domingo, 26 de dezembro de 2010

A PRIMAVERA HÁ-DE CHEGAR, BANDINI

Perdoem-me os erros, que nada representam ao pé daquilo por que temos passado nos últimos tempos. Terminei agora mesmo a leitura de A Primavera há-de chegar, Bandini. Dos livros de John Fante que li até hoje, este foi aquele que menos me cativou. O facto de a acção se passar em plena época natalícia não ajuda. Tenho com o Natal uma relação semelhante à que cultivo com a política, abstenho-me antes que dê em doido. Seja como for, trata-se de um Fante. Há que dar o benefício da dúvida. Quem não estiver familiarizado com o universo do autor norte-americano (nasceu em Denver no ano da graça de 1909), saiba que há nele um sentido de humor que se revela ainda muito incipiente neste primeiro tomo da saga conhecida como The Bandini Quartet: Wait Until Spring, Bandini (1938), The Road to Los Angeles (apenas publicado em 1985, apesar de ter sido o primeiro a ser escrito), Ask the Dust (1939) e Dreams from Bunker Hill (1982). Também com tradução de Rui Pires Cabral, a Ahab tinha editado entre nós Ask the Dust (Pergunta ao Pó, 2009). Reincide agora na história de Arturo, alter-ego de John Fante, com A Primavera Há-de Chegar, Bandini (Setembro de 2010).

No centro das atenções está uma família, entre a qual se destaca o jovem Arturo, aqui com 14 anos. Os restantes são o pai Svevo, a mãe Maria e os dois irmãos August e Federico. Com as raízes na Itália, vivem em Rocklin, Colorado, as dificuldades da integração. São pobres, deslocados, mas orgulhosos. O narrador não poupa nas imagens que evidenciam essa pobreza. Ao primeiro parágrafo fala-nos dos «buracos nas solas das botas» do pai de família, um assentador de tijolos que gosta de beber o seu copo enquanto joga uma partida de póquer com os amigos italianos: «Estava enregelado e tinha buracos nas solas das botas. Nessa mesma manhã forrara as botas com pedaços de cartão de uma caixa de macarrão. O macarrão ainda não fora pago. Ao forrar as botas, não deixara de pensar nisso» (p. 13). Os pormenores são reveladores da prosa fria que nos espera. Não chega a John Fante dizer que as botas estavam rotas, é preciso reforçar a imagem da pobreza com uma caixa de macarrão que ainda não tinha sido pago.

Já a religiosidade de Maria Bandini, uma dona de casa remoída pelo ciúme, ocupada na educação dos três filhos, é-nos assim descrita: «Maria não precisava de livros nem revistas. Tinha o seu próprio meio de evasão, o seu caminho privado para a satisfação: o rosário» (p. 65). Na voz do narrador ecoam os sentimentos do mais rebelde dos três filhos: Arturo. Os complexos de integração perseguem-no. Preferia chamar-se John a Arturo, Jones a Bandini, preferia ser americano de gema, viver em Denver, preferia frequentar um liceu público a andar numa escola católica. Fala do pai tanto com admiração como com desprezo, fala da mãe com ternura e uma espécie de repugnância amordaçada. Há ainda Donna Toscana, a mãe de Maria, sogra de Svevo, com quem este não pode nem à distância. Uma inesperada visita da avó Donna, mulher de «língua venenosa como uma víbora», espoletará o conflito familiar sobre o qual se ergue a narrativa. No entanto, o pilar é frágil.

Muito mais interessante que as desavenças entre Svevo e Maria é a forma como Arturo vai crescendo interiormente na relação frustrada que mantém com o que o rodeia. Os melhores momentos do romance saltam da consciência de Arturo para a página. Desde logo a sua relação paradoxal com a religião. Veia herdada da mãe, a religião é no jovem Arturo uma ameaça incompreensível, fonte de inquietas reflexões e temores disparatados. O Capítulo Cinco é todo um tratado sobre as dúvidas religiosas que podem assolar um jovem da estirpe de Arturo Bandini: «Arturo Bandini estava bastante certo de que não iria para o Inferno depois de morrer. O Inferno era o destino daqueles que cometiam pecados mortais. Arturo sabia que tinha cometido muitos, mas a confissão salvava-o. Acreditava que chegaria sempre a tempo à confissão ─ ou seja, antes de morrer. E batia em madeira sempre que o assunto lhe acudia ao espírito ─ para garantir que chegaria sempre a tempo à confissão. Assim, Arturo estava bastante certo de que não iria para o Inferno depois de morrer. Por duas razões. Em primeiro lugar, a confissão; em segundo lugar, o facto de ser bastante veloz» (p. 93).

Infelizmente, parágrafos como o supracitado não abundam neste romance. Ao crescimento de Arturo, Fante prefere explorar paralelamente a relação conflituosa entre Svevo e Maria. O Natal conflituoso, cheio de provações e ausências, resvala amiúde num sentimentalismo de que o próprio narrador parece estar consciente. É como se não houvesse alternativa. O que aqui está em causa é a «linguagem da vida» (p. 176). A presença permanente da neve debaixo de solas rotas tinge o cenário e adensa o elemento essencial da obra: a esperança. No fundo, é disso que se trata quando falamos na Primavera por chegar. A esperança de que a família retome o seu curso, o pai volte a ter trabalho, a mãe volte a ser bonita, a amada ressuscite num qualquer recanto da memória, agora já não sumida no gelo, mas erguida no meio de vastos campos verdejantes, em flor. A Primavera por que Arturo anseia é um eco que ressoa sobre si próprio a vanidade da existência. Para se manter vivo, é preciso acreditar que a qualquer momento o Sol se ergue sobre o gelo e transforma a neve em água: elemento da vida. E a pergunta final só pode ser: que tipo de pecado é a esperança?
Escrito para o Rascunho.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

WORTEN SEMPRE?

Há dois meses parti o monitor a um computador. Como tinha seguro, fui deixá-lo à Worten e comprei um disco externo para guardar tudo o que havia dentro do portátil magoado. Ontem liguei o disco externo pela segunda vez. Ardeu. Para recuperar o que lá está dentro preciso de um orçamento. Só o pedido vale 40€, o orçamento não faço a mínima ideia em quanto possa ficar. Não vou gastar 40€ para pedir um orçamento. Os tipos da Worten também não sabem por onde anda o portátil magoado. Magoado, perdido, eventualmente abandonado e só entre congéneres. Só podia ser meu. Não sei se voltarei à Worten. É possível que ainda me cobrem por isso.

domingo, 19 de dezembro de 2010

UM POEMA DE DYLAN THOMAS

Dylan Thomas é intraduzível. Qualquer tentativa de tradução dos seus poemas deve ser considerada um crime de lesa poesia. Porém a carne é fraca e, por vezes, a gente mete-se a pensar como poderia ser em português uma música que não aceita outra língua senão a que lhe é própria. O meu perdão antecipado aos puristas:

HOUVE UM TEMPO
Em que época puderam os bailarinos com seus violinos
suspender os problemas nos parques infantis?
Houve um tempo em que podiam chorar sobre os livros,
mas o tempo gerou uma larva nos seus caminhos.
Estão inseguros sob o arco dos céus.
É mais seguro o que nesta vida fica por conhecer.
Sob os signos celestes aqueles que não têm armas
têm as mãos limpas, e, como o fantasma impiedoso
que sozinho fica ileso, também os cegos vêem melhor
.


Dylan Thomas, versão de Was there a time, datado de Dezembro de 1935, in Collected Poems 1934-1953, Phoenix, 2000.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

CADA POVO TEM AQUILO QUE MERECE


São variadíssimas as razões para não se votar em Cavaco nas próximas eleições. Foi um primeiro-ministro medíocre a quem devemos grande parte do que temos hoje, um país desperdiçado em cursos de formação profissional inúteis, distribuição de subsídios à la carte, negociatas obscuras com bancos falidos, corruptelas ministeriais para todos os gostos, uma oligarquia burocrática, conservadora e hierárquica onde os de baixo se afogam na baba dos que estão por cima. É uma figurinha cinzenta e conservadora, um triste espírito bolorento sem o dom da palavra, um indivíduo sensaborão que só representa bem Portugal no que Portugal tem de mais português: a saloiice, a falta de cultura, o culto da mediania que subsidia tanto a manipulação e a arbitrariedade dos agiotas como a submissão e o conformismo dos paus-mandados. Há muitos tristes episódios do professor carranca no YouTube. É difícil escolher um que seja sintomático do tipo de criatura que estamos a falar. Eu gosto destes dois. Olhem para aquilo e pensem: é o Presidente da República do nosso país.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

APANHAR O COMBOIO



Nunca tal me sucedeu: começo a tropeçar num estado de auto-censura. Não sei o que se passa, mas passa-se qualquer coisa. Para mim o problema já não é se devo ou não escrever isto ou aquilo, mas como libertar-me novamente dos grilhões profissionais e domésticos que me impedem a escrita. Talvez não seja má ideia começar precisamente por aqui.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

UM ARTIGO

Sobre Nicanor Parra, sugerido pelo Rui Manuel Amaral. Agradecido:

Hace mucho que Parra está de vuelta de toda vanidad ligada al hecho de publicar. Nadie mejor que él sabe de la condición utópica que lleva aparejada la iniciativa de reunir sus obras completas. La obra de Parra, la más libre y radical de toda la poesía escrita en español durante el último siglo, se resiste a ser fijada y encuadernada. Pese a lo cual, leer en secuencia los libros que ha consentido publicar en el transcurso de más de medio siglo, constituye una experiencia irreversible, trastornadora de todas las ideas que circulan comúnmente acerca de qué es y qué deja de ser poesía. Quizá debido a esto, el más grande poeta vivo de la lengua -como ha sido saludado por voces muy autorizadas- sigue siendo poco leído e insuficientemente apreciado en España. Una y otra vez me han preguntado las razones de que así sea, y todas las explicaciones que he sido capaz de aportar aluden a una incomprensión de sus propósitos y de sus alcances, propiciada por un previo malentendido acerca de qué cosa sea la lírica y cuál la relación de la palabra poética con el habla. No pretendo que en España no haya lectores receptivos a la antipoesía y buenos entendedores del programa que subyace a ella, el más subversivo y renovador de la poesía latinoamericana. Lo que sí digo es que los rumbos de la poesía española han desatendido en general -por razones penosas de explicitar- la propuesta de Parra, y que el estado de opinión más general acerca de ella es un amasijo de tópicos apenas dignos de ser rebatidos. (Aqui)

sábado, 11 de dezembro de 2010

REGIME DE EXCEPÇÕES

Camarada Van Zeller, deixe que lhe diga: ando, como dizê-lo?, embasbacado. Não será bem o termo. Boquiaberto, talvez, embora essa condição se deva mais ao nariz entupido que aos reais motivos que aqui me trazem. Ando atolado de espanto e estacado de assombro. Vocelência veja, o mundo não está para menos. A médio Tejo um tornado resolve varrer tudo o que apanha pela frente deixando atrás de si um caos estimulante, em Espanha os controladores de voo põem em prática o que o poeta tinha posto em poesia, do ar caem bocados de um avião angolano, o Nobel da Paz foi entregue a uma cadeira vazia, os quadros de Picasso ficam por leiloar por causa de um electricista, o Messias chame-se Assange é louro e nasceu na Oceania, a França e a Alemanha recusam continuar a contribuir para o salvamento do euro, o euro está com falta de ar, em Portugal publicam-se livros que lembram o escudo, caem-nos lágrimas dos olhos, a nostalgia é uma ferramenta poderosíssima, a PSP foi ao Martim Moniz deter um indivíduo e identificar umas centenas, tememos que se tivesse ido à AR teria detido umas centenas e identificado 1 indivíduo, provavelmente o Manuel Alegre que, curiosamente, tem andado com um ar bastante pesaroso… Há remédio santo: ouvir o professor Marcelo aconselhar juizinho ao PSD, algo semelhante a ouvir a Dra. Jennifer Melfi aconselhar juizinho ao Anthony Soprano. Mas a cereja no topo do bolo é a nova ideia para resolver a crise (começo a pensar que já não há grande diferença entre dizer ideia para resolver a crise e ideia para a crise). Ei-la: «Patrões da indústria dizem que fundo para financiar despedimentos tem “pernas para andar”». A minha mulher ouviu isto e ficou com a periquitos aos saltos. A passarinha só amainou as pernitas para andar quando eu lhe expliquei o processo. Temo, camarada Van Zeller, que lhe agrade a medida. Ora tope lá o esquema: eu sou seu empregado, você quer-me despedir, o Estado dá-lhe do meu dinheiro para que você me possa despedir. Portanto, não só vou para a rua como ainda lhe pago para ser despedido. No fundo, faz sentido. É um serviço que me estão a prestar. Ser despedido é agradável, é um serviço público incomparável, é uma reforma antecipada, é meio caminho andado para a boa vida. Jovem, queres um emprego? Trabalha de graça. Jovem, vais ser despedido? Paga para isso. Porque não há-de um cidadão pagar para ser despedido? O desemprego só traz coisas boas. Podemos passar mais tempo a ver televisão, passear junto à falésia, ler o jornal na esplanada do café preferido, apurar as circunferências em torno de anúncios de emprego, piscar o olho às miúdas, lubrificar a imaginação enquanto magicamos mil e uma maneiras de nos suicidarmos. Tudo vantagens. Portanto, estou pronto para pagar à minha entidade patronal para que ela me possa despedir. Até porque cada vez mais se confirma que não haverá regime de excepções para o salário mínimo, continuarei a ganhar menos de 500€ por mês. Um futuro promissor. Os regimes de excepções não são para a gosma, a ralé, a escória, o lumpen. Não senhores. Excepções a quem as trabalha. E mai' nada.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

RESILIÊNCIA

Foi-se apercebendo dos tiques comportamentais que caracterizavam as pessoas conforme o estatuto que ocupavam na hierarquia empresarial. Cada qual com os seus. Aquela pergunta ─ sabe o que significa? ─ evocou dentro dele um velho desprezo pelos jogos psicológicos, pelos testes, pelas provas de aptidão. Resiliência é o que pedem ao homem dos trapos, não sem o questionarem sobre o significado do termo. Seria embaraçoso ficar sem palavras. Um pouco mais abaixo conheceu quem funcionasse por meras provocações. Imagine-se uma situação em que alguém usa de um ar soberbo e, sem dizer água vai, coloca nas mãos do homem dos trapos um simples papelinho dobrado para meter no lixo. É como se lhe estivessem a chamar homem do lixo, coisa que não o afectava particularmente. O crápula não pediu: podes pôr-me isto no lixo? O cretino não perguntou: onde é o lixo? Se o tivesse feito, o homem dos trapos seria o primeiro a pegar no papelinho dobrado e, atenciosamente, colocá-lo-ia no lixo. Não. O que o afectou foi o ar soberbo, uma indisfarçável falta de educação vestida de fato e gravata. Apeteceu-lhe atirar o papelinho dobrado às trombas do cretino, mas foi resiliente. Era o que lhe pediam, para isso lhe pagavam. O povo chama-lhe engolir sapos.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

DOUTOR AVALANCHE

Doutor Avalanche (Setembro de 2010) é o segundo volume de contos de Rui Manuel Amaral (n. 1973). O primeiro foi Caravana (Janeiro de 2008). Ambos editados pela Angelus Novus, numa colecção intitulada Microcosmos, representam o que de melhor se vai produzindo em Portugal nesse território ambíguo do microconto. Sabemos não ser do agrado do autor este género de classificação. Tinha bom remédio, varria-a por completo dos seus livros. A confusão repete-se, involuntariamente, não só pela inclusão da obra numa colecção que se afirma especialmente vocacionada para a micronarrativa, como também por, mais uma vez, vir no final do livro um desafio editorial bastante peculiar: «seja também um microcontista». Sem pretender decalcar a toada absurda que envolve os contos de Rui Manuel Amaral, imagine-se o que seria se no final dos livros de Lobo Antunes a Dom Quixote começasse a desafiar os leitores do eterno candidato ao Nobel a tornarem-se romancistas. O pormenor não é despiciendo, induz a ilusão de um facilitismo que está longe de ser um dado adquirido.

A leitura dos contos de Rui Manuel Amaral prova-nos nada haver de fácil e gratuito na prática do conto brevíssimo. Os contos de Doutor Avalanche pressupõem um domínio de algumas técnicas narrativas que não são nada fáceis de apurar. Os mestres estão mais que identificados. É inevitável pensarmos em Nikolai Gógol quando lemos a história de um homem que, no encalço de uma orelha que lhe fugiu, deixou a língua sozinha em casa. O espírito de Franz Kafka mostra-se em situações como a do homem que «atraía todas as atenções e provocava nos outros um riso» descontrolado. Há várias fábulas que nos lembram os poemas em prosa de Russell Edson, embora o nome mais frequentemente invocado seja, sem dúvida, o de Daniil Harms. De resto, esta inevitável associação é o que menos contribui para a emancipação da prosa de Rui Manuel Amaral, a qual incorre com frequência nesse risco de um déjà vu menos apelativo. Por outro lado, haverá quem chame maturidade, ou homogeneidade discursiva, a esta repetição de processos. Seja como for, trata-se de um volume anormal no contexto literário português.

Doutor Avalanche é percorrido, ao longo dos seus quarenta e tal contos, pelo aparecimento inusitado de estrofes, grafadas em itálico, provenientes de um poema de autor italiano anónimo do século XVII. De alguma forma, o conteúdo desse poema ─ Quando gli ucceli portaranno i zoccoli ─ permite inferir a lógica que subjaz às short stories compiladas neste volume. Trata-se de uma lógica ilógica, de uma inversão de sentido que lembra Lewis Carroll. As situações insólitas vivenciadas pelas personagens de Doutor Avalanche têm a característica peculiar de refutarem a organização do mundo. Homens aparentemente banais, com profissões mais ou menos monótonas (actor, escritor, fabricante de olhos de vidro, pescador, obscuro funcionário de uma repartição ministerial…), vêem-se envolvidos em casos excepcionais: Dietrich Dhal evapora-se, Markus Grob trinca a canela da amada, certo homem «de cada vez que se via num espelho descobria em si um rosto novo e desconhecido…» (p. 45). Muitos destes casos, que recolhem manias, ironizam hábitos, representam estranhas metamorfoses, colocam o leitor numa situação de expectativa cujo desenlace raramente justifica.

Rui Manuel Amaral é exímio na arte do malogro. Usa de notas de rodapé que acrescentam vazio ao vazio das estórias, recorre ao humor e ao absurdo, por vezes ao puro nonsense leariano para desmontar chavões literários, frases feitas, clichés. Note-se o recurso desmesurado a expressões coloquiais já de si algo dúbias: «meu dito, meu feito», «o caso muda de figura», «sem tirar nem pôr», «dei de caras», «raios me partam», «força de expressão», etc. Os horríveis incidentes que povoam o seu imaginário permitem-lhe desconstruir a precisão narrativa que se impõe como definidora da suposta boa literatura. Há frases simples que definem um estilo: «Não me perguntem como é isto possível porque não saberei responder e isso não é bom para o meu prestígio de narrador omnisciente» (p. 63); «De repente, acontece uma coisa que pode parecer anormal e, de facto, é» (p. 73); «No entanto, Gerard Geldenhyus sentia-se, digamos, um pouco coiso» (p. 87). Daí que a moral a retirar destes contos não seja apenas a sugerida no remate do conto que termina a páginas 26 ─ «nem tudo no mundo tem que ter lógica ou obedecer a uma sintaxe perfeita» ─, mas também a de que as coisas têm a sua lógica e sintaxe internas (estejam estas ou não em sintonia com o resto do mundo).
Escrito para o Rascunho.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O JOGO DAS FRUTAS

Mãe: nasce nas árvores ou vem da terra?
Matilde: nasce nas árvores.
Mãe: de que cor é?
Matilde: castanha.
Mãe: é fruto seco?
Matilde: sim.
Mãe: é a noz.
Matilde: boa, acertaste. Agora é a Beatriz.
Mãe: de que cor é?
Beatriz: vermelha.
Mãe: nasce nas árvores ou vem da terra?
Beatriz: nasce nas árvores com um papelinho colado.

domingo, 28 de novembro de 2010

APRESENTAÇÃO DE SOB OS TEUS PÉS A TERRA


Mais vodka, menos vodka, foi isto que improvisei no passado dia 26 na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul:


Ouvimos falar de estreias tardias quando um poeta lança o seu primeiro livro em idade avançada. Às vezes penso que não há estreias tardias, há apenas estreias precipitadas. Voltei a pensar assim ao ler o livro da Soledade Santos, que nasceu no Sabugal, terra da Guarda, em 1957, e aparece agora, pela primeira vez, em livro individual. Já lhe tinha lido muitos poemas num weblog infelizmente suspenso, o Nocturno com Gatos, de onde suponho virem muitos dos poemas deste livro, entre os quais, desde logo, aquele que tem o mesmo título do weblog em causa. Também lhe li uma dúzia de poemas numa singela antologia, publicada em Setembro de 2002, pela editora Sete Sílabas, uma antologia intitulada Quatro poetas na net que juntava aos poemas da Soledade versos de Nuno Dempster, também estreado tardiamente, de Daniel Francoy, recentemente publicado pela Artefacto, e de José Félix. São poetas que de alguma forma anteciparam um fenómeno hoje evidente: a Internet tornou-se um meio privilegiado na divulgação de poesia, o que não é de estranhar num tempo em que a relação das editoras com a arte poética é deveras tímida.

Julgo que a principal dificuldade que se colocou à Soledade foi a selecção e a organização dos seus poemas. Uma coisa é ir escrevendo poesia, outra coisa, bem diferente, é organizar num só conjunto essa produção. Os críticos tendem a olhar para os livros de poemas muito em função de critérios de homogeneidade temática e estilística. Pessoalmente, e talvez seja um defeito pessoal, agradam-me esses livros que os críticos apelidam de desiguais, não porque tenham poemas bons e outros menos bons, isso é coisa que acontece a todos sem excepção, mas por arriscarem uma diversidade que me parece concordar com a natural instabilidade das pessoas. Surgindo o poema de uma relação íntima entre os estados de alma e a indagação racional, o trabalho do poeta só pode ser o de actuar sobre os instantes, moldando o barro até que este assuma uma forma expressiva satisfatória. O livro da Soledade não é desigual no que respeita à sua qualidade intrínseca, mas está organizado em quatro conjuntos de poemas que, quanto a mim, denotam estados de alma diversos. São poemas que terão sido escritos em fases diferentes da vida, agora organizados num todo cuja coerência é, precisamente, a sua heterogeneidade.

Antes de mais, convém deixar claro que estamos a falar de uma poeta que domina claramente os mecanismos da língua portuguesa. No entanto, se nas entrelinhas pressentimos ecos de vozes nacionais, à excepção de Herberto Helder, os poetas citados de um modo óbvio são todos estrangeiros: Elizabeth Bishop, Luis Cernuda, Leonard Cohen, Odysséas Elytis (a quem o título do livro foi pedido de empréstimo), Yannis Ritsos, René Char, Andre Breton, Ursula K. Le Guin. Se repararmos, esta constelação polifónica ajuda-nos a perceber que a Soledade não está interessada em submeter a sua poesia a nenhum tipo de trâmite poético, a nenhuma teoria estética pré-estabelecida. Estará mais interessada, provavelmente, em aproveitar o que exista de bom e de belo em cada uma daquelas vozes, ainda que divergentes, e fazer disso exemplo. Não estamos a falar de uma poesia multirreferencial ou, como por vezes se diz, de uma poesia culta, o que é quase sempre o mesmo que dizer poesia chata. Estamos somente a falar de uma poesia que não enjeita um diálogo informal com outras poesias.

No primeiro conjunto de Sob os teus pés a terra está presente o sentimento de perda num contexto mais problemático do que efectivo. Os poemas da Soledade revelam uma consciência interna do tempo e dessa ditadura que o tempo imprime às coisas. O tempo, o passar do tempo, torna indiscutível o desaparecimento: leva-nos pessoas, situações, momentos, transforma-nos o corpo numa espécie de receptáculo de memórias que pesam sobre a terra. Mas este sentimento de perda tem as suas nuances. Um poema como IN MEMORIAM pode ajudar-nos a compreender melhor quais são essas nuances. No centro do poema estão os amigos, os que mudaram ao longo do tempo, os que partiram, os que foram esquecidos. Tudo isto resultaria absolutamente vulgar, não viessem duas estrofes finais trair essa vulgaridade: «Mas nada se perdeu digo-vos, / onde havia um muro e um rio / e uma canção de vidro escuro / como rasgões cada pedra ostenta / ecos de risos ímpetos os sulcos / empoeirados do crescimento. // E tudo é como foi imperfeito / e a seu modo permanece» (p. 12). O que passou como que ficou registado nas pedras (elemento sólido, resistente, testemunhal), e o essencial, a imperfeição das coisas, mantém-se.

O sentimento de perda, na poesia de Soledade Santos, não remete para paraísos perdidos nem para infâncias sentimentalmente recordadas. Ele é antes uma espécie de consciência do esmaecimento, do desbotamento - como uma peça de roupa que ao longo dos anos vai perdendo cor mas pela qual guardamos um afecto especial. Estes remates “paradoxalizantes” são frequentes nos poemas da Soledade. Desarmam um lirismo impressionável e idílico. Quando o poema ameaça repetir algo que teremos escutado noutras paragens, aparecem dois, três versos, uma estrofe inteira a desarrumar a leitura e os preconceitos que poderão adulterar essa leitura. Perdemos o domínio do poema, o poema como que instala um momento de transtorno que é característico de toda a boa poesia. Por vezes o remate sugere uma certa ironia. É o que acontece, a título de exemplo, no poema CARTA. Qualquer pessoa que o comece a ler julgará tratar-se de uma carta de amor. E de alguma forma o é. Mas no final o amor passa para segundo plano mediante a constatação da parca qualidade do papel: «Por isso escrevo, / mas afecta-me a transparência essa vaga moléstia / chamada distância e nem sequer / é de boa qualidade este papel em que a caneta arranha» (p. 31).

Os dois poemas anteriormente referidos permitem perceber outras características desta poesia: a clareza linguística é uma delas, a depuração da linguagem, assim como um ritmo que joga frequentemente com rimas internas, associações livres, utilização de vocábulos já não muito usuais, aglutinações. No entanto, este uso é feito de uma forma ligeira, natural, não se quer impor como característica essencial de uma poética. A arte poética que ressalta dos poemas da Soledade Santos é muito menos formal, é uma arte poética que busca a simplicidade. Isso está patente em poemas como NÃO PRECISAMOS DE MUITA COISA ou no poema UMA POÉTICA. Não sendo uma poesia bucólica, é uma poesia que tem no campo o seu principal cenário. Mesmo a Lisboa que aparece, sobretudo na última parte do livro, é uma Lisboa rústica, perdida, provinciana, lá está, esmaecida. São poemas que mantêm uma relação muito próxima com a natureza, com o campo, com os sons, os cheiros, as imagens do campo. Estão repletos de patos selvagens, cotovias, corvos, salgueiros, sardinheiras, crisântemos, pardais, cerejas, figueiras, ervas, galinhas, perus, patos, rolas…

Quero, no entanto, sublinhar dois aspectos que me pareceram mais marcantes nos dois últimos conjuntos do livro. Os poemas finais deixam-se invadir por uma melancolia e um desencanto que me parece ter na sua origem o sentimento de solidão. Se no início era a perda que se evidenciava, agora é a solidão, talvez como consequência da perda, o que mais se evidencia. Neste sentido, a figura do gato, é uma constante do terceiro conjunto, quer enquanto companhia doméstica, quer, talvez, como elemento contrastante com a vida rotineira e caseira do sujeito poético. Há como que um sentimento de não lugar que vem à tona, uma espécie de não pertença. O gato é, ao mesmo tempo, animal doméstico e independente. Ele representa, porventura, uma impaciência que não se cala dentro daquele que vive a solidão. Não deixa de ser curioso, a propósito ainda da organização do livro, que o primeiro poema do primeiro conjunto e o primeiro poema do último conjunto dialoguem tão bem. São poemas que de alguma forma se complementam. Remetendo para a origem biográfica, como que se resolvem numa espécie de biografismo ausente. É como se a Soledade estivesse a dizer: eu vim dali, já não sou dali, não sou de lugar algum, serei apenas de mim mesma, talvez nem isso seja, sou da terra, inevitavelmente da terra, somos todos da terra:

A ÚNICA VERDADE

Em louvor de Bernardim Ribeiro

A única verdade é a linha que puxo na extremidade da agulha,
ponto a ponto desenho
a paciência, refaço os gestos
das minhas avós.

Quantas coisas se passavam na cabeça das mulheres em seu estrado,
em seus olhos dobrados,
e eu que nunca tive
paciência.

Mas quem fui bem vedes que o não sou já
e pois que não tenho armas para ofender,
faço desenhos de flores brilhantes com linhas
de seda paciente,
é tudo o que posso fazer
com os olhos dobrados
na noite
que não pára de crescer
.


Soledade Santos, Sob os Teus Pés a Terra, Artefacto, Novembro de 2010.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A BIBLIOTECA

A colecção Gente Independente, da Cavalo de Ferro, distingue-se pela conjugação de factores nem sempre conciliáveis: bons títulos de autores estrangeiros a preços muito apelativos. O formato de bolso e o tipo de impressão ajudam à festa. A Biblioteca, de Zoran Živković (n. 1948), foi reeditado na bendita em Setembro passado. Trata-se de um livro que valeu ao autor sérvio o World Fantasy Award de 2003. Originalmente publicado em 2002, Biblioteka reúne seis contos interligados por um denominador comum: a bibliofilia. Cada história alude à existência de uma biblioteca fantástica: A biblioteca virtual, A biblioteca particular, A biblioteca nocturna, A biblioteca infernal, A biblioteca minimal e A biblioteca requintada. Livros sobre livros ou sobre escritores não é negócio que falte ao mundo, embora este conjunto de histórias dificilmente possa vir a ser reduzido a essa característica mais visível. Se aquilo que liga as personagens é a leitura, a escrita ou a simples relação com o objecto livro, o que as afasta não é apenas a pluralidade de situações inusitadas em que se vêem envolvidas. Há nestes contos uma dimensão alegórica que importa sublinhar e reflectir.

Zoran Živković é aquilo a que podemos chamar um homem de letras, reparte a sua vida pela investigação, crítica, edição, produção de ensaios e de obras ficcionais. Estes elementos particulares vêm à tona nos seus contos. É notório o domínio das fórmulas literárias estabelecidas pelos grandes autores do género, entre os quais Kafka e Borges serão, provavelmente, as influências mais directas. A biblioteca virtual, por exemplo, é um conto claramente kafkiano, sobretudo naquele sentido que Borges remetia para as famosas aporias de Zenão de Eleia. O segredo reside na desorganização lógica da situação que envolve uma personagem, fazendo desmoronar à volta de um indivíduo todos os pontos cardeais que o permitam sentir-se orientado. Esta desorientação provocada incute no leitor um elemento especialmente atractivo: a hipótese. De facto, os contos de A Biblioteca jogam com esta carta particular da imaginação: e se por hipótese isto pudesse acontecer? O leitor sabe que é pouco provável que tal suceda, mas acede à jogada, aceita as primeiras premissas, tenta seguir o raciocínio e acaba por se perder num labirinto onírico sobre o qual já não tem mão.

Neste sentido, a mais eficaz das bibliotecas de Zoran Živković é A biblioteca infernal. Trata-se de um conto de contornos cínicos que coloca a personagem central num espaço dúbio, uma biblioteca que, afinal, se revela ser o Inferno. O tom inicial remete para O Processo, nada há que nos permita determinar a essência dos intervenientes, onde estão, por que estão ou o que fazem no local onde se encontram, embora rapidamente se sugira um diálogo entre o Diabo (o bibliotecário) e um morto acabado de chegar ao Inferno. O Inferno agora é uma biblioteca, os castigos passaram a chamar-se terapias e têm a determinação paradoxal da leitura eterna: «Em breve aprenderá a conviver com as nossas condições. No início ser-lhe-á provavelmente mais difícil, até se habituar, mas por fim perceberá que a leitura oferece prazeres inigualáveis. Todos o percebem durante a eternidade, alguns mais cedo, outros mais tarde» (p. 66).

Contos como este revelam também um sentido assaz irónico da vida. Aquele que aprecia livros, que os ama e a eles entrega a mais substancial das partes da sua vida, rapidamente se vê imerso num mar de dúvidas e problemas sem resolução. Uma existência de papel, assim lhe chamou o poeta. O mais embaraçoso desta existência é o problema do tempo. O leitor parte em desvantagem. Quando nasce, tem atrás de si séculos de literatura que pedem para ser recuperados. Há uma espécie de missão impossível que norteia o leitor, colocando-o numa relação muito estreita com o absurdo da existência, na fronteira que separa a realidade da ficção, uma fronteira que aparece consolidada nos livros eles mesmos, com suas vidas fantasmagóricas e seus dilemas inexplicáveis. Ao ler, o leitor está, no mesmo instante, a viver a sua vida e a dar vida à vida dos livros. No fundo, aceita para si um momento ilusório e inexplicável. Porque, afinal, «as coisas estranhas têm simplesmente de ser aceites como tal, sem explicações» (p. 24). É essa a principal moral destas histórias.
Escrito para o Rascunho.

sábado, 20 de novembro de 2010

O ANTI-LÁZARO


Não te levantes da tumba morto
o que ganharias com ressuscitar
um feito
…………..e depois
………………………a rotina de sempre
não te convém velho não te convém

o orgulho o sangue a avareza
a tirania do desejo venéreo
as dores que a mulher causa

o enigma do tempo
as arbitrariedades do espaço

reconsidera morto reconsidera
não te recordas como era?
à menor dificuldade espoletavas
em impropérios à direita e à esquerda

tudo te incomodava
já não resistias
nem à presença da tua própria sombra

má memória velho má memória!
o teu coração era um monte de escombros
─ estou a citar os teus próprios escritos ─
e da tua alma nada restava

para quê então voltar ao inferno de Dante?
para que a comédia se repita?
qual divina comédia qual quê
fogo de artifício ─ miragens
isco para caçar vermes gulosos
isso sim seria um grande disparate

és feliz cadáver és feliz
nada te falta no teu sepulcro
ri-te dos peixes coloridos

alô ─ alô estás a ouvir-me?

quem não há-de preferir
o amor da terra
às carícias de uma lúgubre prostituta
ninguém em plena posse das suas faculdades
a não ser que tenha um pacto com o diabo

continua a dormir homem continua a dormir
sem as ferroadas da dúvida
senhor e amo do teu próprio caixão
na quietude da noite perfeita
liberto de inutilidades
como se nunca tivesses estado acordado

por nenhum motivo ressuscites
não tens por que ficar nervoso
como disse o poeta
tens toda a morte pela frente


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O HOMEM IMAGINÁRIO




O homem imaginário
vive numa mansão imaginária
rodeada de árvores imaginárias
à beira de um rio imaginário

Das paredes que são imaginárias
pendem antigos quadros imaginários
irreparáveis fendas imaginárias
que representam feitos imaginários
ocorridos em mundos imaginários
em lugares e tempos imaginários

Todas as tardes tardes imaginárias
sobe as escadas imaginárias
e aparece na varanda imaginária
a olhar a paisagem imaginária
que consiste num vale imaginário
rodeado de colinas imaginárias

Sombras imaginárias
vêm pelo caminho imaginário
entoando canções imaginárias
à morte do sol imaginário

E nas noites de lua imaginária
sonha com a mulher imaginária
que lhe ofereceu seu amor imaginário
volta a sentir essa mesma dor
esse mesmo prazer imaginário
e volta a palpitar
o coração do homem imaginário


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

PROJECTO DE TREM INSTANTÂNEO

entre Santiago e Puerto Montt

A locomotiva do trem instantâneo
está no lugar de destino (Pto. Montt)
e a última carruagem
no ponto de partida (Stgo.)

a vantagem que este tipo de trem apresenta
consiste em que o viajante chega
instantaneamente a Puerto Montt no
exacto momento de apanhar a última carruagem
em Santiago

a única coisa que deve fazer continuamente
é mudar-se com as suas maletas
pelo interior do trem
até chegar à primeira carruagem

uma vez realizada esta operação
o viajante pode proceder ao abandono
do trem instantâneo
que permaneceu imóvel
durante todo o trajecto


Atenção: este tipo de trem (directo) serve apenas para viagens de ida

Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)Versão de HMBF

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

QUIZ



Ao rever Quiz Show no canal Hollywood, reparei numa deixa que explica muita coisa. Robert Kintner, presidente da NBC, interpretado por Allan Rich numa postura que não descurou nenhum pormenor típico de um filho da puta, diz: na nossa sociedade, a especulação transforma-se facilmente em factos. Ansiamos desesperadamente pela revolta dos escravos.

POEMAS DO PAPA



1

Acabam de eleger-me Papa
sou o homem mais famoso do mundo

2

Cheguei ao topo da carreira eclesiástica
agora posso morrer tranquilo

3

Os Cardeais estão incomodados comigo
porque não os cumprimento como antes
demasiado solene?
afinal sou o Papa, caramba

4

Amanhã de manhã
mudo-me para o Vaticano

5

Tema do meu discurso:
Como Triunfar na Carreira Eclesiástica

6

Saudações à esquerda e à direita
todos os diários do mundo
publicam a minha fotografia na primeira página

não há dúvidas
de que pareço muito mais jovem do que sou

7

Não é de espantar
desde pequeno que queria ser Papa
trabalhei arduamente
até que se cumprissem os meus desejos

8

Virgem do Perpétuo Socorro!
esqueci-me de abençoar a multidão


Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

ESPARSA

Amigo Van Zeller, venho a confessar-me. Quando era adolescente, julgava os 27 anos uma idade "porreira, pá" para se morrer. James Douglas Morrison, Jimi Hendrix e Janis Joplin, todos eles referências saudáveis, tinham morrido com 27 anos. Kurt Cobain também, mas quando Kurt Cobain morreu eu já não era propriamente adolescente. Nessa altura eu contava 20 Invernos. Perante a proximidade dos 27 comecei a fazer outras contas. Cesário Verde morreu com 31, Fernando Pessoa com 47, Camilo Pessanha com 58… 47 anos, caro Van Zeller, começa a parecer-me uma boa idade para morrer, embora ultimamente me tenha lembrado amiúde de Ruy Belo. Num texto que devia ser de leitura obrigatória pelo menos 1 vez por mês, Joaquim Manuel Magalhães diz que «tudo aquilo que não aconteceu a Ruy Belo mostra os mecanismos da merda em que nos fazem chafurdar». Depois lembra o homem calado, sem partido político, licenciado em Filologia Românica, licenciado em Direito, doutor em Direito Canónico, com uma tese sobre literatura, tradutor de Blaise Cendrars, Saint-Éxuppery… Só defeitos. Em 1977 havia gente no departamento de Literaturas Românicas que ensinava poesia portuguesa e não sabia quem era Ruy Belo. Uma pessoa não é obrigada a saber tudo. Perante isto, Joaquim Manuel Magalhães pergunta o fundamental: «Um País destes pode dar-se ao luxo de ter um Doutor e licenciado em dois cursos a dar aulas nocturnas no Cacém? Quando não as queria dar?» A resposta é óbvia, tanto pode que teve. E tem. Pelos vistos, continuará a ter. Num país onde os cretinos que mandam dizem quaisqueres em vez de quaisquer, vocêzes em vez de vocês, fostes em vez de foste, póssamos em vez de possamos, é normal que assim seja. Ser normal significa que alguém deixou que assim fosse. A gente ouve os nossos políticos a discursar, os nosso empresários a perorar, os dirigentes disto e daquilo a papaguear e fica com a sensação de que vive num país de analfabetos funcionais. E depois há aqueles que lambem as botas aos cretinos que mandam, intermediários da cretinice com um apurado sentido da obediência. São os pajens da mediocridade. Não nos admiremos, portanto, do estado a que as coisas chegaram. Se aqui chegaram, é porque os cretinos e os pajens mantêm-se incólumes, sem rosto nem nome. Como chegam onde chegam é um mistério digno de Sherlock Holmes. Pergunto-me, camarada Van Zeller, quem fodeu a vida a Ruy Belo? Pardon my French. Ninguém sabe, supomos apenas tratar-se de gente que fez as suas vidas ocupando cargos, desempenhando funções, saindo ilesos para o esquecimento. Mas o esquecimento não se vinga da incompetência, muito menos faz justiça. Vem ao caso uma Esparsa de Camões:

Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais me espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim
Anda o mundo concertado.

Será sina? Às vezes cremos haver gente que não só não nasce com o cu virado para a lua como parece ter nascido com o cu enterrado na lava do Inferno. Serão versos ressentidos e remoídos os do autor de Sôbolos rios que vão? Será conversa ressabiada a de Joaquim Manuel Magalhães? Por mim falo, se há coisa de que me posso gabar é de ter boa memória. Hei-de deixar ao mundo o meu ínfimo testemunho, devidamente documentado para que ninguém corra o risco de trocar os nomes às bestas. Ruy Belo morreu com 45 anos. Faltam-me mais ou menos 9 para cumprir o serviço. «Babilónia ao mal presente, / Sião ao tempo passado».

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A PROPÓSITO DE ESPINGARDA


HÁ QUE PAVIMENTAR a cordilheira
mas não com cimento nem com sangue
como supus em 1970
há que pavimentá-la com violetas
há que plantar violetas
há que cobrir tudo com violetas
humildade
……………..igualdade
…………………………..fraternidade
há que encher o mundo de violetas


O PINTASSILGO CHILENO ─ creio ─
tem a obrigação de se manter em silêncio
enquanto não recuperar a sua liberdade
e não pensar em nada que não seja
a liberdade
……………..a porta da gaiola
actos e não palavras deliciosas

ou recupera o seu nome de pássaro
que significa amor à liberdade
ou torna-se digno de um réptil

o cúmulo dos cúmulos
é pôr-se a cantar versos de cego
como se nada se passasse no Chile


POR SER SINCERO quase me fodi
por optimismo me enganei
por ser compassivo ─ humilde
recebi um bom pontapé
assim por lerdo passei
por andar a predicar o bem

Menos mau que tudo tenha mudado
agora que roubo a granel
medalhas de ouro e de prata
agora que como por cem:
todos me respeitam agora
que não peço nem dou quartel

Sou o folgazão da outra banda
agora que perdi a fé
espero que me canonizem
a qualquer momento. Ámen.


17 ELEMENTOS SUBVERSIVOS
foram ontem surpreendidos
nos arredores de La Moneda
transportando laranjas
e um exemplar da Bíblia Sagrada

3 deles puseram-se em fuga
não sem antes confrontarem a polícia
que se viu obrigada a actuar em defesa própria

os delinquentes acabaram mortos


DIGA-SE LUPANAR e não prostíbulo
meretriz em vez de prostituta
Nosso Senhor
………………….em vez de Jesus Cristo
Via Láctea ─ jamais Rio Jordão
a palavra é o homem
nunca diga sol
……………………diga astro rei
diga Pronunciamento Militar
e verá como lhe subirão os abonos

se disser golpe olhá-lo-ão de soslaio

é feio dizer chinoca
diga antes cidadão chinês
é mais respeitoso
………………………….muito mais cristão

o que ouvem senhoras e senhores
aquele que diz corcel em vez de cavalo
tem o futuro assegurado


POESIA POESIA tudo poesia
fazemos poesia
até quando vamos à casa de banho

palavras textuais do Cristo de Elqui

miar é fazer poesia
tão poesia como tocar alaúde
ou cagar ou poetizar ou peidar-se

e vamos vendo o que é a poesia

palavras textuais do Cristo de Elqui


E POR FAVOR destrói este papel
a poesia segue-te os passos
a mim também
…………………….a todos nós



Nicanor Parra, in Hojas de Parra (1985)
Versão de HMBF

domingo, 14 de novembro de 2010

JUNTA DE SALVAÇÃO NACIONAL


A ideia de um conselho de sábios que nos salve do abismo é a menos sábia das ideias. Penso no Titanic a afundar-se e vem-me logo à memória o papel dos sábios nessa tragédia. Resumiu-se, basicamente, a encontrar um bote que os pusesse a salvo da inevitável catástrofe. Julga o caro leitor que um conselho de sábios o pode salvar dos inimigos sem rosto? Reveja La Haine, o filme de Mathieu Kassovitz. Neste momento, você e eu somos aquele tipo que vai caindo e diz de si para si jusqu'ici tout va bien. Mas o importante não é a queda, é a aterragem.