domingo, 20 de março de 2011

INDIGNAI-VOS


Quem nos fala é um homem de 93 anos, com um currículo existencial suficientemente experiente para que a sua voz, como a de um bom professor, nos mereça toda a atenção. Nascido em Berlim, no seio de uma família de origem judaica com ligações às altas esferas culturais, Stéphane Hessel (n. 1917) naturalizou-se francês em 1937. As razões da deslocação são por demais evidentes. O início da Segunda Guerra Mundial levou-o a juntar-se ao general de Gaulle em Londres, integrando o Bureau de contre-espionnage, de renseignement et d’action. Em Março de 1944 desembarcou clandestinamente em França, foi capturado pela Gestapo, foi torturado e enviado para o campo de Buchenwald. Conseguiu escapar à forca trocando de identidade com um francês que morrera de tifo nesse mesmo campo. Transferido para o campo de Rottlebrode, de onde conseguiu escapulir-se, foi novamente capturado e colocado no campo de Dora, tendo conseguido evadir-se mais uma vez. Finda a guerra, iniciou uma longa carreira diplomática em França. Neste âmbito, uma das suas missões mais importantes terá sido a de integrar a comissão que redigiu a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Indignai-vos é um opúsculo escrito em contexto de exame final. A consciência do fim leva Hessel a dirigir-se aos jovens e a apelar à indignação, mas uma indignação pacífica. Entende-se este sublinhado se tivermos em conta o caos que invadiu muitas das cidades europeias nos últimos anos. Os confrontos de Paris em 2005 terão sido um primeiro mas eloquente sinal. Para Hessel, este apelo à indignação deve ter por base a defesa dos valores e dos princípios do Conselho Nacional da Resistência francesa, hoje fortemente ameaçados por um poder dificilmente identificável. Torna-se urgente zelar pelas conquistas sociais da Resistência contra a «actual ditadura internacional dos mercados financeiros que ameaça a paz e a democracia». Stéphane Hessel não o afirma com tanta clareza, mas é evidente que o principal inimigo dessas conquistas sociais esconde-se por detrás dos bancos e dos interesses privados dos seus administradores:

Ousam dizer-nos que o Estado já não consegue suportar os custos destas medidas sociais. Mas como é possível que actualmente não tenha verbas para manter e prolongar estas conquistas, quando a produção de riquezas aumentou consideravelmente desde a Libertação, quando a Europa estava arruinada? Apenas porque o poder do capital, tão combatido pela Resistência, nunca foi tão grande, insolente, egoísta, com servidores próprios até nas mais altas esferas do estado. Os bancos, agora privatizados, preocupam-se principalmente com os seus dividendos e com os elevadíssimos salários dos seus administradores, e não com o interesse geral. O fosso entre os mais pobres e os mais ricos nunca foi tão grande; e a corrida ao capital e a competição nunca foram tão incentivadas. (p. 21)

Impossível não concordar com o diagnóstico, nomeadamente se tivermos em conta o agravamento das assimetrias sociais num plano internacional. As razões para a indignação são, portanto, mais que muitas. Mas este opúsculo não se restringe a uma fundamentação política da indignação na actualidade. Com os seus exemplos do passado, ele reflecte uma relação nem sempre pacífica, do ponto de vista filosófico, entre desejo de envolvimento, indignação e resistência. Hessel recorda Sartre e o seu polémico apoio a algumas acções violentas. A oposição entre a via pacífica, mas activa e militante, e a via violenta não é de agora. Teve uma curiosa expressão nos tempos da Revolução Industrial com a emergência do Movimento Ludista. No caso do presente opúsculo, a doutrina pode resumir-se em três premissas: «a pior das atitudes é a indiferença» (p. 26), «o terrorismo não é eficaz» (p. 35), na medida em que se afirma pelo exaspero e, nesse sentido, pela recusa da esperança, «é preciso preferir a esperança, a esperança da não-violência» (p. 36).

Este apelo a uma indignação pacífica, mas não pacifista, contrasta com muitos dos desenvolvimentos recentes. A «ruptura radical» com a ditadura produtivista instalada no Ocidente não se compadece com cantorias inconsequentes e manifestações esvaziadas de conteúdo, por muito participadas que possam ser. Ela deve assumir os seus alvos, nomeadamente os bancos enquanto rosto mais visível do espírito imaterial dos mercados financeiros. Uma insurreição pacífica parece já não ser suficiente, nomeadamente quando a esperança de que fala Stéphane Hessel se encontra seriamente ameaçada pela ausência de horizontes. O Estado, essa identidade a quem confiamos a defesa dos nossos interesses, responde apenas à irritação dos mercados, fazendo orelhas moucas do desespero dos cidadãos. Está mais preocupado com a saúde dos mercados do que com a saúde, propriamente dita, das pessoas. Quando assim é, este “indignai-vos, mas com juizinho”, é simpático, mas manifestamente insuficiente. Uma nota final: o prefácio de Mário Soares, na edição portuguesa, era escusado e chega a ser indigno. Não por culpa do autor, mas da editora, a Objectiva, que aí encontrou um pretexto para rentabilizar um texto cuja função primordial não é contribuir para as finanças dos editores. A tradução é de Paula Centeno.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #9


No dia 16 de Setembro de 2002 fui assistir a uma série de concertos designados de Looking For a Thrili. Não era necessário ter estado presente para perceber o que então se afirmou com uma clareza desarmante: aquilo a que chamamos vanguardas resulta, muitas vezes, da conjugação de interesses meramente acidentais que não obrigam a uma partilha ideológica única e estanque. Para o caso, bastava a existência de uma produtora discográfica, a Thrill Jockey, cujo toldo abrigava uma multiplicidade de músicos de interesse bastante variável. Fundada em 1992 na cidade de Nova Iorque, mas posteriormente deslocada para Chicago, a Thrill Jockey soube afirmar a sua identidade dando a conhecer bandas que concebiam uma música precipitadamente catalogada de post-rock. Como todas as etiquetas, esta serve para situar um conjunto de projectos com raízes no jazz, no rock de cariz progressivo e no advento da música electrónica. São estes os elementos fundamentais de uma música de fusão, quase sempre instrumental, que encontrou em nomes como Tortoise ou Trans Am rostos representativos de um género que nunca chegou bem a sê-lo. Músicos como John McEntire, Sam Prekop, Rob Mazurek, Douglas McCombs, entre outros, desdobraram-se em vários projectos tornando-se reconhecidos num meio sem programa definido mas com uma clara intenção: renovar a música jazz. Ao rock foram buscar a energia, mas dispensaram o minimalismo dos três acordes. Essa energia funde-se com estruturas musicais complexas, riffs rebuscados e uma vertente experimental, oriunda do electrónico Krautrock, com consequências deveras estimulantes. É o caso deste Utonian Automatic, dos Isotope 217º, produzido por McEntire. Os músicos são Jeff Parker, Rob Mazurek, Dan Bitney, Matthew Lux e John Herndon, todos eles com ligações aos Tortoise ou bandas congéneres. Sugiro que se escute esta versão ao vivo de Looking for life on mars e esta de Audio Champion. São temas representativos de um tipo de som sem fronteiras nem cedências à facilidade. Permitam-me, no entanto, o parêntesis: alguns dos projectos mais interessantes deste território, porventura menos conhecidos, não estão directamente relacionados com os ambientes culturais supracitados. É o caso dos escoceses Ganger ou dos Slow Loris. É assim com tudo na vida.

ÉRAMOS OS ELEITOS DO SOL

Éramos os eleitos do sol
E não nos demos conta
Fomos os eleitos da mais alta estrela
E não soubemos responder à sua dádiva
Angústia de impotência
A água amava-nos
A terra amava-nos
As selvas eram nossas
O êxtase era o nosso próprio espaço
O teu olhar era o universo frente a frente
A tua beleza era o som do amanhecer
A primavera amada pelas árvores
Agora somos uma tristeza contagiosa
Uma morte ant4es do tempo
A alma que não sabe em que lugar se encontra
O Inverno nos ossos sem qualquer relâmpago
E tudo isto porque não soubeste o que é a eternidade
Nem compreendeste a alma da minha alma no seu barco de trevas
No seu trono de águia ferida de infinito


Vicente Huidobro
Versão de HMBF

sábado, 19 de março de 2011

O MEU PAI E EU


1.
Pai, és uma flor que brilha,
canta, fala e dança!
És um super-herói que me salva
até quando não podes arriscar!
És muito engraçado e feliz!
Hoje, neste dia, estou contigo
cheia de alegria para que fiques feliz!



2.
És um coração
que dança, fala e canta.
Sabes fazer muita coisa
e sabes muita coisa...
Hoje estou contigo
para que fiques feliz,
cheio de alegria e tão consolado.



Ilustração
: Beatriz
Poema: Matilde
Quando fazemos o último número dos nossos anos, morremos.
Depois o tempo volta para trás, não é?
Beatriz
, 4 anos

quinta-feira, 17 de março de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #8


Eis um objecto que tendo uns bons pares de anos, mais propriamente dezassete anos (foda-se, como o tempo passa!), nunca deixa de ser novo. Os Hedningarna surgiram no norte da Europa, mais propriamente na Suécia. Com uma música inspirada no folclore escandinavo, foram assumindo uma vertente mais roqueira ao longo dos anos. Trä, este extraordinário conjunto de canções vindas a lume quando o grunge de Seattle andava a provocar estiramentos nos corações adolescentes, causou um espanto ainda hoje contagioso. Dizem os especialistas que o título do álbum significa bosque. No entanto, não se trata de um bosque feérico habitado por seres ambivalentes, deuses e ninfas, gnomos e fadas. É um bosque terrivelmente humano. O segundo tema (Min Skog/My Grove), um dos mais poderosos do álbum, começa com uma motosserra a amputar o tronco de uma árvore, provavelmente centenária, provavelmente para ser transformada em pasta de papel. O álbum fecha com o som apaziguador de um riacho. Mas entre a motosserra e o riacho escutam-se cânticos medievos, vozes de inclinação gótica, iniciáticas, lamentações evocativas de uma chaga aberta no coração da Terra. Há momentos claramente exorcismantes que sugerem um culto, ou um ritual de entrega e de devoção telúrica que coloca no centro das atenções a mais essencial das verdades: nada neste mundo nos deve merecer tanto respeito como a força e o poder da Natureza. Uma música sugestiva, por vezes festiva, outras vezes melancólica, sempre inquietante. Subitamente vem-me à memória Ralph Waldo Emerson: «Para encontrar a solidão, um homem tem de deixar tanto o seu quarto como a sociedade. Quando escrevo ou leio nunca estou só, apesar de ninguém estar comigo. Mas se alguém quiser estar sozinho, que contemple as estrelas». O meu tema preferido é o nono, chama-se Tuuli. Tem por lá umas vozes índias (trata-se de Wimme Saari, que também colabora com Hector Zazou no excelente Chansons Des Mers Froides). Eu gosto muito de índios. Podem escutá-lo aqui. Já agora, não percam este cheirinho de uma actuação ao vivo.

segunda-feira, 14 de março de 2011

A RESPOSTA AO PAULO TAVARES

No passado dia 8 deixei aqui um texto sobre o primeiro número da revista Agio. Dois dias depois, o Paulo Tavares e a Sara M. Felício, editores dessa mesma revista, deixaram o seguinte comentário ao meu texto: «Henrique, saindo um pouco da nossa postura quanto a comentar este tipo de crítica, gostaríamos de deixar aqui registado que consideramos este texto relativo à Agio superficial, redutor e repleto de anti-corpos que nada têm que ver com aquilo que, supostamente, deveria ser a análise da revista em si.» Concordei com a apreciação de superficialidade por ser um feroz militante da mesma, o que, de resto, me levou a simpatizar com o artigo de Jorge Martins Rosa, publicado nessa mesma revista, onde se cita Susan Sontag e o seu memorável Against Interpretation. É um defeito que vem de longe, culpa da formação filosófica, este de resistir à presunção de essências, númenos, verdades ocultas e reflexões sobre reflexões que não servem senão para exercitar o espírito dos homens. Prefiro uma lamentação dos índios da América do Norte a Que é Uma Coisa?, de Martin Heidegger - 230 páginas para nos dizer que uma coisa é uma coisa. Portanto, se me acusam de superficialidade recebo a acusação como um elogio. Nas profundezas da terra só conto parar quando estiver morto.

Quanto à questão de o texto revelar uma leitura redutora, já não posso estar de acordo. As leituras são o que são. Neste caso, a minha leitura, assumidamente superficial, não foi redutora, apenas e tão só procurou debruçar-se sobre um objecto onde não encontrou mais que pudesse ser dito do que aquilo que foi afirmado. Que mais haveria a dizer? Que gostei muito do poema do Miguel-Manso que já conhecia do livro Santo Súbito mas achei o original oferecido à revista absolutamente frívolo? Que os poemas do Nuno Dempster são excelentes e que eu espero daqui a dias não ser por ele envenenado numa refeição prometida? Que o ensaio do António Carlos Cortez é uma seca e o do Ricardo Marques está francamente mal escrito? Que os poemas da Soledade Santos estão para o espírito como as compotas que ela confecciona estão para o paladar? Que a entrevista ao Luís Lucas é papel desperdiçado? Enfim, tudo isto são opiniões que a gente pode ou não fundamentar. Num post é difícil sem ser fastidioso. E eu não quis ser fastidioso, quis ser prático. Por isso mesmo avanço para a acusação que não percebi, a acusação de o meu texto estar repleto de anti-corpos, a mesma que foi, entretanto, desenvolvida pelo Paulo Tavares no e-mail aqui reproduzido.

Se bem li o e-mail do Paulo, os anti-corpos explicam-se a partir da leitura que eu fiz da introdução dele ao primeiro número da Agio. Ora, deixem-me recordar o que eu disse a esse propósito:

Tratando-se de uma revista de literatura especialmente inclinada para um género literário, a poesia, subentende-se nas palavras de Paulo Tavares, senão a ambição, pelo menos o desejo de alargar o público da criação poética. Nada a contrapor. No entanto, na nota introdutória deste primeiro número, o mesmo Paulo Tavares afirma que «na génese da Agio não há uma ideia de ruptura ou de inovação a todo o custo». Talvez fosse muito pedir tais custos, mas nunca é demais esperar de uma revista nova a ousadia de, pelo menos, propor algo de novo. E, nesse sentido, apenas nesse sentido, a Agio mostra-se, para já, algo débil e até previsível.

O que eu quero dizer com isto? Talvez mais ou menos o mesmo que Vicente Huidobro dizia quando afirmava o seguinte: Si no se ha de decir algo nuevo, no hay derecho para hacer perder tiempo al prójimo. O que tem a Agio que outras revistas não têm? Do meu ponto de vista, muito pouco. Repete a estrutura, não inova senão na divulgação de nomes menos divulgados, alguns dos quais das minhas afinidades electivas. Esse esforço é meritório, mas não é suficiente para a afirmação de uma publicação colectiva. O leitor exigente, e eu não me considero outra coisa, deve dizê-lo desassombradamente e pedir mais e melhor. O tom não é crítico, muito menos malicioso, como o Paulo sugere, é, antes pelo contrário, exigente. Toda a gente sabe, e eu sei-o por experiência própria e sinto-o todos os dias profissionalmente, que o mercado livreiro português fede de esterco publicado e até promovido na base exclusiva da boa camaradagem. Também toda a gente sabe que os critérios de exigência a nível nacional, neste como noutros domínios, são muito inferiores ao desejável. Menos gente saberá, porque também menos gente se interessará pelo assunto, que a poesia é um género particularmente ameaçado por essa situação. Portanto, todos os investimentos na sua divulgação, promoção, dilatação deverão merecer a nossa simpatia, mas jamais o nosso conformismo. Isso seria o pior de tudo. Cabe-nos um discurso exigente. E esse discurso, do meu ponto de vista, é o da ruptura, é o da desconstrução, tal como o entendo e não como, aqui e acolá, uns por ignorância, outros por implicação, outros por mera e incorrigível estupidez, ele vem sendo treslido.

Quem tenha lido O Meu Cinzeiro Azul saberá o que penso sobre todos estes assuntos. O intróito das Estórias Domésticas também afirma alguma coisa sobre o tema e as Estranhas Criaturas são (des)construções poéticas em prosa do que aqui estamos a falar. Quem não tenha perdido tempo com esses livros, tem a hipótese de percorrer centenas de posts aqui antologiados (este weblog tem cerca de 3250 entradas) onde, ao contrário do que o Paulo afirma, eu não me limito a valorizar o que ele considerará de dúbio mérito literário, mas ouso na afirmação de um homem com frio, esse homem que procura algo mais do que o conforto imediato da aceitação dos seus pares, os quais adoptam recorrentemente o discurso vazio da inutilidade da poesia, ainda que a escrevam, a publiquem e até se arroguem em criticar a dos outros, tanto quanto vão sublinhando a inutilidade da vida, a deles, sem que se dêem ao simples denodo de espetarem um tiro nos cornos. Para mim é uma questão de coerência, escolhi a via solitária e burguesa e nela hei-de caminhar folgazão até ao fim da vida. Desprezo as academias, evito as congregações e sinto-me como peixe na água na minha própria asma.

Não havendo na Agio uma ideia de ruptura ou de inovação a todo o custo, há algo que, está visto, nos liga. E talvez por nos ligar me decepcionou neste primeiro número. Quem tenha lido Revistas Literárias do Século XX em Portugal saberá que uma revista não é só um esforço de divulgação da poesia, perceberá que Orpheu, Presença, entre outras publicações, foram muito mais do que esse simpático esforço. Foram publicações que geraram tensões, contribuíram para uma dinâmica que é a dinâmica da ruptura dos paradigmas, não com o pressuposto de se instalarem enquanto novo paradigma, mas com a vontade de fazerem a produção poética caminhar, pelo risco das ideias, dos manifestos, da afirmação estética, na direcção de um futuro que não se pode resumir a esta modorra entediante do toma lá uns poemas, uns ensaios e umas entrevistas. A afirmação do novo começa, precisamente, na renúnica à novidade, esse triste corolário de um capitalismo que tudo perverte e conspurca com os seus interesses mais ou menos objectivos. Felizmente, não resvala a Agio para os trilhos pantanosos da auto-promoção, como acontece com outras publicações. Ainda assim, o remate parece-me paradigmático:

A Agio surge assim, finalmente, como uma publicação situada nas margens, mas com o propósito de contribuir, à sua medida, que será sempre definida pelos seus leitores, para a dilatação dessas margens.

Nas margens andamos todos, meu caro Paulo Tavares. Uns descalços, outros de chinelos, outros de sapatos Prada.

A RESPOSTA DO PAULO TAVARES

O Paulo Tavares, co-editor da revista Agio, fez o favor de responder por e-mail a este meu post. Porque considero o texto honesto e inteligente, deixo-o aqui em jeito de direito de resposta. Conto replicá-lo lá mais para o final do dia. Penso que pode estar aqui um bom contributo para um debate que, a meu ver, não só está por realizar como me parece estimulante. A poesia merece tudo menos a letargia dos consensos e esta irritante fuga à discussão a que se vem assistindo, cujo efeito mais eloquente é uma completa falta de sintonia com os tempos que estamos a viver.



Bom dia, Henrique.

Os anti-corpos que referimos são os de alguém que, no seu blogue e nos seus textos, tem vindo a deixar vincada a necessidade do “novo”, do “alternativo” e da “ruptura”, mas que, detendo-se regularmente apenas na superfície de tais noções/configurações, não tem ido (porque não consegue ou porque não quer) mais além dessa superficialidade, valorizando muitas vezes livros/publicações que apenas aparentam tal diferença, mas de dúbios méritos literários, e criticando outras que não declaram ou não apresentam abertamente essa pose do “alternativo dentro do alternativo”, ou, por outras palavras, do movimento histórico de anti-literatura e de anti-academismo.

Dou um exemplo relativamente a essa acusação dos anti-corpos:
Na citação que fazes do editorial, “Na génese da Agio não há uma ideia de ruptura a todo o custo”, o “a todo o custo” serviu-te apenas para que reduzisses o editorial a uma coisa patética, “Talvez fosse muito pedir tais custos,…” (é muito ver aqui inclusive uma ponta de malícia?), sem sequer considerares que talvez no final desta frase, articulando-a com o que se diz no resto do editorial, reside efectivamente uma ideia contrária a essa busca contemporânea do novo pelo novo e à necessidade da “estrela única, do salvador de uma geração, da voz que a congrega” . Não sei que outro tipo de ousadia é mais consequente do que esta, que apresenta uma perspectiva contrária (sem ser pomposa) e que remete para aquilo que realmente interessa: os textos que compõem a revista.
É claro, por isso, que não nos revejo num dos teus comentários em que falas também de “falta de espírito crítico”.

Gostava que soubesses, ainda, que os “custos” relativos a tornar possível esta publicação são efectivamente muitos e elevados (e não me centro no factor financeiro).

Quanto à tua posterior resposta de que o teu texto “é um post, não pretende analisar nada nem procura ser crítico”, julgo que, para quem é tão mordaz quando lhe apresentam argumentação deste tipo falacioso, deveria haver da tua parte um pouco mais de reflexão antes de fazeres o mesmo. Para todos os efeitos, apresentas a formulação de um juízo, povoado de expressões como “débil”, “previsível”, “convencional”, “monótona”, etc. Tudo muito bem, é a tua opinião (contra a qual não tenho, por regra, a tentação de me manifestar), mas, neste caso, e por tudo aquilo que disse anteriormente, sentimos que deveria ser resposta alguma justiça (penso que a palavra não é exagerada) nessa entrada do teu blogue.

Paulo

PS: É apenas um pormenor no meio disto, mas peço-te que alteres uma imprecisão inicial no teu texto: A Artefacto não é patrocinada pela SI Guilherme Cossoul, é a vertente editorial da SI Guilherme Cossoul (e conta - talvez daí a confusão - com um pequeno apoio da Fundação C. Gulbenkian)
.

domingo, 13 de março de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #7




Em 1998 o mundo estava prestes a acabar e os Godspeed You Black Emperor! eram a melhor banda sonora possível para o fim do mundo. Infelizmente o mundo não acabou e nós tivemos que continuar a procurar pretextos para andar por cá. Em 2002, no dia 29 de Janeiro, fui vê-los e ouvi-los no Paradise Garage. Entrada n.º 104, 20€. Devo dizer que valeu a pena manter-me vivo até então. Os GYBE! produzem uma música essencialmente instrumental, com umas leituras/samplers de textos muito breves aqui e acolá, discursos apocalípticos e genuinamente pessimistas proferidos por profetas da desgraça. A música capta a atmosfera deprimente de uma sociedade em colapso. Baixem o som à televisão e experimentem ouvi-los enquanto no vosso canal de notícias preferido são transmitidas em directo imagens de atentados, manifestações violentas, contrastando com o nosso nacional porreirismo, cocktails molotov arremessados sobre batalhões imensos de polícias de choque, muros a serem destruídos e populações inteiras dizimadas por acidentes nucleares, desastres ecológicos, bairros arrastados pela lama, a vida nos subúrbios, tsunamis, terramotos, o degelo das calotes e o Pedro Passos Coelho a discursar para um país de parvos. O efeito será devastador. Oriundos de Montreal, os GYBE! foram enfiados na indistinta prateleira do post-rock. As composições são longas, mas não parece. Assentam em texturas minimalistas e hipnóticas que se desenvolvem na direcção de uma explosão que acaba quase sempre por retornar a uma pacificadora melancolia inicial. f#a# ∞ é o título deste álbum, para mim o melhor de uma formação que logra arrancar de uma paisagem essencialmente industrial a nuvem negra e poluidora das almas em queda. Digo isto porque, apesar do diagnóstico geralmente torturante, a mensagem mantém-se esperançosa: the future is still bleak, uncertain and beautiful… Arrisquem ouvi-los aqui ou acolá com continuação ali (o primeiro vídeo é um acompanhamento perfeito). Para mim, por hoje, são a melhor banda do mundo.

sábado, 12 de março de 2011

VICENTE HUIDOBRO

Vicente Huidobro chegou-me pela mão de Cesariny quando, há anos, li a compilação intitulada Textos de Afirmação e de Combate do Movimento Surrealista Mundial. Que eu saiba, o poeta chileno não tem qualquer livro traduzido para português. O mesmo acontece com Parra. Em Portugal, a poesia chilena está circunscrita ao sucesso de Neruda. É pena. Quer Parra, quer Huidobro, são poetas muito mais empolgantes. Vicente Huidobro (1893-1948) publicou cerca de trinta livros, levou uma vida repleta de percalços e ousou experimentar vários registos. Podemos mesmo afirmar que a sua produção foi tão variada quanto as contingências da vida que o acompanharam ao longo dos anos. René de Costa, nesta antologia crítica publicada pela Alianza Editorial (Madrid) em 1996, guia-nos num percurso complexo com impressionante clareza e sentido didáctico. O livro está dividido em seis partes que corresponderão a seis momentos de acção criativa. Dos poemas iniciais, de inspiração modernista, a inclinar-se já para o dadaísmo, as composições gráficas e a poesia visual de que Apollinaire é hoje considerado (erradamente?) um percursor, à incursão pela poesia cubista e à fundamentação do criacionismo poético, há de tudo um pouco. Mas um dos principais atractivos desta antologia é fazer acompanhar a criação poética dos testemunhos narrativos e ensaísticos que a sustentaram, quer sob a forma de manifestos, fragmentos e conferências, ensaios ou entrevistas, assim como cartas e textos de timbre bastante diversificado. A atitude inicial do poeta é de ruptura com o passado — Si no se ha de decir algo nuevo, no hay derecho para hacer perder tiempo al prójimo. — e de projecção de algo novo, gesto vanguardista que impressiona pela convicção com que se afirma. Hoje consideraríamos os manifestos criacionistas manifestações pomposas e presunçosas, tão arreigados que vamos indo ao estado putrefacto da retórica vigente. De resto, é uma fatídica tendência portuguesa esta dos nossos poetas serem quase sempre conformistas, acomodados e, no pior dos cenários, reaccionários, preferindo deixar-se arrastar pelas vagas da concórdia a enfrentar destemida e desassombradamente as intempéries da discórdia. Debate não existe porque a proposta é quase sempre a mesma e resume-se a calar tudo o que saia dos eixos. Mas noutros tempos os poetas podiam reivindicar uma criação pura que fizesse do poeta já não só um intérprete da Natureza, um transfigurador, mas sim um criador da própria Natureza, um Poeta-Deus. Curiosamente, levada ao extremo, esta atitude acabou por desembocar, ainda antes da antipoesia de Parra, no aparecimento da figura do antipoeta no maior dos poemas de Huidobro (Altazor, 1931). Ainda antes, houve uma passagem meteórica pelo surrealismo, pelo dadaísmo e pelas teorias de Breton, que Vicente acabou por renegar mais tarde, no famoso Manifiesto Manifiestos (1925), denunciando o facilitismo e a vacuidade da escrita automática enquanto método de criação literária: Se seguimos vuestras teorías caeremos en el arte de los improvisadores. Contra a banalidade, a defesa de uma arte muito mais séria e muito mais formidável. Se é fácil entender este discurso à luz das teorias defendidas pela axiomática criacionista, não tão fácil será se o procurarmos articular com a tendência final para uma poética da dessublimação, politicamente empenhada e preocupada com efeitos sociais contemporâneos. Cuida de no morir antes de tu muerte é a frase que nos pode soar como sentença final de uma poética sempre voltada para o futuro. Aliás, se há algo que liga todo este percurso, dos tempos experimentais à fase de militância política, esse algo é a busca do novo, a perseguição do futuro, a vontade de agir sobre o presente criando qualquer coisa que pudesse agir sobre a própria realidade. Vicente Huidobro recusava, pois, o tempo mais comum na actual poesia portuguesa, ou seja, o tempo passado e a retórica do confessionalismo ou a ditadura da memória: Los hombres vueltos hacia el pasado pueden ser historiadores, pêro no serán poetas. Deixo mais uma versão pessoal de um poema, digamos assim, absolutamente memorável:

A POESIA É UM ATENTADO CELESTE

Eu estou ausente mas no fundo desta ausência
Está a espera de mim mesmo
E esta espera é outra forma de presença
A espera do meu regresso
Eu estou noutros objectos
Ando em viagem dando um pouco da minha vida
A certas árvores e a certas pedras
Que por mim esperaram muitos anos

Cansaram-se de me esperar e sentaram-se

Eu não estou e estou
Estou ausente e estou presente em estado de espera
Eles queriam a minha linguagem para se expressar
E eu queria a deles para expressá-los
Eis aqui o equívoco o atroz equívoco

Angustiante lamentável
Vou penetrando estas plantas
Vou largando as minhas roupas
Vão-me caindo as carnes
E o meu esqueleto vai revestindo-se de cascas

Estou a transformar-me numa árvore Quantas vezes dei por mim convertendo-me noutras coisas
É doloroso e cheio de ternura

Poderia dar um grito mas espantaria a transubstanciação
Há que guardar silêncio Esperar em silêncio



De Últimos Poemas (1948)

IMPOSSÍVEL




Impossível saber quando adormeceu esse recanto da minha alma
E quando voltará a tomar partido nas minhas festas íntimas
Ou se esse troço partiu para sempre
Ou sequer se foi roubado e se se encontra integrado num outro

Impossível saber se dentro do teu ser a árvore primitiva ainda sente o vento milenário
Se tu recordas o canto da mãe quaternária
E os grandes gritos do teu espanto
E a voz soluçante do oceano que acabava de abrir os olhos
E agitava as mãos e chorava no berço

Não precisamos de tantos horizontes para viver
As cabeças de papoila que devorámos sofrem por nós
A minha amendoeira fala por uma parte de mim mesmo
Eu estou perto e estou longe

Tenho épocas centenárias na minha breve idade
Tenho milhares de léguas no meu ser profundo
Cataclismos da terra acidentes planetários
E algumas estrelas de luto
Lembras-te quando eras um som entre as árvores
E quando eras um pequeno raio vertiginoso?

Agora temos a memória demasiado carregada
As flores das nossas orelhas empalidecem
Às vezes vejo reflexos de penas no meu peito
Não me olhes com tantos fantasmas
Quero dormir quero ouvir novamente as vozes perdidas
Como os cometas que passaram para outros sistemas

Onde estávamos? Em que luz em que silêncio?
Aonde estaremos?
Tantas coisas tantas coisas tantas coisas

Eu sopro para apagar os teus olhos
Lembras-te quando eras um suspiro entre dois ramos?



Vicente Huidobro
La Nación, Buenos Aires, 1932
Versão de HMBF

O MEU CORAÇÃO NÃO CHEGA PARA TANTO

Estimado Van Zeller, tenho apreciado as múltiplas intervenções do Jel. Ontem ouvi-o citar Milton,Voltaire e mais uns quantos no não-censurado programa do Mário Crespo. Também o ouvi dizer que, embora tivesse vestido a camisola da manifestação dos parvos, não era parvo nenhum, que até estudava umas coisas e sabia outras tantas. A mensagem era: vamos para a rua, deixemos o ódio e o ressentimento em casa, vamos fazer da luta uma alegria e vamos disseminar o amor pelas esquinas da cidade e vamos mudar isto de baixo para cima, vamos partir para um novo paradigma. Pelos vistos, a mensagem colheu. Um grupo de skinheads juntou-se à marcha envergando bandeiras negras. Cito o Público: Questionados pelos jornalistas sobre que movimento representavam, limitaram-se a dizer: "somos nacionalistas”. Este grupo acabou por entrar na coluna da manifestação sem problemas. Ora, o meu coração e a minha capacidade de amar não chega para tanto. É por isso que confesso um problema insanável com os paradigmas apregoados pelo Jel e por outros que usam e abusam do termo. Sempre que ouço a malta dizer paradigma fico arrepiado, penso em Thomas Kuhn, que também não sou parvo nenhum, e convenço-me de que, afinal, estamos em tensão, os paradigmas não passam de meros momentos de descanso na contínua revolução do mundo. Que o novo paradigma seja um protesto pacífico onde ao lado de nacionalistas marcham comunistas e ao lado de comunistas marcham anarquistas e ao lado de anarquistas marcham libertários e ao lado de libertários marcham liberais e ao lado de liberais marcham democratas é coisa bonita de se ver, chega até a ser comovente, mas não me demove de um cepticismo incurável para com as putativas virtudes da humanidade. A mensagem do Jel é positiva, é alegre, vem nos livros de auto-ajuda, não propõe nada que possa vir a sustentar uma sociedade inteira. A vida na cidade é mais complexa do que as legítimas aspirações de cada um dos cidadãos permite prever. Veja-se o estado em que estamos neste preciso momento: um Governo ameaçado pela susceptível e abstracta figura dos mercados toma medidas que toda a gente diz há muito deviam ter sido tomadas. Toda a gente excepto os afectados, que ainda há pouco haviam transformado Medina Carreira num bestseller e estrela de TV, alguém que defende o triplo da austeridade que o Governo está disposto a implementar. Viram-se para onde? Para a ilegitimidade de uma austeridade monocórdica e unilateral. Afinal, são sempre os mesmos a pagar a crise. E são mesmo. O problema é que são esses mesmos que há 36 anos de democracia distribuem responsabilidades de governação por dois partidos de nefelibatas, arrivistas e nepotistas, com homens como Cavaco na cabeça do poder. Portanto, tudo isto mais não é do que a expressão da vergonha que os portugueses deviam sentir sobre si próprios. Contra isto, não há rua, amor, alegria ou luta que valha. Só mesmo uma vaga de gente enraivecida. De preferência sem racistas pelo meio.

sexta-feira, 11 de março de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #6




Não há uma única Flat Earth Society. O All Music fala-nos de uma efémera e psicadélica sociedade dos memoráveis sessentas. Esta é outra, mais recente, e floresceu nas terras da Flandres. Não é fácil abordar a genialidade de um álbum como Isms (2004), produzido por Mike Patton, o homem da frente dos Faith No More e de projectos vários tais como Mr. Bungle e Fantômas. Assim muito aos repentes convém falar de uma big band à moda antiga, tipo a Count Basie Orchestra. A energia é a mesma, ainda que as estruturas musicais sejam menos lineares, mais loucas e arrojadas, ecoando, por vezes, a bebedeira de um Jelly Roll Morton, outras vezes os desvarios de um John Zorn, ou ainda as experiências psicadélicas e alucinadas de muitas bandas de rock progressivo. Peter Vermmersch, o principal compositor deste projecto, é clarinetista. Faz-se acompanhar de uma imensa secção de sopros, uma guitarra, baixo, percussão, teclados, acordeão, etc. A variedade de instrumentos é proporcional à multirreferencialidade musical. Num só tema podemos descobrir Ennio Morricone à mesa com Louis Armstrong servidos por John Barry num cozinhado confeccionado por Frank Zappa. Desta confusão toda, a que alguns chamam experimentalismo, retiramos que a FES procura criar uma música aglutinadora e sincrética. Por vezes, o ecletismo não é o melhor conselheiro. Mas neste caso, tendo em conta o critério no doseamento dos vários elementos, ele revela-se o princípio de alienantes metamorfoses. O que para os tempos que correm me aprece muito apropriado. Diz que este foi gravado em Sines. E este também.

quarta-feira, 9 de março de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #5


Perante a união de dois monstros pouco mais há a esperar do que uma monstruosidade. Assim aconteceu em 1990, quando John Cale (ex-The Velvet Underground) se uniu a Brian Eno (ex-Roxy Music) para a concepção de Wrong Way Up, um conjunto de canções de inclinação pop que escapam à brancura detergente da maioria das composições do género. Sem desprimor para os diversos intervenientes, trata-se de um álbum alicerçado nos sintetizadores e nas primevas experiências electrónicas levadas a cabo pelo autor de Music for Films (1978). Brian Eno, com uma carreira encetada ainda na primeira metade da década de 1970, encontra em John Cale o parceiro ideal para a realização de um objecto de inspiração wharoliana. No entanto, ao contrário do que acontece com a maioria das criações pop, Wrong Way Up resiste com impressionante robustez ao vírus do tempo. Não se trata de música descartável nem de sucessos imediatos, mesmo quando assim parece. In The Backroom, por exemplo, pode ser escutado ao longo dos tempos que nunca perderá o encanto inicial. O mesmo vale para temas como Cordoba ou Crime In the Desert. São composições onde a denominada música ambiente encontra na canção de inspiração urbana o parceiro ideal para uma viagem pelas pulsações de uma nova sociedade. Às portas do final do século XX encontrávamos em fila de espera o filão ansioso da tecnologia, deixando para trás, como coisa obsoleta mas reproduzível, a matriz orgânica de onde tudo partiu. Agora os arranjos faziam a diferença. As canções de Wrong Way Up recriam uma espécie de nostalgia do futuro sem verdadeiramente serem nostálgicas, permitem-nos conjecturar a possibilidade de um dia virmos a partir as paredes do universo. Têm no âmago a universalidade dos fenómenos indescritíveis e resistem a todo o tipo de definições.

FAMÍLIA


O que se passa cá dentro não deve passar lá para fora. E assim se defendem as maiores vigarices.

CARNAVAL

Camarada Van Zeller, hoje dirijo-me-lhe na qualidade de elemento pertencente a essa terrível geração que ficou classificada de rasca para a história recente do meu país. Quem for melhor que atire a primeira pedra. Talvez o Vicente, a barata tonta que assim nos rotulou para mais tarde vir declarar que entre as várias asneiras na vida que cometeu a de ser deputado pelo PS foi a maior de todas. Eu andei nas primeiras fileiras das barricadas contra a PGA, levei com um cacete nas trombas, fiz a Prova e aprendi o significado da palavra misantropo. Depois entrei no mercado de trabalho. Devo dizer que foi o pior erro que cometi na vida e estou mesmo convencido de que ser deputado do PS não teria sido pior. Trabalhei durante 10 anos a recibos verdes, cumprindo horários, marcando presença em reuniões obrigatórias, planificando acções de formação e aulas. Fi-lo na plena consciência de que estava a ser explorado, mas carregar com baldes de cimento às seis da manhã nunca me pareceu solução vantajosa. Ademais, acrescente-se que o fiz para uma instituição de caridade sem fins lucrativos. A Igreja Católica Apostólica Romana não é outra coisa. Se trabalhei para eles, ou para uma escola deles, nessas possíveis condições, foi porque eles mais não podiam proporcionar-me. E muito preocupados estavam com o meu futuro, a minha família e a estabilidade social das pessoas em geral (quando me propuseram fazer o mesmo nas instalações da CGTP as condições não eram diferentes, mas as salas eram mais frias). Pelo que sei, com o passar dos anos, a péssima gestão de um indivíduo sem escrúpulos levou a escola à falência. A ICAR, preocupada com a família da nobre criatura, encarregou-se de lhe arranjar novo pousio. Não me consta que alguma vez tenha sido incompetente a recibos verdes. Agora uma geração depois da minha, dita à rasca, o que denota progresso e evolução, pois de simplesmente rasca para comovidamente à rasca vai uma considerável melhoria, vem manifestar-se por ter licenciaturas que para nada servem, por ser precária e flexível, por andar com o pescoço pendurado à verdura dos recibos. Estou solidário com todos eles e acho que fazem muito bem em manifestar-se. Só peço que o façam longe da Rua José Tanganho, que eu ando muito sensível ao ruído e com os sonos perturbados. O mais é o que vossa excelência sabe, hoje esteve um belo feriado de trabalho. A ordenado mínimo e prestigiosa licenciatura. Valha-nos isso.

terça-feira, 8 de março de 2011

AGIO

Publicada pela Artefacto, editora patrocinada pela Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, a Agio afirma-se, nas palavras de um dos seus directores, como uma «publicação situada nas margens, mas com o propósito de contribuir, à sua medida, que será sempre definida pelos seus leitores, para a dilatação dessas margens». Tratando-se de uma revista de literatura especialmente inclinada para um género literário, a poesia, subentende-se nas palavras de Paulo Tavares, senão a ambição, pelo menos o desejo de alargar o público da criação poética. Nada a contrapor. No entanto, na nota introdutória deste primeiro número, o mesmo Paulo Tavares afirma que «na génese da Agio não há uma ideia de ruptura ou de inovação a todo o custo». Talvez fosse muito pedir tais custos, mas nunca é demais esperar de uma revista nova a ousadia de, pelo menos, propor algo de novo. E, nesse sentido, apenas nesse sentido, a Agio mostra-se, para já, algo débil e até previsível.

A organização dos conteúdos é claramente convencional. Um primeiro conjunto com poemas de autores da casa (Sara M. Felício, Soledade Santos, Hugo Milhanas Machado, Daniel Francoy, Luís Felício) em ameno convívio com poetas de algum modo reconhecíveis (Miguel-Manso, Nuno Dempster, Margarida Ferra) e outros não tão badalados (João Silveira, Gabriel Machado, Luís Norte Lucas, Adair Carvalhais Júnior e Joel Henriques). Segue-se um conjunto de ensaios (talvez fosse mais adequado chamar artigo ao texto de Jorge Martins Rosa) e, a finalizar, duas entrevistas: a primeira a um dezedor, a segunda a um poeta. Mesmo deixando de lado a estrutura monótona, torna-se evidente que para não ser mais do mesmo a Agio terá de evoluir numa outra direcção, porventura mais destemida e afirmativa. Já vai sendo tempo de aparecer algo com o propósito da novidade e da ruptura.

Havendo diferentes pontos de interesse em cada uma das secções, cabe-nos chamar a atenção para os poemas de Sara M. Felício, dos quais Aos Poucos a Vida é um excelente exemplo de uma poesia ponderada sem o fastio da prostração reflexiva nem o contorcionismo de pueris efeitos irónicos tão em voga na actualidade. De Soledade Santos, Still Life With Cat e Não Sou Paciente são surpreendentes rasgões na sobriedade que caracteriza o tom geral do primeiro livro, Sob os teus pés a terra. Vale a pena citar o primeiro:

STILL LIFE WITH CAT

Passa uma musiquinha triste
na rádio. A gata dorme — o aconchego
da melodia casa vazia
uma cesta e o girassol amarelo
é quanto lhe basta para ser feliz.
Eu não me contento com tão pouco,
um girassol amarelo a musiquinha
uma cesta, tem mais do que eu
a gata, não espera nada e tem
me a mim também.


No campo do ensaio pouco há a reter. O texto de Ricardo Marques, intitulado Realidade, Linguagem e O(u)tras Sentimentalidades, limita-se a revisitar alguma da poesia espanhola do séc. XX sem verdadeiramente fazer aquilo a que se propõe: perceber as ideias, as diferenças e as semelhanças que Espanha e Portugal apresentaram no decorrer do século passado. António Carlos Cortez oferece-nos uma conferência proferida no âmbito do Ciclo Imagem e Pensamento II — Pierre Klossowski e os Poderes da Imagem (29 de Maio de 2010), onde a poesia de Césario Verde é lida à luz da obra pictórica do artista francês. Exercício exegético algo fastidioso, apoiado nos estudos de Helder Macedo, que mais facilmente espanta o público da poesia do que o cativa. Bem diferente é o artigo de Jorge Martins Rosa, chegando inclusive a contrastar com a prosa anterior na sua defesa de uma literatura menosprezada e dita não-erudita, ou escapista, por ainda não ter tido tempo para cair nas graças da academia.

A fechar, as entrevistas. Luís Lucas e Luís Quintais falam dos seus percursos. Um como leitor de poesia, o outro como poeta. A entrevista a Luís Quintais é um momento interessante de argúcia na análise sumária que o poeta faz sobre a actualidade - «Os mais novos parecem-me quase todos iguais» -, assim como uma rara demonstração de sentido autocrítico - «A Imprecisa melancolia, o meu livro de estreia, é um belo livro». E mais não se pode concluir: «A poesia é inútil, como se sabe. Isso agrada-me». Palavra do poeta.

POLÍTICA DE SUCESSO

Terminado o debate, pressentidas as consequências, rapidamente se concluiu que, por estes tempos, a única licenciatura em que valia a pena investir para uma carreira profissional de sucesso era a Licenciatura em Conquistar Simpatias. É sucesso garantido.

Só só entre a noite e a morte
Andando no meio da eternidade
Comendo fruta no meio do vazio

A noite A morte
O morto recém-plantado no infinito
A terra vai a terra volta

Só com uma estrela pela frente
Só com um grande canto dentro e nenhuma estrela pela frente

A noite e a morte
A noite da morte
A morte da noite rondando pela morte

Tão longe tão longe
O mundo é levado pelo vento
E um cão uiva do infinito em busca da terra perdida


Vicente Huidobro
La Nación, Buenos Aires, 1932
Versão de HMBF

segunda-feira, 7 de março de 2011

HOMENS DA LUTA

Os homens da luta têm piada. Tinham mais, no início; como tudo o que se repete, o que é demais enjoa. Não há que fazer ciência acerca do fenómeno. Corremos o risco de cair no mesmo erro gerado por meteoritos humorísticos anteriores, do Herman da Última Ceia aos Gato Fedorento do Marcelo pró-vida. Não esperem milagres de quem só busca o seu pilim. Quanto a votações em concursos de TV estamos falados, o povo tanto vota no Salazar para figura portuguesa de sempre como nos Homens da Luta para palhaços do circo actual. Ainda há dias o povo podia ter dado expressão à luta votando massivamente em branco ou nulo ou no Coelho... O povo preferiu ficar em casa. É sempre assim quando o assunto é sério.

sábado, 5 de março de 2011

ERA DE FAMÍLIA

Pierre Klossowski (August 9, 1905—August 12, 2001) was a French writer, translator and artist. He was the eldest son of the artists Erich Klossowski and Baladine Klossowska, and his younger brother was the painter Balthus.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #4



De ascendência grega, Diamanda Galás tornou-se conhecida por uma voz poderosíssima colocada ao serviço de performances macabras e lúgubres. Não admira que Francis Ford Coppola a tenha convocado para uma incorporação vocal das servas do demo em Drácula de Bram Stoker. Estreada nos palcos do Inferno em 1979, foi adquirindo junto da comunidade gótica/satânica, e não só, um respeito que se justifica pela pujança impressionante dos seus exorcismos. The Litanies of Satan (1982) anunciou uma vocação poética inspirada em Baudelaire, Milton e noutras mentes perversas com ligações obscuras às forças do mal. Plague Mass, gravado ao vivo em Outubro de 1990 na Catedral de St. John The Divine, numa actuação que causou polémica e furor, encerrou um ciclo dedicado à exorcização dos temores espoletados pelo aparecimento daquela que ficou conhecida como a epidemia do séc. XX: SIDA. A letra de Were You a Witness, o primeiro tema do álbum, revela uma postura cínica, mas sólida nas suas convicções. There are no more tickets to the funeral / The funeral is crowded são versos de um cinismo atroz que dificilmente passaria despercebido. O tom de lamento desaparece sob um exercício de expugnação dos demónios, ao som de salmos e de citações bíblicas que adquirem na voz de Diamanda Galás e nos ínfimos acompanhamentos musicais que a acompanham uma intensidade dramática inquietante. Às tantas, é difícil perceber se estamos a ouvir o corpo possuído de uma mulher aos berros ou a enérgica concentração de forças de um curandeiro em transe. Há quem diga que há por ali ecos de fado e de gospel, mas eu não vou tão longe. Para mim é antes a transfiguração dramática de um processo sacrificial, se é que me faço entender. O último tema é redentor.

quinta-feira, 3 de março de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #3


Tenho para mim que nenhuma época terá sido tão agradável para as pessoas deprimidas como o início da década de 1990. Estou mesmo convencido de que por esses anos as pessoas deprimidas andaram todas muito felizes. Sustento a tese num facto inquestionável que foi a proliferação de bandas deprimentes por essa altura, bandas que faziam as delícias dos urbano-depressivos, dos ruralo-melancólicos, dos ruralo-urbano-elegíacos, etc… Para tal muito contribuiu o aparecimento de um subgénero baptizado de neo-country, colados ao qual foram fazendo carreira diversos projectos tais como Tarnation, Red House Painters, Palace (nas suas múltiplas encarnações), Mazzy Star, The Walkabouts ou mesmo Tindersticks. Nos subterrâneos desta coisada toda, aquilo que ficou para a história como sadcore (slowcore na sua variante pop). A designação não é programática, pretende apenas classificar a estrutura lentíssima, hipersensível e desconsolada das canções. Levado à letra, o sadcore está para o rock alternativo como o cansaço para a vida quotidiana. Os Low foram a versão mais radiofónica do género, mas coube aos nova-iorquinos Codeine, cuja designação revela toda uma identidade, a concretização de um dos melhores registos fonográficos nesse contexto deprimente. Melhor que este The White Birch e antes dele só mesmo os álbuns dos Galaxie 500. Uma curiosidade interessante é a participação de David Grubbs em alguns temas deste álbum, o mesmo Grubbs dos Bastro ou dos Gastr del Sol de Jim O’Rourke. Grubbs tem um álbum a solo muito porreiro intitulado Rickets & Scurvy (2002). A modos que isto anda tudo ligado e em 1994 a Sub Pop, primeira editora dos Nirvana, materializou o segundo e último álbum dos Codeine. Aqui e acolá, algumas explosões de energia não renegam o espírito geral deste disco, resumido no verso final do tema Tom: I need a reason to smile. Ei-lo:


terça-feira, 1 de março de 2011

PUBLICIDADE

Recebo na solicitação publicitária a seguinte consideração: «o blogue "Antologia do Esquecimento" é uma referência a nível nacional». Outros terão recebido o mesmo que eu. Sucede que eu fico deprimido com tais considerações. Ainda ontem, passando os olhos pelo Prós & Contras, eu só pensava por que me castigou deus nosso senhor fazendo-me cidadão português. Referência a nível nacional? Preferia apanhar gonorreia.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #2


Não tenho a certeza, mas julgo ter sido o Paulo Kellerman quem me falou deles pela primeira vez. São noruegueses e surgiram em 1992, no mesmo ano em que eu migrei para Lisboa à procura de me enforcar durante uma aula de Axiologia e Ética. Felizmente escapei ileso, tive o bom senso de faltar às aulas. Geir Jenssen, o homem por detrás da cortina, tocou com os Bel Canto e manteve projectos que raramente emergiram da obscuridade. A influência de Brian Eno é a mais evidente, mas como Biosphere Jenssen conseguiu uma identidade rara em projectos de música electrónica. Diria que os Biosphere estão para a música electrónica como Steve Reich para o minimalismo. Isto é uma coisa parva de ser dita, mas não me ocorre comparação alternativa. Shenzhou, o álbum de 2002, parte da música de Debussy para construir algo verdadeiramente hipnótico. As paisagens são ao mesmo tempo, e numa mesma escala, terríficas e serenas. É uma estranheza passível de ser sentida se acompanharmos um licor de castanhas com tostas imbuídas em azeite virgem. Aqui e acolá, ligeiríssimas variações sobre lençóis de música estática e repetitiva lembram-nos experiências tão enriquecedoras como um seixo deslizando sobre as águas de uma lagoa, uma pena de pombo levantada pela brisa, o vídeo da dança do saco de plástico em American Beauty. Às vezes, ao ouvir Shenzhou, lembro-me da poesia chinesa e da sua agradável monotonia. Mas depois o verde dos campos e o branco da neve transformam-se em barro e do barro surdem escorpiões sonâmbulos que espetam os ferrões em si próprios só para aquietarem os corações desassossegados. Deixo um pitéu de entrada:


domingo, 27 de fevereiro de 2011

LAGOA DE ÓBIDOS

Estou demasiado colado às imagens de Herta Müller para que as palavras me façam justiça. Finto as imagens com outras imagens, concretas, irreproduzíveis mesmo em opção panorâmica. Por dentro, as imagens boiam sobre o sangue como os patos bravos sobre as águas escuras da lagoa. Há pescadores nas margens que dão banho aos iscos. Trazem os cães, enrolam cigarros, bebem umas cervejas com o tempo a pôr-se em lugar expectável. As filhas aprendem a saltar à corda, eu faço a digestão ao polvo deitado em batata-doce com salada de beringela.

Arrumei as canas que não tenho no armário das intenções adiadas, mesmo ao lado de uma cabeça que me dói e de um coração ferido pelo orgulho. Uma antiga namorada, coisa de 20 anos, (re)descobre-me e sugere conversa. Na última vez que me lembro de a ter visto olhou para o lado. Foi há tanto que já nem me lembrava. Agora tenho ali o caminho à minha espera, vai dar à foz. Mesmo voltando para trás, com o livro da Herta Müller debaixo do braço, é para a frente que olho. Um dia, podes ter a certeza, hei-de aprender a ser feliz.

REALPOLITIK

Camarada Van Zeller, o amigo Khadafi anda metido em maus lençóis. Vai daí, assiste-se em Portugal a uma acentuada precipitação de fotografias do líbio ao lado de puros sangue lusitanos. Sem que nos seja perceptível quem monta quem nos apertos de mão da chamada realpolitik, ficámos curiosos. A quem não terá Khadafi apertado a mão nestes anos todos de poder? A Mandela? A Chávez? A Lula? A Obama? A Sarkozy? A Putin? A Berlusconi? A Castro? A Blair? É ir às imagens do google e tentar a má sorte. Facilmente se verificará que um camelo nunca está só.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A CIDADE LONGÍNQUA

Também com tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, A Cidade Longínqua é a segunda aposta da Ovni num poeta catalão. A primeira foi em Casa da Misericórdia, de Joan Margarit. Màrius Torres (1910-1942) nasceu em Lleida. O pai era médico de profissão, embora tenha ocupado diversos cargos políticos. A mãe, professora, faleceu em Março de 1928, quando o poeta era ainda um jovem. Màrius seguiu as pegadas do pai e acabou por se formar em medicina. Realizado o doutoramento em Madrid, regressou a Lleida e contraiu tuberculose. Internado no sanatório de Puig d’Olena, resolveu então ocupar parte do tempo que lhe restava a escrever poemas. Deixou-nos uma obra breve, intensa, que apenas veria a luz do dia 5 anos passados sobre a sua morte. No prólogo, os tradutores desta antologia delimitam os «eixos que percorrem o conjunto da sua obra: a morte, a guerra, o amor, a música e a espiritualidade». Tendo os poemas nascido num ambiente fatídico, não é de admirar que aparentem frequentemente uma consciência lúgubre da vida: «Tenho preguiça de ainda viver amanhã… / Mais do que a dor sofrida, magoa-me / a dor que se prepara, a dor que me espera…» (p. 27). A morte acaba por ser o tema essencial, aqui e acolá adiado por delicadas evocações de Händell, Mozart, Corelli, Schumann e Couperin. A música surge então como uma arte à qual se ligam as palavras. Metáfora da própria existência, ela acompanha os derradeiros gestos como banda sonora de um peito carregado de angústias e incerteza, mas também como motivo de reflexão e auto-exame: «Sou tantas vezes como uma corda bamba e vencida / que vibra mal! / Com um ritmo pesado, embaraçoso e lento, / átona, corrompida, / corda desafinada, a minha alma mente. / Quantas vezes a quis muda / para não ouvir a música falsa do seu tom!» (p. 31). Vários poetas são citados: Milton, Baudelaire, Blake, Musset, Pascoaes, Joan Sales. E é nestes diálogos que, muitas vezes, os poemas de Màrius Torres realizam uma autópsia das debilidades humanas. Veja-se, a título de exemplo, este soneto que tem por mote um verso de Alfred de Musset:


Eu disse ao meu coração, ao meu pobre coração:
─ Não tens vergonha da tua fraqueza?
A glória, o amor, a pândega, o ouro,
não saberão tentar a tua preguiça?

Eu disse ao meu coração, ao meu pobre coração:
─ Odeia, fere, embriaga-te, beija,
bate mais forte, grande cobarde, ou morre
para sempre de desgosto e tristeza.

Ou talvez já estejas morto, tu, que nem sabes o que vale
o canto de um alaúde, o estouro de um punhal,
uma clara noite, uma rosa terna?

E o meu pobre coração, o meu coração disse-me:
─ Para quê dar mais cinzas ao esquecimento?
E, velho, sorriu-me, sem perceber nada
.

Portanto, o que eventualmente pudesse existir de lírico, romântico ou mesmo simbólico nestes poemas é adulterado por uma reflexividade implacável acerca das determinações a que a existência de um ser humano se vê reduzida nos limites da vida. Mesmo quando se aventuram pelos caminhos do amor, como acontece nas magníficas Canções a Mahalta, dedicados a Mercé Figueres, a companhia mais presente na vida de Màrius Torres durante a estadia no sanatório de Puig d’Olena, os versos revelam uma espiritualidade ambígua, nublada, como uma espécie de pressentimento do olvido a que está condenada toda e qualquer existência. Entre outros, sobressai mais este soneto, forma a que o poeta recorreu frequentemente com inegável mestria:

PRESENÇA

Como se as tuas mãos sobre os meus olhos ainda
pudessem, como antes, deter-se com amor,
gosto de fechar os olhos quando penso em ti. Sonora,
a tua lembrança move-se na penumbra clara…

Volto a ouvir os teus passos lá longe, na luz.
Meço, em tom e ritmo, a distância.
Agora, deténs-te perto. Aspiro, rosa rançosa,
uma rajada ardente do teu antigo perfume!

As lembranças, os sentidos, toda a minha vida,
calam-se perante a angústia vigilante do ouvido
que te persegue no silêncio onde te recolhes.

Se agora esticasse os braços na escuridão, ainda
poderia amparar-te, sonho de cada dia.
Mas já não estarás aqui quando eu voltar a abrir os olhos
.

O que nos remete para uma invocação da mãe perdida termina em reflexão sobre a natureza do estar. Esta presença ausente, aplicável a várias circunstâncias e materialmente indefinível, é a matéria da própria memória, assim como, ao fim e ao cabo, o alimento do esquecimento a que todos estão irremediavelmente destinados. A espiritualidade que emana desta poesia tem a tristeza e o encanto do condenado, sugere uma ambivalência que ora pende para uma esperança repleta de dúvidas, ora se inclina para a saudade do nunca vivido: «Gosto tanto da minha saudade, / que, se ao país que choro, / um anjo me quisesse guiar repentinamente, / diria ao anjo: espera, espera um momento, / agora não posso ir, não vês que estou a morrer?» (p. 147) Eventuais ecos de Pascoaes com a saudade pronunciada em catalão: enyorament (um enamoramento melancólico?).
O Huidobro disse: é preciso mudar o céu de lugar.
A Beatriz retorquiu: este chão está estragado.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

UMA METÁFORA



Por outro lado, há uma metáfora curiosa no filme. O início da trama dá-se com uma descoberta macabra, um coração humano a entupir uma sanita. No final, Okwe e Senay despedem-se dizendo um ao outro, em silêncio e à distância, que se amam. É como se tivessem recuperado os corações que lhes haviam transplantado. De um modo metafórico, claro está, mas muito realista.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

ESTRANHOS DE PASSAGEM


Dirty Pretty Things tem um problema que é fatal em muitos filmes, a superficialidade com que uma grande dispersão de temas complexos se cruzam sem que daí possa retirar-se algo de verdadeiramente perturbador. Imigração ilegal, tráfico de órgãos humanos, conflitos inter-raciais, exploração de trabalho clandestino são assuntos demasiado pesados para um objecto tão frágil como o filme de Stephen Frears. Longe da comovente sobriedade de The Van, este filme apenas ganha algum interesse quando a relação entre os protagonistas, uma imigrante turca interpretada pela francesa Audrey Tautou e um imigrante nigeriano, se revela inviável não por culpa das contingências sócio-culturais das personagens mas pelo passado que persegue uma delas. Se o filme aponta constantemente para um futuro onírico dificilmente concretizável, a realidade mostra-se muito mais dura quando o presente se vê barrado pela inexorabilidade do passado. No final resta a imagem de uma Londres degradante e inóspita.

TESÃO DE MIJO AO CUBO

1. Os entusiastas das revoluções no mundo árabe fartam-se de fazer comparações com Portugal. Nos blogues. Nas ruas não os vejo.



2. Isto há-de chegar cá, dizem-me. Penso logo em Teixeira de Pascoaes e no nosso eterno sebastianismo. Sucede que D. Sebastião não há e Passos Coelho é mais do mesmo.


3. Acabei de ouvir um cidadão anónimo afirmar que começa a acontecer por cá o que vai acontecendo pelo mundo árabe. E deu como exemplo os confrontos de ontem entre uma claque de futebol e a polícia. Portanto, podem os historiadores registar os factos: a revolução começou no Alvalade XXI e os revolucionários são um bando de energúmenos vestidos de verde e armados com cadeiras que desconfiam que o Bahrein seja um avançado turco, o Iémen a moeda marroquina e a Líbia um bairro em Chelas.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

PAIXÃO E MORTE

Senhor, hoje é o aniversário da tua morte.
Há mil novecentos e vinte e seis anos estavas tu numa cruz
Sobre uma colina repleta de gente.
Entre o céu e a terra os teus olhos eram toda a luz.
Gota a gota sangraste sobre a história.
Desde então um rubro regato atravessa os séculos regando a nossa memória.

As horas passaram diante da ombreira extra-humana.
O tempo ficou cravado com os teus pés e as tuas mãos.

Aqueles martelos ainda ressoam,
Como se alguém batesse às portas da vida.

Senhor, perdoa-me se te falo numa língua profana,
Mas de outro modo não poderia falar-te pois sou essencialmente pagão.

Se por acaso fores Deus, venho a pedir-te uma coisa
Em versos rimados com cansaços de prosa.

Há no mundo uma mulher, quiçá a mais triste, sem dúvida a mais bela,
Protege-a, Senhor, sem vacilar; é ela.

E se realmente fores Deus e puderes mais que o meu amor,
Ajuda-me a guardá-la de todos os perigos, Senhor.

Senhor, estou a ver-te com os braços abertos.
Quiseras abraçar todos os homens e todo o universo.

Senhor, quando dobraste a tua cabeça sobre a eternidade
As pessoas não sabiam se era dos teus olhos que brotava a obscuridade.

As estrelas desapareceram uma a uma em silêncio
E a lua não tinha como esconder-se atrás dos outeiros

Rasgaram-se as cortinas do céu
Quando a voar tua alma passou

E eu sei o que então se viu; não foi uma estrela,
Senhor; foi a cara mais bela,
A mesma que agora mesmo verias
Se rasgasses a carne do meu peito.

Como tu, Senhor, tenho os braços abertos esperando por ela.
Assim lho prometi e me cansam tantos séculos de espera.

Caem-me os braços sobre a terra como crucifixos partidos.
Não poderias, Senhor, adiantar a hora?

Senhor, na noite do teu céu passou um meteorito
Levando um seu voto e o seu olhar até ao fundo do infinito.
Até ao fim dos séculos continuará rodando nosso anseio ali escrito.

Senhor, agora estou doente de verdade
Uma insuportável angústia mastiga-me o peito.
E esse meteorito assinala-me o caminho.
As nossas vidas amarrou num só destino.
Entrelaçou-nos a alma melhor que uma qualquer aliança.

Senhor, ela é débil e ténue como um ramo de soluços.
Olhá-la é uma vertigem de estrelas no fundo de um poço.

Os rouxinóis do delírio cantavam nos seus beijos,
Enchia-se de febre o tubo dos ossos.

Alguém plantou na sua alma vis ervas de dúvida e já não crê em mim.
Prova-me que és Deus e no máximo em três dias leva-me daqui.

Quero evadir-me de mim mesmo.
O meu espírito está cego e rodopia entre planetas cheios de cataclismos.

Também a minha vida sangra sobre a neve,
Como um lobo ferido que faz a noite tremer cada vez que se move.

Estou crucificado sobre todos os morros.
Uma coroa de espinhos crava-me o coração.

As lanças dos seus olhos ferem-me as costelas
E um ribeiro de sangue sobre o silêncio dir-te-á que passei.

Faz agora uns quantos meses, Senhor, abandonei a minha velha Paris,
Um estranho destino trazia-me a sofrer no meu país.

Faz frio, faz frio. O vento empurra o frio sobre os nossos caminhos
E os astros enrolam a noite girando como moinhos.

Senhor, pensa nos pobres imigrantes que vieram até à América de ouro
E encontraram um sepulcro em vez de caixas de tesouros.

Eles impregnam as ondas com o ritmo dos seus cantares.
A tempestade das suas almas é mais horrível que a de todos os mares.

Vê como choram pelos seres que não mais verão;
Gritam-lhes na noite todas as coisas que para trás deixaram.

Senhor, pensa nas pobrezitas que sofrem ao humilhar a carne,
As novas Madalenas que hoje choram a dor da tua madre.

Agachadas ao fundo da angústia da sua absurda Babel,
Bebem lentamente grandes copos de fel.

Senhor, pensa nas espirais dos naufrágios anónimos,
Nos sonhos truncados que se quebram em pedaços de asteróide.

Pensa nos cegos com as pálpebras cheias de música, choram pelos olhos do seu violino.
Eles esfregam os seus arcos sobre a vida numa amargura sem fim.

Senhor, vi-te sangrando nos vitrais de Chartres
Como mil borboletas que fazem os sonhos partir.

Senhor, em Veneza vi o teu roso bizantino
Num dia em que o ar se rompia de beijos e vinho.

As gôndolas passavam cantando como ninhos
Entre ramos de ondas, levando o nosso sorriso até ao Lido.

E tu ficavas sozinho em São Marcos, aspirando as selvas de orações
Que crescem a teus pés em todas as estações.

Senhor, vi-te num ícone, obra de um monge sérvio que ao pintar os teus espinhos
Sentia a alma repleta de andorinhas.

Que significas tu na história do mundo?
Há ano e meio discuti este tema num café de Moscovo.

Um sábio russo não te dava grande importância.
Eu dizia ter acreditado em ti durante a infância.

Uma bailarina célebre pela sua beleza
Dizia que tu és somente um conto de tristeza.

Todos te negaram e não consta que um galo tenha cantado.
Talvez Pedro, escutando-nos, tenha chorado.

E ao fundo de uma velha Bíblia o teu sermão da montanha
Continuava ressoando de uma maneira estranha.

Senhor, também eu tenho uma vida dolorosa, minhas recaídas e minha paixão;
Saltando meridianos como um tigre ferido, sangra e uiva o meu coração.

Reina o amor em todas as suas esplêndidas catástrofes internas,
Mil rubis trovejam no fundo do cérebro
E as plantas do desejo bordam o ar destas noites eternas.

Poeta, poeta escravo de aventuras e de algum sortilégio,
Como tu suporto a vida, o maior sacrilégio.

Senhor, a única coisa que vale na vida é a paixão.
Vivemos para um ou outro momento de exaltação.

Abre-se a meus pés um precipício de suspiros; detenho-me e vacilo.
Logo como um sonâmbulo atravesso o mundo em equilíbrio.

Senhor, que te importa o que digam os homens. Ao fundo da história
És um crepúsculo pregado a um madeiro de dor e de glória.

E o regato de sangue que brotou das tuas costelas
Ainda, Senhor, não foi estancado.


Vicente Huidobro, poema publicado originalmente na primeira página de La Nación (Santiago de Chile, 2 de Abril de 1926). Versão caseira do HMBF.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

BIBLIOTECA PÚBLICA DE LA CIENEGA


Descobri a Biblioteca Pública de La Cienega. Arranjei um cartão. A biblioteca ficava perto da velha igreja da West Adams. Era uma biblioteca muito pequena e só tinha uma bibliotecária. Ela tinha estilo. Tinha perto de 38 anos mas com um cabelo do mais puro branco puxado para trás e preso num totó. O nariz era esguio, tinha olhos verdes profundos e usava óculos sem aros. Parecia que conhecia tudo.
Andei pela biblioteca à procura de livros. Tirei-os das estantes, um a um. Mas eram equívocos. Eram muito aborrecidos. Havia páginas e páginas que não diziam rigorosamente nada. Ou se diziam alguma coisa demoravam muito tempo a dizê-lo e quando o diziam já estava cansado para que importassem alguma coisa. Experimentei um e outro livro. Certamente que, de todos aqueles livros, tinha de existir
um.
Todos os dias eu ia até à biblioteca na Adams com a La Brea e lá estava a minha bibliotecária, inflexível e infalível e silenciosa. Continuava a tirar livros das estantes. O primeiro livro de jeito que encontrei foi de alguém chamado Upton Sinclair. As frases eram simples e falava com raiva. Ele escrevia com raiva. Escreveu sobre os matadouros de Chicago. Dizia as coisas de forma clara e sem artimanhas. Depois encontrei outro autor. Chamava-se Sinclair Lewis. E o livro chamava-se
Main Street. Ele desmontava a hipocrisia inerente às pessoas. Mas faltava-lhe paixão.
Voltei lá para buscar mais. Lia cada livro numa só noite.
Um dia andava por lá à procura, e a espreitar a minha bibliotecária, quando encontrei um livro com o título
Bow Down To Wood and Stone. Bem, aquilo é que era bom, porque era isso que andávamos todos a fazer. Finalmente, algo de jeito! Abri o livro. Era de Josephine Lawrence. Uma mulher. Não havia problema. Aprende-se com toda a gente. Abri o livro. Mas era como muitos outros: pastoso, obscuro, cansativo. Voltei a colocá-lo na estante. E enquanto a minha mão por lá andava agarrei num livro que estava perto. Era de um outro Lawrence. Abri o livro e comecei a ler. Era sobre um homem que tocava piano. Ao início parecia pretensioso. Mas continuei a ler. O homem que tocava piano tinha problemas. A sua mente dizia coisas. Coisas obscuras e curiosas. Cada linha do livro era firme, como um homem a gritar, mas não gritava «Joe, onde estás?» Era mais Joe, onde está tudo? Este Lawrence era certeiro. Nunca tinha ouvido falar dele. Porquê? Por que razão não era publicitado?
Li um livro por dia. Li todos os livros de D.H. Lawrence que havia na biblioteca. A minha bibliotecária começou a olhar para mim de uma maneira estranha enquanto eu registava os livros.
«Como estás hoje?» perguntava.
Soava sempre bem. Parecia que já tinha ido para a cama com ela. Li todos os livros de D.H. A eles seguiram-se outros. Seguiram-se H.D., a poetisa. E Huxley, o mais novo dos Huxleys, amigo de Lawrence. Vieram todos ter comigo. Um livro deu lugar a outro. Dos Passos também apareceu. Não era muito bom, mas era suficientemente bom. A sua trilogia sobre os Estados Unidos demorou mais do que um dia para ler. Dreiser não me encheu as medidas. O Sherwood Anderson, sim. E depois apareceu Hemingway. Que maravilha! Esse sim sabia como escrever uma frase. Era uma alegria. As palavras não aborreciam, punham-me a cabeça a latejar. Se o lêssemos e nos deixássemos levar pela magia, conseguiríamos viver sem dor, com esperança, acontecesse o que acontecesse.


Charles Bukowski, in Ham on Rye – Pão com Fiambre, trad. manuel a. domingos, Ulisseia, Setembro de 2010, pp. 187-189.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

HAM ON RYE

O ano que passou foi especialmente agradável para os bukowskianos. Em Abril a Antígona publicou Correios, o primeiro romance de Charles Bukowski (1920-1994), originalmente editado em 1971, com tradução de Rui Lopes e prefácio de Gerald Locklin. Em Setembro, a renovada Ulisseia lançou, com tradução de manuel a. domigos, aquele que é considerado por muitos o melhor romance do velho Buk: Ham on Rye (1982), título de tradução impraticável que a versão portuguesa acolheu num mais literal, mas porventura menos feliz, Pão com Fiambre. (Abra-se, desde já, o parêntesis: não deixa de ser irónico que uma escrita tão literal comece logo por criar problemas no título de um livro.) Se tivermos em conta que, até à data, apenas havíamos merecido em língua portuguesa um dos romances do autor, mais concretamente Mulheres (1978), vertido para português por Fernando Luís sob selo da Dom Quixote, é de saudar esta inflação de romances bukowskianos nas prateleiras das livrarias portuguesas. Apesar do eco cibernético que estas edições mereceram, a imprensa oficial, que está para os livros como o jornal A Bola para os jogos do Benfica, não fez grande caso. Salvo raríssimas excepções, uma nota de rodapé aqui, outra acolá, foi tudo o que pudemos ler de apontamento crítico sobre a primeira edição portuguesa de Ham on Rye.

Matemos, desde já, o assunto da tradução: podia estar melhor se tivesse sido acompanhada de uma revisão digna desse nome. Deixando de lado as cada vez mais frequentes e irritantes gralhas das traduções portuguesas, há opções que deixam muito a desejar. Por exemplo, a proliferação de pronomes pessoais em frases ou parágrafos que os não justificam. Sabemos que em língua inglesa eles estão lá, mas no português podem ficar implícitos tornando a escrita mais natural e libertando a leitura de solavancos desnecessários: «Ela usava uma elaborada peruca branca. Ela dava-nos reguadas frequentemente quando pensava que estávamos a ser desobedientes. Acho que ela nunca ia à casa de banho» (p. 31). Noutras ocasiões a tradução de expressões coloquiais coloca problemas de repetição igualmente evitáveis: «Era mais ou menos um ano mais velho do que eu e não era da minha escola» (p. 54). E há situações que configuram desatenções gramaticais ou de concordância que dificultam a percepção das frases: «Conseguia-o ver deitado no passeio…» (p. 250), «O vosso salário é de quarta e quatro cêntimos e meio à hora» (p. 259), «Bem, um ou dois tinham funcionado – para mim – mas pareciam que tinham sido guiados em vez de fazerem o caminho sozinhos» (p. 289).

A literalidade da escrita de Bukowski merece uma atenção redobrada. A sua prosa, tal como os seus poemas, minam-nos consecutivamente o terreno. Há uma tendência para o lermos com a pressa que o próprio ritmo da narrativa nos imprime, mas essa tendência corre o risco de resvalar para uma superficialidade que nada tem que ver com o carácter essencial do que está escrito. É muito frequente, por exemplo, vermos os livros de Charles Bukowski reduzidos a meros retratos de uma vida decadente perdida num turbilhão de aventuras com mulheres, pancadaria, álcool, jogos de azar e trafulhices várias. Em Ham on Rye, o romance que recupera os tempos de juventude do alter-ego Henry Chinaski, todo esse ambiente está afundado debaixo da opressão social característica da Grande Depressão. Deus, pátria e família, à moda americana, com esta última sentada em torno de uma mesa onde a palavra frustração adquire o peso das expectativas defraudadas e das ambições esmorecidas: «Então, é isso que eles querem: mentiras. Mentiras bonitas. É disso que precisam. As pessoas eram ridículas» (p. 101). Encontramos ao longo do romance as raízes de uma solidão enraivecida que afluiu no sentido da indiferença e da desistência social, por se tornar insuportável uma convivência com a mentira e se ansiar pela genuinidade das coisas.

Não é de estranhar que Charles Bukowski tenha ocupado tantas páginas com as ilusões da família ─ «Vínhamos todos de famílias vítimas da Depressão, estávamos mal alimentados, mas mesmo assim tínhamos crescido e ficado fortes. Penso que a maioria era pouco acarinhada pela família, mas também não pedíamos carinho ou mimo a ninguém. Éramos uma anedota mas as pessoas pensavam duas vezes antes de se rirem de nós» (p. 112) ─ e a inutilidade da instituição escolar. O que aqui se revela é uma emergência para a ruptura com essas instituições, ao mesmo tempo que se afirma um repúdio para com as vidas entediantes da maioria e a mais completa incompetência para a adaptação social. Quando olha para si próprio, aquilo que o jovem Chinaski vê oscila entre uma necessidade de afirmação e a mais brutal das constatações. Nesta prosa, «as tripas cheias de merda», a acne, a hilaridade com que as situações mais abjectas nos são relatadas, não busca a mínima complacência humorística do leitor, são provas factuais da debilidade essencial dos homens. Daí que a grande surpresa seja um «gajo tão grande a chorar», porque nesse gesto de deixar as lágrimas romperem os músculos está a essência da humanidade. É nestes aspectos a seu modo ontológicos que a prosa de Charles Bukowski adquire a dimensão dos grandes, os mesmos que ele ia procurar na Biblioteca e aos quais se agarrou como um náufrago agarrando-se a uma tábua de madeira. O sexo, o álcool, a literatura são os bálsamos hedonistas que afastam do desistente a ideia do suicídio, transformando-o, pois claro, num resistente.
Escrito para o Rascunho.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

ANOTHER YEAR



Se me fizessem a mais estúpida das perguntas, ou seja, sobre o que trata o último filme de Mike Leigh, eu diria que é sobre a arte de saber envelhecer, um pouco como o vinho que aparece recorrentemente ao longo da fita. Mike Leigh é, na actualidade, o único cineasta que não me obriga a hesitar perante três salas com três filmes promissores. Foi chegar, ver e sair satisfeito. Another Year retoma-o no seu melhor, depois de um comovente Vera Drake, de um irritante Topsy-Turvy, de um suportável Career Girls, de um genial Secrets & Lies e de uma coisa do outro mundo chamada Naked. O que há de tramado num filme como Another Year é deixar-nos a pensar sobre a nossa própria vida enquanto não nos abandonam os planos das personagens colocadas a olhar para o vazio. O vazio para onde olham as personagens, na sua angustiante solidão, no seu terrível abandono, é o mesmo com que nos deparamos sempre que contemplamos um calendário e nos interrogamos sobre o que fazemos no mundo. Uma narrativa aparentemente simples, dividida em capítulos que obedecem à sequência das estações (nada de novo), mostra-nos a felicidade de um casal na sua quotidiana e admirável banalidade. Há algo de especial neste casal: a paciência, a compaixão, a disponibilidade para a família e para os amigos. A questão da disponibilidade é tão importante quão evidente se torna o desespero da mais neurótica das personagens, uma amiga de Tom e Gerri, o casal no centro da trama, mulher maltratada por relações amorosas falidas. Para esta criatura, ter com quem falar não é tão importante como encontrar quem deseje confessar-se-lhe. O seu anseio não é por um ouvido, é por uma boca que dê sentido aos seus ouvidos. Ela quer ser a confidente de alguém e é nessa falta que a sua solidão se afirma. No fundo, o drama encenado ao longo do filme é precisamente o drama daqueles cuja maior necessidade é sentirem-se, digamos assim, úteis, importantes para alguém, desejados. Claro está que em nenhuma circunstância as estruturas depressivas dos intervenientes ameaçam o equilíbrio da história. São raros os filmes que não contando história alguma nos contam a vida toda, este é um deles. E fá-lo com um sentido irrepreensível do ponto de vista da encenação, colocando no tempo certo cada uma das intervenções, fazendo das imagens os frutos, os legumes colhidos no horto metafórico que vai acompanhando o passar das estações. O cuidado colocado na horta amanhada ao longo de várias cenas assemelha-se ao cuidado que a família central da narrativa, o pilar sustentador do desaire, coloca nos seus relacionamentos. Um cuidado que se espera ser o essencial da vida mas que, por esta e por aquela razões, termina quase sempre, na imensa maioria das vidas deste mundo, negligenciado em função de afazeres supostamente mais urgentes.

CADA QUAL SABE DE SI

Camarada Van Zeller, há muito que o não vejo. Eu próprio tenho andado arredado, mas, confesso-lhe, não menos atento. O trabalho atira-nos para dentro de um caixa, a gente contorce-se no exíguo espaço, estende os músculos a ver se rasga o cartão e, aqui e acolá, consegue espreitar o mundo por uma brecha.
Vou assistindo à revolução no Egipto sem esperança. É de feitio. A um crápula outro crápula se seguirá, a história no-lo ensina. Mas por vezes fazemos orelhas moucas, fingimos que não sabemos, assobiamos para o lado e cedemos o truque. Gosto disso.
Deu-se conta da velhota inglesa que afugentou os meliantes com uma mala de tiracolo? Aquilo sim, é uma verdadeira revolução. Uma revolução de segundo e meio, à luz do dia, em plena esquina. Vieram-me à memória as aventuras do Duarte e da sua companhia, vieram-me aos olhos lágrimas de comoção. Gostava de ser novo com aquela velhice.
Também não compreendo a consternação perante a morte solitária da idosa de Rinchoa. Por mim, santa morte. Ninguém deu por nada. Nove anos passaram e foi como se não existisse. Maravilha. Às vezes gostava de viver como a velha morreu. E espero que a morte me leve deste insuportável mundo onde até para morrer se anseiam dois ou três holofotes de coroas de flores e filas de trânsito.
Que mais lhe posso eu dizer? Grande debate em torno de uma vulgar canção. Já não me lembrava de tal coisa desde Talvez Foder, o que até me parece bem mas não auspicia nada de sadio. Deolinda, como tantos outros projectos que resolveram levar ao altar José Afonso e Hermínia Silva na Igreja da Madredeus ao som da chanson française, não me aquecem e, por vezes, até me arrefecem. A minha música é outra.
Olhe, deixo-lhe um cheirinho: aqui e acolá, que isto de andar a estudar para ser escravo nunca há-de ser tão, digamos assim, comovente como ter sido génio para andar a vadiar. É só ver.
Saúde,

sábado, 5 de fevereiro de 2011

NÃO PENSES LÁ COISAS

Pai: Gostas de mim?
Beatriz, 4 anos: Gosto.
Pai: Dás-me um beijo.
Beatriz: Dou. A miúdos lá da minha escola com barba não dou.

K3

Não sei se foi no próprio Wittgenstein, se no filme que Derek Jarman lhe dedicou, que um dia vi a experiência da guerra declarada como a única verdadeiramente elucidativa do sentido da vida. É provável que assim seja. Tratando-se de uma experiência que nos coloca no centro de uma situação-limite, a guerra apresenta-nos ao que enforma a existência do homem: do medo à esperança, passando pelo sentimento da insignificância que em tudo medra. A consciência de que o que existe pode, de um momento para o outro, desaparecer sem deixar rastro é, pois, a consciência da vida tal como ela é. Assim sendo, não admira que algumas das melhores obras literárias, cinematográficas, pictóricas que a história consagrou tenham a guerra como cenário ou objecto de reflexão. A poesia não escapa. Agora que se comemoram, salvo seja, 50 anos sobre o começo da guerra colonial portuguesa, voltamos a ter em verso ecos dessa experiência traumática. Para além dos poemas que Fernando Assis Pacheco consagrou ao tema, e que para mim continuam a ser os melhores, não há nada que se compare, no plano nacional, a K3 (&etc., Janeiro de 2011), o mais recente livro de Nuno Dempster.

Poema longo, na linha formal do anterior Londres, também ele vindo a lume com o selo da &etc., K3 vai aos confins da memória colher a matéria de que é feito. Ecos, evocações, dúbias ocorrências, lembranças, recordações, moldam uma epopeia que se nega a si própria por nada no que nela é relatado ser digno de orgulho heróico. De algum modo a viagem que parte da Estação Marítima de Alcântara nos questiona sobre a própria natureza da poesia e suas fragilidades quando confrontada com os relances da vida. Afinal, a poesia ainda é possível. Nuno Dempster sabe que «os versos serão sempre / mais do que os mortos / e têm vida curta» (p. 7), mas nem por isso lhes nega o sangue que tendo por destino um esquecimento incerto pode servir para, reavivando o passado, melhor entendermos o presente. A História Trágico-Marítima que este poema esconjura é a de toda uma geração de náufragos que, ora ficando por terra, ora perecendo afogados numa incurável amargura, se viram privados de uma juventude confortavelmente instalada como aquela que as últimas décadas souberam alimentar.

Nalguns momentos os versos parecem pretender exorcismar os traumas que se foram mantendo colados ao corpo, noutros vem à tona um desassossego político e histórico que tende a questionar motivos sem encontrar desculpas ou justificações: «Estou certo de que muitos / deveriam julgar possível / manter a antiga rota dos escravos, / e os limites traçados por Afonso V. // Daí que houvesse gente a quem a morte, / saída das rajadas de G3, / era a forma de ser destino útil, / sem que o olhar hesitasse / e, menos, se quedasse pensativo, // fiel ao rei, à pátria, ao povo, palavras que não dizem anda, / surgem de altifalantes anacrónicos, cujo som se confunde em uma ideia nula» (p. 21). Nada disto morreu, vai reforçando o poema enquanto nos introduz aos subterrâneos do K3, um bunker situado na Guiné, hoje devorado pela selva e ruinosa representação da miséria semeada pela guerra.

Tratando-se de um poema evocativo com uma experiência traumática em pano de fundo, o que mais acaba por impressionar é a heterodoxia do discurso: «Deve dizer-se aos místicos / e àqueles que acreditam / em destinos supremos / que o chão da humanidade / é um palimpsesto de esperma e sangue, / com pegadas em volta / da cama das mulheres em tempo de guerra, // como em redor da esteira / de Djariato, / numa palhota de há mil anos, / uma era tão diversa, // os soldados nos anos do poema, / a desejar-lhe o belo tronco nu, / os seios empinados, / o ventre liso, / a tanga que caísse» (pp. 34-35). No entanto, Dempster contém-se nas imagens, não se perde por realizações sensacionalistas e gratuitamente provocatórias, deixa os cheiros virem à tona, ilustra a solidão, reaviva os sons do pesadelo sem nos impor, o que é o mais difícil, a pornografia dos corpos trucidados, das violações, da insanidade típica destes teatros abjectos de matança. O que se busca, muitos anos depois da experiência vivida, é sossego e paz para um cansaço transportado ao longo dos anos, é aliviar o peso da lembrança. Daí que a conclusão, se assim lhe podemos chamar, não pudesse ser outra: «Voltar ou não voltar, // morrer ou não morrer, tanto fazia» (p. 63).
Escrito para o Rascunho,

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

EMPAREDADA

Natural de Aveiro, onde nasceu em 1979, Joana Serrado publicou o primeiro livro em 2006. Tratado de Botânica (Quasi Edições) merecera uma menção honrosa no Prémio de Poesia Daniel Faria. Livro complexo, denotava um lirismo com vontade de escavar as palavras até à raiz no intuito de satisfazer uma inegável curiosidade pelo poder das imagens. Emparedada / Uit de muur, publicado em 2009, retomou a cultura de uma poesia despreocupadamente só no contexto daquilo que é mais visível entre nós. O barroquismo formal deste livro contrasta com a hegemónica sobriedade da poesia portuguesa dos últimos 15 anos. Publicado em Groningen, cidade neerlandesa para onde a autora foi viver em 2005 na busca de um doutoramento sobre Joana de Jesus, este livro tem, desde logo, a curiosidade de ser bilingue, o que se revela assaz coerente se tivermos em conta os problemas que levanta. Um desses problemas é, claramente, o problema da comunicação. E com ele o das palavras, matéria ambígua com a qual o tradutor (ou o poeta), figura omnipresente neste livro, tem de trabalhar. «Um tradutor deve ser duplo», diz-se no poema inaugural: Uma língua a arder. A condição surge sob a forma imperativa, a duplicidade do tradutor será o garante da (boa) tradução. O desafio é o de pensarmos para lá dos limites da linguagem, como se fosse possível pensar para lá da linguagem. Talvez se encontre aqui escondida uma noção de poesia que importa sublinhar, a poesia como um pensar para lá da linguagem. Trata-se de uma noção distante das escolas que vêm vigorando entre nós, uma distância que não podemos julgar senão voluntária: «Em Portugal é assim. Deus está longe das cabras: não traduz poemas, não pode doar o que exerce. Imagina, ganha nome. Quem esperaria dele que trabalhasse o céu ou devastasse as alimárias?» Os poemas de Emparedada sugerem-nos, então, a afirmação de um não-lugar, fazem da língua a raiz do problema, vão à fonte para daí nos chegarem estilhaçados, vão à raiz achar justificação para o desenraizamento. Sobre eles pesa o cimento de duas línguas: «Como os meus passos se afastam dos teus passos, correndo para longe, longe, / esperando que o mundo seja realmente redondo, e não plano, / e possa, um dia, chegar às tuas costas, tapar os teus olhos e dizer-te / mijn thuisland is niet meer mijn taal». Ou seja: a minha pátria já não é a minha língua. O remate do livro, oferecido em latim, prova o trabalho arqueológico que subjaz à intenção anunciada: «fazer uma casa / de raízes estranhas», «reclamar a minha nova Língua». Não deixa de ser, ao mesmo tempo, um trabalho ambicioso e ousado.