domingo, 30 de janeiro de 2011

Ainda duas palavras, meus amigos, antes de terminar: vãs são nossas lutas e nossas discussões, vã a fosforescência das nossas espadas e das nossas palavras. Só o caixão tem razão. A vitória é do cemitério.Vicente Huidobro

GAIVOTAS




Fim de tarde com Huidobro por companhia: el pájaro pondrá su huevo sobre el porvenir. E a cada pegada arrancamos um pouco de futuro, arrastando pela areia mais algumas horas mortas dos nossos repetidos dias. Já nos bolsos trazemos a lareira ateada, o canto das mulheres afegãs a ecoar à distância, talvez um filme a lembrar-nos de como andamos todos a imitar as nossas próprias vidas. Enfim: se as gaivotas, todas voltadas para a ilha que ao fundo ainda espreita, levantam voo em sintonia, quem somos nós para reclamar da desordem com que a noite chega?

sábado, 29 de janeiro de 2011

VEM NO ÍPSILON

O último Verão que Eva Gabrielsson passou com o seu companheiro, o escritor sueco Stieg Larsson, foi diferente dos outros. Finalmente, o casal tinha tempo um para o outro. Stieg assinara o contrato para a publicação de três livros da série "Millennium" e estava feliz. Nessas férias os dois visitaram amigos e alugaram uma cabana no arquipélago de Estocolmo. No final do mês de Agosto, em que Stieg fez 50 anos, o escritor disse timidamente à arquitecta com quem vivia há 32 anos: "E se nos casássemos agora?" Combinaram então que, no Outono, fariam uma festa para comemorarem os 50 anos. Chamariam os amigos e, no final, revelariam que se tratava da festa de casamento. "Desde uma viagem que fizemos a Lisboa, em 2001, guardávamos para a festa dos nossos 50 anos uma garrafa de vinho do Porto 'Quinta Noval 1976'. Contudo não tivemos tempo, nem para o casamento, nem para a festa. Esta garrafa aparece no segundo volume de 'Millennium', no apartamento novo de Lisbeth Salander. A garrafa está agora na minha cozinha. Nunca a irei abrir, escreve Eva Gabrielsson em "Millénium - Stieg et moi"...
Isabel Coutinho

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

INSULTOS À DEMOCRACIA

Acabei de ouvir na RTPN um tipo qualquer dizer que os 4,5% do Coelho são um insulto à democracia portuguesa. Se eu fosse jornalista, perguntava-lhe o seguinte: se os votos legitimamente conseguidos por uma candidatura legítima são um insulto à democracia portuguesa, então o que é a democracia portuguesa? Não é difícil encontrar insultos à democracia portuguesa: do caso BPN ao Face Oculta, dos submarinos ao processo Portucale, da Casa Pia à Universidade Independente, das escutas aos "mantos diáfanos de fantasia" de certos e determinados trafulhas.

domingo, 23 de janeiro de 2011

DEVER CÍVICO

O inevitável aconteceu. Não vale a pena escamotear os resultados, os socialistas descontentes com a governação socrática ficaram em casa. Só se deslocaram às urnas os conservadores e aqueles para quem Cavaco simboliza o que de mais degradante há neste país. A votação do Coelho é impressionante. Os políticos que ao longo dos últimos anos vêm transformando a política numa mera luta de galos esvaziada de ideais e de verdadeiro serviço público devem pensar na votação do Coelho como um sinal da voz popular, ele foi um eco do que todos os dias se escuta pelos cafés. E devem também ponderar a abstenção como um sintoma inequívoco da desacreditação da política em Portugal.
Como é óbvio, ninguém vai pensar nem ponderar nada. A falta de vergonha é tanta e tão declarada que nem o facto de muitos portugueses terem sido impedidos de votar por um sistema de simplificação que espelha bem o que se passa no país a todos os níveis vai estimular a indignação. Eu ia sendo uma vítima desse sistema. Com o Cartão do Cidadão feito há pouco tempo, votei pela primeira vez em Caldas da Rainha. Tive de esperar por um número que após muita insistência lá foi parido por um sistema constipado. Encontraram-me uma mesa 9 onde pude exercer um direito que há muito não exercia. Outros não tiveram a mesma sorte. Desistiram. Se isto tivesse acontecido na Venezuela a conversa seria outra.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

VOTE NO POETA, VOTE COELHO




Por regra, não voto. Desagrada-me o sistema. Mas como todas as regras, também esta merece as suas excepções. Votei no referendo pela IVG. Foi a última vez. Voltarei agora à urnas, em bairro diferente, contra a HIPOCRISIA. Vai assim mesmo, em maiúsculas, que o país não está para menos. Os argumentos de Cavaco contra uma hipotética 2.ª volta são argumentos à Cavaco. Não há nada a fazer, o homem mete-me nojo. Um fdp que governou este circo durante 10 anos e nos levou à degradação actual, andou a alimentar Duartes Limas, Dias Loureiros e quejandos, promoveu um asno da estirpe de Santana a Secretário de Estado da Cultura, e agora lamenta-se da reforma de 800€ que a pobre mulher recebe todos os meses enquanto limpa o pó ao Palácio de Belém. Enrolou-se com os ladrões do BPN, não explica as trapalhadas com as escutas e Fernando Lima, preocupa-se com as taxas de juro perante a possibilidade de uma 2.ª volta. Foda-se, crápula mais crápula não pode haver. É por estas e por outras, como estas, que no Domingo lá estarei a botar voto no Coelho. Podia votar no Lopes ou no Nobre, quiçá no Alegre, mas vou votar Coelho por razões que me abstenho de justificar. Talvez baste isto: o Coelho diverte-me, merece a minha simpatia, estou com ele na acusação desinteressada da bandalheira em que a política deste país se transformou.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

SER RICO

Filha: eu queria ser rica para poder comprar vestidos maravilhosos.
Mãe: eu queria ser rica para poder andar sempre de chinelos.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

VOTO COELHO

Na falta do eterno candidato a candidato Vieira, José Manuel Coelho trouxe um agradável colorido às presidenciais. Ainda que algo previsível, é o único candidato interessante. Cavaco é um mistério, um indivíduo cinzento que a gente nunca há-de perceber como é que chegou onde chegou. O povo que temos gosta daquela coisa porque é o povo que temos. Andou a servir trafulhas durante dez anos, prepara-se para continuar a servir-se a si próprio durante mais cinco. 20 anos de Cavaco é mesmo deprimente. Pronto, certo, a Maria Cabrita precisa dele, afinal só tem 800€ de reforma. Uma pechincha.

Defensor de Moura… quem é Defensor de Moura?

Nobre é a Madre Teresa de Calcutá das presidenciais. Está na campanha para não ser como os outros fazendo exactamente o mesmo que os outros fazem: discursos insignificantes, comícios sem conteúdo, foguetes retóricos no vazio. Diz que quer marcar a diferença e a única diferença que tem para marcar é o facto de não ser apoiado por nenhum partido. E daí? A sociedade civil que temos não me merece assim tanto respeito que me leve a votar num candidato que se auto-proclama o seu.

Chico Lopes é fixe. Sacrilégio! Tenho uma teoria sobre estes tipos do Partido Comunista, é a mesma que o meu pai tem sobre os tipos do PCTP/MRPP. Só têm um problema: o serem comunistas. Tudo o que afirmam é de uma afinação diapasiana, são incapazes de proferir uma mentira, têm uma capacidade de resistência inacreditável, foram electricistas, mecânicos, agricultores mas parecem saídos das melhores universidades norte-americanas. São tipos mesmo bacanos. Mas são comunistas. E a verdade é esta: o comunismo não me inspira senão desconfiança.

Alegre é alguém que tem a mania que é. Meteu-se-lhe na cabeça que havia de ser Presidente da República. Aquilo é paranóia de poeta. Não há nenhuma consistência política nos seus discursos, o embaraço é indisfarçável tendo em conta o historial oportunista. Alegre é uma espécie de Postiga, desmarca-se bem mas a bola vai-lhe sempre ao poste. Sempre que o vejo não consigo afastar da cabeça a ideia de que se trata de alguém com meras aspirações literárias. Não tem quaisquer aspirações políticas. Aquilo é tudo sonho, como uma criança que se perde na ilusão de vir a ser: o Poeta Presidente. E por isso ficar na história. Que triste!

Resta Coelho. O Coelho tem pinta. Aposto que era o malandro da turma. Os media acham-lhe graça e não é razão para menos. O tipo é um stand-up comedian nato com um currículo que parece saído de uma obra de humor surrealista. Topem bem: Inscrito no PCP, é deputado regional pelo PND… Continua a declarar-se comunista, apesar de representar um partido de direita. Ardina do Garajau, o jornal satírico de que é director, se for eleito Presidente continuará a ter um terço do vencimento penhorado para pagar indemnizações a que foi condenado. A República precisa de um homem destes.

É CRÍTICO

O dinheiro que a televisão pública gasta com programas de merda como aquele que está agora mesmo a ser transmitido na RTP1. Um gordo alto na companhia de um gordo baixo recebem um magote de gente aos berros, gente daquela que aparece nas capas das revistas, a fingirem que estão a jogar a uma coisa qualquer. Aquilo tem audiência? Vale a pena o investimento? Acabei de reconhecer uma das bezerras de serviço, fumámos um charro juntos em São Martinho lá para os idos da década de 1990. Vejam bem no que deu a moca.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

FOME


Ainda que sob a ressalva de a ter lido sob tradução portuguesa, confesso que a prosa da norte-americana Elise Blackwell (Austin, n. 1964) não me entusiasmou particularmente. Tudo muito certinho, no devido lugar, como um exercício académico em busca da melhor avaliação. Fome vale pela história que tem para contar e pelo registo confessional que caracteriza a narrativa. Esta novela publicada em 2003 oferece-nos o relato de um homem em estado de exame de consciência. Os factos relatados remetem-nos para os tempos da II Grande Guerra, misturam história com ficção, transportam-nos da Nova Iorque actual, onde o narrador se encontra, à São Petersburgo (ou Leninegrado) da década de 1940.

É um erro acusar-se a situação confortável do narrador. O homem é um sobrevivente com a consciência em xeque, está a sós com as suas memórias, rodeado de conservas, e procura afastar os seus fantasmas com comportamentos que não podem deixar de ser julgados em função das experiências traumáticas anteriormente vividas. No epicentro das suas recordações, ergue-se como uma luz impagável a imagem de Alena, a mulher, vítima da fome que as bombas de Hitler trouxeram. É-nos fácil julgá-lo a partir das suas confissões, nomeadamente as traições amorosas, as vacilações de carácter, a menor capacidade de resistência. Mas tudo isso nos é apresentado num momento de confissão e, ainda que não nos mova a fé cristã, é de todo admirável sentir na personagem o reconhecimento da sua verdadeira tragédia.

Durante a guerra, as privações tomaram conta da cidade. Homens e mulheres vendiam-se a troco de terem o que comer. A fome corroía o corpo, a alma, a decência, relativizava a moral, impelia as pessoas para uma angustiante inumanidade. No Instituto de Pesquisa da Indústria de Plantas foi acordado entre todos que, por mais que fosse o apelo da necessidade, ninguém se alimentaria/serviria das colecções de sementes recolhidas com tanto sacrifício. «Iremos protegê-las a todo o custo» (p. 17); protegê-las, neste caso, não apenas dos predadores habituais (ratos e quejandos), mas dos seus próprios zeladores. O carácter dúbio do narrador começa a revelar-se a páginas 20:

«Jamais vacilei ou incorri em pensamentos de fuga. Jamais abandonei uma viagem cedo, nem recusei a inscrever-me em primeiro na lista para a próxima viagem. Em todo o instituto as pessoas comentavam a minha coragem.
Por isso talvez seja um cobarde e talvez não seja. Corajoso de corpo e fraco de mente, talvez, carecendo da moral determinada e duradoura da minha Alena ou da coragem intelectual do grande director».

O tom é de autocrítica e desesperada redenção. Percebemos que entre este homem e a sua falecida mulher há uma relação de profunda admiração cuja vida não soube brindar com a pureza de um amor eventual e provavelmente feérico. A realidade é dura e, assim como as plantas que precisavam de ser protegidas dos homens, também os homens precisam ser protegidos de si próprios. Fome alerta-nos para este pormaior tantas vezes desatendido: o homem é presa de si próprio, prefere o rumor das ilusões ao desconforto da verdade, quando a fome aperta alimenta-se do que tem à mão e, assim como é capaz de morrer à fome por um ideal ou por convicção, também é capaz de sucumbir à fome por direito à vida.

Entendamos o paradoxo a partir da cruel constatação de um sobrevivente: «Onze mil passaram fome em Novembro. Mais de cinquenta mil morreram em Dezembro, quando a madeira para os caixões há muito se esgotara» (p. 47). Ter escapado a este destino, porventura por amor à vida, só foi possível em circunstâncias que agora classificamos de traiçoeiras. Mas em certos casos, em casos limite, a deslealdade não provém senão da fome mais justificável: a fome de vida. Este homem confessa a sua fraqueza, comeu sementes que devia ter protegido, traiu a sua heróica mulher em todos os planos imagináveis, só não conseguiu trair a sua vontade de viver. Pode isso ser censurado?

PROFETAS DA CATÁSTROFE

Regresso inesperado a Mausoléu – A história do progresso em trinta e sete baladas, livro de Hans Magnus Enzensberger (n. 1929) originalmente publicado em 1975. A versão portuguesa é de João Barrento e apareceu com o selo das Edições Cotovia em Fevereiro de 2004. O tradutor chama-lhes poemas-retrato e poemas-relatório, mas podem simplesmente ser entendidos como poemas biográficos, se pensarmos na biografia como uma reconstrução subjectiva dos factos que marcaram a vida de alguém. Enzensberger escolheu um conjunto diversificado de personalidades históricas e resolveu retratá-las, não de um modo laudatório, mas de um modo crítico, como que interpelando os feitos que esses homens outorgaram à história. A questão pode ser colocada em dois planos: o que houve nas vidas privadas destas personalidades que acabou por condicionar a sua actuação pública e até que ponto a sua actuação pública pode ser considerada um degrau na dúbia escadaria do progresso. João Barrento afirma que «vistas no seu conjunto, estas luminárias lançam sobre os tempos modernos um brilho ambivalente que muitas vezes suscita a pergunta: valeu a pena? O desencanto está lá, embora não seja ingrediente único» (p. 16). Mas é, indubitavelmente, aquele que mais sobressai. Sobre Niccolò Macchiavelli: «A história, o teu auto-retrato, senhor das ratazanas / e de pilhagens, falsos juramentos e labirínticas intrigas» (p. 39). Sobre Gottfried Wilhelm Leibniz: «Vida privada: nenhuma. Interesses sexuais: inexistentes. Emocionalmente / L. é um cretino. A sua relação com os outros é a do discurso, / e mais nada» (p. 67). Inesquecíveis são os poemas dedicados a Charles Fourier, Charles Robert Darwin, Michail Aleksandrovic Bakunin ou Ernesto Guevara de la Serna. Mas de todos, o meu preferido é aquele que tem por motivo Thomas Robert Malthus. Vem a propósito:

T. R. M. (1766-1834)

Quem passou muito tempo sem comer está fraco de mais para falar,
esgaravata no lixo, não faz poesia. O que sabemos da fome
vem da boca dos que estão saciados; grande saber não será.

Grande folgazão: no verão, um pouco de remo, no inverno,
patinagem no gelo no lago da aldeia.
Durante cinquenta anos
nem uma vez o vi perder as estribeiras.

Bochechudo, molengão, contradizia a felicidade com voz firme.
A sua felicidade? A felicidade. Não havia na época qualquer ideia nova
na Europa: não haverá mais guerras, nem crimes,
nem sentenças, não haverá governos; nem doença ou sofrimento,
nem preocupações ou ódios. Resposta: Nunca consegui ter sobre as
[minhas faculdades
racionais aquele domínio que me permitisse acreditar sem meios de prova
naquilo que queria. (Ensaio Sobre o Princípio Demográfico
e sua influência em todas as futuras melhorias da sociedade
seguido de algumas notas sobre as especulações dos senhores Godwin e
[Condorcet.)

Homem simpático, bom coração. O génio e a loucura não lhe diziam nada.
Alimentava-se, honestamente, da sua sinecura, mas a obra de Süßmilch
A Ordem Divina nas Transformações do Género Humano
não o tranquilizou. Pôs-se a estudar anuários estatísticos,
abandonou a paróquia, fez viagens à Rússia e a outros lugares.
A Europa inteira ficou assustada com os resultados. Exorcismos monótonos:
este cortejo de doenças comuns e epidemias,
de carestia, pestilência, sublevações e crises de fome.

O pastor de almas da boa gente de Walesbury exalta-se
com
os prazeres mundanos, os artifícios indecorosos,
as paixões desnaturadas; mas o seu grande volume calcula pela primeira vez
as forças da natureza contidas em úteros e testículos, tal como o físico
mede a velocidade e o alcance de um projéctil
em ambientes de diferentes densidades: tudo isto
é necessariamente tal como é, e assim será sempre.

Acusador descarado da classe dominante, homem vulgar,
doutrina infame, cinismo, detestável blasfémia: falar é fácil,
mas o tempo de duplicação continua a ser
de cerca de trinta anos, e continua a valer a fórmula: P(t)=P(o)e(rt).*

É verdade que os seus cálculos não eram muito exactos. Mas uma coisa ele
[sabia:
há qualquer coisa que cresce e se multiplica sempre mais. Também o
[crescimento cresce,
também a fome cresce, o medo cresce. De faces rosadas, sentava-se,
esfregando as mãos, a tomar chá, esperava que uma mulher rosada lhe
[trouxesse
os seus muffins, sempre a mesma, com a qual ele, discreto e pudico,
dormia uma vez por mês: um intrépido cagarola,
um simulador que toda a vida se fez passar por saudável,
o grande folgazão entre os profetas da catástrofe
.


*A fórmula não é exactamente esta. Não consegui transcrevê-la correctamente para o motor de publicação do Blogger.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

SONHOS




Ontem, ao passar os olhos mais uma vez pel'As Pontes de Madison County, voltei a ouvir Clint Eastwood dizer que não concretizou nenhum dos sonhos que teve, mas ainda bem que os teve. Disse aquilo com um sorriso no rosto, um sorriso algo embaraçado, sem saber onde meter as palavras como um homem que não sabe onde colocar as mãos.

Temo vir a sentir algo parecido quando, daqui a uns anos, vier a afirmar com o mesmo constrangimento que não concretizei nenhum dos sonhos que não tive. E jamais saberei se teria sido preferível passar pela vida perseguindo sonhos irrealizáveis.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Que crítico digno da sua profissão se acriança a dar estrelas? Que gente é essa que produz listas de leituras em que a presunção tresanda? Para que o fazem? Que julgam provar?
J. Rentes de Carvalho, aqui.

DEPÓSITO LEGAL



O ano já tem depósito legal: uma tempestade de pássaros mortos. Só me ocorre pensar na forte possibilidade de estarmos a sofrer neste momento uma inexplicável metamorfose. Acredito que o ser humano está a transformar-se num desumidificador, ou seja, num espremedor do ar. E é isso que anda a provocar a tempestade de pássaros mortos que vai caindo do céu.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

PORTO SEM ABRIGO


Olho para o meu cão e penso o quão bem representa o povo português. Também podia pensar que já tenho o NIB para pagar à Trama a última compra de 2010: As Anotações de Malte Laurids Brigge e Die Aufzeichnungen Des Malte Laurids Brigge. Ah, pois é, isto agora vai ser um vê se te avias de citações em alemão. Porém, não nos distraiamos. Voltemos ao cão. Anda mal da próstata, não contém o pingo, precisa urgentemente de passar a usar fralda, tem os dentes podres, provavelmente está diabético, ainda não cegou mas confunde amiúde pantufas com cadelas. Assim anda o povo português, o mesmo que trouxe pelos suspensórios, durante 50 anos, uma ditadura ensimesmada e tristemente enfadonha (há delas que são uma alegria), o mesmo que ofereceu 10 anos de governo a um queixo calçadeira cuja maior virtude é não ler jornais, um indivíduo que raramente se engana e tem dúvidas excepto quando as dúvidas que tem são os desenganos que não assume, aprestando-se agora a consolidar no poleiro o seu cacarejo seco de galo sem crista. Presidente mais anti-tusa seria difícil de imaginar. Esteve à frente de governos executados por gente que só não está, não esteve e não estará na choldra porque este não é um país Independente. É um país caniche que não contém o pingo, confunde pantufas com gajas, tem os dentes podres e está provavelmente diabético. Ainda assim é o lado para que durmo melhor, deixando-me muito mais amargurado do espírito aquele episódio de amor e desamor na Rua de Santa Catarina. Não sei se ouviram falar. Pelo que sei e me deram a ver, dois carochos enrolados à moda cínica em plena baixa portuense. Vai daí o povo, representado por uma loura oxigenada com o rêgo à mostra e por um troglodita similar aos que pululam nas claques de futebol, não gostou. O povo tripa com apalpões à vista desarmada, marmelanço de ver ao perto, o povo gosta de passar olhando para o lado, reparando e fazendo reparos ou fingindo que não vê, incomoda-se com a desvergonha a céu aberto das gerações perdidas de sem-abrigo. Fodido, fodido, é não ter telha nem colchão para executar o acto à moda burguesa. Mas isso ‘tá quieto. Casa é para os chulos. Quem não tem casa não acasala e não se fala mais no assunto. E o povo, colado ao monitor, vota no ditador para grande figura do século, no Zé Maria para grande amigo e num pastor de Baião ex-proprietário de um bordel para grande vencedor de uma merda qualquer. Os carochos do século XXI, provavelmente sem nunca terem ouvido falar de Crates nem de Diógenes, resolveram dar corda à bebedeira com amor sobre a calçada. Uma cidadã mais indignada que as outras achou que era assunto para resolver à chapada, acudida por um herói que se atirou de punho cerrado sobre o Casanova cambaleante. Foi amor KO. Isto indigna-me, isto amargura-me, isto incomoda-me, isto chateia-me, isto polui-me a alma. Sou pelo amor a céu aberto. Por isso, desejo todo o bem do mundo aos carochos da Rua de Santa Catarina, faço deles os meus guias espirituais para 2011, e desejo todo o mal da Rua de Santa Catarina aos pategos que os agrediram. Acho que é justo, tendo em conta as circunstâncias.

domingo, 2 de janeiro de 2011

204


Reparei agora que tenho 204 seguidores. Que me doa um dente se já tinha reparado antes. É uma cifra porreira, pá. A esses e aos outros, ficam então os votos de um bom ano de 2011.

sábado, 1 de janeiro de 2011

A DANÇA DAS FERIDAS


A Dança das Feridas
Capa de Maria João Lopes Fernandes
Edição de Autor
Janeiro de 2011

O amor é o amor - e depois?!
Alexandre O'Neill

domingo, 26 de dezembro de 2010

A PRIMAVERA HÁ-DE CHEGAR, BANDINI

Perdoem-me os erros, que nada representam ao pé daquilo por que temos passado nos últimos tempos. Terminei agora mesmo a leitura de A Primavera há-de chegar, Bandini. Dos livros de John Fante que li até hoje, este foi aquele que menos me cativou. O facto de a acção se passar em plena época natalícia não ajuda. Tenho com o Natal uma relação semelhante à que cultivo com a política, abstenho-me antes que dê em doido. Seja como for, trata-se de um Fante. Há que dar o benefício da dúvida. Quem não estiver familiarizado com o universo do autor norte-americano (nasceu em Denver no ano da graça de 1909), saiba que há nele um sentido de humor que se revela ainda muito incipiente neste primeiro tomo da saga conhecida como The Bandini Quartet: Wait Until Spring, Bandini (1938), The Road to Los Angeles (apenas publicado em 1985, apesar de ter sido o primeiro a ser escrito), Ask the Dust (1939) e Dreams from Bunker Hill (1982). Também com tradução de Rui Pires Cabral, a Ahab tinha editado entre nós Ask the Dust (Pergunta ao Pó, 2009). Reincide agora na história de Arturo, alter-ego de John Fante, com A Primavera Há-de Chegar, Bandini (Setembro de 2010).

No centro das atenções está uma família, entre a qual se destaca o jovem Arturo, aqui com 14 anos. Os restantes são o pai Svevo, a mãe Maria e os dois irmãos August e Federico. Com as raízes na Itália, vivem em Rocklin, Colorado, as dificuldades da integração. São pobres, deslocados, mas orgulhosos. O narrador não poupa nas imagens que evidenciam essa pobreza. Ao primeiro parágrafo fala-nos dos «buracos nas solas das botas» do pai de família, um assentador de tijolos que gosta de beber o seu copo enquanto joga uma partida de póquer com os amigos italianos: «Estava enregelado e tinha buracos nas solas das botas. Nessa mesma manhã forrara as botas com pedaços de cartão de uma caixa de macarrão. O macarrão ainda não fora pago. Ao forrar as botas, não deixara de pensar nisso» (p. 13). Os pormenores são reveladores da prosa fria que nos espera. Não chega a John Fante dizer que as botas estavam rotas, é preciso reforçar a imagem da pobreza com uma caixa de macarrão que ainda não tinha sido pago.

Já a religiosidade de Maria Bandini, uma dona de casa remoída pelo ciúme, ocupada na educação dos três filhos, é-nos assim descrita: «Maria não precisava de livros nem revistas. Tinha o seu próprio meio de evasão, o seu caminho privado para a satisfação: o rosário» (p. 65). Na voz do narrador ecoam os sentimentos do mais rebelde dos três filhos: Arturo. Os complexos de integração perseguem-no. Preferia chamar-se John a Arturo, Jones a Bandini, preferia ser americano de gema, viver em Denver, preferia frequentar um liceu público a andar numa escola católica. Fala do pai tanto com admiração como com desprezo, fala da mãe com ternura e uma espécie de repugnância amordaçada. Há ainda Donna Toscana, a mãe de Maria, sogra de Svevo, com quem este não pode nem à distância. Uma inesperada visita da avó Donna, mulher de «língua venenosa como uma víbora», espoletará o conflito familiar sobre o qual se ergue a narrativa. No entanto, o pilar é frágil.

Muito mais interessante que as desavenças entre Svevo e Maria é a forma como Arturo vai crescendo interiormente na relação frustrada que mantém com o que o rodeia. Os melhores momentos do romance saltam da consciência de Arturo para a página. Desde logo a sua relação paradoxal com a religião. Veia herdada da mãe, a religião é no jovem Arturo uma ameaça incompreensível, fonte de inquietas reflexões e temores disparatados. O Capítulo Cinco é todo um tratado sobre as dúvidas religiosas que podem assolar um jovem da estirpe de Arturo Bandini: «Arturo Bandini estava bastante certo de que não iria para o Inferno depois de morrer. O Inferno era o destino daqueles que cometiam pecados mortais. Arturo sabia que tinha cometido muitos, mas a confissão salvava-o. Acreditava que chegaria sempre a tempo à confissão ─ ou seja, antes de morrer. E batia em madeira sempre que o assunto lhe acudia ao espírito ─ para garantir que chegaria sempre a tempo à confissão. Assim, Arturo estava bastante certo de que não iria para o Inferno depois de morrer. Por duas razões. Em primeiro lugar, a confissão; em segundo lugar, o facto de ser bastante veloz» (p. 93).

Infelizmente, parágrafos como o supracitado não abundam neste romance. Ao crescimento de Arturo, Fante prefere explorar paralelamente a relação conflituosa entre Svevo e Maria. O Natal conflituoso, cheio de provações e ausências, resvala amiúde num sentimentalismo de que o próprio narrador parece estar consciente. É como se não houvesse alternativa. O que aqui está em causa é a «linguagem da vida» (p. 176). A presença permanente da neve debaixo de solas rotas tinge o cenário e adensa o elemento essencial da obra: a esperança. No fundo, é disso que se trata quando falamos na Primavera por chegar. A esperança de que a família retome o seu curso, o pai volte a ter trabalho, a mãe volte a ser bonita, a amada ressuscite num qualquer recanto da memória, agora já não sumida no gelo, mas erguida no meio de vastos campos verdejantes, em flor. A Primavera por que Arturo anseia é um eco que ressoa sobre si próprio a vanidade da existência. Para se manter vivo, é preciso acreditar que a qualquer momento o Sol se ergue sobre o gelo e transforma a neve em água: elemento da vida. E a pergunta final só pode ser: que tipo de pecado é a esperança?
Escrito para o Rascunho.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

WORTEN SEMPRE?

Há dois meses parti o monitor a um computador. Como tinha seguro, fui deixá-lo à Worten e comprei um disco externo para guardar tudo o que havia dentro do portátil magoado. Ontem liguei o disco externo pela segunda vez. Ardeu. Para recuperar o que lá está dentro preciso de um orçamento. Só o pedido vale 40€, o orçamento não faço a mínima ideia em quanto possa ficar. Não vou gastar 40€ para pedir um orçamento. Os tipos da Worten também não sabem por onde anda o portátil magoado. Magoado, perdido, eventualmente abandonado e só entre congéneres. Só podia ser meu. Não sei se voltarei à Worten. É possível que ainda me cobrem por isso.

domingo, 19 de dezembro de 2010

UM POEMA DE DYLAN THOMAS

Dylan Thomas é intraduzível. Qualquer tentativa de tradução dos seus poemas deve ser considerada um crime de lesa poesia. Porém a carne é fraca e, por vezes, a gente mete-se a pensar como poderia ser em português uma música que não aceita outra língua senão a que lhe é própria. O meu perdão antecipado aos puristas:

HOUVE UM TEMPO
Em que época puderam os bailarinos com seus violinos
suspender os problemas nos parques infantis?
Houve um tempo em que podiam chorar sobre os livros,
mas o tempo gerou uma larva nos seus caminhos.
Estão inseguros sob o arco dos céus.
É mais seguro o que nesta vida fica por conhecer.
Sob os signos celestes aqueles que não têm armas
têm as mãos limpas, e, como o fantasma impiedoso
que sozinho fica ileso, também os cegos vêem melhor
.


Dylan Thomas, versão de Was there a time, datado de Dezembro de 1935, in Collected Poems 1934-1953, Phoenix, 2000.