terça-feira, 8 de março de 2011
SÓ
Andando no meio da eternidade
Comendo fruta no meio do vazio
A noite A morte
O morto recém-plantado no infinito
A terra vai a terra volta
Só com uma estrela pela frente
Só com um grande canto dentro e nenhuma estrela pela frente
A noite e a morte
A noite da morte
A morte da noite rondando pela morte
Tão longe tão longe
O mundo é levado pelo vento
E um cão uiva do infinito em busca da terra perdida
Vicente Huidobro
La Nación, Buenos Aires, 1932
Versão de HMBF
segunda-feira, 7 de março de 2011
HOMENS DA LUTA
sábado, 5 de março de 2011
ERA DE FAMÍLIA
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #4
quinta-feira, 3 de março de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #3
terça-feira, 1 de março de 2011
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #2
domingo, 27 de fevereiro de 2011
LAGOA DE ÓBIDOS
Estou demasiado colado às imagens de Herta Müller para que as palavras me façam justiça. Finto as imagens com outras imagens, concretas, irreproduzíveis mesmo em opção panorâmica. Por dentro, as imagens boiam sobre o sangue como os patos bravos sobre as águas escuras da lagoa. Há pescadores nas margens que dão banho aos iscos. Trazem os cães, enrolam cigarros, bebem umas cervejas com o tempo a pôr-se em lugar expectável. As filhas aprendem a saltar à corda, eu faço a digestão ao polvo deitado em batata-doce com salada de beringela.
Arrumei as canas que não tenho no armário das intenções adiadas, mesmo ao lado de uma cabeça que me dói e de um coração ferido pelo orgulho. Uma antiga namorada, coisa de 20 anos, (re)descobre-me e sugere conversa. Na última vez que me lembro de a ter visto olhou para o lado. Foi há tanto que já nem me lembrava. Agora tenho ali o caminho à minha espera, vai dar à foz. Mesmo voltando para trás, com o livro da Herta Müller debaixo do braço, é para a frente que olho. Um dia, podes ter a certeza, hei-de aprender a ser feliz. REALPOLITIK
sábado, 26 de fevereiro de 2011
A CIDADE LONGÍNQUA
Eu disse ao meu coração, ao meu pobre coração:
─ Não tens vergonha da tua fraqueza?
A glória, o amor, a pândega, o ouro,
não saberão tentar a tua preguiça?
Eu disse ao meu coração, ao meu pobre coração:
─ Odeia, fere, embriaga-te, beija,
bate mais forte, grande cobarde, ou morre
para sempre de desgosto e tristeza.
Ou talvez já estejas morto, tu, que nem sabes o que vale
o canto de um alaúde, o estouro de um punhal,
uma clara noite, uma rosa terna?
E o meu pobre coração, o meu coração disse-me:
─ Para quê dar mais cinzas ao esquecimento?
E, velho, sorriu-me, sem perceber nada.
Portanto, o que eventualmente pudesse existir de lírico, romântico ou mesmo simbólico nestes poemas é adulterado por uma reflexividade implacável acerca das determinações a que a existência de um ser humano se vê reduzida nos limites da vida. Mesmo quando se aventuram pelos caminhos do amor, como acontece nas magníficas Canções a Mahalta, dedicados a Mercé Figueres, a companhia mais presente na vida de Màrius Torres durante a estadia no sanatório de Puig d’Olena, os versos revelam uma espiritualidade ambígua, nublada, como uma espécie de pressentimento do olvido a que está condenada toda e qualquer existência. Entre outros, sobressai mais este soneto, forma a que o poeta recorreu frequentemente com inegável mestria:
PRESENÇA
Como se as tuas mãos sobre os meus olhos ainda
pudessem, como antes, deter-se com amor,
gosto de fechar os olhos quando penso em ti. Sonora,
a tua lembrança move-se na penumbra clara…
Volto a ouvir os teus passos lá longe, na luz.
Meço, em tom e ritmo, a distância.
Agora, deténs-te perto. Aspiro, rosa rançosa,
uma rajada ardente do teu antigo perfume!
As lembranças, os sentidos, toda a minha vida,
calam-se perante a angústia vigilante do ouvido
que te persegue no silêncio onde te recolhes.
Se agora esticasse os braços na escuridão, ainda
poderia amparar-te, sonho de cada dia.
Mas já não estarás aqui quando eu voltar a abrir os olhos.
O que nos remete para uma invocação da mãe perdida termina em reflexão sobre a natureza do estar. Esta presença ausente, aplicável a várias circunstâncias e materialmente indefinível, é a matéria da própria memória, assim como, ao fim e ao cabo, o alimento do esquecimento a que todos estão irremediavelmente destinados. A espiritualidade que emana desta poesia tem a tristeza e o encanto do condenado, sugere uma ambivalência que ora pende para uma esperança repleta de dúvidas, ora se inclina para a saudade do nunca vivido: «Gosto tanto da minha saudade, / que, se ao país que choro, / um anjo me quisesse guiar repentinamente, / diria ao anjo: espera, espera um momento, / agora não posso ir, não vês que estou a morrer?» (p. 147) Eventuais ecos de Pascoaes com a saudade pronunciada em catalão: enyorament (um enamoramento melancólico?).
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
UMA METÁFORA
Por outro lado, há uma metáfora curiosa no filme. O início da trama dá-se com uma descoberta macabra, um coração humano a entupir uma sanita. No final, Okwe e Senay despedem-se dizendo um ao outro, em silêncio e à distância, que se amam. É como se tivessem recuperado os corações que lhes haviam transplantado. De um modo metafórico, claro está, mas muito realista.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
ESTRANHOS DE PASSAGEM

TESÃO DE MIJO AO CUBO
2. Isto há-de chegar cá, dizem-me. Penso logo em Teixeira de Pascoaes e no nosso eterno sebastianismo. Sucede que D. Sebastião não há e Passos Coelho é mais do mesmo.
3. Acabei de ouvir um cidadão anónimo afirmar que começa a acontecer por cá o que vai acontecendo pelo mundo árabe. E deu como exemplo os confrontos de ontem entre uma claque de futebol e a polícia. Portanto, podem os historiadores registar os factos: a revolução começou no Alvalade XXI e os revolucionários são um bando de energúmenos vestidos de verde e armados com cadeiras que desconfiam que o Bahrein seja um avançado turco, o Iémen a moeda marroquina e a Líbia um bairro em Chelas.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
PAIXÃO E MORTE
Há mil novecentos e vinte e seis anos estavas tu numa cruz
Sobre uma colina repleta de gente.
Entre o céu e a terra os teus olhos eram toda a luz.
Gota a gota sangraste sobre a história.
Desde então um rubro regato atravessa os séculos regando a nossa memória.
As horas passaram diante da ombreira extra-humana.
O tempo ficou cravado com os teus pés e as tuas mãos.
Aqueles martelos ainda ressoam,
Como se alguém batesse às portas da vida.
Senhor, perdoa-me se te falo numa língua profana,
Mas de outro modo não poderia falar-te pois sou essencialmente pagão.
Se por acaso fores Deus, venho a pedir-te uma coisa
Em versos rimados com cansaços de prosa.
Há no mundo uma mulher, quiçá a mais triste, sem dúvida a mais bela,
Protege-a, Senhor, sem vacilar; é ela.
E se realmente fores Deus e puderes mais que o meu amor,
Ajuda-me a guardá-la de todos os perigos, Senhor.
Senhor, estou a ver-te com os braços abertos.
Quiseras abraçar todos os homens e todo o universo.
Senhor, quando dobraste a tua cabeça sobre a eternidade
As pessoas não sabiam se era dos teus olhos que brotava a obscuridade.
As estrelas desapareceram uma a uma em silêncio
E a lua não tinha como esconder-se atrás dos outeiros
Rasgaram-se as cortinas do céu
Quando a voar tua alma passou
E eu sei o que então se viu; não foi uma estrela,
Senhor; foi a cara mais bela,
A mesma que agora mesmo verias
Se rasgasses a carne do meu peito.
Como tu, Senhor, tenho os braços abertos esperando por ela.
Assim lho prometi e me cansam tantos séculos de espera.
Caem-me os braços sobre a terra como crucifixos partidos.
Não poderias, Senhor, adiantar a hora?
Senhor, na noite do teu céu passou um meteorito
Levando um seu voto e o seu olhar até ao fundo do infinito.
Até ao fim dos séculos continuará rodando nosso anseio ali escrito.
Senhor, agora estou doente de verdade
Uma insuportável angústia mastiga-me o peito.
E esse meteorito assinala-me o caminho.
As nossas vidas amarrou num só destino.
Entrelaçou-nos a alma melhor que uma qualquer aliança.
Senhor, ela é débil e ténue como um ramo de soluços.
Olhá-la é uma vertigem de estrelas no fundo de um poço.
Os rouxinóis do delírio cantavam nos seus beijos,
Enchia-se de febre o tubo dos ossos.
Alguém plantou na sua alma vis ervas de dúvida e já não crê em mim.
Prova-me que és Deus e no máximo em três dias leva-me daqui.
Quero evadir-me de mim mesmo.
O meu espírito está cego e rodopia entre planetas cheios de cataclismos.
Também a minha vida sangra sobre a neve,
Como um lobo ferido que faz a noite tremer cada vez que se move.
Estou crucificado sobre todos os morros.
Uma coroa de espinhos crava-me o coração.
As lanças dos seus olhos ferem-me as costelas
E um ribeiro de sangue sobre o silêncio dir-te-á que passei.
Faz agora uns quantos meses, Senhor, abandonei a minha velha Paris,
Um estranho destino trazia-me a sofrer no meu país.
Faz frio, faz frio. O vento empurra o frio sobre os nossos caminhos
E os astros enrolam a noite girando como moinhos.
Senhor, pensa nos pobres imigrantes que vieram até à América de ouro
E encontraram um sepulcro em vez de caixas de tesouros.
Eles impregnam as ondas com o ritmo dos seus cantares.
A tempestade das suas almas é mais horrível que a de todos os mares.
Vê como choram pelos seres que não mais verão;
Gritam-lhes na noite todas as coisas que para trás deixaram.
Senhor, pensa nas pobrezitas que sofrem ao humilhar a carne,
As novas Madalenas que hoje choram a dor da tua madre.
Agachadas ao fundo da angústia da sua absurda Babel,
Bebem lentamente grandes copos de fel.
Senhor, pensa nas espirais dos naufrágios anónimos,
Nos sonhos truncados que se quebram em pedaços de asteróide.
Pensa nos cegos com as pálpebras cheias de música, choram pelos olhos do seu violino.
Eles esfregam os seus arcos sobre a vida numa amargura sem fim.
Senhor, vi-te sangrando nos vitrais de Chartres
Como mil borboletas que fazem os sonhos partir.
Senhor, em Veneza vi o teu roso bizantino
Num dia em que o ar se rompia de beijos e vinho.
As gôndolas passavam cantando como ninhos
Entre ramos de ondas, levando o nosso sorriso até ao Lido.
E tu ficavas sozinho em São Marcos, aspirando as selvas de orações
Que crescem a teus pés em todas as estações.
Senhor, vi-te num ícone, obra de um monge sérvio que ao pintar os teus espinhos
Sentia a alma repleta de andorinhas.
Que significas tu na história do mundo?
Há ano e meio discuti este tema num café de Moscovo.
Um sábio russo não te dava grande importância.
Eu dizia ter acreditado em ti durante a infância.
Uma bailarina célebre pela sua beleza
Dizia que tu és somente um conto de tristeza.
Todos te negaram e não consta que um galo tenha cantado.
Talvez Pedro, escutando-nos, tenha chorado.
E ao fundo de uma velha Bíblia o teu sermão da montanha
Continuava ressoando de uma maneira estranha.
Senhor, também eu tenho uma vida dolorosa, minhas recaídas e minha paixão;
Saltando meridianos como um tigre ferido, sangra e uiva o meu coração.
Reina o amor em todas as suas esplêndidas catástrofes internas,
Mil rubis trovejam no fundo do cérebro
E as plantas do desejo bordam o ar destas noites eternas.
Poeta, poeta escravo de aventuras e de algum sortilégio,
Como tu suporto a vida, o maior sacrilégio.
Senhor, a única coisa que vale na vida é a paixão.
Vivemos para um ou outro momento de exaltação.
Abre-se a meus pés um precipício de suspiros; detenho-me e vacilo.
Logo como um sonâmbulo atravesso o mundo em equilíbrio.
Senhor, que te importa o que digam os homens. Ao fundo da história
És um crepúsculo pregado a um madeiro de dor e de glória.
E o regato de sangue que brotou das tuas costelas
Ainda, Senhor, não foi estancado.
Vicente Huidobro, poema publicado originalmente na primeira página de La Nación (Santiago de Chile, 2 de Abril de 1926). Versão caseira do HMBF.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
BIBLIOTECA PÚBLICA DE LA CIENEGA
Andei pela biblioteca à procura de livros. Tirei-os das estantes, um a um. Mas eram equívocos. Eram muito aborrecidos. Havia páginas e páginas que não diziam rigorosamente nada. Ou se diziam alguma coisa demoravam muito tempo a dizê-lo e quando o diziam já estava cansado para que importassem alguma coisa. Experimentei um e outro livro. Certamente que, de todos aqueles livros, tinha de existir um.
Todos os dias eu ia até à biblioteca na Adams com a La Brea e lá estava a minha bibliotecária, inflexível e infalível e silenciosa. Continuava a tirar livros das estantes. O primeiro livro de jeito que encontrei foi de alguém chamado Upton Sinclair. As frases eram simples e falava com raiva. Ele escrevia com raiva. Escreveu sobre os matadouros de Chicago. Dizia as coisas de forma clara e sem artimanhas. Depois encontrei outro autor. Chamava-se Sinclair Lewis. E o livro chamava-se Main Street. Ele desmontava a hipocrisia inerente às pessoas. Mas faltava-lhe paixão.
Voltei lá para buscar mais. Lia cada livro numa só noite.
Um dia andava por lá à procura, e a espreitar a minha bibliotecária, quando encontrei um livro com o título Bow Down To Wood and Stone. Bem, aquilo é que era bom, porque era isso que andávamos todos a fazer. Finalmente, algo de jeito! Abri o livro. Era de Josephine Lawrence. Uma mulher. Não havia problema. Aprende-se com toda a gente. Abri o livro. Mas era como muitos outros: pastoso, obscuro, cansativo. Voltei a colocá-lo na estante. E enquanto a minha mão por lá andava agarrei num livro que estava perto. Era de um outro Lawrence. Abri o livro e comecei a ler. Era sobre um homem que tocava piano. Ao início parecia pretensioso. Mas continuei a ler. O homem que tocava piano tinha problemas. A sua mente dizia coisas. Coisas obscuras e curiosas. Cada linha do livro era firme, como um homem a gritar, mas não gritava «Joe, onde estás?» Era mais Joe, onde está tudo? Este Lawrence era certeiro. Nunca tinha ouvido falar dele. Porquê? Por que razão não era publicitado?
Li um livro por dia. Li todos os livros de D.H. Lawrence que havia na biblioteca. A minha bibliotecária começou a olhar para mim de uma maneira estranha enquanto eu registava os livros.
«Como estás hoje?» perguntava.
Soava sempre bem. Parecia que já tinha ido para a cama com ela. Li todos os livros de D.H. A eles seguiram-se outros. Seguiram-se H.D., a poetisa. E Huxley, o mais novo dos Huxleys, amigo de Lawrence. Vieram todos ter comigo. Um livro deu lugar a outro. Dos Passos também apareceu. Não era muito bom, mas era suficientemente bom. A sua trilogia sobre os Estados Unidos demorou mais do que um dia para ler. Dreiser não me encheu as medidas. O Sherwood Anderson, sim. E depois apareceu Hemingway. Que maravilha! Esse sim sabia como escrever uma frase. Era uma alegria. As palavras não aborreciam, punham-me a cabeça a latejar. Se o lêssemos e nos deixássemos levar pela magia, conseguiríamos viver sem dor, com esperança, acontecesse o que acontecesse.
Charles Bukowski, in Ham on Rye – Pão com Fiambre, trad. manuel a. domingos, Ulisseia, Setembro de 2010, pp. 187-189.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
HAM ON RYE
Matemos, desde já, o assunto da tradução: podia estar melhor se tivesse sido acompanhada de uma revisão digna desse nome. Deixando de lado as cada vez mais frequentes e irritantes gralhas das traduções portuguesas, há opções que deixam muito a desejar. Por exemplo, a proliferação de pronomes pessoais em frases ou parágrafos que os não justificam. Sabemos que em língua inglesa eles estão lá, mas no português podem ficar implícitos tornando a escrita mais natural e libertando a leitura de solavancos desnecessários: «Ela usava uma elaborada peruca branca. Ela dava-nos reguadas frequentemente quando pensava que estávamos a ser desobedientes. Acho que ela nunca ia à casa de banho» (p. 31). Noutras ocasiões a tradução de expressões coloquiais coloca problemas de repetição igualmente evitáveis: «Era mais ou menos um ano mais velho do que eu e não era da minha escola» (p. 54). E há situações que configuram desatenções gramaticais ou de concordância que dificultam a percepção das frases: «Conseguia-o ver deitado no passeio…» (p. 250), «O vosso salário é de quarta e quatro cêntimos e meio à hora» (p. 259), «Bem, um ou dois tinham funcionado – para mim – mas pareciam que tinham sido guiados em vez de fazerem o caminho sozinhos» (p. 289).
A literalidade da escrita de Bukowski merece uma atenção redobrada. A sua prosa, tal como os seus poemas, minam-nos consecutivamente o terreno. Há uma tendência para o lermos com a pressa que o próprio ritmo da narrativa nos imprime, mas essa tendência corre o risco de resvalar para uma superficialidade que nada tem que ver com o carácter essencial do que está escrito. É muito frequente, por exemplo, vermos os livros de Charles Bukowski reduzidos a meros retratos de uma vida decadente perdida num turbilhão de aventuras com mulheres, pancadaria, álcool, jogos de azar e trafulhices várias. Em Ham on Rye, o romance que recupera os tempos de juventude do alter-ego Henry Chinaski, todo esse ambiente está afundado debaixo da opressão social característica da Grande Depressão. Deus, pátria e família, à moda americana, com esta última sentada em torno de uma mesa onde a palavra frustração adquire o peso das expectativas defraudadas e das ambições esmorecidas: «Então, é isso que eles querem: mentiras. Mentiras bonitas. É disso que precisam. As pessoas eram ridículas» (p. 101). Encontramos ao longo do romance as raízes de uma solidão enraivecida que afluiu no sentido da indiferença e da desistência social, por se tornar insuportável uma convivência com a mentira e se ansiar pela genuinidade das coisas.
Não é de estranhar que Charles Bukowski tenha ocupado tantas páginas com as ilusões da família ─ «Vínhamos todos de famílias vítimas da Depressão, estávamos mal alimentados, mas mesmo assim tínhamos crescido e ficado fortes. Penso que a maioria era pouco acarinhada pela família, mas também não pedíamos carinho ou mimo a ninguém. Éramos uma anedota mas as pessoas pensavam duas vezes antes de se rirem de nós» (p. 112) ─ e a inutilidade da instituição escolar. O que aqui se revela é uma emergência para a ruptura com essas instituições, ao mesmo tempo que se afirma um repúdio para com as vidas entediantes da maioria e a mais completa incompetência para a adaptação social. Quando olha para si próprio, aquilo que o jovem Chinaski vê oscila entre uma necessidade de afirmação e a mais brutal das constatações. Nesta prosa, «as tripas cheias de merda», a acne, a hilaridade com que as situações mais abjectas nos são relatadas, não busca a mínima complacência humorística do leitor, são provas factuais da debilidade essencial dos homens. Daí que a grande surpresa seja um «gajo tão grande a chorar», porque nesse gesto de deixar as lágrimas romperem os músculos está a essência da humanidade. É nestes aspectos a seu modo ontológicos que a prosa de Charles Bukowski adquire a dimensão dos grandes, os mesmos que ele ia procurar na Biblioteca e aos quais se agarrou como um náufrago agarrando-se a uma tábua de madeira. O sexo, o álcool, a literatura são os bálsamos hedonistas que afastam do desistente a ideia do suicídio, transformando-o, pois claro, num resistente.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
ANOTHER YEAR
Se me fizessem a mais estúpida das perguntas, ou seja, sobre o que trata o último filme de Mike Leigh, eu diria que é sobre a arte de saber envelhecer, um pouco como o vinho que aparece recorrentemente ao longo da fita. Mike Leigh é, na actualidade, o único cineasta que não me obriga a hesitar perante três salas com três filmes promissores. Foi chegar, ver e sair satisfeito. Another Year retoma-o no seu melhor, depois de um comovente Vera Drake, de um irritante Topsy-Turvy, de um suportável Career Girls, de um genial Secrets & Lies e de uma coisa do outro mundo chamada Naked. O que há de tramado num filme como Another Year é deixar-nos a pensar sobre a nossa própria vida enquanto não nos abandonam os planos das personagens colocadas a olhar para o vazio. O vazio para onde olham as personagens, na sua angustiante solidão, no seu terrível abandono, é o mesmo com que nos deparamos sempre que contemplamos um calendário e nos interrogamos sobre o que fazemos no mundo. Uma narrativa aparentemente simples, dividida em capítulos que obedecem à sequência das estações (nada de novo), mostra-nos a felicidade de um casal na sua quotidiana e admirável banalidade. Há algo de especial neste casal: a paciência, a compaixão, a disponibilidade para a família e para os amigos. A questão da disponibilidade é tão importante quão evidente se torna o desespero da mais neurótica das personagens, uma amiga de Tom e Gerri, o casal no centro da trama, mulher maltratada por relações amorosas falidas. Para esta criatura, ter com quem falar não é tão importante como encontrar quem deseje confessar-se-lhe. O seu anseio não é por um ouvido, é por uma boca que dê sentido aos seus ouvidos. Ela quer ser a confidente de alguém e é nessa falta que a sua solidão se afirma. No fundo, o drama encenado ao longo do filme é precisamente o drama daqueles cuja maior necessidade é sentirem-se, digamos assim, úteis, importantes para alguém, desejados. Claro está que em nenhuma circunstância as estruturas depressivas dos intervenientes ameaçam o equilíbrio da história. São raros os filmes que não contando história alguma nos contam a vida toda, este é um deles. E fá-lo com um sentido irrepreensível do ponto de vista da encenação, colocando no tempo certo cada uma das intervenções, fazendo das imagens os frutos, os legumes colhidos no horto metafórico que vai acompanhando o passar das estações. O cuidado colocado na horta amanhada ao longo de várias cenas assemelha-se ao cuidado que a família central da narrativa, o pilar sustentador do desaire, coloca nos seus relacionamentos. Um cuidado que se espera ser o essencial da vida mas que, por esta e por aquela razões, termina quase sempre, na imensa maioria das vidas deste mundo, negligenciado em função de afazeres supostamente mais urgentes.
CADA QUAL SABE DE SI
sábado, 5 de fevereiro de 2011
NÃO PENSES LÁ COISAS
Beatriz, 4 anos: Gosto.
Pai: Dás-me um beijo.
K3
Poema longo, na linha formal do anterior Londres, também ele vindo a lume com o selo da &etc., K3 vai aos confins da memória colher a matéria de que é feito. Ecos, evocações, dúbias ocorrências, lembranças, recordações, moldam uma epopeia que se nega a si própria por nada no que nela é relatado ser digno de orgulho heróico. De algum modo a viagem que parte da Estação Marítima de Alcântara nos questiona sobre a própria natureza da poesia e suas fragilidades quando confrontada com os relances da vida. Afinal, a poesia ainda é possível. Nuno Dempster sabe que «os versos serão sempre / mais do que os mortos / e têm vida curta» (p. 7), mas nem por isso lhes nega o sangue que tendo por destino um esquecimento incerto pode servir para, reavivando o passado, melhor entendermos o presente. A História Trágico-Marítima que este poema esconjura é a de toda uma geração de náufragos que, ora ficando por terra, ora perecendo afogados numa incurável amargura, se viram privados de uma juventude confortavelmente instalada como aquela que as últimas décadas souberam alimentar.
Nalguns momentos os versos parecem pretender exorcismar os traumas que se foram mantendo colados ao corpo, noutros vem à tona um desassossego político e histórico que tende a questionar motivos sem encontrar desculpas ou justificações: «Estou certo de que muitos / deveriam julgar possível / manter a antiga rota dos escravos, / e os limites traçados por Afonso V. // Daí que houvesse gente a quem a morte, / saída das rajadas de G3, / era a forma de ser destino útil, / sem que o olhar hesitasse / e, menos, se quedasse pensativo, // fiel ao rei, à pátria, ao povo, palavras que não dizem anda, / surgem de altifalantes anacrónicos, cujo som se confunde em uma ideia nula» (p. 21). Nada disto morreu, vai reforçando o poema enquanto nos introduz aos subterrâneos do K3, um bunker situado na Guiné, hoje devorado pela selva e ruinosa representação da miséria semeada pela guerra.
Tratando-se de um poema evocativo com uma experiência traumática em pano de fundo, o que mais acaba por impressionar é a heterodoxia do discurso: «Deve dizer-se aos místicos / e àqueles que acreditam / em destinos supremos / que o chão da humanidade / é um palimpsesto de esperma e sangue, / com pegadas em volta / da cama das mulheres em tempo de guerra, // como em redor da esteira / de Djariato, / numa palhota de há mil anos, / uma era tão diversa, // os soldados nos anos do poema, / a desejar-lhe o belo tronco nu, / os seios empinados, / o ventre liso, / a tanga que caísse» (pp. 34-35). No entanto, Dempster contém-se nas imagens, não se perde por realizações sensacionalistas e gratuitamente provocatórias, deixa os cheiros virem à tona, ilustra a solidão, reaviva os sons do pesadelo sem nos impor, o que é o mais difícil, a pornografia dos corpos trucidados, das violações, da insanidade típica destes teatros abjectos de matança. O que se busca, muitos anos depois da experiência vivida, é sossego e paz para um cansaço transportado ao longo dos anos, é aliviar o peso da lembrança. Daí que a conclusão, se assim lhe podemos chamar, não pudesse ser outra: «Voltar ou não voltar, // morrer ou não morrer, tanto fazia» (p. 63).
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
EMPAREDADA
domingo, 30 de janeiro de 2011
GAIVOTAS

Fim de tarde com Huidobro por companhia: el pájaro pondrá su huevo sobre el porvenir. E a cada pegada arrancamos um pouco de futuro, arrastando pela areia mais algumas horas mortas dos nossos repetidos dias. Já nos bolsos trazemos a lareira ateada, o canto das mulheres afegãs a ecoar à distância, talvez um filme a lembrar-nos de como andamos todos a imitar as nossas próprias vidas. Enfim: se as gaivotas, todas voltadas para a ilha que ao fundo ainda espreita, levantam voo em sintonia, quem somos nós para reclamar da desordem com que a noite chega?
sábado, 29 de janeiro de 2011
VEM NO ÍPSILON
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
INSULTOS À DEMOCRACIA
Acabei de ouvir na RTPN um tipo qualquer dizer que os 4,5% do Coelho são um insulto à democracia portuguesa. Se eu fosse jornalista, perguntava-lhe o seguinte: se os votos legitimamente conseguidos por uma candidatura legítima são um insulto à democracia portuguesa, então o que é a democracia portuguesa? Não é difícil encontrar insultos à democracia portuguesa: do caso BPN ao Face Oculta, dos submarinos ao processo Portucale, da Casa Pia à Universidade Independente, das escutas aos "mantos diáfanos de fantasia" de certos e determinados trafulhas.domingo, 23 de janeiro de 2011
DEVER CÍVICO
Como é óbvio, ninguém vai pensar nem ponderar nada. A falta de vergonha é tanta e tão declarada que nem o facto de muitos portugueses terem sido impedidos de votar por um sistema de simplificação que espelha bem o que se passa no país a todos os níveis vai estimular a indignação. Eu ia sendo uma vítima desse sistema. Com o Cartão do Cidadão feito há pouco tempo, votei pela primeira vez em Caldas da Rainha. Tive de esperar por um número que após muita insistência lá foi parido por um sistema constipado. Encontraram-me uma mesa 9 onde pude exercer um direito que há muito não exercia. Outros não tiveram a mesma sorte. Desistiram. Se isto tivesse acontecido na Venezuela a conversa seria outra.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
VOTE NO POETA, VOTE COELHO

Por regra, não voto. Desagrada-me o sistema. Mas como todas as regras, também esta merece as suas excepções. Votei no referendo pela IVG. Foi a última vez. Voltarei agora à urnas, em bairro diferente, contra a HIPOCRISIA. Vai assim mesmo, em maiúsculas, que o país não está para menos. Os argumentos de Cavaco contra uma hipotética 2.ª volta são argumentos à Cavaco. Não há nada a fazer, o homem mete-me nojo. Um fdp que governou este circo durante 10 anos e nos levou à degradação actual, andou a alimentar Duartes Limas, Dias Loureiros e quejandos, promoveu um asno da estirpe de Santana a Secretário de Estado da Cultura, e agora lamenta-se da reforma de 800€ que a pobre mulher recebe todos os meses enquanto limpa o pó ao Palácio de Belém. Enrolou-se com os ladrões do BPN, não explica as trapalhadas com as escutas e Fernando Lima, preocupa-se com as taxas de juro perante a possibilidade de uma 2.ª volta. Foda-se, crápula mais crápula não pode haver. É por estas e por outras, como estas, que no Domingo lá estarei a botar voto no Coelho. Podia votar no Lopes ou no Nobre, quiçá no Alegre, mas vou votar Coelho por razões que me abstenho de justificar. Talvez baste isto: o Coelho diverte-me, merece a minha simpatia, estou com ele na acusação desinteressada da bandalheira em que a política deste país se transformou.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
SER RICO
Mãe: eu queria ser rica para poder andar sempre de chinelos.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
VOTO COELHO
Defensor de Moura… quem é Defensor de Moura?
Nobre é a Madre Teresa de Calcutá das presidenciais. Está na campanha para não ser como os outros fazendo exactamente o mesmo que os outros fazem: discursos insignificantes, comícios sem conteúdo, foguetes retóricos no vazio. Diz que quer marcar a diferença e a única diferença que tem para marcar é o facto de não ser apoiado por nenhum partido. E daí? A sociedade civil que temos não me merece assim tanto respeito que me leve a votar num candidato que se auto-proclama o seu.
Chico Lopes é fixe. Sacrilégio! Tenho uma teoria sobre estes tipos do Partido Comunista, é a mesma que o meu pai tem sobre os tipos do PCTP/MRPP. Só têm um problema: o serem comunistas. Tudo o que afirmam é de uma afinação diapasiana, são incapazes de proferir uma mentira, têm uma capacidade de resistência inacreditável, foram electricistas, mecânicos, agricultores mas parecem saídos das melhores universidades norte-americanas. São tipos mesmo bacanos. Mas são comunistas. E a verdade é esta: o comunismo não me inspira senão desconfiança.
Alegre é alguém que tem a mania que é. Meteu-se-lhe na cabeça que havia de ser Presidente da República. Aquilo é paranóia de poeta. Não há nenhuma consistência política nos seus discursos, o embaraço é indisfarçável tendo em conta o historial oportunista. Alegre é uma espécie de Postiga, desmarca-se bem mas a bola vai-lhe sempre ao poste. Sempre que o vejo não consigo afastar da cabeça a ideia de que se trata de alguém com meras aspirações literárias. Não tem quaisquer aspirações políticas. Aquilo é tudo sonho, como uma criança que se perde na ilusão de vir a ser: o Poeta Presidente. E por isso ficar na história. Que triste!
Resta Coelho. O Coelho tem pinta. Aposto que era o malandro da turma. Os media acham-lhe graça e não é razão para menos. O tipo é um stand-up comedian nato com um currículo que parece saído de uma obra de humor surrealista. Topem bem: Inscrito no PCP, é deputado regional pelo PND… Continua a declarar-se comunista, apesar de representar um partido de direita. Ardina do Garajau, o jornal satírico de que é director, se for eleito Presidente continuará a ter um terço do vencimento penhorado para pagar indemnizações a que foi condenado. A República precisa de um homem destes.
É CRÍTICO
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
FOME
É um erro acusar-se a situação confortável do narrador. O homem é um sobrevivente com a consciência em xeque, está a sós com as suas memórias, rodeado de conservas, e procura afastar os seus fantasmas com comportamentos que não podem deixar de ser julgados em função das experiências traumáticas anteriormente vividas. No epicentro das suas recordações, ergue-se como uma luz impagável a imagem de Alena, a mulher, vítima da fome que as bombas de Hitler trouxeram. É-nos fácil julgá-lo a partir das suas confissões, nomeadamente as traições amorosas, as vacilações de carácter, a menor capacidade de resistência. Mas tudo isso nos é apresentado num momento de confissão e, ainda que não nos mova a fé cristã, é de todo admirável sentir na personagem o reconhecimento da sua verdadeira tragédia.
Durante a guerra, as privações tomaram conta da cidade. Homens e mulheres vendiam-se a troco de terem o que comer. A fome corroía o corpo, a alma, a decência, relativizava a moral, impelia as pessoas para uma angustiante inumanidade. No Instituto de Pesquisa da Indústria de Plantas foi acordado entre todos que, por mais que fosse o apelo da necessidade, ninguém se alimentaria/serviria das colecções de sementes recolhidas com tanto sacrifício. «Iremos protegê-las a todo o custo» (p. 17); protegê-las, neste caso, não apenas dos predadores habituais (ratos e quejandos), mas dos seus próprios zeladores. O carácter dúbio do narrador começa a revelar-se a páginas 20:
«Jamais vacilei ou incorri em pensamentos de fuga. Jamais abandonei uma viagem cedo, nem recusei a inscrever-me em primeiro na lista para a próxima viagem. Em todo o instituto as pessoas comentavam a minha coragem.
Por isso talvez seja um cobarde e talvez não seja. Corajoso de corpo e fraco de mente, talvez, carecendo da moral determinada e duradoura da minha Alena ou da coragem intelectual do grande director».
O tom é de autocrítica e desesperada redenção. Percebemos que entre este homem e a sua falecida mulher há uma relação de profunda admiração cuja vida não soube brindar com a pureza de um amor eventual e provavelmente feérico. A realidade é dura e, assim como as plantas que precisavam de ser protegidas dos homens, também os homens precisam ser protegidos de si próprios. Fome alerta-nos para este pormaior tantas vezes desatendido: o homem é presa de si próprio, prefere o rumor das ilusões ao desconforto da verdade, quando a fome aperta alimenta-se do que tem à mão e, assim como é capaz de morrer à fome por um ideal ou por convicção, também é capaz de sucumbir à fome por direito à vida.
Entendamos o paradoxo a partir da cruel constatação de um sobrevivente: «Onze mil passaram fome em Novembro. Mais de cinquenta mil morreram em Dezembro, quando a madeira para os caixões há muito se esgotara» (p. 47). Ter escapado a este destino, porventura por amor à vida, só foi possível em circunstâncias que agora classificamos de traiçoeiras. Mas em certos casos, em casos limite, a deslealdade não provém senão da fome mais justificável: a fome de vida. Este homem confessa a sua fraqueza, comeu sementes que devia ter protegido, traiu a sua heróica mulher em todos os planos imagináveis, só não conseguiu trair a sua vontade de viver. Pode isso ser censurado?
PROFETAS DA CATÁSTROFE
T. R. M. (1766-1834)
Quem passou muito tempo sem comer está fraco de mais para falar,
esgaravata no lixo, não faz poesia. O que sabemos da fome
vem da boca dos que estão saciados; grande saber não será.
Grande folgazão: no verão, um pouco de remo, no inverno,
patinagem no gelo no lago da aldeia. Durante cinquenta anos
nem uma vez o vi perder as estribeiras.
Bochechudo, molengão, contradizia a felicidade com voz firme.
A sua felicidade? A felicidade. Não havia na época qualquer ideia nova
na Europa: não haverá mais guerras, nem crimes,
nem sentenças, não haverá governos; nem doença ou sofrimento,
nem preocupações ou ódios. Resposta: Nunca consegui ter sobre as
naquilo que queria. (Ensaio Sobre o Princípio Demográfico
e sua influência em todas as futuras melhorias da sociedade
seguido de algumas notas sobre as especulações dos senhores Godwin e
Homem simpático, bom coração. O génio e a loucura não lhe diziam nada.
Alimentava-se, honestamente, da sua sinecura, mas a obra de Süßmilch
A Ordem Divina nas Transformações do Género Humano
não o tranquilizou. Pôs-se a estudar anuários estatísticos,
abandonou a paróquia, fez viagens à Rússia e a outros lugares.
A Europa inteira ficou assustada com os resultados. Exorcismos monótonos:
este cortejo de doenças comuns e epidemias,
de carestia, pestilência, sublevações e crises de fome.
O pastor de almas da boa gente de Walesbury exalta-se
com os prazeres mundanos, os artifícios indecorosos,
as paixões desnaturadas; mas o seu grande volume calcula pela primeira vez
as forças da natureza contidas em úteros e testículos, tal como o físico
mede a velocidade e o alcance de um projéctil
em ambientes de diferentes densidades: tudo isto
é necessariamente tal como é, e assim será sempre.
Acusador descarado da classe dominante, homem vulgar,
doutrina infame, cinismo, detestável blasfémia: falar é fácil,
mas o tempo de duplicação continua a ser
de cerca de trinta anos, e continua a valer a fórmula: P(t)=P(o)e(rt).*
É verdade que os seus cálculos não eram muito exactos. Mas uma coisa ele
esfregando as mãos, a tomar chá, esperava que uma mulher rosada lhe
dormia uma vez por mês: um intrépido cagarola,
um simulador que toda a vida se fez passar por saudável,
o grande folgazão entre os profetas da catástrofe.
*A fórmula não é exactamente esta. Não consegui transcrevê-la correctamente para o motor de publicação do Blogger.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
SONHOS
Ontem, ao passar os olhos mais uma vez pel'As Pontes de Madison County, voltei a ouvir Clint Eastwood dizer que não concretizou nenhum dos sonhos que teve, mas ainda bem que os teve. Disse aquilo com um sorriso no rosto, um sorriso algo embaraçado, sem saber onde meter as palavras como um homem que não sabe onde colocar as mãos.
Temo vir a sentir algo parecido quando, daqui a uns anos, vier a afirmar com o mesmo constrangimento que não concretizei nenhum dos sonhos que não tive. E jamais saberei se teria sido preferível passar pela vida perseguindo sonhos irrealizáveis.
sábado, 8 de janeiro de 2011
DEPÓSITO LEGAL
O ano já tem depósito legal: uma tempestade de pássaros mortos. Só me ocorre pensar na forte possibilidade de estarmos a sofrer neste momento uma inexplicável metamorfose. Acredito que o ser humano está a transformar-se num desumidificador, ou seja, num espremedor do ar. E é isso que anda a provocar a tempestade de pássaros mortos que vai caindo do céu.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
PORTO SEM ABRIGO
Olho para o meu cão e penso o quão bem representa o povo português. Também podia pensar que já tenho o NIB para pagar à Trama a última compra de 2010: As Anotações de Malte Laurids Brigge e Die Aufzeichnungen Des Malte Laurids Brigge. Ah, pois é, isto agora vai ser um vê se te avias de citações em alemão. Porém, não nos distraiamos. Voltemos ao cão. Anda mal da próstata, não contém o pingo, precisa urgentemente de passar a usar fralda, tem os dentes podres, provavelmente está diabético, ainda não cegou mas confunde amiúde pantufas com cadelas. Assim anda o povo português, o mesmo que trouxe pelos suspensórios, durante 50 anos, uma ditadura ensimesmada e tristemente enfadonha (há delas que são uma alegria), o mesmo que ofereceu 10 anos de governo a um queixo calçadeira cuja maior virtude é não ler jornais, um indivíduo que raramente se engana e tem dúvidas excepto quando as dúvidas que tem são os desenganos que não assume, aprestando-se agora a consolidar no poleiro o seu cacarejo seco de galo sem crista. Presidente mais anti-tusa seria difícil de imaginar. Esteve à frente de governos executados por gente que só não está, não esteve e não estará na choldra porque este não é um país Independente. É um país caniche que não contém o pingo, confunde pantufas com gajas, tem os dentes podres e está provavelmente diabético. Ainda assim é o lado para que durmo melhor, deixando-me muito mais amargurado do espírito aquele episódio de amor e desamor na Rua de Santa Catarina. Não sei se ouviram falar. Pelo que sei e me deram a ver, dois carochos enrolados à moda cínica em plena baixa portuense. Vai daí o povo, representado por uma loura oxigenada com o rêgo à mostra e por um troglodita similar aos que pululam nas claques de futebol, não gostou. O povo tripa com apalpões à vista desarmada, marmelanço de ver ao perto, o povo gosta de passar olhando para o lado, reparando e fazendo reparos ou fingindo que não vê, incomoda-se com a desvergonha a céu aberto das gerações perdidas de sem-abrigo. Fodido, fodido, é não ter telha nem colchão para executar o acto à moda burguesa. Mas isso ‘tá quieto. Casa é para os chulos. Quem não tem casa não acasala e não se fala mais no assunto. E o povo, colado ao monitor, vota no ditador para grande figura do século, no Zé Maria para grande amigo e num pastor de Baião ex-proprietário de um bordel para grande vencedor de uma merda qualquer. Os carochos do século XXI, provavelmente sem nunca terem ouvido falar de Crates nem de Diógenes, resolveram dar corda à bebedeira com amor sobre a calçada. Uma cidadã mais indignada que as outras achou que era assunto para resolver à chapada, acudida por um herói que se atirou de punho cerrado sobre o Casanova cambaleante. Foi amor KO. Isto indigna-me, isto amargura-me, isto incomoda-me, isto chateia-me, isto polui-me a alma. Sou pelo amor a céu aberto. Por isso, desejo todo o bem do mundo aos carochos da Rua de Santa Catarina, faço deles os meus guias espirituais para 2011, e desejo todo o mal da Rua de Santa Catarina aos pategos que os agrediram. Acho que é justo, tendo em conta as circunstâncias.
domingo, 2 de janeiro de 2011
204
Reparei agora que tenho 204 seguidores. Que me doa um dente se já tinha reparado antes. É uma cifra porreira, pá. A esses e aos outros, ficam então os votos de um bom ano de 2011.
sábado, 1 de janeiro de 2011
A DANÇA DAS FERIDAS
domingo, 26 de dezembro de 2010
A PRIMAVERA HÁ-DE CHEGAR, BANDINI
No centro das atenções está uma família, entre a qual se destaca o jovem Arturo, aqui com 14 anos. Os restantes são o pai Svevo, a mãe Maria e os dois irmãos August e Federico. Com as raízes na Itália, vivem em Rocklin, Colorado, as dificuldades da integração. São pobres, deslocados, mas orgulhosos. O narrador não poupa nas imagens que evidenciam essa pobreza. Ao primeiro parágrafo fala-nos dos «buracos nas solas das botas» do pai de família, um assentador de tijolos que gosta de beber o seu copo enquanto joga uma partida de póquer com os amigos italianos: «Estava enregelado e tinha buracos nas solas das botas. Nessa mesma manhã forrara as botas com pedaços de cartão de uma caixa de macarrão. O macarrão ainda não fora pago. Ao forrar as botas, não deixara de pensar nisso» (p. 13). Os pormenores são reveladores da prosa fria que nos espera. Não chega a John Fante dizer que as botas estavam rotas, é preciso reforçar a imagem da pobreza com uma caixa de macarrão que ainda não tinha sido pago.
Já a religiosidade de Maria Bandini, uma dona de casa remoída pelo ciúme, ocupada na educação dos três filhos, é-nos assim descrita: «Maria não precisava de livros nem revistas. Tinha o seu próprio meio de evasão, o seu caminho privado para a satisfação: o rosário» (p. 65). Na voz do narrador ecoam os sentimentos do mais rebelde dos três filhos: Arturo. Os complexos de integração perseguem-no. Preferia chamar-se John a Arturo, Jones a Bandini, preferia ser americano de gema, viver em Denver, preferia frequentar um liceu público a andar numa escola católica. Fala do pai tanto com admiração como com desprezo, fala da mãe com ternura e uma espécie de repugnância amordaçada. Há ainda Donna Toscana, a mãe de Maria, sogra de Svevo, com quem este não pode nem à distância. Uma inesperada visita da avó Donna, mulher de «língua venenosa como uma víbora», espoletará o conflito familiar sobre o qual se ergue a narrativa. No entanto, o pilar é frágil.
Muito mais interessante que as desavenças entre Svevo e Maria é a forma como Arturo vai crescendo interiormente na relação frustrada que mantém com o que o rodeia. Os melhores momentos do romance saltam da consciência de Arturo para a página. Desde logo a sua relação paradoxal com a religião. Veia herdada da mãe, a religião é no jovem Arturo uma ameaça incompreensível, fonte de inquietas reflexões e temores disparatados. O Capítulo Cinco é todo um tratado sobre as dúvidas religiosas que podem assolar um jovem da estirpe de Arturo Bandini: «Arturo Bandini estava bastante certo de que não iria para o Inferno depois de morrer. O Inferno era o destino daqueles que cometiam pecados mortais. Arturo sabia que tinha cometido muitos, mas a confissão salvava-o. Acreditava que chegaria sempre a tempo à confissão ─ ou seja, antes de morrer. E batia em madeira sempre que o assunto lhe acudia ao espírito ─ para garantir que chegaria sempre a tempo à confissão. Assim, Arturo estava bastante certo de que não iria para o Inferno depois de morrer. Por duas razões. Em primeiro lugar, a confissão; em segundo lugar, o facto de ser bastante veloz» (p. 93).
Infelizmente, parágrafos como o supracitado não abundam neste romance. Ao crescimento de Arturo, Fante prefere explorar paralelamente a relação conflituosa entre Svevo e Maria. O Natal conflituoso, cheio de provações e ausências, resvala amiúde num sentimentalismo de que o próprio narrador parece estar consciente. É como se não houvesse alternativa. O que aqui está em causa é a «linguagem da vida» (p. 176). A presença permanente da neve debaixo de solas rotas tinge o cenário e adensa o elemento essencial da obra: a esperança. No fundo, é disso que se trata quando falamos na Primavera por chegar. A esperança de que a família retome o seu curso, o pai volte a ter trabalho, a mãe volte a ser bonita, a amada ressuscite num qualquer recanto da memória, agora já não sumida no gelo, mas erguida no meio de vastos campos verdejantes, em flor. A Primavera por que Arturo anseia é um eco que ressoa sobre si próprio a vanidade da existência. Para se manter vivo, é preciso acreditar que a qualquer momento o Sol se ergue sobre o gelo e transforma a neve em água: elemento da vida. E a pergunta final só pode ser: que tipo de pecado é a esperança?
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
WORTEN SEMPRE?
domingo, 19 de dezembro de 2010
UM POEMA DE DYLAN THOMAS
HOUVE UM TEMPO
Em que época puderam os bailarinos com seus violinos
suspender os problemas nos parques infantis?
Houve um tempo em que podiam chorar sobre os livros,
mas o tempo gerou uma larva nos seus caminhos.
Estão inseguros sob o arco dos céus.
É mais seguro o que nesta vida fica por conhecer.
Sob os signos celestes aqueles que não têm armas
têm as mãos limpas, e, como o fantasma impiedoso
que sozinho fica ileso, também os cegos vêem melhor.
Dylan Thomas, versão de Was there a time, datado de Dezembro de 1935, in Collected Poems 1934-1953, Phoenix, 2000.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
CADA POVO TEM AQUILO QUE MERECE
São variadíssimas as razões para não se votar em Cavaco nas próximas eleições. Foi um primeiro-ministro medíocre a quem devemos grande parte do que temos hoje, um país desperdiçado em cursos de formação profissional inúteis, distribuição de subsídios à la carte, negociatas obscuras com bancos falidos, corruptelas ministeriais para todos os gostos, uma oligarquia burocrática, conservadora e hierárquica onde os de baixo se afogam na baba dos que estão por cima. É uma figurinha cinzenta e conservadora, um triste espírito bolorento sem o dom da palavra, um indivíduo sensaborão que só representa bem Portugal no que Portugal tem de mais português: a saloiice, a falta de cultura, o culto da mediania que subsidia tanto a manipulação e a arbitrariedade dos agiotas como a submissão e o conformismo dos paus-mandados. Há muitos tristes episódios do professor carranca no YouTube. É difícil escolher um que seja sintomático do tipo de criatura que estamos a falar. Eu gosto destes dois. Olhem para aquilo e pensem: é o Presidente da República do nosso país.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
APANHAR O COMBOIO
Nunca tal me sucedeu: começo a tropeçar num estado de auto-censura. Não sei o que se passa, mas passa-se qualquer coisa. Para mim o problema já não é se devo ou não escrever isto ou aquilo, mas como libertar-me novamente dos grilhões profissionais e domésticos que me impedem a escrita. Talvez não seja má ideia começar precisamente por aqui.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
UM ARTIGO
sábado, 11 de dezembro de 2010
REGIME DE EXCEPÇÕES
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
RESILIÊNCIA
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
DOUTOR AVALANCHE
A leitura dos contos de Rui Manuel Amaral prova-nos nada haver de fácil e gratuito na prática do conto brevíssimo. Os contos de Doutor Avalanche pressupõem um domínio de algumas técnicas narrativas que não são nada fáceis de apurar. Os mestres estão mais que identificados. É inevitável pensarmos em Nikolai Gógol quando lemos a história de um homem que, no encalço de uma orelha que lhe fugiu, deixou a língua sozinha em casa. O espírito de Franz Kafka mostra-se em situações como a do homem que «atraía todas as atenções e provocava nos outros um riso» descontrolado. Há várias fábulas que nos lembram os poemas em prosa de Russell Edson, embora o nome mais frequentemente invocado seja, sem dúvida, o de Daniil Harms. De resto, esta inevitável associação é o que menos contribui para a emancipação da prosa de Rui Manuel Amaral, a qual incorre com frequência nesse risco de um déjà vu menos apelativo. Por outro lado, haverá quem chame maturidade, ou homogeneidade discursiva, a esta repetição de processos. Seja como for, trata-se de um volume anormal no contexto literário português.
Doutor Avalanche é percorrido, ao longo dos seus quarenta e tal contos, pelo aparecimento inusitado de estrofes, grafadas em itálico, provenientes de um poema de autor italiano anónimo do século XVII. De alguma forma, o conteúdo desse poema ─ Quando gli ucceli portaranno i zoccoli ─ permite inferir a lógica que subjaz às short stories compiladas neste volume. Trata-se de uma lógica ilógica, de uma inversão de sentido que lembra Lewis Carroll. As situações insólitas vivenciadas pelas personagens de Doutor Avalanche têm a característica peculiar de refutarem a organização do mundo. Homens aparentemente banais, com profissões mais ou menos monótonas (actor, escritor, fabricante de olhos de vidro, pescador, obscuro funcionário de uma repartição ministerial…), vêem-se envolvidos em casos excepcionais: Dietrich Dhal evapora-se, Markus Grob trinca a canela da amada, certo homem «de cada vez que se via num espelho descobria em si um rosto novo e desconhecido…» (p. 45). Muitos destes casos, que recolhem manias, ironizam hábitos, representam estranhas metamorfoses, colocam o leitor numa situação de expectativa cujo desenlace raramente justifica.
Rui Manuel Amaral é exímio na arte do malogro. Usa de notas de rodapé que acrescentam vazio ao vazio das estórias, recorre ao humor e ao absurdo, por vezes ao puro nonsense leariano para desmontar chavões literários, frases feitas, clichés. Note-se o recurso desmesurado a expressões coloquiais já de si algo dúbias: «meu dito, meu feito», «o caso muda de figura», «sem tirar nem pôr», «dei de caras», «raios me partam», «força de expressão», etc. Os horríveis incidentes que povoam o seu imaginário permitem-lhe desconstruir a precisão narrativa que se impõe como definidora da suposta boa literatura. Há frases simples que definem um estilo: «Não me perguntem como é isto possível porque não saberei responder e isso não é bom para o meu prestígio de narrador omnisciente» (p. 63); «De repente, acontece uma coisa que pode parecer anormal e, de facto, é» (p. 73); «No entanto, Gerard Geldenhyus sentia-se, digamos, um pouco coiso» (p. 87). Daí que a moral a retirar destes contos não seja apenas a sugerida no remate do conto que termina a páginas 26 ─ «nem tudo no mundo tem que ter lógica ou obedecer a uma sintaxe perfeita» ─, mas também a de que as coisas têm a sua lógica e sintaxe internas (estejam estas ou não em sintonia com o resto do mundo).
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
O JOGO DAS FRUTAS
Matilde: nasce nas árvores.
Mãe: de que cor é?
Matilde: castanha.
Mãe: é fruto seco?
Matilde: sim.
Mãe: é a noz.
Matilde: boa, acertaste. Agora é a Beatriz.
Mãe: de que cor é?
Beatriz: vermelha.
Mãe: nasce nas árvores ou vem da terra?
Beatriz: nasce nas árvores com um papelinho colado.