidos, alguns dos quais só nos barbitúricos, no vinho ou noutras matérias apaziguadoras vislumbraram a réstia de conforto que Jorge de Sena foi buscar à escarradeira. Da falta de génios injustamente esquecidos, ostracizados, humilhados por razões políticas, idiossincráticas, religiosas ou meramente estéticas é coisa de que não nos podemos queixar. Valha-nos isso.

De resto, se estamos em guerra, só nos podemos queixar de não sabermos estar em paz com anjos e demónios. Não é preciso ter ido à guerra para saber que o que ela deixa de herança é um rol de destroços e de miséria, de ruínas e de porcarias várias que não vale a pena perder tempo a enumerar. Também não é preciso ter tido um cancro para saber operá-lo. Bastará ter estudado para se chegar a cirurgião. Mais estudo, menos estudo, mais guerra, menos guerra, estas sátiras de Jorge de Sena confirmam o diagnóstico que qualquer ser provido do mínimo senso comum pode traçar do meio literário na sua generalidade, da política nos seus particularismos, da humanidade na sua brumosa disseminação. Sátira política, poema pornográfico, ironia exorcista, compõem o “bestiário”. Os melhores poemas, porque mais universais e intemporais, continuam a ser aquela meia dúzia que viu a luz do dia, em Fevereiro de 1991, em Hífen ─ Cadernos Semestrais de Poesia, n.º 6. Depois há alguns tiros de alvo incerto mas presumível, entre outros de alvo declarado, mas aqui e acolá desprezível. Caso dos dois poemas que têm por objecto, mais do que o surrealismo, a homossexualidade de Cesariny. O que sobra faz-se de umas coisinhas humorísticas que os próprios alvos poderiam usar contra Jorge de Sena. Ninguém notaria a diferença, e está visto que qualquer um pode citar estes poemas fazendo sua a voz biliosa do autor de Peregrinatio ad loca Infecta.

Se há característica espirituosa neste tipo de discurso, é ele poder tornar-se útil aos seus declarados inimigos. O que resta? Uma vítima em estado de graça? Um guerreiro vingando-se pela calada? Outros houve que foram às balas em vida e acabaram desgraçadamente na vala comum. Jorge de Sena preferiu “catedrar-se” no exílio possível, lamentando-se do possível não corresponder às suas aspirações individuais, ao que ele julgava merecer e outros não quiseram reconhecer. Agora é trasladado com pompa e circunstância, tem o seu lugar garantido ao lado de Orpheu. Se fosse vivo, talvez dedicasse um poema à hipocrisia dos que contemporaneamente o incensam. Eu agradeço a estes e àqueles por terem tornado possível o mau génio do poeta, mas não deixo de me interrogar sobre as fontes da insatisfação, sobre os terríveis maus tratos de que terá sido vítima a resistente carapaça do bardo. O que haverá nele que é menos ignóbil do que aquilo que há nos outros? E aí chego ao elogio a Camões, que de tão elogioso se perde nestas turbulentas águas: «cantou a expansão portuguesa, na medida em que considerava que esta expansão era ou deveria ser a civilização ocidental levada a toda a parte, no que tinha de moralmente digno e de socialmente responsável» (p. 114). Conseguir vislumbrar na expansão portuguesa algo de «moralmente digno e de socialmente responsável» é d’homem. Ou de poeta. Do mal, o menos.

Escrito para o Rascunho.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

FACEPOEM

Henrique Fialho começou uma amizade com Henrique Fialho. Henrique Fialho tornou-se fã de Henrique Fialho. Henrique Fialho entrou no grupo Henrique Fialho. Henrique Fialho comentou a fotografia de Henrique Fialho. Henrique Fialho confirmou a sua presença no evento Henrique Fialho. Henrique Fialho e Henrique Fialho adicionaram Henrique Fialho aos amigos. Henrique Fialho ‘tá bué da coiso.

O ESPÍRITO DE VAN ZELLER FOI ÀS COMPRAS

Camarada Van Zeller, este fim-de-semana descobri algumas coisas muito importantes. Descobri que ao pé do meu recibo de vencimento, o recibo de vencimento dos administradores executivos da GALP deve ser uma enorme confusão. No meu vem tudo muito bem discriminado e em números redondos, ou seja, perceptíveis. Subsídio de almoço, horas extra pelos feriados de serviço, suplemento nocturno (28 horas que me renderam 19,18€, o que é muito bom pois deixa-me margem para voltar a comprar o Expresso, ler as críticas do António Guerreiro e limpar o xixi do Basquiat com elas), o magnífico vencimento base, que é aquele que o camarada conhece e julga excessivo, e um prémio de vendas que acrescenta 10% do vencimento base à soma final. É verdade que sou um bocado parvo, pois esse prémio de vendas fica quase sempre na casa de quem me o paga. O que fazer? Não resisto à tentação dos livros. Qualquer dia passam a pagar-me em géneros e depois faço como a ratazana Firmin, como bíblias inteiras de Joaquim Manuel Magalhães e Cª. Pobre Firmin, tivesse ele comido essas coisas e ainda morria de indigestão. Mas sinto-me feliz. Ao pé dos 1,5 milhões que o CEO Ferreira de Oliveira recebeu, este meu humilde vencimento garante-me um lugar no céu. Dos pobres é o reino do Senhor. Ao passo que o Ferreira tem o CEO na Terra, mas há-de ir parar ao inferno. Eis um raciocínio que me deixa confortado, nomeadamente por ser um indivíduo cada vez mais crente no bom coração da humanidade. É verdade que quanto mais olho para dentro de mim, mais detesto a raça humana. Porém, sou muito crente no bom coração dos outros. Mormente no coração de santinhas que falam com seres do outro mundo. Isto dá-se depois de ter visto uma espírita a falar com espíritos num programa da Júlia Pinheiro. Fiquei a saber que os espíritos são maltinha bem aperaltada, boas companhias. Gostava de saber por que espíritos ando eu rodeado. A minha mãezinha costuma benzer-me e diz-me que sou vítima de mau-olhado. Não admira, com um vencimento invejável como o meu é natural que ande para aí muito mortal quebranto atirado na minha direcção. Mas concluo, caro Van Zeller, que isto de falar com os espíritos há-de ter as suas vantagens. Sempre vamos falando com alguém vivo, vivo de realidade. Mais vivo do que os mortos ambulantes que pululam nos centros comerciais e nos weblogs e na poesia portuguesa & etc.. Como aquele que se me chegou ao balcão no passado domingo, pediu dois livros para oferta, perguntou onde podia comprar jornais e se sabíamos o cartaz dos cinemas. Ainda por cima era brincalhão, disse chamar-se Francisco Van Zeller.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

UMA ENORME NUVEM DE GAFANHOTOS


Fernando Grade (Fernando José da Costa Grade) nasceu no Estoril a 1 de Abril de 1943. Começou a escrever na adolescência, tendo publicado o primeiro livro em 1962: Sangria. Poeta, ficcionista, pintor, escultor, conferencista, dinamizador cultural, foi também crítico de arte no Jornal de Letras e Artes, Século Ilustrado e Diário de Notícias. Desde os 18 anos que colaborou, como jornalista ou cronista, com vários jornais. Em 1964, fundou o moviemnto poético desintegracionista. Entre 1966 e 1968, esteve como expedicionário militar em Angola. Aí organizou recitais, colóquios, criou o Teatro de Acção, foi crítico literário do ABC ─ Diário de Angola, dirigiu a página literária Polígono. Finda a guerra e a ditadura, integrou a Comissão Nacional de Defesa da Liberdade de Expressão. No Verão de 1987, administrou um breve curso sobre o Desintegracionismo. Deu aulas de escrita criativa, ganhou alguns prémios, assinou canções, foi vereador pela FEPU/APU da Câmara Municipal de Cascais, é o presidente do Comité Directivo do Movimento de Intervenção Cultural (MIC) que, entre outras publicações, foi dando à estampa várias edições dos cadernos de poesia Viola Delta. Fernando Grade tem mais de 20 livros publicados. Também assinou trabalhos com o heterónimo Abel Sabaoth (nascido no Porto, freguesia de Santo Ildefonso, a 6 de Junho de 1936). Não coube na antologia.



SOBRE A BABA MONÓTONA DOS VERMES

«Sócrates foi o mais lúcido de quantos a si próprios se enganaram.»
(Nietzsche)

UM cão com harpas e cerejas
veio das ondas do mar para os bosques:
era como um jardim plantado
com luz de pedras ao meio
liberto de cadáveres e serpentes.
Lírico sítio de árvores de
pêlo de longas tranças,
não há clarim que o vença.
O cão tinha fígados de flor
alimentava-se de factos exóticos
um vómito de nenúfares a arder
implacável ranho de baleia.

Havia os chicotes a rasgar o sexo
e o cão nunca tremia, não
respirava o buraco fendido por sombras.
O seu corpo de aço vagueia
qual nódoa de espiga de feno na boca,
bala azul.

Quem engana a raiva do cão
honra as mortalhas verdes e os sustos
afaga a baba monótona dos vermes.

OI -16 de Dezembro de 1990