Nove textos, escritos à entrada do século XXI, compõem a colectânea O Rei Faz Vénia e Mata (Texto, Janeiro de 2011). São conferências e discursos proferidos por Herta Müller (n. 1953) antes da consagração instalada com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 2009. Duas dimensões da vida caminham lado a lado ao longo das margens destes ensaios, a dimensão existencial e a dimensão literária. A autora sobrevaloriza a primeira em detrimento da segunda, referindo-se por diversas vezes ao poder da experiência vivida enquanto magma fundador da palavra escrita. Nota-se mesmo um certo desprezo quando o tema recai sobre a possibilidade de exprimir sem haver vivido, o que não deixa de ser surpreendente numa autora onde a relação entre a palavra e a realidade aparece quase sempre sob uma névoa feérica e metafórica. Importa entender esta relação na prosa de Herta Müller. Mais que uma relação meramente representativa, trata-se de uma relação transfiguradora: «As palavras são feitas à medida para falar, se calhar até são recortadas ao milímetro. (…) Não têm capacidade para representar aquilo que se passa na cabeça» (p. 20). A realidade não se deixa capt(ur)ar pela palavra, os objectos têm vida própria, uma identidade que, no fundo, acaba por fundar a nossa razão de ser. Porque a nossa razão de ser está na complexidade do pensamento, onde uma rede de associações dificilmente descritíveis ampara a lógica e a memória sob os trapézios voadores da imaginação. Quando muito, pode haver empatia entre o objecto e a palavra que o nomeia. Mas o contexto acaba sempre por determinar o significado, e o significado impõe o sentido. Daí a importância dos objectos enquanto vestígios reais de uma paisagem que o tempo tende a rasurar. O objecto, agora no sentido material do termo, é como que um resquício perdurável que nos evoca o passado e dá forma ao presente. Assim, aos pormenores biográficos que acompanham a escrita deve juntar-se a vida dos objectos enquanto reflexos da nossa própria vida. No caso, uma vida marcada pelos traumas da ditadura de Ceauşescu: «toda a panóplia de ameaças, buscas domiciliárias, interrogatórios, psiquiatria compulsiva, execuções durante a fuga, prisão, tortura, assassinato» (p. 172), o isolamento e o exílio, a asfixia, uma espécie de deslocamento apátrida, medo, muito medo e solidão, como chagas de um «bicho-coração» fundador do «olhar estranho». Tudo isto no interior de uma paisagem contornada pela dicotomia campo/cidade: «Quando fui para a cidade, espantou-me o quanto os citadinos tinham de falar para se sentirem a si próprios, para serem amigos ou inimigos uns dos outros, para darem ou receberem alguma coisa. E acima de tudo o quanto se queixavam quando falavam de si próprios. Na maioria das conversas havia um emparelhamento constante de arrogância com autocomiseração, de uma afectação narcisista com o corpo todo. Andavam sempre de um lado para o outro com aquele Eu sobrecarregado na boca» (p. 72). O Eu de Herta Müller não será o mesmo da sua escrita, mas haverá entre ambos uma empatia que a capacidade de reinventar proporcionada pela literatura logra como nenhuma outra arte. Porque a literatura é, por excelência, a arte da linguagem. E nada nos reinventa mais e melhor do que a linguagem. domingo, 10 de abril de 2011
O REI FAZ VÉNIA E MATA
Nove textos, escritos à entrada do século XXI, compõem a colectânea O Rei Faz Vénia e Mata (Texto, Janeiro de 2011). São conferências e discursos proferidos por Herta Müller (n. 1953) antes da consagração instalada com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 2009. Duas dimensões da vida caminham lado a lado ao longo das margens destes ensaios, a dimensão existencial e a dimensão literária. A autora sobrevaloriza a primeira em detrimento da segunda, referindo-se por diversas vezes ao poder da experiência vivida enquanto magma fundador da palavra escrita. Nota-se mesmo um certo desprezo quando o tema recai sobre a possibilidade de exprimir sem haver vivido, o que não deixa de ser surpreendente numa autora onde a relação entre a palavra e a realidade aparece quase sempre sob uma névoa feérica e metafórica. Importa entender esta relação na prosa de Herta Müller. Mais que uma relação meramente representativa, trata-se de uma relação transfiguradora: «As palavras são feitas à medida para falar, se calhar até são recortadas ao milímetro. (…) Não têm capacidade para representar aquilo que se passa na cabeça» (p. 20). A realidade não se deixa capt(ur)ar pela palavra, os objectos têm vida própria, uma identidade que, no fundo, acaba por fundar a nossa razão de ser. Porque a nossa razão de ser está na complexidade do pensamento, onde uma rede de associações dificilmente descritíveis ampara a lógica e a memória sob os trapézios voadores da imaginação. Quando muito, pode haver empatia entre o objecto e a palavra que o nomeia. Mas o contexto acaba sempre por determinar o significado, e o significado impõe o sentido. Daí a importância dos objectos enquanto vestígios reais de uma paisagem que o tempo tende a rasurar. O objecto, agora no sentido material do termo, é como que um resquício perdurável que nos evoca o passado e dá forma ao presente. Assim, aos pormenores biográficos que acompanham a escrita deve juntar-se a vida dos objectos enquanto reflexos da nossa própria vida. No caso, uma vida marcada pelos traumas da ditadura de Ceauşescu: «toda a panóplia de ameaças, buscas domiciliárias, interrogatórios, psiquiatria compulsiva, execuções durante a fuga, prisão, tortura, assassinato» (p. 172), o isolamento e o exílio, a asfixia, uma espécie de deslocamento apátrida, medo, muito medo e solidão, como chagas de um «bicho-coração» fundador do «olhar estranho». Tudo isto no interior de uma paisagem contornada pela dicotomia campo/cidade: «Quando fui para a cidade, espantou-me o quanto os citadinos tinham de falar para se sentirem a si próprios, para serem amigos ou inimigos uns dos outros, para darem ou receberem alguma coisa. E acima de tudo o quanto se queixavam quando falavam de si próprios. Na maioria das conversas havia um emparelhamento constante de arrogância com autocomiseração, de uma afectação narcisista com o corpo todo. Andavam sempre de um lado para o outro com aquele Eu sobrecarregado na boca» (p. 72). O Eu de Herta Müller não será o mesmo da sua escrita, mas haverá entre ambos uma empatia que a capacidade de reinventar proporcionada pela literatura logra como nenhuma outra arte. Porque a literatura é, por excelência, a arte da linguagem. E nada nos reinventa mais e melhor do que a linguagem. THE SOCIAL NETWORK
Apesar do ingrediente romântico, que parece ter estado na origem do Facebook, o que mais sobressai no filme de David Fincher é o maquiavelismo patológico que rege as relações humanas entre as diversas personagens do filme. À excepção de Erica Albright, musa inspiradora do génio maligno e sua primeira vítima, em quem ainda detectamos um certo humanismo orgânico, todos os intervenientes parecem saídos de um manicómio, provavelmente Harvard, onde o fervilhar incontinente das ideias tem na sua base a intenção muito norte-americana da popularidade. Esta necessidade doentia de popularidade, que, no fundo, é o motor da própria rede social criada por Mark Zuckerberg, impele os intervenientes para a mais vetusta armadilha da avidez: a solidão. No fundo, encontramos muitos pontos de contacto entre a personagem central do filme de Fincher e o Citizen Kane de Orson Welles. Os impérios gerados por ambos alimentam-se das mesmíssimas paixões, agora pronunciáveis em formato digital e manipuláveis a uma escala internacional. A solidão de Mark Zuckerberg, enxotado para o lado por amigos traídos e, acima de tudo, pela musa publicamente (ou interneticamente) enxovalhada, é o paradigma mais resistente da megalomania dos génios. No entanto, há um pormenor no filme de Fincher que actualiza a nostalgia latente em Rosebud. Esse pormenor é a velocidade das falas, a ânsia que a palavra sente quando pretende acompanhar o pensamento, uma vertigem que não prescinde da nota final: Mark Zuckerberg é o mais novo bilionário do mundo. Esta meteórica ascensão é típica de um mundo em que todos nós desaprendemos de viver devagar, para aprendermos a sobreviver à velocidade da luz (aqui, a palavra luz pode ser entendida sob vários sentidos). Encriptados no frenesi de uma estrutura social cuja dinâmica está organizada em função da rentabilidade do tempo e da voragem do sucesso, tendemos a esquecer-nos do milagre que a vida contém: «bebe devagar, concentra-te no prazer de beberes, sê o teu corpo que bebe. A vida está tão cheia de milagre. Mas convulsos rápidos distraídos, tanta coisa que se perde» (Vergílio Ferreira).sábado, 9 de abril de 2011
SIDNEY LUMET (1924-2011)
Este filme prenunciou-me o futuro como uma espécie de oráculo do qual nunca mais me libertei. Morreu o mensageiro, ficou a mensagem.
BRIGADA DO REUMÁTICO
Camarada Van Zeller, está em marcha uma conspiração contra o nosso querido país. É preciso resgatá-lo. As pessoas andam aflitas, temem a miséria, a pobreza, o desespero e o Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia. Veja bem que uma amiga desempregada já nem tem dinheiro para pagar o Imposto Automóvel. Se ela está desempregada, como pode pagar o Imposto Automóvel? Não basta ter que pagar balúrdios de gasóleo? De resto, os transportes públicos estão pela hora da morte. E ainda por cima cheiram mal, são desconfortáveis. Dois amigos professores queixam-se dos cortes nos salários. Passo os dias a ouvir pessoas queixarem-se dos cortes salariais. Coitadas das pessoas. Ganhavam 2500 e agora só ganham 2200. Já viram a miséria que é? Uma aflição. Nota-se a tristeza com que vão às compras, o desespero com que olham para o salmão fumado, para a sobremesa de baunilha. 47 alvas e impolutas personalidades resolveram assinar um documento com propostas contra este estado deprimente de coisas. Receiam que os filhos tenham que passar a deslocar-se para o Liceu (Pedro Nunes) ao volante de um humilde Golf GTI. Propõem um clima de tranquilidade, que continuemos a ser governados exactamente pelos mesmos snobes que nos trouxeram até onde estamos; propõem um compromisso entre as instituições, ou seja, um compromisso com o sistema que há anos vem alimentando saltimbancos de fato e gravata. A brigada do reumático uniu-se para nos salvar, para resgatar Portugal das artroses. Uma elite tão miserável quanto a miséria em que estamos. Olhe, convidaram-me para palestrar sobre o poder curativo da espiritualidade. Convite inusitado que, perante a surrealidade do momento, me sinto tentado a aceitar.
terça-feira, 5 de abril de 2011
domingo, 3 de abril de 2011
THE HORSE WHISPERER
Voltei a apanhar The Horse Whisperer no canal Hollywood e, mais uma vez, deixei-me ficar até ao fim. O mesmo nó na garganta e a mesma comoção que só os maus filmes conseguem provocar. Aquela paisagem rural norte-americana pode ser um mito, mas é um mito muito bonito. Ao alto, num penhasco com vista para o infinito, ainda se vêem as sombras dos índios. E, com sorte, podem escutar-se as suas lamentações. Ficar ou partir? Largar tudo ou permanecer? Mudar ou ir andando? São estes os grandes dilemas da vida, pairam sobre nós como a sombra da águia voando em contracampo. O cavalo ferido − e sempre que digo cavalo lembro-me, vá lá saber-se porquê, de António Ramos Rosa − somos nós, o encantamento surge da disponibilidade e da entrega, da paz e do sossego que acalma o tremor e oferece às pernas o seu merecido descanso. Alguém lhe chama dom, julgo que é a personagem interpretada por Dianne Wiest, quando junto ao rio vai directo ao assunto e explica a Annie MacLean (Kristin Scott Thomas), olhos nos olhos, que Tom Booker (Robert Redford) tem um dom sobrenatural, embora não deixe de ser um homem. Eu acho que sei qual é esse dom, é algo apenas possível em quem descobriu o seu lugar, a sua casa, e pode aí viver numa tumultuosa paz com os seus íntimos fantasmas. Daí que Tom Booker só tenha medo de envelhecer e de começar a sentir-se unuseful. Não teme a solidão porque está em paz consigo próprio. No fundo, isso é o mais importante.
O CORONEL CHABERT
sábado, 2 de abril de 2011
POEMA AO MEU PAPEL
lendo poemas próprios
penas impressas quotidianas transcendências
sorriso orgulhoso perdoado equívoco
é meu é meu é meu!!
lendo letra cursiva
alegre latir interior
sentir que a felicidade se coagula
ou bem ou mal ou bem
estranheza de inatos sentires
cálice harmonioso e autónomo
limite no dedo gordo do pé cansado e
cabelo lavado em encrespada cabeça
não importa:
é meu é meu é meu!!
Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)
Versão de HMBF
penas impressas quotidianas transcendências
sorriso orgulhoso perdoado equívoco
é meu é meu é meu!!
lendo letra cursiva
alegre latir interior
sentir que a felicidade se coagula
ou bem ou mal ou bem
estranheza de inatos sentires
cálice harmonioso e autónomo
limite no dedo gordo do pé cansado e
cabelo lavado em encrespada cabeça
não importa:
é meu é meu é meu!!
Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)
Versão de HMBF
sexta-feira, 1 de abril de 2011
EU SOU…
minhas asas?
duas pétalas apodrecidas
minha razão?
cálices de vinho azedo
minha vida?
vazio bem pensado
meu corpo?
um gume na cadeira
meu vaivém?
um gongo de brincar
meu rosto?
um zero dissimulado
meus olhos?
ah! pedaços de infinito
Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)
Versão de HMBF
duas pétalas apodrecidas
minha razão?
cálices de vinho azedo
minha vida?
vazio bem pensado
meu corpo?
um gume na cadeira
meu vaivém?
um gongo de brincar
meu rosto?
um zero dissimulado
meus olhos?
ah! pedaços de infinito
Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)
Versão de HMBF
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #14
ESTE NÃO ESTÁ A RECIBOS VERDES
Caro Van Zeller, este país, já o sabíamos, é uma anedota. Tal facto não seria desagradável caso a anedota fosse bem contada. O problema está em que este país é uma anedota mal contada. Que vivemos numa oligarquia é dado adquirido, que o nepotismo comanda as hordas do poder também não é novidade, mas a evidência com que começamos a concluir a falta de vergonha generalizada é alarmante. Não sei se é deste zepelim que paira no ar, uma coisa cinzenta com um letreiro a dizer “salve-se quem puder”, se é de um qualquer fenómeno químico desconhecido (começo a acreditar que Portugal está assente sobre placas tectónicas sulfurosas que emitem gases tóxicos contaminadores do bom senso), o que sei é que começa a ser caricato assistir impávido e sereno ao jogo de cintura das ratazanas e das toupeiras apanhadas em contramão. Desta feita, um amigo de seu amigo de seu nome Marcos Baptista. Escutemos o homem: “Devo referir que sempre estive convencido de que o meu percurso académico com oito anos de frequência universitária e elevado número de cadeiras concluídas, em mais do que um plano de estudos curriculares, correspondesse a um curso superior à luz das equivalências automáticas do Processo de Bolonha. Solicitei, por isso, hoje ao ISEG [a instituições que frequentou] a devida avaliação curricular”. Tomando de assalto o raciocínio, devo referir que sempre estive convencido de que o meu percurso académico com 4 anos de frequência universitária, mais um estágio profissionalizante e todas as cadeiras concluídas, correspondesse a um doutoramento honoris causa à luz da desvergonha nacional. Mas eu não me chamo Marcos, muito menos Baptista. Com p. Trabalho numa livraria para cima de 50 horas por semana e não sou figura muito próxima de Paulo Campos, secretário de Estado das Obras Públicas. Azarinho.
quinta-feira, 31 de março de 2011
O PNL
Na passada sexta-feira, dia 25, fui ler um conto à turma da Matilde. Levei Afonso e o Livro, uma história escrita pelo Luís Filipe Cristóvão que conta a aventura de um rapaz viciado na leitura de um livro inexistente. O mote serve para contar duas histórias numa só: a história do nascimento de um livro e a história do nascimento de um leitor. Na realidade são ambas uma e a mesma coisa. Isso percebeu-se naquela turma. O sucesso repetiu-se, depois de no ano passado lhes ter apresentado O Incrível Rapaz que Comia Livros. Notei nas crianças um interesse inabitual. No fim, muitos fizeram questão de me colocar ao corrente das suas aventuras enquanto… escritores. Uns andam com poemas nos bolsos, outros escrevem contos, produzem os seus próprios livros nas escolas, em casa, escrevem, ilustram, recortam folhas, agrafam-nas, inventam, criam, aprendem a gostar dos livros. A Matilde foi, como sempre, clara e objectiva: para o caso de ainda não teres dado por isso, devo dizer-te que já vou no terceiro capítulo da minha história. Toma e embrulha. Como se costuma dizer: em casa de ferreiro, espeto de pau. Eu sabia que ela andava a escreve uma história, mas desconhecia o estado avançado da produção. Isto tudo para dizer o seguinte: o PNL foi uma excelente iniciativa governamental, gerou uma óptima dinâmica escolar em torno do livro e é hoje uma marca da qual muitas editoras se socorrem para fazerem valer as suas obras num hiper-agressivo mercado concorrencial. O PNL é uma coisa positiva, hoje só me apetece falar de coisas positivas.
terça-feira, 29 de março de 2011
BIG ODE #8
Big Ode n.º 8
Tema: Decadência
Edição e design: Rodrigo Miragaia
Design de conceito: Rodrigo Miragaia e Sara Rocio
Março de 2011
A Decadência da Paixão #1, A Decadência da Paixão #2, A Decadência da Paixão #3, A Decadência da Paixão #4, pp. 16-19.
segunda-feira, 28 de março de 2011
MANICÓMIO
O enquadramento, o sotaque, a postura desajeitada, fizeram da conferência de Paulo Futre um dos momentos mais hilariantes da recente história portuguesa. Lembro-me de outros similares, mas de todo mais degradantes: Sócrates a tentar vender a pochete Magalhães ou Cavaco fascinado com as tetas de uma vaca. A diferença está em que Futre não nos governa. Ainda.
domingo, 27 de março de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #13
LINHAS DE HARTMANN
quinta-feira, 24 de março de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #12
Em 1984 William Burroughs publicou um ensaio intitulado Electronic Revolution (A Revolução Electrónica, Vega, 1994), onde partilhava a sua filosofia da linguagem partindo de uma teoria de base: «a palavra escrita foi literalmente um vírus que tornou possível a palavra falada». Laurie Anderson pegou nesta doutrina patológica da linguagem e encenou-a num espectáculo que ficou registado no disco Home of The Brave. Convém esclarecer que se trata de uma banda sonora para um filme montado em torno da tournée do disco Mister Heartbreak (1984). No entanto, resultou num objecto singular e até algo desviado dos álbuns anteriores de Laurie Anderson. Na sua singularidade, Home of The Brave acabou por ser vítima de uma incompreensão que hoje, à distância de 25 anos, pode e deve ser sanada. O que escutamos neste conjunto de canções é uma manipulação de sons respeitadora de algumas técnicas predilectas do autor do romance The Naked Lunch. Não por acaso, a voz de Burroughs aparece logo deformada num dos temas iniciais (Late Show). Language Is a Virus não engana. Anderson recorre ao cut-up, num trabalho de colagem que mistura línguas e registos vocais sob o domínio dos sintetizadores, para nos oferecer paisagens dinâmicas e justapostas. Não importa tanto reflectir a realidade como simulá-la nas suas dimensões mais variadas. Daí que a música nos soe tão estranha quão sedutora. Foi exactamente o que senti quando assisti a um espectáculo de Laurie Anderson numa inacreditável primeira parte de Bob Dylan, já lá vão uns anitos valentes. Sedução e estranheza, isto é, espanto, algo sempre novo e não subjugado à monotonia dos dias. Vejam e escutem esta raridade.
terça-feira, 22 de março de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #11
Provavelmente, os Kiss My Jazz ter-me-iam passado despercebidos não se desse o caso de muitos dos seus elementos estarem intimamente ligados aos belgas dEUS. Doc’s Place Friday Evening (1996) é um registo ecléctico que tem no jazz e na improvisação a sua matriz. Tudo gravado em rudimentares gravadores de 4 e 8 pistas, mas com um sentido artístico e um refinamento musical ímpares. Instrumentos de sopro, guitarras, percussão, baixo, registos vocais entre o sussurro e a conversa de café, brinquedos de plástico… compõem o ramalhete. Não é difícil vislumbrar referências nos cerca de 20 temas disponibilizados, quer quando as guitarras enveredam por registos funky, quer quando assumem um groove quase Kitsch, mas logo essas referências são superadas por intromissões sónicas, ruídos, experiências sonoras que nos desviam dos percursos mais comuns da imaginação. A sujidade que tinge a maioria dos temas também não facilita a tarefa auditiva, exigindo antes uma postura liberta de preconceitos e de estereótipos. Bodybag, por exemplo, é descrito como um tributo a Chet Baker que resvalou para uma «film noir mortuary song». Infelizmente não se encontram muitas destas pérolas por aí à solta. Consegui desencantar este momento que talvez ajude a ficar com uma ideia de como o caos funciona.
segunda-feira, 21 de março de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #10
É a segunda vez que John Cale entra nesta lista. E logo em duo. Da primeira, com Brian Eno. Agora com Bob Neuwirth, um ilustre desconhecido que publicou meia dúzia de discos e que contribuiu, pasme-se, para a escrita de Mercedes Benz, a emblemática canção de Janis Joplin. A sua contribuição neste disco nota-se em vários elementos de origem folk que contrastam, de alguma maneira, com a natureza urbana das composições de John Cale. Last Day on Earth é aquilo a que a crítica especializada chama muitas vezes de álbum conceptual, ou seja, um objecto que obedece a uma organização narrativa que se aproxima de um argumento cinematográfico ou de uma peça dramática. Neste caso, temos logo no tema inicial, justamente intitulado de Overture, um enquadramento a três tempos da história que se segue: um turista entra num café, é introduzido aos clientes habituais com quem partilha histórias numa viagem interior/exterior de múltiplas descobertas e reflexões. Musicalmente, estamos num território que alterna entre a chamada spoken word, a pop de cariz atmosférico e um rock contido. No tema Pastoral Angst os sons de uma fauna doméstica diversa são acompanhados por um banjo que intercala um discurso irónico sobre a natureza do mundo artístico. Vale a pena a citação: California is the last stop on the great hitchhike / West and now it’s getting a little full / Too many thumbs, well, when you get / Too many people in one place // You get intolerance and contempt and rigidity / And tension and sarcasm, distrust, anxiety, envy, hate, cynicism / Discontent, self-pity, malice, suspicion, jealousy and snobbishness / And this leads right into poetry, painting, sculpture / Dance, music and literature, photography // These are known as the arts and art will break your heart. Ora, californias há muitas. São como os chapéus. O que importa é não enfiar a carapuça, seguir para a próxima estação e parar apenas no regresso (tendo o cuidado e a simpatia de ceder o lugar às velhinhas, às grávidas e aos jovens ansiosos). Aqui pode ser escutado um dos temas mais convencionais do percurso. Digamos tratar-se tão-somente de um breve momento de suspensão para apreciação da paisagem.
domingo, 20 de março de 2011
A MORTE QUE ALGUÉM ESPERA
A morte que alguém espera
A morte que alguém evita
A morte que vai pelo caminho
A morte que vem taciturna
A morte que acende os castiçais
A morte que se senta na montanha
A morte que abre a janela
A morte que apaga as luzes
A morte que aperta a garganta
A morte que fecha os rins
A morte que parte a cabeça
A morte que morde as entranhas
A morte que não sabe se deve cantar
A morte que alguém entreabre
A morte que alguém faz sorrir
A morte que alguém faz chorar
A morte que não pode viver sem nós
A morte que vem a galope no cavalo
A morte que chove em grandes estampidos
Vicente Huidobro, do livro Últimos poemas (1948), in Poesía y Poética (1911-1948), antología comentada por René de Costa, Alianza Editorial, Madrid, 1996, p. 308..
Versão de HMBF
INDIGNAI-VOS
Quem nos fala é um homem de 93 anos, com um currículo existencial suficientemente experiente para que a sua voz, como a de um bom professor, nos mereça toda a atenção. Nascido em Berlim, no seio de uma família de origem judaica com ligações às altas esferas culturais, Stéphane Hessel (n. 1917) naturalizou-se francês em 1937. As razões da deslocação são por demais evidentes. O início da Segunda Guerra Mundial levou-o a juntar-se ao general de Gaulle em Londres, integrando o Bureau de contre-espionnage, de renseignement et d’action. Em Março de 1944 desembarcou clandestinamente em França, foi capturado pela Gestapo, foi torturado e enviado para o campo de Buchenwald. Conseguiu escapar à forca trocando de identidade com um francês que morrera de tifo nesse mesmo campo. Transferido para o campo de Rottlebrode, de onde conseguiu escapulir-se, foi novamente capturado e colocado no campo de Dora, tendo conseguido evadir-se mais uma vez. Finda a guerra, iniciou uma longa carreira diplomática em França. Neste âmbito, uma das suas missões mais importantes terá sido a de integrar a comissão que redigiu a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Indignai-vos é um opúsculo escrito em contexto de exame final. A consciência do fim leva Hessel a dirigir-se aos jovens e a apelar à indignação, mas uma indignação pacífica. Entende-se este sublinhado se tivermos em conta o caos que invadiu muitas das cidades europeias nos últimos anos. Os confrontos de Paris em 2005 terão sido um primeiro mas eloquente sinal. Para Hessel, este apelo à indignação deve ter por base a defesa dos valores e dos princípios do Conselho Nacional da Resistência francesa, hoje fortemente ameaçados por um poder dificilmente identificável. Torna-se urgente zelar pelas conquistas sociais da Resistência contra a «actual ditadura internacional dos mercados financeiros que ameaça a paz e a democracia». Stéphane Hessel não o afirma com tanta clareza, mas é evidente que o principal inimigo dessas conquistas sociais esconde-se por detrás dos bancos e dos interesses privados dos seus administradores:
Ousam dizer-nos que o Estado já não consegue suportar os custos destas medidas sociais. Mas como é possível que actualmente não tenha verbas para manter e prolongar estas conquistas, quando a produção de riquezas aumentou consideravelmente desde a Libertação, quando a Europa estava arruinada? Apenas porque o poder do capital, tão combatido pela Resistência, nunca foi tão grande, insolente, egoísta, com servidores próprios até nas mais altas esferas do estado. Os bancos, agora privatizados, preocupam-se principalmente com os seus dividendos e com os elevadíssimos salários dos seus administradores, e não com o interesse geral. O fosso entre os mais pobres e os mais ricos nunca foi tão grande; e a corrida ao capital e a competição nunca foram tão incentivadas. (p. 21)
Impossível não concordar com o diagnóstico, nomeadamente se tivermos em conta o agravamento das assimetrias sociais num plano internacional. As razões para a indignação são, portanto, mais que muitas. Mas este opúsculo não se restringe a uma fundamentação política da indignação na actualidade. Com os seus exemplos do passado, ele reflecte uma relação nem sempre pacífica, do ponto de vista filosófico, entre desejo de envolvimento, indignação e resistência. Hessel recorda Sartre e o seu polémico apoio a algumas acções violentas. A oposição entre a via pacífica, mas activa e militante, e a via violenta não é de agora. Teve uma curiosa expressão nos tempos da Revolução Industrial com a emergência do Movimento Ludista. No caso do presente opúsculo, a doutrina pode resumir-se em três premissas: «a pior das atitudes é a indiferença» (p. 26), «o terrorismo não é eficaz» (p. 35), na medida em que se afirma pelo exaspero e, nesse sentido, pela recusa da esperança, «é preciso preferir a esperança, a esperança da não-violência» (p. 36).
Este apelo a uma indignação pacífica, mas não pacifista, contrasta com muitos dos desenvolvimentos recentes. A «ruptura radical» com a ditadura produtivista instalada no Ocidente não se compadece com cantorias inconsequentes e manifestações esvaziadas de conteúdo, por muito participadas que possam ser. Ela deve assumir os seus alvos, nomeadamente os bancos enquanto rosto mais visível do espírito imaterial dos mercados financeiros. Uma insurreição pacífica parece já não ser suficiente, nomeadamente quando a esperança de que fala Stéphane Hessel se encontra seriamente ameaçada pela ausência de horizontes. O Estado, essa identidade a quem confiamos a defesa dos nossos interesses, responde apenas à irritação dos mercados, fazendo orelhas moucas do desespero dos cidadãos. Está mais preocupado com a saúde dos mercados do que com a saúde, propriamente dita, das pessoas. Quando assim é, este “indignai-vos, mas com juizinho”, é simpático, mas manifestamente insuficiente. Uma nota final: o prefácio de Mário Soares, na edição portuguesa, era escusado e chega a ser indigno. Não por culpa do autor, mas da editora, a Objectiva, que aí encontrou um pretexto para rentabilizar um texto cuja função primordial não é contribuir para as finanças dos editores. A tradução é de Paula Centeno.
Indignai-vos é um opúsculo escrito em contexto de exame final. A consciência do fim leva Hessel a dirigir-se aos jovens e a apelar à indignação, mas uma indignação pacífica. Entende-se este sublinhado se tivermos em conta o caos que invadiu muitas das cidades europeias nos últimos anos. Os confrontos de Paris em 2005 terão sido um primeiro mas eloquente sinal. Para Hessel, este apelo à indignação deve ter por base a defesa dos valores e dos princípios do Conselho Nacional da Resistência francesa, hoje fortemente ameaçados por um poder dificilmente identificável. Torna-se urgente zelar pelas conquistas sociais da Resistência contra a «actual ditadura internacional dos mercados financeiros que ameaça a paz e a democracia». Stéphane Hessel não o afirma com tanta clareza, mas é evidente que o principal inimigo dessas conquistas sociais esconde-se por detrás dos bancos e dos interesses privados dos seus administradores:
Ousam dizer-nos que o Estado já não consegue suportar os custos destas medidas sociais. Mas como é possível que actualmente não tenha verbas para manter e prolongar estas conquistas, quando a produção de riquezas aumentou consideravelmente desde a Libertação, quando a Europa estava arruinada? Apenas porque o poder do capital, tão combatido pela Resistência, nunca foi tão grande, insolente, egoísta, com servidores próprios até nas mais altas esferas do estado. Os bancos, agora privatizados, preocupam-se principalmente com os seus dividendos e com os elevadíssimos salários dos seus administradores, e não com o interesse geral. O fosso entre os mais pobres e os mais ricos nunca foi tão grande; e a corrida ao capital e a competição nunca foram tão incentivadas. (p. 21)
Impossível não concordar com o diagnóstico, nomeadamente se tivermos em conta o agravamento das assimetrias sociais num plano internacional. As razões para a indignação são, portanto, mais que muitas. Mas este opúsculo não se restringe a uma fundamentação política da indignação na actualidade. Com os seus exemplos do passado, ele reflecte uma relação nem sempre pacífica, do ponto de vista filosófico, entre desejo de envolvimento, indignação e resistência. Hessel recorda Sartre e o seu polémico apoio a algumas acções violentas. A oposição entre a via pacífica, mas activa e militante, e a via violenta não é de agora. Teve uma curiosa expressão nos tempos da Revolução Industrial com a emergência do Movimento Ludista. No caso do presente opúsculo, a doutrina pode resumir-se em três premissas: «a pior das atitudes é a indiferença» (p. 26), «o terrorismo não é eficaz» (p. 35), na medida em que se afirma pelo exaspero e, nesse sentido, pela recusa da esperança, «é preciso preferir a esperança, a esperança da não-violência» (p. 36).
Este apelo a uma indignação pacífica, mas não pacifista, contrasta com muitos dos desenvolvimentos recentes. A «ruptura radical» com a ditadura produtivista instalada no Ocidente não se compadece com cantorias inconsequentes e manifestações esvaziadas de conteúdo, por muito participadas que possam ser. Ela deve assumir os seus alvos, nomeadamente os bancos enquanto rosto mais visível do espírito imaterial dos mercados financeiros. Uma insurreição pacífica parece já não ser suficiente, nomeadamente quando a esperança de que fala Stéphane Hessel se encontra seriamente ameaçada pela ausência de horizontes. O Estado, essa identidade a quem confiamos a defesa dos nossos interesses, responde apenas à irritação dos mercados, fazendo orelhas moucas do desespero dos cidadãos. Está mais preocupado com a saúde dos mercados do que com a saúde, propriamente dita, das pessoas. Quando assim é, este “indignai-vos, mas com juizinho”, é simpático, mas manifestamente insuficiente. Uma nota final: o prefácio de Mário Soares, na edição portuguesa, era escusado e chega a ser indigno. Não por culpa do autor, mas da editora, a Objectiva, que aí encontrou um pretexto para rentabilizar um texto cuja função primordial não é contribuir para as finanças dos editores. A tradução é de Paula Centeno.
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #9
No dia 16 de Setembro de 2002 fui assistir a uma série de concertos designados de Looking For a Thrili. Não era necessário ter estado presente para perceber o que então se afirmou com uma clareza desarmante: aquilo a que chamamos vanguardas resulta, muitas vezes, da conjugação de interesses meramente acidentais que não obrigam a uma partilha ideológica única e estanque. Para o caso, bastava a existência de uma produtora discográfica, a Thrill Jockey, cujo toldo abrigava uma multiplicidade de músicos de interesse bastante variável. Fundada em 1992 na cidade de Nova Iorque, mas posteriormente deslocada para Chicago, a Thrill Jockey soube afirmar a sua identidade dando a conhecer bandas que concebiam uma música precipitadamente catalogada de post-rock. Como todas as etiquetas, esta serve para situar um conjunto de projectos com raízes no jazz, no rock de cariz progressivo e no advento da música electrónica. São estes os elementos fundamentais de uma música de fusão, quase sempre instrumental, que encontrou em nomes como Tortoise ou Trans Am rostos representativos de um género que nunca chegou bem a sê-lo. Músicos como John McEntire, Sam Prekop, Rob Mazurek, Douglas McCombs, entre outros, desdobraram-se em vários projectos tornando-se reconhecidos num meio sem programa definido mas com uma clara intenção: renovar a música jazz. Ao rock foram buscar a energia, mas dispensaram o minimalismo dos três acordes. Essa energia funde-se com estruturas musicais complexas, riffs rebuscados e uma vertente experimental, oriunda do electrónico Krautrock, com consequências deveras estimulantes. É o caso deste Utonian Automatic, dos Isotope 217º, produzido por McEntire. Os músicos são Jeff Parker, Rob Mazurek, Dan Bitney, Matthew Lux e John Herndon, todos eles com ligações aos Tortoise ou bandas congéneres. Sugiro que se escute esta versão ao vivo de Looking for life on mars e esta de Audio Champion. São temas representativos de um tipo de som sem fronteiras nem cedências à facilidade. Permitam-me, no entanto, o parêntesis: alguns dos projectos mais interessantes deste território, porventura menos conhecidos, não estão directamente relacionados com os ambientes culturais supracitados. É o caso dos escoceses Ganger ou dos Slow Loris. É assim com tudo na vida.
ÉRAMOS OS ELEITOS DO SOL
Éramos os eleitos do sol
E não nos demos conta
Fomos os eleitos da mais alta estrela
E não soubemos responder à sua dádiva
Angústia de impotência
A água amava-nos
A terra amava-nos
As selvas eram nossas
O êxtase era o nosso próprio espaço
O teu olhar era o universo frente a frente
A tua beleza era o som do amanhecer
A primavera amada pelas árvores
Agora somos uma tristeza contagiosa
Uma morte ant4es do tempo
A alma que não sabe em que lugar se encontra
O Inverno nos ossos sem qualquer relâmpago
E tudo isto porque não soubeste o que é a eternidade
Nem compreendeste a alma da minha alma no seu barco de trevas
No seu trono de águia ferida de infinito
Vicente Huidobro
Versão de HMBF
E não nos demos conta
Fomos os eleitos da mais alta estrela
E não soubemos responder à sua dádiva
Angústia de impotência
A água amava-nos
A terra amava-nos
As selvas eram nossas
O êxtase era o nosso próprio espaço
O teu olhar era o universo frente a frente
A tua beleza era o som do amanhecer
A primavera amada pelas árvores
Agora somos uma tristeza contagiosa
Uma morte ant4es do tempo
A alma que não sabe em que lugar se encontra
O Inverno nos ossos sem qualquer relâmpago
E tudo isto porque não soubeste o que é a eternidade
Nem compreendeste a alma da minha alma no seu barco de trevas
No seu trono de águia ferida de infinito
Vicente Huidobro
Versão de HMBF
sábado, 19 de março de 2011
O MEU PAI E EU
1.
Pai, és uma flor que brilha,
canta, fala e dança!
És um super-herói que me salva
até quando não podes arriscar!
És muito engraçado e feliz!
Hoje, neste dia, estou contigo
cheia de alegria para que fiques feliz!
2.
És um coração
que dança, fala e canta.
Sabes fazer muita coisa
e sabes muita coisa...
Hoje estou contigo
para que fiques feliz,
cheio de alegria e tão consolado.
Ilustração: Beatriz
Poema: Matilde
quinta-feira, 17 de março de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #8
Eis um objecto que tendo uns bons pares de anos, mais propriamente dezassete anos (foda-se, como o tempo passa!), nunca deixa de ser novo. Os Hedningarna surgiram no norte da Europa, mais propriamente na Suécia. Com uma música inspirada no folclore escandinavo, foram assumindo uma vertente mais roqueira ao longo dos anos. Trä, este extraordinário conjunto de canções vindas a lume quando o grunge de Seattle andava a provocar estiramentos nos corações adolescentes, causou um espanto ainda hoje contagioso. Dizem os especialistas que o título do álbum significa bosque. No entanto, não se trata de um bosque feérico habitado por seres ambivalentes, deuses e ninfas, gnomos e fadas. É um bosque terrivelmente humano. O segundo tema (Min Skog/My Grove), um dos mais poderosos do álbum, começa com uma motosserra a amputar o tronco de uma árvore, provavelmente centenária, provavelmente para ser transformada em pasta de papel. O álbum fecha com o som apaziguador de um riacho. Mas entre a motosserra e o riacho escutam-se cânticos medievos, vozes de inclinação gótica, iniciáticas, lamentações evocativas de uma chaga aberta no coração da Terra. Há momentos claramente exorcismantes que sugerem um culto, ou um ritual de entrega e de devoção telúrica que coloca no centro das atenções a mais essencial das verdades: nada neste mundo nos deve merecer tanto respeito como a força e o poder da Natureza. Uma música sugestiva, por vezes festiva, outras vezes melancólica, sempre inquietante. Subitamente vem-me à memória Ralph Waldo Emerson: «Para encontrar a solidão, um homem tem de deixar tanto o seu quarto como a sociedade. Quando escrevo ou leio nunca estou só, apesar de ninguém estar comigo. Mas se alguém quiser estar sozinho, que contemple as estrelas». O meu tema preferido é o nono, chama-se Tuuli. Tem por lá umas vozes índias (trata-se de Wimme Saari, que também colabora com Hector Zazou no excelente Chansons Des Mers Froides). Eu gosto muito de índios. Podem escutá-lo aqui. Já agora, não percam este cheirinho de uma actuação ao vivo.
segunda-feira, 14 de março de 2011
A RESPOSTA AO PAULO TAVARES
No passado dia 8 deixei aqui um texto sobre o primeiro número da revista Agio. Dois dias depois, o Paulo Tavares e a Sara M. Felício, editores dessa mesma revista, deixaram o seguinte comentário ao meu texto: «Henrique, saindo um pouco da nossa postura quanto a comentar este tipo de crítica, gostaríamos de deixar aqui registado que consideramos este texto relativo à Agio superficial, redutor e repleto de anti-corpos que nada têm que ver com aquilo que, supostamente, deveria ser a análise da revista em si.» Concordei com a apreciação de superficialidade por ser um feroz militante da mesma, o que, de resto, me levou a simpatizar com o artigo de Jorge Martins Rosa, publicado nessa mesma revista, onde se cita Susan Sontag e o seu memorável Against Interpretation. É um defeito que vem de longe, culpa da formação filosófica, este de resistir à presunção de essências, númenos, verdades ocultas e reflexões sobre reflexões que não servem senão para exercitar o espírito dos homens. Prefiro uma lamentação dos índios da América do Norte a Que é Uma Coisa?, de Martin Heidegger - 230 páginas para nos dizer que uma coisa é uma coisa. Portanto, se me acusam de superficialidade recebo a acusação como um elogio. Nas profundezas da terra só conto parar quando estiver morto.
Quanto à questão de o texto revelar uma leitura redutora, já não posso estar de acordo. As leituras são o que são. Neste caso, a minha leitura, assumidamente superficial, não foi redutora, apenas e tão só procurou debruçar-se sobre um objecto onde não encontrou mais que pudesse ser dito do que aquilo que foi afirmado. Que mais haveria a dizer? Que gostei muito do poema do Miguel-Manso que já conhecia do livro Santo Súbito mas achei o original oferecido à revista absolutamente frívolo? Que os poemas do Nuno Dempster são excelentes e que eu espero daqui a dias não ser por ele envenenado numa refeição prometida? Que o ensaio do António Carlos Cortez é uma seca e o do Ricardo Marques está francamente mal escrito? Que os poemas da Soledade Santos estão para o espírito como as compotas que ela confecciona estão para o paladar? Que a entrevista ao Luís Lucas é papel desperdiçado? Enfim, tudo isto são opiniões que a gente pode ou não fundamentar. Num post é difícil sem ser fastidioso. E eu não quis ser fastidioso, quis ser prático. Por isso mesmo avanço para a acusação que não percebi, a acusação de o meu texto estar repleto de anti-corpos, a mesma que foi, entretanto, desenvolvida pelo Paulo Tavares no e-mail aqui reproduzido.
Se bem li o e-mail do Paulo, os anti-corpos explicam-se a partir da leitura que eu fiz da introdução dele ao primeiro número da Agio. Ora, deixem-me recordar o que eu disse a esse propósito:
Tratando-se de uma revista de literatura especialmente inclinada para um género literário, a poesia, subentende-se nas palavras de Paulo Tavares, senão a ambição, pelo menos o desejo de alargar o público da criação poética. Nada a contrapor. No entanto, na nota introdutória deste primeiro número, o mesmo Paulo Tavares afirma que «na génese da Agio não há uma ideia de ruptura ou de inovação a todo o custo». Talvez fosse muito pedir tais custos, mas nunca é demais esperar de uma revista nova a ousadia de, pelo menos, propor algo de novo. E, nesse sentido, apenas nesse sentido, a Agio mostra-se, para já, algo débil e até previsível.
O que eu quero dizer com isto? Talvez mais ou menos o mesmo que Vicente Huidobro dizia quando afirmava o seguinte: Si no se ha de decir algo nuevo, no hay derecho para hacer perder tiempo al prójimo. O que tem a Agio que outras revistas não têm? Do meu ponto de vista, muito pouco. Repete a estrutura, não inova senão na divulgação de nomes menos divulgados, alguns dos quais das minhas afinidades electivas. Esse esforço é meritório, mas não é suficiente para a afirmação de uma publicação colectiva. O leitor exigente, e eu não me considero outra coisa, deve dizê-lo desassombradamente e pedir mais e melhor. O tom não é crítico, muito menos malicioso, como o Paulo sugere, é, antes pelo contrário, exigente. Toda a gente sabe, e eu sei-o por experiência própria e sinto-o todos os dias profissionalmente, que o mercado livreiro português fede de esterco publicado e até promovido na base exclusiva da boa camaradagem. Também toda a gente sabe que os critérios de exigência a nível nacional, neste como noutros domínios, são muito inferiores ao desejável. Menos gente saberá, porque também menos gente se interessará pelo assunto, que a poesia é um género particularmente ameaçado por essa situação. Portanto, todos os investimentos na sua divulgação, promoção, dilatação deverão merecer a nossa simpatia, mas jamais o nosso conformismo. Isso seria o pior de tudo. Cabe-nos um discurso exigente. E esse discurso, do meu ponto de vista, é o da ruptura, é o da desconstrução, tal como o entendo e não como, aqui e acolá, uns por ignorância, outros por implicação, outros por mera e incorrigível estupidez, ele vem sendo treslido.
Quem tenha lido O Meu Cinzeiro Azul saberá o que penso sobre todos estes assuntos. O intróito das Estórias Domésticas também afirma alguma coisa sobre o tema e as Estranhas Criaturas são (des)construções poéticas em prosa do que aqui estamos a falar. Quem não tenha perdido tempo com esses livros, tem a hipótese de percorrer centenas de posts aqui antologiados (este weblog tem cerca de 3250 entradas) onde, ao contrário do que o Paulo afirma, eu não me limito a valorizar o que ele considerará de dúbio mérito literário, mas ouso na afirmação de um homem com frio, esse homem que procura algo mais do que o conforto imediato da aceitação dos seus pares, os quais adoptam recorrentemente o discurso vazio da inutilidade da poesia, ainda que a escrevam, a publiquem e até se arroguem em criticar a dos outros, tanto quanto vão sublinhando a inutilidade da vida, a deles, sem que se dêem ao simples denodo de espetarem um tiro nos cornos. Para mim é uma questão de coerência, escolhi a via solitária e burguesa e nela hei-de caminhar folgazão até ao fim da vida. Desprezo as academias, evito as congregações e sinto-me como peixe na água na minha própria asma.
Não havendo na Agio uma ideia de ruptura ou de inovação a todo o custo, há algo que, está visto, nos liga. E talvez por nos ligar me decepcionou neste primeiro número. Quem tenha lido Revistas Literárias do Século XX em Portugal saberá que uma revista não é só um esforço de divulgação da poesia, perceberá que Orpheu, Presença, entre outras publicações, foram muito mais do que esse simpático esforço. Foram publicações que geraram tensões, contribuíram para uma dinâmica que é a dinâmica da ruptura dos paradigmas, não com o pressuposto de se instalarem enquanto novo paradigma, mas com a vontade de fazerem a produção poética caminhar, pelo risco das ideias, dos manifestos, da afirmação estética, na direcção de um futuro que não se pode resumir a esta modorra entediante do toma lá uns poemas, uns ensaios e umas entrevistas. A afirmação do novo começa, precisamente, na renúnica à novidade, esse triste corolário de um capitalismo que tudo perverte e conspurca com os seus interesses mais ou menos objectivos. Felizmente, não resvala a Agio para os trilhos pantanosos da auto-promoção, como acontece com outras publicações. Ainda assim, o remate parece-me paradigmático:
A Agio surge assim, finalmente, como uma publicação situada nas margens, mas com o propósito de contribuir, à sua medida, que será sempre definida pelos seus leitores, para a dilatação dessas margens.
Nas margens andamos todos, meu caro Paulo Tavares. Uns descalços, outros de chinelos, outros de sapatos Prada.
Quanto à questão de o texto revelar uma leitura redutora, já não posso estar de acordo. As leituras são o que são. Neste caso, a minha leitura, assumidamente superficial, não foi redutora, apenas e tão só procurou debruçar-se sobre um objecto onde não encontrou mais que pudesse ser dito do que aquilo que foi afirmado. Que mais haveria a dizer? Que gostei muito do poema do Miguel-Manso que já conhecia do livro Santo Súbito mas achei o original oferecido à revista absolutamente frívolo? Que os poemas do Nuno Dempster são excelentes e que eu espero daqui a dias não ser por ele envenenado numa refeição prometida? Que o ensaio do António Carlos Cortez é uma seca e o do Ricardo Marques está francamente mal escrito? Que os poemas da Soledade Santos estão para o espírito como as compotas que ela confecciona estão para o paladar? Que a entrevista ao Luís Lucas é papel desperdiçado? Enfim, tudo isto são opiniões que a gente pode ou não fundamentar. Num post é difícil sem ser fastidioso. E eu não quis ser fastidioso, quis ser prático. Por isso mesmo avanço para a acusação que não percebi, a acusação de o meu texto estar repleto de anti-corpos, a mesma que foi, entretanto, desenvolvida pelo Paulo Tavares no e-mail aqui reproduzido.
Se bem li o e-mail do Paulo, os anti-corpos explicam-se a partir da leitura que eu fiz da introdução dele ao primeiro número da Agio. Ora, deixem-me recordar o que eu disse a esse propósito:
Tratando-se de uma revista de literatura especialmente inclinada para um género literário, a poesia, subentende-se nas palavras de Paulo Tavares, senão a ambição, pelo menos o desejo de alargar o público da criação poética. Nada a contrapor. No entanto, na nota introdutória deste primeiro número, o mesmo Paulo Tavares afirma que «na génese da Agio não há uma ideia de ruptura ou de inovação a todo o custo». Talvez fosse muito pedir tais custos, mas nunca é demais esperar de uma revista nova a ousadia de, pelo menos, propor algo de novo. E, nesse sentido, apenas nesse sentido, a Agio mostra-se, para já, algo débil e até previsível.
O que eu quero dizer com isto? Talvez mais ou menos o mesmo que Vicente Huidobro dizia quando afirmava o seguinte: Si no se ha de decir algo nuevo, no hay derecho para hacer perder tiempo al prójimo. O que tem a Agio que outras revistas não têm? Do meu ponto de vista, muito pouco. Repete a estrutura, não inova senão na divulgação de nomes menos divulgados, alguns dos quais das minhas afinidades electivas. Esse esforço é meritório, mas não é suficiente para a afirmação de uma publicação colectiva. O leitor exigente, e eu não me considero outra coisa, deve dizê-lo desassombradamente e pedir mais e melhor. O tom não é crítico, muito menos malicioso, como o Paulo sugere, é, antes pelo contrário, exigente. Toda a gente sabe, e eu sei-o por experiência própria e sinto-o todos os dias profissionalmente, que o mercado livreiro português fede de esterco publicado e até promovido na base exclusiva da boa camaradagem. Também toda a gente sabe que os critérios de exigência a nível nacional, neste como noutros domínios, são muito inferiores ao desejável. Menos gente saberá, porque também menos gente se interessará pelo assunto, que a poesia é um género particularmente ameaçado por essa situação. Portanto, todos os investimentos na sua divulgação, promoção, dilatação deverão merecer a nossa simpatia, mas jamais o nosso conformismo. Isso seria o pior de tudo. Cabe-nos um discurso exigente. E esse discurso, do meu ponto de vista, é o da ruptura, é o da desconstrução, tal como o entendo e não como, aqui e acolá, uns por ignorância, outros por implicação, outros por mera e incorrigível estupidez, ele vem sendo treslido.
Quem tenha lido O Meu Cinzeiro Azul saberá o que penso sobre todos estes assuntos. O intróito das Estórias Domésticas também afirma alguma coisa sobre o tema e as Estranhas Criaturas são (des)construções poéticas em prosa do que aqui estamos a falar. Quem não tenha perdido tempo com esses livros, tem a hipótese de percorrer centenas de posts aqui antologiados (este weblog tem cerca de 3250 entradas) onde, ao contrário do que o Paulo afirma, eu não me limito a valorizar o que ele considerará de dúbio mérito literário, mas ouso na afirmação de um homem com frio, esse homem que procura algo mais do que o conforto imediato da aceitação dos seus pares, os quais adoptam recorrentemente o discurso vazio da inutilidade da poesia, ainda que a escrevam, a publiquem e até se arroguem em criticar a dos outros, tanto quanto vão sublinhando a inutilidade da vida, a deles, sem que se dêem ao simples denodo de espetarem um tiro nos cornos. Para mim é uma questão de coerência, escolhi a via solitária e burguesa e nela hei-de caminhar folgazão até ao fim da vida. Desprezo as academias, evito as congregações e sinto-me como peixe na água na minha própria asma.
Não havendo na Agio uma ideia de ruptura ou de inovação a todo o custo, há algo que, está visto, nos liga. E talvez por nos ligar me decepcionou neste primeiro número. Quem tenha lido Revistas Literárias do Século XX em Portugal saberá que uma revista não é só um esforço de divulgação da poesia, perceberá que Orpheu, Presença, entre outras publicações, foram muito mais do que esse simpático esforço. Foram publicações que geraram tensões, contribuíram para uma dinâmica que é a dinâmica da ruptura dos paradigmas, não com o pressuposto de se instalarem enquanto novo paradigma, mas com a vontade de fazerem a produção poética caminhar, pelo risco das ideias, dos manifestos, da afirmação estética, na direcção de um futuro que não se pode resumir a esta modorra entediante do toma lá uns poemas, uns ensaios e umas entrevistas. A afirmação do novo começa, precisamente, na renúnica à novidade, esse triste corolário de um capitalismo que tudo perverte e conspurca com os seus interesses mais ou menos objectivos. Felizmente, não resvala a Agio para os trilhos pantanosos da auto-promoção, como acontece com outras publicações. Ainda assim, o remate parece-me paradigmático:
A Agio surge assim, finalmente, como uma publicação situada nas margens, mas com o propósito de contribuir, à sua medida, que será sempre definida pelos seus leitores, para a dilatação dessas margens.
Nas margens andamos todos, meu caro Paulo Tavares. Uns descalços, outros de chinelos, outros de sapatos Prada.
A RESPOSTA DO PAULO TAVARES
O Paulo Tavares, co-editor da revista Agio, fez o favor de responder por e-mail a este meu post. Porque considero o texto honesto e inteligente, deixo-o aqui em jeito de direito de resposta. Conto replicá-lo lá mais para o final do dia. Penso que pode estar aqui um bom contributo para um debate que, a meu ver, não só está por realizar como me parece estimulante. A poesia merece tudo menos a letargia dos consensos e esta irritante fuga à discussão a que se vem assistindo, cujo efeito mais eloquente é uma completa falta de sintonia com os tempos que estamos a viver.
Bom dia, Henrique.
Os anti-corpos que referimos são os de alguém que, no seu blogue e nos seus textos, tem vindo a deixar vincada a necessidade do “novo”, do “alternativo” e da “ruptura”, mas que, detendo-se regularmente apenas na superfície de tais noções/configurações, não tem ido (porque não consegue ou porque não quer) mais além dessa superficialidade, valorizando muitas vezes livros/publicações que apenas aparentam tal diferença, mas de dúbios méritos literários, e criticando outras que não declaram ou não apresentam abertamente essa pose do “alternativo dentro do alternativo”, ou, por outras palavras, do movimento histórico de anti-literatura e de anti-academismo.
Dou um exemplo relativamente a essa acusação dos anti-corpos:
Na citação que fazes do editorial, “Na génese da Agio não há uma ideia de ruptura a todo o custo”, o “a todo o custo” serviu-te apenas para que reduzisses o editorial a uma coisa patética, “Talvez fosse muito pedir tais custos,…” (é muito ver aqui inclusive uma ponta de malícia?), sem sequer considerares que talvez no final desta frase, articulando-a com o que se diz no resto do editorial, reside efectivamente uma ideia contrária a essa busca contemporânea do novo pelo novo e à necessidade da “estrela única, do salvador de uma geração, da voz que a congrega” . Não sei que outro tipo de ousadia é mais consequente do que esta, que apresenta uma perspectiva contrária (sem ser pomposa) e que remete para aquilo que realmente interessa: os textos que compõem a revista.
É claro, por isso, que não nos revejo num dos teus comentários em que falas também de “falta de espírito crítico”.
Gostava que soubesses, ainda, que os “custos” relativos a tornar possível esta publicação são efectivamente muitos e elevados (e não me centro no factor financeiro).
Quanto à tua posterior resposta de que o teu texto “é um post, não pretende analisar nada nem procura ser crítico”, julgo que, para quem é tão mordaz quando lhe apresentam argumentação deste tipo falacioso, deveria haver da tua parte um pouco mais de reflexão antes de fazeres o mesmo. Para todos os efeitos, apresentas a formulação de um juízo, povoado de expressões como “débil”, “previsível”, “convencional”, “monótona”, etc. Tudo muito bem, é a tua opinião (contra a qual não tenho, por regra, a tentação de me manifestar), mas, neste caso, e por tudo aquilo que disse anteriormente, sentimos que deveria ser resposta alguma justiça (penso que a palavra não é exagerada) nessa entrada do teu blogue.
Paulo
PS: É apenas um pormenor no meio disto, mas peço-te que alteres uma imprecisão inicial no teu texto: A Artefacto não é patrocinada pela SI Guilherme Cossoul, é a vertente editorial da SI Guilherme Cossoul (e conta - talvez daí a confusão - com um pequeno apoio da Fundação C. Gulbenkian).
Bom dia, Henrique.
Os anti-corpos que referimos são os de alguém que, no seu blogue e nos seus textos, tem vindo a deixar vincada a necessidade do “novo”, do “alternativo” e da “ruptura”, mas que, detendo-se regularmente apenas na superfície de tais noções/configurações, não tem ido (porque não consegue ou porque não quer) mais além dessa superficialidade, valorizando muitas vezes livros/publicações que apenas aparentam tal diferença, mas de dúbios méritos literários, e criticando outras que não declaram ou não apresentam abertamente essa pose do “alternativo dentro do alternativo”, ou, por outras palavras, do movimento histórico de anti-literatura e de anti-academismo.
Dou um exemplo relativamente a essa acusação dos anti-corpos:
Na citação que fazes do editorial, “Na génese da Agio não há uma ideia de ruptura a todo o custo”, o “a todo o custo” serviu-te apenas para que reduzisses o editorial a uma coisa patética, “Talvez fosse muito pedir tais custos,…” (é muito ver aqui inclusive uma ponta de malícia?), sem sequer considerares que talvez no final desta frase, articulando-a com o que se diz no resto do editorial, reside efectivamente uma ideia contrária a essa busca contemporânea do novo pelo novo e à necessidade da “estrela única, do salvador de uma geração, da voz que a congrega” . Não sei que outro tipo de ousadia é mais consequente do que esta, que apresenta uma perspectiva contrária (sem ser pomposa) e que remete para aquilo que realmente interessa: os textos que compõem a revista.
É claro, por isso, que não nos revejo num dos teus comentários em que falas também de “falta de espírito crítico”.
Gostava que soubesses, ainda, que os “custos” relativos a tornar possível esta publicação são efectivamente muitos e elevados (e não me centro no factor financeiro).
Quanto à tua posterior resposta de que o teu texto “é um post, não pretende analisar nada nem procura ser crítico”, julgo que, para quem é tão mordaz quando lhe apresentam argumentação deste tipo falacioso, deveria haver da tua parte um pouco mais de reflexão antes de fazeres o mesmo. Para todos os efeitos, apresentas a formulação de um juízo, povoado de expressões como “débil”, “previsível”, “convencional”, “monótona”, etc. Tudo muito bem, é a tua opinião (contra a qual não tenho, por regra, a tentação de me manifestar), mas, neste caso, e por tudo aquilo que disse anteriormente, sentimos que deveria ser resposta alguma justiça (penso que a palavra não é exagerada) nessa entrada do teu blogue.
Paulo
PS: É apenas um pormenor no meio disto, mas peço-te que alteres uma imprecisão inicial no teu texto: A Artefacto não é patrocinada pela SI Guilherme Cossoul, é a vertente editorial da SI Guilherme Cossoul (e conta - talvez daí a confusão - com um pequeno apoio da Fundação C. Gulbenkian).
domingo, 13 de março de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #7
Em 1998 o mundo estava prestes a acabar e os Godspeed You Black Emperor! eram a melhor banda sonora possível para o fim do mundo. Infelizmente o mundo não acabou e nós tivemos que continuar a procurar pretextos para andar por cá. Em 2002, no dia 29 de Janeiro, fui vê-los e ouvi-los no Paradise Garage. Entrada n.º 104, 20€. Devo dizer que valeu a pena manter-me vivo até então. Os GYBE! produzem uma música essencialmente instrumental, com umas leituras/samplers de textos muito breves aqui e acolá, discursos apocalípticos e genuinamente pessimistas proferidos por profetas da desgraça. A música capta a atmosfera deprimente de uma sociedade em colapso. Baixem o som à televisão e experimentem ouvi-los enquanto no vosso canal de notícias preferido são transmitidas em directo imagens de atentados, manifestações violentas, contrastando com o nosso nacional porreirismo, cocktails molotov arremessados sobre batalhões imensos de polícias de choque, muros a serem destruídos e populações inteiras dizimadas por acidentes nucleares, desastres ecológicos, bairros arrastados pela lama, a vida nos subúrbios, tsunamis, terramotos, o degelo das calotes e o Pedro Passos Coelho a discursar para um país de parvos. O efeito será devastador. Oriundos de Montreal, os GYBE! foram enfiados na indistinta prateleira do post-rock. As composições são longas, mas não parece. Assentam em texturas minimalistas e hipnóticas que se desenvolvem na direcção de uma explosão que acaba quase sempre por retornar a uma pacificadora melancolia inicial. f#a# ∞ é o título deste álbum, para mim o melhor de uma formação que logra arrancar de uma paisagem essencialmente industrial a nuvem negra e poluidora das almas em queda. Digo isto porque, apesar do diagnóstico geralmente torturante, a mensagem mantém-se esperançosa: the future is still bleak, uncertain and beautiful… Arrisquem ouvi-los aqui ou acolá com continuação ali (o primeiro vídeo é um acompanhamento perfeito). Para mim, por hoje, são a melhor banda do mundo.
sábado, 12 de março de 2011
VICENTE HUIDOBRO
A POESIA É UM ATENTADO CELESTE
Eu estou ausente mas no fundo desta ausência
Está a espera de mim mesmo
E esta espera é outra forma de presença
A espera do meu regresso
Eu estou noutros objectos
Ando em viagem dando um pouco da minha vida
A certas árvores e a certas pedras
Que por mim esperaram muitos anos
Cansaram-se de me esperar e sentaram-se
Eu não estou e estou
Estou ausente e estou presente em estado de espera
Eles queriam a minha linguagem para se expressar
E eu queria a deles para expressá-los
Eis aqui o equívoco o atroz equívoco
Angustiante lamentável
Vou penetrando estas plantas
Vou largando as minhas roupas
Vão-me caindo as carnes
E o meu esqueleto vai revestindo-se de cascas
Estou a transformar-me numa árvore Quantas vezes dei por mim convertendo-me noutras coisas
É doloroso e cheio de ternura
Poderia dar um grito mas espantaria a transubstanciação
Há que guardar silêncio Esperar em silêncio
De Últimos Poemas (1948)
IMPOSSÍVEL
Impossível saber quando adormeceu esse recanto da minha alma
E quando voltará a tomar partido nas minhas festas íntimas
Ou se esse troço partiu para sempre
Ou sequer se foi roubado e se se encontra integrado num outro
Impossível saber se dentro do teu ser a árvore primitiva ainda sente o vento milenário
Se tu recordas o canto da mãe quaternária
E os grandes gritos do teu espanto
E a voz soluçante do oceano que acabava de abrir os olhos
E agitava as mãos e chorava no berço
Não precisamos de tantos horizontes para viver
As cabeças de papoila que devorámos sofrem por nós
A minha amendoeira fala por uma parte de mim mesmo
Eu estou perto e estou longe
Tenho épocas centenárias na minha breve idade
Tenho milhares de léguas no meu ser profundo
Cataclismos da terra acidentes planetários
E algumas estrelas de luto
Lembras-te quando eras um som entre as árvores
E quando eras um pequeno raio vertiginoso?
Agora temos a memória demasiado carregada
As flores das nossas orelhas empalidecem
Às vezes vejo reflexos de penas no meu peito
Não me olhes com tantos fantasmas
Quero dormir quero ouvir novamente as vozes perdidas
Como os cometas que passaram para outros sistemas
Onde estávamos? Em que luz em que silêncio?
Aonde estaremos?
Tantas coisas tantas coisas tantas coisas
Eu sopro para apagar os teus olhos
Lembras-te quando eras um suspiro entre dois ramos?
Vicente Huidobro
La Nación, Buenos Aires, 1932
Versão de HMBF
O MEU CORAÇÃO NÃO CHEGA PARA TANTO
Estimado Van Zeller, tenho apreciado as múltiplas intervenções do Jel. Ontem ouvi-o citar Milton,Voltaire e mais uns quantos no não-censurado programa do Mário Crespo. Também o ouvi dizer que, embora tivesse vestido a camisola da manifestação dos parvos, não era parvo nenhum, que até estudava umas coisas e sabia outras tantas. A mensagem era: vamos para a rua, deixemos o ódio e o ressentimento em casa, vamos fazer da luta uma alegria e vamos disseminar o amor pelas esquinas da cidade e vamos mudar isto de baixo para cima, vamos partir para um novo paradigma. Pelos vistos, a mensagem colheu. Um grupo de skinheads juntou-se à marcha envergando bandeiras negras. Cito o Público: Questionados pelos jornalistas sobre que movimento representavam, limitaram-se a dizer: "somos nacionalistas”. Este grupo acabou por entrar na coluna da manifestação sem problemas. Ora, o meu coração e a minha capacidade de amar não chega para tanto. É por isso que confesso um problema insanável com os paradigmas apregoados pelo Jel e por outros que usam e abusam do termo. Sempre que ouço a malta dizer paradigma fico arrepiado, penso em Thomas Kuhn, que também não sou parvo nenhum, e convenço-me de que, afinal, estamos em tensão, os paradigmas não passam de meros momentos de descanso na contínua revolução do mundo. Que o novo paradigma seja um protesto pacífico onde ao lado de nacionalistas marcham comunistas e ao lado de comunistas marcham anarquistas e ao lado de anarquistas marcham libertários e ao lado de libertários marcham liberais e ao lado de liberais marcham democratas é coisa bonita de se ver, chega até a ser comovente, mas não me demove de um cepticismo incurável para com as putativas virtudes da humanidade. A mensagem do Jel é positiva, é alegre, vem nos livros de auto-ajuda, não propõe nada que possa vir a sustentar uma sociedade inteira. A vida na cidade é mais complexa do que as legítimas aspirações de cada um dos cidadãos permite prever. Veja-se o estado em que estamos neste preciso momento: um Governo ameaçado pela susceptível e abstracta figura dos mercados toma medidas que toda a gente diz há muito deviam ter sido tomadas. Toda a gente excepto os afectados, que ainda há pouco haviam transformado Medina Carreira num bestseller e estrela de TV, alguém que defende o triplo da austeridade que o Governo está disposto a implementar. Viram-se para onde? Para a ilegitimidade de uma austeridade monocórdica e unilateral. Afinal, são sempre os mesmos a pagar a crise. E são mesmo. O problema é que são esses mesmos que há 36 anos de democracia distribuem responsabilidades de governação por dois partidos de nefelibatas, arrivistas e nepotistas, com homens como Cavaco na cabeça do poder. Portanto, tudo isto mais não é do que a expressão da vergonha que os portugueses deviam sentir sobre si próprios. Contra isto, não há rua, amor, alegria ou luta que valha. Só mesmo uma vaga de gente enraivecida. De preferência sem racistas pelo meio.
sexta-feira, 11 de março de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #6
Não há uma única Flat Earth Society. O All Music fala-nos de uma efémera e psicadélica sociedade dos memoráveis sessentas. Esta é outra, mais recente, e floresceu nas terras da Flandres. Não é fácil abordar a genialidade de um álbum como Isms (2004), produzido por Mike Patton, o homem da frente dos Faith No More e de projectos vários tais como Mr. Bungle e Fantômas. Assim muito aos repentes convém falar de uma big band à moda antiga, tipo a Count Basie Orchestra. A energia é a mesma, ainda que as estruturas musicais sejam menos lineares, mais loucas e arrojadas, ecoando, por vezes, a bebedeira de um Jelly Roll Morton, outras vezes os desvarios de um John Zorn, ou ainda as experiências psicadélicas e alucinadas de muitas bandas de rock progressivo. Peter Vermmersch, o principal compositor deste projecto, é clarinetista. Faz-se acompanhar de uma imensa secção de sopros, uma guitarra, baixo, percussão, teclados, acordeão, etc. A variedade de instrumentos é proporcional à multirreferencialidade musical. Num só tema podemos descobrir Ennio Morricone à mesa com Louis Armstrong servidos por John Barry num cozinhado confeccionado por Frank Zappa. Desta confusão toda, a que alguns chamam experimentalismo, retiramos que a FES procura criar uma música aglutinadora e sincrética. Por vezes, o ecletismo não é o melhor conselheiro. Mas neste caso, tendo em conta o critério no doseamento dos vários elementos, ele revela-se o princípio de alienantes metamorfoses. O que para os tempos que correm me aprece muito apropriado. Diz que este foi gravado em Sines. E este também.
quarta-feira, 9 de março de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #5
Perante a união de dois monstros pouco mais há a esperar do que uma monstruosidade. Assim aconteceu em 1990, quando John Cale (ex-The Velvet Underground) se uniu a Brian Eno (ex-Roxy Music) para a concepção de Wrong Way Up, um conjunto de canções de inclinação pop que escapam à brancura detergente da maioria das composições do género. Sem desprimor para os diversos intervenientes, trata-se de um álbum alicerçado nos sintetizadores e nas primevas experiências electrónicas levadas a cabo pelo autor de Music for Films (1978). Brian Eno, com uma carreira encetada ainda na primeira metade da década de 1970, encontra em John Cale o parceiro ideal para a realização de um objecto de inspiração wharoliana. No entanto, ao contrário do que acontece com a maioria das criações pop, Wrong Way Up resiste com impressionante robustez ao vírus do tempo. Não se trata de música descartável nem de sucessos imediatos, mesmo quando assim parece. In The Backroom, por exemplo, pode ser escutado ao longo dos tempos que nunca perderá o encanto inicial. O mesmo vale para temas como Cordoba ou Crime In the Desert. São composições onde a denominada música ambiente encontra na canção de inspiração urbana o parceiro ideal para uma viagem pelas pulsações de uma nova sociedade. Às portas do final do século XX encontrávamos em fila de espera o filão ansioso da tecnologia, deixando para trás, como coisa obsoleta mas reproduzível, a matriz orgânica de onde tudo partiu. Agora os arranjos faziam a diferença. As canções de Wrong Way Up recriam uma espécie de nostalgia do futuro sem verdadeiramente serem nostálgicas, permitem-nos conjecturar a possibilidade de um dia virmos a partir as paredes do universo. Têm no âmago a universalidade dos fenómenos indescritíveis e resistem a todo o tipo de definições.
FAMÍLIA
O que se passa cá dentro não deve passar lá para fora. E assim se defendem as maiores vigarices.
CARNAVAL
Camarada Van Zeller, hoje dirijo-me-lhe na qualidade de elemento pertencente a essa terrível geração que ficou classificada de rasca para a história recente do meu país. Quem for melhor que atire a primeira pedra. Talvez o Vicente, a barata tonta que assim nos rotulou para mais tarde vir declarar que entre as várias asneiras na vida que cometeu a de ser deputado pelo PS foi a maior de todas. Eu andei nas primeiras fileiras das barricadas contra a PGA, levei com um cacete nas trombas, fiz a Prova e aprendi o significado da palavra misantropo. Depois entrei no mercado de trabalho. Devo dizer que foi o pior erro que cometi na vida e estou mesmo convencido de que ser deputado do PS não teria sido pior. Trabalhei durante 10 anos a recibos verdes, cumprindo horários, marcando presença em reuniões obrigatórias, planificando acções de formação e aulas. Fi-lo na plena consciência de que estava a ser explorado, mas carregar com baldes de cimento às seis da manhã nunca me pareceu solução vantajosa. Ademais, acrescente-se que o fiz para uma instituição de caridade sem fins lucrativos. A Igreja Católica Apostólica Romana não é outra coisa. Se trabalhei para eles, ou para uma escola deles, nessas possíveis condições, foi porque eles mais não podiam proporcionar-me. E muito preocupados estavam com o meu futuro, a minha família e a estabilidade social das pessoas em geral (quando me propuseram fazer o mesmo nas instalações da CGTP as condições não eram diferentes, mas as salas eram mais frias). Pelo que sei, com o passar dos anos, a péssima gestão de um indivíduo sem escrúpulos levou a escola à falência. A ICAR, preocupada com a família da nobre criatura, encarregou-se de lhe arranjar novo pousio. Não me consta que alguma vez tenha sido incompetente a recibos verdes. Agora uma geração depois da minha, dita à rasca, o que denota progresso e evolução, pois de simplesmente rasca para comovidamente à rasca vai uma considerável melhoria, vem manifestar-se por ter licenciaturas que para nada servem, por ser precária e flexível, por andar com o pescoço pendurado à verdura dos recibos. Estou solidário com todos eles e acho que fazem muito bem em manifestar-se. Só peço que o façam longe da Rua José Tanganho, que eu ando muito sensível ao ruído e com os sonos perturbados. O mais é o que vossa excelência sabe, hoje esteve um belo feriado de trabalho. A ordenado mínimo e prestigiosa licenciatura. Valha-nos isso.
terça-feira, 8 de março de 2011
AGIO
A organização dos conteúdos é claramente convencional. Um primeiro conjunto com poemas de autores da casa (Sara M. Felício, Soledade Santos, Hugo Milhanas Machado, Daniel Francoy, Luís Felício) em ameno convívio com poetas de algum modo reconhecíveis (Miguel-Manso, Nuno Dempster, Margarida Ferra) e outros não tão badalados (João Silveira, Gabriel Machado, Luís Norte Lucas, Adair Carvalhais Júnior e Joel Henriques). Segue-se um conjunto de ensaios (talvez fosse mais adequado chamar artigo ao texto de Jorge Martins Rosa) e, a finalizar, duas entrevistas: a primeira a um dezedor, a segunda a um poeta. Mesmo deixando de lado a estrutura monótona, torna-se evidente que para não ser mais do mesmo a Agio terá de evoluir numa outra direcção, porventura mais destemida e afirmativa. Já vai sendo tempo de aparecer algo com o propósito da novidade e da ruptura.
Havendo diferentes pontos de interesse em cada uma das secções, cabe-nos chamar a atenção para os poemas de Sara M. Felício, dos quais Aos Poucos a Vida é um excelente exemplo de uma poesia ponderada sem o fastio da prostração reflexiva nem o contorcionismo de pueris efeitos irónicos tão em voga na actualidade. De Soledade Santos, Still Life With Cat e Não Sou Paciente são surpreendentes rasgões na sobriedade que caracteriza o tom geral do primeiro livro, Sob os teus pés a terra. Vale a pena citar o primeiro:
STILL LIFE WITH CAT
Passa uma musiquinha triste
na rádio. A gata dorme — o aconchego
da melodia casa vazia
uma cesta e o girassol amarelo
é quanto lhe basta para ser feliz.
Eu não me contento com tão pouco,
um girassol amarelo a musiquinha
uma cesta, tem mais do que eu
a gata, não espera nada e tem
me a mim também.
No campo do ensaio pouco há a reter. O texto de Ricardo Marques, intitulado Realidade, Linguagem e O(u)tras Sentimentalidades, limita-se a revisitar alguma da poesia espanhola do séc. XX sem verdadeiramente fazer aquilo a que se propõe: perceber as ideias, as diferenças e as semelhanças que Espanha e Portugal apresentaram no decorrer do século passado. António Carlos Cortez oferece-nos uma conferência proferida no âmbito do Ciclo Imagem e Pensamento II — Pierre Klossowski e os Poderes da Imagem (29 de Maio de 2010), onde a poesia de Césario Verde é lida à luz da obra pictórica do artista francês. Exercício exegético algo fastidioso, apoiado nos estudos de Helder Macedo, que mais facilmente espanta o público da poesia do que o cativa. Bem diferente é o artigo de Jorge Martins Rosa, chegando inclusive a contrastar com a prosa anterior na sua defesa de uma literatura menosprezada e dita não-erudita, ou escapista, por ainda não ter tido tempo para cair nas graças da academia.
A fechar, as entrevistas. Luís Lucas e Luís Quintais falam dos seus percursos. Um como leitor de poesia, o outro como poeta. A entrevista a Luís Quintais é um momento interessante de argúcia na análise sumária que o poeta faz sobre a actualidade - «Os mais novos parecem-me quase todos iguais» -, assim como uma rara demonstração de sentido autocrítico - «A Imprecisa melancolia, o meu livro de estreia, é um belo livro». E mais não se pode concluir: «A poesia é inútil, como se sabe. Isso agrada-me». Palavra do poeta.
POLÍTICA DE SUCESSO
Terminado o debate, pressentidas as consequências, rapidamente se concluiu que, por estes tempos, a única licenciatura em que valia a pena investir para uma carreira profissional de sucesso era a Licenciatura em Conquistar Simpatias. É sucesso garantido.
SÓ
Só só entre a noite e a morte
Andando no meio da eternidade
Comendo fruta no meio do vazio
A noite A morte
O morto recém-plantado no infinito
A terra vai a terra volta
Só com uma estrela pela frente
Só com um grande canto dentro e nenhuma estrela pela frente
A noite e a morte
A noite da morte
A morte da noite rondando pela morte
Tão longe tão longe
O mundo é levado pelo vento
E um cão uiva do infinito em busca da terra perdida
Vicente Huidobro
La Nación, Buenos Aires, 1932
Versão de HMBF
Andando no meio da eternidade
Comendo fruta no meio do vazio
A noite A morte
O morto recém-plantado no infinito
A terra vai a terra volta
Só com uma estrela pela frente
Só com um grande canto dentro e nenhuma estrela pela frente
A noite e a morte
A noite da morte
A morte da noite rondando pela morte
Tão longe tão longe
O mundo é levado pelo vento
E um cão uiva do infinito em busca da terra perdida
Vicente Huidobro
La Nación, Buenos Aires, 1932
Versão de HMBF
segunda-feira, 7 de março de 2011
HOMENS DA LUTA
Os homens da luta têm piada. Tinham mais, no início; como tudo o que se repete, o que é demais enjoa. Não há que fazer ciência acerca do fenómeno. Corremos o risco de cair no mesmo erro gerado por meteoritos humorísticos anteriores, do Herman da Última Ceia aos Gato Fedorento do Marcelo pró-vida. Não esperem milagres de quem só busca o seu pilim. Quanto a votações em concursos de TV estamos falados, o povo tanto vota no Salazar para figura portuguesa de sempre como nos Homens da Luta para palhaços do circo actual. Ainda há dias o povo podia ter dado expressão à luta votando massivamente em branco ou nulo ou no Coelho... O povo preferiu ficar em casa. É sempre assim quando o assunto é sério.
sábado, 5 de março de 2011
ERA DE FAMÍLIA
Pierre Klossowski (August 9, 1905—August 12, 2001) was a French writer, translator and artist. He was the eldest son of the artists Erich Klossowski and Baladine Klossowska, and his younger brother was the painter Balthus.
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #4
De ascendência grega, Diamanda Galás tornou-se conhecida por uma voz poderosíssima colocada ao serviço de performances macabras e lúgubres. Não admira que Francis Ford Coppola a tenha convocado para uma incorporação vocal das servas do demo em Drácula de Bram Stoker. Estreada nos palcos do Inferno em 1979, foi adquirindo junto da comunidade gótica/satânica, e não só, um respeito que se justifica pela pujança impressionante dos seus exorcismos. The Litanies of Satan (1982) anunciou uma vocação poética inspirada em Baudelaire, Milton e noutras mentes perversas com ligações obscuras às forças do mal. Plague Mass, gravado ao vivo em Outubro de 1990 na Catedral de St. John The Divine, numa actuação que causou polémica e furor, encerrou um ciclo dedicado à exorcização dos temores espoletados pelo aparecimento daquela que ficou conhecida como a epidemia do séc. XX: SIDA. A letra de Were You a Witness, o primeiro tema do álbum, revela uma postura cínica, mas sólida nas suas convicções. There are no more tickets to the funeral / The funeral is crowded são versos de um cinismo atroz que dificilmente passaria despercebido. O tom de lamento desaparece sob um exercício de expugnação dos demónios, ao som de salmos e de citações bíblicas que adquirem na voz de Diamanda Galás e nos ínfimos acompanhamentos musicais que a acompanham uma intensidade dramática inquietante. Às tantas, é difícil perceber se estamos a ouvir o corpo possuído de uma mulher aos berros ou a enérgica concentração de forças de um curandeiro em transe. Há quem diga que há por ali ecos de fado e de gospel, mas eu não vou tão longe. Para mim é antes a transfiguração dramática de um processo sacrificial, se é que me faço entender. O último tema é redentor.
quinta-feira, 3 de março de 2011
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #3
Tenho para mim que nenhuma época terá sido tão agradável para as pessoas deprimidas como o início da década de 1990. Estou mesmo convencido de que por esses anos as pessoas deprimidas andaram todas muito felizes. Sustento a tese num facto inquestionável que foi a proliferação de bandas deprimentes por essa altura, bandas que faziam as delícias dos urbano-depressivos, dos ruralo-melancólicos, dos ruralo-urbano-elegíacos, etc… Para tal muito contribuiu o aparecimento de um subgénero baptizado de neo-country, colados ao qual foram fazendo carreira diversos projectos tais como Tarnation, Red House Painters, Palace (nas suas múltiplas encarnações), Mazzy Star, The Walkabouts ou mesmo Tindersticks. Nos subterrâneos desta coisada toda, aquilo que ficou para a história como sadcore (slowcore na sua variante pop). A designação não é programática, pretende apenas classificar a estrutura lentíssima, hipersensível e desconsolada das canções. Levado à letra, o sadcore está para o rock alternativo como o cansaço para a vida quotidiana. Os Low foram a versão mais radiofónica do género, mas coube aos nova-iorquinos Codeine, cuja designação revela toda uma identidade, a concretização de um dos melhores registos fonográficos nesse contexto deprimente. Melhor que este The White Birch e antes dele só mesmo os álbuns dos Galaxie 500. Uma curiosidade interessante é a participação de David Grubbs em alguns temas deste álbum, o mesmo Grubbs dos Bastro ou dos Gastr del Sol de Jim O’Rourke. Grubbs tem um álbum a solo muito porreiro intitulado Rickets & Scurvy (2002). A modos que isto anda tudo ligado e em 1994 a Sub Pop, primeira editora dos Nirvana, materializou o segundo e último álbum dos Codeine. Aqui e acolá, algumas explosões de energia não renegam o espírito geral deste disco, resumido no verso final do tema Tom: I need a reason to smile. Ei-lo:
terça-feira, 1 de março de 2011
PUBLICIDADE
Recebo na solicitação publicitária a seguinte consideração: «o blogue "Antologia do Esquecimento" é uma referência a nível nacional». Outros terão recebido o mesmo que eu. Sucede que eu fico deprimido com tais considerações. Ainda ontem, passando os olhos pelo Prós & Contras, eu só pensava por que me castigou deus nosso senhor fazendo-me cidadão português. Referência a nível nacional? Preferia apanhar gonorreia.
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