sexta-feira, 27 de maio de 2011

OBRA DE ARTE

A história de um romance tornado obra de uma vida, um intrincado processo de montagem sujeito a múltiplas versões, a busca da perfeição nos interstícios de um inferno pessoal marcado por separações, crises psicológicas, vício alcoólico, amores impossíveis, tragédias domésticas, penúria e alucinação. No termo da sanidade, a forma como Malcolm Lowry se entrega à defesa da sua obra, em carta dirigida ao editor, é pungente. Lá do México, onde vivia em 1946, encarrega-se de explicar, capítulo a capítulo, o inexplicável. Admite cortes, falhas, aceita críticas, mas não verga a uma leitura que parece pretender exigir-lhe o que ele jamais pretendeu escrever. Todos os capítulos submetidos à prova de uma leitura em alta voz, assim como à prova de uma releitura íntima e distanciada, com as personagens a serem reduzidas à dimensão de um pormenor. Porque ali está algo mais, está a vida balanceada entre o paraíso e o inferno. O mais é isto:

O romance pode ser lido apenas como uma história que nos permite saltar páginas, se quisermos. Pode ser considerado uma espécie de sinfonia ou, sob outro ponto de vista, uma espécie de ópera − ou mesmo ópera de aventuras. É jazz, um poema, uma canção, uma tragédia, uma comédia, uma farsa, e por aí fora. É superficial, profundo, empolgante e chato à vontade de cada qual. É uma profecia, uma advertência política, um criptograma, um filme absurdo e uma frase escrita numa parede. Pode mesmo ser considerado uma espécie de máquina que também trabalha, acredite, como vim a verificar. No caso de achar que faço dele tudo menos um romance, melhor será dizer-lhe que não só pretende, ao fim e ao cabo, ser um romance, como um romance − seja embora eu próprio a dizê-lo − profundamente sério. Mas também exijo que seja obra de arte um tanto diferente daquela que o senhor suspeitaria que fosse, e também mais lograda, ainda que em função das suas próprias leis.

Quem é que ainda espera isto de um romance?

O SOM A CASA

O desafio que se nos coloca quando não gostamos de um livro é tentar percebê-lo, ao livro e ao que falhou na comunicação entre o objecto e nós que com ele perdemos algum do nosso tempo. Há inúmeras razões para que essa relação falhe, umas por incompetência do sujeito, outras por defeito do objecto. Podemos partir do princípio que aquilo a que chamamos “defeito do objecto” resulta já de uma construção do sujeito e da sua incapacidade para vislumbrar nesse objecto em particular as virtudes por outros vislumbradas. Admitamos que assim seja. Nesse caso, e porque falamos da relação entre um livro e um leitor, os livros serão sempre o que são, os seus atributos dependerão da capacidade dos leitores. Em última análise, não existem maus livros; existem maus leitores. Isto faz sentido, mesmo quando falamos dessa arte literária onde tudo é possível e nada é inadmissível? Não me parece justo que se coloque o ónus desta relação apenas sobre o sujeito/leitor. Se é verdade que um livro não pode ser comparável a um instrumento cuja qualidade é avaliável em função da sua utilidade prática, também não deixa de ser verdade que facilmente reconhecemos a certos livros méritos que, por mais que nos esforcemos, não conseguimos encontrar noutros. o som a casa (Artefacto, Dezembro de 2010), de Luís Felício (n. 1982), tem a priori o mérito de haver vencido o Concurso Literário Artefacto − Poesia (2010). Portanto, alguém reconheceu a esta obra méritos que, certamente por incompetência pessoal, eu não consigo reconhecer. Organizado em sete secções (número cabalístico), às quais correspondem um poema subdividido em partes diversas, o som a casa está escrito naquele estilo enigmático que Herberto Helder consagrou e umas largas centenas de poetas depois dele banalizaram. Como muitas vezes acontece, a poesia é aqui o centro das atenções. Não a poesia enquanto matéria analisável, mas a poesia enquanto território cuja fonte se pretende decifrar. A poética da primeira secção procura distanciar-se dos ismos em vigor na actualidade, optando por uma reafirmação da metáfora e por um discurso imagético capaz de atribuir ao pó a natureza de uma flor e efervescência às elipses. A figura do anjo que logo ali aparece, e se prolonga esparsamente, parece-me algo débil para tão custoso intento. E se quase sempre os versos nos soam pretensiosos − «poema: escarlate e pétrea geografia do tumulto, / vertical ascese lunar da sombra e da água negra…» (p. 15) −, não podemos negar que quando a água se aclara tudo toma um outro sentido: «apenas posso cantar as imagens, apenas posso cantar / imagens de imagens; tão-só posso cantar o invisível movimento das imagens» (p. 18). No entanto, a preocupação desta poesia não está no sentido. Está em libertar a escrita do corpo e deixá-la fluir sem amarras de sentido. Ou, pelo menos, está em tentar perceber se isso é possível. Esta demanda de uma poesia fiel à mais mental das suas condições, aquela onde som e imagem se fundem para lá do significado, leva o poeta a questionar-se sobre um tempo anterior aos nomes, sobre uma infância posterior ao som, sobre uma pureza que coincide com o acto de respirar e que, de algum modo, reflecte a linguagem enquanto fonte de poesia. O som, no sentido de vibração, será a casa. Pois bem: terá casa o som? Portanto, o que aqui temos é uma poesia a investigar-se a si própria, a procurar entender-se nos limites da sua imaterialidade, é uma poesia enrolada na força da linguagem. Que o faça resvalando num recital que raramente resiste à tentação de uma maçadora impermeabilidade, oferecendo aos versos uma música composta por assonâncias e ressonâncias gastas e previsíveis, só é revelador de uma dificuldade existente na moderna poesia portuguesa: a de ser reflexiva sem se fechar ao leitor, a de ser mental sem ser ensimesmada, a de ser vertiginosa sem sofrer de vertigens.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

LA COCA

Publicado inicialmente na Holanda, em 1994, La Coca mereceu uma primeira edição portuguesa, com o título castelhano vertido para a língua de Camões − A Coca −, seis anos depois. Coube a atenção à Editorial Escritor. Os dados estão disponíveis no sítio do autor. Mais recentemente, a Quetzal redescobriu a prosa de J. Rentes de Carvalho (n. 1930) e deu início a um processo de reedição das suas obras. La Coca reaparece agora (Março de 2011) como se nem um grama de tempo tivesse passado sobre ele. Nunca é demais referir este percurso, singular no caso português, até para que o mesmo possa vir a ser pensado e ponderado no futuro. Durante várias décadas, este autor esteve praticamente ausente do convívio com os leitores do seu país de origem. Desatenção? Sonolência? Desleixo? Talvez o tempo se encarregue de clarear os trilhos desta obra, a qual, curiosamente, mantém com esse mesmo tempo uma relação complexa. Ressalvando a subjectiva importância dos factos, a verdade é que La Coca desafia, pela sua estrutura e conteúdo, a classificação de romance que lhe aparece estampada na capa. É certo que na contracapa fala-se de uma «investigação literária», designação talvez mais apropriada à narrativa em causa. Sendo impossível determinar o que neste livro existe de ficcional, é muito mais fácil reconhecer ao longo das suas 187 páginas factos, nomes, dados históricos que colocam o texto num lugar flutuante. De resto, não só parece ser do agrado do autor a confusão instaurada pelo cruzamento de realidades, como facilmente o leitor é levado a acreditar ser essa a própria intenção do narrador. Realidade ou ficção, escolha o leitor o que mais lhe aprouver. De um ponto de vista estritamente pessoal, o que me importa sublinhar é antes a capacidade de a partir de um pretexto tipicamente jornalístico (investigar os meandros do contrabando e do narcotráfico na região de Trás-os-Montes) o autor se deixar enredar nos labirintos das recordações pessoais e nos transportar, mais uma vez, aos tempos das suas infância e adolescência reflectindo, de um modo tão claro quão descomprometido, a natureza da memória. Este é, também e por isso, um ensaio sobre a memória e a relação que esta mantém com a actividade literária. As palavras finais isso declaram: «Julguei viver. Tive aventuras e medos, conheci alegrias, conheci paixões. Tudo fugidio, curto demais. Fundindo o ontem no hoje o tempo negou-me o espaço onde eu me pudesse reencontrar, tornou hostil o que pelo hábito dos anos me deveria ser querido, levou-me a olhar com indiferença o que foi familiar. E agora, constrangido dou-me agora conta de que na minha vida nunca realmente houve partidas nem chegadas, nem pessoas, lugares ou eventos. / O que nela existiu e se prolonga ainda são cenários e personagens, sombras, as imagens desordenadas da memória que, presas na narrativa, se tornam uma dupla ficção» (p. 187). La Coca tem diversos destes momentos reflexivos, sugerindo na sua malha de recordações, vivências, viagens (interior, pessoal, íntima e física), ressonâncias, tempos entrecruzados, cenários pícaros e personagens pitorescas, uma necessidade de exame da própria consciência (a evocação de Somerset Maugham não há-de ser ingénua) e, talvez mais ainda, da existência enquanto campo minado de acasos e contingências imponderáveis. Se é verdade que neste livro encontramos um retrato de um espaço e de uma época, menos verdade não será que esse retrato pode ser considerado acessório quando nele vislumbramos algo que extravasa as fronteiras do espaço e do tempo, isto é, a necessidade de um homem se encontrar consigo próprio para lá das personagens e das histórias que o habitam. E no final fica a sensação de que, no vazio ilógico das associações, um homem não é feito de outra matéria senão das histórias que tem para contar sobre as personagens que o povoam. E J. Rentes de Carvalho tem muitas. Pela parte que me toca, só tenho a agradecer que as conte.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

NÃO POSSO

Bem vistas e ponderadas as coisas, eu próprio vivo acima das minhas possibilidades. Afinal, vivo em Portugal.

terça-feira, 24 de maio de 2011

E SE FOSSE ASSIM?

Assaltado por uma espécie de utopia surrealista, dei por mim a fazer contas imponderáveis. Li algures que, em 2010, a Sonae lucrou 192 milhões de euros. Não sei quanta gente emprega a Sonae, mas façamos as contas a 50000 indivíduos. Aqueles lucros divididos por 50000 perfazem a módica quantia de 3840€. Estes 3840€ davam jeitinho, não? Mas suponhamos que os podíamos distribuir pelos 12 meses anuais. Eram mais 320€ de salário por mês. Isto, para quem ganha o ordenado mínimo nacional, faz toda a diferença. 480 + 320 = 800. Nada mau. Mas a economia não é assim, o mundo não é assim e eu não sei fazer contas. Porque as empresas precisam de crescer, e para crescerem é preciso investir, e para investir é preciso lucro. Não se pode desperdiçar o lucro com quem trabalha. Isso é que era bom.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

ETC, ETC...



Há muitos portugueses que gostam de ouvir Paulo Portas criticar o Rendimento Social de Inserção. Babam-se de contentamento quando o intocável brada contra a injustiça que é uns terem que trabalhar para outros poderem viver em casa à custa do Estado. Para Paulo Portas, os desempregados são um cancro e os apoios sociais são o vício que provoca o cancro. Este discurso é muito apelativo, esta retórica rende, e não restam dúvidas de que o Dr. Portas é doutorado em capitalizar a demagogia. Aqueles que discordam do Dr. Portas deviam aplicar-se em explicar às pessoas, de um modo claro e evidente, a demagogia do Dr. Portas. Não o fazendo, permitem que essa mesma demagogia ganhe adeptos e alastre como uma praga inquisitória. Não sei se é verdade, se é mentira, mas notícias recentes referem que o RSI, com todos os seus vícios e eventuais virtudes, custou ao Estado 520 milhões de euros no ano passado. Ora, a mesmíssima alma que está tão preocupada e indignada com este valor não hesitou em pagar 832,9 milhões de euros (sem juros, porque com juros esse valor supera os mil milhões de euros) por dois submarinos comprados quando era Ministro da Defesa. Para o Dr. Portas os submarinos podem ser prioritários relativamente aos apoios às famílias carenciadas. Só isso explica o investimento final de 1,35 mil milhões de euros no Tridente e no Arpão. Mesmo tendo em conta os defeitos de um sistema permeável a falhas e à típica chico-espertice lusitana, que nunca será tão onerosa como a demagogia do Dr. Portas, prefiro o investimento no apoio às famílias carenciadas.

domingo, 22 de maio de 2011

UMA NOVA OPORTUNIDADE

Camarada Van Zeller, no próximo dia 5 irei votar. Isto não está para ficar em casa a fazer contas. Irei votar com o Rui Pedro Soares, o Soares Carneiro e o Armando Vara na memória. Levarei no bolso esquerdo o processo Face Oculta para não me esquecer de nada. Num outro bolso, conto levar o caso Freeport. E como me restam vários bolsos, levarei também as três centenas de despachos assinados numa madrugada pelo ex-ministro Telmo Correia, o Casino de Lisboa e os submarinos do doutor Protas. Nos meus bolsos, que são largos, cabem ainda Abel Pinheiro, o processo dos sobreiros, os 20 génios que ocupam 50 cargos na administração de 1000 empresas diferentes. Cabe o caso Portucale e a ex-ministra Celeste Cardona, cabem o caso Moderna e a super fotocopiadora do Paulo das feiras. Vou votar com o Duarte Lima, o Ferreira do Amaral, o Jorge Coelho, o Diogo Vaz Guedes, o Santana Lopes, o Dias Loureiro e o José de Oliveira e Costa na cabeça. Levo o BPN numa mão para não me esquecer de, com a outra, fazer o que me resta: botar a cruz em quem possa morder as canelas a estes ladrões de colarinho branco. É fácil: basta pensar nesta gente toda e no que têm andado a roubar passando incólumes, sobre tudo e sobre todos, como se nada tivessem feito, como se nada tivesse acontecido, como se nada fosse grave. Isto precisa de uma purga, rápida e geral. Camarada Van Zeller, dia 5 irei votar contra esta gentalha toda, formada, eventualmente, em universidades sérias, modernas e independentes que nada têm que ver com essa obra criminosa das Novas Oportunidades. Pum!

sábado, 21 de maio de 2011

PERFIL

Leio isto no Facebook: «Confirmasse o k sempre disse. Isto das novas oportunidades é uma palhaçada». No perfil, o visionário revela que estudou Engenharia Zootécnica na Universidade de Évora. Dêem-lhe uma nova oportunidade a língua portuguesa.

terça-feira, 17 de maio de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #16



Posso ser conservador e não ter cabeça para Nova Iorque, mas sei apreciar um bom vinho. O Conventual branco de 2010 cai perfeitamente com umas pernas de frango guisadas, acompanhadas de esparguete. Sobretudo se estiver bem fresco. Deixa-nos os dedos numa levitação que se torna difícil acertarmos na tecla certa enquanto escrevemos. No entanto, há sempre a possibilidade de voltarmos atrás, apagarmos, corrigirmos o erro, refazermos o texto. Uma possibilidade que a vida nem sempre permite. Escute-se com atenção None of the Above, o memorável registo de Peter Hammill, como prova da incompatibilidade que separa o homem das suas ambições. Hammill foi parte integrante dos históricos Van der Graaf Generator. Nasceu em Inglaterra no ano de 1948, cursou filosofia e artes, foi educado por jesuítas (ninguém pode gabar-se de um passado perfeito), cedo enveredou pela melhor das carreiras: a solo. O álbum de 2000 é memorável por várias razões. A primeira está directamente relacionada com as qualidades de um bom vinho, o apuro dos ingredientes, a casta onde amadureceram os componentes, a química dos elementos. 8 canções escritas nas estrias da tijoleira (não me perguntem, não sei o que pretendo afirmar com isto mas faz-me sentido). Somebody Bad Enough merecia um ensaio, é de audição obrigatória, pelo menos, 5 vezes ao dia durante 5 semanas seguidos. E estou a ser condescendente. Há nas composições deste disco um hálito que merece ser provado sem preconceitos nem qualquer tipo de predisposição. O segredo é deixarmo-nos embalar pela reverberação, pelos graves, pelos sopranos, pelos harmónicos. Cada tecla acompanha uma nota que as cordas vocais emitem já não apenas como uma pedra sobre o caminho, mas como o eco dessa pedra caindo no fundo de um abismo para onde foi atirada. O segredo, a existir, reside no reflexo, nos círculos formados na água após a queda do seixo. Há momentos que sugerem uma certa complexidade, uma estranheza. Como no tema In a Bottle, onde várias vozes se sobrepõem e desafiam a estrutura linear da maioria das canções: «Sangreal, the eau-d-vie». Essencialmente composto na base de sintetizadores, este disco é de um organicismo incomparável. Aquilo a que alguns chamam atmosfera fica reservado às palavras, aqui sintetizadas em dois versos: «life’s just got started when / you find you can’t begin again». E o resto é conversa para amantes de passerelle e novas tendências, em Nova Iorque, Paris ou no Burkina Faso.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

MAR INTERIOR

Há entre a pele e o papel a coincidência de ambos alojarem manchas que o tempo traz à superfície. No caso dos homens, as manchas não valorizam o que quer que seja. A velhice tanto lhes pode acrescentar sabedoria como rancor. São assim os homens. Mas o papel ganha, com o tempo, um timbre admirável. É o caso deste panfleto, que apenas me chegou às mãos pelos bons cuidados do Rui Almeida. Pelo panfleto passaram praticamente 70 anos. Escrevia-se de uma outra maneira à época, não só no estilo como na própria língua. Coube à Editorial Império dar a conhecer os versos de Merícia de Lemos, poeta nascida em 1913 na Beira (Moçambique) e emigrada para Paris ainda decorria a década de 1940. Se bem apurei, Mar Interior (1942) foi a sua estreia literária. Ecos modernistas escutam-se no interior dos versos, uma linguagem clara mas paradoxal que torna complexa a própria palavra simplicidade: «Quero ser simples e fazer versos ingénuos.» (Desejando a Simplicidade) O Rui diz que se lembrou de Adília ao ler estes poemas, o que é inevitável perante A História do Meu Tricot. Eu lembrei-me de Ângelo de Lima ao ler Às Três Horas de Um Dia de Janeiro: «Desejo imenso ser má e tenho uma natural bondade. / Há quem nos meus poemas queira ver-me. / É verdade que quando os escrevo sou sincera, / Mas também é verdade que quando os escrevo sou imaginativa. / E porque sinto aquilo que imaginei e digo aquilo que sinto / Acontece-me ficar sem saber se escrevo o que senti ou se sinto o que escrevi.» E se alguns versos vêm corrigidos pela própria mão da poeta, conferindo à palavra desejo uma intencionalidade que não passa despercebida, mentira não será que o próprio tempo se encarregou de corrigir o que torna hoje esta poesia muito mais convincente do que à época terá sido:

DESCRENÇA

Não creio em mim, não creio em ti,
Não creio no Bem, não creio no Mal,
Não creio na Vida, não creio na Morte,
Não creio em nada.

Encontro para tudo controvérsia.

Afundo-me na minha descrença.

E eu que nada invejo
Invejo os homens que sobem até Deus só pela Fé.

E desde o Sol ao próprio chão pregunto se tudo não é apenas ilusão.
E pregunto
..................Se não é ainda uma ilusão que em nada eu creia!





Mantive a grafia original. Lá fora troveja.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

UMA PROPOSTA MODESTA

Jonathan Swift (1667-1745), que ficou para a história da literatura como autor d’As Viagens de Gulliver, foi um inigualável praticante da sátira. Meses antes de ter nascido, o seu pai morreu e deixou a mulher sem condições de criar um filho. Swift foi levado para Inglaterra pela sua ama, mas regressaria à Irlanda, já com quatro anos feitos, para aí ficar aos cuidados de um tio. Este pormenor biográfico é importante, na medida em que nos permite compreender a sua notória ambivalência, enquanto irlandês, relativamente às revoluções anti-católicas que então grassavam na sua terra natal. Se por um lado sempre sentiu o peso da educação inglesa, por outro lado via-se na obrigação de defender a Irlanda que, ao mesmo tempo, tanto criticava. De facto, foi como protegido de Sir William Temple, historiador e político inglês, que Jonathan Swift conquistou alguma posição social, ao doutorar-se em Teologia e ao assumir, posteriormente, posições de relevância eclesiástica. Em 1708, data de Um Argumento contra a Abolição do Cristianismo, encontramo-lo como emissário do clero irlandês em Londres. Neste brevíssimo ensaio, vislumbra-se já a veia irónica do autor que André Breton não enjeitou para a abertura da sua famigerada Antologia do Humor Negro. É o segundo texto desta belíssima edição da Alfabeto (Fevereiro de 2011), com tradução de Pedro Ventura e ilustrações de Frederico Penteado. O Argumento, como qualquer texto desta índole, não tem por alvo uma entidade concreta, permitindo-se antes atacar, por via retórica, uma situação entendida em sentido lato. Neste caso, a intenção parece ser a necessidade de rebater os argumentos daqueles que têm por projecto a abolição do Cristianismo. Jonathan Swift enuncia os argumentos dos seus adversários, e rebate-os sem necessariamente os contradizer. À semelhança do que Erasmo (1466-1536) fez com o Elogio da Loucura, os contra-argumentos utilizados pesam sobre o objecto de defesa. Repare-se como à suposta vantagem de, ao abolir o Cristianismo, ficarmos com mais um dia de produção, Swift enuncia sob a forma de interrogação as características de um "domingo" passado na Igreja: «Como se pode pretender que as igrejas são mal usadas? Onde são marcados mais compromissos e encontros de galantearia? Onde se aparece nos melhores preceitos e com mais cuidado no vestir? Onde são conduzidos mais negócios? Onde se encontram as melhores pechinchas? Onde é mais conveniente e convidador dormir?» (p. 54) Quem assim se interrogava, sabia do que falava. Praticamente vinte anos depois, já como decano da St. Patrick's Cathedral, a sua pena atinge o extremo da erosão literária com o texto Uma Proposta Modesta. Nessa prosa de insofismável actualidade, a técnica já não é a do rebate retórico. Agora, o autor avança com uma proposta e enumera as suas vantagens. O propósito seria sanear, de uma vez por todas, as ruas de Dublin, acabando com a mendigagem que pululava sem fim aparente. As ferroadas no desprezo inglês são evidentes, assim como na própria postura do clero perante a miséria do povo. O sistema proposto por aquele que é hoje em dia, e para ironia do destino, um dos mais celebrados autores de “literatura juvenil”, consistia em converter as crianças mendigas do país naquilo que, para bom entendedor, elas já eram: gado. A comparação com «ovelhas, gado bovino ou suínos», convertendo as mães dos pedintes em éguas, vacas ou porcas parideiras, dá um ar do retrato social que a época merecia. As vantagens de passarem as crianças do reino a ser tratadas como leitões prontos a assar seriam óbvias: diminuição do número de papistas, melhorias de vida nos rendeiros mais pobres, incrementação das reservas nacionais, desanuviamento económico das famílias, mais freguesia nas tabernas (consta que a carne de criança é deveras tenrinha), incentivo ao casamento… Impossível saber se o comunismo, essa doutrina política que consiste, essencialmente, em devorar criancinhas ao pequeno-almoço, não terá tido nos textos de Jonathan Swift uma fundamentação literal. A verdade é que o decano da St. Patrick's Cathedral estava cheio de razão. As ruas, como hoje, não deixavam mentir nem davam lugar a ilusões. Para os explorados só havia uma solução: devorarem-se a si próprios. Foi assim no passado, é assim hoje e duvido que mude no futuro. A ver vamos.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O LEITOR





Ontem os olhos pararam n’O Leitor. O filme de Stephen Daldry, que também realizou As Horas e Billy Elliot, tem todos os ingredientes de um bom filme. De resto, nestes três filmes encontramos boas histórias, actores que garantem interpretações convincentes, argumentos cativantes, uma fotografia escrupulosa, ritmo adequado. No entanto, O Leitor sofre de uma inverosimilhança fatal. É tudo demasiado bonito para ser verdadeiro e é tudo demasiado verdadeiro para ser bonito. Nada de novo na história de um jovem que desperta para a vida através da relação com uma mulher mais velha. Que Hanna Schmitz lhe peça leituras em voz alta apenas confere uma dimensão poética ao encontro, mas o pormenor não pode deixar de ser interpretado como um subterfúgio narrativo algo inconsistente. É provável que Bernhard Schlink, professor de Filosofia do Direito e autor do livro que está na origem do filme, não tenha pretendido tanto sublinhar a relação entre Michael Berg e Hanna Schmitz como parece ter concentrado os seus esforços numa dimensão moral que acaba por escapar à película. O que temos ali, então, é um case study, um de milhares de exemplos possíveis sobre as fragilidades da Justiça. Mas quem um dia se recordar de O Leitor, não vai lembrar um estudante de Direito perseguido por conflitos morais ao descobrir que a sua primeira foda foi com uma ex-guarda do campo de concentração de Auschwitz que gostava que os meninos lhe lessem livros em voz alta. Vai lembrar um rapaz e uma mulher que se amaram para lá das contingências da vida, presentes um no outro por sinais de fumo e memórias privadas e inconfessáveis. O julgamento de Hanna Schmitz era escusado, fica a pesar sobre o amor como uma tragédia já vista. A sua condenação começa no seu analfabetismo. E a maior das penas é esse isolamento que a separa de Michael Berg, um jovem que pode pedalar sobre a palavra como o poeta montado na sua bicicleta.

A MINHOCA







Quem venera a minhoca lavradora
que fende os torrões debaixo das ervas
em sua ocupação de transformar a terra?
A terra de quem se cobre enquanto trabalha
muda e cega de tanta terra.

Lá bem no fundo, onde os campos se vestem
para a colheita, ela é a mais humilde
lavradora. Quem venera o seu lavrar
de campesina cinzenta e paciente
nas profundezas da terra?

Harry Martinson, in 21 Poetas Suecos, trad. Casimiro de Brito, Vega, s/d, p. 94.



Harry Martinson tem todo um currículo que merece ser do conhecimento público. Perdeu o pai aos seis anos de idade e a mãe logo a seguir. Após a morte do marido, a senhora entregou os filhos a uma instituição pública e partiu para a América. Harry cresceu a aprender os mandamentos da sobrevivência: fugas, trabalhos vários, biscates, vagabundagem. Aos 16 anos fez-se homem do mar, e pelos oceanos andou até 1927, ano em que a tuberculose obrigou a que encalhasse novamente na Suécia. Dois anos depois casou com uma escritora 14 anos mais velha, publicou o primeiro livro de poemas e deu início a uma carreira literária que culminaria com o Nobel da Literatura em 1974. Os últimos anos fizeram dele um saco de boxe da juventude impaciente, a qual lhe exigia um comprometimento político que não era, nem deixava de ser, a sua principal preocupação. A depressão levou-o novamente às salas dos hospitais. O Nobel não foi remédio, pois adensou as críticas e Martinson tentou suicidar-se com uma tesoura. Eis um cheirinho de vidas literárias que já não há. Agora é tudo escritório, academia, festival e cama lavada.

domingo, 8 de maio de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #15


Tenho duas colecções de jazz feitas do princípio ao fim. Foram as únicas colecções que alguma vez terminei. Julgo mesmo ter sido a única coisa na vida que fiz do princípio ao fim. Em nenhuma delas aparece Ornette Coleman, saxofonista de excepção e figura controversa num mundo onde anormal é ser-se politicamente correcto. Nascido a 19 de Março de 1930, em Fort Worth, começou a tocar sob a influência de Red Connor e do inevitável Charlie Parker. Tinha 14 anos. Mudou-se do Texas, onde nasceu, para Los Angeles no início dos anos 50. A mania de improvisar numa banda que ganhava a vida a tocar melodias convencionais levou-o ao despedimento e a tentar a sorte noutras paragens. Alternou vários empregos com o estudo da música, lendo livros sobre harmonia e cruzando-se com músicos que acabariam por ser fundamentais na sua própria afirmação musical. O mais importante de todos terá sido o baixista Don Payne. Foi em casa deste que Red Mitchell ouviu Ornette Coleman e o levou até Lester Koenig, o produtor da Contemporary que acabou por juntar o quinteto deste Something Else!!! (1958). O trompetista Don Cherry, Walter Norris (piano) e Billy Higgins (bateria) são o trio que falta. Este quinteto marca a estreia de Ornette Coleman nas gravações em nome próprio. Quem aprecie jazz facilmente encarará o som registado neste disco, mas à época esta música gerou furor e discussão. As portas para o free começam a ser abertas com solos a distanciarem-se das linhas melódicas de base e improvisações despreocupadas face à melodia. As linhas de entrosamento estão lá, embora agora o desafio seja a marcação do tom e uma espécie de deriva delineada pelas paredes do labirinto. As influências são perfeitamente perceptíveis, quer quando os riffs evocam blues, quer quando os compassos remetem para ritmos latinos, mas o mais impressionante ao longo dos nove temas é mesmo a afirmação de um compositor e da sua singularidade: «I believe music is really a free thing, and any way you can enjoy it, you should». Tudo dito.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O DIREITO À PREGUIÇA

Por mais curta que seja, esta história carece de um certo enquadramento biográfico. Paul Lafargue (1842-1911) nasceu em Santiago de Cuba no seio de uma família onde se misturavam judeus com mulatos e índios com franceses republicanos. Inicialmente simpatizante de Proudhon, inclinou-se para as teorias marxistas. De resto, inclinou-se de tal modo que veio a casar com Laura Marx. Suicidaram-se ambos após uma vida de luta dedicada ao activismo político, deixando nas notas finais loas ao comunismo e votos de glória. O ímpeto panfletário de Lafargue ficou nobremente registado no best-seller intitulado O Direito à Preguiça. Esta edição da Teorema, com tradução de António José Massano, é a décima primeira (Março de 2011). À partida, este panfleto datado de 1880 pode passar por uma divagação utopista inspirada no hedonismo clássico. Mas à partida as coisas são sempre muito diferentes do que se constata serem à chegada. Escrito numa época em que os movimentos de protesto contra a exploração da classe operária ganhavam força e começavam a assumir formas de combate bastante violentas, este texto tem como principal alvo «a moral capitalista» entendida como «lastimável paródia da moral cristã». Portanto, trata-se de um panfleto com um propósito muito prático e actual: abrir a pestana dos assalariados, novo género de escravos alimentado pela sociedade capitalista e os seus dogmas do trabalho. O L’Égalité foi o primeiro albergue desta sátira escrita ao jeito de um manifesto e com uma lógica argumentativa imbatível. Primeiro desmascara-se o dogma desastroso da sociedade capitalista, estabelecendo uma cisão entre o culto do ócio na antiguidade e a degenerescência da “vida feliz”, como a entendiam Séneca ou Epicuro, incutida pelo cristianismo e pelo seu ódio à natureza selvagem. A censura dos prazeres, ditada pela religião da produtividade, devota do deus Progresso, transforma o homem num ser doente e desapaixonado. Lafargue cita como exemplo de um povo saudável os índios das tribos guerreiras do Brasil, que matam os doentes e os velhos por entenderem não valer a pena continuar vivo sem poder retirar prazer da vida. Esta dimensão hedonista, de matriz cínica, subentende uma dúvida fundamental: de que vale viver sem liberdade, escravo do trabalho, nem réstia de esperança numa vida feliz? Entenda-se que neste contexto a vida feliz não estabelece qualquer dicotomia entre os prazeres do corpo e os prazeres do espírito, patacoada introduzida pelo idealismo platónico e propagada pelo cristianismo. Estamos no domínio de um materialismo puro. Sem o corpo satisfeito, não há prazer do espírito que nos valha. E para estar satisfeito o corpo necessita de descanso, ócio, preguiça. As 12 horas de trabalho fabril a que estavam obrigados os operários de então impossibilitavam esse estado de graça, usurpando à vida o seu sentido e fazendo dos homens meras peças de uma mecânica aniquiladora. Como tal, Paul Lafargue defende que ninguém deveria trabalhar mais que três horas por dia. E desbrava o caminho: «Estas misérias individuais e sociais, por grandes e inumeráveis que sejam, por eternas que pareçam, desvanecer-se-ão como as hienas e os chacais à aproximação do leão, quando o proletariado disser: «Quero!» Mas para que tome consciência da sua força o proletariado tem de calcar aos pés os preconceitos da moral cristã, económica e livre-pensadora; tem de regressar aos seus instintos naturais, de proclamar os Direitos da Preguiça, mil e mil vezes mais nobres e sagrados do que os tísicos Direitos do Homem, cozinhados pelos advogados metafísicos da revolução burguesa; que se constranja a trabalhar apenas três horas por dia, a nada fazer e a andar em patuscadas o resto do dia e da noite» (p. 29). Mentes reaccionárias insurgir-se-ão contra tão nobres intentos questionando a sua exequibilidade. Afinal, como garantir o serviço da patuscada? Como garantir a produção do vinho a quem deseja deleitar-se bebendo-o? O problema reside na superprodução, na ganância desmesurada daqueles que ganham com o hipnotismo laboral a troco de uma capacidade de consumo que nos permite adquirir praticamente tudo privando-nos do mais precioso dos bens: tempo para usufruir daquilo que venhamos a adquirir. Com preocupações humanistas evidentes, estes argumentos mantêm na actualidade a pertinência indiscutível de um diagnóstico justo sobre as injustiças do mundo laboral. À luz dos conceitos hoje em vigor, poderão apenas valer como fonte de inspiração para uma luta pelo mais básico de todos os direitos: a preguiça, terrível pecado contra o qual temos vindo a assistir a uma recorrente e exacerbada condenação da vida. A única que temos, até prova em contrário.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

PARADEIRO

Espanto-me com a proliferação de teorias sobre o que terá acontecido a Osama bin Laden, um indivíduo que não deixará saudades e a quem só desejo um milhão de virgens horrorosas a sugarem-no até à última pinga de ânimo. Já se sabe que nestas alturas todas as teorias, conspirativas ou politiqueiras, vêm à superfície, mas não pode deixar de causar espanto a quantidade de gente tão bem informada e sabichona que pulula neste país. Pelo que sabem ou julgam saber, pelas certezas disfarçadas de dúvidas que levantam ou insinuam, devem ser todos agentes secretos da CIA, ter ligações à Mossad ou ex-KGBs com o bichinho atrás da orelha. Desconfio inclusive que o meu amigo Chuinga também faça parte do regimento. Ainda hoje me garantiu que “O Ben Laden ‘tá vivo e mora em Trás-os-Montes". Atire a primeira pedra quem nunca tiver pecado.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

CINTRA TORRES É UM AGENTE SECRETO AO SERVIÇO DE SÓCRATES

Após um árduo e burocrático dia de trabalho, parei no café a beber uma cervejinha e a ler o jornal. Voltei a ler jornais. O P2 oferece-nos uma extensa prosa de Eduardo Cintra Torres que merece algum trabalho estatístico. Se excluirmos o título do artigo –A campanha eleitoral da Central de Propaganda −, Cintra Torres repete 17 vezes a palavra Central, assim mesmo, grafada com maiúscula. Segundo o crítico televisivo, esta suposta Central tem uma estratégia: dizer aquilo que o povo pensa, ou seja, que os políticos são todos corruptos. Para tal, contratou José Lello, um maquiavélico agente ao serviço da abstenção. Cabe ao deputado socialista esse papel paradoxal de dissuadir os portugueses do voto para, assim, aumentar a abstenção e, com isso, aumentar as possibilidades de um bom resultado socialista. Dito de outra forma, Lello não quer que os portugueses votem para que ele possa ser eleito (não sei se Lello vai em alguma lista, mas se for é esta a sua estratégia). Cintra Torres refere que «os eleitores mais livres votariam mais facilmente na oposição», pelo que é do interesse do PS neutralizar estes eleitores. Para Cintra Torres, há eleitores mais livres e eleitores menos livres. Os mais livres são os que votam em quem ele quer, os menos livres são os que votam em Sócrates (estes, ao votarem, não exercem um direito, limitam-se a reagir como cães de Pavlov). Isto faz sentido… na cabeça de Cintra Torres e, provavelmente, na de Pacheco Pereira. Logo, os eleitores livres são marionetas manipuláveis pela verve de Lello e Torres o Messias destes desgraçados bonecos de porcelana. Mas a paranóia obsessiva do escriba não se fica por aqui. Sócrates foi programado pela Central para repetir sempre as mesmas frases decoradas, é bem provável que lhe tenham injectado um chip na espinal medula, os jornalistas são todos vítimas dos métodos estalinistas da Central e só fazem perguntas que podem ser respondidas com as tais frases decoradas, Sócrates é um andróide, uma espécie de versão adulta do rapazinho de Inteligência Artificial, as notícias negativas para o Governo apenas são dadas quando os portugueses estão de férias, a gozar feriados ou de televisão desligada, a Central trabalha 24 horas por dia com o intuito de desgastar os adversários lançando científica e cirurgicamente no caudal mediático todo o tipo de boatos, intrigas, factóides e mentiras, entre as quais talvez se inclua a própria existência de uma Central de Propaganda ao serviço do Governo, Fernando Nobre foi uma das mais recentes vítimas desta Central e as centenas de comentários que levaram o bom Fernando a encerrar a página do Facebook foram patrocinados pela Central, supondo-se inclusive que as recentes dúvidas sobre a nacionalidade de Obama tenham servido para desviar as atenções dos eleitores luso-americanos… Depois de ler este artigo, estou mesmo em crer que o próprio Eduardo Cintra Torres é uma agente secreto dessa Central de Propaganda. Afinal, a quem senão Sócrates servem artigos tão paranóicos e obsessivos como este de Cintra Torres?

quinta-feira, 28 de abril de 2011

ELA CHORA SOBRE O RAHOON


Suavemente cai a chuva no Rahoon, caindo suavemente,
Onde jaz meu amor sombrio.
Triste é sua voz que me chama, chamando tristemente,
Ao pálido nascer da lua.

Amor, escuta tu
Quão macia, quão triste é sempre sua voz chamando,
Sempre irrespondível, e a negra chuva caindo,
Antes como agora.

Também sombrios nossos corações, Ó amor, jazerão e frios
Como seu triste coração repousado
Sob luarentas urtigas, húmus negro
E chuva murmurante.

Trieste, 1913.


James Joyce, in Poems and Shorter Writings, da sequência Pomes Penyeach (1927), Faber and Faber, 2001, p. 54.
Versão de HMBF.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

CHAMBER MUSIC



XXVIII

Amável senhora, não cante
Canções tristes sobre o fim do amor;
Afaste a tristeza e cante
O quanto basta o amor que passa.

Cante o longo e profundo sono
Dos falecidos amantes, e como
Na sepultura todo o amor repousará:
Por ora o amor está cansado.


James Joyce, in Poems and Shorter Writings, Faber and Faber, 2001, p. 40.
Versão de HMBF.

25 DE ABRIL

Andamos há 37 anos a comemorar uma revolução que ainda não aconteceu verdadeiramente. Esmagados por uma guerra inglória, os militares revoltaram-se contra o regime e desbravaram caminho para a democracia. Cedo se percebeu o que nos esperava: uma oligarquia a ir a votos de 4 em 4 anos, dividida entre duas facções políticas que são mais do mesmo. Soares entregou-nos a uma Europa agora americanizada, de socialismo não só engavetado como totalmente enterrado e sem direito a memorial. Em França, mãe da Revolução de todos nós, há trabalhadores que se imolam, suicidam-se à vez sem grande alarido. Por cá, o nepotismo faz escola e os crápulas jogam com a cintura na ânsia de um tacho. A baba é tanta que daria para fazer um cozido à portuguesa com morcelas de socialismo, enchidos de social-democracia e alheiras de populismo. No batatal do cavaquistão há batatas que cheguem para todos e para quem se lhes queira juntar. Construíram-se auto-estradas, vias rápidas para o enriquecimento indevido, engordaram-se fortunas e patrocinaram-se cartéis. O PPD de Duarte Lima, Santana Lopes, Dias Loureiro, entre outros larápios de estirpe intocável reunidos na cantina do BPN, leia-se SLN, prepara-se novamente para fazer das suas, enquanto o PS do Grande Chefe, dos estádios e do Rui Pedro Soares e do Ricardo Rodrigues e do Freitas do Amaral e do Basílio Horta vai distribuindo o que resta da côdea governativa. Uma elite política de merda, aos ombros de uma elite empresarial de merda, num país a afundar-se na merda com um povo que de tanto gostar de viver na merda mais se assemelha a uma vara de porcos do que a um verdadeiro povo. Mas animemos a malta, recordemos as velhas canções, olhemos para o passado, desfilemos na Avenida da Liberdade de açaime na boca e coleira pelo pescoço. O FMI tratará de nós como o Frontline trata das pulgas. Amemos os nossos patrões.

terça-feira, 26 de abril de 2011

COME OUT OF CHARITY, AND DANCE WITH ME IN IRELAND


São os dois últimos versos de uma canção que W. B. Yeats (Georgeville, Dublin, 13 de Junho de 1865) parafraseou num poema do livro «Words for Music, Perhaps» (1931). Convite que atravessa os anos, bastante pertinente em regime de austeridade imposta pelos algozes do FMI. Há muito que sentia o apelo da ilha, alimentado talvez pelas reconstituições cinematográficas de velhas lutas independentistas, ou pelas canções que foram ficando desde a adolescência (dos U2 aos The Chieftains, dos The Dubliners aos nortenhos Energy Orchard). Curiosamente, os The Pogues e os The Waterboys, ao contrário do que muitas vezes se julga, surgiram no Reino Unido na cabeça de um inglês (os primeiros) e de um escocês (os segundos). Mas o meu imaginário irlandês foi sendo essencialmente nutrido pelos escritores. É espantosa a quantidade de grandes escritores que aquelas terras deram ao mundo: Swift, Joyce, Beckett, Yeats, Seamus Heaney, Oscar Wilde, George Bernard Shaw... Como é que de uma pequena ilha (imaginava-a muito maior do que é na realidade, fruto de uma incorrigível incompetência para ler mapas) surdiram tantos e tão bons homens de palavras?

Portanto, a tentação de me fazer acompanhar por um pedaço de literatura autóctone foi irresistível. A escolha recaiu sobre «Gente de Dublin» (Dubliners), de James Joyce. Não é o melhor cartão-de-visita da capital da República da Irlanda. Os personagens dos contos de Joyce vivem entalados entre vidas indesejáveis, duras, violentas e uma enorme, mas oprimida, vontade de fugir, de abandonar a cidade, de procurar a felicidade noutras paragens. São gente melancólica enterrada num pântano de pouca sorte: «Não havia dúvida; quem quisesse vencer tinha de se ir embora. Em Dublin, nada se conseguia». Casas pobres, vagabundos, sujidade, imoralidade, vício, desespero, angústia, sufoco: «Dublin é uma cidade pequena, onde todos sabem o que se passa com os outros». A esperança de um futuro risonho parece naufragada nas águas turvas do rio Liffey. É provável que a actualidade não desminta o quadro pintado pelo escritor, embora a Sul e a Norte do Liffey consigamos vislumbrar inúmeros remédios para a melancolia. Há a música e a bebida, vários parques verdejantes onde a vida parece sossegar e o ar assume um alento agradável.

David, o cicerone de Dublin, levou-nos do Dublin Castle à Christ Church Cathedral, do Temple Bar (a área por excelência da boémia irlandesa) ao Trinity College, daqui ao St Stephen’s Green. Com um impagável sentido de humor, instruiu-nos nas venturas e desventuras da nação, falou dos símbolos da presença britânica e sublinhou as repetidas tentativas de assalto de que foram sendo alvo, referiu-se a vários heróis da independência e ao bluff dos ingleses, queixou-se dos horríveis edifícios que revelam a ausência de leis rigorosas ao nível do planeamento urbano, foi implacável na exaltação dos símbolos independentistas e na censura de uma hipocrisia inglesa que pretende apagar da história milhões de irlandeses sacrificados pela fome ao longo de vários séculos de colonialismo britânico. No final, tirámos uma fotografia e substituímos o tradicional «olha o passarinho» por um muito mais pertinente «fuck imf». O nacionalismo irlandês terá os seus defeitos, aqui e acolá abrirá as portas a uma xenofobia pouco saudável, mas consegue compreender-se no seu contexto histórico muito específico. Pessoalmente, em regime turístico, só me posso queixar de um excelente sentido de humor e das qualidades «de hospitalidade e de agradável disposição» que Joyce também referia.

Das caminhadas pela cidade há a destacar uma visita à St Patrick’s Cathedral, onde Swift e a sua amada Stella estão sepultados (ruidosa, desorganizada e pobre para os padrões mediterrânicos), uma passagem pelas multiculturais colecções da Biblioteca Chester Beatty (filantropo norte-americano muito querido na República da Irlanda, uma espécie de Gulbenkian), um passeio pela impressionante National Gallery (com pinturas de Brueghel, Rubens, Caravaggio, Picasso, Monet, entre muitos outros), assim como inevitáveis deambulações pelo Temple Bar, com direito a livros numa das muitas pequenas livrarias que se encontram pelo caminho, CDs a preço de saldo, vários pints de Guinness, música ao vivo, sacos abarrotados de fish and chips a exigirem desenjoo. Rumamos na direcção do Ulster, onde um casal de amigos portugueses nos aguarda com generosíssima e impecável disponibilidade na pequena cidade de Portadown. Estamos perto de Belfast, que não chegaremos a visitar, numa zona onde os bairros se dividem entre o laranja/verde dos republicanos católicos e o azul/vermelho dos protestantes fiéis à monarquia.

Em plena época pascal, com eleições à porta, ecoam nas ruas os tambores do Sinn Fein. Acompanhamos a procissão, de um bairro classificado de problemático pelos nossos anfitriões até ao cemitério onde escutaremos loas aos tombados da Irmandade Republicana Irlandesa na Revolta da Páscoa de 1916. Seamus Heaney também os lembrou no «Requiem pelos Rebeldes». O tom oscila entre a rigidez militar daqueles que ostentam as bandeiras dos seis condados da Irlanda do Norte, escoltados por uma grande bandeira da República da Irlanda, e uma certa informalidade dos jovens músicos que parecem prestar pouca atenção aos nomes dos combatentes do IRA igualmente homenageados. As barreiras interconfessionais e políticas que impõem um clima umbroso na região nada têm que ver com a «whispering grass» disseminada pela paisagem. Visitamos o Lough Neagh, um dos maiores lagos da Europa, subimos a Coleraine, Bushmills, paramos no Giant’s Causeway e acompanhamos os penedos numa descida até ao mar. Depois regressamos por Cushendall, atravessamos os Glens of Antrim, vales de um verde deslumbrante que lembra a beleza indescritível e insuperável de São Miguel.

Bandos de estorninhos percorrem o ar largando na relva as marcas de um canto aflito. Por sobre as casas, um céu pesado de nuvens cheias ameaça os ninhos. As ovelhas pastoreiam indiferentes, lenta e silenciosamente. As árvores crescem em torno das casas, não servem de sombra em dias de chuva mas estão ali como que para servirem de moradia ao olhar dos homens. Limpam-nos a alma. Sentamo-nos a ouvir a água escorrer em pequenas cascatas que se formam na floresta, abrimos ao acaso uma antologia de poesia irlandesa:

Sunset

In Loch Lene
a queen went swimming;
a redgold salmon
flowed into her
at full of evening.

John Montague


De novo em chão republicano, tempo ainda para apanhar o comboio até Bray, uma simpática cidade costeira banhada pela Baía de Killiney. É bank holiday (feriado) e os irlandeses recuperam dos excessos da noite anterior. Tomámos-lhe a pulsação, ainda que timidamente. Convém dizer que a beleza da paisagem foi ingrata para com o físico dos irlandeses. A metade feminina, a que mais me interessa, sofre de uma alvura vitoriana agravada pelo uso e abuso de várias camadas de base. O excesso de maquilhagem não disfarça a fealdade. As mais gordas parecem trambolhos tentando equilibrar-se em saltos altíssimos, mas a maioria é escanzelada e todas elas ostentam saias tão curtas como boxers de tamanho S. Não é preciso estarem bêbedas, um dom deveras propagado por aquelas bandas, para parecerem ridículas, até porque em sapatos de salto alto pelo menos dois tamanhos acima do pé extraordinário seria o contrário. Digamos que numa média de 1 para 100, lá se vislumbra uma irlandesa atraente e charmosa.


De novo inclinados para o charme das palavras, passamos pelo Merrion Square onde se encontra um memorial em honra de Oscar Wilde. Mal tratado no passado, é agora condignamente celebrado. Trata-se de um bonito memorial, perto da rua onde morava, rodeado de verde e em pose adequada. A ele roubo o epitáfio da viagem, quem sabe abrindo o apetite para uma próxima:


IMPRESSION DU VOYAGE

Era um mar de safira; o firmamento
Ardia pelo ar, opala quente;
A vela içámos; ledo ia o vento
À terra azul que jaz a oriente.
Da proa a prumo, eu num veloz relance
Vi Zante: os olivais e enseadas,
O cume de Ítaca, a neve de Lycaon,
As flores da Arcádia em monte semeadas.
O roçagar das vagas no costado,
O vergastar das velas contra a verga,
Um mar de moças rindo à nossa popa,
Só estes sons – e o Sol então, corado,
A oeste ardeu nas ondas a galope,
E eis que enfim me vejo em solo grego!

(trad. Margarida Vale de Gato)



Este post é para a Ana, para a Sara e para o Álvaro, a quem devo as fotografias e a boa companhia. É também para a Susana e para o José João, a quem estamos gratos pela impecável hospitalidade.

domingo, 24 de abril de 2011

CASTELO SEM PÁTRIA



para Antonia Lozano e Diego Doncel


Vieram do outro lado da fronteira
alguns dos meus amigos e não os queria
e resisti e todos eram de Castela, terra
negra e caída do outro lado
da escondida meia-noite.


Não eram o galego olhar nem catalã a
resposta à minha dúvida
nem andaluz altivo como os julgara em
adolescente sonho.


Vieram dos campos altos do outro lado e
de raiz, absortos na errante nuvem
coisa alguma têm por detrás


além do peso inteiro da península. E são
um verso,
verso de espera no umbral da pedra derrubada
acordam ainda a juventude, canção secreta
adormecido eco da nossa história e por


detrás da fronteira há mais fronteira


João Miguel Fernandes Jorge, in Sobre Mármore, Teatro de Vila Real, Outubro de 2010, p. 29. A fotografia foi tirada pelo Álvaro no Ulster.

sábado, 23 de abril de 2011

FISH AND CHIPS


Ou nem por isso. Hoje acompanhámos os combatentes do Sinn Fein numa homenagem aos tombados do IRA. Making connections.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

EM DUBLIN ESTÁ SOL



No norte, por onde ando agora (Mussenden Temple, Giant's Causeway, Carrick-a-Rede Rope Bridge, Glenariff Forest Park...) também. Em homenagem ao sol, voltei a beber uísque. Bushmills. Os posts ficam para depois. Para ser perfeito, só falta mesmo um bom café.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

FUCK IMF



Strings in the earth and air

Make music sweet;

Strings by the river where

The willows meet.


There's music along the river

For Love wanders there,

Pale flowers on his mantle,

Dark leaves on his hair.


All softly playing,

With head to the music bent,

And fingers straying

Upon an instrument.



James Joyce, in Chamber Music (1907), Poems and Shorter Writings, Faber and Faber, 1991, p. 13. A fotografia foi tirada no St. Stephen's Green, Dublin, durante a digestão de um Irish beef stew with Guiness.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

8 ANOS

Parece que foi ontem. Era o que ouvia dizer sempre que fazia anos. Ou então, o tempo passa num instante. É tudo falso. Nessas alusões vive adormecido o logro de um tempo que é impossível resgatar. Passaram 8 anos. Os filhos crescem, nós envelhecemos, o planeta continua a correr. Sabe bem enterrar as mãos na areia, sentir o sal da espuma, andar descalço sobre a terra, trazer ao corpo a luz que afaga a erva. Salvamo-nos, assim, da melancolia que a passagem do tempo imprime. Agora que lês, dou-te o que julgo saber: ama a Terra, não terás outra, e aprende a gostar das pessoas com a nobre desconfiança de quem sabe poder haver num coração inimagináveis razões para se ser tal como se é. As pessoas escondem mistérios, não nos cabe tanto julgá-los como importa compreendê-los. Não te iludas com a busca da felicidade, essa quimera impenetrável. Procura antes colocar em cada momento a alegria que te for possível. E quando não for possível, faz qualquer coisa para que se torne possível. Nenhum outro esforço será tão valoroso.

domingo, 17 de abril de 2011

BIBLIOTECAS CHEIAS DE FANTASMAS

Qualquer amante de livros lerá de um só fôlego e com enorme prazer Bibliotecas Cheias de Fantasmas (Quetzal, Outubro de 2010). Traduzido por José Mário Silva, este pequeno livro reúne nove textos sobre problemas concernentes à organização de uma biblioteca pessoal. A escrita de Jacques Bonnet, historiador de arte e bibliómano inveterado, é culta, mas límpida, prescinde de elucubrações complexas em prol de uma narrativa bem-humorada, repleta de episódios pessoais e curiosidades históricas. Logo a páginas 17, o problema do espaço ocupado pelos livros no interior de uma habitação é retratado com as «circunstâncias da morte do compositor Charles-Valentin Alkan, a quem chamavam «o Berlioz do piano», morto em sua casa, a 30 de Março de 1888, esmagado pela própria biblioteca» (p. 17). Daqui se conclui que todos os espaços de uma habitação são susceptíveis de servir de despensa para livros, excepto a parede à qual encostamos a cama onde dormimos. Evitando teorizar de um modo abstracto, os pontos de vista expressos são fundamentados através do exemplo e com uma destreza e brevidade que nos levam a pensar não ser tanto essa a intenção deste livro, como será mais a de declarar amor a uma arte e às manias dos seus cultores. «Consta que Gilbert Lély, o poeta e especialista em Sade, mantinha em sua casa exactamente 100 obras, nem mais nem menos, e sempre que acrescentava uma, retirava logo outra» (p. 18). Os comportamentos mais ou menos obsessivos dos amantes de livros dão azo a um anedotário infindável cujo interesse acaba por estar na confrontação com as nossas próprias manias. O bibliómano é, por natureza, um indivíduo caprichoso. Pode olhar para a sua biblioteca como se estivesse a olhar para um paraíso na terra, mas também pode ver nela uma insuportável prisão. Vem-me à memória Jean Genet, que não só não tinha morada fixa, como nem sequer possuía um único exemplar dos seus livros. No entanto, não se pode dizer que não amasse os livros. Talvez os amasse sem estar contaminado pela possessão que caracteriza os coleccionadores. Bonnet refere um «que só se interessa por autores cujos nomes começam por um B ou que, como ele, se chamam Jules» (p. 29). Na relação que mantemos com os livros, a nossa humanidade emerge envolta no manto da curiosidade. Podemos denotar alguma extravagância ou a mais entediante picuinhice na organização de uma biblioteca, no modo como catalogamos ou arrumamos os volumes nas prateleiras, no trato que damos ao próprio objecto, mas há algo que nos liga nesta relação. E esse elo é o da curiosidade. A variabilidade das práticas de leitura conflui para este elemento universal. O que nos leva aos livros é um íman que reside misteriosamente dentro da palavra impressa e nos atrai a curiosidade. Depois, sublinhamos com lápis ou caneta de feltro as frases que melhor satisfazem essa curiosidade, entretemo-nos a corrigir gralhas ou mantemos intactas e impolutas as páginas do objecto folheado. Eu sublinho: «Quanto a Bernard Berenson, ao saber que a Virgem acabara de aparecer a Pio XII, colocou imediatamente a questão que se impunha a um historiador de arte: «Em que estilo?»» (p. 102). Jacques Bonnet afirma que uma das razões que o levou a escrever este livro foi a inquietação instaurada pela última grande revolução mundial, a qual afecta de um modo ainda pouco perceptível esta relação do leitor com o livro. A pergunta impõe-se: «Teria eu construído a mesma biblioteca se pertencesse à geração Internet?» (p. 139) Independentemente da resposta, há uma certeza nela implícita: nunca uma biblioteca pode ser construída duas vezes da mesma maneira. Há entre esta e a singularidade da pessoa humana que a constrói uma ligação de propriedade, como se a biblioteca fosse uma extensão da existência. Para essa extensão o bibliófilo olhará como quem se olha a um espelho. As perguntas serão as mesmas, assim como as dúvidas. Com uma vantagem: num gesto extremo de autocrítica ou de autodesprezo, podemos sempre evitar a automutilação destruindo um punhado de livros que façam parte da nossa biblioteca pessoal.

A ARTE E O MODO DE ABORDAR O SEU CHEFE DE SERVIÇO PARA LHE PEDIR UM AUMENTO

Podia ser um livro de auto-ajuda, muito útil nos tempos que correm, ou um daqueles guias de gestão light para yuppies emergentes (o adjectivo é redundante, mas isso pouco importa para o caso). Na realidade, trata-se de um exercício literário de aproximadamente 50 páginas. Georges Perec (1936-1982) escreveu-o em 1968 a partir de um labiríntico organigrama que lhe foi entregue por Jacques Perriault. Esta intrincada matriz acompanha um texto não menos difícil de interpretar, quer pelas suas características estruturais, quer pela complexidade do pensamento inerente ao exercício. Refira-se que se trata de um texto com um único sinal de pontuação, o ponto final no termo daquilo que pode ser classificado como uma longuíssima frase, monólogo ininterrupto de uma trama reflexiva sobre uma das mais vulgares aspirações humanas. A complexidade reside na multiplicação de hipóteses. Para cada acção prevêem-se várias consequências, a linearidade da narrativa é superada pela multiplicidade das combinações. O que importa, mais do que contar o que a personagem X fez ou deixou de fazer, é ponderar aquilo que poderá acontecer mediante esta ou aquela acção. Estamos no campo algo paranóico da especulação, da conjectura, da ponderação, do encadeamento de probabilidades, da relação causa/efeito em contexto não determinístico. Isto porque as variantes a considerar são infinitas, das mais previsíveis às mais imponderáveis e absurdas: «mr x engoliu uma espinha ao comer ovos de galinha alimentada com restos de peixe» (p. 34). Georges Perec, que fez parte do movimento experimental OuLiPo, admite, deste modo, um constrangimento inicial como suporte da criação literária. A aventura da linguagem surde da exploração lógica das combinações e das probabilidades, desenvolvendo-se o texto no sentido de uma espécie de espiral ou remoinho que caracteriza de um modo deveras plástico a organização kafkiana das empresas. Repare-se como começa a divagação do pobre assalariado: «Tendo ponderado bem» (p. 9). É esta ponderação que motoriza a experiência do pensamento num vaivém de considerações sobre o que pode ou não acontecer mediante esta ou aquela decisão. A personagem central, se assim podemos dizer, «anda às voltas no corredor» (p. 13) como quem se perde no pensamento. O Bartleby de Melville resolveu este mesmo problema do pensamento pela inacção, mas uma inacção com consequências. Logo, uma inacção activa. Neste caso, há como que uma inversão no sentido da realidade. É como se as acções levassem à inacção. Deste modo, a repetição exaustiva das palavras que expressam um pensamento tão simples quanto «é sempre preciso simplificar», num contexto onde nada se simplifica porque tudo se pondera, reforçam o encadeamento de probabilidades que levam à indecisão. O jogo não se mantém entre várias personagens, mas antes no âmago de uma mesma e pobre criatura. Perec limita-se, enquanto narrador, a arbitrar indiferentemente esse mesmo jogo: «o seu chefe de serviço que vê aonde quer chegar interrompe-o perguntando-lhe se se trata de uma questão T 60 das duas uma ou se trata de uma questão T 60 ou não se trata de uma questão T 60 mas não sabe o que é uma questão T 60 e infelizmente não posso ajuda-lo pois também não sei» (pp. 28-29). Logo a seguir, o truque repete-se: «mande o seu chefe de serviço ao TV1 não sabe o que é um TV1 o seu chefe de serviço também não e eu também não» (p. 37). As secções e os departamentos da organização/empresa são, deste modo, percorridos sem que neles alguém ponha os pés. Basicamente, trata-se de uma escrita ilusionista, cheia de truques, que opera segundo as velhas técnicas do ilusionismo: reproduzir os mesmos efeitos utilizando assessórios diferentes. A Arte e o Modo de Abordar o Seu Chefe de Serviço Para lhe Pedir um Aumento é um exercício divertido (Presença, Outubro de 2010), mas não nos enriquece nem nos livra da burocracia que o texto eficazmente reproduz.

MANICÓMIO

Basta folhear o periódico para constatar a mais evidente das realidades: Portugal é um manicómio. Fernando Nobre oferece uma entrevista ao Expresso para dizer que encabeça uma lista do PSD sem conhecer o programa do PSD. Mais afirma que a sua única intenção, ao candidatar-se pelo principal círculo eleitoral do país, é ser eleito presidente da Assembleia da República, como se as legislativas servissem para eleger um presidente da Assembleia da República. «Se não for eleito presidente da AR renuncio de imediato», diz. Quer chegar a general sem ser recruta. Ao pé disto, a campanha do Licor Beirão com o Futre a propor soluções para Portugal - Acabar com o desemprego. Cunhas para Todos! - é de uma ingenuidade enternecedora. Fernando Nobre arrisca transformar-se no jogador chinês que o PSD de Passos Coelho tanto precisava, depois do partido se ter transformado numa máquina de distribuição de tachos para pseudo-independentes que há muito andavam a cheirá-los (de Francisco José Viegas a Carlos Abreu Amorim é um ver se te avias). Mas isto não é tudo. Medina Carreira, também no Expresso, resume com especial eficácia o sentido das manifestações populares. Vale a citação:

Cada vez que a CGTP convoca uma manifestação, eu fico satisfeito. Vêm com galinhas, sentam-se no Parque Eduardo VII, comem uma galinha, descem a avenida, ouvem o Carvalho da Silva e vão para casa. E há descompressão. A nossa sociedade precisa disso.

Portanto, do que estamos todos necessitados é de piqueniques. A CGTP que continue a promover piqueniques, é disso que o país (e os seus gestores) precisa. Enquanto houver piqueniques, podem dormir descansados todos os trafulhas que enriqueceram à conta do BPN de José Oliveira Costa (ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais num dos governos de Cavaco Silva, nunca é demais lembrá-lo). Enquanto tal, os signatários do «compromisso Portugal» promovem almoçaradas e alargam o clube, a Maria Filomena Mónica vota Partido Socialista desde 1974, a crise aumenta depressões e risco de suicídio, os furtos dão prejuízo de 1 milhão por dia (resta saber se nestas contas estão contemplados todos os tipos de furtos e todos os géneros de larápios) e o procurador José Vaz Correia entretém-se a recitar quadras ao gosto popular durante os julgamentos. Eis a cereja no topo do bolo de uma nação que já não está à deriva nem naufragou nem nada do que possam imaginar, é mesmo uma nação inimputável:

Os comboios já vão cheios
Muitos se levantam cedo
Nas mulheres aprecio os seios
Mas têm outro enredo

Vejo brancos e pretos
Nacionais e estrangeiros
Alguns vivem em guetos
Outros em lugares foleiros

São sete e pouco da manhã
Viajo de metro para o trabalho
Fi-lo ontem, farei-o
[sic] amanhã
Só sou aquilo que valho


Quadras escritas pelo procurador José Vaz Correia durante uma viagem de metro e registadas em ata, por exigência do próprio, em plena sala de tribunal durante um julgamento que opunha uma empresa à beira da falência à operadora de telefones móveis Vodafone. Dá para acreditar?

quinta-feira, 14 de abril de 2011

CURATIVO

A melhor cura para o alcoolismo é gin com sumo de laranja, a principal causa a fealdade e a completa, desnorteante esterilidade da existência como nos é vendida.

Malcolm Lowry, in Através do Canal do Panamá, trad. Anna Hatherly, Relógio d'Água, s/d, p. 28.

ÍNDIO

Edward Sheriff Curtis
(February 16, 1868 – October 19, 1952)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

CASO NOBRE

O caso Fernando Nobre, tipicamente português em todas as leituras possíveis, recorda-me um indivíduo de uma aldeia perto da minha terra. Era aquele tipo de pessoa a quem todos chamavam um bom homem. Disponível, prestável, compassivo e todos os demais epítetos que possam abonar em seu favor. Um dia foi apanhado a cagar em plena praça pública. De um momento para o outro, toda a gente se esqueceu do quão bom era aquele homem, do bem que tinha feito, do quanto tinha servido a comunidade e o quanto havia ajudado as pessoas que dele se socorriam recorrentemente. O trabalho deste homem era simplesmente varrer as ruas. Foi apanhado a cagar nas ruas que ele próprio varria. As pessoas começaram a desprezá-lo. Que ninguém se atreva a censurá-las.

domingo, 10 de abril de 2011

O REI FAZ VÉNIA E MATA

Nove textos, escritos à entrada do século XXI, compõem a colectânea O Rei Faz Vénia e Mata (Texto, Janeiro de 2011). São conferências e discursos proferidos por Herta Müller (n. 1953) antes da consagração instalada com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 2009. Duas dimensões da vida caminham lado a lado ao longo das margens destes ensaios, a dimensão existencial e a dimensão literária. A autora sobrevaloriza a primeira em detrimento da segunda, referindo-se por diversas vezes ao poder da experiência vivida enquanto magma fundador da palavra escrita. Nota-se mesmo um certo desprezo quando o tema recai sobre a possibilidade de exprimir sem haver vivido, o que não deixa de ser surpreendente numa autora onde a relação entre a palavra e a realidade aparece quase sempre sob uma névoa feérica e metafórica. Importa entender esta relação na prosa de Herta Müller. Mais que uma relação meramente representativa, trata-se de uma relação transfiguradora: «As palavras são feitas à medida para falar, se calhar até são recortadas ao milímetro. (…) Não têm capacidade para representar aquilo que se passa na cabeça» (p. 20). A realidade não se deixa capt(ur)ar pela palavra, os objectos têm vida própria, uma identidade que, no fundo, acaba por fundar a nossa razão de ser. Porque a nossa razão de ser está na complexidade do pensamento, onde uma rede de associações dificilmente descritíveis ampara a lógica e a memória sob os trapézios voadores da imaginação. Quando muito, pode haver empatia entre o objecto e a palavra que o nomeia. Mas o contexto acaba sempre por determinar o significado, e o significado impõe o sentido. Daí a importância dos objectos enquanto vestígios reais de uma paisagem que o tempo tende a rasurar. O objecto, agora no sentido material do termo, é como que um resquício perdurável que nos evoca o passado e dá forma ao presente. Assim, aos pormenores biográficos que acompanham a escrita deve juntar-se a vida dos objectos enquanto reflexos da nossa própria vida. No caso, uma vida marcada pelos traumas da ditadura de Ceauşescu: «toda a panóplia de ameaças, buscas domiciliárias, interrogatórios, psiquiatria compulsiva, execuções durante a fuga, prisão, tortura, assassinato» (p. 172), o isolamento e o exílio, a asfixia, uma espécie de deslocamento apátrida, medo, muito medo e solidão, como chagas de um «bicho-coração» fundador do «olhar estranho». Tudo isto no interior de uma paisagem contornada pela dicotomia campo/cidade: «Quando fui para a cidade, espantou-me o quanto os citadinos tinham de falar para se sentirem a si próprios, para serem amigos ou inimigos uns dos outros, para darem ou receberem alguma coisa. E acima de tudo o quanto se queixavam quando falavam de si próprios. Na maioria das conversas havia um emparelhamento constante de arrogância com autocomiseração, de uma afectação narcisista com o corpo todo. Andavam sempre de um lado para o outro com aquele Eu sobrecarregado na boca» (p. 72). O Eu de Herta Müller não será o mesmo da sua escrita, mas haverá entre ambos uma empatia que a capacidade de reinventar proporcionada pela literatura logra como nenhuma outra arte. Porque a literatura é, por excelência, a arte da linguagem. E nada nos reinventa mais e melhor do que a linguagem.

FERNANDO

Lá por ser nobre, não quer dizer que não seja cretino.

NON NOVA SED NOVE

Non Nova Sed Nove
em delírio há vinte anos
Abril de 2011

Inverno, Sede, O Tempo que Falta, s/pp.

THE SOCIAL NETWORK

Apesar do ingrediente romântico, que parece ter estado na origem do Facebook, o que mais sobressai no filme de David Fincher é o maquiavelismo patológico que rege as relações humanas entre as diversas personagens do filme. À excepção de Erica Albright, musa inspiradora do génio maligno e sua primeira vítima, em quem ainda detectamos um certo humanismo orgânico, todos os intervenientes parecem saídos de um manicómio, provavelmente Harvard, onde o fervilhar incontinente das ideias tem na sua base a intenção muito norte-americana da popularidade. Esta necessidade doentia de popularidade, que, no fundo, é o motor da própria rede social criada por Mark Zuckerberg, impele os intervenientes para a mais vetusta armadilha da avidez: a solidão. No fundo, encontramos muitos pontos de contacto entre a personagem central do filme de Fincher e o Citizen Kane de Orson Welles. Os impérios gerados por ambos alimentam-se das mesmíssimas paixões, agora pronunciáveis em formato digital e manipuláveis a uma escala internacional. A solidão de Mark Zuckerberg, enxotado para o lado por amigos traídos e, acima de tudo, pela musa publicamente (ou interneticamente) enxovalhada, é o paradigma mais resistente da megalomania dos génios. No entanto, há um pormenor no filme de Fincher que actualiza a nostalgia latente em Rosebud. Esse pormenor é a velocidade das falas, a ânsia que a palavra sente quando pretende acompanhar o pensamento, uma vertigem que não prescinde da nota final: Mark Zuckerberg é o mais novo bilionário do mundo. Esta meteórica ascensão é típica de um mundo em que todos nós desaprendemos de viver devagar, para aprendermos a sobreviver à velocidade da luz (aqui, a palavra luz pode ser entendida sob vários sentidos). Encriptados no frenesi de uma estrutura social cuja dinâmica está organizada em função da rentabilidade do tempo e da voragem do sucesso, tendemos a esquecer-nos do milagre que a vida contém: «bebe devagar, concentra-te no prazer de beberes, sê o teu corpo que bebe. A vida está tão cheia de milagre. Mas convulsos rápidos distraídos, tanta coisa que se perde» (Vergílio Ferreira).

sábado, 9 de abril de 2011

SIDNEY LUMET (1924-2011)





Este filme prenunciou-me o futuro como uma espécie de oráculo do qual nunca mais me libertei. Morreu o mensageiro, ficou a mensagem.

BRIGADA DO REUMÁTICO

Camarada Van Zeller, está em marcha uma conspiração contra o nosso querido país. É preciso resgatá-lo. As pessoas andam aflitas, temem a miséria, a pobreza, o desespero e o Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia. Veja bem que uma amiga desempregada já nem tem dinheiro para pagar o Imposto Automóvel. Se ela está desempregada, como pode pagar o Imposto Automóvel? Não basta ter que pagar balúrdios de gasóleo? De resto, os transportes públicos estão pela hora da morte. E ainda por cima cheiram mal, são desconfortáveis. Dois amigos professores queixam-se dos cortes nos salários. Passo os dias a ouvir pessoas queixarem-se dos cortes salariais. Coitadas das pessoas. Ganhavam 2500 e agora só ganham 2200. Já viram a miséria que é? Uma aflição. Nota-se a tristeza com que vão às compras, o desespero com que olham para o salmão fumado, para a sobremesa de baunilha. 47 alvas e impolutas personalidades resolveram assinar um documento com propostas contra este estado deprimente de coisas. Receiam que os filhos tenham que passar a deslocar-se para o Liceu (Pedro Nunes) ao volante de um humilde Golf GTI. Propõem um clima de tranquilidade, que continuemos a ser governados exactamente pelos mesmos snobes que nos trouxeram até onde estamos; propõem um compromisso entre as instituições, ou seja, um compromisso com o sistema que há anos vem alimentando saltimbancos de fato e gravata. A brigada do reumático uniu-se para nos salvar, para resgatar Portugal das artroses. Uma elite tão miserável quanto a miséria em que estamos. Olhe, convidaram-me para palestrar sobre o poder curativo da espiritualidade. Convite inusitado que, perante a surrealidade do momento, me sinto tentado a aceitar.

terça-feira, 5 de abril de 2011

SUBSÍDIO

Ontem trabalhei 13h. Hoje trabalhei 10h. Todos os dias recebo currículos.

LIXO

Ouvi dizer que temos bancos que são considerados lixo. Custa-me ouvir este tipo de coisas vindas de agências obscuras com interesses ininteligíveis. Mesmo quando o tema é lixo.

domingo, 3 de abril de 2011

THE HORSE WHISPERER

Voltei a apanhar The Horse Whisperer no canal Hollywood e, mais uma vez, deixei-me ficar até ao fim. O mesmo nó na garganta e a mesma comoção que só os maus filmes conseguem provocar. Aquela paisagem rural norte-americana pode ser um mito, mas é um mito muito bonito. Ao alto, num penhasco com vista para o infinito, ainda se vêem as sombras dos índios. E, com sorte, podem escutar-se as suas lamentações. Ficar ou partir? Largar tudo ou permanecer? Mudar ou ir andando? São estes os grandes dilemas da vida, pairam sobre nós como a sombra da águia voando em contracampo. O cavalo ferido − e sempre que digo cavalo lembro-me, vá lá saber-se porquê, de António Ramos Rosa − somos nós, o encantamento surge da disponibilidade e da entrega, da paz e do sossego que acalma o tremor e oferece às pernas o seu merecido descanso. Alguém lhe chama dom, julgo que é a personagem interpretada por Dianne Wiest, quando junto ao rio vai directo ao assunto e explica a Annie MacLean (Kristin Scott Thomas), olhos nos olhos, que Tom Booker (Robert Redford) tem um dom sobrenatural, embora não deixe de ser um homem. Eu acho que sei qual é esse dom, é algo apenas possível em quem descobriu o seu lugar, a sua casa, e pode aí viver numa tumultuosa paz com os seus íntimos fantasmas. Daí que Tom Booker só tenha medo de envelhecer e de começar a sentir-se unuseful. Não teme a solidão porque está em paz consigo próprio. No fundo, isso é o mais importante.

O CORONEL CHABERT

Infelizmente, não é de hoje a associação dada como adquirida entre a riqueza material e a desonestidade. Podemos pensar que se trata de um preconceito carente de prova, revogável pelas putativas excepções que, como sabemos, mais não são do que confirmações da regra. A verdade é que tanto no Portugal de hoje como na França do século XIX não seria tarefa muito difícil encontrar exemplos, nas mais diversificadas latitudes, desta pesada herança cultural. Já Camões lamentava o desconcerto do mundo, chamando a atenção para a desagradável paisagem humana: «Os bons vi sempre passar / no mundo graves tormentos; e, para mais me espantar, / os maus vi sempre nadar / em mar de contentamentos». Como é óbvio, estas perspectivas maniqueístas da índole humana, que colocam de um lado os bons e do outro lado os maus, sem que nada de muito concreto seja dito quanto aos fundamentos das categorias, acarretam sempre vários perigos. Podem transformar-se em estereótipos de injusta perniciosidade, excluindo do matagal humano a riqueza de uma flora onde, conforme as situações, o mal se transforma em bem e o bem se revela danoso. Gente anódina não se conhece, muitos menos pura e angelical. O inferno é isto mesmo, confunde-nos os limites e armadilha-nos a rede para a qual mergulhamos cheios de confiança sem que sequer nos passe pela cabeça poder alguém ter sabotado os pilares das nossas convicções. Somos assim levados a pensar que quem está por baixo há-de sempre olhar com desconfiança quem está por cima e quem por cima está há-de sempre olhar para baixo com desprezo. Mas nem sempre esta regra se atesta. Situações há que, de tão inusitadas ou caricatas, podem misturar as coordenadas com que organizamos o mundo à nossa volta. Veja-se o caso de O Coronel Chabert, novela escrita por Honoré de Balzac (1799-1850) em 1832 (há um problema com as datas nesta edição da Assírio & Avim que faz Balzac ter falecido em 1890 e a novela ter sido escrita em 1882). Aníbal Fernandes, o tradutor português, diz que esta história «é mais ao fundo o drama do homem da guerra que uma cultura militar despreparou para as leis e os valores de um mundo de paz» (p. 20). Pode ser que ao fundo seja isso, mas também não deixa de ser aquilo que é à superfície. Chabert foi dado como morto na sequência de uma campanha militar. O equívoco, com a sua razão de ser, pode vir a ser desfeito anos mais tarde, quando Chabert procura um advogado com a intenção de recuperar a sua identidade e aquilo que perdeu para uma putativa viúva em segundas núpcias e mãe de duas crianças. Do mote se serve Balzac para descrever com repugnância os lugares de justiça, pintar com a cor da perfídia a natureza feminina e vergastar a sociedade no que ela tem de mais repugnante, isto é, a avidez material e a desonestidade a esta ligada. Mas se os lugares de justiça «são esgotos que não podem ser desentupidos», porque neles caem todos os dias os horrores da verdade que «os romancistas julgam inventar», a humanidade não é menos, independentemente das lantejoulas com que se disfarce, a lama onde se enterram os pés descalços dos miseráveis e os sapatos engraxados dos bem instalados. O famigerado realismo de Balzac tem a sua fonte numa perspectiva negra do ser humano, muito embora polvilhada de uma agudeza satírica que consegue em poucas páginas desmascarar num só homem as mais contrastantes atitudes. Este coronel Chabert, morto ressuscitado, pode assim concluir: «Fui enterrado debaixo de mortos mas estou agora enterrado debaixo dos vivos, dos actos, dos factos, da sociedade inteira que quer voltar a pôr-me debaixo da terra!» (p. 53) De facto, um homem morto é sempre mais útil e conveniente do que um homem vivo. Chabert correu o mundo (Egipto, Síria, Espanha, Rússia, Holanda, Alemanha, Itália, Dalmácia, Inglaterra, China, Tartária, Sibéria, só lhe faltam as Índias e a América), mas é na Paris em torno da qual o mundo então girava que ele terá de aprender a viver com a real natureza dos homens. O dinheiro guia-lhes os passos, a Justiça desbrava-lhes o caminho. Esta é como que uma catana não ao serviço do bem ou da verdade, sejam eles o que forem, mas antes ao serviço de quem dela se possa e queira servir para fazer valer os seus mais criticáveis interesses. Tudo isto fica muito claro quando, no termo da segunda das três partes da novela, Chabert vacila perante a argúcia da condessa Ferraud (sua suposta viúva). Veja-se como num só parágrafo tudo se elucida com a utilização de meia dúzia de expressões/palavras: «meigos cuidados», «amabilidade constante», «espalhar encantos», «graças de coração ou de espírito», «enternecê-lo», «manobras». Tudo o que parecia humano se revela desprezível porque, afinal, não passava de engodo, armadilha e conluio com a intenção de atirar o coronel zombie para um manicómio. Restou-lhe o desprezo: «Não pode saber até onde chega o meu desprezo por esta vida exterior a que a maior parte dos homens se apega. De repente fui atacado por uma doença, o nojo pela humanidade» (p. 129). Somos dois, caro coronel. Somos dois. Resta saber se iremos acabar de igual modo.

sábado, 2 de abril de 2011

INTEGRAÇÃO

Desmerda-te.

SOBRE "A DANÇA DAS FERIDAS"


Nuno Costa Santos, in Revista LER, n.º 101, Abril 2011. 

POEMA AO MEU PAPEL

lendo poemas próprios
penas impressas quotidianas transcendências
sorriso orgulhoso perdoado equívoco
é meu é meu é meu!!
lendo letra cursiva
alegre latir interior
sentir que a felicidade se coagula
ou bem ou mal ou bem
estranheza de inatos sentires
cálice harmonioso e autónomo
limite no dedo gordo do pé cansado e
cabelo lavado em encrespada cabeça
não importa:
é meu é meu é meu!!


Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)

Versão de HMBF

sexta-feira, 1 de abril de 2011

EU SOU…

minhas asas?
duas pétalas apodrecidas

minha razão?
cálices de vinho azedo

minha vida?
vazio bem pensado

meu corpo?
um gume na cadeira

meu vaivém?
um gongo de brincar

meu rosto?
um zero dissimulado

meus olhos?
ah! pedaços de infinito


Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)

Versão de HMBF

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #14

Por detrás dos Naked City está o músico que me provou a situação mais desconfortável que alguma vez senti num concerto. Foi há uns anos valentes, num concerto a solo, salvo erro no São Luís. John Zorn mal tinha começado a tocar. Uma senhora sentada a meu lado agarrou-se ao meu braço e pediu-me que a levasse até à saída. Era invisual. A música de Zorn provoca este tipo de efeitos, é imprevisível e não busca nenhum tipo de adesão que passe pela aceitação acessível do que estamos a ouvir. Com os Naked City nunca foi diferente. Formados no termo da década de 1980, reuniam um leque de músicos com créditos firmados em áreas musicais tão diversas como o free jazz ou o rock de índole experimental. Em Absinthe (1993) todas as composições levam a assinatura de John Zorn. Juntam-se a ele Bill Frisell, Wayne Horvitz, Fred Frith e o baterista Joey Baron, acompanhante de Dave Douglas e parte integrante dos Masada. Sucede que esta constelação nunca teve por objectivo brilhar sem concessões. A música que produzem é soturna, irritante, inacessível, à base de zunidos que nos levam a crer ser possível andarem insectos dentro dos nossos nervos. Aqui e acolá a irritação pára, ouve-se água, mas logo as (a)tonalidades nos enviam para zonas insuportavelmente húmidas, bolorentas. É como se apanhássemos uma bebedeira de absinto e começássemos a alucinar, perdidos em labirintos oníricos situados algures num inconsciente onde vamos recolher os sons mais estranhos e deformados dos nossos pesadelos. Quem já apanhou uma bebedeira de absinto sabe como é, e sabe também que: apanhada uma bebedeira de absinto, jamais se poderá voltar a apanhar uma bebedeira de absinto. Há um tema dedicado a Olivier Messiaen. Um outro chama-se Fleurs du Mal, e há ainda um outro que resume tudo: La Feé Verte. Podem escutá-lo aqui, tem trovoadas e chuva.

ESTE NÃO ESTÁ A RECIBOS VERDES

Caro Van Zeller, este país, já o sabíamos, é uma anedota. Tal facto não seria desagradável caso a anedota fosse bem contada. O problema está em que este país é uma anedota mal contada. Que vivemos numa oligarquia é dado adquirido, que o nepotismo comanda as hordas do poder também não é novidade, mas a evidência com que começamos a concluir a falta de vergonha generalizada é alarmante. Não sei se é deste zepelim que paira no ar, uma coisa cinzenta com um letreiro a dizer “salve-se quem puder”, se é de um qualquer fenómeno químico desconhecido (começo a acreditar que Portugal está assente sobre placas tectónicas sulfurosas que emitem gases tóxicos contaminadores do bom senso), o que sei é que começa a ser caricato assistir impávido e sereno ao jogo de cintura das ratazanas e das toupeiras apanhadas em contramão. Desta feita, um amigo de seu amigo de seu nome Marcos Baptista. Escutemos o homem: “Devo referir que sempre estive convencido de que o meu percurso académico com oito anos de frequência universitária e elevado número de cadeiras concluídas, em mais do que um plano de estudos curriculares, correspondesse a um curso superior à luz das equivalências automáticas do Processo de Bolonha. Solicitei, por isso, hoje ao ISEG [a instituições que frequentou] a devida avaliação curricular”. Tomando de assalto o raciocínio, devo referir que sempre estive convencido de que o meu percurso académico com 4 anos de frequência universitária, mais um estágio profissionalizante e todas as cadeiras concluídas, correspondesse a um doutoramento honoris causa à luz da desvergonha nacional. Mas eu não me chamo Marcos, muito menos Baptista. Com p. Trabalho numa livraria para cima de 50 horas por semana e não sou figura muito próxima de Paulo Campos, secretário de Estado das Obras Públicas. Azarinho.