domingo, 30 de janeiro de 2011
GAIVOTAS

Fim de tarde com Huidobro por companhia: el pájaro pondrá su huevo sobre el porvenir. E a cada pegada arrancamos um pouco de futuro, arrastando pela areia mais algumas horas mortas dos nossos repetidos dias. Já nos bolsos trazemos a lareira ateada, o canto das mulheres afegãs a ecoar à distância, talvez um filme a lembrar-nos de como andamos todos a imitar as nossas próprias vidas. Enfim: se as gaivotas, todas voltadas para a ilha que ao fundo ainda espreita, levantam voo em sintonia, quem somos nós para reclamar da desordem com que a noite chega?
sábado, 29 de janeiro de 2011
VEM NO ÍPSILON
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
INSULTOS À DEMOCRACIA
Acabei de ouvir na RTPN um tipo qualquer dizer que os 4,5% do Coelho são um insulto à democracia portuguesa. Se eu fosse jornalista, perguntava-lhe o seguinte: se os votos legitimamente conseguidos por uma candidatura legítima são um insulto à democracia portuguesa, então o que é a democracia portuguesa? Não é difícil encontrar insultos à democracia portuguesa: do caso BPN ao Face Oculta, dos submarinos ao processo Portucale, da Casa Pia à Universidade Independente, das escutas aos "mantos diáfanos de fantasia" de certos e determinados trafulhas.domingo, 23 de janeiro de 2011
DEVER CÍVICO
Como é óbvio, ninguém vai pensar nem ponderar nada. A falta de vergonha é tanta e tão declarada que nem o facto de muitos portugueses terem sido impedidos de votar por um sistema de simplificação que espelha bem o que se passa no país a todos os níveis vai estimular a indignação. Eu ia sendo uma vítima desse sistema. Com o Cartão do Cidadão feito há pouco tempo, votei pela primeira vez em Caldas da Rainha. Tive de esperar por um número que após muita insistência lá foi parido por um sistema constipado. Encontraram-me uma mesa 9 onde pude exercer um direito que há muito não exercia. Outros não tiveram a mesma sorte. Desistiram. Se isto tivesse acontecido na Venezuela a conversa seria outra.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
VOTE NO POETA, VOTE COELHO

Por regra, não voto. Desagrada-me o sistema. Mas como todas as regras, também esta merece as suas excepções. Votei no referendo pela IVG. Foi a última vez. Voltarei agora à urnas, em bairro diferente, contra a HIPOCRISIA. Vai assim mesmo, em maiúsculas, que o país não está para menos. Os argumentos de Cavaco contra uma hipotética 2.ª volta são argumentos à Cavaco. Não há nada a fazer, o homem mete-me nojo. Um fdp que governou este circo durante 10 anos e nos levou à degradação actual, andou a alimentar Duartes Limas, Dias Loureiros e quejandos, promoveu um asno da estirpe de Santana a Secretário de Estado da Cultura, e agora lamenta-se da reforma de 800€ que a pobre mulher recebe todos os meses enquanto limpa o pó ao Palácio de Belém. Enrolou-se com os ladrões do BPN, não explica as trapalhadas com as escutas e Fernando Lima, preocupa-se com as taxas de juro perante a possibilidade de uma 2.ª volta. Foda-se, crápula mais crápula não pode haver. É por estas e por outras, como estas, que no Domingo lá estarei a botar voto no Coelho. Podia votar no Lopes ou no Nobre, quiçá no Alegre, mas vou votar Coelho por razões que me abstenho de justificar. Talvez baste isto: o Coelho diverte-me, merece a minha simpatia, estou com ele na acusação desinteressada da bandalheira em que a política deste país se transformou.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
SER RICO
Mãe: eu queria ser rica para poder andar sempre de chinelos.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
VOTO COELHO
Defensor de Moura… quem é Defensor de Moura?
Nobre é a Madre Teresa de Calcutá das presidenciais. Está na campanha para não ser como os outros fazendo exactamente o mesmo que os outros fazem: discursos insignificantes, comícios sem conteúdo, foguetes retóricos no vazio. Diz que quer marcar a diferença e a única diferença que tem para marcar é o facto de não ser apoiado por nenhum partido. E daí? A sociedade civil que temos não me merece assim tanto respeito que me leve a votar num candidato que se auto-proclama o seu.
Chico Lopes é fixe. Sacrilégio! Tenho uma teoria sobre estes tipos do Partido Comunista, é a mesma que o meu pai tem sobre os tipos do PCTP/MRPP. Só têm um problema: o serem comunistas. Tudo o que afirmam é de uma afinação diapasiana, são incapazes de proferir uma mentira, têm uma capacidade de resistência inacreditável, foram electricistas, mecânicos, agricultores mas parecem saídos das melhores universidades norte-americanas. São tipos mesmo bacanos. Mas são comunistas. E a verdade é esta: o comunismo não me inspira senão desconfiança.
Alegre é alguém que tem a mania que é. Meteu-se-lhe na cabeça que havia de ser Presidente da República. Aquilo é paranóia de poeta. Não há nenhuma consistência política nos seus discursos, o embaraço é indisfarçável tendo em conta o historial oportunista. Alegre é uma espécie de Postiga, desmarca-se bem mas a bola vai-lhe sempre ao poste. Sempre que o vejo não consigo afastar da cabeça a ideia de que se trata de alguém com meras aspirações literárias. Não tem quaisquer aspirações políticas. Aquilo é tudo sonho, como uma criança que se perde na ilusão de vir a ser: o Poeta Presidente. E por isso ficar na história. Que triste!
Resta Coelho. O Coelho tem pinta. Aposto que era o malandro da turma. Os media acham-lhe graça e não é razão para menos. O tipo é um stand-up comedian nato com um currículo que parece saído de uma obra de humor surrealista. Topem bem: Inscrito no PCP, é deputado regional pelo PND… Continua a declarar-se comunista, apesar de representar um partido de direita. Ardina do Garajau, o jornal satírico de que é director, se for eleito Presidente continuará a ter um terço do vencimento penhorado para pagar indemnizações a que foi condenado. A República precisa de um homem destes.
É CRÍTICO
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
FOME
É um erro acusar-se a situação confortável do narrador. O homem é um sobrevivente com a consciência em xeque, está a sós com as suas memórias, rodeado de conservas, e procura afastar os seus fantasmas com comportamentos que não podem deixar de ser julgados em função das experiências traumáticas anteriormente vividas. No epicentro das suas recordações, ergue-se como uma luz impagável a imagem de Alena, a mulher, vítima da fome que as bombas de Hitler trouxeram. É-nos fácil julgá-lo a partir das suas confissões, nomeadamente as traições amorosas, as vacilações de carácter, a menor capacidade de resistência. Mas tudo isso nos é apresentado num momento de confissão e, ainda que não nos mova a fé cristã, é de todo admirável sentir na personagem o reconhecimento da sua verdadeira tragédia.
Durante a guerra, as privações tomaram conta da cidade. Homens e mulheres vendiam-se a troco de terem o que comer. A fome corroía o corpo, a alma, a decência, relativizava a moral, impelia as pessoas para uma angustiante inumanidade. No Instituto de Pesquisa da Indústria de Plantas foi acordado entre todos que, por mais que fosse o apelo da necessidade, ninguém se alimentaria/serviria das colecções de sementes recolhidas com tanto sacrifício. «Iremos protegê-las a todo o custo» (p. 17); protegê-las, neste caso, não apenas dos predadores habituais (ratos e quejandos), mas dos seus próprios zeladores. O carácter dúbio do narrador começa a revelar-se a páginas 20:
«Jamais vacilei ou incorri em pensamentos de fuga. Jamais abandonei uma viagem cedo, nem recusei a inscrever-me em primeiro na lista para a próxima viagem. Em todo o instituto as pessoas comentavam a minha coragem.
Por isso talvez seja um cobarde e talvez não seja. Corajoso de corpo e fraco de mente, talvez, carecendo da moral determinada e duradoura da minha Alena ou da coragem intelectual do grande director».
O tom é de autocrítica e desesperada redenção. Percebemos que entre este homem e a sua falecida mulher há uma relação de profunda admiração cuja vida não soube brindar com a pureza de um amor eventual e provavelmente feérico. A realidade é dura e, assim como as plantas que precisavam de ser protegidas dos homens, também os homens precisam ser protegidos de si próprios. Fome alerta-nos para este pormaior tantas vezes desatendido: o homem é presa de si próprio, prefere o rumor das ilusões ao desconforto da verdade, quando a fome aperta alimenta-se do que tem à mão e, assim como é capaz de morrer à fome por um ideal ou por convicção, também é capaz de sucumbir à fome por direito à vida.
Entendamos o paradoxo a partir da cruel constatação de um sobrevivente: «Onze mil passaram fome em Novembro. Mais de cinquenta mil morreram em Dezembro, quando a madeira para os caixões há muito se esgotara» (p. 47). Ter escapado a este destino, porventura por amor à vida, só foi possível em circunstâncias que agora classificamos de traiçoeiras. Mas em certos casos, em casos limite, a deslealdade não provém senão da fome mais justificável: a fome de vida. Este homem confessa a sua fraqueza, comeu sementes que devia ter protegido, traiu a sua heróica mulher em todos os planos imagináveis, só não conseguiu trair a sua vontade de viver. Pode isso ser censurado?
PROFETAS DA CATÁSTROFE
T. R. M. (1766-1834)
Quem passou muito tempo sem comer está fraco de mais para falar,
esgaravata no lixo, não faz poesia. O que sabemos da fome
vem da boca dos que estão saciados; grande saber não será.
Grande folgazão: no verão, um pouco de remo, no inverno,
patinagem no gelo no lago da aldeia. Durante cinquenta anos
nem uma vez o vi perder as estribeiras.
Bochechudo, molengão, contradizia a felicidade com voz firme.
A sua felicidade? A felicidade. Não havia na época qualquer ideia nova
na Europa: não haverá mais guerras, nem crimes,
nem sentenças, não haverá governos; nem doença ou sofrimento,
nem preocupações ou ódios. Resposta: Nunca consegui ter sobre as
naquilo que queria. (Ensaio Sobre o Princípio Demográfico
e sua influência em todas as futuras melhorias da sociedade
seguido de algumas notas sobre as especulações dos senhores Godwin e
Homem simpático, bom coração. O génio e a loucura não lhe diziam nada.
Alimentava-se, honestamente, da sua sinecura, mas a obra de Süßmilch
A Ordem Divina nas Transformações do Género Humano
não o tranquilizou. Pôs-se a estudar anuários estatísticos,
abandonou a paróquia, fez viagens à Rússia e a outros lugares.
A Europa inteira ficou assustada com os resultados. Exorcismos monótonos:
este cortejo de doenças comuns e epidemias,
de carestia, pestilência, sublevações e crises de fome.
O pastor de almas da boa gente de Walesbury exalta-se
com os prazeres mundanos, os artifícios indecorosos,
as paixões desnaturadas; mas o seu grande volume calcula pela primeira vez
as forças da natureza contidas em úteros e testículos, tal como o físico
mede a velocidade e o alcance de um projéctil
em ambientes de diferentes densidades: tudo isto
é necessariamente tal como é, e assim será sempre.
Acusador descarado da classe dominante, homem vulgar,
doutrina infame, cinismo, detestável blasfémia: falar é fácil,
mas o tempo de duplicação continua a ser
de cerca de trinta anos, e continua a valer a fórmula: P(t)=P(o)e(rt).*
É verdade que os seus cálculos não eram muito exactos. Mas uma coisa ele
esfregando as mãos, a tomar chá, esperava que uma mulher rosada lhe
dormia uma vez por mês: um intrépido cagarola,
um simulador que toda a vida se fez passar por saudável,
o grande folgazão entre os profetas da catástrofe.
*A fórmula não é exactamente esta. Não consegui transcrevê-la correctamente para o motor de publicação do Blogger.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
SONHOS
Ontem, ao passar os olhos mais uma vez pel'As Pontes de Madison County, voltei a ouvir Clint Eastwood dizer que não concretizou nenhum dos sonhos que teve, mas ainda bem que os teve. Disse aquilo com um sorriso no rosto, um sorriso algo embaraçado, sem saber onde meter as palavras como um homem que não sabe onde colocar as mãos.
Temo vir a sentir algo parecido quando, daqui a uns anos, vier a afirmar com o mesmo constrangimento que não concretizei nenhum dos sonhos que não tive. E jamais saberei se teria sido preferível passar pela vida perseguindo sonhos irrealizáveis.
sábado, 8 de janeiro de 2011
DEPÓSITO LEGAL
O ano já tem depósito legal: uma tempestade de pássaros mortos. Só me ocorre pensar na forte possibilidade de estarmos a sofrer neste momento uma inexplicável metamorfose. Acredito que o ser humano está a transformar-se num desumidificador, ou seja, num espremedor do ar. E é isso que anda a provocar a tempestade de pássaros mortos que vai caindo do céu.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
PORTO SEM ABRIGO
Olho para o meu cão e penso o quão bem representa o povo português. Também podia pensar que já tenho o NIB para pagar à Trama a última compra de 2010: As Anotações de Malte Laurids Brigge e Die Aufzeichnungen Des Malte Laurids Brigge. Ah, pois é, isto agora vai ser um vê se te avias de citações em alemão. Porém, não nos distraiamos. Voltemos ao cão. Anda mal da próstata, não contém o pingo, precisa urgentemente de passar a usar fralda, tem os dentes podres, provavelmente está diabético, ainda não cegou mas confunde amiúde pantufas com cadelas. Assim anda o povo português, o mesmo que trouxe pelos suspensórios, durante 50 anos, uma ditadura ensimesmada e tristemente enfadonha (há delas que são uma alegria), o mesmo que ofereceu 10 anos de governo a um queixo calçadeira cuja maior virtude é não ler jornais, um indivíduo que raramente se engana e tem dúvidas excepto quando as dúvidas que tem são os desenganos que não assume, aprestando-se agora a consolidar no poleiro o seu cacarejo seco de galo sem crista. Presidente mais anti-tusa seria difícil de imaginar. Esteve à frente de governos executados por gente que só não está, não esteve e não estará na choldra porque este não é um país Independente. É um país caniche que não contém o pingo, confunde pantufas com gajas, tem os dentes podres e está provavelmente diabético. Ainda assim é o lado para que durmo melhor, deixando-me muito mais amargurado do espírito aquele episódio de amor e desamor na Rua de Santa Catarina. Não sei se ouviram falar. Pelo que sei e me deram a ver, dois carochos enrolados à moda cínica em plena baixa portuense. Vai daí o povo, representado por uma loura oxigenada com o rêgo à mostra e por um troglodita similar aos que pululam nas claques de futebol, não gostou. O povo tripa com apalpões à vista desarmada, marmelanço de ver ao perto, o povo gosta de passar olhando para o lado, reparando e fazendo reparos ou fingindo que não vê, incomoda-se com a desvergonha a céu aberto das gerações perdidas de sem-abrigo. Fodido, fodido, é não ter telha nem colchão para executar o acto à moda burguesa. Mas isso ‘tá quieto. Casa é para os chulos. Quem não tem casa não acasala e não se fala mais no assunto. E o povo, colado ao monitor, vota no ditador para grande figura do século, no Zé Maria para grande amigo e num pastor de Baião ex-proprietário de um bordel para grande vencedor de uma merda qualquer. Os carochos do século XXI, provavelmente sem nunca terem ouvido falar de Crates nem de Diógenes, resolveram dar corda à bebedeira com amor sobre a calçada. Uma cidadã mais indignada que as outras achou que era assunto para resolver à chapada, acudida por um herói que se atirou de punho cerrado sobre o Casanova cambaleante. Foi amor KO. Isto indigna-me, isto amargura-me, isto incomoda-me, isto chateia-me, isto polui-me a alma. Sou pelo amor a céu aberto. Por isso, desejo todo o bem do mundo aos carochos da Rua de Santa Catarina, faço deles os meus guias espirituais para 2011, e desejo todo o mal da Rua de Santa Catarina aos pategos que os agrediram. Acho que é justo, tendo em conta as circunstâncias.
domingo, 2 de janeiro de 2011
204
Reparei agora que tenho 204 seguidores. Que me doa um dente se já tinha reparado antes. É uma cifra porreira, pá. A esses e aos outros, ficam então os votos de um bom ano de 2011.
sábado, 1 de janeiro de 2011
A DANÇA DAS FERIDAS
domingo, 26 de dezembro de 2010
A PRIMAVERA HÁ-DE CHEGAR, BANDINI
No centro das atenções está uma família, entre a qual se destaca o jovem Arturo, aqui com 14 anos. Os restantes são o pai Svevo, a mãe Maria e os dois irmãos August e Federico. Com as raízes na Itália, vivem em Rocklin, Colorado, as dificuldades da integração. São pobres, deslocados, mas orgulhosos. O narrador não poupa nas imagens que evidenciam essa pobreza. Ao primeiro parágrafo fala-nos dos «buracos nas solas das botas» do pai de família, um assentador de tijolos que gosta de beber o seu copo enquanto joga uma partida de póquer com os amigos italianos: «Estava enregelado e tinha buracos nas solas das botas. Nessa mesma manhã forrara as botas com pedaços de cartão de uma caixa de macarrão. O macarrão ainda não fora pago. Ao forrar as botas, não deixara de pensar nisso» (p. 13). Os pormenores são reveladores da prosa fria que nos espera. Não chega a John Fante dizer que as botas estavam rotas, é preciso reforçar a imagem da pobreza com uma caixa de macarrão que ainda não tinha sido pago.
Já a religiosidade de Maria Bandini, uma dona de casa remoída pelo ciúme, ocupada na educação dos três filhos, é-nos assim descrita: «Maria não precisava de livros nem revistas. Tinha o seu próprio meio de evasão, o seu caminho privado para a satisfação: o rosário» (p. 65). Na voz do narrador ecoam os sentimentos do mais rebelde dos três filhos: Arturo. Os complexos de integração perseguem-no. Preferia chamar-se John a Arturo, Jones a Bandini, preferia ser americano de gema, viver em Denver, preferia frequentar um liceu público a andar numa escola católica. Fala do pai tanto com admiração como com desprezo, fala da mãe com ternura e uma espécie de repugnância amordaçada. Há ainda Donna Toscana, a mãe de Maria, sogra de Svevo, com quem este não pode nem à distância. Uma inesperada visita da avó Donna, mulher de «língua venenosa como uma víbora», espoletará o conflito familiar sobre o qual se ergue a narrativa. No entanto, o pilar é frágil.
Muito mais interessante que as desavenças entre Svevo e Maria é a forma como Arturo vai crescendo interiormente na relação frustrada que mantém com o que o rodeia. Os melhores momentos do romance saltam da consciência de Arturo para a página. Desde logo a sua relação paradoxal com a religião. Veia herdada da mãe, a religião é no jovem Arturo uma ameaça incompreensível, fonte de inquietas reflexões e temores disparatados. O Capítulo Cinco é todo um tratado sobre as dúvidas religiosas que podem assolar um jovem da estirpe de Arturo Bandini: «Arturo Bandini estava bastante certo de que não iria para o Inferno depois de morrer. O Inferno era o destino daqueles que cometiam pecados mortais. Arturo sabia que tinha cometido muitos, mas a confissão salvava-o. Acreditava que chegaria sempre a tempo à confissão ─ ou seja, antes de morrer. E batia em madeira sempre que o assunto lhe acudia ao espírito ─ para garantir que chegaria sempre a tempo à confissão. Assim, Arturo estava bastante certo de que não iria para o Inferno depois de morrer. Por duas razões. Em primeiro lugar, a confissão; em segundo lugar, o facto de ser bastante veloz» (p. 93).
Infelizmente, parágrafos como o supracitado não abundam neste romance. Ao crescimento de Arturo, Fante prefere explorar paralelamente a relação conflituosa entre Svevo e Maria. O Natal conflituoso, cheio de provações e ausências, resvala amiúde num sentimentalismo de que o próprio narrador parece estar consciente. É como se não houvesse alternativa. O que aqui está em causa é a «linguagem da vida» (p. 176). A presença permanente da neve debaixo de solas rotas tinge o cenário e adensa o elemento essencial da obra: a esperança. No fundo, é disso que se trata quando falamos na Primavera por chegar. A esperança de que a família retome o seu curso, o pai volte a ter trabalho, a mãe volte a ser bonita, a amada ressuscite num qualquer recanto da memória, agora já não sumida no gelo, mas erguida no meio de vastos campos verdejantes, em flor. A Primavera por que Arturo anseia é um eco que ressoa sobre si próprio a vanidade da existência. Para se manter vivo, é preciso acreditar que a qualquer momento o Sol se ergue sobre o gelo e transforma a neve em água: elemento da vida. E a pergunta final só pode ser: que tipo de pecado é a esperança?
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
WORTEN SEMPRE?
domingo, 19 de dezembro de 2010
UM POEMA DE DYLAN THOMAS
HOUVE UM TEMPO
Em que época puderam os bailarinos com seus violinos
suspender os problemas nos parques infantis?
Houve um tempo em que podiam chorar sobre os livros,
mas o tempo gerou uma larva nos seus caminhos.
Estão inseguros sob o arco dos céus.
É mais seguro o que nesta vida fica por conhecer.
Sob os signos celestes aqueles que não têm armas
têm as mãos limpas, e, como o fantasma impiedoso
que sozinho fica ileso, também os cegos vêem melhor.
Dylan Thomas, versão de Was there a time, datado de Dezembro de 1935, in Collected Poems 1934-1953, Phoenix, 2000.