terça-feira, 8 de março de 2011

Só só entre a noite e a morte
Andando no meio da eternidade
Comendo fruta no meio do vazio

A noite A morte
O morto recém-plantado no infinito
A terra vai a terra volta

Só com uma estrela pela frente
Só com um grande canto dentro e nenhuma estrela pela frente

A noite e a morte
A noite da morte
A morte da noite rondando pela morte

Tão longe tão longe
O mundo é levado pelo vento
E um cão uiva do infinito em busca da terra perdida


Vicente Huidobro
La Nación, Buenos Aires, 1932
Versão de HMBF

segunda-feira, 7 de março de 2011

HOMENS DA LUTA

Os homens da luta têm piada. Tinham mais, no início; como tudo o que se repete, o que é demais enjoa. Não há que fazer ciência acerca do fenómeno. Corremos o risco de cair no mesmo erro gerado por meteoritos humorísticos anteriores, do Herman da Última Ceia aos Gato Fedorento do Marcelo pró-vida. Não esperem milagres de quem só busca o seu pilim. Quanto a votações em concursos de TV estamos falados, o povo tanto vota no Salazar para figura portuguesa de sempre como nos Homens da Luta para palhaços do circo actual. Ainda há dias o povo podia ter dado expressão à luta votando massivamente em branco ou nulo ou no Coelho... O povo preferiu ficar em casa. É sempre assim quando o assunto é sério.

sábado, 5 de março de 2011

ERA DE FAMÍLIA

Pierre Klossowski (August 9, 1905—August 12, 2001) was a French writer, translator and artist. He was the eldest son of the artists Erich Klossowski and Baladine Klossowska, and his younger brother was the painter Balthus.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #4



De ascendência grega, Diamanda Galás tornou-se conhecida por uma voz poderosíssima colocada ao serviço de performances macabras e lúgubres. Não admira que Francis Ford Coppola a tenha convocado para uma incorporação vocal das servas do demo em Drácula de Bram Stoker. Estreada nos palcos do Inferno em 1979, foi adquirindo junto da comunidade gótica/satânica, e não só, um respeito que se justifica pela pujança impressionante dos seus exorcismos. The Litanies of Satan (1982) anunciou uma vocação poética inspirada em Baudelaire, Milton e noutras mentes perversas com ligações obscuras às forças do mal. Plague Mass, gravado ao vivo em Outubro de 1990 na Catedral de St. John The Divine, numa actuação que causou polémica e furor, encerrou um ciclo dedicado à exorcização dos temores espoletados pelo aparecimento daquela que ficou conhecida como a epidemia do séc. XX: SIDA. A letra de Were You a Witness, o primeiro tema do álbum, revela uma postura cínica, mas sólida nas suas convicções. There are no more tickets to the funeral / The funeral is crowded são versos de um cinismo atroz que dificilmente passaria despercebido. O tom de lamento desaparece sob um exercício de expugnação dos demónios, ao som de salmos e de citações bíblicas que adquirem na voz de Diamanda Galás e nos ínfimos acompanhamentos musicais que a acompanham uma intensidade dramática inquietante. Às tantas, é difícil perceber se estamos a ouvir o corpo possuído de uma mulher aos berros ou a enérgica concentração de forças de um curandeiro em transe. Há quem diga que há por ali ecos de fado e de gospel, mas eu não vou tão longe. Para mim é antes a transfiguração dramática de um processo sacrificial, se é que me faço entender. O último tema é redentor.

quinta-feira, 3 de março de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #3


Tenho para mim que nenhuma época terá sido tão agradável para as pessoas deprimidas como o início da década de 1990. Estou mesmo convencido de que por esses anos as pessoas deprimidas andaram todas muito felizes. Sustento a tese num facto inquestionável que foi a proliferação de bandas deprimentes por essa altura, bandas que faziam as delícias dos urbano-depressivos, dos ruralo-melancólicos, dos ruralo-urbano-elegíacos, etc… Para tal muito contribuiu o aparecimento de um subgénero baptizado de neo-country, colados ao qual foram fazendo carreira diversos projectos tais como Tarnation, Red House Painters, Palace (nas suas múltiplas encarnações), Mazzy Star, The Walkabouts ou mesmo Tindersticks. Nos subterrâneos desta coisada toda, aquilo que ficou para a história como sadcore (slowcore na sua variante pop). A designação não é programática, pretende apenas classificar a estrutura lentíssima, hipersensível e desconsolada das canções. Levado à letra, o sadcore está para o rock alternativo como o cansaço para a vida quotidiana. Os Low foram a versão mais radiofónica do género, mas coube aos nova-iorquinos Codeine, cuja designação revela toda uma identidade, a concretização de um dos melhores registos fonográficos nesse contexto deprimente. Melhor que este The White Birch e antes dele só mesmo os álbuns dos Galaxie 500. Uma curiosidade interessante é a participação de David Grubbs em alguns temas deste álbum, o mesmo Grubbs dos Bastro ou dos Gastr del Sol de Jim O’Rourke. Grubbs tem um álbum a solo muito porreiro intitulado Rickets & Scurvy (2002). A modos que isto anda tudo ligado e em 1994 a Sub Pop, primeira editora dos Nirvana, materializou o segundo e último álbum dos Codeine. Aqui e acolá, algumas explosões de energia não renegam o espírito geral deste disco, resumido no verso final do tema Tom: I need a reason to smile. Ei-lo:


terça-feira, 1 de março de 2011

PUBLICIDADE

Recebo na solicitação publicitária a seguinte consideração: «o blogue "Antologia do Esquecimento" é uma referência a nível nacional». Outros terão recebido o mesmo que eu. Sucede que eu fico deprimido com tais considerações. Ainda ontem, passando os olhos pelo Prós & Contras, eu só pensava por que me castigou deus nosso senhor fazendo-me cidadão português. Referência a nível nacional? Preferia apanhar gonorreia.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #2


Não tenho a certeza, mas julgo ter sido o Paulo Kellerman quem me falou deles pela primeira vez. São noruegueses e surgiram em 1992, no mesmo ano em que eu migrei para Lisboa à procura de me enforcar durante uma aula de Axiologia e Ética. Felizmente escapei ileso, tive o bom senso de faltar às aulas. Geir Jenssen, o homem por detrás da cortina, tocou com os Bel Canto e manteve projectos que raramente emergiram da obscuridade. A influência de Brian Eno é a mais evidente, mas como Biosphere Jenssen conseguiu uma identidade rara em projectos de música electrónica. Diria que os Biosphere estão para a música electrónica como Steve Reich para o minimalismo. Isto é uma coisa parva de ser dita, mas não me ocorre comparação alternativa. Shenzhou, o álbum de 2002, parte da música de Debussy para construir algo verdadeiramente hipnótico. As paisagens são ao mesmo tempo, e numa mesma escala, terríficas e serenas. É uma estranheza passível de ser sentida se acompanharmos um licor de castanhas com tostas imbuídas em azeite virgem. Aqui e acolá, ligeiríssimas variações sobre lençóis de música estática e repetitiva lembram-nos experiências tão enriquecedoras como um seixo deslizando sobre as águas de uma lagoa, uma pena de pombo levantada pela brisa, o vídeo da dança do saco de plástico em American Beauty. Às vezes, ao ouvir Shenzhou, lembro-me da poesia chinesa e da sua agradável monotonia. Mas depois o verde dos campos e o branco da neve transformam-se em barro e do barro surdem escorpiões sonâmbulos que espetam os ferrões em si próprios só para aquietarem os corações desassossegados. Deixo um pitéu de entrada:


domingo, 27 de fevereiro de 2011

LAGOA DE ÓBIDOS

Estou demasiado colado às imagens de Herta Müller para que as palavras me façam justiça. Finto as imagens com outras imagens, concretas, irreproduzíveis mesmo em opção panorâmica. Por dentro, as imagens boiam sobre o sangue como os patos bravos sobre as águas escuras da lagoa. Há pescadores nas margens que dão banho aos iscos. Trazem os cães, enrolam cigarros, bebem umas cervejas com o tempo a pôr-se em lugar expectável. As filhas aprendem a saltar à corda, eu faço a digestão ao polvo deitado em batata-doce com salada de beringela.

Arrumei as canas que não tenho no armário das intenções adiadas, mesmo ao lado de uma cabeça que me dói e de um coração ferido pelo orgulho. Uma antiga namorada, coisa de 20 anos, (re)descobre-me e sugere conversa. Na última vez que me lembro de a ter visto olhou para o lado. Foi há tanto que já nem me lembrava. Agora tenho ali o caminho à minha espera, vai dar à foz. Mesmo voltando para trás, com o livro da Herta Müller debaixo do braço, é para a frente que olho. Um dia, podes ter a certeza, hei-de aprender a ser feliz.

REALPOLITIK

Camarada Van Zeller, o amigo Khadafi anda metido em maus lençóis. Vai daí, assiste-se em Portugal a uma acentuada precipitação de fotografias do líbio ao lado de puros sangue lusitanos. Sem que nos seja perceptível quem monta quem nos apertos de mão da chamada realpolitik, ficámos curiosos. A quem não terá Khadafi apertado a mão nestes anos todos de poder? A Mandela? A Chávez? A Lula? A Obama? A Sarkozy? A Putin? A Berlusconi? A Castro? A Blair? É ir às imagens do google e tentar a má sorte. Facilmente se verificará que um camelo nunca está só.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A CIDADE LONGÍNQUA

Também com tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, A Cidade Longínqua é a segunda aposta da Ovni num poeta catalão. A primeira foi em Casa da Misericórdia, de Joan Margarit. Màrius Torres (1910-1942) nasceu em Lleida. O pai era médico de profissão, embora tenha ocupado diversos cargos políticos. A mãe, professora, faleceu em Março de 1928, quando o poeta era ainda um jovem. Màrius seguiu as pegadas do pai e acabou por se formar em medicina. Realizado o doutoramento em Madrid, regressou a Lleida e contraiu tuberculose. Internado no sanatório de Puig d’Olena, resolveu então ocupar parte do tempo que lhe restava a escrever poemas. Deixou-nos uma obra breve, intensa, que apenas veria a luz do dia 5 anos passados sobre a sua morte. No prólogo, os tradutores desta antologia delimitam os «eixos que percorrem o conjunto da sua obra: a morte, a guerra, o amor, a música e a espiritualidade». Tendo os poemas nascido num ambiente fatídico, não é de admirar que aparentem frequentemente uma consciência lúgubre da vida: «Tenho preguiça de ainda viver amanhã… / Mais do que a dor sofrida, magoa-me / a dor que se prepara, a dor que me espera…» (p. 27). A morte acaba por ser o tema essencial, aqui e acolá adiado por delicadas evocações de Händell, Mozart, Corelli, Schumann e Couperin. A música surge então como uma arte à qual se ligam as palavras. Metáfora da própria existência, ela acompanha os derradeiros gestos como banda sonora de um peito carregado de angústias e incerteza, mas também como motivo de reflexão e auto-exame: «Sou tantas vezes como uma corda bamba e vencida / que vibra mal! / Com um ritmo pesado, embaraçoso e lento, / átona, corrompida, / corda desafinada, a minha alma mente. / Quantas vezes a quis muda / para não ouvir a música falsa do seu tom!» (p. 31). Vários poetas são citados: Milton, Baudelaire, Blake, Musset, Pascoaes, Joan Sales. E é nestes diálogos que, muitas vezes, os poemas de Màrius Torres realizam uma autópsia das debilidades humanas. Veja-se, a título de exemplo, este soneto que tem por mote um verso de Alfred de Musset:


Eu disse ao meu coração, ao meu pobre coração:
─ Não tens vergonha da tua fraqueza?
A glória, o amor, a pândega, o ouro,
não saberão tentar a tua preguiça?

Eu disse ao meu coração, ao meu pobre coração:
─ Odeia, fere, embriaga-te, beija,
bate mais forte, grande cobarde, ou morre
para sempre de desgosto e tristeza.

Ou talvez já estejas morto, tu, que nem sabes o que vale
o canto de um alaúde, o estouro de um punhal,
uma clara noite, uma rosa terna?

E o meu pobre coração, o meu coração disse-me:
─ Para quê dar mais cinzas ao esquecimento?
E, velho, sorriu-me, sem perceber nada
.

Portanto, o que eventualmente pudesse existir de lírico, romântico ou mesmo simbólico nestes poemas é adulterado por uma reflexividade implacável acerca das determinações a que a existência de um ser humano se vê reduzida nos limites da vida. Mesmo quando se aventuram pelos caminhos do amor, como acontece nas magníficas Canções a Mahalta, dedicados a Mercé Figueres, a companhia mais presente na vida de Màrius Torres durante a estadia no sanatório de Puig d’Olena, os versos revelam uma espiritualidade ambígua, nublada, como uma espécie de pressentimento do olvido a que está condenada toda e qualquer existência. Entre outros, sobressai mais este soneto, forma a que o poeta recorreu frequentemente com inegável mestria:

PRESENÇA

Como se as tuas mãos sobre os meus olhos ainda
pudessem, como antes, deter-se com amor,
gosto de fechar os olhos quando penso em ti. Sonora,
a tua lembrança move-se na penumbra clara…

Volto a ouvir os teus passos lá longe, na luz.
Meço, em tom e ritmo, a distância.
Agora, deténs-te perto. Aspiro, rosa rançosa,
uma rajada ardente do teu antigo perfume!

As lembranças, os sentidos, toda a minha vida,
calam-se perante a angústia vigilante do ouvido
que te persegue no silêncio onde te recolhes.

Se agora esticasse os braços na escuridão, ainda
poderia amparar-te, sonho de cada dia.
Mas já não estarás aqui quando eu voltar a abrir os olhos
.

O que nos remete para uma invocação da mãe perdida termina em reflexão sobre a natureza do estar. Esta presença ausente, aplicável a várias circunstâncias e materialmente indefinível, é a matéria da própria memória, assim como, ao fim e ao cabo, o alimento do esquecimento a que todos estão irremediavelmente destinados. A espiritualidade que emana desta poesia tem a tristeza e o encanto do condenado, sugere uma ambivalência que ora pende para uma esperança repleta de dúvidas, ora se inclina para a saudade do nunca vivido: «Gosto tanto da minha saudade, / que, se ao país que choro, / um anjo me quisesse guiar repentinamente, / diria ao anjo: espera, espera um momento, / agora não posso ir, não vês que estou a morrer?» (p. 147) Eventuais ecos de Pascoaes com a saudade pronunciada em catalão: enyorament (um enamoramento melancólico?).
O Huidobro disse: é preciso mudar o céu de lugar.
A Beatriz retorquiu: este chão está estragado.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

UMA METÁFORA



Por outro lado, há uma metáfora curiosa no filme. O início da trama dá-se com uma descoberta macabra, um coração humano a entupir uma sanita. No final, Okwe e Senay despedem-se dizendo um ao outro, em silêncio e à distância, que se amam. É como se tivessem recuperado os corações que lhes haviam transplantado. De um modo metafórico, claro está, mas muito realista.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

ESTRANHOS DE PASSAGEM


Dirty Pretty Things tem um problema que é fatal em muitos filmes, a superficialidade com que uma grande dispersão de temas complexos se cruzam sem que daí possa retirar-se algo de verdadeiramente perturbador. Imigração ilegal, tráfico de órgãos humanos, conflitos inter-raciais, exploração de trabalho clandestino são assuntos demasiado pesados para um objecto tão frágil como o filme de Stephen Frears. Longe da comovente sobriedade de The Van, este filme apenas ganha algum interesse quando a relação entre os protagonistas, uma imigrante turca interpretada pela francesa Audrey Tautou e um imigrante nigeriano, se revela inviável não por culpa das contingências sócio-culturais das personagens mas pelo passado que persegue uma delas. Se o filme aponta constantemente para um futuro onírico dificilmente concretizável, a realidade mostra-se muito mais dura quando o presente se vê barrado pela inexorabilidade do passado. No final resta a imagem de uma Londres degradante e inóspita.

TESÃO DE MIJO AO CUBO

1. Os entusiastas das revoluções no mundo árabe fartam-se de fazer comparações com Portugal. Nos blogues. Nas ruas não os vejo.



2. Isto há-de chegar cá, dizem-me. Penso logo em Teixeira de Pascoaes e no nosso eterno sebastianismo. Sucede que D. Sebastião não há e Passos Coelho é mais do mesmo.


3. Acabei de ouvir um cidadão anónimo afirmar que começa a acontecer por cá o que vai acontecendo pelo mundo árabe. E deu como exemplo os confrontos de ontem entre uma claque de futebol e a polícia. Portanto, podem os historiadores registar os factos: a revolução começou no Alvalade XXI e os revolucionários são um bando de energúmenos vestidos de verde e armados com cadeiras que desconfiam que o Bahrein seja um avançado turco, o Iémen a moeda marroquina e a Líbia um bairro em Chelas.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

PAIXÃO E MORTE

Senhor, hoje é o aniversário da tua morte.
Há mil novecentos e vinte e seis anos estavas tu numa cruz
Sobre uma colina repleta de gente.
Entre o céu e a terra os teus olhos eram toda a luz.
Gota a gota sangraste sobre a história.
Desde então um rubro regato atravessa os séculos regando a nossa memória.

As horas passaram diante da ombreira extra-humana.
O tempo ficou cravado com os teus pés e as tuas mãos.

Aqueles martelos ainda ressoam,
Como se alguém batesse às portas da vida.

Senhor, perdoa-me se te falo numa língua profana,
Mas de outro modo não poderia falar-te pois sou essencialmente pagão.

Se por acaso fores Deus, venho a pedir-te uma coisa
Em versos rimados com cansaços de prosa.

Há no mundo uma mulher, quiçá a mais triste, sem dúvida a mais bela,
Protege-a, Senhor, sem vacilar; é ela.

E se realmente fores Deus e puderes mais que o meu amor,
Ajuda-me a guardá-la de todos os perigos, Senhor.

Senhor, estou a ver-te com os braços abertos.
Quiseras abraçar todos os homens e todo o universo.

Senhor, quando dobraste a tua cabeça sobre a eternidade
As pessoas não sabiam se era dos teus olhos que brotava a obscuridade.

As estrelas desapareceram uma a uma em silêncio
E a lua não tinha como esconder-se atrás dos outeiros

Rasgaram-se as cortinas do céu
Quando a voar tua alma passou

E eu sei o que então se viu; não foi uma estrela,
Senhor; foi a cara mais bela,
A mesma que agora mesmo verias
Se rasgasses a carne do meu peito.

Como tu, Senhor, tenho os braços abertos esperando por ela.
Assim lho prometi e me cansam tantos séculos de espera.

Caem-me os braços sobre a terra como crucifixos partidos.
Não poderias, Senhor, adiantar a hora?

Senhor, na noite do teu céu passou um meteorito
Levando um seu voto e o seu olhar até ao fundo do infinito.
Até ao fim dos séculos continuará rodando nosso anseio ali escrito.

Senhor, agora estou doente de verdade
Uma insuportável angústia mastiga-me o peito.
E esse meteorito assinala-me o caminho.
As nossas vidas amarrou num só destino.
Entrelaçou-nos a alma melhor que uma qualquer aliança.

Senhor, ela é débil e ténue como um ramo de soluços.
Olhá-la é uma vertigem de estrelas no fundo de um poço.

Os rouxinóis do delírio cantavam nos seus beijos,
Enchia-se de febre o tubo dos ossos.

Alguém plantou na sua alma vis ervas de dúvida e já não crê em mim.
Prova-me que és Deus e no máximo em três dias leva-me daqui.

Quero evadir-me de mim mesmo.
O meu espírito está cego e rodopia entre planetas cheios de cataclismos.

Também a minha vida sangra sobre a neve,
Como um lobo ferido que faz a noite tremer cada vez que se move.

Estou crucificado sobre todos os morros.
Uma coroa de espinhos crava-me o coração.

As lanças dos seus olhos ferem-me as costelas
E um ribeiro de sangue sobre o silêncio dir-te-á que passei.

Faz agora uns quantos meses, Senhor, abandonei a minha velha Paris,
Um estranho destino trazia-me a sofrer no meu país.

Faz frio, faz frio. O vento empurra o frio sobre os nossos caminhos
E os astros enrolam a noite girando como moinhos.

Senhor, pensa nos pobres imigrantes que vieram até à América de ouro
E encontraram um sepulcro em vez de caixas de tesouros.

Eles impregnam as ondas com o ritmo dos seus cantares.
A tempestade das suas almas é mais horrível que a de todos os mares.

Vê como choram pelos seres que não mais verão;
Gritam-lhes na noite todas as coisas que para trás deixaram.

Senhor, pensa nas pobrezitas que sofrem ao humilhar a carne,
As novas Madalenas que hoje choram a dor da tua madre.

Agachadas ao fundo da angústia da sua absurda Babel,
Bebem lentamente grandes copos de fel.

Senhor, pensa nas espirais dos naufrágios anónimos,
Nos sonhos truncados que se quebram em pedaços de asteróide.

Pensa nos cegos com as pálpebras cheias de música, choram pelos olhos do seu violino.
Eles esfregam os seus arcos sobre a vida numa amargura sem fim.

Senhor, vi-te sangrando nos vitrais de Chartres
Como mil borboletas que fazem os sonhos partir.

Senhor, em Veneza vi o teu roso bizantino
Num dia em que o ar se rompia de beijos e vinho.

As gôndolas passavam cantando como ninhos
Entre ramos de ondas, levando o nosso sorriso até ao Lido.

E tu ficavas sozinho em São Marcos, aspirando as selvas de orações
Que crescem a teus pés em todas as estações.

Senhor, vi-te num ícone, obra de um monge sérvio que ao pintar os teus espinhos
Sentia a alma repleta de andorinhas.

Que significas tu na história do mundo?
Há ano e meio discuti este tema num café de Moscovo.

Um sábio russo não te dava grande importância.
Eu dizia ter acreditado em ti durante a infância.

Uma bailarina célebre pela sua beleza
Dizia que tu és somente um conto de tristeza.

Todos te negaram e não consta que um galo tenha cantado.
Talvez Pedro, escutando-nos, tenha chorado.

E ao fundo de uma velha Bíblia o teu sermão da montanha
Continuava ressoando de uma maneira estranha.

Senhor, também eu tenho uma vida dolorosa, minhas recaídas e minha paixão;
Saltando meridianos como um tigre ferido, sangra e uiva o meu coração.

Reina o amor em todas as suas esplêndidas catástrofes internas,
Mil rubis trovejam no fundo do cérebro
E as plantas do desejo bordam o ar destas noites eternas.

Poeta, poeta escravo de aventuras e de algum sortilégio,
Como tu suporto a vida, o maior sacrilégio.

Senhor, a única coisa que vale na vida é a paixão.
Vivemos para um ou outro momento de exaltação.

Abre-se a meus pés um precipício de suspiros; detenho-me e vacilo.
Logo como um sonâmbulo atravesso o mundo em equilíbrio.

Senhor, que te importa o que digam os homens. Ao fundo da história
És um crepúsculo pregado a um madeiro de dor e de glória.

E o regato de sangue que brotou das tuas costelas
Ainda, Senhor, não foi estancado.


Vicente Huidobro, poema publicado originalmente na primeira página de La Nación (Santiago de Chile, 2 de Abril de 1926). Versão caseira do HMBF.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

BIBLIOTECA PÚBLICA DE LA CIENEGA


Descobri a Biblioteca Pública de La Cienega. Arranjei um cartão. A biblioteca ficava perto da velha igreja da West Adams. Era uma biblioteca muito pequena e só tinha uma bibliotecária. Ela tinha estilo. Tinha perto de 38 anos mas com um cabelo do mais puro branco puxado para trás e preso num totó. O nariz era esguio, tinha olhos verdes profundos e usava óculos sem aros. Parecia que conhecia tudo.
Andei pela biblioteca à procura de livros. Tirei-os das estantes, um a um. Mas eram equívocos. Eram muito aborrecidos. Havia páginas e páginas que não diziam rigorosamente nada. Ou se diziam alguma coisa demoravam muito tempo a dizê-lo e quando o diziam já estava cansado para que importassem alguma coisa. Experimentei um e outro livro. Certamente que, de todos aqueles livros, tinha de existir
um.
Todos os dias eu ia até à biblioteca na Adams com a La Brea e lá estava a minha bibliotecária, inflexível e infalível e silenciosa. Continuava a tirar livros das estantes. O primeiro livro de jeito que encontrei foi de alguém chamado Upton Sinclair. As frases eram simples e falava com raiva. Ele escrevia com raiva. Escreveu sobre os matadouros de Chicago. Dizia as coisas de forma clara e sem artimanhas. Depois encontrei outro autor. Chamava-se Sinclair Lewis. E o livro chamava-se
Main Street. Ele desmontava a hipocrisia inerente às pessoas. Mas faltava-lhe paixão.
Voltei lá para buscar mais. Lia cada livro numa só noite.
Um dia andava por lá à procura, e a espreitar a minha bibliotecária, quando encontrei um livro com o título
Bow Down To Wood and Stone. Bem, aquilo é que era bom, porque era isso que andávamos todos a fazer. Finalmente, algo de jeito! Abri o livro. Era de Josephine Lawrence. Uma mulher. Não havia problema. Aprende-se com toda a gente. Abri o livro. Mas era como muitos outros: pastoso, obscuro, cansativo. Voltei a colocá-lo na estante. E enquanto a minha mão por lá andava agarrei num livro que estava perto. Era de um outro Lawrence. Abri o livro e comecei a ler. Era sobre um homem que tocava piano. Ao início parecia pretensioso. Mas continuei a ler. O homem que tocava piano tinha problemas. A sua mente dizia coisas. Coisas obscuras e curiosas. Cada linha do livro era firme, como um homem a gritar, mas não gritava «Joe, onde estás?» Era mais Joe, onde está tudo? Este Lawrence era certeiro. Nunca tinha ouvido falar dele. Porquê? Por que razão não era publicitado?
Li um livro por dia. Li todos os livros de D.H. Lawrence que havia na biblioteca. A minha bibliotecária começou a olhar para mim de uma maneira estranha enquanto eu registava os livros.
«Como estás hoje?» perguntava.
Soava sempre bem. Parecia que já tinha ido para a cama com ela. Li todos os livros de D.H. A eles seguiram-se outros. Seguiram-se H.D., a poetisa. E Huxley, o mais novo dos Huxleys, amigo de Lawrence. Vieram todos ter comigo. Um livro deu lugar a outro. Dos Passos também apareceu. Não era muito bom, mas era suficientemente bom. A sua trilogia sobre os Estados Unidos demorou mais do que um dia para ler. Dreiser não me encheu as medidas. O Sherwood Anderson, sim. E depois apareceu Hemingway. Que maravilha! Esse sim sabia como escrever uma frase. Era uma alegria. As palavras não aborreciam, punham-me a cabeça a latejar. Se o lêssemos e nos deixássemos levar pela magia, conseguiríamos viver sem dor, com esperança, acontecesse o que acontecesse.


Charles Bukowski, in Ham on Rye – Pão com Fiambre, trad. manuel a. domingos, Ulisseia, Setembro de 2010, pp. 187-189.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

HAM ON RYE

O ano que passou foi especialmente agradável para os bukowskianos. Em Abril a Antígona publicou Correios, o primeiro romance de Charles Bukowski (1920-1994), originalmente editado em 1971, com tradução de Rui Lopes e prefácio de Gerald Locklin. Em Setembro, a renovada Ulisseia lançou, com tradução de manuel a. domigos, aquele que é considerado por muitos o melhor romance do velho Buk: Ham on Rye (1982), título de tradução impraticável que a versão portuguesa acolheu num mais literal, mas porventura menos feliz, Pão com Fiambre. (Abra-se, desde já, o parêntesis: não deixa de ser irónico que uma escrita tão literal comece logo por criar problemas no título de um livro.) Se tivermos em conta que, até à data, apenas havíamos merecido em língua portuguesa um dos romances do autor, mais concretamente Mulheres (1978), vertido para português por Fernando Luís sob selo da Dom Quixote, é de saudar esta inflação de romances bukowskianos nas prateleiras das livrarias portuguesas. Apesar do eco cibernético que estas edições mereceram, a imprensa oficial, que está para os livros como o jornal A Bola para os jogos do Benfica, não fez grande caso. Salvo raríssimas excepções, uma nota de rodapé aqui, outra acolá, foi tudo o que pudemos ler de apontamento crítico sobre a primeira edição portuguesa de Ham on Rye.

Matemos, desde já, o assunto da tradução: podia estar melhor se tivesse sido acompanhada de uma revisão digna desse nome. Deixando de lado as cada vez mais frequentes e irritantes gralhas das traduções portuguesas, há opções que deixam muito a desejar. Por exemplo, a proliferação de pronomes pessoais em frases ou parágrafos que os não justificam. Sabemos que em língua inglesa eles estão lá, mas no português podem ficar implícitos tornando a escrita mais natural e libertando a leitura de solavancos desnecessários: «Ela usava uma elaborada peruca branca. Ela dava-nos reguadas frequentemente quando pensava que estávamos a ser desobedientes. Acho que ela nunca ia à casa de banho» (p. 31). Noutras ocasiões a tradução de expressões coloquiais coloca problemas de repetição igualmente evitáveis: «Era mais ou menos um ano mais velho do que eu e não era da minha escola» (p. 54). E há situações que configuram desatenções gramaticais ou de concordância que dificultam a percepção das frases: «Conseguia-o ver deitado no passeio…» (p. 250), «O vosso salário é de quarta e quatro cêntimos e meio à hora» (p. 259), «Bem, um ou dois tinham funcionado – para mim – mas pareciam que tinham sido guiados em vez de fazerem o caminho sozinhos» (p. 289).

A literalidade da escrita de Bukowski merece uma atenção redobrada. A sua prosa, tal como os seus poemas, minam-nos consecutivamente o terreno. Há uma tendência para o lermos com a pressa que o próprio ritmo da narrativa nos imprime, mas essa tendência corre o risco de resvalar para uma superficialidade que nada tem que ver com o carácter essencial do que está escrito. É muito frequente, por exemplo, vermos os livros de Charles Bukowski reduzidos a meros retratos de uma vida decadente perdida num turbilhão de aventuras com mulheres, pancadaria, álcool, jogos de azar e trafulhices várias. Em Ham on Rye, o romance que recupera os tempos de juventude do alter-ego Henry Chinaski, todo esse ambiente está afundado debaixo da opressão social característica da Grande Depressão. Deus, pátria e família, à moda americana, com esta última sentada em torno de uma mesa onde a palavra frustração adquire o peso das expectativas defraudadas e das ambições esmorecidas: «Então, é isso que eles querem: mentiras. Mentiras bonitas. É disso que precisam. As pessoas eram ridículas» (p. 101). Encontramos ao longo do romance as raízes de uma solidão enraivecida que afluiu no sentido da indiferença e da desistência social, por se tornar insuportável uma convivência com a mentira e se ansiar pela genuinidade das coisas.

Não é de estranhar que Charles Bukowski tenha ocupado tantas páginas com as ilusões da família ─ «Vínhamos todos de famílias vítimas da Depressão, estávamos mal alimentados, mas mesmo assim tínhamos crescido e ficado fortes. Penso que a maioria era pouco acarinhada pela família, mas também não pedíamos carinho ou mimo a ninguém. Éramos uma anedota mas as pessoas pensavam duas vezes antes de se rirem de nós» (p. 112) ─ e a inutilidade da instituição escolar. O que aqui se revela é uma emergência para a ruptura com essas instituições, ao mesmo tempo que se afirma um repúdio para com as vidas entediantes da maioria e a mais completa incompetência para a adaptação social. Quando olha para si próprio, aquilo que o jovem Chinaski vê oscila entre uma necessidade de afirmação e a mais brutal das constatações. Nesta prosa, «as tripas cheias de merda», a acne, a hilaridade com que as situações mais abjectas nos são relatadas, não busca a mínima complacência humorística do leitor, são provas factuais da debilidade essencial dos homens. Daí que a grande surpresa seja um «gajo tão grande a chorar», porque nesse gesto de deixar as lágrimas romperem os músculos está a essência da humanidade. É nestes aspectos a seu modo ontológicos que a prosa de Charles Bukowski adquire a dimensão dos grandes, os mesmos que ele ia procurar na Biblioteca e aos quais se agarrou como um náufrago agarrando-se a uma tábua de madeira. O sexo, o álcool, a literatura são os bálsamos hedonistas que afastam do desistente a ideia do suicídio, transformando-o, pois claro, num resistente.
Escrito para o Rascunho.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

ANOTHER YEAR



Se me fizessem a mais estúpida das perguntas, ou seja, sobre o que trata o último filme de Mike Leigh, eu diria que é sobre a arte de saber envelhecer, um pouco como o vinho que aparece recorrentemente ao longo da fita. Mike Leigh é, na actualidade, o único cineasta que não me obriga a hesitar perante três salas com três filmes promissores. Foi chegar, ver e sair satisfeito. Another Year retoma-o no seu melhor, depois de um comovente Vera Drake, de um irritante Topsy-Turvy, de um suportável Career Girls, de um genial Secrets & Lies e de uma coisa do outro mundo chamada Naked. O que há de tramado num filme como Another Year é deixar-nos a pensar sobre a nossa própria vida enquanto não nos abandonam os planos das personagens colocadas a olhar para o vazio. O vazio para onde olham as personagens, na sua angustiante solidão, no seu terrível abandono, é o mesmo com que nos deparamos sempre que contemplamos um calendário e nos interrogamos sobre o que fazemos no mundo. Uma narrativa aparentemente simples, dividida em capítulos que obedecem à sequência das estações (nada de novo), mostra-nos a felicidade de um casal na sua quotidiana e admirável banalidade. Há algo de especial neste casal: a paciência, a compaixão, a disponibilidade para a família e para os amigos. A questão da disponibilidade é tão importante quão evidente se torna o desespero da mais neurótica das personagens, uma amiga de Tom e Gerri, o casal no centro da trama, mulher maltratada por relações amorosas falidas. Para esta criatura, ter com quem falar não é tão importante como encontrar quem deseje confessar-se-lhe. O seu anseio não é por um ouvido, é por uma boca que dê sentido aos seus ouvidos. Ela quer ser a confidente de alguém e é nessa falta que a sua solidão se afirma. No fundo, o drama encenado ao longo do filme é precisamente o drama daqueles cuja maior necessidade é sentirem-se, digamos assim, úteis, importantes para alguém, desejados. Claro está que em nenhuma circunstância as estruturas depressivas dos intervenientes ameaçam o equilíbrio da história. São raros os filmes que não contando história alguma nos contam a vida toda, este é um deles. E fá-lo com um sentido irrepreensível do ponto de vista da encenação, colocando no tempo certo cada uma das intervenções, fazendo das imagens os frutos, os legumes colhidos no horto metafórico que vai acompanhando o passar das estações. O cuidado colocado na horta amanhada ao longo de várias cenas assemelha-se ao cuidado que a família central da narrativa, o pilar sustentador do desaire, coloca nos seus relacionamentos. Um cuidado que se espera ser o essencial da vida mas que, por esta e por aquela razões, termina quase sempre, na imensa maioria das vidas deste mundo, negligenciado em função de afazeres supostamente mais urgentes.

CADA QUAL SABE DE SI

Camarada Van Zeller, há muito que o não vejo. Eu próprio tenho andado arredado, mas, confesso-lhe, não menos atento. O trabalho atira-nos para dentro de um caixa, a gente contorce-se no exíguo espaço, estende os músculos a ver se rasga o cartão e, aqui e acolá, consegue espreitar o mundo por uma brecha.
Vou assistindo à revolução no Egipto sem esperança. É de feitio. A um crápula outro crápula se seguirá, a história no-lo ensina. Mas por vezes fazemos orelhas moucas, fingimos que não sabemos, assobiamos para o lado e cedemos o truque. Gosto disso.
Deu-se conta da velhota inglesa que afugentou os meliantes com uma mala de tiracolo? Aquilo sim, é uma verdadeira revolução. Uma revolução de segundo e meio, à luz do dia, em plena esquina. Vieram-me à memória as aventuras do Duarte e da sua companhia, vieram-me aos olhos lágrimas de comoção. Gostava de ser novo com aquela velhice.
Também não compreendo a consternação perante a morte solitária da idosa de Rinchoa. Por mim, santa morte. Ninguém deu por nada. Nove anos passaram e foi como se não existisse. Maravilha. Às vezes gostava de viver como a velha morreu. E espero que a morte me leve deste insuportável mundo onde até para morrer se anseiam dois ou três holofotes de coroas de flores e filas de trânsito.
Que mais lhe posso eu dizer? Grande debate em torno de uma vulgar canção. Já não me lembrava de tal coisa desde Talvez Foder, o que até me parece bem mas não auspicia nada de sadio. Deolinda, como tantos outros projectos que resolveram levar ao altar José Afonso e Hermínia Silva na Igreja da Madredeus ao som da chanson française, não me aquecem e, por vezes, até me arrefecem. A minha música é outra.
Olhe, deixo-lhe um cheirinho: aqui e acolá, que isto de andar a estudar para ser escravo nunca há-de ser tão, digamos assim, comovente como ter sido génio para andar a vadiar. É só ver.
Saúde,

sábado, 5 de fevereiro de 2011

NÃO PENSES LÁ COISAS

Pai: Gostas de mim?
Beatriz, 4 anos: Gosto.
Pai: Dás-me um beijo.
Beatriz: Dou. A miúdos lá da minha escola com barba não dou.

K3

Não sei se foi no próprio Wittgenstein, se no filme que Derek Jarman lhe dedicou, que um dia vi a experiência da guerra declarada como a única verdadeiramente elucidativa do sentido da vida. É provável que assim seja. Tratando-se de uma experiência que nos coloca no centro de uma situação-limite, a guerra apresenta-nos ao que enforma a existência do homem: do medo à esperança, passando pelo sentimento da insignificância que em tudo medra. A consciência de que o que existe pode, de um momento para o outro, desaparecer sem deixar rastro é, pois, a consciência da vida tal como ela é. Assim sendo, não admira que algumas das melhores obras literárias, cinematográficas, pictóricas que a história consagrou tenham a guerra como cenário ou objecto de reflexão. A poesia não escapa. Agora que se comemoram, salvo seja, 50 anos sobre o começo da guerra colonial portuguesa, voltamos a ter em verso ecos dessa experiência traumática. Para além dos poemas que Fernando Assis Pacheco consagrou ao tema, e que para mim continuam a ser os melhores, não há nada que se compare, no plano nacional, a K3 (&etc., Janeiro de 2011), o mais recente livro de Nuno Dempster.

Poema longo, na linha formal do anterior Londres, também ele vindo a lume com o selo da &etc., K3 vai aos confins da memória colher a matéria de que é feito. Ecos, evocações, dúbias ocorrências, lembranças, recordações, moldam uma epopeia que se nega a si própria por nada no que nela é relatado ser digno de orgulho heróico. De algum modo a viagem que parte da Estação Marítima de Alcântara nos questiona sobre a própria natureza da poesia e suas fragilidades quando confrontada com os relances da vida. Afinal, a poesia ainda é possível. Nuno Dempster sabe que «os versos serão sempre / mais do que os mortos / e têm vida curta» (p. 7), mas nem por isso lhes nega o sangue que tendo por destino um esquecimento incerto pode servir para, reavivando o passado, melhor entendermos o presente. A História Trágico-Marítima que este poema esconjura é a de toda uma geração de náufragos que, ora ficando por terra, ora perecendo afogados numa incurável amargura, se viram privados de uma juventude confortavelmente instalada como aquela que as últimas décadas souberam alimentar.

Nalguns momentos os versos parecem pretender exorcismar os traumas que se foram mantendo colados ao corpo, noutros vem à tona um desassossego político e histórico que tende a questionar motivos sem encontrar desculpas ou justificações: «Estou certo de que muitos / deveriam julgar possível / manter a antiga rota dos escravos, / e os limites traçados por Afonso V. // Daí que houvesse gente a quem a morte, / saída das rajadas de G3, / era a forma de ser destino útil, / sem que o olhar hesitasse / e, menos, se quedasse pensativo, // fiel ao rei, à pátria, ao povo, palavras que não dizem anda, / surgem de altifalantes anacrónicos, cujo som se confunde em uma ideia nula» (p. 21). Nada disto morreu, vai reforçando o poema enquanto nos introduz aos subterrâneos do K3, um bunker situado na Guiné, hoje devorado pela selva e ruinosa representação da miséria semeada pela guerra.

Tratando-se de um poema evocativo com uma experiência traumática em pano de fundo, o que mais acaba por impressionar é a heterodoxia do discurso: «Deve dizer-se aos místicos / e àqueles que acreditam / em destinos supremos / que o chão da humanidade / é um palimpsesto de esperma e sangue, / com pegadas em volta / da cama das mulheres em tempo de guerra, // como em redor da esteira / de Djariato, / numa palhota de há mil anos, / uma era tão diversa, // os soldados nos anos do poema, / a desejar-lhe o belo tronco nu, / os seios empinados, / o ventre liso, / a tanga que caísse» (pp. 34-35). No entanto, Dempster contém-se nas imagens, não se perde por realizações sensacionalistas e gratuitamente provocatórias, deixa os cheiros virem à tona, ilustra a solidão, reaviva os sons do pesadelo sem nos impor, o que é o mais difícil, a pornografia dos corpos trucidados, das violações, da insanidade típica destes teatros abjectos de matança. O que se busca, muitos anos depois da experiência vivida, é sossego e paz para um cansaço transportado ao longo dos anos, é aliviar o peso da lembrança. Daí que a conclusão, se assim lhe podemos chamar, não pudesse ser outra: «Voltar ou não voltar, // morrer ou não morrer, tanto fazia» (p. 63).
Escrito para o Rascunho,

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

EMPAREDADA

Natural de Aveiro, onde nasceu em 1979, Joana Serrado publicou o primeiro livro em 2006. Tratado de Botânica (Quasi Edições) merecera uma menção honrosa no Prémio de Poesia Daniel Faria. Livro complexo, denotava um lirismo com vontade de escavar as palavras até à raiz no intuito de satisfazer uma inegável curiosidade pelo poder das imagens. Emparedada / Uit de muur, publicado em 2009, retomou a cultura de uma poesia despreocupadamente só no contexto daquilo que é mais visível entre nós. O barroquismo formal deste livro contrasta com a hegemónica sobriedade da poesia portuguesa dos últimos 15 anos. Publicado em Groningen, cidade neerlandesa para onde a autora foi viver em 2005 na busca de um doutoramento sobre Joana de Jesus, este livro tem, desde logo, a curiosidade de ser bilingue, o que se revela assaz coerente se tivermos em conta os problemas que levanta. Um desses problemas é, claramente, o problema da comunicação. E com ele o das palavras, matéria ambígua com a qual o tradutor (ou o poeta), figura omnipresente neste livro, tem de trabalhar. «Um tradutor deve ser duplo», diz-se no poema inaugural: Uma língua a arder. A condição surge sob a forma imperativa, a duplicidade do tradutor será o garante da (boa) tradução. O desafio é o de pensarmos para lá dos limites da linguagem, como se fosse possível pensar para lá da linguagem. Talvez se encontre aqui escondida uma noção de poesia que importa sublinhar, a poesia como um pensar para lá da linguagem. Trata-se de uma noção distante das escolas que vêm vigorando entre nós, uma distância que não podemos julgar senão voluntária: «Em Portugal é assim. Deus está longe das cabras: não traduz poemas, não pode doar o que exerce. Imagina, ganha nome. Quem esperaria dele que trabalhasse o céu ou devastasse as alimárias?» Os poemas de Emparedada sugerem-nos, então, a afirmação de um não-lugar, fazem da língua a raiz do problema, vão à fonte para daí nos chegarem estilhaçados, vão à raiz achar justificação para o desenraizamento. Sobre eles pesa o cimento de duas línguas: «Como os meus passos se afastam dos teus passos, correndo para longe, longe, / esperando que o mundo seja realmente redondo, e não plano, / e possa, um dia, chegar às tuas costas, tapar os teus olhos e dizer-te / mijn thuisland is niet meer mijn taal». Ou seja: a minha pátria já não é a minha língua. O remate do livro, oferecido em latim, prova o trabalho arqueológico que subjaz à intenção anunciada: «fazer uma casa / de raízes estranhas», «reclamar a minha nova Língua». Não deixa de ser, ao mesmo tempo, um trabalho ambicioso e ousado.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Ainda duas palavras, meus amigos, antes de terminar: vãs são nossas lutas e nossas discussões, vã a fosforescência das nossas espadas e das nossas palavras. Só o caixão tem razão. A vitória é do cemitério.Vicente Huidobro

GAIVOTAS




Fim de tarde com Huidobro por companhia: el pájaro pondrá su huevo sobre el porvenir. E a cada pegada arrancamos um pouco de futuro, arrastando pela areia mais algumas horas mortas dos nossos repetidos dias. Já nos bolsos trazemos a lareira ateada, o canto das mulheres afegãs a ecoar à distância, talvez um filme a lembrar-nos de como andamos todos a imitar as nossas próprias vidas. Enfim: se as gaivotas, todas voltadas para a ilha que ao fundo ainda espreita, levantam voo em sintonia, quem somos nós para reclamar da desordem com que a noite chega?

sábado, 29 de janeiro de 2011

VEM NO ÍPSILON

O último Verão que Eva Gabrielsson passou com o seu companheiro, o escritor sueco Stieg Larsson, foi diferente dos outros. Finalmente, o casal tinha tempo um para o outro. Stieg assinara o contrato para a publicação de três livros da série "Millennium" e estava feliz. Nessas férias os dois visitaram amigos e alugaram uma cabana no arquipélago de Estocolmo. No final do mês de Agosto, em que Stieg fez 50 anos, o escritor disse timidamente à arquitecta com quem vivia há 32 anos: "E se nos casássemos agora?" Combinaram então que, no Outono, fariam uma festa para comemorarem os 50 anos. Chamariam os amigos e, no final, revelariam que se tratava da festa de casamento. "Desde uma viagem que fizemos a Lisboa, em 2001, guardávamos para a festa dos nossos 50 anos uma garrafa de vinho do Porto 'Quinta Noval 1976'. Contudo não tivemos tempo, nem para o casamento, nem para a festa. Esta garrafa aparece no segundo volume de 'Millennium', no apartamento novo de Lisbeth Salander. A garrafa está agora na minha cozinha. Nunca a irei abrir, escreve Eva Gabrielsson em "Millénium - Stieg et moi"...
Isabel Coutinho

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

INSULTOS À DEMOCRACIA

Acabei de ouvir na RTPN um tipo qualquer dizer que os 4,5% do Coelho são um insulto à democracia portuguesa. Se eu fosse jornalista, perguntava-lhe o seguinte: se os votos legitimamente conseguidos por uma candidatura legítima são um insulto à democracia portuguesa, então o que é a democracia portuguesa? Não é difícil encontrar insultos à democracia portuguesa: do caso BPN ao Face Oculta, dos submarinos ao processo Portucale, da Casa Pia à Universidade Independente, das escutas aos "mantos diáfanos de fantasia" de certos e determinados trafulhas.

domingo, 23 de janeiro de 2011

DEVER CÍVICO

O inevitável aconteceu. Não vale a pena escamotear os resultados, os socialistas descontentes com a governação socrática ficaram em casa. Só se deslocaram às urnas os conservadores e aqueles para quem Cavaco simboliza o que de mais degradante há neste país. A votação do Coelho é impressionante. Os políticos que ao longo dos últimos anos vêm transformando a política numa mera luta de galos esvaziada de ideais e de verdadeiro serviço público devem pensar na votação do Coelho como um sinal da voz popular, ele foi um eco do que todos os dias se escuta pelos cafés. E devem também ponderar a abstenção como um sintoma inequívoco da desacreditação da política em Portugal.
Como é óbvio, ninguém vai pensar nem ponderar nada. A falta de vergonha é tanta e tão declarada que nem o facto de muitos portugueses terem sido impedidos de votar por um sistema de simplificação que espelha bem o que se passa no país a todos os níveis vai estimular a indignação. Eu ia sendo uma vítima desse sistema. Com o Cartão do Cidadão feito há pouco tempo, votei pela primeira vez em Caldas da Rainha. Tive de esperar por um número que após muita insistência lá foi parido por um sistema constipado. Encontraram-me uma mesa 9 onde pude exercer um direito que há muito não exercia. Outros não tiveram a mesma sorte. Desistiram. Se isto tivesse acontecido na Venezuela a conversa seria outra.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

VOTE NO POETA, VOTE COELHO




Por regra, não voto. Desagrada-me o sistema. Mas como todas as regras, também esta merece as suas excepções. Votei no referendo pela IVG. Foi a última vez. Voltarei agora à urnas, em bairro diferente, contra a HIPOCRISIA. Vai assim mesmo, em maiúsculas, que o país não está para menos. Os argumentos de Cavaco contra uma hipotética 2.ª volta são argumentos à Cavaco. Não há nada a fazer, o homem mete-me nojo. Um fdp que governou este circo durante 10 anos e nos levou à degradação actual, andou a alimentar Duartes Limas, Dias Loureiros e quejandos, promoveu um asno da estirpe de Santana a Secretário de Estado da Cultura, e agora lamenta-se da reforma de 800€ que a pobre mulher recebe todos os meses enquanto limpa o pó ao Palácio de Belém. Enrolou-se com os ladrões do BPN, não explica as trapalhadas com as escutas e Fernando Lima, preocupa-se com as taxas de juro perante a possibilidade de uma 2.ª volta. Foda-se, crápula mais crápula não pode haver. É por estas e por outras, como estas, que no Domingo lá estarei a botar voto no Coelho. Podia votar no Lopes ou no Nobre, quiçá no Alegre, mas vou votar Coelho por razões que me abstenho de justificar. Talvez baste isto: o Coelho diverte-me, merece a minha simpatia, estou com ele na acusação desinteressada da bandalheira em que a política deste país se transformou.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

SER RICO

Filha: eu queria ser rica para poder comprar vestidos maravilhosos.
Mãe: eu queria ser rica para poder andar sempre de chinelos.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

VOTO COELHO

Na falta do eterno candidato a candidato Vieira, José Manuel Coelho trouxe um agradável colorido às presidenciais. Ainda que algo previsível, é o único candidato interessante. Cavaco é um mistério, um indivíduo cinzento que a gente nunca há-de perceber como é que chegou onde chegou. O povo que temos gosta daquela coisa porque é o povo que temos. Andou a servir trafulhas durante dez anos, prepara-se para continuar a servir-se a si próprio durante mais cinco. 20 anos de Cavaco é mesmo deprimente. Pronto, certo, a Maria Cabrita precisa dele, afinal só tem 800€ de reforma. Uma pechincha.

Defensor de Moura… quem é Defensor de Moura?

Nobre é a Madre Teresa de Calcutá das presidenciais. Está na campanha para não ser como os outros fazendo exactamente o mesmo que os outros fazem: discursos insignificantes, comícios sem conteúdo, foguetes retóricos no vazio. Diz que quer marcar a diferença e a única diferença que tem para marcar é o facto de não ser apoiado por nenhum partido. E daí? A sociedade civil que temos não me merece assim tanto respeito que me leve a votar num candidato que se auto-proclama o seu.

Chico Lopes é fixe. Sacrilégio! Tenho uma teoria sobre estes tipos do Partido Comunista, é a mesma que o meu pai tem sobre os tipos do PCTP/MRPP. Só têm um problema: o serem comunistas. Tudo o que afirmam é de uma afinação diapasiana, são incapazes de proferir uma mentira, têm uma capacidade de resistência inacreditável, foram electricistas, mecânicos, agricultores mas parecem saídos das melhores universidades norte-americanas. São tipos mesmo bacanos. Mas são comunistas. E a verdade é esta: o comunismo não me inspira senão desconfiança.

Alegre é alguém que tem a mania que é. Meteu-se-lhe na cabeça que havia de ser Presidente da República. Aquilo é paranóia de poeta. Não há nenhuma consistência política nos seus discursos, o embaraço é indisfarçável tendo em conta o historial oportunista. Alegre é uma espécie de Postiga, desmarca-se bem mas a bola vai-lhe sempre ao poste. Sempre que o vejo não consigo afastar da cabeça a ideia de que se trata de alguém com meras aspirações literárias. Não tem quaisquer aspirações políticas. Aquilo é tudo sonho, como uma criança que se perde na ilusão de vir a ser: o Poeta Presidente. E por isso ficar na história. Que triste!

Resta Coelho. O Coelho tem pinta. Aposto que era o malandro da turma. Os media acham-lhe graça e não é razão para menos. O tipo é um stand-up comedian nato com um currículo que parece saído de uma obra de humor surrealista. Topem bem: Inscrito no PCP, é deputado regional pelo PND… Continua a declarar-se comunista, apesar de representar um partido de direita. Ardina do Garajau, o jornal satírico de que é director, se for eleito Presidente continuará a ter um terço do vencimento penhorado para pagar indemnizações a que foi condenado. A República precisa de um homem destes.

É CRÍTICO

O dinheiro que a televisão pública gasta com programas de merda como aquele que está agora mesmo a ser transmitido na RTP1. Um gordo alto na companhia de um gordo baixo recebem um magote de gente aos berros, gente daquela que aparece nas capas das revistas, a fingirem que estão a jogar a uma coisa qualquer. Aquilo tem audiência? Vale a pena o investimento? Acabei de reconhecer uma das bezerras de serviço, fumámos um charro juntos em São Martinho lá para os idos da década de 1990. Vejam bem no que deu a moca.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

FOME


Ainda que sob a ressalva de a ter lido sob tradução portuguesa, confesso que a prosa da norte-americana Elise Blackwell (Austin, n. 1964) não me entusiasmou particularmente. Tudo muito certinho, no devido lugar, como um exercício académico em busca da melhor avaliação. Fome vale pela história que tem para contar e pelo registo confessional que caracteriza a narrativa. Esta novela publicada em 2003 oferece-nos o relato de um homem em estado de exame de consciência. Os factos relatados remetem-nos para os tempos da II Grande Guerra, misturam história com ficção, transportam-nos da Nova Iorque actual, onde o narrador se encontra, à São Petersburgo (ou Leninegrado) da década de 1940.

É um erro acusar-se a situação confortável do narrador. O homem é um sobrevivente com a consciência em xeque, está a sós com as suas memórias, rodeado de conservas, e procura afastar os seus fantasmas com comportamentos que não podem deixar de ser julgados em função das experiências traumáticas anteriormente vividas. No epicentro das suas recordações, ergue-se como uma luz impagável a imagem de Alena, a mulher, vítima da fome que as bombas de Hitler trouxeram. É-nos fácil julgá-lo a partir das suas confissões, nomeadamente as traições amorosas, as vacilações de carácter, a menor capacidade de resistência. Mas tudo isso nos é apresentado num momento de confissão e, ainda que não nos mova a fé cristã, é de todo admirável sentir na personagem o reconhecimento da sua verdadeira tragédia.

Durante a guerra, as privações tomaram conta da cidade. Homens e mulheres vendiam-se a troco de terem o que comer. A fome corroía o corpo, a alma, a decência, relativizava a moral, impelia as pessoas para uma angustiante inumanidade. No Instituto de Pesquisa da Indústria de Plantas foi acordado entre todos que, por mais que fosse o apelo da necessidade, ninguém se alimentaria/serviria das colecções de sementes recolhidas com tanto sacrifício. «Iremos protegê-las a todo o custo» (p. 17); protegê-las, neste caso, não apenas dos predadores habituais (ratos e quejandos), mas dos seus próprios zeladores. O carácter dúbio do narrador começa a revelar-se a páginas 20:

«Jamais vacilei ou incorri em pensamentos de fuga. Jamais abandonei uma viagem cedo, nem recusei a inscrever-me em primeiro na lista para a próxima viagem. Em todo o instituto as pessoas comentavam a minha coragem.
Por isso talvez seja um cobarde e talvez não seja. Corajoso de corpo e fraco de mente, talvez, carecendo da moral determinada e duradoura da minha Alena ou da coragem intelectual do grande director».

O tom é de autocrítica e desesperada redenção. Percebemos que entre este homem e a sua falecida mulher há uma relação de profunda admiração cuja vida não soube brindar com a pureza de um amor eventual e provavelmente feérico. A realidade é dura e, assim como as plantas que precisavam de ser protegidas dos homens, também os homens precisam ser protegidos de si próprios. Fome alerta-nos para este pormaior tantas vezes desatendido: o homem é presa de si próprio, prefere o rumor das ilusões ao desconforto da verdade, quando a fome aperta alimenta-se do que tem à mão e, assim como é capaz de morrer à fome por um ideal ou por convicção, também é capaz de sucumbir à fome por direito à vida.

Entendamos o paradoxo a partir da cruel constatação de um sobrevivente: «Onze mil passaram fome em Novembro. Mais de cinquenta mil morreram em Dezembro, quando a madeira para os caixões há muito se esgotara» (p. 47). Ter escapado a este destino, porventura por amor à vida, só foi possível em circunstâncias que agora classificamos de traiçoeiras. Mas em certos casos, em casos limite, a deslealdade não provém senão da fome mais justificável: a fome de vida. Este homem confessa a sua fraqueza, comeu sementes que devia ter protegido, traiu a sua heróica mulher em todos os planos imagináveis, só não conseguiu trair a sua vontade de viver. Pode isso ser censurado?

PROFETAS DA CATÁSTROFE

Regresso inesperado a Mausoléu – A história do progresso em trinta e sete baladas, livro de Hans Magnus Enzensberger (n. 1929) originalmente publicado em 1975. A versão portuguesa é de João Barrento e apareceu com o selo das Edições Cotovia em Fevereiro de 2004. O tradutor chama-lhes poemas-retrato e poemas-relatório, mas podem simplesmente ser entendidos como poemas biográficos, se pensarmos na biografia como uma reconstrução subjectiva dos factos que marcaram a vida de alguém. Enzensberger escolheu um conjunto diversificado de personalidades históricas e resolveu retratá-las, não de um modo laudatório, mas de um modo crítico, como que interpelando os feitos que esses homens outorgaram à história. A questão pode ser colocada em dois planos: o que houve nas vidas privadas destas personalidades que acabou por condicionar a sua actuação pública e até que ponto a sua actuação pública pode ser considerada um degrau na dúbia escadaria do progresso. João Barrento afirma que «vistas no seu conjunto, estas luminárias lançam sobre os tempos modernos um brilho ambivalente que muitas vezes suscita a pergunta: valeu a pena? O desencanto está lá, embora não seja ingrediente único» (p. 16). Mas é, indubitavelmente, aquele que mais sobressai. Sobre Niccolò Macchiavelli: «A história, o teu auto-retrato, senhor das ratazanas / e de pilhagens, falsos juramentos e labirínticas intrigas» (p. 39). Sobre Gottfried Wilhelm Leibniz: «Vida privada: nenhuma. Interesses sexuais: inexistentes. Emocionalmente / L. é um cretino. A sua relação com os outros é a do discurso, / e mais nada» (p. 67). Inesquecíveis são os poemas dedicados a Charles Fourier, Charles Robert Darwin, Michail Aleksandrovic Bakunin ou Ernesto Guevara de la Serna. Mas de todos, o meu preferido é aquele que tem por motivo Thomas Robert Malthus. Vem a propósito:

T. R. M. (1766-1834)

Quem passou muito tempo sem comer está fraco de mais para falar,
esgaravata no lixo, não faz poesia. O que sabemos da fome
vem da boca dos que estão saciados; grande saber não será.

Grande folgazão: no verão, um pouco de remo, no inverno,
patinagem no gelo no lago da aldeia.
Durante cinquenta anos
nem uma vez o vi perder as estribeiras.

Bochechudo, molengão, contradizia a felicidade com voz firme.
A sua felicidade? A felicidade. Não havia na época qualquer ideia nova
na Europa: não haverá mais guerras, nem crimes,
nem sentenças, não haverá governos; nem doença ou sofrimento,
nem preocupações ou ódios. Resposta: Nunca consegui ter sobre as
[minhas faculdades
racionais aquele domínio que me permitisse acreditar sem meios de prova
naquilo que queria. (Ensaio Sobre o Princípio Demográfico
e sua influência em todas as futuras melhorias da sociedade
seguido de algumas notas sobre as especulações dos senhores Godwin e
[Condorcet.)

Homem simpático, bom coração. O génio e a loucura não lhe diziam nada.
Alimentava-se, honestamente, da sua sinecura, mas a obra de Süßmilch
A Ordem Divina nas Transformações do Género Humano
não o tranquilizou. Pôs-se a estudar anuários estatísticos,
abandonou a paróquia, fez viagens à Rússia e a outros lugares.
A Europa inteira ficou assustada com os resultados. Exorcismos monótonos:
este cortejo de doenças comuns e epidemias,
de carestia, pestilência, sublevações e crises de fome.

O pastor de almas da boa gente de Walesbury exalta-se
com
os prazeres mundanos, os artifícios indecorosos,
as paixões desnaturadas; mas o seu grande volume calcula pela primeira vez
as forças da natureza contidas em úteros e testículos, tal como o físico
mede a velocidade e o alcance de um projéctil
em ambientes de diferentes densidades: tudo isto
é necessariamente tal como é, e assim será sempre.

Acusador descarado da classe dominante, homem vulgar,
doutrina infame, cinismo, detestável blasfémia: falar é fácil,
mas o tempo de duplicação continua a ser
de cerca de trinta anos, e continua a valer a fórmula: P(t)=P(o)e(rt).*

É verdade que os seus cálculos não eram muito exactos. Mas uma coisa ele
[sabia:
há qualquer coisa que cresce e se multiplica sempre mais. Também o
[crescimento cresce,
também a fome cresce, o medo cresce. De faces rosadas, sentava-se,
esfregando as mãos, a tomar chá, esperava que uma mulher rosada lhe
[trouxesse
os seus muffins, sempre a mesma, com a qual ele, discreto e pudico,
dormia uma vez por mês: um intrépido cagarola,
um simulador que toda a vida se fez passar por saudável,
o grande folgazão entre os profetas da catástrofe
.


*A fórmula não é exactamente esta. Não consegui transcrevê-la correctamente para o motor de publicação do Blogger.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

SONHOS




Ontem, ao passar os olhos mais uma vez pel'As Pontes de Madison County, voltei a ouvir Clint Eastwood dizer que não concretizou nenhum dos sonhos que teve, mas ainda bem que os teve. Disse aquilo com um sorriso no rosto, um sorriso algo embaraçado, sem saber onde meter as palavras como um homem que não sabe onde colocar as mãos.

Temo vir a sentir algo parecido quando, daqui a uns anos, vier a afirmar com o mesmo constrangimento que não concretizei nenhum dos sonhos que não tive. E jamais saberei se teria sido preferível passar pela vida perseguindo sonhos irrealizáveis.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Que crítico digno da sua profissão se acriança a dar estrelas? Que gente é essa que produz listas de leituras em que a presunção tresanda? Para que o fazem? Que julgam provar?
J. Rentes de Carvalho, aqui.

DEPÓSITO LEGAL



O ano já tem depósito legal: uma tempestade de pássaros mortos. Só me ocorre pensar na forte possibilidade de estarmos a sofrer neste momento uma inexplicável metamorfose. Acredito que o ser humano está a transformar-se num desumidificador, ou seja, num espremedor do ar. E é isso que anda a provocar a tempestade de pássaros mortos que vai caindo do céu.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

PORTO SEM ABRIGO


Olho para o meu cão e penso o quão bem representa o povo português. Também podia pensar que já tenho o NIB para pagar à Trama a última compra de 2010: As Anotações de Malte Laurids Brigge e Die Aufzeichnungen Des Malte Laurids Brigge. Ah, pois é, isto agora vai ser um vê se te avias de citações em alemão. Porém, não nos distraiamos. Voltemos ao cão. Anda mal da próstata, não contém o pingo, precisa urgentemente de passar a usar fralda, tem os dentes podres, provavelmente está diabético, ainda não cegou mas confunde amiúde pantufas com cadelas. Assim anda o povo português, o mesmo que trouxe pelos suspensórios, durante 50 anos, uma ditadura ensimesmada e tristemente enfadonha (há delas que são uma alegria), o mesmo que ofereceu 10 anos de governo a um queixo calçadeira cuja maior virtude é não ler jornais, um indivíduo que raramente se engana e tem dúvidas excepto quando as dúvidas que tem são os desenganos que não assume, aprestando-se agora a consolidar no poleiro o seu cacarejo seco de galo sem crista. Presidente mais anti-tusa seria difícil de imaginar. Esteve à frente de governos executados por gente que só não está, não esteve e não estará na choldra porque este não é um país Independente. É um país caniche que não contém o pingo, confunde pantufas com gajas, tem os dentes podres e está provavelmente diabético. Ainda assim é o lado para que durmo melhor, deixando-me muito mais amargurado do espírito aquele episódio de amor e desamor na Rua de Santa Catarina. Não sei se ouviram falar. Pelo que sei e me deram a ver, dois carochos enrolados à moda cínica em plena baixa portuense. Vai daí o povo, representado por uma loura oxigenada com o rêgo à mostra e por um troglodita similar aos que pululam nas claques de futebol, não gostou. O povo tripa com apalpões à vista desarmada, marmelanço de ver ao perto, o povo gosta de passar olhando para o lado, reparando e fazendo reparos ou fingindo que não vê, incomoda-se com a desvergonha a céu aberto das gerações perdidas de sem-abrigo. Fodido, fodido, é não ter telha nem colchão para executar o acto à moda burguesa. Mas isso ‘tá quieto. Casa é para os chulos. Quem não tem casa não acasala e não se fala mais no assunto. E o povo, colado ao monitor, vota no ditador para grande figura do século, no Zé Maria para grande amigo e num pastor de Baião ex-proprietário de um bordel para grande vencedor de uma merda qualquer. Os carochos do século XXI, provavelmente sem nunca terem ouvido falar de Crates nem de Diógenes, resolveram dar corda à bebedeira com amor sobre a calçada. Uma cidadã mais indignada que as outras achou que era assunto para resolver à chapada, acudida por um herói que se atirou de punho cerrado sobre o Casanova cambaleante. Foi amor KO. Isto indigna-me, isto amargura-me, isto incomoda-me, isto chateia-me, isto polui-me a alma. Sou pelo amor a céu aberto. Por isso, desejo todo o bem do mundo aos carochos da Rua de Santa Catarina, faço deles os meus guias espirituais para 2011, e desejo todo o mal da Rua de Santa Catarina aos pategos que os agrediram. Acho que é justo, tendo em conta as circunstâncias.

domingo, 2 de janeiro de 2011

204


Reparei agora que tenho 204 seguidores. Que me doa um dente se já tinha reparado antes. É uma cifra porreira, pá. A esses e aos outros, ficam então os votos de um bom ano de 2011.

sábado, 1 de janeiro de 2011

A DANÇA DAS FERIDAS


A Dança das Feridas
Capa de Maria João Lopes Fernandes
Edição de Autor
Janeiro de 2011

O amor é o amor - e depois?!
Alexandre O'Neill

domingo, 26 de dezembro de 2010

A PRIMAVERA HÁ-DE CHEGAR, BANDINI

Perdoem-me os erros, que nada representam ao pé daquilo por que temos passado nos últimos tempos. Terminei agora mesmo a leitura de A Primavera há-de chegar, Bandini. Dos livros de John Fante que li até hoje, este foi aquele que menos me cativou. O facto de a acção se passar em plena época natalícia não ajuda. Tenho com o Natal uma relação semelhante à que cultivo com a política, abstenho-me antes que dê em doido. Seja como for, trata-se de um Fante. Há que dar o benefício da dúvida. Quem não estiver familiarizado com o universo do autor norte-americano (nasceu em Denver no ano da graça de 1909), saiba que há nele um sentido de humor que se revela ainda muito incipiente neste primeiro tomo da saga conhecida como The Bandini Quartet: Wait Until Spring, Bandini (1938), The Road to Los Angeles (apenas publicado em 1985, apesar de ter sido o primeiro a ser escrito), Ask the Dust (1939) e Dreams from Bunker Hill (1982). Também com tradução de Rui Pires Cabral, a Ahab tinha editado entre nós Ask the Dust (Pergunta ao Pó, 2009). Reincide agora na história de Arturo, alter-ego de John Fante, com A Primavera Há-de Chegar, Bandini (Setembro de 2010).

No centro das atenções está uma família, entre a qual se destaca o jovem Arturo, aqui com 14 anos. Os restantes são o pai Svevo, a mãe Maria e os dois irmãos August e Federico. Com as raízes na Itália, vivem em Rocklin, Colorado, as dificuldades da integração. São pobres, deslocados, mas orgulhosos. O narrador não poupa nas imagens que evidenciam essa pobreza. Ao primeiro parágrafo fala-nos dos «buracos nas solas das botas» do pai de família, um assentador de tijolos que gosta de beber o seu copo enquanto joga uma partida de póquer com os amigos italianos: «Estava enregelado e tinha buracos nas solas das botas. Nessa mesma manhã forrara as botas com pedaços de cartão de uma caixa de macarrão. O macarrão ainda não fora pago. Ao forrar as botas, não deixara de pensar nisso» (p. 13). Os pormenores são reveladores da prosa fria que nos espera. Não chega a John Fante dizer que as botas estavam rotas, é preciso reforçar a imagem da pobreza com uma caixa de macarrão que ainda não tinha sido pago.

Já a religiosidade de Maria Bandini, uma dona de casa remoída pelo ciúme, ocupada na educação dos três filhos, é-nos assim descrita: «Maria não precisava de livros nem revistas. Tinha o seu próprio meio de evasão, o seu caminho privado para a satisfação: o rosário» (p. 65). Na voz do narrador ecoam os sentimentos do mais rebelde dos três filhos: Arturo. Os complexos de integração perseguem-no. Preferia chamar-se John a Arturo, Jones a Bandini, preferia ser americano de gema, viver em Denver, preferia frequentar um liceu público a andar numa escola católica. Fala do pai tanto com admiração como com desprezo, fala da mãe com ternura e uma espécie de repugnância amordaçada. Há ainda Donna Toscana, a mãe de Maria, sogra de Svevo, com quem este não pode nem à distância. Uma inesperada visita da avó Donna, mulher de «língua venenosa como uma víbora», espoletará o conflito familiar sobre o qual se ergue a narrativa. No entanto, o pilar é frágil.

Muito mais interessante que as desavenças entre Svevo e Maria é a forma como Arturo vai crescendo interiormente na relação frustrada que mantém com o que o rodeia. Os melhores momentos do romance saltam da consciência de Arturo para a página. Desde logo a sua relação paradoxal com a religião. Veia herdada da mãe, a religião é no jovem Arturo uma ameaça incompreensível, fonte de inquietas reflexões e temores disparatados. O Capítulo Cinco é todo um tratado sobre as dúvidas religiosas que podem assolar um jovem da estirpe de Arturo Bandini: «Arturo Bandini estava bastante certo de que não iria para o Inferno depois de morrer. O Inferno era o destino daqueles que cometiam pecados mortais. Arturo sabia que tinha cometido muitos, mas a confissão salvava-o. Acreditava que chegaria sempre a tempo à confissão ─ ou seja, antes de morrer. E batia em madeira sempre que o assunto lhe acudia ao espírito ─ para garantir que chegaria sempre a tempo à confissão. Assim, Arturo estava bastante certo de que não iria para o Inferno depois de morrer. Por duas razões. Em primeiro lugar, a confissão; em segundo lugar, o facto de ser bastante veloz» (p. 93).

Infelizmente, parágrafos como o supracitado não abundam neste romance. Ao crescimento de Arturo, Fante prefere explorar paralelamente a relação conflituosa entre Svevo e Maria. O Natal conflituoso, cheio de provações e ausências, resvala amiúde num sentimentalismo de que o próprio narrador parece estar consciente. É como se não houvesse alternativa. O que aqui está em causa é a «linguagem da vida» (p. 176). A presença permanente da neve debaixo de solas rotas tinge o cenário e adensa o elemento essencial da obra: a esperança. No fundo, é disso que se trata quando falamos na Primavera por chegar. A esperança de que a família retome o seu curso, o pai volte a ter trabalho, a mãe volte a ser bonita, a amada ressuscite num qualquer recanto da memória, agora já não sumida no gelo, mas erguida no meio de vastos campos verdejantes, em flor. A Primavera por que Arturo anseia é um eco que ressoa sobre si próprio a vanidade da existência. Para se manter vivo, é preciso acreditar que a qualquer momento o Sol se ergue sobre o gelo e transforma a neve em água: elemento da vida. E a pergunta final só pode ser: que tipo de pecado é a esperança?
Escrito para o Rascunho.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

WORTEN SEMPRE?

Há dois meses parti o monitor a um computador. Como tinha seguro, fui deixá-lo à Worten e comprei um disco externo para guardar tudo o que havia dentro do portátil magoado. Ontem liguei o disco externo pela segunda vez. Ardeu. Para recuperar o que lá está dentro preciso de um orçamento. Só o pedido vale 40€, o orçamento não faço a mínima ideia em quanto possa ficar. Não vou gastar 40€ para pedir um orçamento. Os tipos da Worten também não sabem por onde anda o portátil magoado. Magoado, perdido, eventualmente abandonado e só entre congéneres. Só podia ser meu. Não sei se voltarei à Worten. É possível que ainda me cobrem por isso.

domingo, 19 de dezembro de 2010

UM POEMA DE DYLAN THOMAS

Dylan Thomas é intraduzível. Qualquer tentativa de tradução dos seus poemas deve ser considerada um crime de lesa poesia. Porém a carne é fraca e, por vezes, a gente mete-se a pensar como poderia ser em português uma música que não aceita outra língua senão a que lhe é própria. O meu perdão antecipado aos puristas:

HOUVE UM TEMPO
Em que época puderam os bailarinos com seus violinos
suspender os problemas nos parques infantis?
Houve um tempo em que podiam chorar sobre os livros,
mas o tempo gerou uma larva nos seus caminhos.
Estão inseguros sob o arco dos céus.
É mais seguro o que nesta vida fica por conhecer.
Sob os signos celestes aqueles que não têm armas
têm as mãos limpas, e, como o fantasma impiedoso
que sozinho fica ileso, também os cegos vêem melhor
.


Dylan Thomas, versão de Was there a time, datado de Dezembro de 1935, in Collected Poems 1934-1953, Phoenix, 2000.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

CADA POVO TEM AQUILO QUE MERECE


São variadíssimas as razões para não se votar em Cavaco nas próximas eleições. Foi um primeiro-ministro medíocre a quem devemos grande parte do que temos hoje, um país desperdiçado em cursos de formação profissional inúteis, distribuição de subsídios à la carte, negociatas obscuras com bancos falidos, corruptelas ministeriais para todos os gostos, uma oligarquia burocrática, conservadora e hierárquica onde os de baixo se afogam na baba dos que estão por cima. É uma figurinha cinzenta e conservadora, um triste espírito bolorento sem o dom da palavra, um indivíduo sensaborão que só representa bem Portugal no que Portugal tem de mais português: a saloiice, a falta de cultura, o culto da mediania que subsidia tanto a manipulação e a arbitrariedade dos agiotas como a submissão e o conformismo dos paus-mandados. Há muitos tristes episódios do professor carranca no YouTube. É difícil escolher um que seja sintomático do tipo de criatura que estamos a falar. Eu gosto destes dois. Olhem para aquilo e pensem: é o Presidente da República do nosso país.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

APANHAR O COMBOIO



Nunca tal me sucedeu: começo a tropeçar num estado de auto-censura. Não sei o que se passa, mas passa-se qualquer coisa. Para mim o problema já não é se devo ou não escrever isto ou aquilo, mas como libertar-me novamente dos grilhões profissionais e domésticos que me impedem a escrita. Talvez não seja má ideia começar precisamente por aqui.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

UM ARTIGO

Sobre Nicanor Parra, sugerido pelo Rui Manuel Amaral. Agradecido:

Hace mucho que Parra está de vuelta de toda vanidad ligada al hecho de publicar. Nadie mejor que él sabe de la condición utópica que lleva aparejada la iniciativa de reunir sus obras completas. La obra de Parra, la más libre y radical de toda la poesía escrita en español durante el último siglo, se resiste a ser fijada y encuadernada. Pese a lo cual, leer en secuencia los libros que ha consentido publicar en el transcurso de más de medio siglo, constituye una experiencia irreversible, trastornadora de todas las ideas que circulan comúnmente acerca de qué es y qué deja de ser poesía. Quizá debido a esto, el más grande poeta vivo de la lengua -como ha sido saludado por voces muy autorizadas- sigue siendo poco leído e insuficientemente apreciado en España. Una y otra vez me han preguntado las razones de que así sea, y todas las explicaciones que he sido capaz de aportar aluden a una incomprensión de sus propósitos y de sus alcances, propiciada por un previo malentendido acerca de qué cosa sea la lírica y cuál la relación de la palabra poética con el habla. No pretendo que en España no haya lectores receptivos a la antipoesía y buenos entendedores del programa que subyace a ella, el más subversivo y renovador de la poesía latinoamericana. Lo que sí digo es que los rumbos de la poesía española han desatendido en general -por razones penosas de explicitar- la propuesta de Parra, y que el estado de opinión más general acerca de ella es un amasijo de tópicos apenas dignos de ser rebatidos. (Aqui)

sábado, 11 de dezembro de 2010

REGIME DE EXCEPÇÕES

Camarada Van Zeller, deixe que lhe diga: ando, como dizê-lo?, embasbacado. Não será bem o termo. Boquiaberto, talvez, embora essa condição se deva mais ao nariz entupido que aos reais motivos que aqui me trazem. Ando atolado de espanto e estacado de assombro. Vocelência veja, o mundo não está para menos. A médio Tejo um tornado resolve varrer tudo o que apanha pela frente deixando atrás de si um caos estimulante, em Espanha os controladores de voo põem em prática o que o poeta tinha posto em poesia, do ar caem bocados de um avião angolano, o Nobel da Paz foi entregue a uma cadeira vazia, os quadros de Picasso ficam por leiloar por causa de um electricista, o Messias chame-se Assange é louro e nasceu na Oceania, a França e a Alemanha recusam continuar a contribuir para o salvamento do euro, o euro está com falta de ar, em Portugal publicam-se livros que lembram o escudo, caem-nos lágrimas dos olhos, a nostalgia é uma ferramenta poderosíssima, a PSP foi ao Martim Moniz deter um indivíduo e identificar umas centenas, tememos que se tivesse ido à AR teria detido umas centenas e identificado 1 indivíduo, provavelmente o Manuel Alegre que, curiosamente, tem andado com um ar bastante pesaroso… Há remédio santo: ouvir o professor Marcelo aconselhar juizinho ao PSD, algo semelhante a ouvir a Dra. Jennifer Melfi aconselhar juizinho ao Anthony Soprano. Mas a cereja no topo do bolo é a nova ideia para resolver a crise (começo a pensar que já não há grande diferença entre dizer ideia para resolver a crise e ideia para a crise). Ei-la: «Patrões da indústria dizem que fundo para financiar despedimentos tem “pernas para andar”». A minha mulher ouviu isto e ficou com a periquitos aos saltos. A passarinha só amainou as pernitas para andar quando eu lhe expliquei o processo. Temo, camarada Van Zeller, que lhe agrade a medida. Ora tope lá o esquema: eu sou seu empregado, você quer-me despedir, o Estado dá-lhe do meu dinheiro para que você me possa despedir. Portanto, não só vou para a rua como ainda lhe pago para ser despedido. No fundo, faz sentido. É um serviço que me estão a prestar. Ser despedido é agradável, é um serviço público incomparável, é uma reforma antecipada, é meio caminho andado para a boa vida. Jovem, queres um emprego? Trabalha de graça. Jovem, vais ser despedido? Paga para isso. Porque não há-de um cidadão pagar para ser despedido? O desemprego só traz coisas boas. Podemos passar mais tempo a ver televisão, passear junto à falésia, ler o jornal na esplanada do café preferido, apurar as circunferências em torno de anúncios de emprego, piscar o olho às miúdas, lubrificar a imaginação enquanto magicamos mil e uma maneiras de nos suicidarmos. Tudo vantagens. Portanto, estou pronto para pagar à minha entidade patronal para que ela me possa despedir. Até porque cada vez mais se confirma que não haverá regime de excepções para o salário mínimo, continuarei a ganhar menos de 500€ por mês. Um futuro promissor. Os regimes de excepções não são para a gosma, a ralé, a escória, o lumpen. Não senhores. Excepções a quem as trabalha. E mai' nada.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

RESILIÊNCIA

Foi-se apercebendo dos tiques comportamentais que caracterizavam as pessoas conforme o estatuto que ocupavam na hierarquia empresarial. Cada qual com os seus. Aquela pergunta ─ sabe o que significa? ─ evocou dentro dele um velho desprezo pelos jogos psicológicos, pelos testes, pelas provas de aptidão. Resiliência é o que pedem ao homem dos trapos, não sem o questionarem sobre o significado do termo. Seria embaraçoso ficar sem palavras. Um pouco mais abaixo conheceu quem funcionasse por meras provocações. Imagine-se uma situação em que alguém usa de um ar soberbo e, sem dizer água vai, coloca nas mãos do homem dos trapos um simples papelinho dobrado para meter no lixo. É como se lhe estivessem a chamar homem do lixo, coisa que não o afectava particularmente. O crápula não pediu: podes pôr-me isto no lixo? O cretino não perguntou: onde é o lixo? Se o tivesse feito, o homem dos trapos seria o primeiro a pegar no papelinho dobrado e, atenciosamente, colocá-lo-ia no lixo. Não. O que o afectou foi o ar soberbo, uma indisfarçável falta de educação vestida de fato e gravata. Apeteceu-lhe atirar o papelinho dobrado às trombas do cretino, mas foi resiliente. Era o que lhe pediam, para isso lhe pagavam. O povo chama-lhe engolir sapos.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

DOUTOR AVALANCHE

Doutor Avalanche (Setembro de 2010) é o segundo volume de contos de Rui Manuel Amaral (n. 1973). O primeiro foi Caravana (Janeiro de 2008). Ambos editados pela Angelus Novus, numa colecção intitulada Microcosmos, representam o que de melhor se vai produzindo em Portugal nesse território ambíguo do microconto. Sabemos não ser do agrado do autor este género de classificação. Tinha bom remédio, varria-a por completo dos seus livros. A confusão repete-se, involuntariamente, não só pela inclusão da obra numa colecção que se afirma especialmente vocacionada para a micronarrativa, como também por, mais uma vez, vir no final do livro um desafio editorial bastante peculiar: «seja também um microcontista». Sem pretender decalcar a toada absurda que envolve os contos de Rui Manuel Amaral, imagine-se o que seria se no final dos livros de Lobo Antunes a Dom Quixote começasse a desafiar os leitores do eterno candidato ao Nobel a tornarem-se romancistas. O pormenor não é despiciendo, induz a ilusão de um facilitismo que está longe de ser um dado adquirido.

A leitura dos contos de Rui Manuel Amaral prova-nos nada haver de fácil e gratuito na prática do conto brevíssimo. Os contos de Doutor Avalanche pressupõem um domínio de algumas técnicas narrativas que não são nada fáceis de apurar. Os mestres estão mais que identificados. É inevitável pensarmos em Nikolai Gógol quando lemos a história de um homem que, no encalço de uma orelha que lhe fugiu, deixou a língua sozinha em casa. O espírito de Franz Kafka mostra-se em situações como a do homem que «atraía todas as atenções e provocava nos outros um riso» descontrolado. Há várias fábulas que nos lembram os poemas em prosa de Russell Edson, embora o nome mais frequentemente invocado seja, sem dúvida, o de Daniil Harms. De resto, esta inevitável associação é o que menos contribui para a emancipação da prosa de Rui Manuel Amaral, a qual incorre com frequência nesse risco de um déjà vu menos apelativo. Por outro lado, haverá quem chame maturidade, ou homogeneidade discursiva, a esta repetição de processos. Seja como for, trata-se de um volume anormal no contexto literário português.

Doutor Avalanche é percorrido, ao longo dos seus quarenta e tal contos, pelo aparecimento inusitado de estrofes, grafadas em itálico, provenientes de um poema de autor italiano anónimo do século XVII. De alguma forma, o conteúdo desse poema ─ Quando gli ucceli portaranno i zoccoli ─ permite inferir a lógica que subjaz às short stories compiladas neste volume. Trata-se de uma lógica ilógica, de uma inversão de sentido que lembra Lewis Carroll. As situações insólitas vivenciadas pelas personagens de Doutor Avalanche têm a característica peculiar de refutarem a organização do mundo. Homens aparentemente banais, com profissões mais ou menos monótonas (actor, escritor, fabricante de olhos de vidro, pescador, obscuro funcionário de uma repartição ministerial…), vêem-se envolvidos em casos excepcionais: Dietrich Dhal evapora-se, Markus Grob trinca a canela da amada, certo homem «de cada vez que se via num espelho descobria em si um rosto novo e desconhecido…» (p. 45). Muitos destes casos, que recolhem manias, ironizam hábitos, representam estranhas metamorfoses, colocam o leitor numa situação de expectativa cujo desenlace raramente justifica.

Rui Manuel Amaral é exímio na arte do malogro. Usa de notas de rodapé que acrescentam vazio ao vazio das estórias, recorre ao humor e ao absurdo, por vezes ao puro nonsense leariano para desmontar chavões literários, frases feitas, clichés. Note-se o recurso desmesurado a expressões coloquiais já de si algo dúbias: «meu dito, meu feito», «o caso muda de figura», «sem tirar nem pôr», «dei de caras», «raios me partam», «força de expressão», etc. Os horríveis incidentes que povoam o seu imaginário permitem-lhe desconstruir a precisão narrativa que se impõe como definidora da suposta boa literatura. Há frases simples que definem um estilo: «Não me perguntem como é isto possível porque não saberei responder e isso não é bom para o meu prestígio de narrador omnisciente» (p. 63); «De repente, acontece uma coisa que pode parecer anormal e, de facto, é» (p. 73); «No entanto, Gerard Geldenhyus sentia-se, digamos, um pouco coiso» (p. 87). Daí que a moral a retirar destes contos não seja apenas a sugerida no remate do conto que termina a páginas 26 ─ «nem tudo no mundo tem que ter lógica ou obedecer a uma sintaxe perfeita» ─, mas também a de que as coisas têm a sua lógica e sintaxe internas (estejam estas ou não em sintonia com o resto do mundo).
Escrito para o Rascunho.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O JOGO DAS FRUTAS

Mãe: nasce nas árvores ou vem da terra?
Matilde: nasce nas árvores.
Mãe: de que cor é?
Matilde: castanha.
Mãe: é fruto seco?
Matilde: sim.
Mãe: é a noz.
Matilde: boa, acertaste. Agora é a Beatriz.
Mãe: de que cor é?
Beatriz: vermelha.
Mãe: nasce nas árvores ou vem da terra?
Beatriz: nasce nas árvores com um papelinho colado.