Na passada sexta-feira, dia 25, fui ler um conto à turma da Matilde. Levei Afonso e o Livro, uma história escrita pelo Luís Filipe Cristóvão que conta a aventura de um rapaz viciado na leitura de um livro inexistente. O mote serve para contar duas histórias numa só: a história do nascimento de um livro e a história do nascimento de um leitor. Na realidade são ambas uma e a mesma coisa. Isso percebeu-se naquela turma. O sucesso repetiu-se, depois de no ano passado lhes ter apresentado O Incrível Rapaz que Comia Livros. Notei nas crianças um interesse inabitual. No fim, muitos fizeram questão de me colocar ao corrente das suas aventuras enquanto… escritores. Uns andam com poemas nos bolsos, outros escrevem contos, produzem os seus próprios livros nas escolas, em casa, escrevem, ilustram, recortam folhas, agrafam-nas, inventam, criam, aprendem a gostar dos livros. A Matilde foi, como sempre, clara e objectiva: para o caso de ainda não teres dado por isso, devo dizer-te que já vou no terceiro capítulo da minha história. Toma e embrulha. Como se costuma dizer: em casa de ferreiro, espeto de pau. Eu sabia que ela andava a escreve uma história, mas desconhecia o estado avançado da produção. Isto tudo para dizer o seguinte: o PNL foi uma excelente iniciativa governamental, gerou uma óptima dinâmica escolar em torno do livro e é hoje uma marca da qual muitas editoras se socorrem para fazerem valer as suas obras num hiper-agressivo mercado concorrencial. O PNL é uma coisa positiva, hoje só me apetece falar de coisas positivas.
quinta-feira, 31 de março de 2011
terça-feira, 29 de março de 2011
BIG ODE #8
Big Ode n.º 8
Tema: Decadência
Edição e design: Rodrigo Miragaia
Design de conceito: Rodrigo Miragaia e Sara Rocio
Março de 2011
A Decadência da Paixão #1, A Decadência da Paixão #2, A Decadência da Paixão #3, A Decadência da Paixão #4, pp. 16-19.
segunda-feira, 28 de março de 2011
MANICÓMIO
O enquadramento, o sotaque, a postura desajeitada, fizeram da conferência de Paulo Futre um dos momentos mais hilariantes da recente história portuguesa. Lembro-me de outros similares, mas de todo mais degradantes: Sócrates a tentar vender a pochete Magalhães ou Cavaco fascinado com as tetas de uma vaca. A diferença está em que Futre não nos governa. Ainda.
domingo, 27 de março de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #13
LINHAS DE HARTMANN
quinta-feira, 24 de março de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #12
Em 1984 William Burroughs publicou um ensaio intitulado Electronic Revolution (A Revolução Electrónica, Vega, 1994), onde partilhava a sua filosofia da linguagem partindo de uma teoria de base: «a palavra escrita foi literalmente um vírus que tornou possível a palavra falada». Laurie Anderson pegou nesta doutrina patológica da linguagem e encenou-a num espectáculo que ficou registado no disco Home of The Brave. Convém esclarecer que se trata de uma banda sonora para um filme montado em torno da tournée do disco Mister Heartbreak (1984). No entanto, resultou num objecto singular e até algo desviado dos álbuns anteriores de Laurie Anderson. Na sua singularidade, Home of The Brave acabou por ser vítima de uma incompreensão que hoje, à distância de 25 anos, pode e deve ser sanada. O que escutamos neste conjunto de canções é uma manipulação de sons respeitadora de algumas técnicas predilectas do autor do romance The Naked Lunch. Não por acaso, a voz de Burroughs aparece logo deformada num dos temas iniciais (Late Show). Language Is a Virus não engana. Anderson recorre ao cut-up, num trabalho de colagem que mistura línguas e registos vocais sob o domínio dos sintetizadores, para nos oferecer paisagens dinâmicas e justapostas. Não importa tanto reflectir a realidade como simulá-la nas suas dimensões mais variadas. Daí que a música nos soe tão estranha quão sedutora. Foi exactamente o que senti quando assisti a um espectáculo de Laurie Anderson numa inacreditável primeira parte de Bob Dylan, já lá vão uns anitos valentes. Sedução e estranheza, isto é, espanto, algo sempre novo e não subjugado à monotonia dos dias. Vejam e escutem esta raridade.
terça-feira, 22 de março de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #11
Provavelmente, os Kiss My Jazz ter-me-iam passado despercebidos não se desse o caso de muitos dos seus elementos estarem intimamente ligados aos belgas dEUS. Doc’s Place Friday Evening (1996) é um registo ecléctico que tem no jazz e na improvisação a sua matriz. Tudo gravado em rudimentares gravadores de 4 e 8 pistas, mas com um sentido artístico e um refinamento musical ímpares. Instrumentos de sopro, guitarras, percussão, baixo, registos vocais entre o sussurro e a conversa de café, brinquedos de plástico… compõem o ramalhete. Não é difícil vislumbrar referências nos cerca de 20 temas disponibilizados, quer quando as guitarras enveredam por registos funky, quer quando assumem um groove quase Kitsch, mas logo essas referências são superadas por intromissões sónicas, ruídos, experiências sonoras que nos desviam dos percursos mais comuns da imaginação. A sujidade que tinge a maioria dos temas também não facilita a tarefa auditiva, exigindo antes uma postura liberta de preconceitos e de estereótipos. Bodybag, por exemplo, é descrito como um tributo a Chet Baker que resvalou para uma «film noir mortuary song». Infelizmente não se encontram muitas destas pérolas por aí à solta. Consegui desencantar este momento que talvez ajude a ficar com uma ideia de como o caos funciona.
segunda-feira, 21 de março de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #10
É a segunda vez que John Cale entra nesta lista. E logo em duo. Da primeira, com Brian Eno. Agora com Bob Neuwirth, um ilustre desconhecido que publicou meia dúzia de discos e que contribuiu, pasme-se, para a escrita de Mercedes Benz, a emblemática canção de Janis Joplin. A sua contribuição neste disco nota-se em vários elementos de origem folk que contrastam, de alguma maneira, com a natureza urbana das composições de John Cale. Last Day on Earth é aquilo a que a crítica especializada chama muitas vezes de álbum conceptual, ou seja, um objecto que obedece a uma organização narrativa que se aproxima de um argumento cinematográfico ou de uma peça dramática. Neste caso, temos logo no tema inicial, justamente intitulado de Overture, um enquadramento a três tempos da história que se segue: um turista entra num café, é introduzido aos clientes habituais com quem partilha histórias numa viagem interior/exterior de múltiplas descobertas e reflexões. Musicalmente, estamos num território que alterna entre a chamada spoken word, a pop de cariz atmosférico e um rock contido. No tema Pastoral Angst os sons de uma fauna doméstica diversa são acompanhados por um banjo que intercala um discurso irónico sobre a natureza do mundo artístico. Vale a pena a citação: California is the last stop on the great hitchhike / West and now it’s getting a little full / Too many thumbs, well, when you get / Too many people in one place // You get intolerance and contempt and rigidity / And tension and sarcasm, distrust, anxiety, envy, hate, cynicism / Discontent, self-pity, malice, suspicion, jealousy and snobbishness / And this leads right into poetry, painting, sculpture / Dance, music and literature, photography // These are known as the arts and art will break your heart. Ora, californias há muitas. São como os chapéus. O que importa é não enfiar a carapuça, seguir para a próxima estação e parar apenas no regresso (tendo o cuidado e a simpatia de ceder o lugar às velhinhas, às grávidas e aos jovens ansiosos). Aqui pode ser escutado um dos temas mais convencionais do percurso. Digamos tratar-se tão-somente de um breve momento de suspensão para apreciação da paisagem.
domingo, 20 de março de 2011
A MORTE QUE ALGUÉM ESPERA
A morte que alguém espera
A morte que alguém evita
A morte que vai pelo caminho
A morte que vem taciturna
A morte que acende os castiçais
A morte que se senta na montanha
A morte que abre a janela
A morte que apaga as luzes
A morte que aperta a garganta
A morte que fecha os rins
A morte que parte a cabeça
A morte que morde as entranhas
A morte que não sabe se deve cantar
A morte que alguém entreabre
A morte que alguém faz sorrir
A morte que alguém faz chorar
A morte que não pode viver sem nós
A morte que vem a galope no cavalo
A morte que chove em grandes estampidos
Vicente Huidobro, do livro Últimos poemas (1948), in Poesía y Poética (1911-1948), antología comentada por René de Costa, Alianza Editorial, Madrid, 1996, p. 308..
Versão de HMBF
INDIGNAI-VOS
Quem nos fala é um homem de 93 anos, com um currículo existencial suficientemente experiente para que a sua voz, como a de um bom professor, nos mereça toda a atenção. Nascido em Berlim, no seio de uma família de origem judaica com ligações às altas esferas culturais, Stéphane Hessel (n. 1917) naturalizou-se francês em 1937. As razões da deslocação são por demais evidentes. O início da Segunda Guerra Mundial levou-o a juntar-se ao general de Gaulle em Londres, integrando o Bureau de contre-espionnage, de renseignement et d’action. Em Março de 1944 desembarcou clandestinamente em França, foi capturado pela Gestapo, foi torturado e enviado para o campo de Buchenwald. Conseguiu escapar à forca trocando de identidade com um francês que morrera de tifo nesse mesmo campo. Transferido para o campo de Rottlebrode, de onde conseguiu escapulir-se, foi novamente capturado e colocado no campo de Dora, tendo conseguido evadir-se mais uma vez. Finda a guerra, iniciou uma longa carreira diplomática em França. Neste âmbito, uma das suas missões mais importantes terá sido a de integrar a comissão que redigiu a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Indignai-vos é um opúsculo escrito em contexto de exame final. A consciência do fim leva Hessel a dirigir-se aos jovens e a apelar à indignação, mas uma indignação pacífica. Entende-se este sublinhado se tivermos em conta o caos que invadiu muitas das cidades europeias nos últimos anos. Os confrontos de Paris em 2005 terão sido um primeiro mas eloquente sinal. Para Hessel, este apelo à indignação deve ter por base a defesa dos valores e dos princípios do Conselho Nacional da Resistência francesa, hoje fortemente ameaçados por um poder dificilmente identificável. Torna-se urgente zelar pelas conquistas sociais da Resistência contra a «actual ditadura internacional dos mercados financeiros que ameaça a paz e a democracia». Stéphane Hessel não o afirma com tanta clareza, mas é evidente que o principal inimigo dessas conquistas sociais esconde-se por detrás dos bancos e dos interesses privados dos seus administradores:
Ousam dizer-nos que o Estado já não consegue suportar os custos destas medidas sociais. Mas como é possível que actualmente não tenha verbas para manter e prolongar estas conquistas, quando a produção de riquezas aumentou consideravelmente desde a Libertação, quando a Europa estava arruinada? Apenas porque o poder do capital, tão combatido pela Resistência, nunca foi tão grande, insolente, egoísta, com servidores próprios até nas mais altas esferas do estado. Os bancos, agora privatizados, preocupam-se principalmente com os seus dividendos e com os elevadíssimos salários dos seus administradores, e não com o interesse geral. O fosso entre os mais pobres e os mais ricos nunca foi tão grande; e a corrida ao capital e a competição nunca foram tão incentivadas. (p. 21)
Impossível não concordar com o diagnóstico, nomeadamente se tivermos em conta o agravamento das assimetrias sociais num plano internacional. As razões para a indignação são, portanto, mais que muitas. Mas este opúsculo não se restringe a uma fundamentação política da indignação na actualidade. Com os seus exemplos do passado, ele reflecte uma relação nem sempre pacífica, do ponto de vista filosófico, entre desejo de envolvimento, indignação e resistência. Hessel recorda Sartre e o seu polémico apoio a algumas acções violentas. A oposição entre a via pacífica, mas activa e militante, e a via violenta não é de agora. Teve uma curiosa expressão nos tempos da Revolução Industrial com a emergência do Movimento Ludista. No caso do presente opúsculo, a doutrina pode resumir-se em três premissas: «a pior das atitudes é a indiferença» (p. 26), «o terrorismo não é eficaz» (p. 35), na medida em que se afirma pelo exaspero e, nesse sentido, pela recusa da esperança, «é preciso preferir a esperança, a esperança da não-violência» (p. 36).
Este apelo a uma indignação pacífica, mas não pacifista, contrasta com muitos dos desenvolvimentos recentes. A «ruptura radical» com a ditadura produtivista instalada no Ocidente não se compadece com cantorias inconsequentes e manifestações esvaziadas de conteúdo, por muito participadas que possam ser. Ela deve assumir os seus alvos, nomeadamente os bancos enquanto rosto mais visível do espírito imaterial dos mercados financeiros. Uma insurreição pacífica parece já não ser suficiente, nomeadamente quando a esperança de que fala Stéphane Hessel se encontra seriamente ameaçada pela ausência de horizontes. O Estado, essa identidade a quem confiamos a defesa dos nossos interesses, responde apenas à irritação dos mercados, fazendo orelhas moucas do desespero dos cidadãos. Está mais preocupado com a saúde dos mercados do que com a saúde, propriamente dita, das pessoas. Quando assim é, este “indignai-vos, mas com juizinho”, é simpático, mas manifestamente insuficiente. Uma nota final: o prefácio de Mário Soares, na edição portuguesa, era escusado e chega a ser indigno. Não por culpa do autor, mas da editora, a Objectiva, que aí encontrou um pretexto para rentabilizar um texto cuja função primordial não é contribuir para as finanças dos editores. A tradução é de Paula Centeno.
Indignai-vos é um opúsculo escrito em contexto de exame final. A consciência do fim leva Hessel a dirigir-se aos jovens e a apelar à indignação, mas uma indignação pacífica. Entende-se este sublinhado se tivermos em conta o caos que invadiu muitas das cidades europeias nos últimos anos. Os confrontos de Paris em 2005 terão sido um primeiro mas eloquente sinal. Para Hessel, este apelo à indignação deve ter por base a defesa dos valores e dos princípios do Conselho Nacional da Resistência francesa, hoje fortemente ameaçados por um poder dificilmente identificável. Torna-se urgente zelar pelas conquistas sociais da Resistência contra a «actual ditadura internacional dos mercados financeiros que ameaça a paz e a democracia». Stéphane Hessel não o afirma com tanta clareza, mas é evidente que o principal inimigo dessas conquistas sociais esconde-se por detrás dos bancos e dos interesses privados dos seus administradores:
Ousam dizer-nos que o Estado já não consegue suportar os custos destas medidas sociais. Mas como é possível que actualmente não tenha verbas para manter e prolongar estas conquistas, quando a produção de riquezas aumentou consideravelmente desde a Libertação, quando a Europa estava arruinada? Apenas porque o poder do capital, tão combatido pela Resistência, nunca foi tão grande, insolente, egoísta, com servidores próprios até nas mais altas esferas do estado. Os bancos, agora privatizados, preocupam-se principalmente com os seus dividendos e com os elevadíssimos salários dos seus administradores, e não com o interesse geral. O fosso entre os mais pobres e os mais ricos nunca foi tão grande; e a corrida ao capital e a competição nunca foram tão incentivadas. (p. 21)
Impossível não concordar com o diagnóstico, nomeadamente se tivermos em conta o agravamento das assimetrias sociais num plano internacional. As razões para a indignação são, portanto, mais que muitas. Mas este opúsculo não se restringe a uma fundamentação política da indignação na actualidade. Com os seus exemplos do passado, ele reflecte uma relação nem sempre pacífica, do ponto de vista filosófico, entre desejo de envolvimento, indignação e resistência. Hessel recorda Sartre e o seu polémico apoio a algumas acções violentas. A oposição entre a via pacífica, mas activa e militante, e a via violenta não é de agora. Teve uma curiosa expressão nos tempos da Revolução Industrial com a emergência do Movimento Ludista. No caso do presente opúsculo, a doutrina pode resumir-se em três premissas: «a pior das atitudes é a indiferença» (p. 26), «o terrorismo não é eficaz» (p. 35), na medida em que se afirma pelo exaspero e, nesse sentido, pela recusa da esperança, «é preciso preferir a esperança, a esperança da não-violência» (p. 36).
Este apelo a uma indignação pacífica, mas não pacifista, contrasta com muitos dos desenvolvimentos recentes. A «ruptura radical» com a ditadura produtivista instalada no Ocidente não se compadece com cantorias inconsequentes e manifestações esvaziadas de conteúdo, por muito participadas que possam ser. Ela deve assumir os seus alvos, nomeadamente os bancos enquanto rosto mais visível do espírito imaterial dos mercados financeiros. Uma insurreição pacífica parece já não ser suficiente, nomeadamente quando a esperança de que fala Stéphane Hessel se encontra seriamente ameaçada pela ausência de horizontes. O Estado, essa identidade a quem confiamos a defesa dos nossos interesses, responde apenas à irritação dos mercados, fazendo orelhas moucas do desespero dos cidadãos. Está mais preocupado com a saúde dos mercados do que com a saúde, propriamente dita, das pessoas. Quando assim é, este “indignai-vos, mas com juizinho”, é simpático, mas manifestamente insuficiente. Uma nota final: o prefácio de Mário Soares, na edição portuguesa, era escusado e chega a ser indigno. Não por culpa do autor, mas da editora, a Objectiva, que aí encontrou um pretexto para rentabilizar um texto cuja função primordial não é contribuir para as finanças dos editores. A tradução é de Paula Centeno.
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #9
No dia 16 de Setembro de 2002 fui assistir a uma série de concertos designados de Looking For a Thrili. Não era necessário ter estado presente para perceber o que então se afirmou com uma clareza desarmante: aquilo a que chamamos vanguardas resulta, muitas vezes, da conjugação de interesses meramente acidentais que não obrigam a uma partilha ideológica única e estanque. Para o caso, bastava a existência de uma produtora discográfica, a Thrill Jockey, cujo toldo abrigava uma multiplicidade de músicos de interesse bastante variável. Fundada em 1992 na cidade de Nova Iorque, mas posteriormente deslocada para Chicago, a Thrill Jockey soube afirmar a sua identidade dando a conhecer bandas que concebiam uma música precipitadamente catalogada de post-rock. Como todas as etiquetas, esta serve para situar um conjunto de projectos com raízes no jazz, no rock de cariz progressivo e no advento da música electrónica. São estes os elementos fundamentais de uma música de fusão, quase sempre instrumental, que encontrou em nomes como Tortoise ou Trans Am rostos representativos de um género que nunca chegou bem a sê-lo. Músicos como John McEntire, Sam Prekop, Rob Mazurek, Douglas McCombs, entre outros, desdobraram-se em vários projectos tornando-se reconhecidos num meio sem programa definido mas com uma clara intenção: renovar a música jazz. Ao rock foram buscar a energia, mas dispensaram o minimalismo dos três acordes. Essa energia funde-se com estruturas musicais complexas, riffs rebuscados e uma vertente experimental, oriunda do electrónico Krautrock, com consequências deveras estimulantes. É o caso deste Utonian Automatic, dos Isotope 217º, produzido por McEntire. Os músicos são Jeff Parker, Rob Mazurek, Dan Bitney, Matthew Lux e John Herndon, todos eles com ligações aos Tortoise ou bandas congéneres. Sugiro que se escute esta versão ao vivo de Looking for life on mars e esta de Audio Champion. São temas representativos de um tipo de som sem fronteiras nem cedências à facilidade. Permitam-me, no entanto, o parêntesis: alguns dos projectos mais interessantes deste território, porventura menos conhecidos, não estão directamente relacionados com os ambientes culturais supracitados. É o caso dos escoceses Ganger ou dos Slow Loris. É assim com tudo na vida.
ÉRAMOS OS ELEITOS DO SOL
Éramos os eleitos do sol
E não nos demos conta
Fomos os eleitos da mais alta estrela
E não soubemos responder à sua dádiva
Angústia de impotência
A água amava-nos
A terra amava-nos
As selvas eram nossas
O êxtase era o nosso próprio espaço
O teu olhar era o universo frente a frente
A tua beleza era o som do amanhecer
A primavera amada pelas árvores
Agora somos uma tristeza contagiosa
Uma morte ant4es do tempo
A alma que não sabe em que lugar se encontra
O Inverno nos ossos sem qualquer relâmpago
E tudo isto porque não soubeste o que é a eternidade
Nem compreendeste a alma da minha alma no seu barco de trevas
No seu trono de águia ferida de infinito
Vicente Huidobro
Versão de HMBF
E não nos demos conta
Fomos os eleitos da mais alta estrela
E não soubemos responder à sua dádiva
Angústia de impotência
A água amava-nos
A terra amava-nos
As selvas eram nossas
O êxtase era o nosso próprio espaço
O teu olhar era o universo frente a frente
A tua beleza era o som do amanhecer
A primavera amada pelas árvores
Agora somos uma tristeza contagiosa
Uma morte ant4es do tempo
A alma que não sabe em que lugar se encontra
O Inverno nos ossos sem qualquer relâmpago
E tudo isto porque não soubeste o que é a eternidade
Nem compreendeste a alma da minha alma no seu barco de trevas
No seu trono de águia ferida de infinito
Vicente Huidobro
Versão de HMBF
sábado, 19 de março de 2011
O MEU PAI E EU
1.
Pai, és uma flor que brilha,
canta, fala e dança!
És um super-herói que me salva
até quando não podes arriscar!
És muito engraçado e feliz!
Hoje, neste dia, estou contigo
cheia de alegria para que fiques feliz!
2.
És um coração
que dança, fala e canta.
Sabes fazer muita coisa
e sabes muita coisa...
Hoje estou contigo
para que fiques feliz,
cheio de alegria e tão consolado.
Ilustração: Beatriz
Poema: Matilde
quinta-feira, 17 de março de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #8
Eis um objecto que tendo uns bons pares de anos, mais propriamente dezassete anos (foda-se, como o tempo passa!), nunca deixa de ser novo. Os Hedningarna surgiram no norte da Europa, mais propriamente na Suécia. Com uma música inspirada no folclore escandinavo, foram assumindo uma vertente mais roqueira ao longo dos anos. Trä, este extraordinário conjunto de canções vindas a lume quando o grunge de Seattle andava a provocar estiramentos nos corações adolescentes, causou um espanto ainda hoje contagioso. Dizem os especialistas que o título do álbum significa bosque. No entanto, não se trata de um bosque feérico habitado por seres ambivalentes, deuses e ninfas, gnomos e fadas. É um bosque terrivelmente humano. O segundo tema (Min Skog/My Grove), um dos mais poderosos do álbum, começa com uma motosserra a amputar o tronco de uma árvore, provavelmente centenária, provavelmente para ser transformada em pasta de papel. O álbum fecha com o som apaziguador de um riacho. Mas entre a motosserra e o riacho escutam-se cânticos medievos, vozes de inclinação gótica, iniciáticas, lamentações evocativas de uma chaga aberta no coração da Terra. Há momentos claramente exorcismantes que sugerem um culto, ou um ritual de entrega e de devoção telúrica que coloca no centro das atenções a mais essencial das verdades: nada neste mundo nos deve merecer tanto respeito como a força e o poder da Natureza. Uma música sugestiva, por vezes festiva, outras vezes melancólica, sempre inquietante. Subitamente vem-me à memória Ralph Waldo Emerson: «Para encontrar a solidão, um homem tem de deixar tanto o seu quarto como a sociedade. Quando escrevo ou leio nunca estou só, apesar de ninguém estar comigo. Mas se alguém quiser estar sozinho, que contemple as estrelas». O meu tema preferido é o nono, chama-se Tuuli. Tem por lá umas vozes índias (trata-se de Wimme Saari, que também colabora com Hector Zazou no excelente Chansons Des Mers Froides). Eu gosto muito de índios. Podem escutá-lo aqui. Já agora, não percam este cheirinho de uma actuação ao vivo.
segunda-feira, 14 de março de 2011
A RESPOSTA AO PAULO TAVARES
No passado dia 8 deixei aqui um texto sobre o primeiro número da revista Agio. Dois dias depois, o Paulo Tavares e a Sara M. Felício, editores dessa mesma revista, deixaram o seguinte comentário ao meu texto: «Henrique, saindo um pouco da nossa postura quanto a comentar este tipo de crítica, gostaríamos de deixar aqui registado que consideramos este texto relativo à Agio superficial, redutor e repleto de anti-corpos que nada têm que ver com aquilo que, supostamente, deveria ser a análise da revista em si.» Concordei com a apreciação de superficialidade por ser um feroz militante da mesma, o que, de resto, me levou a simpatizar com o artigo de Jorge Martins Rosa, publicado nessa mesma revista, onde se cita Susan Sontag e o seu memorável Against Interpretation. É um defeito que vem de longe, culpa da formação filosófica, este de resistir à presunção de essências, númenos, verdades ocultas e reflexões sobre reflexões que não servem senão para exercitar o espírito dos homens. Prefiro uma lamentação dos índios da América do Norte a Que é Uma Coisa?, de Martin Heidegger - 230 páginas para nos dizer que uma coisa é uma coisa. Portanto, se me acusam de superficialidade recebo a acusação como um elogio. Nas profundezas da terra só conto parar quando estiver morto.
Quanto à questão de o texto revelar uma leitura redutora, já não posso estar de acordo. As leituras são o que são. Neste caso, a minha leitura, assumidamente superficial, não foi redutora, apenas e tão só procurou debruçar-se sobre um objecto onde não encontrou mais que pudesse ser dito do que aquilo que foi afirmado. Que mais haveria a dizer? Que gostei muito do poema do Miguel-Manso que já conhecia do livro Santo Súbito mas achei o original oferecido à revista absolutamente frívolo? Que os poemas do Nuno Dempster são excelentes e que eu espero daqui a dias não ser por ele envenenado numa refeição prometida? Que o ensaio do António Carlos Cortez é uma seca e o do Ricardo Marques está francamente mal escrito? Que os poemas da Soledade Santos estão para o espírito como as compotas que ela confecciona estão para o paladar? Que a entrevista ao Luís Lucas é papel desperdiçado? Enfim, tudo isto são opiniões que a gente pode ou não fundamentar. Num post é difícil sem ser fastidioso. E eu não quis ser fastidioso, quis ser prático. Por isso mesmo avanço para a acusação que não percebi, a acusação de o meu texto estar repleto de anti-corpos, a mesma que foi, entretanto, desenvolvida pelo Paulo Tavares no e-mail aqui reproduzido.
Se bem li o e-mail do Paulo, os anti-corpos explicam-se a partir da leitura que eu fiz da introdução dele ao primeiro número da Agio. Ora, deixem-me recordar o que eu disse a esse propósito:
Tratando-se de uma revista de literatura especialmente inclinada para um género literário, a poesia, subentende-se nas palavras de Paulo Tavares, senão a ambição, pelo menos o desejo de alargar o público da criação poética. Nada a contrapor. No entanto, na nota introdutória deste primeiro número, o mesmo Paulo Tavares afirma que «na génese da Agio não há uma ideia de ruptura ou de inovação a todo o custo». Talvez fosse muito pedir tais custos, mas nunca é demais esperar de uma revista nova a ousadia de, pelo menos, propor algo de novo. E, nesse sentido, apenas nesse sentido, a Agio mostra-se, para já, algo débil e até previsível.
O que eu quero dizer com isto? Talvez mais ou menos o mesmo que Vicente Huidobro dizia quando afirmava o seguinte: Si no se ha de decir algo nuevo, no hay derecho para hacer perder tiempo al prójimo. O que tem a Agio que outras revistas não têm? Do meu ponto de vista, muito pouco. Repete a estrutura, não inova senão na divulgação de nomes menos divulgados, alguns dos quais das minhas afinidades electivas. Esse esforço é meritório, mas não é suficiente para a afirmação de uma publicação colectiva. O leitor exigente, e eu não me considero outra coisa, deve dizê-lo desassombradamente e pedir mais e melhor. O tom não é crítico, muito menos malicioso, como o Paulo sugere, é, antes pelo contrário, exigente. Toda a gente sabe, e eu sei-o por experiência própria e sinto-o todos os dias profissionalmente, que o mercado livreiro português fede de esterco publicado e até promovido na base exclusiva da boa camaradagem. Também toda a gente sabe que os critérios de exigência a nível nacional, neste como noutros domínios, são muito inferiores ao desejável. Menos gente saberá, porque também menos gente se interessará pelo assunto, que a poesia é um género particularmente ameaçado por essa situação. Portanto, todos os investimentos na sua divulgação, promoção, dilatação deverão merecer a nossa simpatia, mas jamais o nosso conformismo. Isso seria o pior de tudo. Cabe-nos um discurso exigente. E esse discurso, do meu ponto de vista, é o da ruptura, é o da desconstrução, tal como o entendo e não como, aqui e acolá, uns por ignorância, outros por implicação, outros por mera e incorrigível estupidez, ele vem sendo treslido.
Quem tenha lido O Meu Cinzeiro Azul saberá o que penso sobre todos estes assuntos. O intróito das Estórias Domésticas também afirma alguma coisa sobre o tema e as Estranhas Criaturas são (des)construções poéticas em prosa do que aqui estamos a falar. Quem não tenha perdido tempo com esses livros, tem a hipótese de percorrer centenas de posts aqui antologiados (este weblog tem cerca de 3250 entradas) onde, ao contrário do que o Paulo afirma, eu não me limito a valorizar o que ele considerará de dúbio mérito literário, mas ouso na afirmação de um homem com frio, esse homem que procura algo mais do que o conforto imediato da aceitação dos seus pares, os quais adoptam recorrentemente o discurso vazio da inutilidade da poesia, ainda que a escrevam, a publiquem e até se arroguem em criticar a dos outros, tanto quanto vão sublinhando a inutilidade da vida, a deles, sem que se dêem ao simples denodo de espetarem um tiro nos cornos. Para mim é uma questão de coerência, escolhi a via solitária e burguesa e nela hei-de caminhar folgazão até ao fim da vida. Desprezo as academias, evito as congregações e sinto-me como peixe na água na minha própria asma.
Não havendo na Agio uma ideia de ruptura ou de inovação a todo o custo, há algo que, está visto, nos liga. E talvez por nos ligar me decepcionou neste primeiro número. Quem tenha lido Revistas Literárias do Século XX em Portugal saberá que uma revista não é só um esforço de divulgação da poesia, perceberá que Orpheu, Presença, entre outras publicações, foram muito mais do que esse simpático esforço. Foram publicações que geraram tensões, contribuíram para uma dinâmica que é a dinâmica da ruptura dos paradigmas, não com o pressuposto de se instalarem enquanto novo paradigma, mas com a vontade de fazerem a produção poética caminhar, pelo risco das ideias, dos manifestos, da afirmação estética, na direcção de um futuro que não se pode resumir a esta modorra entediante do toma lá uns poemas, uns ensaios e umas entrevistas. A afirmação do novo começa, precisamente, na renúnica à novidade, esse triste corolário de um capitalismo que tudo perverte e conspurca com os seus interesses mais ou menos objectivos. Felizmente, não resvala a Agio para os trilhos pantanosos da auto-promoção, como acontece com outras publicações. Ainda assim, o remate parece-me paradigmático:
A Agio surge assim, finalmente, como uma publicação situada nas margens, mas com o propósito de contribuir, à sua medida, que será sempre definida pelos seus leitores, para a dilatação dessas margens.
Nas margens andamos todos, meu caro Paulo Tavares. Uns descalços, outros de chinelos, outros de sapatos Prada.
Quanto à questão de o texto revelar uma leitura redutora, já não posso estar de acordo. As leituras são o que são. Neste caso, a minha leitura, assumidamente superficial, não foi redutora, apenas e tão só procurou debruçar-se sobre um objecto onde não encontrou mais que pudesse ser dito do que aquilo que foi afirmado. Que mais haveria a dizer? Que gostei muito do poema do Miguel-Manso que já conhecia do livro Santo Súbito mas achei o original oferecido à revista absolutamente frívolo? Que os poemas do Nuno Dempster são excelentes e que eu espero daqui a dias não ser por ele envenenado numa refeição prometida? Que o ensaio do António Carlos Cortez é uma seca e o do Ricardo Marques está francamente mal escrito? Que os poemas da Soledade Santos estão para o espírito como as compotas que ela confecciona estão para o paladar? Que a entrevista ao Luís Lucas é papel desperdiçado? Enfim, tudo isto são opiniões que a gente pode ou não fundamentar. Num post é difícil sem ser fastidioso. E eu não quis ser fastidioso, quis ser prático. Por isso mesmo avanço para a acusação que não percebi, a acusação de o meu texto estar repleto de anti-corpos, a mesma que foi, entretanto, desenvolvida pelo Paulo Tavares no e-mail aqui reproduzido.
Se bem li o e-mail do Paulo, os anti-corpos explicam-se a partir da leitura que eu fiz da introdução dele ao primeiro número da Agio. Ora, deixem-me recordar o que eu disse a esse propósito:
Tratando-se de uma revista de literatura especialmente inclinada para um género literário, a poesia, subentende-se nas palavras de Paulo Tavares, senão a ambição, pelo menos o desejo de alargar o público da criação poética. Nada a contrapor. No entanto, na nota introdutória deste primeiro número, o mesmo Paulo Tavares afirma que «na génese da Agio não há uma ideia de ruptura ou de inovação a todo o custo». Talvez fosse muito pedir tais custos, mas nunca é demais esperar de uma revista nova a ousadia de, pelo menos, propor algo de novo. E, nesse sentido, apenas nesse sentido, a Agio mostra-se, para já, algo débil e até previsível.
O que eu quero dizer com isto? Talvez mais ou menos o mesmo que Vicente Huidobro dizia quando afirmava o seguinte: Si no se ha de decir algo nuevo, no hay derecho para hacer perder tiempo al prójimo. O que tem a Agio que outras revistas não têm? Do meu ponto de vista, muito pouco. Repete a estrutura, não inova senão na divulgação de nomes menos divulgados, alguns dos quais das minhas afinidades electivas. Esse esforço é meritório, mas não é suficiente para a afirmação de uma publicação colectiva. O leitor exigente, e eu não me considero outra coisa, deve dizê-lo desassombradamente e pedir mais e melhor. O tom não é crítico, muito menos malicioso, como o Paulo sugere, é, antes pelo contrário, exigente. Toda a gente sabe, e eu sei-o por experiência própria e sinto-o todos os dias profissionalmente, que o mercado livreiro português fede de esterco publicado e até promovido na base exclusiva da boa camaradagem. Também toda a gente sabe que os critérios de exigência a nível nacional, neste como noutros domínios, são muito inferiores ao desejável. Menos gente saberá, porque também menos gente se interessará pelo assunto, que a poesia é um género particularmente ameaçado por essa situação. Portanto, todos os investimentos na sua divulgação, promoção, dilatação deverão merecer a nossa simpatia, mas jamais o nosso conformismo. Isso seria o pior de tudo. Cabe-nos um discurso exigente. E esse discurso, do meu ponto de vista, é o da ruptura, é o da desconstrução, tal como o entendo e não como, aqui e acolá, uns por ignorância, outros por implicação, outros por mera e incorrigível estupidez, ele vem sendo treslido.
Quem tenha lido O Meu Cinzeiro Azul saberá o que penso sobre todos estes assuntos. O intróito das Estórias Domésticas também afirma alguma coisa sobre o tema e as Estranhas Criaturas são (des)construções poéticas em prosa do que aqui estamos a falar. Quem não tenha perdido tempo com esses livros, tem a hipótese de percorrer centenas de posts aqui antologiados (este weblog tem cerca de 3250 entradas) onde, ao contrário do que o Paulo afirma, eu não me limito a valorizar o que ele considerará de dúbio mérito literário, mas ouso na afirmação de um homem com frio, esse homem que procura algo mais do que o conforto imediato da aceitação dos seus pares, os quais adoptam recorrentemente o discurso vazio da inutilidade da poesia, ainda que a escrevam, a publiquem e até se arroguem em criticar a dos outros, tanto quanto vão sublinhando a inutilidade da vida, a deles, sem que se dêem ao simples denodo de espetarem um tiro nos cornos. Para mim é uma questão de coerência, escolhi a via solitária e burguesa e nela hei-de caminhar folgazão até ao fim da vida. Desprezo as academias, evito as congregações e sinto-me como peixe na água na minha própria asma.
Não havendo na Agio uma ideia de ruptura ou de inovação a todo o custo, há algo que, está visto, nos liga. E talvez por nos ligar me decepcionou neste primeiro número. Quem tenha lido Revistas Literárias do Século XX em Portugal saberá que uma revista não é só um esforço de divulgação da poesia, perceberá que Orpheu, Presença, entre outras publicações, foram muito mais do que esse simpático esforço. Foram publicações que geraram tensões, contribuíram para uma dinâmica que é a dinâmica da ruptura dos paradigmas, não com o pressuposto de se instalarem enquanto novo paradigma, mas com a vontade de fazerem a produção poética caminhar, pelo risco das ideias, dos manifestos, da afirmação estética, na direcção de um futuro que não se pode resumir a esta modorra entediante do toma lá uns poemas, uns ensaios e umas entrevistas. A afirmação do novo começa, precisamente, na renúnica à novidade, esse triste corolário de um capitalismo que tudo perverte e conspurca com os seus interesses mais ou menos objectivos. Felizmente, não resvala a Agio para os trilhos pantanosos da auto-promoção, como acontece com outras publicações. Ainda assim, o remate parece-me paradigmático:
A Agio surge assim, finalmente, como uma publicação situada nas margens, mas com o propósito de contribuir, à sua medida, que será sempre definida pelos seus leitores, para a dilatação dessas margens.
Nas margens andamos todos, meu caro Paulo Tavares. Uns descalços, outros de chinelos, outros de sapatos Prada.
A RESPOSTA DO PAULO TAVARES
O Paulo Tavares, co-editor da revista Agio, fez o favor de responder por e-mail a este meu post. Porque considero o texto honesto e inteligente, deixo-o aqui em jeito de direito de resposta. Conto replicá-lo lá mais para o final do dia. Penso que pode estar aqui um bom contributo para um debate que, a meu ver, não só está por realizar como me parece estimulante. A poesia merece tudo menos a letargia dos consensos e esta irritante fuga à discussão a que se vem assistindo, cujo efeito mais eloquente é uma completa falta de sintonia com os tempos que estamos a viver.
Bom dia, Henrique.
Os anti-corpos que referimos são os de alguém que, no seu blogue e nos seus textos, tem vindo a deixar vincada a necessidade do “novo”, do “alternativo” e da “ruptura”, mas que, detendo-se regularmente apenas na superfície de tais noções/configurações, não tem ido (porque não consegue ou porque não quer) mais além dessa superficialidade, valorizando muitas vezes livros/publicações que apenas aparentam tal diferença, mas de dúbios méritos literários, e criticando outras que não declaram ou não apresentam abertamente essa pose do “alternativo dentro do alternativo”, ou, por outras palavras, do movimento histórico de anti-literatura e de anti-academismo.
Dou um exemplo relativamente a essa acusação dos anti-corpos:
Na citação que fazes do editorial, “Na génese da Agio não há uma ideia de ruptura a todo o custo”, o “a todo o custo” serviu-te apenas para que reduzisses o editorial a uma coisa patética, “Talvez fosse muito pedir tais custos,…” (é muito ver aqui inclusive uma ponta de malícia?), sem sequer considerares que talvez no final desta frase, articulando-a com o que se diz no resto do editorial, reside efectivamente uma ideia contrária a essa busca contemporânea do novo pelo novo e à necessidade da “estrela única, do salvador de uma geração, da voz que a congrega” . Não sei que outro tipo de ousadia é mais consequente do que esta, que apresenta uma perspectiva contrária (sem ser pomposa) e que remete para aquilo que realmente interessa: os textos que compõem a revista.
É claro, por isso, que não nos revejo num dos teus comentários em que falas também de “falta de espírito crítico”.
Gostava que soubesses, ainda, que os “custos” relativos a tornar possível esta publicação são efectivamente muitos e elevados (e não me centro no factor financeiro).
Quanto à tua posterior resposta de que o teu texto “é um post, não pretende analisar nada nem procura ser crítico”, julgo que, para quem é tão mordaz quando lhe apresentam argumentação deste tipo falacioso, deveria haver da tua parte um pouco mais de reflexão antes de fazeres o mesmo. Para todos os efeitos, apresentas a formulação de um juízo, povoado de expressões como “débil”, “previsível”, “convencional”, “monótona”, etc. Tudo muito bem, é a tua opinião (contra a qual não tenho, por regra, a tentação de me manifestar), mas, neste caso, e por tudo aquilo que disse anteriormente, sentimos que deveria ser resposta alguma justiça (penso que a palavra não é exagerada) nessa entrada do teu blogue.
Paulo
PS: É apenas um pormenor no meio disto, mas peço-te que alteres uma imprecisão inicial no teu texto: A Artefacto não é patrocinada pela SI Guilherme Cossoul, é a vertente editorial da SI Guilherme Cossoul (e conta - talvez daí a confusão - com um pequeno apoio da Fundação C. Gulbenkian).
Bom dia, Henrique.
Os anti-corpos que referimos são os de alguém que, no seu blogue e nos seus textos, tem vindo a deixar vincada a necessidade do “novo”, do “alternativo” e da “ruptura”, mas que, detendo-se regularmente apenas na superfície de tais noções/configurações, não tem ido (porque não consegue ou porque não quer) mais além dessa superficialidade, valorizando muitas vezes livros/publicações que apenas aparentam tal diferença, mas de dúbios méritos literários, e criticando outras que não declaram ou não apresentam abertamente essa pose do “alternativo dentro do alternativo”, ou, por outras palavras, do movimento histórico de anti-literatura e de anti-academismo.
Dou um exemplo relativamente a essa acusação dos anti-corpos:
Na citação que fazes do editorial, “Na génese da Agio não há uma ideia de ruptura a todo o custo”, o “a todo o custo” serviu-te apenas para que reduzisses o editorial a uma coisa patética, “Talvez fosse muito pedir tais custos,…” (é muito ver aqui inclusive uma ponta de malícia?), sem sequer considerares que talvez no final desta frase, articulando-a com o que se diz no resto do editorial, reside efectivamente uma ideia contrária a essa busca contemporânea do novo pelo novo e à necessidade da “estrela única, do salvador de uma geração, da voz que a congrega” . Não sei que outro tipo de ousadia é mais consequente do que esta, que apresenta uma perspectiva contrária (sem ser pomposa) e que remete para aquilo que realmente interessa: os textos que compõem a revista.
É claro, por isso, que não nos revejo num dos teus comentários em que falas também de “falta de espírito crítico”.
Gostava que soubesses, ainda, que os “custos” relativos a tornar possível esta publicação são efectivamente muitos e elevados (e não me centro no factor financeiro).
Quanto à tua posterior resposta de que o teu texto “é um post, não pretende analisar nada nem procura ser crítico”, julgo que, para quem é tão mordaz quando lhe apresentam argumentação deste tipo falacioso, deveria haver da tua parte um pouco mais de reflexão antes de fazeres o mesmo. Para todos os efeitos, apresentas a formulação de um juízo, povoado de expressões como “débil”, “previsível”, “convencional”, “monótona”, etc. Tudo muito bem, é a tua opinião (contra a qual não tenho, por regra, a tentação de me manifestar), mas, neste caso, e por tudo aquilo que disse anteriormente, sentimos que deveria ser resposta alguma justiça (penso que a palavra não é exagerada) nessa entrada do teu blogue.
Paulo
PS: É apenas um pormenor no meio disto, mas peço-te que alteres uma imprecisão inicial no teu texto: A Artefacto não é patrocinada pela SI Guilherme Cossoul, é a vertente editorial da SI Guilherme Cossoul (e conta - talvez daí a confusão - com um pequeno apoio da Fundação C. Gulbenkian).
domingo, 13 de março de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #7
Em 1998 o mundo estava prestes a acabar e os Godspeed You Black Emperor! eram a melhor banda sonora possível para o fim do mundo. Infelizmente o mundo não acabou e nós tivemos que continuar a procurar pretextos para andar por cá. Em 2002, no dia 29 de Janeiro, fui vê-los e ouvi-los no Paradise Garage. Entrada n.º 104, 20€. Devo dizer que valeu a pena manter-me vivo até então. Os GYBE! produzem uma música essencialmente instrumental, com umas leituras/samplers de textos muito breves aqui e acolá, discursos apocalípticos e genuinamente pessimistas proferidos por profetas da desgraça. A música capta a atmosfera deprimente de uma sociedade em colapso. Baixem o som à televisão e experimentem ouvi-los enquanto no vosso canal de notícias preferido são transmitidas em directo imagens de atentados, manifestações violentas, contrastando com o nosso nacional porreirismo, cocktails molotov arremessados sobre batalhões imensos de polícias de choque, muros a serem destruídos e populações inteiras dizimadas por acidentes nucleares, desastres ecológicos, bairros arrastados pela lama, a vida nos subúrbios, tsunamis, terramotos, o degelo das calotes e o Pedro Passos Coelho a discursar para um país de parvos. O efeito será devastador. Oriundos de Montreal, os GYBE! foram enfiados na indistinta prateleira do post-rock. As composições são longas, mas não parece. Assentam em texturas minimalistas e hipnóticas que se desenvolvem na direcção de uma explosão que acaba quase sempre por retornar a uma pacificadora melancolia inicial. f#a# ∞ é o título deste álbum, para mim o melhor de uma formação que logra arrancar de uma paisagem essencialmente industrial a nuvem negra e poluidora das almas em queda. Digo isto porque, apesar do diagnóstico geralmente torturante, a mensagem mantém-se esperançosa: the future is still bleak, uncertain and beautiful… Arrisquem ouvi-los aqui ou acolá com continuação ali (o primeiro vídeo é um acompanhamento perfeito). Para mim, por hoje, são a melhor banda do mundo.
sábado, 12 de março de 2011
VICENTE HUIDOBRO
A POESIA É UM ATENTADO CELESTE
Eu estou ausente mas no fundo desta ausência
Está a espera de mim mesmo
E esta espera é outra forma de presença
A espera do meu regresso
Eu estou noutros objectos
Ando em viagem dando um pouco da minha vida
A certas árvores e a certas pedras
Que por mim esperaram muitos anos
Cansaram-se de me esperar e sentaram-se
Eu não estou e estou
Estou ausente e estou presente em estado de espera
Eles queriam a minha linguagem para se expressar
E eu queria a deles para expressá-los
Eis aqui o equívoco o atroz equívoco
Angustiante lamentável
Vou penetrando estas plantas
Vou largando as minhas roupas
Vão-me caindo as carnes
E o meu esqueleto vai revestindo-se de cascas
Estou a transformar-me numa árvore Quantas vezes dei por mim convertendo-me noutras coisas
É doloroso e cheio de ternura
Poderia dar um grito mas espantaria a transubstanciação
Há que guardar silêncio Esperar em silêncio
De Últimos Poemas (1948)
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